Kitty's Pride escrita por Bree


Capítulo 3
Uma visita matutina




A moça esperava que aquilo fosse suficiente para aquietar os nervos da mãe, e assim que selou o bilhete, foi se deitar. Para sua irritação, o sono não lhe veio de imediato, e perdida observando os cuidadosos detalhes que ornavam o teto, Kitty repassou com nostalgia sua última visita a casas dos pais. Com um aperto no peito, a jovem percebeu culpada que não mais se sentia a vontade para chamar aquela casa de sua também. Ela se sentia ainda pior por reconhecer a casa de Jane como lar, sentia-se uma intrometida. Aquele tema lhe perturbou até que ela perdesse a consciência. No dia seguinte, Kitty foi acordada pela movimentação de uma criada, que lhe trouxera uma bacia com água quente e recolhia suas roupas para a lavagem. Depois de se arrumar, a moça seguiu para os jardins, onde Bingley havia mandado erguer uma tenda branca, para que a família pudesse aproveitar o desjejum na companhia das flores.

Kitty ocupou o lugar ao lado da irmã na suntuosa mesa de carvalho. Jane parecia muito bem disposta, segurando a filha pequena nos braços enquanto o primogénito terminava o café com a ajuda da babá.

— Como está nossa princesinha? – Questionou a tia, afagando a bochecha da sobrinha. Nada podia influenciar tão positivamente o humor de Kitty quanto os sobrinhos.

— Ela dormiu tão serenamente. A Sra. Evans não precisou me chamar uma única vez. – Informou Jane, lançando um olhar alegre a irmã e a babá, uma mulher de meia idade, de olhos doces e cabelos escuros.

— Por Deus, as cólicas foram embora. – Comemorou Kitty, enquanto outro criado lhe servia o café. A mesa contava com alguns dos pratos prediletos da jovem Bennett, como biscoitos de aveia e chocolate e torta de amora. Kitty fez um sinal dispensando o criado e serviu a si mesma um pedaço de torta. No processo, acabou deixando que caísse sobre seu colo um pedaço do doce, imediatamente, a seda de seu vestido azul ganhou uma mancha rosada.

— Oh, Kitty. – Jane sorriu levemente.

— Acho que ainda não despertei completamente. – Se apressou ela em dizer, quando a Sra. Evans se levantou para ajudá-la. – Termino aqui e subo para me trocar.

— Se apresse, temos de almoçar com os Walters hoje. – Disse Jane, que já terminava seu chá.

— Seria muito suspeito se eu caísse doente? – Questionou Kitty.

— Muito suspeito. – Disse a irmã.

— Triste. – Disse Kitty, com um suspiro falso.

— Você é terrível! – Exclamou Jane, lançando por impulso um guardanapo na direção da irmã, rindo e corando em seguida.

— É bom fazer você voltar a adolescência, Jane.

— Você me faz voltar a infância às vezes, ouso dizer. – Disse a dona da casa, lançando um olhar sereno na direção da irmã. No mesmo instante, uma das criadas veio pelo jardim e anunciou com paciência a chegada de dois visitantes.

— O Sr. e a Sra. Höwedes de Ottercrow, Sra. Bingley. – Disse ela, se virando para voltar até o interior da casa e deixando ambas as mulheres sobressaltadas. Margo foi rapidamente transferida dos braços da mãe para os da Sra. Evans, que saiu pela lateral do gramado para leva-la para o quarto. Harry acompanhou a babá sem pestanejar, parando apenas para receber um afago rápido da tia. Kitty tentou limpar a mancha do vestido usando um guardanapo, mas só aumentou o estrago. Ambas ouviram as vozes abafadas dos visitantes acompanhando a criada e Jane mal podia formular uma frase. Quando eles surgiram no pátio, Kitty percebeu que estava prendendo a respiração. O senhor Höwedes era exatamente o que se esperava de um homem da sua posição. Usava roupas tão finas quanto as de Bingley, tinha os cabelos já grisalhos, olhos verdes afetuosos e postura firme, de um homem de negócios experiente. A senhora Höwedes por sua vez tinha muito menos estatura que o marido, mesmo assim parecia ter sido feita para ter seu braço segurado por ele. Tinha os cabelos absurdamente loiros presos em um penteado cuidadoso, pele muito pálida, olhos caramelo e trajava um lindo vestido verde claro. Kitty detestava ser avaliada e sentiu os olhos da mulher vagarem até a sujeira em seu vestido antes mesmo que alguém falasse. Os olhos dela denunciavam surpresa e reprovação, e Kitty quis realmente esganá-la.

— Peço desculpas por aparecermos tão de repente! – Começou o recém chegado, assim que alcançou a tenda do café. – Eu sou Hector Höwedes, essa é minha esposa, Amanda. – Tanto Kitty quando Jane fizeram uma reverência curta, correspondida pela visitante, que as moças logo perceberam estar desconfortável e talvez até arrependida de estar ali.

— É um prazer recebe-los. – Disse Jane. – Eu sou Jane Bingley. Meu marido ,como devem saber, é o proprietário, Charles Bingley.

— Possuem uma bela propriedade, devo dizer, com jardins impecáveis. – Comentou a mulher, com uma voz esganiçada, como se sua fala fosse ensaiada e ela fosse forçada a proferi-las.

— Oh, obrigada. – Agradeceu Jane. – Bom, essa é minha irmã, Catherine Bennet.

— Srta. Bennet – Repetiu o homem, com mais uma reverência. - Adiantamos nossa vinda para Derbyshire e mal podíamos esperar para conhecer tão famosos vizinhos!

— É muito gentil terem vindo. Imagino quão exaustivo deve ter sido se instalarem em Ottercrow. – Observou Kitty, acidamente, o que lhe rendeu um olhar severo da irmã. – Devido as proporções da casa. – Se apressou ela em amenizar, sem sucesso, pelo menos quanto a Sra. Höwedes.

— Por favor, sentem-se. – Pediu Jane. – Estávamos terminando o café, juntem-se a nós. – Continuou, indicando lugares na mesa de carvalho. O Sr. Höwedes puxou uma cadeira para a esposa, que antes de sentar, voltou a correr os olhos pelo vestido sujo de Kitty.

— Sempre fazem suas refeições ao ar livre? – Perguntou o Sr. Höwedes.

— Quase sempre, especialmente nessa época do ano. – Informou Jane.

— Uma prática a ser encorajada. – Observou a Sra. Höwedes.

— É uma das vantagens de se viver em Derbyshire. – Começou Kitty. – Vocês logo vão descobrir.

— A senhorita também vive aqui? Pensei que os Bennet vivessem em Longbourn. – Inquiriu a convidada. Kitty engoliu em seco diante da pergunta tão precipitada.

— Sim. Passo a maior parte do ano com minhas irmãs e visito meus pais por curtas temporadas. – Respondeu a jovem, encarando a mulher por alguns segundos.

— Perdão, conhecem nossos pais? – Questionou Jane.

— Ouvimos comentários. O casamento de Fitzwilliam Darcy foi notícia por toda a Inglaterra. – Explicou o convidado.

— Achei que vivessem na Alemanha. – Observou Kitty, devolvendo a ousadia a Sra. Höwedes, que lançou um olhar significativo ao marido. Uma das criadas trouxe mais dois serviços com xícaras e serviu chá aos convidados, que se valeram disso para tardar a explicar.

— Vivíamos. – Começou ele. – Mas nos estabelecemos em Kent até que todos os nossos pertences fossem trazidos ao país.

— Ah, entendo. – Disse Kitty, tomando um gole de sua própria xícara. Houve um breve momento de silêncio e Jane fez um comentário sobre o clima. O Sr. Höwedes, muito inclinado a continuar a conversa, prosseguiu.

— Esperávamos encontrar seu marido em casa, mas pelo visto, não tivemos essa sorte.

— Charles foi até o povoado próximo tratar de negócios. – Informou Jane. – Receio que ele não tenha horário para voltar.

— Não há problema. A companhia das senhoritas é mais que agradável. – Disse o convidado.

— Ficamos honradas por tal julgamento. – Disse Jane. – Então, ouvimos muito sobre o senhor. Parece-nos que tem uma filha.

— Sim, Audrey. Infelizmente ela ficou indisposta. – Respondeu a convidada, e como se adivinhasse o pensamento de Kitty, prosseguiu. – Também vive conosco o sobrinho de Hector, Sebastian.

— Ele terminou os estudos no ano passado. É como um filho para nós. – Declarou o homem, e Kitty não soube dizer se a mulher pensava da mesma forma, pois sua expressão se fechou por alguns segundos.

— Sua filha já deve ter debutado, eu imagino. – Comentou Jane.

— Sim, na temporada passada, durante o recital de Heppenhein. Já devem ter ouvido falar dele. – Disse a mãe.

— Bingley já teve o prazer de viajar pelas terras Germânicas, eu infelizmente conheço muito pouco sobre elas. – Disse Jane.

— Meu cunhado é apaixonado por viagens. – Disse Kitty, por obrigação.

— Um homem admirável eu imagino. – Observou o Sr. Höwedes. – Ocorre-me que ele também lidou com comércio.

— Sim, toda a família, por muitos anos. – Confirmou Jane, já encantada pelas maneiras dos convidados. Como sempre, ela tinha uma predisposição para gostar de todos.

— Um ramo difícil, especialmente nos dias de hoje. – Disse o homem. – Mas não quero aborrecê-las falando de negócios.

— Ora, não se repreenda. – Pediu Jane. – Desenvolvi certa simpatia pelo assunto.

— A mulher de um homem com a posição de seu marido deve sempre estar a frente do seu tempo. – Observou a Sra. Höwedes.

— Deve ser moderna, sem a menor dúvida. – Continuou o homem. – A preocupação da esposa com os negócios pode ser benéfica.

— Há quem considere imprópria. – Lembrou Kitty, que se interessava minimamente pelo assunto. – Isso pode sacrificar o tempo dedicado aos filhos, não?

— Acredito que não. Vocês mulheres são criaturas versáteis e estupendas. – Disse o Sr. Höwedes, e Kitty sorriu levemente, agradecendo-o internamente por não assumir a inutilidade das mulheres como grande parte da sociedade.

— Por que não ficam e almoçam conosco? – Pediu Jane.

— Ora, ficamos lisonjeados, mas não queremos atrapalhar. – Disse a Sra. Höwedes. – Além disso, nossa visita deverá ser curta, já que temos um propósito definido.

— Sim, sim! Obrigado por me lembrar, Amanda. – Disse o homem. – Sentado aqui com as senhoras, nesse jardim magnífico, quase me esqueci.

— Meu marido se envolve facilmente em uma conversa. – Observou a esposa, um pouco mais simpática do que inicialmente.

— Ofereceremos um baile amanhã a noite em Ottercrow. – Começou o homem. – Pensei que encontraria o Sr. Bingley, mas não há nenhum problema em um convite transmitido.

— Isso é maravilhoso! – Disse Jane.

— Sem dúvida. – Complementou Kitty. – Charles ficará encantado.

— Perfeito! – Exclamou o homem. – Espero ter tempo para convidar sua irmã e cunhado em Pemberly.

— Eles ficarão imensamente contentes com o convite. – Observou Jane.

— Dito isso, acho que temos que partir. – Disse a mulher, tocando suavemente o braço do marido. – Ou não teremos tempo para organizar tudo.

— Oh, que sorte infeliz! – Exclamou Jane, com verdade em seus olhos. – Sinto por não terem conhecido meus filhos.

— Sei que teremos muitas outras oportunidades. – Disse o homem, se levantando. – Sra. Bingley, Srta. Bennet. – Cumprimentou ele, assim que a esposa de levantou e fez duas reverências. Jane se levantou e acompanhou os visitantes pelo jardim. Kitty permaneceu sentada tentando formular teorias.





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