Deixe-me Gritar escrita por Mrs Days


Capítulo 3
Capítulo 2


Notas iniciais do capítulo

Último capítulo, infelizmente.

Espero que gostem. Beijos.

Betado por Clenery do Perfect Design



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O vento frio me tocou assim que saí da boate. Olhei para os lados do beco escuro e pressionei os lábios juntos, sem saber para onde ir e nem fazer. Queria apenas que aquele sentimento que tive ao olhar Julian tivesse sido um péssimo engano. Só que meu coração acelerado me dava a certeza que a cruel realidade tinha batido em minha porta.

— Julian! — gritei desesperada por uma simples resposta que não veio. — Julian! — acelerei os meus passos em direção ao estacionamento, rezando internamente que ele tivesse achado que estaríamos esperando no carro.

Porém, conforme eu me aproximava ainda mais do carro, um mau pressentimento insistia em me sufocar. Meus pés ficaram hesitantes em seus movimentos, mesmo que contra a vontade de meu corpo, enquanto percorria os espaços entre os carros. Olhei por cima dos ombros, a esperança de ter alguém comigo ou fumando do lado de fora e fiquei decepcionada com a negativa.

Saindo da nuvem de pânico que me tomava com lentidão exagerada, peguei o celular em meu bolso e comecei a discar o número de Julian. Esperei que caísse na caixa postal antes de xingar internamente. Pensei em continuar procurando o carro de Julian, porém meus pés deram meia volta se dirigindo para o outro lado do estacionamento que, por acaso, era o lado mais deserto.

Nunca fui uma pessoa que seguia os instintos, porém isso pareceu se tornar quase uma necessidade naquele momento. Minhas mãos tremiam e suavam, minhas pernas estavam bambas, tudo em consequência da minha cabeça que latejava. Todavia, nada me impedia de ir naquela direção, incluindo quando vi uma silhueta a poucos passos de mim. Deveria estar aliviada pela possibilidade de ser Julian, mas eu sabia que não era por não sentir o cheiro de morte. Sentia apenas meus pelos se arrepiando e um tipo de choque de adrenalina em minha corrente sanguínea.

Continuei indo naquela direção, virando no beco. Foi o momento em que me surpreenderam e jogaram-me contra a parede, pressionando minhas costas nos tijolos frios. Peguei-me encarando os olhos castanhos e frios de uma mulher desconhecida, acompanhado por uma expressão fria. Seus cabelos escuros estavam presos em um rabo de cavalo e usava roupas pretas adaptadas para malhar.

Abri a boca, preparada para gritar, mas fui impedida quando ela tirou uma das mãos de mim e pôs um dedo nos lábios em sinal de silêncio. O local onde anteriormente estava a sua mão parecia pegar fogo e minha dor de cabeça se agravou consideravelmente. Engoli a seco e assenti. Ela ficou me olhando por alguns segundos, talvez para ter certeza, e me soltou, se virando para o beco. Tudo estava escuro, se não fosse por uma lâmpada que piscava periodicamente quase na virada. Os passos da mulher eram calculados e tentei segui-la na ponta dos pés.

Planejei ser o mais silenciosa possível e isso persistiu até o momento em que ela puxou uma arma da cintura. Arfei, fazendo-a se virar para mim com um olhar rígido. Pus a mão na boca e continuei indo. Na verdade, nem sabia o motivo de estar seguindo-a já que deveria estar procurando Julian. Meu estômago se embolou e tive que reter a vontade de vomitar. Estava pronta para pelo menos tentar escapar daquela situação quando escutei um grito. O pavor fez minha mente demorar a processar e associar o grito a pessoa, mas quando o reconheci sendo de Julian, não segurei minhas pernas.

— Banshee, volte aqui! — a mulher gritou.

Ignorei-a, mesmo não sabendo o que aquilo significava e continuei correndo em direção a virada do corredor. Escutei outro grito, acompanhado de passos atrás de mim. Na verdade, eu nem estava ligando para o fato de estar sendo seguida por uma estranha, eu a tinha seguido primeiro. O que quase fez meu coração sair pela boca foi ver Julian jogado no chão com alguém em cima dele. O sangue que saía de sua pele fez tudo ao meu redor ficar embaçado e o cheiro de podridão fez a bile subir.

O homem que estava em cima de Julian o mordia como se estivesse sem comer fazia décadas, sua pele era acinzentada e tinha pontos podres com a carne a mostra. Ele grunhia e mastigava. Julian tinha o corpo parado, com os braços soltos no chão e os olhos azuis vazios virados na minha direção. Desespero me preencheu e por pouco não fui até ele. Meu corpo tremeu, minha garganta arranhava e minha cabeça latejava como se tivessem bilhares de insetos dentro de meu cérebro.

— Para trás, Banshee — a mulher disse, erguendo a arma e pondo seu corpo na frente do meu. Ela soltou um assobio, atraindo a atenção do homem que se levantou com certa dificuldade e caminhou com passos trôpegos na nossa direção. Ela esperou que ele se aproximasse o suficiente para que o cano da arma quase tocasse em sua testa e atirou. Encolhi-me com o barulho sem tirar os olhos do corpo de Julian. — Você está bem?

Não lhe dei atenção, indo em direção ao meu namorado. Ajoelhei-me ao seu lado e espalmei minhas mãos em seu peito, querendo sentir um pulso ou qualquer algo que me desse uma esperança de vê-lo ao meu lado novamente. Porém, era tarde demais. Eu conseguia praticamente ver a vida se dissolvendo de seus olhos, até que não restasse nada. As lágrimas escorriam por meu rosto até tocar sua camisa e se misturar ao sangue que já estava ali.

Segurei sua cabeça, fazendo-o me encarar. Não prestei atenção ao buraco e os ossos expostos em seu pescoço. Tudo o que importava era que o homem com quem eu queria dividir minha vida estava morto em meus braços. Suas bochechas ficaram manchadas com o sangue que se transferiu do chão para a minha mão. Eu sabia que se abrisse a boca seria tarde. Foi assim quando vi minha avó morta na poltrona da sala quando eu tinha nove anos.

Escutei vagamente a mulher se aproximando.

— Banshee, temos que sair daqui.

Eu queria dizer para que ela não me chamasse assim, não importando o que significasse. Só que a dor não permitiu e quando meus olhos se voltaram para Julian, não pude mais resistir. Minha boca se abriu e um grito agonizante atravessou minha garganta. Era como se todas as dores em minha cabeça estivessem sendo expulsas e me aliviei. Tudo o que doía era o meu coração. Não sei por quanto tempo continuei gritando. Segundos, minutos... Só sabia que o cheiro de morte estava se dissipando aos poucos, por mais que tivesse um morto bem na minha frente.

— Droga! — a mulher disse, segurando-me pelo cotovelo e me forçando a levantar. Quase não conseguia enxergá-la por trás das lágrimas. — Você tem que se controlar, Banshee. Se não coisas piores que um zumbi irão aparecer.

Só que eu não conseguia parar. Meus olhos recaíam para o corpo de Julian e toda a adrenalina voltava para minha corrente sanguínea. Tinha poucos segundos para respirar e tomar fôlego para recomeçar. Vi a mulher ficando impaciente e ela fez uma cara de pena, também olhando para o corpo de Julian. Ela suspirou ao me encarar.

— Desculpe.

E me deu uma coronhada. Antes de apagar totalmente, a última coisa que escutei foi um segundo tiro.

**********************

Acordei arfante e assombrada por estar deitada na minha cama. Não no apartamento de Julian, mas sim na casa de meus pais. Estava tudo do jeito que havia deixado: a cama desarrumada, as fotos penduradas em quadros de metal, paredes pintadas de cinza e branco, bichos de pelúcia jogadas no chão. Ah, e uma pessoa sentada no meu pufe perto da janela. Dei um salto da cama quando reconheci a mulher de ontem e minha cabeça doeu como consequência da pancada de sua arma em mim. Só que nada disso importou quando relembrei dos acontecimentos de ontem.

— Julian — lamentei, sentando-me na cama e afundando o rosto nas mãos, tremendo e chorando com a lembrança de seu corpo — Ele não pode estar morto, não pode.

— Sinto muito, Banshee — a mulher se levantou para chegar para ficar ao meu lado e tocou meu ombro — Mas ele está morto. O zumbi o matou.

Saltei da cama, soltando-me de seu toque.

— Quem é você? Por que fica me chamando de Banshee? E o que matou Julian?

Ela suspirou, paciente e se sentou. Permaneci de pé, ainda chorando e querendo ficar sozinha. Só que não poderia deitar sem saber o que tinha acontecido.

— Eu sou Faye Callisto, uma súcubo. E nas horas vagas eu trabalho para o céu — ela deu de ombros. — É complicado. Vamos apenas dizer que fiz algumas escolhas erradas.

— Súcubo?

Ela ergueu os olhos castanhos.

— Demônio feminino que se alimenta da energia vital através de sexo — Faye se levantou e balançou as mãos — Isso não importa agora. O que importa é que temos que te tirar daqui antes que outro acidente aconteça.

Cruzei os braços.

— Não vou a lugar nenhuma com uma estranha. Como é possível uma pessoa trabalhar para o céu e para o inferno ao mesmo tempo? Eu não acredito...

Minhas palavras foram cortadas quando ela fechou os olhos e franziu o cenho, parecendo se concentrar em algo. Aos poucos vi seus cabelos castanhos criando fios loiros e se cacheando, antes de sua pele ficar em um tom de marfim, acompanhando sua altura que cresceu consideravelmente e seus olhos que ficaram verdes. Eu arfei em choque e meus olhos se arregalaram. Ela abriu os braços e ergueu uma sobrancelha.

— Pode me escutar agora, Banshee?

Engoli a seco e assenti. Ela voltou ao normal.

— A minha história não importa — Faye ressaltou e apontou para mim — Alguém mandou aqueles zumbis atrás de você porque você é especial, Banshee.

— Meu nome é Andrômeda.

Ela deu um pequeno sorriso.

— Eu sei, tanto que te trouxe para casa — ela sinalizou para o espaço ao meu redor — Vi seu endereço nos seus documentos. Espero que não se importe. Mas você quer respostas. Sinto se não posso te dar todas. Mandaram-me até aquela área para limpar os zumbis que misteriosamente apareceram — ela me olhou de cima a baixo com os lábios pressionados — Agora sei o porquê.

— Eu não sou especial.

Faye bufou, me olhando com descrença.

— Andrômeda, você sente quando as pessoas vão morrer e lamenta por elas. Isso é um Banshee. Sua família deve ter descendência irlandesa.

Engoli a seco.

— A minha avó era irlandesa.

Ela assentiu.

— E seu avô era negro? — assenti novamente — Por isso que você não tem todas as características físicas de uma Banshee, além de ser jovem e ter o cabelo escuro. Sua avó era ruiva?

Balancei minhas mãos.

— Sim, mas não quero falar da minha família — apontei para ela — Você disse que têm coisas vindo atrás de mim. Que coisas?

Ela deixou os ombros caírem, parecendo derrotada.

— Não me deram essa informação, Andrômeda. — ela se levantou — Seus pais devem estar ansiosos para te ver, já que não aparece aqui há um tempo. Mas você precisa vir comigo. Se eles foram atrás de seu namorado, podem mandar algo atrás de seus pais.

A surpresa me fez ter um solavanco.

— Ir? Para onde?

Deu de ombros.

— Morar comigo é uma opção provisória, mas não garanto cem por cento de proteção. Posso apenas garantir que você irá conhecer mais sobre seu lado sobrenatural e aprender a controlá-lo. — ela olhou para o relógio e pegou algo de seu bolso, pondo em cima da cama. — Vou deixar o meu cartão, caso queira aceitar.

Faye estava saindo quando uma pergunta ressoou em meus pensamentos.

— Apareceu outro zumbi quando você me deixou desacordada? Eu ouvi outro tiro.

A súcubo parou no batente da porta, mantendo-se de costas para mim.

— Quando alguém é mordido por um zumbi, morto ou não, se torna um também — o choque com a revelação de suas palavras me abateu. — Tive que matá-lo, Andrômeda. Sinto muito.

Ela fechou a porta, me deixando sozinha com minhas dúvidas e um enterro me preparar. Contudo, tudo o que fiz naquele momento foi me deitar encolhida em minhas cobertas e chorar até que a dor física se igualasse à emocional.

*********************

Eu fiz um discurso para Julian. Contei a todos como nos conhecemos na faculdade e o quanto ele me compreendia por mais que quase não me conhecesse. Como nos entendíamos com poucas palavras e como nos amávamos. Nossos planos, nossos desejos, nossas realizações. Contei tudo. Mas tudo parecia vazio. Eu estava vazia. Assim que abaixaram o caixão, meus pais vieram me abraçar, esperando minhas lágrimas.

Só que elas não vieram. Vi os pais de Julian chorando copiosamente e me senti mal com o pensamento de me aproximar deles. Eles achavam que ele tinha sido morto em um assalto e algum bicho tinha comido sua carcaça antes que alguém chegasse. Os médicos disseram que um dos assaltantes tinha batido em minha cabeça com tanta força que esqueci metade do que havia acontecido, somado com o choque da notícia, não me tornei a melhor testemunha para a polícia.

Eu não queria aquilo para os meus pais. Não queria que eles chorassem por mim e por uma mentira. Nem o contrário. Se fosse para viver nesse mundo, eu queria saber com o que estava lidando e isso incluía achar quem tinha feito isso com Julian e ter minha vingança.

— Faye, sou eu. Aceito a sua oferta.


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