A disputa pelo Grêmio Estudantil escrita por Lorde Barão


Capítulo 3
Dialogando com a monitora


Notas iniciais do capítulo

Demorou um pouco, mas finalmente o terceiro capítulo está disponível.
Espero que se divirtam.



Bilhete de Helena Guimarães para Cosme Dvoretsky

(passado pelas mãos de Alex Taylor e Yakira Tanaka durante a aula de geografia)

Caro Cosme,

Como você bem sabe, começa nessa segunda a semana eleitoral para Presidente do Grêmio Estudantil, e envio esse bilhete para te fazer um convite. Na verdade, é mais uma proposta de aliança. Sei que vez ou outra nos desentendemos, mas isso pode ser divertido. Se eu ganhar, você pode ser meu braço direito, alguém que está acima do vice-presidente e que possui tantos poderes quanto o próprio presidente, e ganhará vários privilégios.

Se tiver interesse, me envie uma mensagem de volta. Caso contrário, desconsidere essa mensagem.

Helena

Bilhete de Cosme Dvoretsky para Helena Guimarães

(passado pelas mãos de Yakira Tanaka e Alex Taylor durante a aula de geografia)

Cara Helena,

Achei sua proposta interessantíssima e decidi auxiliá-la. Há pouco ouvi umas conversas paralelas e descobri que há um colega nessa sala que pretende se candidatar também. Assim que bater o sinal do intervalo, eu irei interceptá-lo. Também me manterei informado sobre possíveis adversários de outras turmas.

Cosme

Bilhete de Cosme Dvoretsky para Yakira Tanaka

(passado diretamente de remetente a destinatário durante a aula de geografia)

Cara Kira,

Me envolvi em mais um dos meus serviços e creio que precisarei de sua ajuda. Conheço suas habilidades de espionagem, e sei que você é a melhor pessoa para sair daqui e verificar as outras salas de aula sem que ninguém perceba.

Se estiver interessada, me envie uma mensagem de volta.

Cosme

Bilhete de Yakira Tanaka para Cosme Dvoretsky

(passado diretamente de remetente a destinatário durante a aula de geografia)

Caro Cosme,

Você me conhece melhor do que muitos e sabe que não gosto de trabalhar de graça. Se quiser que eu saia desse assento onde me acomodo, vai ter que pagar. E aviso logo que vai sair caro!

Kira

Bilhete de Cosme Dvoretsky para Yakira Tanaka

(passado diretamente de remetente a destinatário durante a aula de geografia)

Cara Kira,

Você me conhece melhor do que muitos e sabe que sempre honro com meus débitos. Até a véspera do dia da votação, será recompensada, pode ter certeza. Por ora, necessito que fiscalize as outras salas de aula e descubra se há outros alunos que pretendem se candidatar ao cargo de Presidente do Grêmio Estudantil.

Sei que irá colaborar comigo, por isso aguardarei seu relatório.

Cosme

Bilhete de Yakira Tanaka para Cosme Dvoretsky

(passado diretamente de remetente a destinatário durante a aula de geografia)

Caro Cosme,

Fiz o que você pediu. Providenciei um jutso de clonagem e saí daqui furtivamente. Meu, tava um alvoroço no corredor; várias garotas gritando histericamente e havia alguns garotos também. Pouco depois, confirmei minha suspeita: Gary Evans Stewart Globes tá estudando nessa escola agora. Eu não sei se você já ouviu falar dele mas eu já li muitos blogs a respeito do rapaz, e ainda hoje, enquanto o seguia até o vestuário da quadra, pude confirmar uma coisa: ele é gostoso pra caramba!!

Cara, nunca pensei que me entreteria tanto espiando o vestuário masculino. Sabe aquele cara daquele mangá que tô acompanhando recentemente? O Gary é igualzinho, só que um milhão de vezes melhor. Na realidade, ele é mais parecido com um daqueles personagens que costumava criar para minhas primeiras fanfictions. E, minha nossa aquele corpão dos deuses!!

Tá legal, eu queria muito ter descoberto outras coisas a respeito desse Gary, mas, tipo assim…

Aquele popô!!!

Sinto muito, tive ideias para novas histórias e preciso desenvolvê-las imediatamente. Te contacto quando estiver disposta novamente.

Kira

Relatos de Cosme Dvoretsky

Segunda - Feira — Como eu esperava, fui contratado para auxiliar Helena em sua campanha eleitoral. Pois é, mais uma vez chegou a época em que os estudantes do Centro de Ensino Professor Freitas escolhem um novo representante para o Grêmio Estudantil. Tão logo me ofereci para ajudá-la, contatei minha amiga Yakira Tanaka para descobrir informações a respeito de possíveis candidatos de outras turmas. Quando a aula de geografia se aproximava do fim, ela me enviou um bilhete a respeito de Gary Evans Stewart Globes. Infelizmente, não serviu de muita ajuda.

Alguns minutos após o sinal do intervalo, Marcos se levantou de sua carteira, encarou os alunos que ainda permaneciam em sala de aula e anunciou:

— Atenção, pessoas da plebe, tenho novidades para contar! Eu, o ser supremo dessa escola aqui, vou pra sala do jornal escolar para me candidatar à presidência do Grêmio Estudantil. Isso basicamente significa dizer que vou me tornar no Presidente do Grêmio Estudantil, porque sei que todo mundo aqui vai votar em mim, né não?!

Eu vi, naquele exato instante, a hora de agir. Me aproximei dele, como se caminhasse ao acaso, e disse:

— Com licença, disse que vai se candidatar?

— Sim — Marcos respondeu. — Vou me tornar no melhor presidente que o Grêmio Estudantil já viu. Vou arrasar!!

— Fascinante — eu disse. — Se importaria se eu o ajudasse?

— Hmmm… — Ele pensou um pouco. — Não sei. Eu já sou tão incrível e superior aos demais, nem vejo razão para buscar ajuda.

— Oh, que pena! — eu lamentei. — É que eu te observo por um bom tempo, e a cada dia a sua soberania se confirma cada vez mais para a minha pessoa. Oh, se eu pudesse servir a um ser divino como você, seria tão gratificante.

— Ai, para! — Ele se afastou um pouco, ergueu os braços e jogou as mãos estendidas na minha direção. — Eu sei que sou super demais, o gostosão daqui! — E ficou apontando para si mesmo. — Em resumo: sou o cara!

— Sim, sim — eu falei. — Mas então…

— Quer saber? Por mim tudo bem! — ele concluiu. — Como você reconhece a minha superioridade superior, vou permitir que me ajude.

— Ótimo! — eu exclamei. — Me passe o número de seu telefone e o e-mail que manteremos contato.

E Marcos fez exatamente o que sugeri. Foi correndo para a sala do Jornal da Escola enquanto eu pensava nos meus próximos passos.

E-mail de Cosme Dvoretsky para Marcos

(enviado segunda-feira, por volta das seis e meia da noite)

Caro Marcos,

Estava pensando sobre as eleições, e conclui que seria de suma importância propagandear sua campanha. Felizmente, eu providenciei com máxima antecedência uns panfletos como mostra o arquivo em anexo.

Talvez você pense: “Mas isso sou eu maltratando foquinhas bonitinhas no Ártico! Como isso vai melhorar minha imagem?”.

Mas acontece que essas coisas bonitinhas não são focas. São demônios malvados que querem destruir a humanidade. E esse cara na imagem é você, Marcos, impedindo esses bastardos e salvando o dia.

Sejamos francos: todos amam heróis, e votariam em um se este concorresse em uma disputa eleitoral.

De qualquer forma, aguardarei sua resposta.

Cosme

E-mail de Marcos para Cosme Dvoretsky

(enviado segunda-feira, por volta das seis e cinquenta e cinco da noite)

Cosme,

Cara, tenho que confessar uma coisa…

ESSA FOI A MELHOR IDEIA QUE TU JÁ TEVE!!!! (o( )o) (o( )o) (o( )o) (o( )o) (o( )o)

E eu achando que não precisava formar aliança. Essa eleição tá no papo! Nem preciso mexer um músculo, o que é bom pois preciso preparar minha beleza suprema para o grande dia.

~~Marcos~~

Diário de Lucas Monteiro

Terça - Feira — Devia ser umas seis da manhã quando botei meus pés nas proximidades da entrada do Centro de Ensino Professor Freitas. Cambaleava um pouco ao mesmo tempo que carregava uma pilha de panfletos. Acho que dormi um pouco enquanto permanecia de pé. Por volta das seis e meia, vi o porteiro abrindo os portões da escola, e pouco depois avistei Helena e Urbano chegando com mais panfletos.

— Não acha que chegamos um pouco tarde? — Urbano perguntou. — Lucas já está aqui.

— Relaxa! — disse Helena, de um jeito despreocupado que só ela sabia expressar. — O careca chegou cedo demais. Esse porteiro nunca abre essa merda antes das seis e meia, além disso não vi sinal de vida da monichata. O problema é o Lorenzo, que tá atrasado.

E nós três fomos os primeiros alunos do dia a entrar no colégio. Admito que foi um tanto agradável contemplar um ambiente tão familiar vazio, quase ausente de gente. Passamos aproximados dez minutos colando alguns panfletos nas paredes até que ouvimos uma voz conhecida.

— Ei pessoal, eu cheguei! — a voz de Lorenzo anunciou.

O estresse de Helena subiu repentinamente a níveis alarmantes. Largou os panfletos e virou-se para dar uma bronca no garoto.

— Até que enfim! — ela berrava. — Achei que não fosse chegar nunca! Porra, a chata da Barbara deve chegar a qualquer momen…

Ela não conseguiu concluir a bronca. Ficou boquiaberta e esbugalhou os olhos. Dirigi meu olhar para Lorenzo e notei que ele já vestia a roupa de marinheiro dada por Cosme. Não era muito diferente da fantasia que usávamos em nossas brincadeiras, mas havia um peculiar detalhe que chamou minha atenção: o short. Sim, Lorenzo usava uma bermuda muito curta que valorizava suas pernas. E ele agia como sempre: sorridente e energético. Como uma criança de pouco mais de seis anos, ele batia continência e botava a língua para fora. E foi só quando olhei para o rosto dele que percebi o quépi branco em cima da cabeça.

— Cabo Lorenzo se apresentando para o serviço! — disse o jovem.

Acredito que uma pequena parte de mim se deixou ser hipnotizada pela cena, mas consegui virar o meu rosto para ver Helena, que continuava a encarar o amigo. Eu a analisei cuidadosamente e perguntei:

— Seu rosto está corado?

Ela de repente me empurrou de leve e caminhou até alcançar Urbano, que continuava com o trabalho. Chutou-o e ordenou:

— Vamo colar os panfletos em outro lugar! Lucas vai supervisionar Lorenzo.

Após reclamar um pouco, Urbano juntou os folhetos e, acompanhando Helena, partiu para algum outro local aleatório da escola. Eu permaneci nas proximidades do portão com Lorenzo, que mexia as sobrancelhas e perguntava:

— Lucas, sou eu ou Helena tá meio esquisita hoje?

— Acho que todos nós estamos — eu disse. — Agora vambora lá pra fora.

E nós fomos. Assim que passamos pela porta e saímos, vimos que alguns carros estavam indo para o estacionamento nos fundos, provavelmente eram uns professores mais o diretor Gaston. Logo em seguida, uma van policial parou a alguns poucos metros de distância de onde estávamos. Sabíamos que aquele veículo pertencia à mãe de Barbara, uma dedicada policial que combate o crime com punhos de ferro (lendas dizem que os punhos dela são literalmente feitos de ferro). Da van, a monitora desembarcou trajando seu típico uniforme, parecidíssimo com uma farda policial. Ela conversou um pouco com a mãe, e aproveitei esse momento para conversar com Lorenzo.

— Tá certo, eis o que faremos! — Virei-me para trás e vi uns cestos de lixo reciclável. Apontei para eles e prossegui: — Vou me esconder lá atrás enquanto você conversa com Barbara, mas não fique muito longe do meu esconderijo. Vou cochichar umas falas pra você usar durante a conversa. Temos que conduzir tudo de tal forma que ela desembuche as informações de que precisamos.

Quando voltei minha atenção para Barbara, ela caminhava para a entrada da escola e a van já havia partido momentos antes. Lorenzo se posicionou e eu me escondi atrás das lixeiras. Vez ou outra eu dava uma espiada com meus próprios olhos, e em uma dessas vezes eu vi meu amigo acenando a mão para a monitora e dizendo:

— Bom dia Barbara!

— Lorenzo! — ela exclamou com uma intensa alegria na voz. — Chegou cedo hoje.

Deixei de espiar, mas pude imaginar mais ou menos a cena: Barbara tava lá, apaixonada e tentando disfarçar, mas falhando miseravelmente; Lorenzo tava na frente dela, bobo e sorridente como se estivesse diante de qualquer pessoa. A princípio ouvi Lorenzo conduzir a conversa de forma fluente, e no final ele elogiou o uniforme da monitora, que respondeu:

— Oh, agradeço pelos elogios. Não deixei de notar que você está de uniforme assim como eu. Tem até esse quépi na sua cabeça. E você está de shorts…

Houve um curioso silêncio que me forçou a dar outra espiada. E creio eu que compreendi a razão do Cosme sugerir que Lorenzo vestisse aquele uniforme de marinheiro. A monitora estava absorta, encarando meu amigo com olhos vidrados, bochechas avermelhadas e boca expelindo rios de saliva. Só eu acho errado uma adolescente de quinze anos se interessar por alguém como o Lorenzo, ainda mais nessas circunstâncias?

— Ei, Lorenzo! — cochichei, dando a ele um lembrete. — Tente falar sobre o Gary.

E, antes que voltasse a me esconder, o vi estalando os dedos algumas vezes e comentando:

— Sabe, ouvi dizer que tem um novo aluno nessa escola e o nome dele é Gary. Não acha que é maravilhoso esses momentos mágicos, onde podemos conhecer novos amigos?

Escutei Barbara tossindo algumas vezes e logo em seguida responder:

— Ah, sim. Sabe, eu gostaria muito de concordar contigo, mas não posso.

— Ué? Por que? — a voz de Lorenzo questionou.

— Olha, não me leve a mal, mas tenho boas razões para você não fazer amizades com esse Gary. Eu não devia de contar isso para qualquer um, mas já que você tem essas pernas fantásticas…

— Desculpe-me, não ouvi direito. Pode repetir?

— Mas já que você está vestido de uma forma tão adorável — ela corrigiu —, eu vou falar. Boa parte do que sei a respeito de Gary Evans Stewart Globes provêm da ficha escolar dele e de informações de monitores de outras escolas, então gostaria que mantivesse essa conversa em segredo.

Houve um outro silêncio, uma pausa para que Barbara se lembrasse das informações que sabia (pelo menos foi o que deduzi). Ela prosseguiu:

— Ele nasceu de uma família muito rica. Desde que era um bebezinho, Evans já conquistou sua primeira taça no torneio interclasses da região. Com apenas cinco anos de idade ele descobriu que tinha um dom único e que era o Escolhido de uma antiga profecia. Com o passar do tempo, Gary, ao passo que mudava de escola, aperfeiçoou suas habilidades, que já eram perfeitas, e se tornou no astro de todos os esportes, no aluno mais exemplar de todos os colégios que estudou e ainda tem tempo para salvar o mundo. Atualmente ele tem vários amigos nas redes sociais e um monte de namoradas.

— Mas Barbara — disse Lorenzo —, ninguém é perfeito. Esse Gary tem um defeito, não tem?

— Sim — ela respondeu —, ele tem. E é essa a parte que me preocupa. O grande defeito de Evans é que, vez ou outra, ele age como um verdadeiro babaca. Sim, um babaca de primeira categoria. Não eram raras as vezes em que ele botava um bilhete de “Me chute!” nas costas de um cdf, ou mesmo maltratava uma de suas namoradas.

— Mas isso é horrível! — exclamou Lorenzo. — Porém, isso torna as coisas meio confusas. Ontem acompanhei Helena até o escritório do jornal escolar para que ela se candidatasse a Presidente do Grêmio Estudantil, e pelos corredores topamos com o Gary Evans em pessoa. As alunas do ensino médio o rodeavam e diziam que o amavam. Elas sabem do defeito dele?

— Se for esse o caso, elas não poderiam fazer nada. Com relação ao Gary só há duas alternativas: ou você gosta dele ou é inimigo dele e inimigo de todo mundo. Seus pais dão a ele tudo o que deseja, nenhum professor ousa botá-lo de castigo e um único monitor o colocou na detenção. O nome desse monitor era Ivan Pedrosa, um dos melhores que eu já ouvi falar.

Houve uma terceira pausa, e deduzi que Barbara se recordava de uma grande tragédia (até que foi divertido imaginar as cenas enquanto me escondia). Ela voltou a falar:

— Depois que Ivan castigou Gary, sua vida mudou por completo. Seus amigos o trataram com desprezo, sua namorada o abandonou e deu uns amassos em Evans na frente dele, e os professores sabotaram seu boletim escolar. Claro que Ivan também perdeu o cargo de monitor. Lorenzo, sabe quantas regras aquele Gary infringiu ontem, na minha frente? Mal dá para contar nos dedos. Eu ficava lá olhando, com uma enorme vontade de puní-lo como a justiceira que sou, mas eu não podia fazer nada. Todos devem de gostar do Gary, independente do que ele faça.

Dei mais uma espiada, e vi Barbara pousando as mãos nos ombros de Lorenzo. Os dois quase que encostavam a testa.

— Lorenzo — ela disse —, por favor, não se meta no caminho de Gary Evans Stewart Globes. Eu me preocupo muito contigo e não gostaria que sofresse nas mãos dele.

E permaneceram assim por um tempo. Acredito que Barbara estava mais uma vez admirando as pernas maravilhosas de meu amigo, uma vez que suas bochechas se avermelharam mais uma vez. Lorenzo estalou os dedos três vezes, libertando-a do transe.

— Desculpe, tenho que ir — ela disse enquanto se afastava do jovem com roupa de marinheiro e andava até o portão. — Nos vemos por aí.

E após quase esbarrar em uma parede, ela saiu de cena. Uma quantidade maior de carros se aproximava da escola, e alguns deles transportavam alunos. Aproximei-me de Lorenzo, que olhou para mim e perguntou:

— Sou eu ou a Barbara tá meio esquisita hoje? Será que ela tá doente? Será que Helena tá com a mesma doença?

— Lorenzo — eu disse —, vamos ver como os outros estão se saindo.

E entramos outra vez no colégio. Ainda tínhamos um tempinho antes da primeira aula do dia começar, por isso caminhamos pelos corredores a procura de nossos colegas. Encontramos Cosme no meio do caminho; estava colando nas paredes uns pôsteres com uma imagem de Marcos no Ártico, pisando em uma foca pequena e branca. Na parte de cima do pôster estava escrito:

VOTE EM MARCOS PARA PRESIDENTE DO GRÊMIO ESTUDANTIL

Cosme notou nossa presença e disse:

— Bom dia. Vejo que já conversaram com a monitora. Já eu convenci ao Marcos que seria uma boa ideia se eu colocasse nas paredes esses cartazes aqui.

— E como fez isso? — inquiri.

— Fácil! — ele respondeu. — Eu falei que essas focas fofinhas eram na verdade demônios disfarçados, e Marcos acreditou na hora. Sejamos francos: ninguém jamais votaria em alguém que maltrata focas pequenas e bonitinhas. Agora devo de me concentrar no trabalho, nos comunicaremos depois das aulas.

Eu e Lorenzo continuamos a caminhar, e achamos nossos amigos pouquíssimos minutos depois. Helena estava zangada, furiosa, e chutava uma pilha de panfletos para extravasar a ira.

— Maldito Gary! — ela vociferou. — Eu vou acabar com ele!

Urbano também estava lá, no corredor onde tinha nossa sala de aula. Tremia de medo por causa de Helena e rezava para que não sofresse a ira dela. Eu e Lorenzo chegamos cautelosamente mais perto.

— Mas o que houve? — perguntei.

— O que houve? — ela gritou. — Quer mesmo saber o que houve?

Colocou-se na nossa frente, erguendo o dedo indicador e preparando um tom de voz feito especialmente para desabafar. Todavia, seus olhos captaram a imagem de Lorenzo, acenando com a mão e ainda vestindo a roupa de marinheiro com o short. Ela ficou mais ou menos do mesmo jeito que Barbara; mal conseguia formular as palavras. Andou até onde estava Urbano e ordenou:

— Vá falar pra eles o que aconteceu!

— Mas… — Urbano tentou contra-argumentar.

— Eu vou te destruir se não fizer o que mando! — ela bradou com todo o ódio que tinha na voz.

Meu amigo de longa data locomoveu-se até ficar frente a frente comigo e com Lorenzo. Helena rasgava alguns panfletos espalhados pelo chão.

— Cês não vão nem acreditar no que ocorreu inda pouco — disse Urbano. — Então tava eu e Helena colocando os panfletos nas paredes, quando o andar de cima da escola foi arrancado. Erguemos nossas cabeças e vimos um dragão, parecidíssimo com aquele morto nos nossos panfletos, só que maior. Nossa brutamontes ia fazer alguma coisa quando ele chegou.

— Ele quem? — perguntei.

— Quem mais? — ele continuou. — Gary Evans Perfeição da Silva. Ele tava lá, com sua beleza máscula que faz o resto de nós parecer um lixo, empunhando uma espada sagrada. Eu sei porque tava escrito lá na lâmina. Ele pulou e, com um golpe, arrancou a cabeça do dragão. E do nada veio a imprensa, veio o exército, até os presidentes das nações mais poderosas apareceram para parabenizá-lo.

— Pera! — eu protestei. — Sério que tudo isso aconteceu enquanto eu e Lorenzo estávamos lá fora com a monitora?

— Acha que tô brincando? Cê me conhece melhor que ninguém, Lucas. Eu nunca brinco em serviço. Depois de tudo ainda surgiu uma grande cabeça vermelha e flutuante, com um vozeirão que fazia tudo tremer. A cabeçorra parabenizou Gary pelo trabalho, disse que ele tava mais fodasticamente foda que nunca e que agora mais gatas o desejariam. Daí ela arranjou a escola com um poder místico ou coisa parecida e foi embora.

Lorenzo estava boquiaberto e maravilhado, e eu estava boquiaberto e custando a acreditar. De repente, Gary apareceu com sua atitude perfeita de sempre, segurando um celular e sorrindo. Ele nos cumprimentou:

— Bom dia meus jovens. — Virou os olhos para Helena, que acabara de extravasar a raiva e o encarava com ódio estampado na face. — Oi Lena — disse, tentando soar o mais galanteador que podia. — Não precisam me agradecer, apenas fiz meu trabalho. Agora com licença que preciso cuidar de uns assuntos importantes.

Pressionou uns botões no celular e o aproximou de seu ouvido direito. Após aguardar um pouco, disse:

— Paieeeeeeeê! — A voz repercutia de um modo irritante, como se pertencesse a um pivete mimado. — Eu me esqueci dos meus livros. Traz pra mim, paieeeeeê! — E o soar da voz se tornou mais irritante que nunca.

De repente, e não me perguntem como, uma limusine surgiu no corredor e passou perto da gente. Era longa, mais comprida que o mais comprido veículo da Terra. Sua cor era um branco muito peculiar, pois dependendo da posição de onde estava eu podia ver umas tonalidades de vermelho, laranja, amarelo, verde ou azul. Não sei se foi impressão minha, mas juro que, pouco antes da limusine parar, vi uma placa em uma das portas, onde estava escrito:

COMPRIDO, NÃO É?

E finalmente, o veículo parou. A porta da parte traseira foi aberta e um mordomo idoso vestido com um belo terno escuro desembarcou, carregando alguns livros. Ele disse:

— Aqui estão seus livros como solicitou, mestre Globes. A propósito, resolvi seu dever de casa durante o trajeto.

E sem nem pronunciar um agradecimento, Gary pegou seus livros e foi embora, provavelmente para sua sala de aula. O mordomo embarcou na limusine, que partiu logo em seguida. Eu e meus amigos ficamos apenas olhando, com nossos olhos arregalados e nossas bocas abertas. Nos demos conta que vencer as eleições seria uma tarefa hercúlea.



Notas finais do capítulo

"Só eu acho errado uma adolescente de quinze anos se interessar por alguém como o Lorenzo, ainda mais nessas circunstâncias?"

Eu não sei, mas se isso for verdadeiramente errado, então eu não quero viver nesse mundo triste.

E agora? Será que Gary é imbatível mesmo?
Fiquem ligados para os próximos capítulos.



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