Um Selvagem Diferente escrita por Lunah


Capítulo 25
Bônus


Notas iniciais do capítulo

Olá! Tudo bem?
Como senti saudades de postar... Vocês nem imaginam! Mas, graças a Deus, pintou aquela vontade louca de escrever sobre o T-zed e a Bella, então Tammy me deu um empurrão fenomenal, o qual me fez demorar só uns 2 meses pra terminar kkkkkkk (obrigada por tudo, Tam-Tam). O importante é que consegui e, acreditem em mim, com minha nova rotina, foi praticamente um milagre. Pois é, vou parar de enrolar e dizer logo que o capítulo TEM CENSURA 16 ANOS. :D
Como sempre o cap está grande, mas aproveitem que não voltarei a escrever capítulos dessa fic. Obrigada por todo o apoio, vocês são sempre maravilhosos comigo. Agradeço também ao meu mais que querido beta e Xêro pra Luísa. Agora... GO, T-ZED!GO!
***





Um Selvagem Diferente

Capítulo Bônus


Após 1 ano só pegando no pesado no resort, precisei de um tempo longe da habitual loucura que é a minha vida ao lado dos meus amigos. Edward, que também estava cansado de Orlando e das viagens, tirou algumas semanas de férias e no mesmo dia em que voltou da Europa, embarcou em um avião comigo com destino a Malaita. O coitado ficou quase um mês no norte da Finlândia esperando que o mal tempo desse uma trégua para gravar os dois últimos episódios da temporada.


A viagem para a ilha — como da primeira vez — foi longa e exaustiva. Atracamos em Malaita por volta das 17:30h e assim que chegamos na casa do doutor, o selvagem carregou-me até o seu quarto, onde eu simplesmente apaguei. Dormi como se não tivesse dormido por meses. Só quando os raios de sol do novo dia atravessaram as persianas, foi que despertei lentamente, ouvindo ao longe o canto dos pássaros e o chacoalhar das copas das árvores.


Ainda sonolenta me espreguicei, esticando-me toda na enorme cama. Infelizmente, o meu namorado não estava lá. Isso me frustrou, pois já bastava ele ter passado quase toda viagem introspectivo.


Trajando apenas um blusão verde de Edward, deixei a cama e fui para o banheiro, onde escovei os dentes e lavei o rosto. Em seguida, saí de mansinho pela casa esperando esbarrar com o “sumido”. Ainda bem que não precisava me preocupar com o Dr.Carlisle, já que este se encontrava em Orlando para mais uma temporada de congressos.


Como não achei o selvagem em nenhum dos cômodos, fui para a varanda e lá finalmente o avistei. Ele estava na grama — há uns oito metros de mim — fazendo flexões. Não notando minha presença, continuou se exercitando com o sol queimando suas costas e braços por estar vestindo apenas um jeans detonado.


Desde que Edward se comprometera com o Instinto Radical, passou a cuidar mais do físico, a fim de acompanhar o ritmo puxado das aventuras do programa. Ele ganhou um pouquinho mais de massa muscular, e isso o deixou ainda mais gostoso. Devo salientar que além do corpo mais definido, o selvagem agora também tinha um cabelo digno de seu apelido. Estava longo — com as pontas chegando aos ombros — e bem mais claro, pela quantidade de tempo que passava no sol nas viagens. A única coisa que ele preferia não manter era a barba, deixando sempre visível o sorriso ingênuo que eu tanto adorava.


Contente por vê-lo em total sintonia com o ambiente, escorei-me em uma coluna de madeira, assistindo Edward subir e descer em suas flexões. Institivamente fiquei curiosa quanto às horas, mas então respirei fundo e deduzi que não passavam de 7:00h, pois ainda podia sentir o cheiro de orvalho.


Ao terminar o exercício, Edward deitou na grama de braços abertos e olhos fechados, recebendo agora o calor do sol em seu rosto. Mesmo há metros, podia sentir que algo o incomodava, contudo, preferi não pressioná-lo. Tinha esperança de que ele mesmo tomasse a iniciativa e partilhasse, seja lá o que fosse, comigo.


Convencida a dar o espaço que sutilmente o selvagem exigia, deixei a varanda e fui para a cozinha cuidar do café da manhã. Na geladeira e nos armários, encontrei o que precisava para preparar omeletes e torradas. O doutor deixara tudo abastecido para nossa breve estadia.


Enquanto batia os ovos em uma vasilha, comecei a recordar a última vez em que tentei cozinhar pro meu namorado. Foi há cerca de um mês — um dia antes de ele viajar — quando ofereci um jantar em comemoração ao seu aniversário. Meu objetivo era tornar a sua noite especial, mas ela acabou se tornando “especial” demais para o meu gosto.

...

Era uma quente tarde de sábado e, suando feito uma condenada, desdobrava-me na cozinha para preparar o jantarzinho surpresa. Edward até tentou me convencer a passar o dia com ele, mas o enrolei dizendo que ficaria em um spa, me embelezando para irmos ao cinema à noite. O coitado acabou ficando sozinho em sua casa. Mas o que o ingênuo não imaginava, era que em poucas horas comemoraria os seus 24 anos com Bruce Jones, meu pai, os rapazes, Alice, Sarah Ryan e o Dr.Carlisle, o qual estava vindo de Malaita só por causa dele. Há meses os dois não se viam e eu queria proporcionar a ocasião perfeita para o encontro.

Logo pela manhã, com a ajuda de dois funcionários, decorei uma parte reservada do jardim com lanternas de papel, lindos arranjos de flores e o nosso melhor aparelho de jantar. Eu bem que preferia usar o recém-reformado salão de festas, mas ele já estava alugado para a despedida de solteira de uma hóspede.

Depois de dias pensando no que servir como prato principal, resolvi preparar um pernil de cordeiro com molho de hortelã. Eu só precisava que a distraída Alice terminasse de ler a droga da receita.

— Se você beber outra cerveja ao invés de me ajudar, pode se considerar desconvidada! — ralhei, vendo-a arrancar a tampinha da Heineken com os dentes.

— Relaxa aí, coleguinha — despreocupada ela sentou na ponta da mesa e folheou o livro. — Coloque o pernil no centro da assadeira — esperou que assim eu fizesse. — Agora polvilhe com sal, pimenta e regue novamente com azeite. Depois, leve ao forno por aproximadamente quatro horas — fechou o livro. — É moleza!

Cuidadosamente segui a instrução e coloquei o pernil no forno que já estava aquecido.

— Eu tou um caco — murmurei apoiando as mãos na mesa.

— Está mesmo. Bella, sua minhoca de água suja, que unhas malacafentas são essas?! — Lice fez uma careta, enojada.

— Eu sei. Mais tarde dou um jeito nisso.

— O quê? Não senhora! Vamos agora ao salão dar uma geral em você.

— E quem vai ficar de olho no pernil?

Enquanto eu ainda pensava em uma solução, minha amiga, com seu gogó perigosamente potente, berrou:

— JASPER! — ela foi até a entrada da cozinha. — JASPER!

— Tá gastando o meu nome por quê? — chateado, ele apareceu segurando uma prancheta.

— Alice e eu vamos sair e voltamos em menos de 1 hora. Por favor, cuida do forno pra mim — pedi tirando o avental.

— Você tá brincando, né? — ele resmungou jogando a prancheta na mesa. — Já estou ajudando a supervisionar os preparativos da despedida de solteira da hóspede. Coisa que vocês deveriam estar fazendo.

— Deixa de frescura, é só garantir que o forno continue ligado — Lice puxou-me pelo braço.

— Voltamos num piscar de olhos — prometi antes de deixar a cozinha.

Eu não tinha com o que me preocupar, o pernil demoraria quatro horas para ficar pronto. Quando retornasse, só teria que virá-lo para que assasse igualmente.

(...)


Alice e eu conseguimos fazer as unhas e hidratar os cabelos, porém demorou um pouco mais do que esperávamos, pois o salão próximo à mansão estava lotado por ser final de semana.

Preocupada em virar o assado, apressei o passo ao dobrar a esquina da minha rua. Lice que tagarelava sobre a sua última briga com Emmett, de repente, me deteve, alarmando:

— Puta merda, aquele não é o carro do T-zed?

Embasbacadas, avistamos o Maserati conversível preto passar pelo outro lado da rua. Milagrosamente, Edward não nos viu, pois do contrário, teria parado. Ao invés disso, estacionou em frente à mansão. Quanto a nós, tivemos que correr e nos esconder atrás de uma propaganda de ponto de ônibus.

— É. Acho que agora danou-se! — Alice concluiu.

— Danou-se nada. Eu não nadei tanto pra morrer na praia — a empurrei para fora do esconderijo. — Vai lá e impeça Edward de entrar na mansão. Ele não pode ver a decoração e eu preciso virar o pernil.

— E eu vou dizer o quê, mulher? — vociferou rápido.

— Invente! — sacudi a mão, despachando-a.

A sujeita disparou feito um foguete, chamando o meu namorado aos gritos. Conhecendo ele como eu conhecia, sabia que estava saindo do carro à força por estar constrangido com o escândalo de Lice.

Para não ter que inventar mais mentiras só para justificar o fato de eu não estar no spa, aguardei por cinco segundos antes de esticar o pescoço e espiar. Há cerca de dez metros do ponto do ônibus, Alice mantinha Edward de costas para mim, sinalizando disfarçadamente para que eu entrasse no resort enquanto ela o distraía.

Apreensiva, saí do ridículo esconderijo e, “pisando em ovos”, fui diminuindo a distância. Tinha passado semanas planejando aquele aniversário e a pior coisa que podia acontecer era ele descobrir tão em cima da hora. Quando faltava pouco para eu alcançar os portões da mansão, Lice puxou Edward pela mão, a fim de me abrir caminho.

— Desculpe, Alice — impaciente, ele se desvencilhou e eu estanquei, acreditando que me flagraria. — Você vai ter que procurar um médico. Não sei nada sobre essa coceira íntima que está tendo.

— Acho que tem razão — ela sorriu tensa, sem saber como entretê-lo. — Ei, mas o que faz aqui? Bella não está.

— Toby me ligou dizendo que eu precisava ver algo — respondeu.

Era só o que me faltava. O almôndega do inferno estava se vingando por não ter sido convidado para a festa. Aquele moleque queria ver a minha desgraça!

Arriscando-me mais do que deveria, encolhi para passar pelo portão que estava entreaberto. A mancada foi que a minha mão direita bateu em uma barra e o portão rangeu ao abrir. Em reflexo, Edward tentou olhar para trás, mas Alice agarrou sua cabeça bem a tempo.

— Eu menti! — ela gritou exasperada. — Não tenho coceira nenhuma — outra vez roubou-lhe a atenção. — Foi só uma desculpa para não dizer o que realmente quero dizer — olhou de relance pra mim, que petrifiquei sem saber se entrava correndo, ou se voltava para o esconderijo.

— Afinal, que você tem, Alice? — o selvagem afastou as mãos dela.

— O que eu tenho? — nervosa, passou a gesticular — É que... é muito sério... pra mim — aproveitei a gagueira da maluca e de mansinho fui adentrando o jardim. — Edward, eu... Ai, caramba! Eu estou apaixonada por você!

Imediatamente voltei os quatro passos que tinha dado só para fuzilar Lice com o meu olhar. Revoltada com a sua péssima ideia, ergui o punho em ameaça. A desgraçada apenas deu de ombros, se segurando para não rir do choque que causou em Edward. Ele precisou de alguns segundos para processar a declaração. E quem não precisaria?

— Tem certeza? — o pobre coitado averiguou, desconcertado.

— Tenho — se fazendo de vítima, a cínica começou a choramingar. — Estou sofrendo. O que vou fazer? E a culpa é toda sua, sabia?! — o empurrou.

— O que eu fiz?

Quase soltando fumaça pelo nariz, cruzei os braços, seriamente inclinada a acabar com toda a palhaçada.

— Quem mandou vir ao mundo... — Alice pressionou os lábios para não gargalhar da nossa cara. — Tão gostoso?! Toma na cara, seu maléfico! — e ela deu um forte tapa no meu namorado.

No mesmo instante gritei “FILHA DUMA ÉGUA!”, mas minha voz não saiu. Minha consciência me impedia de boicotar a surpresa. Então só me restou aproveitar o momento de confusão pra correr com todo o gás para dentro da mansão. Eu estava uma fera, mas obriguei-me a manter a calma, pois precisava segurar as rédeas da situação. Em outra hora cuidaria de “destraumatizar” Edward.

— Demorou, hein? — Jazz reclamou quando me viu atravessar a porta da frente. — Por que está vermelha?

— Nem pergunte — suspirei exausta. — E você? Por que está sentado no sofá sem fazer nada?

— Tou esperando a confeitaria entregar o bolo da hóspede — colocou os pés sobre a mesa de centro.

— O bolo! — desesperada, levei as mãos à cabeça.

Sarah tinha feito questão de encomendar o bolo do filho em uma confeitaria chiquérrima, mas que ficava do outro lado da cidade. Preocupada com o assado, acabei esquecendo que deveria ter buscado o bolo.

— Onde está o nosso pai? — questionei ansiosa.

Jasper apontou para o escritório e corri até lá. Entrei no cômodo sem nem mesmo bater antes.

— Pai, preciso de ajuda — desembuchei logo. — Pode, por favor, pegar o bolo do Edward?

— Por que não pede ao seu irmão? — com a sua habitual tranquilidade, ele retirou os óculos de grau. — A minha tarefa não era só buscar o Carlisle no aeroporto?

— Valha meu Deus do céu! — arregalei os olhos.

— O que foi? Não me diga que esqueceu que ele vem.

— Não é isso — contorci o corpo em angústia. — Sente esse cheiro?

— Por acaso esqueceu algo no forno?

Deixei meu pai sem resposta e desembestei feito uma louca para a cozinha. Tinha certeza que estava no meio de um pesadelo, porque quando escancearei o forno, uma densa fumaça brotou de lá, espalhando-se rapidamente pela cozinha. Inconsolável, comecei a tossir horrores, perguntando-me o que tinha dado de errado se segui fielmente a receita.

— Eita ferro! — tossindo também, Jazz se aproximou.

— Não entendo — com luvas, retirei a assadeira e a coloquei sobre a pia. — Não era pra ter queimado.

Sacudi um pano de prato para dispersar a fumaça e verifiquei os botões do fogão. Percebi que o forno estava no máximo, e não no médio como eu havia deixado. Já deduzindo o que tinha acontecido, vagarosamente virei-me para encarar o meu tapado irmão.

— Você mexeu no fogão? — interroguei por entre dentes.

— Tipo assim — cabisbaixo, ele ficou cutucando o umbigo. — Se é pra assar, que seja no máximo, né?! Acompanhou o raciocínio?

Senti a veia do meu pescoço pulsar forte. Já estava anoitecendo e eu não tinha prato principal, nem bolo e só faltava um triz para o aniversariante descobrir tudo. Vendo-me atribulada, meu pai resolveu ir pegar o bolo e logo depois o doutor. Então fui vasculhar o refrigerador em busca de qualquer coisa que substituísse o pernil, no entanto, fritar hambúrguer ou descongelar frango não parecia a solução que precisava.

— Gente, o que aconteceu com a comida? — Alice perguntou, retornando à cozinha como a personagem principal do meu pesadelo.

— O que aconteceu pergunto eu! — fechei o refrigerador. — Cadê o Edward?

— Xiii... — ela soltou uma risada sacana, pegando outra cerveja na porta da geladeira. — Seu namorado disse que precisava dar uma volta e se escafedeu. Malandra, tu tinha que ver a cara dele — caiu na gargalhada.

— O que você fez? — rosnei, não achando graça nenhuma.

— Oras,... me esforcei para ser convincente — argumentou séria. — Daí eu tentei beijá-lo.

— Com essa eu vou embora. Não vou separar briga de ninguém — Jasper desistiu de tentar tirar a parte carbonizada do pernil e o jogou no cesto de lixo.

— Diz pra mim que tá brincando! — vociferei descontrolada.

— Calma, Bella. Ele não permitiu. Pôxa, que saco! Você nunca reconhece os sacrifícios que faço em nome da nossa amizade.

Respirei fundo. Na verdade, respirei muito fundo.

— Tudo bem, sei que fui eu quem pediu ajuda. Mas, por favor, fica sóbria só esse sábado. Não posso passar vergonha na frente dos pais do Edward.

Como resposta, Lice mostrou o polegar, entornando a Heineken.


(...)


Durante os trinta minutos seguintes, Alice e eu abrimos todas as embalagens de carne enlatada que encontramos na dispensa. O plano era misturar a gororoba com cebola picada, salsinha, assar e enfeitar com batata palha. Claro que eu podia ter pedido algo pelo telefone, mas a verdade é que eu não tinha como arcar com a despesa. Reinvestira quase todo o salário daquele mês no resort e o pouco que sobrara, comprei um vestido, sapatos e os arranjos de flores.

— Se preocupa não, vai dar certo — Lice, bem atrás de mim, massageou-me os ombros.

— Assim espero — sussurrei misturando a carne com a verdura na assadeira.

— Mary Alice Brandon! — Emmett despontou na entrada da cozinha, muito revoltado. — Eu saio pra levar a topic no mecânico e quando volto descubro que está tendo um caso com o T-zed?! Cheirou cola, sua miserável?!

Enfadadas, trocamos um olhar antes de ela rebater:

— Cala a boca, seu retarda! É tudo armação.

— Espera — me preocupei. — Falou com o Edward? Onde ele está?

— Que armação, Alice? — Emm não se convencendo, ignorou-me. — O cara me abordou lá na calçada com um papo muito estranho de que não tem culpa do que você sente por ele — despejou em alta voz.

Enquanto a minha amiga revirava os olhos, agarrei Emmett pela gola do uniforme para que me desse atenção.

— O Edward já sabe sobre o jantar surpresa?

— Não faço ideia! — respondeu desaforado. — Bella, me desculpe, mas quando o traíra se acusou fiz o que qualquer homem na minha posição faria.

— O que você fez? — assustei-me.

— Dei um soco nele e saí correndo.

Na mesma hora pirei legal.

— CHEGA DE BATER NO ANIVERSARIANTE! — urrei com os nervos em frangalhos.

— Emmett, você desafiou a morte por mim? — Alice se comoveu e eu dei dois passos atrás para não explodir novamente.


— Claro. Quantas vezes vou precisar dizer que te amo, sua besta? — ele retrucou emburrado. — Vou lutar por você nem que eu tenha que distribuir bifas, pipôcos e o escambal à quatro!

Lice, lisonjeada, caminhou até o namorado com os olhos marejados.

— Essa foi a coisa mais linda que já me disseram — ela confessou com a voz chorosa e acariciou o rosto dele. — Eu também te amo, Emm — e tascou-lhe um beijo despudorado.

Indignada com os dois, joguei as mãos para o ar, me queixando:

— Então é isso? Ninguém vai verificar a minha pressão, ou colocar um comprimido debaixo da minha língua? Não? É. Eu vou morrer!

Por ter sido mais uma vez ignorada, deixei o casal complicado se agarrando e voltei para o pé do fogão.


(...)


Depois que Alice explicou todo o mal entendido a Emmett, ele nos abandonou com a promessa de que arranjaria um jeito de se desculpar com Edward. Afirmou que lhe daria um presente tão “porrêta” que ele esqueceria o soco. Enquanto eu esperava por tal milagre, retirei a carne do forno e a coloquei sobre a mesa.

— O que você acha, Lice? — com um garfo cutuquei a goroba marrom. — Alice? — olhei em volta e nem sinal da criatura.

Fiquei lá, parada no meio da cozinha com cara de trouxa. Foi então que o “malacabado” Toby entrou pela porta dos fundos.

— Cheguei. Podem começar a servir os belisquetes!

— Dê meia volta! — ordenei apontando para a saída. — Pensa que não descobri o seu plano pra ferrar com tudo?

— O que é isso, Puro Osso?! Eu trouxe até presentinho, olha — ele balançou um chaveiro de supermercado.

Decidida a não desperdiçar o resto da minha paciência com o pudim de banha, tirei uma lasquinha do assado, mas não tive coragem de provar.

— Me diz se está bom — estendi o garfo para o Pancinha.

Ele se aproximou e examinou a carne, em seguida, olhou para a pia que estava abarrotada com as embalagens.

— Você tem noção de quantos cachorros morreram pra você fazer essa comidinha sem vergonha? — criticou com as mãos na cintura. — Minha boca não é privada.

— Há quem discorde — repliquei.

— A MULHER CHEGOU! A MULHER CHEGOU! — Alice invadiu o lugar, saltitando.

— Sarah já chegou? — rapidamente verifiquei as horas no relógio de parede. — Mas eu nem tomei banho ainda — inutilmente tentei desamassar o meu uniforme.

— O que essa pelota de meleca faz aqui? — Lice fez uma careta para Toby.

— Meu pai me trouxe — ele mostrou a língua.

— O quê? O Bruce também já está aqui? — preocupada comecei a tatear os meus bolsos. — Alguém me dá um celular! — implorei por não saber onde estava o meu.

— Toma — Alice entregou-me o dela.

Telefonei para o meu pai e quase surtei quando descobri que ele estava preso em um engarrafamento junto com o bendito bolo. O pior é que o doutor ainda o esperava no aeroporto. Depois que desliguei, mandei Lice e Toby pararem de bater boca e tentei pensar em uma solução. Daí, percebi que a única saída era pedir Sarah para buscar o ex-marido.

Encontrei-a conversando com Bruce na sala. Mesmo fedendo à carne enlatada, os cumprimentei e expliquei só uma parte do problema, para não ter que contar nada sobre o bolo. Ela prontamente concordou e Bruce decidiu acompanhá-la.

Assim que saíram, subi a escadaria correndo e fui para o quarto tomar banho. Enquanto me despia enviei uma mensagem de texto para Edward com o seguinte pedido: me pega no resort às 20:00. Tou com saudade. Beijo molhado.

Larguei o aparelho na cama e me tranquei no banheiro torcendo para que quando ele chegasse — certo de que me levaria ao cinema — tudo já estivesse resolvido e a noite virasse só alegria. Então tomei uma ducha rápida e me maquiei ali mesmo.

Quando terminei, abri a porta do banheiro e dei de cara com Alice, sentada na cama, gargalhando feito uma demente. Em sua mão esquerda estava o copo do liquidificador cheio de margarita e na direita o celular.

— Êtcha bagaça... Sua anta, você usa o meu celular e se esquece de assinar a mensagem? — chupou o canudinho que estava enfiado na margarita e fixou os olhos no visor do telefone. — Escuta, o T-zed respondeu: Alice, por favor, pare com isso. Emmett já me bateu por causa dos seus sentimentos equivocados. Não acha que é o suficiente?

— Coitado — murmurei com dó.

— Espera aí, a melhor parte vem agora. Eu respondi assim: Ed, é só me roubar pra você, porque roubar pra comer não é pecado. Vem cá agora e encosta “neu”!

Fiquei assistindo a infeliz rir a ponto de engasgar com a margarita, o que fez a veia do meu pescoço voltar a pulsar forte. Por não ter mais energia para gritar, me joguei na cama e afundei o rosto no travesseiro.

— Bella, não reclame. Pra quem tá se afogando, jacaré é tronco. Tudo isso vai manter o cara longe da mansão e... — gargalhou mais um pouco. — Fazê-lo torrar os miolos pensando em como te contar que a sua melhor amiga deu em cima dele! — a ouvi sugar o canudo. — Pôxa, esse sábado tá “dúbom”.

O que eu fiz? Grunhi de raiva no travesseiro.


(...)


Descansei por dez minutos e depois me vesti às pressas. Tive que arrastar Alice pelo corredor e a impedi de rolar escadaria abaixo. Mas o que eu não esperava, era encontrar os pais do meu namorado completamente entediados na sala.

— Chegaram? — sorri nervosa. — Olá, Dr.Cullen — engoli em seco, sem saber como agir.

— Olá, Bella — ele respondeu levantando-se do sofá.

— Pessoal, que caras são essas? Estamos numa festa! — Lice me obrigou a segurar o copo do liquidificador. — Tô tão feliz com vocês aqui — rindo, correu para abraçar as visitas e a primeira vítima foi o doutor. — Obrigada por vir. Mas Doc, bora se animar, né?! — agarrou as mãos dele e chacoalhando-as cantarolou: — La mano arriba, cintura sola. Da media vuelta, danza kuduro... Oi oi oi, oi oi oi...

Eu, que acreditava já ter passado por tudo nessa vida, quase pari de vergonha. Se é que isso é possível. Por um momento, congelei com os olhos arregalados e só descongelei quando Lice quis obrigar o doutor a cantar também.

— Canta, Doc! Canta!

— Mas não sei a letra — respondeu totalmente deslocado.

Quase enfartando, me apressei para separá-los e desastrosamente procurei contornar a situação.

— Olha só que coisa — soltei uma risadinha falsa. — Minha amiga hoje está meio... meio... coisada.

— Você quer dizer alterada? — indagou Sarah.

— Eu já volto — pisquei o olho e saí empurrando a bêbada para a cozinha, sem desmanchar o sorriso mecânico.

Chegando lá, puxei bruscamente uma cadeira e forcei a filha da mãe a sentar.

— O que deu em você? — enraivecida, coloquei a margarita na mesa. — Não se canta Kuduro pras pessoas! Faz isso outra vez e eu juro que te chuto até você virar do avesso!

— Blá, blá, blá... — ela gargalhou batendo a mão na coxa.

— Tudo bem, Bella — dei dois passos atrás, pedindo para mim mesma. — Inspira e expira. Inspira e expira.

E foi nesse exato momento que Emmett retornou, carregando uma bandeja na qual tinha um único drink azul.

— Perfeito! — o alcancei, arquitetando um plano. — Me dá isso aqui — roubei a bandeja. — Volta para o bar e prepara mais.

— Não! Devolve, Bella — tentou pegar o drink e girei o corpo, escapando.

— Droga, faz o que eu mandei! — rosnei.

— Mas esse é do T-zed — ele vociferou enquanto eu deixava a cozinha.

Caminhei cuidadosamente em direção ao ex-casal. O meu intuito era deixá-los descontraídos através do álcool. Talvez assim não se importassem tanto com as minhas sucessivas mancadas.

— Imagino que estejam com sede — lancei o meu melhor sorriso. — Sarah? — educadamente ofereci a bebida.

— Hãã... Preferia uma cerveja. Tem?

— Claro — fiquei admirada com a sua simplicidade. Não era a primeira vez que a atriz me surpreendia. — Aceita, doutor? — inclinei-me com a bandeja, na esperança de agradar.

— O que é? — ele olhou para o drink.

— Érr... — na verdade, eu não fazia ideia, porém presumi pela taça em que a bebida estava servida. — Blue Martini.

Por um segundo o cientista hesitou, mas acabou pegando o drink.

— Por que não? — ele sorriu e tomou um gole. — Só um não vai fazer mal.

Satisfeita, retribuí o sorriso e troquei um sutil olhar com Sarah. Pelo que entendi, ela também ficara surpresa com a atitude do ex, o qual era sempre sério e centrado demais.

— Vou buscar a cerveja — informei, vibrando por ter conseguido fazer uma “média” com o doutor.

Infelizmente, bastou eu voltar à cozinha para desanimar. É que me deparei com Emmett de braços cruzados, me encarando como se eu tivesse esbofeteado a mãe de alguém. Quanto a Lice, ria descontroladamente e Toby mexia em um Iphone.

— O que aconteceu? — estranhei. — Ninguém vai trabalhar?

— Bella, sua Pumba, sua Hakuna Matata, nem rezadeira dá jeito em você! — reclamou o rabugento Emm.

— Não precisa ofender — coloquei a bandeja na pia.

— Eu ia servir o presente do T-zed só no final da festa. Por acaso sabe como foi difícil arranjar a paradinha sem receita médica? — se aproximou para me afrontar.

— Do que está falando, seu exagerado? — novamente perdi a paciência.

— Não sei como contar, então vai de qualquer jeito — Emmett revirou os olhos. — Amassei três Viagras e coloquei na bebida.

No primeiro momento não reagi, apenas fiquei assistindo Alice gargalhar até cair da cadeira levando sua margarita junto. Só quando notei que Emm não estava brincando, foi que o meu cérebro realmente processou a informação. Tudo aconteceu em um estalar de dedos. Faltou-me ar, chão, voz, equilíbrio... E ali mesmo, no meio da cozinha, tive um colapso nervoso. O acúmulo de preocupações me fez perder as forças e só não desabei inteira porque Emmett se adiantou e me segurou.

— Bella, qual o seu nome completo? Quero postar essa putaria no meu Facebook — o Pancinha começou a digitar rápido no Iphone.

— Droga, Toby! Corre lá na sala vê se tomaram o bagulho todo — Emmett ordenou, tentando sem sucesso me colocar de pé. Fiquei parecendo uma boneca de pano.

— Vai uma água com açúcar aí? — Alice perguntou completamente ensopada.

Com a ajuda do imbecil, recuperei um pouco do equilíbrio e me apoiei na pia, mas meu estômago ainda embrulhava horrores. Foi então que, mais cedo do que gostaríamos, Toby retornou e mesmo cansado pela corridinha, desatou a falar:

— Olha só, o côroa aloprou legal — exibiu a taça vazia. — Véio, é por isso que gosto de vir pra cá. Sempre tem um “Zé Rodela” que faz a pior merda desse mundo! Agora o pai do aniversariante vai querer traçar geral! — pulou, empolgado com a bagunça. — Esse é o melhor aniversário de todos os tempos!

Perceber um fundinho de verdade na declaração do maldito garoto me deixou tão deprimida e frustrada que o choro ficou preso na garganta. Àquela altura, queria arrancar os cabelos.

— Pelo amor de Deus! — agoniada, bati as mãos na mesa. — Alguém pesquisa lá no Google. Deve ter um jeito legal de uma garota contar para o namorado que deu Viagra para o pai dele — quase enfiei a cara na madeira.

— Vou te bater a real, magrela — Toby chegou junto. — Se existisse uma revista só com as pessoas mais burras do mundo, você estaria na capa.

— Eu não aguento — Alice segurou a barriga e continuou rindo. — Só tenho uma palavra para descrever esse dia: fenomenal!

(...)

Meus amigos e eu montamos guarda em frente ao banheiro social para o caso do doutor precisar de ajuda. Ele estava trancado lá já fazia uns 30 minutos e temíamos o pior. O que pode ser pior do que ficar de “barraca armada” no aniversário do único filho? Enfartar! Não é brincadeira não, a dose foi pra arregaçar.

— Será que devo bater na porta e perguntar se está tudo bem? — cochichei roendo todo o esmalte das unhas.

— Jasper não acha boa ideia — meu irmão respondeu.

— Ei, você não tinha parado com essa esquisitice de falar na terceira pessoa? — Lice o cutucou.

— Jasper ainda desliza quando tá nervoso — bufou se encostando na parede.

— Bella, tem certeza que o SMS foi enviado? — Emmett sussurrou.

— Tenho — ansiosa, esfreguei o rosto.

Como a situação fugiu do controle, tive que enviar uma mensagem para Edward contando sobre o jantar e o infeliz incidente, porém não tive coragem de explicar como acontecera. Tudo o que o selvagem sabia era que o seu pai estava com um “probleminha”.

— Será que o T-zed vai mandar todo mundo “pra terra cuidar”, ou só você, Bella? Por que não estava nos planos de Jasper morrer hoje.

— Ôh, paciência... — respirei fundo. — Chega de falar besteira. Vou lá fora ver se ele já chegou.

— Vou ralar peito daqui também porque tenho que entregar o bolo da hóspede. A festa dela já começou e está bombando. Quem sabe o Jasper descola uma dama de honra embriagada — meu irmão foi o primeiro a se mandar.

— Emmett, fica aí de prontidão — puxei Alice que não queria desgrudar do namorado. — Se acontecer algo, você... você...

— Você faz o de sempre? — completou sarcástico. — Grita no habitual tom desesperado de quem entrou para o grupo errado que não consegue organizar uma festinha sem encher de álcool a própria caveira, queimar a comida e excitar o pai alheio?

— É! — respondi rápido e saí rebocando Alice.

Para chegar ao jardim precisava passar pela sala, onde Sarah esperava impaciente. Pedi a Toby para entretê-la com suas piadinhas, mas não sabia até quando conseguiria sustentar a situação. Enquanto tentávamos atravessar o cômodo de cabeça baixa, Sarah se levantou do sofá e nos chamou, impedindo a fuga.

— Meninas, o Carlisle está bem?

— É possível — ergui a cabeça com um sorriso forçado. — Acho melhor deixarmos o doutor... à vontade.

— Eu sugiro que dê algum remédio a ele — Bruce, assim como Sarah, deduziu que o cientista estava com problemas intestinais.

— Sei não, mas sei lá... Belinha já ajudou muito o sogrão. Ninguém sabe o que pode acontecer se ela ajudar ainda mais.

Antes que me fizessem traduzir a declaração da maluca, meu pai saiu do escritório, deixando-me completamente surpresa.

— Pai, cadê a encomenda?

Despreocupado, sentou em uma poltrona e só então respondeu:

— Calma, faz alguns minutos que deixei na cozinha.

— Obrigada, pai — respirei aliviada. — Desculpa — fitei Sarah. — Vou ter que me ausentar um minutinho.

Contente por ter menos uma coisa com que me preocupar, entrei na cozinha com Lice, onde esperávamos encontrar um lindo e caro bolo.

— Ué, cadê o troço? — ela perguntou olhando para mesa onde só estava a carne na assadeira.

Olhei à nossa volta e, realmente, nada de bolo.

— Meu pai deve ter colocado na geladeira — comentei, indo abri-la. — Bingo! — me empolguei ao ver a enorme embalagem de papelão da confeitaria.

Com extremo cuidado, peguei a caixa e coloquei-a sobre a mesa.

— Prontinho, agora as coisas vão melhorar — falei com um tico de esperança.

— Se você diz... — Alice respondeu antes de enfiar a cabeça dentro do refrigerador.

— Fala sério, essa alma quer reza — contrariada, resmunguei pro nada. Depois, ralhei. — Lice, sai daí!

— Concorde, arrepiei! — ela apareceu com uma garrafa de espumante. — Vamos brindar, desenrolada!

— E você ainda tem fígado?

— Te mete, linda — e jogou o cabelo. — Bora chapar o coco que o espumante é da festa da hóspede — começou a forçar a rolha.

— Não tenho tempo pra isso.

Na dúvida se levava o bolo para o jardim onde as mesas estavam postas, decidi logo retirá-lo da caixa e comecei me livrando da tampa. Acontece que eu não estava nada preparada para o que encontrei.

— Uiii, que veia peculiar é essa pulsando no seu pescoço? — Alice percebeu que eu não estava legal e se aproximou para espiar o bolo. — Mas que esculhambação é essa? — voltou a gargalhar.

— Que esculhambação é essa?! — enfurecida, lhe agarrei pela gola do uniforme. — É um pênis gigante, Alice! É isso que é! — sacodi a sujeita com força por não conseguir mais me refrear. — O que eu vou fazer com essa obscenidade? — choraminguei, largando-a.

— Espera. Caraca! Não é só um bolo em formato de pênis, é um bolo-pênis de chocolate. É um pinto preto! — a imbecil rinchou de tanto rir.

Só existia uma explicação plausível para a calamidade. Meu maldito, estabanado, imprudente, babaca, lerdaço, vagabundo e irritante irmão havia trocado as caixas. Então se o bolo da despedida de solteira estava comigo, o de Edward só podia estar no salão de festas rodeado por garotas bêbadas.

Com as mãos tremendo, peguei o celular e telefonei para Jazz, que só atendeu no último toque.

Já sei, já sei, já sei! — ele berrou chateado. — Percebi a burrada. Não precisa me engolir vivo. Estou levando a porcaria do bolo de volta, mas tiraram uma fatia.

— Eu não quero nem saber! Traga agora! — vociferei.

Depois que desliguei, comecei a andar em volta da mesa procurando desesperadamente me acalmar. Mesmo tendo desistido da surpresa, não podia perder o bolo que Sarah encomendou com tanto carinho. Só de imaginar tal coisa acontecendo, ficava aflita a ponto de transpirar loucamente.

— Fica de boa. O importante é a intenção — Alice soltou a frasezinha mixuruca, ainda lutando contra a rolha do espumante.

A todo instante, me perguntava onde estava Edward e, principalmente, se ficaria louco pelo que fiz com o seu pobre pai.

— Vai, droga! Vai! — Lice, alvoroçada, chacoalhava a garrafa.

Existem momentos na vida de uma garota que tudo parece ficar em câmera lenta. E eu estava no meio de um desses momentos. Quando cansei de perambular, meu irmão surgiu na entrada da cozinha e meu coração se encheu de esperança. No entanto, no mesmo milésimo de segundo, ele ouviu o repentino estampido da rolha saltando da garrafa e, ao se assustar, embananou-se e derrubou o importantíssimo bolo no chão.

— NÃÃÃÃOOOO! — gritei, ajoelhando-me junto aos destroços.

Por ser incapaz de aceitar o desastre, enfiei as mãos no bolo esbagaçado, tentando inutilmente remontá-lo. Desolada e suja de cobertura, não desisti até ouvir os murmúrios das pessoas à minha frente. Não só Sarah, como também Bruce, Toby e meu pai lamentavam o acidente.

— Me desculpe — balbuciei para Sarah.

Visivelmente desapontada, a atriz balançou a cabeça antes de criticar:

— Você só tinha que buscar o bolo e guardá-lo, Bella. Era uma tarefa tão simples. Como pode ser tão desastrada?

Alice e Jasper não se delataram ou me defenderam, e mesmo que fizessem isso não me sentiria melhor, pois a responsabilidade era toda minha. Quem se dispôs a organizar tudo fui eu.

— Sinto muito — Sarah falou para os demais. — Preciso ir.

— Por favor, não vai — implorei angustiada.

— Depois telefono para o Edward — com um rápido aceno de mão, ela se despediu e nos deixou.

— Nós também já vamos — Bruce chamou a atenção do filho.

— Não, não — levantei rápido, limpando os dedos no vestido. — Ainda vai ter festa, eu só preciso... — ofeguei, sem saber como continuar.

— Bella, não tem mais clima. Deixemos para depois — meu pai interveio.

— Boa noite a todos — Bruce saiu arrastando Toby.

— Foi mal, mana — disse Jazz quando passou por mim. — Vou ver como está o doutor.

Depois que meu pai também saiu de fininho, Alice pegou a carne enlatada e colocou com assadeira e tudo dentro de um saco de lixo.

— Tenho que jogar essa porcaria lá fora e quando voltar, limpo a sujeira. Vá trocar de roupa, está com cobertura de baunilha até nos cabelos.

Demorei mais de dois minutos para conseguir dar um passo, porém os seguintes foram automáticos e quando dei por mim, já estava em frente ao meu quarto. Não queria me sentir culpada, estúpida e fracassada, mas naquele momento era exatamente assim que me enxergava. Como não queria que Edward enxergasse o mesmo, decidi que o evitaria. Ele teria que passar o aniversário sozinho, porque eu estava completamente esgotada.

Entrei no quarto escuro e fui direto para a cômoda, onde liguei o abajur e abri a gaveta de toalhas. Logo que olhei para o espelho acima do móvel assustei-me com a figura refletida lá. E não. Não era eu toda suja de bolo, mas sim Edward deitado na minha cama. Imediatamente me virei, interrogando:

— O que faz aqui?

— Também estou feliz em te ver, Bella — ele sorriu, todo gato em um terno cinza grafite.

— Espera. Desligou o celular para não receber mensagens da Alice? Foi isso? Não sabe sobre o aniversário? E como entrou aqui? — confusa, o enchi de perguntas.

— Hãã... Entrei pela janela — levantou-se. — O que mais queria saber? — franziu o cenho, intrigado com o meu nervosismo. — Você está bem?

Sentindo-me “colocada contra a parede”, parei para considerar as opções:

a)Mentir

b)Desconversar e entretê-lo com sexo

c)Pôr toda a culpa em Alice

Pensar no quanto seria bom juntar todas as opções me distraiu um pouco.

— Bella? — pressionou.

— Oi? — voltei à realidade.

— Qual o problema?

— Tá bom! Tá bom! — literalmente joguei a toalha e tomei fôlego antes de desembuchar. — Deixei queimar o pernil do seu aniversário, tudo que tem pra comer é um pinto preto, sua mãe agora me odeia e seu pai está preso no banheiro com overdose de Viagra. Gostou? Tem minha permissão para terminar comigo — dei um tapa em seu braço. — Foi bom enquanto durou.

Edward abriu a boca para replicar, mas acabou optando pelo silêncio, o que foi bem pior. Então ficou me observando e, envergonhada, cobri o rosto com as mãos para não sofrer com a provável censura em seu olhar.

— Vamos ver o quão ruim está a situação — ele pegou a minha mão e me forçou a segui-lo porta à fora.

— Não vamos mexer no que está quieto — tentei resistir, só que de nada adiantou.

Atravessei o corredor de cabeça baixa, totalmente acuada. Queria fazer ou falar algo que amenizasse minha condição perante o selvagem, só que eu tinha ultrapassado todos os limites. Sabia que ele não me perdoaria facilmente, pois uma coisa era enlouquecê-lo, e outra completamente diferente era enlouquecer seus pais. Mas justo quando pensei que tudo estava perdido, ao pararmos no topo da escadaria, ouvi um sonoro e coletivo:

— SURPRESA!

— Aaaahhh! — gritei e me escondi atrás de Edward, com o meu coração à mil.

Precisei de coragem para esticar o pescoço e perceber que todos estavam na sala, com carinhas estranhamente felizes. Inclusive o doutor, Sarah e Bruce.

— Vai, é pra você — aturdida, cutuquei Ed.

— Não, é pra você — afirmou rindo.

— Como é? — arqueei a sobrancelha.

— Bella, já faz semanas que desconfiei que você pretendia preparar uma surpresa. Estava estampado no seu rosto. Então para não decepcioná-la com a minha reação e falta de entusiasmo, decidi que a surpresa seria com você. Alice sugeriu uma brincadeira e eu gostei da ideia.

— Como presente de aniversário, T-zed pediu pra todo mundo colaborar com a pegadinha — ela explicou, comemorando aos pulos.


— Isso é sério? — boquiaberta, o empurrei para o lodo e desci as escadas rapidamente. — Vocês sabotaram o jantar de propósito? Não foi a minha falta de sorte? — corri os olhos por todos os rostos e estagnei no que mais me preocupava. — Dr.Cullen, o senhor está bem? — verifiquei receosa.

— Estou, Bella — ele abriu um sorriso. — Não mereço crédito nenhum pela brincadeira. Só tive que ficar alguns minutos no banheiro. Espero que leve tudo na esportiva.

— É isso aí, porque mereço a maior parte do crédito. Como disse o Ed, euzinha que bolei e coordenei tudo — Lice escancarou os braços esperando um abraço e tudo que recebeu de mim foi um olhar ameaçador.

— Não acredito que foi tudo armação — murmurei.

— Nem tudo — Emmett piscou o olho e eu soube que se referia ao seu momento com Lice na cozinha.

— E o que não foi armação? — fiquei curiosa.

— A festa da hóspede — Jasper respondeu.

— E Emmett me batendo — o selvagem se posicionou ao meu lado. — Não conseguiria viver em um mundo onde isso é possível — brincou.

— Pai? O senhor também ajudou? — eu quis saber.

— Só um pouquinho — ele riu.

— E o bolo? — meio sem jeito, fitei Sarah.

— Ah, me desculpe pelo que falei na cozinha. Alguém precisava dramatizar — divertida, pegou minha mão para me confortar.

— Uau... — balbuciei, com dificuldade para digerir.

— Como se sente, Bella? Gostou da surpresa? — Bruce perguntou.


— Para falar a verdade, não sei. Juro. Não sei se fico aliviada ou se odeio vocês pra sempre — fechei a cara, provocando muitas risadas.

Enquanto a galera se dispersava pela sala, comentando as barbaridades que fizeram comigo, Edward colocou um braço em volta da minha cintura e sussurrou:

— Não fica triste. Não imagina o quanto já ri hoje. Gargalhar foi melhor do que ter que fingir surpresa no jantar que você queria oferecer.

— Jura? — o encarei.

— Acredite, esse está sendo o melhor aniversário da minha vida e proporcionou isso apenas — beijou o topo na minha cabeça — sendo você mesma.

— Quer dizer que os meus gritos de pânico te divertiram?

— Eu seria um péssimo namorado se respondesse que sim? — sua expressão foi de dúvida.

Não consegui mais ficar brava e baixei à guarda, abrindo o sorriso que ele tanto esperava.

— Não quero ser inconveniente, mas o tempo está correndo e temos reserva —Sarah nos comunicou.

— Reserva? — fiquei sem entender.

— Um amigo meu tem um ótimo restaurante e combinamos que comemoraríamos o aniversário lá — ela educadamente esclareceu.

— Não faz pergunta besta, Bella. Vamos logo trocar de roupa que está todo mundo com fome — Alice me empurrou escadaria acima.

E foi assim que o aniversário de Edward ficou marcado como o dia da pegadinha. Depois que tomei banho e troquei de vestido tudo começou a fazer sentido. Lice me convencendo a sair de casa e esgotando a minha paciência; o selvagem passando de carro sem nos flagrar; Jasper mexendo no forno e trocando os bolos; o doutor milagrosamente aceitando o drink; Toby grudado no Iphone, relatando o meu sufoco, e muitas outras coisas. Mas o melhor mesmo foi não ter feito o doutor ingerir Viagra, pois do contrário, nossa relação sogro e nora nunca mais seria a mesma.

No restaurante fiquei sabendo que Edward permaneceu quase o tempo inteiro na mansão, sempre ciente de cada passo e chilique meu. Por alguma razão, ele adorou “brincar com a minha sorte”. Foi sacanagem do pessoal, só que toda a armação os uniu o suficiente para que o restante da noite fosse só risadas, conversa fiada e diversão. Até mesmo o doutor ficou completamente à vontade.

Foi uma pena ter passado semanas planejando o elegante jantar surpresa, mas me serviu de lição. O aniversariante não queria presentes, bolo chique e uma linda decoração. De fato, nada disso tinha a cara do selvagem, porque para ele bastava uma comidinha simples, a família, amigos e eu.

...

Fiquei imersa nas lembranças por um bom tempo e só despertei quando Edward surgiu na cozinha, já banhado e faminto. Satisfeita, servi o café da manhã, mas ele pouco falou. Imaginei que estivesse sentindo falta de Indah, a qual permaneceu em sua casa aos cuidados de Emmett, como sempre. Bem, ao menos eu torcia para que fosse isso.


— Não se preocupe — falei disposta a confortá-lo. — Emm não quer morrer. Ele vai seguir à risca as instruções que deixou. Além do mais, nossos pais estão de olho nos dois.


— Eu sei — respondeu remexendo a comida, um tanto distante.

(...)

Assim que terminamos de comer, desfizemos as malas e nos preparamos para “cair” na trilha rumo à cachoeira. A mesma que meus amigos conheceram em nossa última e breve passagem pela ilha.


Para ser honesta, eu saí super animada da casa, queria me aventurar na selva. Só que depois de quase uma hora de caminhada, comecei a sentir o efeito do meu despreparo físico. Não conseguia acompanhar o ritmo de Edward, ainda mais tendo que serpentear por entre a vegetação e transpor rochas escorregadias pelo musgo. O calor e a umidade me deixavam louca. Eu mal tinha energia para seguir em frente.


— Pausa — ofegante, apoiei as mãos nos joelhos.


— Já cansou? — ele debochou, ajustando as alças de sua mochila de camping.


— Só me diz uma coisa — enxuguei o suor da testa. — Como a fresca da Alice e o molenga do Jasper conseguiram chegar a essa cachoeira?


— Eles foram de jipe por outra trilha.


Perplexa, coloquei as mãos na cintura com vontade de esganá-lo.


— Como me diz isso só agora? Por que a gente não veio de jipe?


— É que a caminhada faz parte da diversão — sorriu como se fosse óbvio.


— Diversão? É alguma piada?! — me chateei.


— Calma. Falta pouco. Se quiser eu te carrego — tentou me agarrar, mas escapei.


— Não, não. Eu tenho o meu orgulho — ergui a cabeça e enchi os pulmões. — Avante, companheiro! — marchei sem saber a direção, com Edward no meu encalço rindo baixo.


Continuei firme e forte por cerca de três minutos, então o meu namorado me deteve, bloqueando o caminho com um braço.


— Para onde está indo? — ele franziu a testa, incapaz de disfarçar o quanto se divertia às minhas custas.


— Você sabe — repliquei carrancuda.


— Se estiver indo para a cachoeira, é por ali — indicou a direção contrária.


— Obrigada. Da próxima vez uso um GPS — mesmo seguindo a instrução, mantive a pose.


Caminhamos por mais vinte minutos e minhas pernas voltaram a pedir misericórdia.


— Fala a verdade — sacudi a mão tentando assassinar um inseto que me perseguia. — Estamos perdidos como no filme A Bruxa de Blair, não é?


— A bruxa de quem...? — estreitou os olhos, confuso.


— Esquece.


— Bella, não aprendeu nada com o Instinto Radical?


— Até parece — murmurei pelo canto da boca. — Mesmo quando está sentado bem do meu lado, fico me descabelando achando que vai morrer numa das maluquices que faz.


— Isso é verdade — admitiu por já ter me visto gritar com o televisor.


— Diz aí, por que está de camiseta preta nesse calor? — dei uma puxada na manga.


— Não queria distraí-la. A cachoeira está logo adiante — desconversou. — Depois daqueles arbustos.


— Acho bom ela valer a pena — apressei o passo e Edward foi ficando para trás.


Instigada pelo ressonante crepitar da água, usei o que restou das minhas energias para percorrer os últimos vinte metros. Resvalei por entre a folhagem até, finalmente, ficar diante da cachoeira. Cercada de paredões rochosos, ela possuía uns 70 metros de queda d’água, formando abaixo uma piscina natural verde esmeralda. O lugar, que tinha uma incrível diversidade de plantas e flores, era aproximadamente do tamanho de um campo de futebol e, ainda assim, parecia um pequeno diamante incrustado no meio da selva.


Boquiaberta, instintivamente dei três passos à frente, pisando cuidadosamente no terreno inteiramente coberto por folhas secas. Quando Edward parou do meu lado, quis manifestar entusiasmo, mas não consegui por estar hipnotizada pelas águas que fluíam em forma de uma imensa cortina translúcida pelo canyon.


— Decepcionada? — ele questionou, colocando a mochila sobre uma rocha.


— Esse lugar — mal conseguia me expressar. — É o fim de mundo mais lindo que eu já vi.


Empolgadíssima, rapidamente me livrei dos tênis, da roupa suada e fiquei só de lingerie. Feito uma louca, disparei na direção da cachoeira, sem nem perguntar se era seguro. Contudo, ao sentir a gélida água nas minhas panturrilhas, hesitei.


— É tão frio! — gritei aos risos.


— Você se acostuma.


Enquanto Edward me observava da margem, fui imergindo aos poucos. Como ele garantiu, o meu corpo logo se habituou à temperatura e lancei-me para o centro da lagoa, desfrutando da água e de todo o ambiente que a cercava.


— Não fica aí parado! — berrei, chamando-o com as mãos.


— Vou deixar para depois — com um sorriso fraco recusou o convite.


Frustrada, bati as palmas na água e, em seguida, voltei a mergulhar. O humor de Edward me torturava e parte de mim não queria lidar com isso, só que a pergunta insistia em ecoar na minha mente: o que o afetara tanto na Finlândia?


De costas para ele, permaneci perto da cachoeira por tempo o suficiente para me convencer de que nada daquilo combinava conosco. Talvez Edward precisasse naquele momento de uma amiga, e não de uma namorada. Embora eu tentasse ser em tempo integral as duas, às vezes, o relacionamento exige que sejamos apenas uma. Centrada nisso, virei-me para encará-lo, mas ele já não estava na margem. Na verdade, não estava em lugar algum. Em um ímpeto, nadei até conseguir sair da água. Depois, rapidamente retirei da mochila de camping o blusão verde que usei mais cedo e me cobri.


Eu estava intrigada, atordoada e ansiosa. Não era do feitio do selvagem me abandonar sem justificativa.


— Edward? — chamei em um tom brando, vasculhando o local com os olhos. — Edward, cadê você? — dessa vez forcei bem a garganta. — Isso não tem graça! — girei o corpo, buscando-o.


— Aqui em cima.


Automaticamente olhei na direção da voz e o avistei no topo de uma árvore, há alguns metros da margem direita da lagoa. Um pouco aliviada, contornei a água, posicionando-me em baixo do galho em que ele estava assentado.


— Qual o problema? — continuei olhando para cima sem conseguir disfarçar a minha frustração. — Por que não conversa comigo? Passamos praticamente um mês sem nos falarmos. Edward, seja lá o que for, pode se abrir comigo. Ainda sou sua amiga, lembra?


Não foi nada agradável ser golpeada pelo silêncio do homem que nem mesmo foi capaz de sustentar o meu olhar, preferindo estalar os dedos das mãos. Magoada, baixei a cabeça e esfreguei a testa, ficando cada vez mais angustiada. Obviamente, a minha imaginação começou a trabalhar. Porque eu, melhor do que ninguém, sabia o quanto os eventos de poucas semanas podiam influenciar os pensamentos e decisões de uma pessoa.


— É grave, não é? — presumi. — Nem sei o que pensar... — titubeei antes de também aderir ao perigoso silêncio, mas ele durou pouco. — Por favor, me corrija se eu estiver errada, porque preciso fazer essa conversa avançar — tomei fôlego antes de perguntar. — Agora que está aqui não tem mais vontade de voltar para Orlando? É isso? — aguardei em vão, pois não obtive resposta. — Conheceu alguém na viagem que te fez sentir que pertence a outro lugar?


You're The Reason I Come Home – Ron Pope


Assim que me calei, Edward saltou do galho, caindo agachado há poucos palmos de mim. O único movimento que fez depois foi o de erguer a cabeça, fixando os olhos nos meus. Olhos que tentavam transmitir muito, mas nada eu conseguia decifrar.


Sem deixar de me fitar, ele vagarosamente se levantou e ficou cara a cara comigo. Desejei tocar o seu rosto parcialmente coberto pelos cabelos, mas não ousei romper os centímetros que nos separavam. E não pretendia fazer isso até entendê-lo.


Esperei por uma explicação, um sinal, uma pista, no entanto, somente depois de estudar bem o meu semblante amargurado, foi que o selvagem enfim se manifestou.


— Eu não pertenço a um lugar — com os dedos, suavemente desfez a ruga de preocupação da minha testa. — Pertenço a você.


Involuntariamente segurei a respiração, afetada de muitas maneiras pela confidência. Embora Edward e eu fôssemos perdidamente apaixonados um pelo outro, não costumávamos verbalizar o que sentíamos. Somos o tipo de casal que prefere gestos ao invés de palavras. Ele nunca nem mesmo chegou a usar o já gasto e manipulável “eu te amo”. Assim como eu também nunca necessitei ouvir para saber. Pelo menos não até aquele momento. Não até a confissão revirar tudo quanto é sentimento dentro de mim.


— Então... — forcei um meio sorriso. — O que há de errado?


— Tomei uma decisão na Finlândia. Só não sei se está pronta para ouvi-la, ou... aceitá-la.


— Me conta. Por favor.


Aparentando nervosismo, ele sacudiu a cabeça para afastar o cabelo dos olhos e se concentrou ainda mais em mim. Puxando um pouco a gola da camiseta, revelou um cordão de couro rudimentar. Sem entender absolutamente nada, estiquei a mão e toquei o fio. Não satisfeita, delicadamente fui puxando-o para fora da camiseta até que o penduricalho que estava preso nele caísse reluzente sobre o tecido preto. Como quem leva um choque, me afastei abruptamente, revezando olhares entre o rosto de Edward e o impressionante diamante suspenso em seu peito. No formato retangular — corte geralmente usado em esmeraldas —, a pedra estava cravejada em uma linda e delicada aliança de ouro branco.


— O que está fazendo? — a pergunta me escapuliu.


— A coisa certa? — respondeu esperando aprovação.


Examinei bem o seu rosto confuso e acabei soltando uma risadinha sem humor.


— Desculpa, Edward — enfiei as mãos nos bolsos do blusão. — Você nem sabe onde está tentando se meter — baixei a vista.


— Como assim? — inclinou a cabeça para que eu não fugisse de seu olhar.


— Sou sua melhor amiga, certo? E como tal não posso deixar de te mostrar a verdade.


— Que verdade?


— Escuta, não é porque eu não te mereça, ou porque não tenha certeza de que sente o mesmo que eu sinto. Só é... — pressionei os lábios procurando a definição correta. — Desnecessário. Você passou um mês longe, a saudade colaborou. É normal. Estamos namorando faz um tempo e como é um bom sujeito, pensou que era hora de levar nossa relação adiante. Compreendo. Mas — franzi o cenho — já é um milagre estarmos juntos. Nossas vidas tendem a nos impulsionar em direções contrárias. Não vamos abusar da sorte.


Pensativo, Edward virou o rosto. Não queria magoá-lo e parte de mim ficou eufórica quando viu o anel, porém, a parte menos egoísta, vetou a atitude precipitada.


— Tudo bem — ele disse retirando o cordão do pescoço. — Se é assim, só me garanta que não está simplesmente com medo.


— O quê? — achei a suposição ridícula e sorri. — Como pode pensar isso depois de tudo que vivemos?


Edward voltou a me encarar, dessa vez com uma intensidade e convicção que fez o meu sorriso esmorecer e sumir. Nem mesmo consegui piscar os olhos.


The Script - Im Yours With


— Porque eu conheço você — afirmou calmamente. — Reconheço o medo na sua voz, na sua respiração — lentamente me rodeou, se posicionando atrás de mim. — Mas não é culpa sua. Eu também sinto — sussurrou próximo à minha orelha. — Medo de estragar o que já é perfeito tentando melhorá-lo. A complexidade, o risco, o desafio... O frio na barriga — afundou o rosto em meus cabelos, aspirando profundamente.


— É loucura — balbuciei.


— Eu sei — levou o nariz ao meu ombro, mas sem o encostar. Somente absorvendo meu cheiro. — Por isso é tão tentador.


Cedo demais ele se afastou, voltando a ficar frente a frente comigo.


— Edward, eu...


— Façamos o seguinte — interrompeu-me com um tom naturalmente sensual e despreocupado. — Quando se convencer de que já aceitou a aliança desde o dia em que saltou do penhasco por mim, ainda que isso só aconteça daqui a um mês, um ano, ou até mesmo dez, voltamos aqui e a recuperamos — desprendeu o anel do cordão.


Edward tinha razão. Estava amedrontada, ainda mais por não termos exemplos de casamentos bem sucedidos, já que tanto os meus pais como os dele eram divorciados. Mas também estava certo quando afirmou que eu já havia dito “sim”. E disse tantas vezes, de tantas maneiras, que nem se quisesse conseguiria negar. Contudo, preferia entregar-me a “maré” e não me engajar em planos. Tudo o que fizemos até agora foi viver de momentos. Num dia Edward estava nos meus braços, e no seguinte, em algum outro lugar do planeta.


— Só por curiosidade, onde vai guardá-la? — admirei a joia.


Sem responder, Edward se distanciou dois passos. Com a mão direita, jogou o anel para o alto, pegando-o logo em seguida. Depois, com toda a sua força, o lançou em direção a parte mais funda da lagoa. Boquiaberta, vi o diamante ir embora tão rápido que nem pude protestar. O absurdo selvagem em apenas um segundo se desfez de milhares de dólares. Isso não é o tipo de insanidade que uma garota como eu está acostumada a presenciar.


— Não acredito — resmunguei entorpecida. — Nunca mais veremos aquela aliança.


— Talvez — ele só deu de ombros.


Tinha como Edward me deixar mais perdida? Numa hora ficou caladão, na outra quis se casar e, por último, jogou o anel fora como se não fosse nada.


— Está pensando demais — sussurrou, outra vez rodeando-me. — Por acaso não consegue ouvir isso?


— Ouvir o quê? — baixei a cabeça, balançando-a. — Estamos sozinhos.


— Exatamente — respondeu com ar vitorioso.


Demorei alguns segundos para realmente me conscientizar da situação. Sim, estávamos nas entranhas do Pacífico, longe dos rotineiros problemas, das interferências de nossos amigos e de tudo que nos manteve longe por semanas. Não havia nada em milhas que impedisse Edward de afastar o meu cabelo e roçar o nariz na minha nuca. Assim como também não havia nada que desacelerasse minha pulsação.


Virei-me e o selvagem afagou a minha bochecha. Automaticamente, inclinei o rosto, buscando mais de seu toque. Atendendo ao apelo, ele começou a roçar o polegar nos meus lábios, instigando-me mais do que eu previa. Devido a isso, suavemente depositei um beijo em seu dedo, provocando-lhe um delongado suspiro. Quase que imediatamente a sutil fagulha acendeu uma parte de Edward que somente eu conhecia. Um homem irrefreável que segurou meu rosto e pressionou a boca na minha. O beijo quente, úmido e ansioso definiu um novo ritmo as minhas batidas cardíacas, tornando impossível qualquer ação que não fosse a de saborear cada pedacinho de sua boca.


Embora existam diversos tipos de beijos, com as suas várias intensidades, não há nada como o beijo com saudade. Ele começa antes dos apaixonados se encontrarem e só termina depois que se restabelece o fôlego. Devorando-me com um alentado beijo repleto de saudade, Edward começou a deslizar as mãos por minhas curvas, mas o que fez em seguida, literalmente, deixou minhas pernas bambas. Sem reprimir suas vontades, com um ágil e firme movimento, puxou o zíper do blusão, abrindo-o inteiramente.


Ansiando por sentir a pele dele na minha, desvencilhei-me só um pouco, agarrei a barra de sua camiseta e a ergui, o ajudando a se despir. Com o peitoral exposto e os cabelos caindo no rosto, o homem de olhos arrebatadoramente azuis passou a admirar o meu corpo, cobiçando-o sem timidez.


The Fray- Kiss Me


Incapaz de me segurar, colei novamente os meus lábios nos seus e o levei a se ajoelhar comigo sobre a folhagem. Igualmente ensandecido, Edward encostou a testa na minha e se debruçou, forçando-me a deitar no chão. Ele fez isso só para me aprisionar entre os braços e joelhos. O contentamento no seu sorriso matreiro era indescritível, nitidamente sentia prazer só de me ver arfar na expectativa do ato.


Edward sempre foi imprevisível. Em alguns momentos mostrava-se inocente e meigo, enquanto em outros, intenso e selvagem. O que incita qualquer garota a querer se perder nessas variações. E eu me perdi. Tanto que demorei a perceber que estava apertando demais o braço direito dele, onde se encontrava a tatuagem do rito de passagem. Absorta, também demorei a notar que a lingerie molhada ficara transparente a ponto de meu namorado rosnar baixinho. Característica que sempre me enlouqueceu.


De modo torturante ele resvalou os dedos por minha barriga, os conduzindo lentamente até o fecho dianteiro do sutiã, o qual facilmente abriu. Instintivamente fechei os olhos, sendo tocada não só por Edward, mas também pela brisa morna da ilha. Para retribuir o carinho, coloquei as mãos em seu tórax e fui contornando os músculos até chegar ao abdômen rígido. Obviamente não demorei a alcançar o cós do jeans, entretanto, estava em busca de outra coisa. Por cima do tecido o acariciei e como resultado ele mordeu o lábio inferior, adorando. Desejando muito mais, abri sua calça e puxei-a só um pouquinho para baixo, a fim de intensificar a provocação. Lindo como só ele, o selvagem manteve a boca entreaberta e suas pálpebras tremularam conforme eu prosseguia com o agrado.


De repente, quase como se temesse o poder do meu toque, ele deteve minhas mãos e as imobilizou acima da minha cabeça. Vendo que eu não reagiria, deslizou as palmas ásperas por meus braços até tomar os meus seios. O contanto inicialmente modesto foi apenas mais uma prévia, pois segundos depois senti sua língua e lábios nos lugarzinhos mais eriçados. Não conseguindo me conter, deixei alguns gemidos escaparem. Imediatamente o meu namorado voltou a me observar, e fez isso sem deixar de sugar minha pele.


Aquele homem fascinante e cheio de contrastes possuía olhos que geralmente irradiavam confiança, vigor e muita sensualidade. Quando fazíamos amor, ele sempre me domava com o olhar e tinha de mim absolutamente tudo que queria. Como dessa vez não estava sendo diferente, permiti que se livrasse do pedaço de renda que ainda me cobria.


Satisfeito com minha nudez, roçou ternamente o rosto em minha barriga. Primeiro com o lado direito, depois com o esquerdo, como que para relembrar porque adorava tanto a minha pele. Foi impossível não sorrir com o gesto que findou em minhas coxas. Apertando-as, ele espalhou várias mordidinhas maliciosas, desde a panturrilha até a virilha.


— Como senti falta do seu perfume — murmurou, passando suavemente o nariz pela parte interna da minha coxa.


Não repliquei ou duvidei. Tudo o que fiz foi fechar bem os olhos. Então aconteceu. Sem hesitar, Edward beijou-me deliciosamente na região que era só dele. Apesar de não ser mais o homem inexperiente de antes, nunca se resguardava. Deixava-se guiar inteiramente pela urgência de me provar. E como nunca foi um cara “normal”, na sua cabeça não existia restrições com relação a nós. Tudo se resumia em querer e ter.


Depois de muitas noites em claro deitada na casa da árvore, imaginando quando Edward finalmente retornaria, estava sendo o paraíso sentir seus cabelos ondulando com a brisa sobre o meu ventre. Por isso entreguei-me e arqueei o corpo, gemendo sem nenhum constrangimento.


Stitch by Stitch- Javier Colon


O calor gerado pela extrema intimidade era quase sufocante, não podia resistir ao meu namorado e a sua forma de me amar. Recompensando-me por reagir exatamente como ele ansiava, Edward voltou a me encarar, usando agora os dedos para abrasar-me. Por um tempo, não consegui concentrar-me em nada além dos movimentos ousados que me causavam súbitas contrações.


Antes que as tais contrações me fizessem perder os sentidos, ajoelhei-me com o selvagem e beijei seu pescoço. O local tinha um cheiro gostoso de maresia com um leve toque de colônia, uma fórmula perfeita que me deixava toda arrepiada. Ainda assim, tive forças para correr as mãos por seus braços, topando com algumas já conhecidas cicatrizes. Segui tateando-o até chegar à nuca. Edward, relaxando, inclinou a cabeça para trás, permitindo que o lambesse da clavícula até o queixo, onde dei uma chupadinha. Depois, escorreguei uma palma pelas costas dele e alcancei seu bumbum. Com um sorriso insinuante ele retribuiu a apalpada, mas logo se levantou, puxando-me para que eu fizesse o mesmo.


Colocando-me de costas, retirou o blusão e o estendeu no chão. Em seguida, voltou para trás de mim e envolveu-me em seus braços. No mesmo segundo, senti sua respiração descompassada em meus cabelos. Ardendo inteira, perdi o fôlego no instante em que posicionou uma mão inquieta abaixo do meu ventre e outra no meu seio. Assim que comecei a contorcer-me ele desafiou o meu controle, sugando o meu ombro, mordendo-o. Mas só quando o próprio perdeu as estribeiras e pronunciou o meu nome com devoção e angústia, foi que ambos atingimos o limite. Não dava mais para aguentar. Estávamos há muito separados e necessitávamos daquela conexão física reavivando todos os sentimentos que sempre nos impeliram a lutar um pelo outro.


Virei-me para Edward e permiti que me erguesse pela cintura. Mantive minhas mãos firmes em sua nuca enquanto ele colocava os antebraços por baixo de minhas coxas, segurando-me de modo a me ter o mais inteiramente possível. Com minha testa colada na dele, esperei que nos encaixasse e tão cedo quanto eu almejava, ele assim o fez.


Quando se ama verdadeiramente alguém, momentos como esse chegam a causar dores no peito, porque a razão esvanece e todas as emoções se fundem no pequeno espaço. Você fecha os olhos e sente o homem por quem arriscaria tudo te preencher sem reservas, impetuoso, usando tudo de si para fazer o seu coração bater tão forte quanto o dele.


Sintonizei meus movimentos com o de Edward tentando beijá-lo, mas fazíamos amor tão vigorosamente que eu mal podia respirar. As sensações latentes faziam-no pressionar o corpo contra o meu num ritmo tão veemente que não conseguia parar de gemer. Meus seios inevitavelmente roçavam em seu peito úmido, e com tamanha proximidade pude enfim abocanhar seus lábios. Semelhantes aos meus, estavam incrivelmente quentes e trêmulos.


He Is We - I Wouldn't Mind


Impactado pelo beijo, o selvagem cuidadosamente se ajoelhou, deixando-me a vontade sobre suas coxas que trabalhavam incessantemente junto com o quadril nas investidas. Esbaforida, inclinei-me para trás, apoiando as palmas no chão para ajudá-lo com a deleitosa tarefa.


Seu magnetismo me aprisionava, não conseguia parar de fitá-lo. Com o sol reluzindo em sua face e cabelos bagunçados, ele também passou a me encarar. Retraindo-me, mergulhei em um novo patamar de prazer. Instigado pelo que eu sentia, Edward estreitou os olhos, lançando-me um orgulhoso sorriso torto. Ele era bom e sabia disso.


Extasiados, extrapolamos na entrega fervorosa. Abracei-lhe, apertando suas costas levemente suadas e Edward o meu quadril, liberando a libido que reprimiu por semanas. O que passei a sentir naquela hora excedeu todas as minhas expectativas e, num impulso, cravei os dentes no ombro esquerdo dele, sem conseguir refrear os espasmos no baixo ventre, ou o ardor entre as pernas. Atingir o clímax me deixou completamente alucinada, mas ainda pude reconhecer os típicos rosnados do meu namorado que, inesperadamente, jogou-me sobre o agasalho no chão para se saciar totalmente. O mantive o tempo inteiro entre as minhas coxas, oferecendo-lhe tudo de mim para que seu corpo quase incansável também alcançasse ao clímax.


Indomável e possessivo, ele me encarava com o semblante atormentado, mostrando o quanto eu o enlouquecia. Contente, o agarrei para mais um beijo fogoso, que resultou no selvagem prendendo o meu lábio inferior entre os dentes enquanto perdia o controle. Logo sua musculatura enrijeceu e não conseguindo mais reter os sons guturais que delatavam a intensidade do seu prazer, Edward deixou-se levar.


Após o delirante frenesi, ele continuou movendo-se, mas agora com suavidade, com carinho. Poucos segundos depois, arfando muito, acolhi sua cabeça na curva entre o meu pescoço e ombro, onde só então o meu namorado relaxou totalmente. E ali ficamos, abraçados, por um tempo que não quis medir.


(...)


Apreciando o som da cachoeira, permaneci sentada sobre o blusão, encolhida, com o queixo apoiado nos joelhos. Enquanto refletia, não conseguia parar de fitar a superfície da lagoa. Isso até o momento em que Edward delicadamente passou uma folha por minhas costas desnudas, causando-me um gostoso arrepio.


Após o breve carinho, virei o rosto e o encarei, mas esse olhar que trocamos foi... especial. Agora sim estávamos em sintonia, novamente atados pela cumplicidade de se fazer amor. E que amor! Sentia-me não só fisicamente despida, mas também emocionalmente. Parecia que todos os meus pensamentos se tornaram audíveis, descomplicados e sinceros. Enxergando-me desse jeito, livre, Edward aos poucos foi abrindo um largo, encorpado e inteiramente satisfeito sorriso, o qual rapidamente me contagiou.


— Quer nadar? — ele perguntou, indicando a água com a cabeça.


— Quero — finalmente respondi sem hesitar.


Edward então ficou de pé e estendeu-me a mão direita. Feliz, fitei sua palma por um segundo antes de agarrá-la com firmeza e propósito.


O que percebi enquanto observava a cachoeira, é que encontrar a pessoa certa não garante uma vida maravilhosa. Mas garante a esperança de uma. E quer saber? A esperança... já me basta.


***



Notas finais do capítulo

Eu sofri com esse cap!!! Kkkkkkk
Vem cá, agora que você se superou lendo tudo isso, não vai deixar nem um comentário ou recomendação? Que maldade... kkkkkkkkk Cadê o meu incentivo para melhorar ou apenas sorrir? Kkkkkkkk Agora falando sério... Muito, muito obrigada por ler. Toda essa história é especial pra mim e sinto-me honrada por ter com quem partilhar. Fiquem ligados no blog (http://lunahnunes.blogspot.com.br) para saber das futuras novidades. ATÉ A PRÓXIMA!
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Beijos,
Lunah