Não era pra ser assim... escrita por Madreamer


Capítulo 3
Pesadelos


Notas iniciais do capítulo

Hey, galera! Cheguei, finalmente, com um novo capítulo da fic. Ficou menor que os anteriores, mas espero que gostem.



Acordei com o som do despertador. Surpreendi-me ao ver Jean acordado. O garoto estava com uma péssima aparência e já vestido com suas roupas escuras.

— Bom dia — disse eu sonolento.

— Bom dia — respondeu ele, com desânimo.

Tomamos o café da manhã em silêncio. Minha mãe devia estar realmente de plantão já que não estava em casa. Arrumamos-nos calados e fomos caminhando para o colégio. Não cheguei atrasado, mas optei por sentar ao lado de Jean mesmo assim.

— Você conseguiu dormir ontem? — perguntei.

— Consegui — respondeu, apesar de suas olheiras dizerem o contrário.

— Tem certeza?

— Sim. Obrigado pela preocupação.

Ficamos alguns segundos mudos e Jean foi conversar com os outros dois membros da gangue. Comecei a esboçar a sala de aula, mas ainda prestei atenção no diálogo deles.

— Cara, você tá bem? — perguntou o garoto. — Conseguiu dormir?

Jean deve ter feito um sinal com a cabeça, pois a garota falou em seguida:

— Foram os pesadelos?

— Infelizmente sim, Sasha — respondeu Jean.

— Arranjou mais algum integrante pra gangue? — tornou a questionar o menino.

— Não. Parece que seremos só nós contra a "Guarnição".

— Aqueles fracotes vão sair correndo quando nos virem! — proclamou o garoto.

— É verdade! — apoiou Sasha. — Só de virem eu e Connie, a dupla implacável, eles sairiam correndo! Não é, Connie?

— É!!!

Pelo canto do olho, pude ver Jean esboçar um sorriso. Nesse momento o sinal tocou e o professor entrou logo depois.

Pela primeira vez desde o início do ano letivo eu consegui prestar atenção nas aulas, embora meus pensamentos estivessem em Jean e seus pesadelos que o impediam de adormecer.

A hora do intervalo chegou rapidamente e segui Jean que conversava com Sasha e Connie. Eles iam para a cantina, mas puxei Jean pelo braço e o fiz me seguir. Fomos para uma parte distante da escola, a qual eu nem sabia que existia.

— Vai falar comigo sobre esses pesadelos? — perguntei quando paramos.

— Pra que você quer saber? — perguntou agressivo. Era realmente incrível como ele mudava o humor drasticamente nas diferentes situações.

— Por que eu terei de ser seu amigo, querendo ou não, e eu me preocupo com você!

Jean desviou o olhar para o chão.

— Hey — segurei sua mão —, não confia em mim? Você me contou sobre sua família, por que não pode me contar sobre seus pesadelos?

— Não é isso. Eu confio em você, mas eles são terríveis demais pra lembrar!

— Tudo bem, Jean. Não vou mais te pressionar. Desculpe.

— Então, vamos lanchar? — perguntou após um breve momento de calado.

Assenti com a cabeça e seguimos, novamente, até a cantina. Cada um comprou seu lanche e sentamos à mesa com o resto da gangue. Jean me apresentou aos integrantes: Sasha e Connie que eu já sabia o nome, Mikasa, a garota morena e que está sempre com o cachecol vermelho (como pude constar), Eren, o garoto de olhos verdes, e Armin, o loiro baixinho. Eles conversavam enquanto comiam. Eu preferi não falar muito e fiquei quieto no meu canto.

O resto da manhã ocorreu normalmente, sem nada de interessante, apesar de eu não ter me incomodado em prestar atenção no que os professores falavam.

Quando voltamos para casa, encontramos minha mãe dormindo e nos esforçamos para fazer silêncio. Largando as mochilas num canto qualquer do meu quarto, jogamos-nos na cama e ficamos encarando o teto.

— Ei, princesa! — falou Jean. — Obrigado pela preocupação.

— Ei, cara de cavalo! É isso que os amigos fazem!

— Nós... Somos amigos? — perguntou ele, hesitante.

— Teremos que ser amigos por duas semanas para fazer aquele trabalho. Prefiro que as coisas fiquem fáceis. Você não tem mais me ameaçado ou coisas assim, então estamos com uma boa relação.

— Você é mesmo um Jesus sardento!

Rimos juntos.

— Jean, por que não desiste dessa ideia maluca de gangue? — perguntei após um breve silêncio.

— Por que eu não conseguiria viver comigo mesmo se não matasse aqueles filhos da puta! — gritou.

— Fale mais baixo! Minha mãe tá dormindo — repreendi-o

— Desculpe — murmurou. — Mas e você, tem certeza que não quer participar da nossa gangue?

— Sim, eu tenho certeza. É por causa dessas gangues que eu perdi meu pai. Não quero perder mais nada pra elas.

Perder meu pai foi a pior coisa que aconteceu na minha vida. Se não fosse por minha mãe, eu teria entrado em depressão e talvez nem estivesse aqui, conversando com Jean. Gangues eram o meu maior medo e lá estava eu, ao lado do líder de uma delas como se ele não representasse perigo nenhum. Irônico, não?

Mais um longo momento de silêncio se passou até eu resolver estudar. Peguei outra cadeira e levei ao quarto, já que Jean me derrubou para ficar com a que estava lá. Por enquanto era só matéria de revisão, então eu consegui responder as atividades mesmo sem ter prestado atenção nas aulas. Vi que Jean também não precisou se esforçar para responder as questões, embora ele tenha mais rabiscado o caderno do que estudado.

Fiquei desenhando a primeira impressão do parceiro para artes e só percebi que Jean tinha sumido quando ele apareceu com um prato cheio de comida nas mãos.

— Deve estar com fome — disse ele, pondo o prato sobre a escrivaninha. Ia protestar, mas meu estômago me denunciou.

— Obrigado. Você já almoçou? — perguntei levando uma garfada de comida à boca.

— Ainda não. Não estou muito a fim de comer — respondeu sentando-se na cadeira ao meu lado.

— Por que não?

Jean deu de ombros. Coloquei comida no garfo e guiei-o, com uma mão sob ele para garantir que nada caísse no chão, até a boca de Jean.

— Olha o aviãozinho — falei com voz incrivelmente retardada.

Jean tentou se manifestar, mas enfiei o garfo em sua boca quando ele a abriu para falar alguma coisa. De início, ele engasgou e acabou engolindo tudo.

— Você tá maluco?! — perguntou ainda engasgando.

— Eu não. Você tá? — perguntei com cara de inocente como se não soubesse do acontecido. Seu semblante indicava indignação e raiva. Aquela expressão foi impagável e comecei a rir, o que fez com que ele me encarasse com mais ódio no olhar, caindo na gargalhada logo em seguida.

Acabamos dividindo a comida, eu praticamente forçando-0o a engolir tudo. Ainda comemos um pedaço de bolo como sobremesa.

Como o quarto de minha mãe é em frente da escada, ela tinha acabado de acordar e nos cumprimentou sonolenta enquanto subíamos.

— Jean, não quer buscar suas roupas agora? Ontem eu tive plantão e não pudemos ir.

— Não. Eu e Marco passamos no... Na minha casa ontem e pegamos algumas roupas, dona Marina.

— Certo... Mas dona é sua vó! — falou em tom zombeteiro. Rimos e voltamos ao meu quarto, jogando-nos na cama.

— Jean, onde tá o resto da sua família? Seus tios e avós?

— Eu nunca tive contato com eles. Minha mãe sempre teve uma desavença com os pais dela e meu avô paterno já tá morto enquanto minha avó tá internada com mal de Alzheimer.

— Eu sinto muito...

— Não sinta. Esta é a realidade da minha vida e eu já me acostumei a ela — disse ríspido, no entanto, eu sabia que aquele tom apenas mascarava diversos sentimentos, os quais ele pretendia ocultar por alguma razão.

Eu o julgara mal. Jean era alguém completamente diferente do que eu pensei. Na minha mente, ele era um garoto mimado de pais ricos que criou uma gangue por mera diversão. Talvez ele tenha passado por coisas piores que as que eu passei. Ele fora forte suportando tudo aquilo praticamente sozinho. Ele merecia algo melhor.

Silêncio sepulcral. Em pouco tempo Jean caiu no sono. Voltei a desenhar a tarefa de artes. Quando finalmente terminei o desenho optei por escondê-lo de Jean. Eu tinha desenhado uma espécie de caricatura dele com roupas punks, mostrando o dedo do meio e dizendo "You are mine!" com uma cara bem diabólica. Também tinha desenhado chifres e um rabo pontudo, mas seria abusar demais, por isso apaguei-os.

Jean ainda dormia na minha cama. Dormir não é bem a palavra, ele meio que se debatia. Suava bastante e seu rosto se retorcia em desgosto. Cutuquei-o até que ele acordasse. O terror, o medo e o pânico estavam estampados em seu rosto. Alívio se espalhou lentamente por suas feições.

— Marco?

— Sim, Jean. Tá tudo bem, foi só um pesadelo — declarei em tom suave. O garoto com cabelos de dois tons me abraçou fortemente, procurando confortar a si mesmo. Retribui o abraço. Subitamente senti a obrigação de cuidar daquele garoto agressivo, mas tão delicado ao mesmo tempo.

— Vai ficar tudo bem — sussurrei-lhe. Ele se agarrou em mim ainda mais.

Ficamos um bom tempo embalados no abraço até que Jean finalmente o desfez.

— Quer conversar sobre esses pesadelos agora?

O garoto hesitou, porém, assentiu: — Esses pesadelos começaram quando eu ainda era pequeno... Sempre aparecem monstros gigantes que são quase imortais ou qualquer coisa do tipo... Esses gigantes comem as pessoas sem motivo algum, simplesmente querem nos dizimar. Meus companheiros morrem por minha causa, eu praticamente lhes dou uma ordem para morrer e eles a acatam. Toda noite eu vejo meus pais sendo engolidos e eu não podendo fazer nada, mesmo treinando para ser um soldado e cortar o pescoço, na verdade a nuca, desses gigantes com lâminas de metal. Eu não entendo isso. Eu posso voar sobre eles e matá-los, mas a humanidade ainda perde, eu ainda tenho que ver todos ao meu redor morrerem... E esses gigantes, titãs, como são chamados, me assombram desde sempre... É horrível. Eu já vi o Eren se tornado um desses titãs e quase matando a Mikasa. Eu tenho medo... Tenho medo que isso deixe de ser um sonho... Que eu perca tudo que me resta.

— Você já falou com algum psicólogo sobre isso? — foi a única coisa que em consegui falar. Minha mente estava levando um tempo para processar aquilo.

— Já. Falaram que era por eu ser criança e ter uma imaginação fértil.

— Nós daremos um jeito nisso — falei. Jean retribuiu com um fraco sorriso. — Vem cá — puxei-o para outro abraço.

— Meninos! — minha mãe acabara de adentrar o quarto. Desvencilhamos-nos rapidamente — Quem de vocês fez aquele bolo maravilhoso?

— Fui eu, Marina.

— Foi uma pergunta idiota. Meu Mama mal sabe fritar ovo.

— Mãe! — reclamei, provocando uma risada nos dois.

— Enfim, ficou muito gostoso Jean. Com quem aprendeu?

— Eu... Aprendi sozinho.

— É mesmo? Tá realmente delicioso. O que acha de ensinar Marco qualquer dia desses?

— Sem problemas — sorriu.

— Agora, indo à minha razão por estar aqui: vocês estão precisando de alguma coisa? Vou ao mercado.

Negamos com a cabeça.

— Certo. Não devo demorar e não aprontem!

— Sim, senhora! — fizemos uma continência zombeteira.

— Quer dizer que o maravilhoso Jesus sardento não sabe cozinhar? — perguntou Jean quando ficamos a sós.

— Exatamente. Você sabe desenhar, por acaso?

— Não mude de assunto, mocinho! — riu.

— Só estou virando a situação ao meu favor — dei um leve soco em seu ombro.

— Na verdade, sim, eu sei desenhar.

— Sabe? — indaguei surpreso.

Jean assentiu, levantou-se, arrancou um pedaço de folha de um de seus cadernos sobre a escrivaninha, pegou um lápis e voltou para a cama. Rabiscou alguma coisa e me mostrou sua obra prima: um desenho de um homem de palito com diversos pontos no rosto.

— Viu? Eu acabei de te desenhar! — deu um sorriso divertido.

— Isso — apontei o desenho — sou eu? — ergui, incrédulo, uma sobrancelha.

— Eu sei que nem se comparam à sua beleza natural — corou levemente —, mas em momento nenhum eu disse que desenhava bem. Saber desenhar e desenhar bem são coisas completamente diferentes — fez biquinho e riu, sendo acompanhado por mim.

O momento seguinte foi preenchido por quietude e, quando reparei, Jean estava dormindo novamente. Pergunto-me quantas noites ele já ficou sem repousar... Ajeitei-o na cama e o cobri. O dia estava ficando cada vez mais frio.

Fiquei lendo até umas sete da noite, quando fui tomar meu banho. A água quente fazia com que todos os músculos do meu corpo relaxassem, embora minha mente estivesse inquieta por causa de Jean.

Quando saí do banho, o garoto ainda dormia, uma expressão calma e relaxada em seu rosto. Vesti-me rapidamente e sentei-me da beirada da cama. Acariciei os cabelos de dois tons, o que o fez acordar.

— Desculpe — balbuciei.

— Sem problemas — respondeu sonolento.

— Algum pesadelo?

— Não dessa vez — sorriu.

Passamos mais um tempo em silêncio, até que Jean me puxou para mais perto de si, deitando a cabeça em meu colo.

— Virei travesseiro, é?

— Sim, virou — mostrou a língua e sorriu. Sorri de volta e comecei a acariciar-lhe os fios mais escuros. Logo ele voltou a dormir e eu acabei adormecendo pouco depois.

Acordamos com minha mãe batendo na porta. De alguma maneira eu e Jean estávamos abraçados, sua cabeça pressionada contra meu peito. Nossos rostos tomaram cor quando nos demos conta da situação. A porta se abriu lentamente.

— Meninos? Já estão dormindo? — perguntou minha mãe.

— Ainda não, mãe — respondi.

— Certo. Eu fique sabendo que há uma gangue aqui em Trost — seu olhar se fixou em mim e Jean enfiou as unhas em meu braço. — Algumas pessoas estavam comentando no mercado... Por favor, tomem cuidado e não façam nenhuma besteira se alguém abordar vocês ou qualquer coisa do tipo. Dá pra comprar um celular novo, mas não uma vida nova. Prometem que vão ser cautelosos? — seu olhar perfurava minha alma assim como as unhas de Jean faziam com minha carne.

— Sim, mãe. Tomaremos cuidado. É uma promessa.

Ela me olhou fixamente por um longo momento antes de voltar a falar: — Enfim, eu já vou dormir. Boa noite e nada de ficar fazendo barulho! — sorriu abertamente. — E cuidado — repetiu.

Assentimos e lhe desejamos boa noite.

Jean só aliviou as unhas em meu braço depois que o barulho de passos sumiu na escada.

— Ela vai descobrir, Marco. Ela vai descobrir — falou ele, baixinho.

— Só se você contar.

— Você não entende, Marco! Eu dei sorte porque ela não ouviu o nome "Jean Kirstein" no meio dessa conversa. Quando ela descobrir, você acha que ela vai me deixar entrar aqui? É claro que não! É capaz de vocês se mudarem de novo! Eu não quero te perder, Marco.

Eu não soube o que falar. Minha mãe teria um ataque se soubesse a verdade sobre Jean. Ela daria um jeito de colocá-lo na cadeia, mesmo que isso custasse sua vida. Eu a conheço bem o suficiente para saber disso.

— Talvez seja melhor eu me afastar de vocês — disse ele perante meu silêncio.

— Não! — falei subitamente. Por que eu reagira assim? Nem mesmo eu sei dizer... — Você não pode virar as costas quando as coisas ficarem ruim. E elas não vão ficar. Confie em mim — segurei seu queixo de modo que nossos olhares se encontrassem. Ele assentiu levemente e me abraçou.

— Eu não quero te perder.

— E não vai. É uma promessa.

Depois de um longo momento em silêncio, perguntei:

— Fome?

— Muita! — sorriu fracamente.

Fomos à cozinha e lanchamos quase que absolutamente calados. Quando voltamos ao meu quarto, Jean tomou banho enquanto eu organizava o cômodo, que, por sinal, estava uma bagunça total. Depois, deitei-me no colchão e fiquei lendo até Jean sair do banheiro e se vestir.

— E então, não acha que me comportei bem hoje? — perguntou sentando na cama. — Mereço uma recompensa. Não é mesmo?

— Uma recompensa? — tirei os olhos do livro para fitá-lo. — Tipo o quê?

— Tipo — ele foi rastejando até estar deitado ao meu lado — um beijo — tirou o livro de minhas mãos e encostou sua testa na minha.

— Não, você não foi um bom garoto — afastei minha cabeça o máximo que o travesseiro me permitiu.

— Não fui um bom garoto? Por acaso te roubei um beijo hoje? — sorriu maliciosamente.

— Por enquanto não.

— Sim, por enquanto — afastou-se e ficou me encarando. Corou levemente quando nossos olhares se cruzaram.

— O que você tá esperando? — perguntei num tom impaciente.

— Não sei... Que tal um beijo de boa noite?

— Certo! Primeiro deite na sua cama!

Jean fez como lhe pedi. Levantei-me e sentei ao seu lado, cobrindo-o e acariciando seus cabelos. Aproximei meu rosto do seu lentamente e beijei-lhe a testa. Sua expressão confusa me fez rir.

— O que foi? É um beijo de boa noite.

Jean bufou e não pude conter o sorriso.

— Que tal um beijo de verdade acompanhado de um "boa noite" — perguntou mal-humorado.

— Não... Acho que vou recusar sua oferta, cara de cavalo!

Ele me lançou um olhar de raiva. Sorri e dei-lhe outro beijo, dessa vez na bochecha.

— Boa noite, cara de cavalo.

— Boa noite, Jesus sardento — respondeu fazendo biquinho.

Dormi por um tempo, até que Jean me acordou, como na noite anterior. Acendi a luz do abajur. Ele esperneava na cama e suava.

— Jean? — cutuquei-o sem obter resposta. — Jean! — dessa vez eu o balancei, mas ele não se mexeu. Tive que sacudi-lo de forma nada gentil para que ele finalmente acordasse. Olhos vidrados, respiração pesada, medo estampado no rosto. — Jean, foi só um pesadelo. Tá tudo bem.

Ele me abraçou e eu o envolvi até que ele se acalmasse.

— Esse não foi tão ruim assim, foi? Você estava tão absorto nele a ponto de não acordar...

— Todos são ruins! — retrucou.

Jean se aconchegou em meus braços novamente e adormeceu em pouco tempo. Desprendi-me dele e o ajeitei na cama. Antes de eu voltar para o colchão, uma mão me segurou.

— Fica mais um pouco? Só até eu dormir novamente? — suplicou.

Relutei um pouco, entretanto, concordei, deitando-me ao seu lado. Afaguei seus cabelos e ele pressionou seu rosto contra meu peito.

— Obrigado — sussurrou, caindo no sono pouco depois.

Quando me certifiquei que Jean estava realmente dormindo, levantei-me silenciosa e calmamente e deitei-me no colchão. Eu virava de um lado para outro, contava carneiros, colocava e tirava a coberta, contudo, por algum motivo, não consegui dormir.

— Marco? Você tá acordado? — questionou Jean, depois de quase duas horas no meu dilema.

— Estou. Os pesadelos voltaram?

— Sim — respondeu após uma breve hesitação.

Soltei um longo suspiro e voltei a me deitar ao seu lado. Ele me abraçou fortemente e eu o acalentei.

— Marco, me desculpe por isso. Já é a segunda noite que eu te impeço de dormir. Me desculpe por estar sendo um fardo.

Procurei seu olhar na escuridão e encontrei duas bolinhas brilhantes. Olhei-as fixamente.

— Não, Jean, você não é um fardo. Você só tem um problema uma tanto quanto peculiar.

— Não, Marco. Eu sou um fardo. Meus amigos já ficaram putos comigo por causa disso. Eles diziam o contrário, mas eu podia ver o alívio deles ao não terem mais que ser minhas babás.

— Qual é, Jean! Você tá me dizendo que você é um fardo pros seus próprios amigos? Se é assim, por que eles ainda falam com você? Por que eles ainda perguntam dos seus pesadelos? Eles se preocupam com você. Quem te garante que esse olhar deles não tá perguntando se você vai ficar bem? Por favor, tira essa ideia da cabeça. Você não é um fardo e ninguém pensa isso!

Ele ficou sem argumentos. Suspirei pesado.

— Promete que vai tirar essa ideia da cabeça?

— Prometo.

— Eles sempre estarão ao seu lado. E eu também.

— Obrigado.

— Não se preocupe com isso — acaricie seus cabelos.

Pude senti-lo afundar a cabeça em meu peito e uma de suas mãos segurar a blusa do meu pijama.

— Você promete que eu nunca, nunca mesmo, vou te perder?

— Sim, Jean, eu prometo. Eu nunca vou te abandonar — passei a ponta dos dedos por seu rosto delicadamente e ele fez o mesmo comigo.

— Você pode acender o abajur?

— Pra quê?

— Pra eu ver suas sardas.

Fiz como ele pediu. Jean contemplou minhas sardas atentamente enquanto eu observava suas feições. Ele acariciou todas elas: desde algumas isoladas na minha testa até as na ponta do meu nariz.

— Elas parecem estrelas brilhando timidamente na noite escura — falou baixinho.

— Obrigado — sorri fraco.

— O-O quê?! — corou. — Eu falei em voz alta?

Assenti, o que o fez ficar ainda mais vermelho.

— Você me beija sem mais nem menos na cara dura, mas tem vergonha de falar algo assim? — perguntei incrédulo.

— São coisas diferentes! — fez biquinho.

— Sim, são sim. Você deveria ter vergonha ao fazer o primeiro, não o segundo.

Jean deu de ombros e eu ri.

Ficamos em silêncio, ele tocando cada sarda minha e eu acariciando seus cabelos.

— Posso apagar a luz? — perguntei depois de um longo momento. O garoto concordou.

Assim que desliguei o abajur, Jean pressionou sua cabeça em meu peito.

— Boa noite, Marco.

— Boa noite, Jean.



Notas finais do capítulo

É isso. Sintam-se livres para comentar e criticar, isso faz um escritora feliz ;-) Kisses no heart de vocês.



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