A disputa pelo Grêmio Estudantil escrita por Lorde Barão


Capítulo 5
Tomates




Diário de Lucas Monteiro

Quarta - Feira durante o intervalo — Estava eu e Urbano de boas, vagueando pelos corredores. Liberaram Helena e Marcos um pouco mais cedo para a entrevista com o Jornal da Escola. Ainda bem que não tava lá, pois não queria passar por aquele constrangimento novamente. Lorenzo tava com a gente há pouco, mas resolveu procurar pela brutamontes.

— Ei Lucas — Urbano me chamou —, como acha que foi a entrevista da Helena?

Olha só, ele ainda fez o favor de perguntar. Eu respondi de imediato:

— O que acha? Bem, tenho certeza de que ela deixou Gabi sem palavras.

— E quais os seus palpites sobre as entrevistas com os outros candidatos? — ele perguntou.

— Tá aí uma questão mais interessante — comentei. — Provavelmente o Marcos tá falando do quanto é perfeito e superior aos demais, o que obviamente é mentira. O Gary, acho eu, hipnotizaria a Gabi outra vez com sua beleza máscula, e o Adriano ficaria depressivo de novo.

No exato instante em que passávamos nas proximidades da porta da biblioteca, ouvimos um grito de socorro que repercutiu pelos quatro cantos da escola. Depois, veio um verdadeiro alvoroço: alunos do fundamental e do ensino médio corriam pra cá e pra lá, procurando saber o que havia ocorrido. Não demorou muito para que surgissem os professores e o próprio diretor. Até Barbara apareceu do nada, gritando ordens para estabelecer a paz.

Houve um outro grito de socorro, e Isabel Geisel foi a primeira a reconhecer aquela voz.

— É o Gary! — ela exclamou. — Ele está em perigo.

— Não, o Gary não — gritaram em coro as outras garotas que lá estavam.

Eu e Urbano corremos com a multidão, seguindo a voz e indo em direção ao pátio que ficava nos fundos, no lado de fora da escola, entre o campo de futebol aberto e a quadra poliesportiva. Chegamos a um ponto onde não dava mais para avançar, pois havia gente em excesso na nossa frente. Felizmente, Barbara veio com um cassetete nas mãos, mandando o pessoal liberar passagem. Nós a seguimos e percebemos que, à medida que avançávamos, sentíamos a atmosfera ficar cada vez mais pesada, quase como se todo mundo estivesse tomado pelo medo e pavor.

Conseguimos passar pela multidão e colocamos nossos pés no pátio. Uma vez lá, encontramos Helena, mais ou menos confusa com a situação, e na frente dela estava Gary Evans, caído no chão e aparentando estar muito machucado. Também vimos Lorenzo, relativamente distante dos dois e cobrindo o cotovelo esquerdo. Barbara correu até o garoto e averiguou a situação: ele estava ferido.

— Lorenzo, o que aconteceu com você? — questionou a monitora.

— Foi terrível! — ele disse. — Pouco após o sinal do intervalo, fui procurar Helena. Eu a achei aqui no pátio e conversamos sobre a entrevista. Pouco depois veio o Gary, tentando abordá-la com juras de amor verdadeiro. Ela sugeriu que eu o ignorasse e nós tentamos nos afastar do sujeito, mas foi pouco efetivo. De modo inadvertido, Gary me empurrou e disse: “Com licença lindeza, mas acho que esse pivete estava te incomodando.” Caí no chão, ralei o cotovelo e Helena percebeu, e isso a deixou possessa. “Vou te mostrar a minha lindeza!”, ela berrou e socou o cara na barriga. Agora ele está aí, sentindo dores e clamando por ajuda.

Assim que meu amigo terminou de relatar seu ponto de vista, dei uma melhor olhada na multidão. Percebi que a escola começava a ter empatia com Gary, e algumas garotas cochichavam e apontavam para Helena. Me aproximei um pouco de Urbano e comentei bem baixinho:

— Vish! Agora lascou!

O galã adolescente deu então o supremo grito de socorro, que ecoou por toda a cidade e além:

— Paaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeê!

Foi o barulho mais irritante que tive o desprazer de ouvir; até achei que meus ouvidos fossem explodir. Mas minha audição não foi afetada, ainda bem, e dessa forma pude ouvir o soar das hélices de um helicóptero. Assim como aqueles que estavam presentes, eu ergui meu rosto para confirmar as suspeitas: havia um helicóptero grande e preto sobrevoando nossa escola e aterrissando no campo de futebol. Dele saiu uma equipe de paramédicos e outra de homenzarrões usando ternos e óculos escuros.

Aquela gente correu até o senhor popularidade, que permanecia se queixando de dor. Percebi que um desses homens de terno carregava uma pequena televisão de tela plana, que mostrava a imagem de um cara elegantíssimo, com uma barba grisalha que metia respeito nos desbarbados. O cara na tela deu uma olhada em Gary e, tomado pelo espanto, exclamou:

— Filho! Mas o que foi que aconteceu?

— Senhor — disse um dos homenzarrões, que analisava a situação do adolescente —, seu filho quebrou todos os ossos do corpo.

O homem na tela gelou, e ele não foi o único. Quase todos os alunos, os professores e o próprio Gaston se paralisaram. Sem perder um segundo sequer, os paramédicos botaram Gary numa maca e correram para o helicóptero. E Helena apenas ficava lá, olhando para a confusão sem entender nadica de nada, sem nem pensar nas coisas terríveis que poderiam acontecer.

— Mas alguém pode me explicar que bosta tá acontecendo? — ela questionou.

Sério, eu pude sentir uma energia colérica envolvendo a multidão, um ódio sem igual. Barbara, prevendo a confusão que tava por vir, tirou eu e meus amigos da linha de tiro. Agora era o mundo contra Helena Guimarães, que continuava a perguntar.

— Cale-se, sua energúmena! — vociferou o homem na tela da televisão. — Como ousa machucar meu querido e inocente filho?

— Inocente?! — gritou Helena. — E cê viu o que a porcaria do seu filho tentou fazer comigo? Caralho, eu nem quero nada com um sujeito desses…

— Cale-se, sua vagabunda! — vociferou Isabel Geisel. — Como ousa chamar o Gary de porcaria? Você é só uma moleca maltrapilha, e devia de agradecer por ser cantada por um cara tão gentil e bonito quanto o Gary Evans.

— É! — concordou a presidenta do fã clube do Evans para garotas do fundamental. — Ele me cantou outro dia na saída da escola, e não soltei nem um pingo de reclamação.

— É! — concordou Júlia Jankovic. — Outro dia o Gary foi tão generoso comigo que eu desisti do xadrez e do meu grupo de informática por ele, e não me arrependo nem um pouco.

— É! — uma aluna aleatória do ensino médio concordou. — Gary me ama tanto que ele bate em mim durante nossos encontros e me obriga a fazer coisas que considero degradantes para minha pessoa. Ele é um anjo, e isso é um fato!

— Pessoal, acalmem-se! — ordenou Gaston, estendendo as mãos para a multidão. — Sei bem o que querem, mas não podemos fazer justiça com as próprias mãos sem mais nem menos.

Primeiro veio o silêncio, seguido da esperança de que nada de ruim acontecesse para Helena. Depois, veio o barulho de um carrinho de mão sendo empurrado. E de fato, após uma parcela do pessoal abrir caminho, surgiu um dos zeladores da escola com um carrinho de mão lotado de tomates. O diretor voltou a atenção para a multidão e disse:

— Agora vocês podem fazer justiça com as próprias mãos.

E a galera pulou para o carrinho e começou a jogar tomates em Helena, que ainda tava lá que nem uma tonta (sério, às vezes ela consegue ser muito burra e a detesto por isso). Não demorou muito para ela ficar coberta pelo fruto vermelho; pudera, estavam participando do linchamento os alunos, os professores e os homenzarrões de terno escuro. E acho que o pai de Gary teria participado se estivesse pessoalmente no pátio da escola.

Eu, meus amigos e Barbara ficamos observando a uma distância segura. Me questionava da quantidade de tomates que havia naquele carrinho. Sério, quase cinco minutos se passaram e aquele alvoroço não acabava. Urbano também olhava, com uns olhos vidrados como se testemunhasse uma execução brutal, e Lorenzo não conseguia conter os rios de lágrimas. Ele virou-se para monitora e implorou:

— Barbara, por favor, você tem que salvar Helena!

— Tá maluco? — ela disse. — Se eu intervir a favor dela, vão pensar que estou contra o Gary Evans. Quer que eu tenha o mesmo destino de Ivan?

Lorenzo virou o rosto e olhou sua preciosa amiga ser consumida cada vez mais pela pilha de tomates. Nas palavras de Urbano, ela se tornaria em um grande tomate se aquilo não acabasse logo. E eu continuei a perguntar sobre a quantidade de frutas que havia no carrinho. Tentando engolir o choro, Lorenzo encarou Barbara novamente e argumentou:

— Você é a paladina da justiça, e eu sei disso porque foi você mesma que disse isso. Todo dia você gritava pra gente que não podíamos contrariá-la, porque você era a justiça. Pois bem, “era” é o termo certo. Minha amiga está lá, sendo encobertada pela fúria de um povo que se esqueceu do julgamento justo, e você está simplesmente vendo tudo de camarote.

E enquanto falava, ele ficava gesticulando com as mãos, e as vezes usava os braços. Por um instante achei que Lorenzo fosse atacar Barbara. Creio que Urbano pensou na mesma coisa, pois ele afastou o garoto da monitora, que aparentava estar pasma por aquelas palavras.

— Agora Helena vai virar num gigantesco tomate vermelho — disse Lorenzo. Ele caiu de joelhos e voltou a derramar oceanos de lágrimas. — Não há nada que possamos fazer?

Creio que aquilo foi demais para Barbara; até eu fiquei comovido com a cena. E daí se há pouco escrevi que ela era burra e a detestava por isso? Apesar dos pesares, ela era minha amiga e eu gostava dela. Claro que eu meio que odeio o comportamento dela, mas isso não me impede de ter um certo afeto por ela, certo? Certo!

Bem, a monitora não podia ajudar Helena, pois corria o risco do pessoal achar que ela tava contra o Gary, mas também não podia ver Lorenzo sofrendo tanto. Para a nossa sorte, Barbara teve uma ideia.

— Pessoal! — gritou o mais alto que podia. Não algo tão incomodante quanto o pedido de socorro de Evans, mas foi o suficiente para chamar a atenção da galera. — Tão distribuindo sorvete de graça na saída da escola!

Primeiro, houve um grande silêncio. Segundo, o homem na tela de televisão gritou:

— O último que chegar é ovo podre.

E o homenzarrão que carregava a televisão correu, atropelando todos os que atrapalhavam seu caminho. Poucos segundos foram necessários para que o restante da multidão saísse do pátio, em direção à saída principal da escola. Instantes depois, Barbara nos ordenou:

— Rápido! Peguem Helena e sigam-me pela saída lateral do pátio!

Eu e meus dois amigos fomos e resgatamos Helena daquele monte de tomate. Sério, ela mais parecia um tomate humanoide do que qualquer outra coisa. Nós a carregamos; Lorenzo segurou os pés enquanto que eu e Urbano nos encarregamos dos braços. Seguimos Barbara, que conhecia um caminho longo e seguro para longe do colégio. Algum tempo se passou até chegarmos na casa do Lorenzo.

Um pouco mais tarde naquele mesmo dia — Helena teve que passar por um banho completo para se limpar. Outra vez Cosme surgiu como uma sombra, trazendo uma muda de roupas para nossa valentona líder.

— Soube das novidades — ele conversou comigo. — E embora esteja desapontado por terem desobedecido minhas recomendações, até que foi divertido assistir àquele caos todo.

Eu já disse que esse cara me dá arrepios? Mas voltando ao que interessa, fui para a sala de estar, mas antes vi Lorenzo abraçando Barbara como forma de agradecimento. Como não era de se espantar, primeiro o rosto da monitora corou, depois ela recuperou a discrição, disse algumas palavras para demostrar humildade, algo sobre “fiz apenas o meu trabalho”, e enfim foi embora.

Por algum tempo fiquei sentado no sofá, com Urbano ao meu lado, vendo um pouco de televisão. Passava “Patrulha Ecológica”, meu programa favorito, quando do nada surgiu um boletim de urgência. Com grande certeza eu previ o assunto daquela notícia: Gary.

Na tela da televisão, surgiu um repórter falando as seguintes palavras:

— E na manhã dessa quarta ocorreu um gravíssimo atentado. O famoso estudante da Centro de Ensino Professor Freitas e o escolhido da profecia antiga, Gary Evans Stewart Globes, foi seriamente ferido. Testemunhas alegam que a responsável por esse crime hediondo foi Helena Guimarães, uma vadia invejosa maltrapilha que não valoriza os sentimentos de Gary Evans. Nosso repórter correspondente, Jairo Leite, está na casa dos Globes para mais informações.

E a tela mostrou Jairo, dentro de um quarto que aparentava ser maior que o apartamento de meus pais, ao lado de uma guitarra banhada a ouro e de uma estante lotada de livros e bonecos raros. Ele disse:

— Eu estou aqui na humilde residência de Gary Evans, onde ele se recupera. De acordo com os médicos, ele quebrou todos os ossos do corpo e necessita de muito repouso. Vou agora falar um pouco com ele.

Jairo caminhou e a câmera o acompanhou. Foi possível ver as outras coisas legais que havia no quarto do popular adolescente: um Playstation 4.5, um Xbox googol, vários quadrinhos raros jogados no chão, um baú do tesouro e uma GMC preta, daquelas bem grandonas. E finalmente, eu e Urbano vimos Gary, todo enfaixado e deitado em uma grande cama redonda, com alguns médicos por perto. O repórter se aproximou mais um pouco do galã e disse:

— Sr. Gary, primeiramente eu gostaria de dizer que me sinto honrado em entrevistá-lo.

— Tudo bem — respondeu Evans.

— Mas eu não compreendo isso — admitiu Jairo. — Você é tão legal; é bonito, atlético, gente boa. Por que uma garota simplesmente o agrediria dessa forma?

— Sabe — o entrevistado respondeu —, também foi difícil para mim compreender os motivos que levariam uma menina a se voltar contra mim. Eu só sou um cara humilde, bondoso e romântico, que só quer o melhor para as pessoas. Mas a verdade pode ser bem cruel de vez em quando, e a verdade é que tem muita gente com a alma infectada pelo demônio da inveja. Sim, é tão lógico: desde que vi Helena eu já sabia que ela era uma delinquente, uma rebelde sem causa. Não foi a primeira vez que conheci uma garota desse tipo, e posso afirmar que uma rebelde como ela: ou é amansada com o tempo graças ao meu charme encantador ou nutre um desgosto doentio pela minha felicidade. Realmente, não se pode agradar gregos e troianos. Sabendo que não posso conquistar seu coração gélido, não desejo nenhum mal a Helena, mas se vocês quiserem tirar satisfações com ela fiquem à vontade.

Após Gary proferir aquelas palavras, a única coisa que podia ver na tela da televisão foi um controle remoto fincado. Eu e Urbano nos espantamos com aquilo; virávamos nossas cabeças tentando achar uma explicação plausível para aquilo. E por fim encontramos: Helena havia jogado o controle na tela, com uma raiva monstra. Ela vestia a muda de roupa providenciada por Cosme e seus cabelos eram cobertos por uma toalha. Como previsto, seu rosto não demostrava sinais de alegria.

Cosme e Lorenzo apareceram logo em seguida. Os dois tentavam acalmar a garota, que vociferava:

— Aquele maldito do Gary passou dos limites! Eu vou matá-lo assim que tudo isso acabar.

Urbano não deixou de opinar:

— Caras, depois dessa já acabou pra gente. Nossa Helena aqui virou na mais nova terrorista e, como muitos da escola sabem que andamos com ela praticamente o tempo todo, o pessoal nos odeia. Olha, depois dessa a gente vai ter que se mudar pra Nova Zelândia, começar uma vida nova com novos nomes. Se puder, fazemos uma vaquinha pra brutamontes aqui fazer uma cirurgia plástica pra garantir nosso plano. Vamos todos morar numa bela casa, em um vilarejo tranquilo e bucólico habitado por um povo alegre e simpático, que gosta de cantar, dançar e comer.

Os olhos de meu amigo de longa data já brilhavam, acreditando que Helena levaria a sugestão dele a sério. Pois bem, ela deu um peteleco na testa dele.

— Ninguém aqui vai fugir! Mais do que nunca precisamos agir.

— E você já não agiu mais do que deveria? — eu a critiquei. — Melhor jogar logo essa toalha: Gary já se tornou no novo líder do Grêmio Estudantil.

— Lucas, você precisa ser um pouco mais positivo — sugeriu Lorenzo, como se tivesse esquecido da chuvarada de tomates. — O show só acaba depois de cantarem a última canção.

— Exatamente! — exclamou Helena, aparentando estar um pouco mais calma. — E enquanto eu tava no banho, minha cabeça arquitetou um contra-ataque.

— Como assim? — questionei.

— Sabemos — Cosme explicou — que amanhã será o dia do debate. Vai ser por volta das dez da manhã, na quadra poliesportiva. Nossa candidata aqui garantiu que vai ser no debate a nossa vez de brilharmos.

— Certo — eu disse —, e o que exatamente cês tão planejando?

— Ultra-secreto, e isso é tudo o que posso dizer — foi o que Helena respondeu, e ficou por isso mesmo.

Após essa pequena reunião, Cosme desapareceu outra vez, sem deixar nenhum rastro. Eu e meus amigos passamos o resto do dia levantando palpites sobre o plano de Helena.



Notas finais do capítulo

Qual será o contra-ataque de Helena?



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