Kitty's Pride escrita por Bree


Capítulo 16
Um sentimento desconhecido




Não foi preciso mais que duas esquinas para que avistassem Jane e as crianças. Kitty já estava mais tranquila, e nada em seu semblante denunciava o momento vivido, mas seu interior ainda continuava alerta e sua pele ainda podia sentir a temperatura de Sebastian. Mal suportava olhar nos olhos de Jane sem ser tomada pela vergonha. Sua consciência gritava com ela, sentia que algo estava diferente em seu rosto e que isso certamente a denunciaria. Mas nada aconteceu. Nada além de um cumprimento alegre entre a irmã e o cavalheiro. Jane estava mais que contente por vê-los juntos, mas não disse nada. Tinha esperança de ver Kitty bem casada, e simpatizara desde o início com Sebastian, embora ainda não estivesse pronta para abrir mão de Albert Walters como cunhado. Kitty, por sua vez, queria gritar para irmã que o Sebastian não passava de um canalha.

— Obrigada pelos seus préstimos, Sr. Höwedes. Kitty já teve ter transmitido meu convite para um chá. Podemos espera-los amanhã? – Perguntou Jane, enquanto o filho mais velho se entretinha com um chicote de montaria.

— Claro, Sra. Bingley. Será um imenso prazer. – Disse, e ao fazê-lo direcionou seu olhar a Kitty. Ele parecia preocupado, talvez pensasse que ela fosse começar a gritar com ele. Pouco importava a Sebastian que os outros soubessem do beijo roubado, mas se preocupava muito com os nervos de Kitty, cuja respiração ameaçava ficar descompassada de novo.

— Nos vemos em breve então. – Disse Jane, fazendo uma reverência de despedida. Kitty a imitou com menos graça e saiu atrás da irmã sem dizer uma palavra. O homem permaneceu de pé onde estava, deixando que um sorriso arteiro tomasse conta do canto de sua boca.

Infelizmente o tempo piorou e a chuva fez cessar a comunicação entre a família recém-chegada e os Bingley. Enquanto poças se formavam nos jardins, Kitty permanecia na biblioteca, mais calada que o de costume. Sua mente não a deixava em paz. Ao mesmo tempo em que se pegava odiando o que tinham feito, imaginava também se todas as senhoras casadas passavam por aquilo. Não se recordava de nenhuma história parecida nas narrativas da mãe ou nos contos das criadas sobre noites de núpcias. Pelo que tinha ouvido a vida inteira, especialmente na manhã do casamento de Jane, a vida entre marido e mulher era muito mais calma que o momento com Sebastian. Reconhecia que sabia pouco sobre o tema, mas o suficiente para uma moça de sua posição.

Quando a chuva finalmente parou, Goldenshaw estava mais quieta do que nunca, isso pois assim que o sol se firmou, ficou decidido que Jane e Charles partiriam para Londres, para uma rápida visita a Charlotte Bingley-Grant. Kitty sequer se ofereceu para ir, embora acreditasse que um tempo longe de Derbyshire fosse lhe fazer bem. Ao invés disso, arrumou suas malas e partiu na direção contrária, rumo à Pemberley. Foi recebida com festa pela irmã mais velha e pelo sobrinho, Anthony. Apenas Georgiana não veio recebe-la, o que deixou Kitty intrigada.

— Onde se esconde Georgia? – Perguntou a Lizzie, enquanto os criados levavam suas coisas para o seu quarto.

— No quarto, presumo. Deve estar escrevendo outra carta para Ottercrow. – Respondeu a Sra. Darcy.

— Para Ottercrow? – Kitty perguntou assustada, com um tom de voz um pouco mais alto que o indicado.

— Sim! Eu também fiquei surpresa. Ela e o Sr. Höwedes tem se correspondido com frequência. Ele, é claro, pediu a autorização de Darcy para tal coisa. Agora ele aparece muitas vezes por semana, seja para um chá ou para um almoço. – Disse Lizzie. A notícia pegou Kitty despreparada, e ela quase precisou se apoiar para não cair. O homem era a pior das abominações. Mal tinha se passado três semanas desde o beijo entre eles, e agora ele se preparava para fazer o mesmo com Georgiana. Kitty se sentiu tão estúpida por ter refletido tantas e tantas vezes sobre aquilo, que soube que não teria forças para ver Georgiana.

— Isso é ...uma novidade e tanto. Inesperado. – Começou Kitty, olhando para os pés em seguida.  A sempre sagaz Lizzie não deixou passar o desconforto da irmã. – Sabemos tão pouco dele. Darcy achou isso razoável?

— Kitty, minha nossa. – Disse Lizzie, cujas feições agora denunciavam preocupação e um tipo específico de pena. – Pensei que o que Jane disse sobre seu interesse por ele fosse apenas uma provocação. Oh, minha pobre irmã. – Lamentou, adiantando-se para capturar as mãos de Kitty entre as suas.

— Não! Lizzie! Não lamente por mim! Por favor, não repita mais um absurdo desses. Eu não tenho interesse algum. – Disse, mas seus olhos a traíam e Lizzie não parecia convencida. – Como eu disse naquele café, o considero vaidoso e arrogante. Não sou movida por nada além de preocupação com Georgiana.

— Espero que seja assim, minha irmã. Ou seu jovem coração passara pela maior das provações nessa tarde. O jovem em questão está a caminho de Pemberley para uma visita. Darcy acredita não haver mais obstáculos para que ele faça o pedido, embora Georgiana não queira falar do assunto conosco.

— O pedido? – Kitty repetiu, tentando se manter tranquila e conseguindo com grande esforço. – Pois bem. Não se preocupe. Não haverá sofrimento algum, minha irmã. Por agora quero apenas me instalar e descansar meus pés.

Lizzie lhe deu aceno de cabeça e deixou que a irmã subisse até seus aposentos. Uma vez lá, Kitty se apoiou contra a porta e respirou fundo, tomada por uma raiva irracional que ela não reconhecia. Sentou-se na cama com a mão sobre o peito e disse a si mesma que estava proibida de chorar. Antes que pudesse desfazer suas malas, uma batida na porta anunciou os cabelos loiros de Georgiana. Kitty esperava encontrar a amiga com o mais glorioso dos sorrisos, mas Georgiana estava como sempre estivera e nada nela denunciava a eminência de um casamento.

— Mal posso acreditar que está aqui! – Disse a jovem Darcy, que correu para abraçar a amiga, apertando-a como uma boneca.

— Está se correspondendo com ele. – Soltou Kitty, com a voz insegura, antes mesmo de desejar um bom dia a Georgiana. A amiga a olhou confusa, mas logo se deu conta. Ela soltou Kitty e foi se sentar onde antes estava a recém-chegada.

— Lizzie lhe contou? – Questionou.

— Sim. – Kitty se limitou a responder.

— O Sr. Höwedes é um homem muito inteligente e apreciador de boa música. Falamos sobre uma infinidade de doces assuntos se quer saber. Ele é um excelente ouvinte e uma boa companhia, embora eu deseje que ele fale mais. É sempre muito calado. Mas Darcy considera uma virtude. – Relatou a amiga, animada. Kitty não reconheceu Sebastian pela descrição da amiga. Não havia nada de calado no homem em questão. – Ele vem almoçar conosco hoje.

— Georgia ...eu... – Começou Kitty, mas não tinha muito o que dizer. – Fico contente.

— Contente? Sim, sim. Ele anima essas reuniões. Têm um excelente humor quando se permite. – Observou Georgiana.

— Me alegro em saber que vê tantas qualidades em tal cavalheiro. – Disse Kitty, embora não tivesse a real intenção de dizer aquilo. – Não confio nele e não o tenho em grande estima, mas se ele a fizer feliz...pouco importa o que sinto a seu respeito.

— Me fizer feliz? Estou confusa, minha doce Kitty. – Disse Georgiana.

— De certo sabe que não tardará para que ele peça sua mão. Um homem da posição dele não corteja e se corresponde com uma jovem sem que as suas pretensões sejam as mais sérias possíveis. – Esclareceu Kitty. Para sua surpresa, Georgiana riu. Gargalhou verdadeiramente.

— Ora, por Deus. Acho pouco provável. – Declarou a jovem. – Mas se acha isso, devemos deixar o tempo provar quem tem razão. – Concluiu, adiantando-se para abraçar Kitty mais uma vez. A jovem Bennet permanecia sem grande reação. Como seria se os dois realmente se casassem? Como passaria os dias na presença do marido de Georgiana, sabendo que haviam compartilhado algo íntimo e comprometedor? Não havia a mais remota possibilidade de se sentir confortável. Teria então de se casar e fixar residência o mais distante possível da amiga, em um lugar seguro e afastado dos novos Sr. e Sra. Höwedes. Só assim teria um pouco de paz e dignidade. Suspirou ao sair do abraço de Georgiana, e deixou que amiga tagarelasse sobre as visitas de Sebastian. Contou-lhe que vinha na maioria das vezes sozinho, e raramente acompanhado da tia, que não conseguira fazer com que Georgiana gostasse dela. Se divertiam, pois mesmo que gostasse do silêncio, o Sr. Höwedes tinha ótimas histórias escondidas em sua manga. Se correspondiam por carta no intervalo entre as visitas, sempre enviando notícias de uma família para outra. Aquilo não deveria incomodar Kitty, mas incomodou.

Quando o horário do almoço chegou, Kitty pensava em desculpas para não precisar descer. Sentia um peso no peito sem precedentes ao pensar na possibilidade de assistir Sebastian cortejar sua boa amiga. Mesmo assim, teve de ser forte, e quando Lizzie a chamou, desceu com o melhor sorriso que possuía. O cavalheiro chegou em uma carruagem pequena e foi recebido por Darcy na entrada da propriedade. Os dois trocaram pequenas amabilidades e rapidamente entraram. Georgiana estava mais próxima à porta e Kitty, mais afastada, pôde testemunhar o cumprimento alegre entre eles. Permaneceu imóvel junto a uma coluna, e não desviou o olhar quando o cavalheiro a notou. Ele não conseguiu esconder a surpresa, mas não esboçou nenhuma reação suspeita.

— Srta. Bennet. – Cumprimentou. – Sra. Darcy.

— Sr. Höwedes. – Kitty conseguiu dizer. Lizzie conduziu a todos até a mesa, onde se sentou à direita do marido. Sebastian ocupou o lugar à esquerda de Darcy e Georgiana se sentou ao seu lado. Kitty se concentrou no seu prato, embora fosse difícil ignorar o convidado. A voz de Sebastian ainda carregava o sotaque descontraído, mas falava com muito mais formalidade do que quando estava a sós com ela. Era um cavalheiro perfeito.

— Kitty? – Chamou Lizzie, querendo saber a opinião da irmã sobre alguma coisa.

— Sim? – Perguntou Kitty, sem saber o que deveria responder.

— Darcy lhe perguntou se tem ido a Eyre nos últimos dias. – Repetiu Lizzie.

— Ah. Não. A chuva não permitiu. Alguma novidade? – Quis saber a jovem Bennet.

— Nenhuma, minha cunhada. Apenas a prosperidade dos negócios do jovem Albert Walters. – Informou Darcy.

— Ah, meu caro Albert. Não fico surpresa, ele é muito dedicado. – Soltou Kitty, sem pensar no significado que poderia ser extraído da frase.

— Essa qualidade, sem dúvida, garante a excelência de seus serviços. – Observou Darcy. Kitty acenou afirmativamente, e notou que tinha a atenção dos outros três companheiros. Lizzie parecia curiosa, Georgia parecia surpresa com o termo carinho usado para se referir a Albert, e Sebastian ostentava um ar de desafio. Era quase como se ele a convidasse a se declarar apaixonada por Albert, coisa que ela não faria, pois não era verdade.





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