A disputa pelo Grêmio Estudantil escrita por Lorde Barão


Capítulo 6
O debate


Notas iniciais do capítulo

Bom dia rapaziada, como vão?
Sim, esse capítulo demorou demais para ser postado. Sim, a manutenção do Nyah contribuiu para o atraso, mas não posso reclamar do Seiji. Ele fez o possível e o impossível para concluir a manutenção, e como estudante de exatas sei que um programa de computador pode ter vários e vários imprevistos.
Mas agora aqui tá o mais novo capítulo dessa milagrosa fic. Yay!
Desejo a todos uma boa leitura.



Relatos de Cosme Dvoretsky

Quarta - Feira — Após uma confusão básica na escola, fui correndo para a casa de Lorenzo para averiguar a situação. Assim que Helena terminou de se limpar, ela me contou sobre uma ideia que teve. Achei genial, dei algumas sugestões e pouco depois fui embora. Ainda tinha assuntos a tratar, assuntos esses que não pretendo escrever nesse caderno.

Durante a noite, eu estava me aproximando de um beco escuro no centro da cidade. Pouquíssimos postes iluminavam o local, por isso tudo o que pude ver dela era seu vulto. Minha aliada da Centro de Ensino Professor Silveira estava prestes a me entregar um importantíssimo pen drive.

— Trouxe o pagamento? — ela perguntou.

De meu terno eu tirei um envelope e o entreguei para ela. A garota deu uma verificada e me entregou o pacote.

— Esse encontro nunca aconteceu. — Ela se escondeu nas sombras e eu não pude mais vê-la.

Diário de Lucas Monteiro

Quinta - Feira — O dia começou cedo demais para todo mundo. Na verdade, diria que ele começou na tarde de quarta, quando vi na internet uns boatos de que uma multidão raivosa cercou a casa de Helena. Pudera, foi por isso que ela permaneceu na casa de Lorenzo quando eu e Urbano fomos embora. Até considerei chegar cedo, que nem na terça, pro caso de se formar uma multidão preparada pra linchar a mais nova inimiga do povo.

Eu estava enganado. De longe eu podia ver vários alunos, do fundamental e do ensino médio, segurando placas de apoio ao Gary e desaprovação à Helena. Quando cheguei mais perto, dois garotos encrenqueiros, Danilo e Tyson, me olharam e berraram:

— Olhem, aquele é um dos fracassados que vive seguindo a vadia invejosa! Vamos descontar nossa raiva e frustração nele!

E foi refrigerante, garrafas de plástico vazias e pia de banheiro voando na minha direção. Tudo o que podia fazer era correr pelo corredor de gente furiosa que dava acesso ao portão da escola. Felizmente, os objetos mais pesados não me atingiram, mas fiquei sujo de refrigerante. Parei de correr nas proximidades da minha sala de aula, reclamando:

— Mas que coisa! Será que sou o único aqui que sofre pelas coisas que Helena faz?

— Aparentemente não — vozes muito familiares disseram.

Quando vi melhor, Urbano e Lorenzo estavam a poucos passos de distância de mim, ambos sujos de refrigerante. Ergui minhas mãos para cima e exclamei:

— Que ótimo, esse deve ser o pior dia das nossas vidas! Aliás, Lorenzo, viu Helena por aqui?

— Não faço ideia — ele respondeu. — Ontem ela tava no meu quarto, deitada numa colcha de cama que eu havia providenciado. Quando acordei, ela não tava mais lá.

— Como é? — eu gritei. — E por onde aquela diaba tá andando?

— Não se preocupem — disse Cosme, aparecendo do nada como sempre. — Por enquanto a maior preocupação de vocês é esse refrigerante que suja seus corpos. — Do terno ele tirou mudas de roupas e as entregou pra gente. — Vão pro banheiro se trocar. Preciso pensar em novas ideias para tapear Marcos.

E assim, eu e meus amigos fomos ao banheiro masculino mais próximo, nos trocamos e retornamos para a sala de aula. Não vimos Gary em canto nenhum, mas podíamos sentir uma atmosfera pesadíssima nos rodeando. As pessoas nos encaravam com olhares hostis, como se nos interrogassem por informações a respeito de Helena, que ainda não deu as caras.

Algumas poucas aulas se passaram até que, pouco antes das dez da manhã, as turmas foram liberadas para o debate. Percebi que as pessoas nos deixaram um pouco de lado; provavelmente guardaram o ódio e rancor para Helena. A monitora Barbara berrava ordens, nos indicando o caminho certo até o local do debate. Como o auditório da escola passava por reformas, a discussão entre os candidatos iria acontecer na quadra poliesportiva.

Ao chegar lá, vi tudo o que já esperava: um palco montado especialmente para a ocasião, com umas três cadeiras em uma extremidade, um microfone na outra, um projetor e uma tela de projeção no meio. Minha grande surpresa foi ver que quem havia providenciado aquilo foram os homenzarrões do dia anterior, sendo que alguns deles ainda organizavam as cadeiras de plásticos em fileiras.

— Ei — um dos homenzarrões gritava —, alguém viu as extensões?

— O Jorge já tá trazendo! — respondeu um outro cara.

— E onde tão os amplificadores?

— O Igor já tá trazendo!

Ainda demoraria um pouco para que tudo estivesse 100% pronto, dessa forma eu me preocupei em procurar Helena. Virava meu rosto para todas as direções, porém eu apenas via mais e mais alunos chegando; alguns se sentando nas cadeiras disponíveis. Urbano por fim localizou Cosme, acenando pra gente e caminhando para algum lugar qualquer. Eu o segui, Lorenzo e Urbano fizeram o mesmo, e acabamos parando na sala do tênis de mesa, localizada no lado oeste da quadra poliesportiva, entre a sala de xadrez e o dojo.

E lá estava ele, Cosme, parado ao lado de uma mesa, acompanhado por ninguém mais e ninguém menos que Helena, usando um bigode falso.

— Bom dia Cosme. Quem é esse simpático homem que o acompanha? — Claro que Lorenzo não reconheceu sua amiga de primeira.

— Meu jovem rapaz — ela disse, engrossando a voz o máximo que podia —, eu não sou um homem. — Tirou o bigode falso e fez uma pose. — Tadáaaa!

— Helena! — Lorenzo exclamou de pura alegria. — Que bom vê-la por aqui; achava que você passava por apuros.

— Ainda bem que meu disfarce me ajudou — ela comentou.

Eu ficava lá parado, tentando acreditar que alguém fosse bobo o bastante, além do Lorenzo é claro, para ser tapeado pelo bigode falso da Helena.

— Certo, certo! — Urbano falava. — Foi um reencontro muito emocionante, mas há algo que martela minha cabeça. Afinal, como vamos deter o Gary?

— Não se preocupem — disse Cosme. — Helena arquitetou uma argumentação tão genial para o debate que nem mesmo a perfeição exacerbada de Gary terá chances.

Havia algo muito de errado naquelas palavras. Helena arquitetou alguma coisa genial. Se dissessem que ela armou uma retaliação agressiva, eu até entenderia, mas não, foi algo genial, que exigiu intelecto. Não fazia a menor ideia do que estava por vir.

Por volta das dez e vinte e cinco, anunciaram que o debate estava prestes a começar. Eu, Urbano e Lorenzo saímos da sala do tênis de mesa, corremos para as cadeiras e achamos três assentos vagos na primeira fileira. Admito que estava meio nervoso, acreditava fielmente no fracasso de nossa campanha política. Ouvi uns barulhos e olhei para o palco, onde Gaston deu mais umas cutucadas no microfone e falou:

— Senhoras e senhoras, sem mais delongas eu anuncio o início do debate dos candidatos à presidência do Grêmio Estudantil.

O público aplaudiu, meio que sem muito ânimo. Mal prestei atenção nos meus companheiros, meus olhos estavam fixados nas três cadeiras vazias. O diretor continuou:

— E agora conheceremos os candidatos. Muitos de vocês já devem conhecê-lo: ele é bonito, atlético e inteligente. Um bom rapaz e um ótimo partido para as garotas. Embora tenha sofrido um terrível atentado que quase custou sua vida, esse cara foi capaz de reunir forças para comparecer a esse auditório improvisado. Senhoras e senhores, uma salva de palmas para Gary Evans Stewart Globes!

E o público delirou: teve aplausos, assobios e gritos histéricos. Por meio de uma rampa e com a ajuda de um médico, Gary compareceu ao palco. Ele estava sentado numa cadeira de rodas, e seu corpo permanecia todo enfaixado. Só dava para ver seu belo rosto. Um dos homenzarrões surgiu de repente para retirar uma das cadeiras, dando lugar ao jovem galã. Gaston fez um sinal para que o pessoal se acalmasse e prosseguiu:

— Creio que vocês também conhecem a segunda candidata. Desde sempre ela era uma encrenqueira nesse colégio, e sua reputação só piorou após agredir o pobre e inocente Gary. Senhoras e senhores, uma salva de xingamentos e ameaças para Helena Guimarães, a vadia invejosa!

E a “grande estrela da noite” apareceu, subindo o palco e fazendo um “V” de vitória com os dedos. Foi baixaria para todos os cantos: teve gente que a xingou de todos os nomes feios que conheciam, teve gente que jogava frutas podres e até pude ouvir um pessoal batucando em panelas. Acho que o único que bateu palmas foi o Lorenzo, que acabou chamando a atenção do público. Me virei, vi uns olhares bem maldosos na nossa direção e pedi para que meu amigo cessasse os aplausos. Céus, por um instante achei que seríamos linchados!

Helena se sentou na cadeira ao lado de Evans, que a encarava como se já tivesse ganhado as eleições. Gaston voltou a falar no microfone:

— E por último, mas não menos importante...

E do nada Cosme apareceu, entregou uma folha de papel ao diretor e cochichou um pouco no ouvido dele. Gaston deu uma olhada no papel e disse:

— Atenção todos, parem tudo o que estiverem fazendo nesse exato instante. Vocês estão prestes a presenciarem o ser supremo, aquele que é por natureza melhor que todos os seres vivos deste planeta. Senhoras e senhores, deem todo o aplauso que têm para o incrível e fenomenal Marcos.

HOHOHOHOHOHOHOHOHOHOHOHOHOHOHIHIHAHAHO!

Esse monte de agás acompanhados por algumas vogais que acabei de escrever nesse diário foi a icônica risada que o terceiro candidato deu naquele dia. Era um barulho quase tão incômodo quanto o grito de socorro de Gary; a galera tapava os ouvidos, tentando não escutar aquele barulho, e eu não era exceção. Marcos enfim apareceu, subiu no palco com uma confiança colossal estampada no rosto e se sentou na terceira cadeira. Gary, Helena e Marcos, exatamente nessa ordem, encontravam-se em uma das extremidades do palco, e na outra estava Gaston, de pé e com o microfone nas mãos.

— Agora que os três candidatos se encontram presentes — ele disse —, podemos começar o debate. Cada um de vocês terá o direito de fazer uma pergunta a um candidato de sua escolha, que por sua vez terá um tempo limite de um minuto para responder. Aquele que perguntar tem direito à réplica. O tema é livre.

Logo depois, Gaston deu ao Gary o direito de fazer a primeira pergunta. Notei que o senhor perfeição encarava Helena com o mais maldoso dos olhares, como se preparasse algo para acabar com ela. Todavia, ele direcionou sua atenção para Marcos e disse:

— Gostaria de fazer uma pergunta ao candidato Marcos. Você passou a semana inteira fazendo palhaçada para promover sua campanha. Colou nas paredes cartazes de mau gosto e passeou pelas ruas segurando um rádio em alto volume, que emitia vozes que mandavam as pessoas votarem em você. Mas afinal, o que pretende fazer caso ganhe essa eleição?

Preciso lembrar que, tecnicamente, nenhum dos candidatos no palco tinha competência para administrar o Grêmio Estudantil. Realmente, Marcos agiu como um completo idiota durante a semana, mas o Evans também não ficava muito longe. Ele só ficava lá, com sua aura perfeita, conquistando o coração das garotas e o respeito dos rapazes. E não vou nem falar da Helena.

— Excelente pergunta — disse Marcos. — Afinal, eu sou uma excelente pessoa, o melhor que tem por aqui. Meu, eu sou muito foda! — Ele se levantou do assento e prosseguiu: — Pessoal, vamos parar para analisar bem a situação. Eu sou incrível, o maioral, o pica das galáxias. Só de botar os pés na sala do Grêmio Estudantil eu já tornaria essa escola um zigalhão de vezes melhor. Na verdade, posso perceber que vocês estão se deliciando com a minha divina presença.

Virei o rosto para trás por alguns instantes e notei que a maioria do público cochilava, alguns bocejavam e pouquíssimos prestavam atenção. E o Marcos continuou a tagarelar até que o diretor o informou:

— Tempo esgotado.

— O que? — ele reclamou. — Mas eu nem comecei.

— Devia ter aproveitado melhor o seu tempo — informou Gaston. — Sr. Evans, alguma réplica que gostaria de fazer?

— Não será necessário. Acho que todos já puderam ver o ótimo líder que nosso amigo aqui daria. — Se Gary não estivesse todo enfaixado, com certeza ele faria um sinal de aspas com os dedos, mas seu tom de voz foi o bastante para que eu percebesse a ironia.

O mediador sugeriu que Marcos perguntasse para outro candidato, e este apontou para Helena.

— Você aê! — exclamou o escandaloso. — Se você começasse hoje sua gestão como presidenta do Grêmio, qual seria seu primeiro passo?

Pouco após Marcos sentar na cadeira, Helena respondeu. Não deu para ouvir muita coisa, pois a multidão voltou a xingá-la e a batucar nas panelas. De acordo com Lorenzo, nossa amiga falou algo sobre mudar o cardápio do refeitório. Creio eu que ela planejava empurrar uma dieta carnívora para todo mundo. Eca!

— Ei vocês, contenham-se! — ordenou Gaston. — Eu também estou com raiva dessa bastarda, mas temos que respeitar o debate.

As pessoas se aquietaram, a contragosto é claro. Era chegada a hora de minha valentona líder fazer a pergunta. Ela encarou Gary e este a encarou de volta. Por um instante eu pude visualizar dois planetas gigantescos em rota de colisão. O clima tava muito tenso, qualquer pergunta que saísse da boca de Helena já era um grande motivo para me preocupar.

— Sr. Evans — ela enfim disse —, há uma pergunta muito importante que necessito fazer. — Apontou o indicador para a cara do oponente e perguntou: — É verdade que você é um porco manipulador e que usa de sua popularidade apenas para o seu bel-prazer?

— Uuuuuuuuuuh! — vaiou a multidão. Naquela hora, meus instintos me alertavam que alguém poderia tacar uma pia no palco a qualquer instante.

— Silêncio! — o diretor berrou.

O público se aquietou de novo, e Gary respondeu:

— Não se preocupem, meus queridos fãs. Essas palavras ácidas e falsas acusações não me abalam.

Embora estivesse completamente enfaixado, a beleza máscula do adolescente ainda surtia efeito no pessoal, sobretudo nas garotas. Nosso principal adversário político prosseguiu:

— Tanto eu quanto vocês conhecemos a minha verdadeira natureza. Eu sou muito bondoso, inteligente e bonito. Sou popular, sei disso, mas jamais permitiria que a fama subisse na minha cabeça. Vocês mesmos testemunharam nesses últimos dias as minhas qualidades. Acho que não resta mais dúvidas a respeito de minha pessoa.

— É mesmo? — Helena disse, quase que gritando. — Ontem, quando você empurrou meu amigo, cê não parecia nem um pouco gente boa.

— Estão vendo isso? — clamou Evans, com o olhar direcionado para o público. — Vendo que não tem nenhum bom argumento, ela está me caluniando.

— Uuuuuuuuuuuh! — a multidão vaiou outra vez.

— Você é que está me caluniando! — vociferou Helena. — E como se não bastasse, ainda está estimulando a galera a fazer o mesmo!

— Oh não! — Gary já fazia uma expressão de coitado. — Está acontecendo de novo. Senhor mediador, não vai fazer nada para impedir essa difamadora?

— Guimarães — chamou Gaston, fitando Helena com um olhar assassino —, pare com essa palhaçada. Está desperdiçando o tempo do debate.

— É isso aê! — gritou Tyson. — Bote moral pra essa cadela!

Lorenzo passava mal ao ver sua amiga ser atacada daquela forma. Eu e Urbano começamos a sentir sono; estávamos entediados. Nem prestei muita atenção no debate, pois a cada rodada de perguntas o Marcos só falava o quanto era superior, Gary vez ou outra comentava sobre uma proposta e aproveitava para derreter os corações das garotas, e Helena expunha suas ideias idiotas e tentava provocar o galã adolescente. Óbvio que ela só conseguia queimar seu filme cada vez mais e mais.

Voltei a prestar atenção no debate quando anunciaram que era chegada a hora das palavras finais dos candidatos. Bem, pra ser franco eu não quis ouvir direito as pronunciações de Marcos e Gary. Meu interesse era na argumentação genial que Helena havia planejado. Admito que não conseguia visualizar um cenário onde ela conseguisse derrotar seu principal rival político. As batidas de meu coração aceleraram e minha testa suou.

Era chegada a hora da minha companheira falar. Antes, porém, Gaston pronunciou:

— Helena Guimarães, acredito que sabe que sua situação não é das melhores. Na verdade, quando o período de eleição terminar, você será expulsa dessa escola e transferida para o Colégio Tirânico do Czar Radomir Strogonoff.

Muitos bateram palmas após aquelas palavras terem sido ditas. Notei que Lorenzo sentiu uma forte pontada no peito, e a face de Urbano demostrava preocupação. Até eu senti um aperto no coração. Ouvi algumas histórias a respeito do colégio de Radomir; para começar, foi construído numa das partes mais frias da Rússia, feito de tal forma que se assemelhasse a uma prisão. Apenas os piores dos piores vão para o Radomir Strogonoff, onde passam o resto da vida aprendendo a sofrer no nono ciclo infernal. Nem mesmo a brutamontes da Helena aguentaria um dia lá.

Imaginava que ela estivesse preocupada, mas eu a vi tranquila como se caminhasse nas partes mais seguras do parque da cidade.

— Se mesmo assim ainda quiser pronunciar mais uma coisa, fique à vontade — prosseguiu o diretor.

A hora havia finalmente chegado. Se Helena caprichasse na argumentação, teríamos pelo menos uma gota de esperança. Teríamos uma chance de vencer a eleição.

— Obrigada diretor — Helena disse. Ela se levantou da cadeira, caminhou até o projetor e olhou para o público. — Meus caros, sei que ainda estão bravos comigo por conta do incidente de ontem, e muitos de vocês me querem morta agora mesmo. Porém, meus caros, quero que vocês prestem atenção no que vou dizer agora.

Ela ligou a máquina, e na tela de projeção apareceu o cartaz de um filme de ficção científica.

— Esse é o filme "Além da Escuridão - Star Trek".

Naquela hora, eu não podia acreditar no que ela tava fazendo. Sério que aquela era a argumentação genial que Helena arquitetou para o debate? Céus! Eu acreditei que aquele seria o nosso fim, de verdade.

— Como alguns de vocês sabem — ela continuou —, o filme começa com a tripulação da USS Enterprise tentando deter um vulcão em erupção que ameaçava destruir o planeta Nibiru. Algumas merdas aconteceram, Spock ficou preso no vulcão e o capitão Kirk se viu forçado a violar a Primeira Diretriz para salvá-lo. Os superiores da Frota Estelar souberam disso e o capitão quase que foi expulso. Mas e se eu dissesse a vocês que era possível salvar o Spock sem violar a Primeira Diretriz?

Virei minha cabeça para ver como as outras pessoas estavam reagindo. Pela primeira vez desde o incidente, ninguém estava vendo Helena com uma grande raiva no coração. Todos prestavam atenção nela, e eu nem suspeitava no que estava por vir.

— Meus caros — Helena prosseguiu —, nas cenas iniciais desse filme, há um detalhe que chamou a minha atenção e tirou o meu sono por várias noites. — E na tela de projeção surgiu a famosa nave do filme, debaixo d’água como bem me lembro. Ela apontou com as mãos para a tela e gritou: — Por que raios o capitão Kirk botou a droga da nave no mar?

E ela andou em círculos, balançando os braços e tentando controlar seu temperamento. Helena voltou para a tela e disse:

— Meu, isso tá tão errado, em tantos níveis! — A garota se aproximou um pouco do público. — Talvez vocês estejam se perguntando: “Mas Helena, por que isso tá errado?”. Simples: esse foi o grande erro do capitão Kirk.

A imagem na tela mudou mais uma vez. Agora havia um desenho meio que mal feito do cenário de Nibiru, que mostrava o vulcão, o templo, a floresta e o mar. Ela voltou a se aproximar da tela de projeção e falou:

— Como vocês se lembram, Spock já estava dentro do vulcão quando este expeliu uns projéteis de fogo, que atingiram o templo. Os nativos, que há pouco tavam perseguindo Kirk, que roubara um pergaminho sagrado, e McCoy, se afastaram do vulcão e chegaram perto do penhasco, onde tá o mar. Daí, quando a Enterprise teve que alçar voo, foi fácil para os nativos verem a nave. A grande verdade é que o capitão Kirk devia de ter mantido a Enterprise em órbita, como na série original. — Uma última vez a imagem na tela mudou, mostrando um desenho parecido com o anterior, só que com o vulcão expelindo fumaça, a nave sobrevoando o cenário e algumas linhas vermelhas indicando uma possível trajetória da Enterprise. — Agora vamos imaginar as primeiras cenas do filme, só que com a nave orbitando o planeta. Vejam como seria perfeito. Capitão Kirk roubaria o pergaminho, fugiria com McCoy e poderia até pular no mar que não haveria problema nenhum. Quando tivesse nadado para um lugar seguro, era só ele usar o comunicador e pedir pra galera da Enterprise teletrasportá-lo de volta. E não venham me dizer que a água do mar danificaria o comunicador. O filme se passa no século XXIII, não é possível que não haja um único comunicador a prova d’água na Enterprise.

“Beleza, agora vambora pro ponto crítico: Spock preso no vulcão. Como eu havia dito, ele tava dentro do vulcão quando o templo foi destruído e os nativos correram para o penhasco que dava para o mar. Ou seja, eles estavam longe do vulcão. Agora, com a Enterprise sobrevoando o planeta a vários e vários metros de altitude, fica fácil para a tripulação de Kirk salvar o companheiro sem que ninguém perceba. Basta que a nave seja manobrada de modo que fique escondida atrás da fumaça do vulcão e chegue perto o suficiente para que Spock seja teletransportado. Daí é só sair discretamente de Nibiru e pronto. O crime perfeito! Planeta salvo, Spock salvo e a Primeira Diretriz não foi violada. Agora vocês devem estar se perguntando: “O que isso tudo tem a ver com a eleição do Grêmio Estudantil?”. Nada! Meus caros, isso tudo não tem nada a ver com a eleição, e se vocês concordam com isso então vocês devem de me eleger para presidente.”

Ela desligou o projetor e retornou ao seu assento. Todo mundo permaneceu quieto, inclusive o diretor. Eu apenas podia ouvir o vento soprando e refrescando o ambiente.

— Bem — Gaston finalmente falou com o microfone —, acho que depois dessa não me resta dúvidas.

Houve uma segunda onda de silêncio. Notei que Gary sorria com a absoluta certeza da vitória. Aquela foi uma das vezes em que meu coração bateu disparado. Demorou alguns poucos segundos para que o vencedor do debate fosse anunciado, mas para mim passaram-se horas.

— Helena Guimarães é a vencedora do debate! — disse o mediador.

— O que? — berrou Gary.

— Hehe, aposto que o diretor quis anunciar o segundo lugar do debate — disse Marcos —, pois é claro que quem venceu fui eu, o ser superior de toda a escola.

O público aplaudiu, alguns até assobiavam. O clima que sentia naquele momento era o oposto daquele que pairava a escola antes do debate. Era como se o incidente da quarta nunca tivesse acontecido. O diretor até disse:

— E por ter apresentado uma argumentação tão genial, Helena não será mais expulsa desse colégio!

— Não! — Gary berrou, não tanto quanto no dia anterior, mas o suficiente para incomodar meus ouvidos. Ele se levantou da cadeira de rodas, e todas as ataduras e gessos que cobriam seu corpo se desmancharam num piscar de olhos. — Isso não é justo, ela só ficou falando bobagens!

Naquele exato segundo, os olhos de todos se esbugalharam, e alguns sacaram seus celulares para gravarem a cena.

— Ei, o Gary tá bem! — exclamou um garoto.

— Impossível! — gritou um aluno do ensino médio. — Disseram que ele tava mauzão!

— Ele mentiu pra gente! — vociferou uma menina.

— Eu sabia! — Flávia Souza apontou para Gary com grande raiva na voz. — Esses homens são tudo um monte de mentirosos!

— Calma pessoal — pediu Isabel Geisel. — Pode ser que o Gary tenha se recuperado. Vocês sabem o quão incrível ele é.

Em uma fração de segundos, o público que assistia ao debate se dividiu em dois grupos: aqueles que apoiavam Gary e aqueles que não o apoiavam. Mesmo com a confusão, eu e meus amigos nos alegramos pela vitória de Helena. Após Gary sair com a escolta de seus leais homenzarrões e Marcos ter dado o fora, nós fomos até o palco parabenizar nossa colega.

— Helena, eu sabia que você conseguiria! — disse Lorenzo enquanto a abraçava.

— Eu sabia que você conseguiria antes do Lorenzo! — disse Urbano enquanto a abraçava.

— Calma aê, vocês dois! — ela ordenou, desabraçando-os.

— Helena! — eu disse e a abracei com toda a força que tinha no corpo. — Sei que temos nossas diferenças, até duvidei de sua argumentação genial. Mas hoje você conseguiu o impossível, e estou muito orgulhoso com isso!

Primeiro eu beijei uma das bochechas de Helena, depois eu caí na real. Caramba, nem eu podia acreditar no que acabara de fazer. Eu a larguei, me afastei um pouco e comentei:

— Isso nunca aconteceu.

— Concordo — ela disse.

— Ei, eu também quero um beijo na bochecha — disse Lorenzo, apontando com os indicadores para o próprio rosto.

— Ninguém aqui vai beijar na bochecha alheia! — berrou Helena. Ela virou-se para trás e apontou para Barbara, que em silêncio se aproximava, com a boca preparada para beijar Lorenzo. — Isso vale pra você também! — nossa amiga valentona gritou.

— Não é justo! — a monitora protestou.

Eu e Urbano resolvemos nos afastar antes que as duas causassem maiores problemas. Essa definitivamente foi uma semana agitada para mim, e ainda faltava o dia da votação para encerrar. Lá no fundo eu torcia pela vitória de Helena.



Notas finais do capítulo

Bem, primeiramente devo informar que Star Trek não me pertence, e que os personagens apenas citam um dos vários filme dessa incrível franquia.
Segundamente, gostaria de falar um pouco sobre a Defesa Chewbacca. Trata-se de uma tática usada em argumentações, onde um dos argumentadores fala sobre um assunto aleatório, confundindo o(s) oponente(s) e o(s) forçando a desistir. Como sabemos, se uma pessoa desiste de uma argumentação, significa que ela perde.
Bem, pode-se dizer que Helena usou uma versão Star Trek da Defesa Chewbacca.



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