Não era pra ser assim... escrita por Madreamer


Capítulo 9
É oficial!




            Passou-se uma semana. Apesar da chuva contínua, Jean melhorou do resfriado. Era cômico assisti-lo investigar paredes e chão procurando pela barata antes de entrar em um cômodo.

            Eu comprei um ursinho de pelúcia para lhe dar de presente, mas ele já tinha planos com relação à surpresa. Ele me fez prometer que eu não voltaria da escola até ele me mandar uma mensagem falando que eu poderia ir para casa.

           Esperei por cerca de vinte minutos pela mensagem e comecei o caminho de volata para casa imediatamente. Surpreendi-me com a rapidez com que andei. Cheguei ao ponto de tropeçar em meus próprios pés.

            Não sei o que eu esperava, mas encontrei Jean me aguardando assim que abri a porta de casa. O garoto apressou-se em cobrir meus olhos com as mãos.

            — Vá tomar banho! — ordenou ao me guiar até o pé da escada. — Não pode espiar!

            Subi as escadas com a pulga atrás da orelha, mas fiz o que foi pedido. Assim que saí do banho, encontrei uma nota sobre a cama: "Tenho uma surpresa pra você. Estou te esperando lá embaixo".

            Ele realmente estava me esperando. Encontrei-o aguardando-me no último degrau das escadas. Estendeu-me a mão como quem ajuda uma donzela a sair de uma carruagem.

            — Pronto?

            — Não. Olha como eu me vesti!

            Eu escolhera uma bermuda estampada e uma blusa meio desgastada pelo tempo. Meu visual contrastava bastante com o de Jean: calças jeans e uma camiseta social. Mesmo com ele usando tênis surrados, eu me senti deslocado.

            — Isso não tem relevância, eu lhe garanto — sorriu torto. Ele parecia nervoso.

            Dei de ombros e peguei sua mão. O garoto me guiou até a cozinha onde encontrei a mesa organizada: dois pratos e talheres, duas taças com um líquido arroxeado em seu interior e uma tigela com lasanha ao centro. Havia apenas duas cadeiras, uma em frente da outra.

            — A Marina me disse que é seu prato favorito.

            Apenas assenti.

            — E não se preocupe, é só suco de uva — riu. — Vem!

            Levou-me a um das cadeiras e puxou-a para eu me sentar. Sentou-se logo depois e colocou um pedaço da massa em nossos pratos.

            — Tá muito bom! — exclamei com a primeira mordida.

            — Viu? É por isso que você é perfeito: ama lasanha e ainda gosta da que eu faço!

            — Sou perfeito, é?

            Jean corou.

            — É claro... Que não! Brincadeira. Você sendo perfeito ou não, eu ainda te amo!

            Sorri. — Também te amo, Jeanbo!

            E a conversa seguiu sem muitos pontos relevantes. Falamos basicamente de filmes e livros.

            Quando terminamos, Jean repousou os punhos fechados sobre a mesa. Seus nós dos dedos estavam brancos devido ao aperto e ele olhava o chão fixamente.

            — Você tá bem? — indaguei.

            Não houve resposta. Jean respirou fundo e se ergueu. Caminhou lentamente até mim e se ajoelhou. Tomou minha mão na sua. Ela tremia.

            — Marco Bodt, você quer ser meu namorado?

            Não fui capaz de falar. Um sorriso estampou meu rosto enquanto eu encarava os olhos de Jean. Presumo que fiquei assim por um tempo, já que meu quase namorado disse:

            — Acho que você deveria falar alguma coisa...

            — É claro que sim, seu bobo! — segurei seu rosto e lhe dei um selinho.

            Jean suspirou de alívio e sorriu.

            — Eu não tenho um anel, mas acho que isto serve — tirou do bolso da calça um lacre de latas de bebidas e colocou-a no meu anelar direito. Obviamente mal passou da unha. Mesmo assim, peguei um que estava em cima da mesa e fiz o mesmo.

            — Você tava tremendo? — perguntei.

         — É claro! E se você me rejeitasse?

            Gargalhei com aquilo.

            — Depois de tudo desde que você foi baleado você acreditava que isso era uma possibilidade?

            — Marco, você é o Jesus sardento! — falou como se essa frase explicasse tudo, inclusive a Resposta à Questão Fundamental da Vida, do Universo e de Tudo Mais*.

            — Eu vou fingir que isso faz sentido só pra te deixar feliz, ok?

            Jean deu de ombros.

            — É oficial: estamos namorando! — declarou.

            O sorriso mais lindo que eu já vi brincava em seus lábios e eu permaneci admirando-o.

            Afaguei seus cabelos e beijei sua testa. Ficamos um momento sem dizer nada, apenas trocando carícias.

            Após alguns minutos, Jean se ergueu e foi ao fogão, abrindo o forno.

            — Fiz algo para comemorarmos: bolo arco-íris pra combinar com a gente — disse com uma piscadela e colocou o bolo sobre a mesa.

            Pôs um pedaço em um prato limpo e repousou-o sobre a mesa. Em seguida, puxou sua cadeira e sentou-se ao meu lado.

            — Abre a bocona — disse em tom mandatório e ao mesmo tempo zombeteiro

            Saboreei a sobremesa. Não estava nem perto dos brigadeiros queimados que eu fazia vez ou outra.

            — Sabe... Se eu dividir doce com você, sinta-se lisonjeado — afirmei ao pegar uma garfada do bolo e levar à sua boca.

            — Sinto-me lisonjeado, Garfield chocólatra — falou com um sorriso.

            Terminamos de comer e limpamos a cozinha. Fomos para o quarto em seguida.

            — Eu comprei uma lembrancinha pro seu aniversário, mas tô com vergonha de te dar depois de tudo que você fez — falei.

            — Marco, eu fico feliz só de saber que você pensou num presente. Além do mais, o seu "É claro que sim, seu bobo!" foi um ótimo presente.

            Corei e entreguei-lhe o ursinho, o qual mantinha escondido atrás das costas até o momento.

            Jean pegou a pelúcia nas mãos e sorriu.

            — Adorei essa mensagem — apontou para o coração que o urso segurava, no qual estava escrito "Eu te amo".

            — Sei que é clichê, mas, se eu não comprasse, nunca mais me lembraria de te dar um presente.

            — Adorei mesmo sendo clichê! Obrigado — sorriu e me beijou.

            Depois de algum tempo, fomos para a sala ver um filme. Bem, esse era o propósito, porém, não prestávamos atenção na tela.

            Sentamo-nos no chão. Eu me apoiava no peito de Jean e meu namorado me embalou em seus braços. Estávamos imersos nos lábios alheios, nos olhares, sorrisos e toques; no carinho no cabelo, nas mãos percorrendo os rostos e nos dedos entrelaçados. Era um momento só nosso, como se não houvesse um mundo ao nosso redor, muito menos vida sem o outro ao lado.

            Nem percebemos o tempo passar.

            — É tão bom... — murmurei em algum momento.

            — O quê?

            — Estar nos seus braços. E ouvir seu coração. E sentir seu cheiro — suspirei.

            — É? Eu sei — retrucou convencido, o que me levou a fazer biquinho.

            — Até parece que arrasa corações! — rebati.

            — Arraso o seu! — riu e me beijou.

            Ergui uma sobrancelha para ele, o que o fez gargalhar.

            — É mentira?

            Fiz questão de não responder.

            — O que acha de contarmos à sua mãe? — questionou após alguns segundos de silêncio. — Sem pressão — apressou-se em acrescentar.

            Mordi o lábio inferior e pensei.

            — Tudo bem.

            — Sério?

            Assenti. Não precisei olhar para ele para saber que ele estava sorrindo.

            A partir deste momento concentrei-me no filme. Jean percebeu meu nervosismo ao ver que meus dedos não paravam de tamborilar no chão.

            — Você nunca apresentou ninguém pra sua mãe? Nem aquelas suas antigas paixões dos seus desenhos?

            — Não. E não é como se aquelas relações tivessem ido longe.

            — Marco — virou-se para mim e segurou minhas mãos, repousando um beijo em cada uma —, ela é sua mãe, ok? Ela não vai te julgar.

         — Mas eu tenho medo, Jean! E se ela for contra e você não puder morar aqui? Eu não quero te perder. Não de novo.

         — Tudo bem, então. A gente espera mais um tempo.

         — Obrigado.

            Alguns minutos se passaram e o som da televisão era o único impedindo o silêncio de se instaurar. Eu me afastei de Jean e abracei minhas pernas. A tensão era palpável.

            Inúmeros pensamentos martelavam em minha cabeça, o que se sobressaia era aquele que me fez acreditar que dessa vez eu o perderia por causa do meu medo.

            — Marco — Jean falou por fim, segurando meu queixo e virando meu rosto para si —, eu entendo seu receio, ok? Não precisa ficar esse clima estranho entre nós. Tá tudo bem. Prometo — ao finalizar a fala, pegou o lacre de latas de seu bolso e colocou-o entre nós. — Estamos juntos nessa — afirmou.

         Sorri. Aproximei-me dele e envolvi meus braços ao redor de seu pescoço, escondendo meu rosto em seu peito.

         — Obrigado.

            Jean afagou meus cabelos e repousou um beijo em minha cabeça.

            Quando o filme acabou, nos arrependemos por não ter prestado atenção desde o início. O final foi muito interessante e ficamos no desejo de ter conhecido a estória toda para compreendermos melhor o fim.

            — Tanto faz. Tenho certeza que o tempo que ficamos juntos foi bem mais interessante que esse filme — Jean falou.

         — Você acha?

         — Não tenho certeza... Acho que podíamos passar um tempo juntos voando num dragão, não acha? Personagem sortudo — acrescentou num muxoxo.

            Ri e beijei sua bochecha.

            Desligamos a TV e ficamos embalados em meio ao silêncio por alguns minutos.

         O dia chegou ao fim e a noite chegou tão subitamente quanto minha mãe. Marina entrou em casa com um sorriso de orelha a orelha.

            — Meninos! Preparem-se para sair porque temos um dinheirinho extra pra gastar! Adivinha quem acabou de receber um aumento?

            — Não acha que devíamos juntar esse dinheiro para comprar outro carro? Ou para pelo menos concertar aquele Fusca velho? — sugeri.

         — Não fala assim do Fusquinha! Ele tem sentimentos! — minha mãe retrucou e sorriu. — Já que o Marco não quer ir, vamos só nós dois, certo, Jean?

         — Com certeza! Quem vai perder é ele!

         — Já que insistem, eu também vou — falei em tom brincalhão.

         Decidimos ir a uma pizzaria. Fomos a pé.

         — Por que não vamos de carro? — perguntei.

         — Porque ele está muito velho — respondeu Marina, fingindo estar ofendida. — Olha pro céu, Marco. Fazia tempo que eu não via tantas estrelas. Achei que seria uma boa ideia aproveitar esta vista. E a pizzaria é bem pertinho.

         O caminho foi realmente curto. Eu e Jean nos esforçamos para não parecermos namorados e minha mãe não parecia desconfiar de nada.

         Tudo ocorreu bem, até o momento no qual eu fui ao banheiro. Consegui ouvir parte da conversa dos dois enquanto voltava para a mesa.

         — ...tem medo da reação dos pais. — Jean falou.

         — Não vejo motivo para ter. Sei que os pais dela vão apoia-la de qualquer maneira.

            Eu estava a alguns passos de distância quando meu namorado reparou que eu estava me aproximando. Ele desviou o olhar e tentou não parecer apreensivo.

            — Vou falar pra ela. Obrigado pela ajuda — falou rapidamente e sorriu. Optei por não perguntar sobre o que era a conversa. Não agora, pelo menos.

            Nos divertimos bastante na pizzaria. O ambiente descontraído e a brisa fria nos fez esquecer de tudo por um momento. Conversamos sobre coisas aleatórias e o que mais entreteve minha mãe foi contar histórias de quando eu era criança. Algumas eram constrangedoras e eu sabia que Jean ia me lembrar de cada uma delas quando chegássemos em casa.

            Andamos mais devagar no caminho de volta para casa. Eu tive a impressão de que a noite ficara mais bonita por algum motivo. O trajeto foi silencioso, mas era claro que ninguém se incomodava com isso. O céu estrelado fora a atração principal da noite.

            Minha mãe foi dormir pouco depois que chegamos. Jean e eu subimos para nosso quarto silenciosamente.

            — Eu tenho que te confessar uma coisa — Jean falou.

         Ergui uma sobrancelha e esperei-o continuar.

         — Quando você foi ao banheiro, contei pra Marina que tenho uma amiga que tem medo de contar pros pais que é gay. Você ouviu o fim da conversa, certo?

         Assenti.

         — Viu? Não tem porque ter medo.

            Pressionei os lábios e fitei o chão.

            — Pensei que tinha dito que não via problema em esperar — minha voz saiu mais séria do que eu pretendia.

         — Não é isso, Marc—

         — Você podia ter me falado — impedi-o de continuar. — Se é um problema tão grande assim, era só—

         — Desculpa, Marco. É que eu tenho medo — seu tom de voz era sério e firme. Se não fosse pela maneira com a qual ele falou, eu não teria me calado. — Eu só acho injusto você esconder isso da sua mãe. E se algo acontecer? E se você perdê-la ou ela te perder? — o modo como ele falou “perder” deixou bem claro em qual sentido ele empregou a palavra. — Se eu fosse ela, não gostaria de saber que meu filho escondeu uma grande parte de sua vida de mim. Isso me magoaria.

         Abri a boca algumas vezes, mas a única coisa que saiu dela foi ar. Olhei para o chão e suspirei. Permaneci em silêncio.

         — Desculpa me intrometer na sua vida desse jeito. Eu só não quero que isso estrague a relação de vocês no futuro.

         Levei meus dedos aos seus lábios e o calei antes que ele falasse mais.

         — Você tem razão — murmurei. Jean me olhou surpreso. — Você me ajuda a contar pra ela amanhã?

         Meu namorado sorriu e assentiu.

         — E você não tá se intrometendo na minha vida — acrescentei e segurei sua mão, beijando-a. — Você é parte dela.

            Jean sorriu e segurou meu rosto entre as mãos, depositando um beijo em minha testa. Nos jogamos na cama e ficamos embalados por um tempo. Poucos minutos depois, estávamos dormindo.

***

            — Duvido! — Ymir clamou incrédula. — Vocês não brigaram?

         Balancei a cabeça negativamente.

            — Sério?

            — Por que é tão difícil acreditar? — Jean perguntou.

            — Vocês discordaram sobre algo tão importante como isso e não brigaram? — Ymir insistiu.

         — Você brigaria por causa disso porque é cabeça-dura — Reiner falou e recebeu um belíssimo dedo do meio na cara.

         — Se assumir pra família é um assunto meio delicado para alguns — Bertholdt falou baixinho. — Que bom que conseguiram chegar a um consenso — sorriu timidamente.

         — Ainda não acredito! — Ymir tornou a falar.

         — Marco, como você pôde aceitar depois de toda essa frescura pra ele te pedir? — Eren provocou, deixando a descrença de Ymir no esquecimento.

            Jean lançou-lhe um olhar raivoso e começou a xingá-lo. O dono dos olhos verdes olhou-o zombeteiramente e ignorou os nomes dos quais era chamado.

            — Ao casal do ano! — Sasha exclamou erguendo seu copo cheio de refrigerante quando a mesa ficou em silêncio.

            E então eu vi como nossos amigos estavam tão felizes por nós quanto nós mesmos. Seus sorrisos me fizeram sorrir.

            O ponto de encontro da vez foi uma lanchonete perto de casa. Depois de lancharmos, fomos para a praça em frente do estabelecimento e sentamos num banco, conversando. Só percebemos que estava tarde quando os postes de luz se acenderam. Pouco a pouco, nossos amigos foram indo embora, deixando Jean e eu a sós.

            — Relaxou? — meu namorado me perguntou.

            Balancei a cabeça afirmativa e negativamente logo em seguida.

            — Ainda estou nervoso — falei baixinho.

            — Não precisa estar — afirmou enquanto massageava minha mão com o polegar. Ele me puxou e me fez deitar em seu colo, acariciando meus cabelos. — Vai dar tudo certo, Marco. Aposto que isso não vai mudar nada pra sua mãe. Ela ainda vai te amar do mesmo jeito.

            Sorri para Jean e segurei sua mão contra meu peito, depositando um beijo nela.

            — Vai dar tudo certo — repetiu.



Notas finais do capítulo

*Referência à "O Guia do Mochileiro da Galáxias" de Douglas Adams.
Era para ter mais conteúdo nesse capítulo, mas sei que eu demoraria ainda mais para postar se não o fizesse logo.
Enfim, espero que tenham gostado.



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Não era pra ser assim..." morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.