Não se discute escrita por Phaerlax


Capítulo 1
Onde queres revólver, sou coqueiro


Notas iniciais do capítulo

Este capítulo é uma simples apresentação (um prólogo, se quiser chamar assim). Creio que todos os outros serão maiores.



— Ué. — A nova moça da correspondência interrompeu o ritual de seu trabalho, confusa com o que tinha tirado do carrinho. Na mão esquerda, tinha a Veja da semana, onde uma foto escabrosa da presidenta Dilma (em seu pior ângulo) a encarava de esguelha, abaixo de uma manchete provocadora. A mão direita segurava a Carta Capital, com Lula acenando bonachão.

Não sabia o suficiente de política para entender o quão irônica fora sua escolha de mãos, mas sabia o suficiente para entender que o morador do 1205 devia ter sérios problemas de bipolaridade. Experimentou tocar uma revista na outra e se desapontou ao constatar que, contrariando a crença popular, não houve explosão alguma.

Neyde deu de ombros. Talvez fosse alguém que apreciava vários pontos de vista. Ela não era paga para interpretar encomendas dos condôminos, de qualquer forma! (Ela ainda não fora paga, para dizer a verdade).

Antes que pudesse enfiar as duas revistas na caixa do 1205, uma mão surgiu e bruscamente arrebatou a Veja de suas mãos.

— Boa noite pra senhora — disse o jovem que tomara a revista, em um tom tão simpático que Neyde conseguiu não ficar com raiva. Era um moreno de olhos azuis e terno preto, que ela já tinha visto algumas vezes em seu curto período trabalhando por ali. Ele conferia a capa da Veja com aprovação no olhar. — Vou subindo com isso, se não se importa! Não pretendo descer de novo hoje.

Algo no sorrisinho de canto de boca, que erguia uma pequena pinta negra, aludia a certo subtexto naquela declaração. Neyde, porém, não era uma boa analista comportamental.

— Ué. — A interjeição sempre vinha fácil à boca. Ergueu a Carta Capital, notando que o cara não carregava nada além de uma mochila de couro. — E essa aqui?

— Um engano. — A expressão de quem mordeu caqui com cica foi coerente com o afeto dirigido à Veja. — Com certeza é pro 1203, ela sempr-

Foi interrompido por um exemplar de “O Brasil monárquico: do Império à República” colidindo com sua cabeça, em um golpe aplicado com tanta naturalidade que se entendia como corriqueiro. O perpetrador da agressão era um rapaz com uma barbicha no queixo e cabelos castanhos compridos, que batiam no ombro, usando óculos e roupas mais simples. Tinha entrado logo após o moço da Veja, mas Neyde não o notara por conta de sua leseira crônica.

— Não há engano algum. Isso é pra mim, obrigado — explicou enquanto pegava a Carta Capital das mãos da funcionária, franzindo as sobrancelhas para o primeiro homem. — E o 1203 não tá nem ocupado, Flávio, invente mentiras melhores.

— Eu tive que improvisar — riu o tal Flávio. — Não dá pra não tentar impedir esse lixo de passar na minha porta.

— Ué. — Neyde comentou, de forma involuntária, porém sempre perspicaz. — Cês moram juntos? São-

O cabeludo abriu a boca para responder, mas Flávio (era bom saber o nome das pessoas) se adiantou.

— Primos — revelou, jogando o braço livre por cima dos ombros do parente. — O Leozinho aqui cursa a mesma faculdade que eu, então minha tia achou bom que viesse morar aqui, mais perto. A família dele não mora, se esconde.

A fissura entre as sobrancelhas do outro se aprofundou, mas, como já dito, Neyde não era uma boa analista comportamental.

— Ah, tá, entendi — Largou enfim o ué. Indicou, então, as revistas que cada um segurava. — Deve ser uma convivência difícil!

— Você nem imagina. — “Leo” confirmou, virando-se e andando para longe, dobrando o corredor logo em seguida.

— Não liga pro Dom Casmurro, é sempre assim. — Flávio desculpou-se pelo primo, antes de segui-lo. — Obrigado pela entrega, mas eu agradeceria muito se passasse a dar a outra revista de presente pra qualquer outro apartamento!

Os dois sumiram do seu campo de visão.

— Ué. — disse a nova moça da correspondência, antes de resumir o ritual de seu trabalho.



— Primos. — Leonardo requentou, assim que os dois adentraram o hall do elevador. — Mais improviso?

— Na verdade essa historinha já estava pronta e engatilhada há algum tempo. — Flávio apertou o botão, pedindo para subir. — Alguém ia perguntar, algum dia. Se a sua ia ser melhor, desculpa, fica pra próxima.

— Eu ia dizer a verdade mesmo. — Flávio o encarou como se ele tivesse acabado de mostrar um atestado de insanidade. — Mas esqueci que você montou acampamento nesse armário e tem medo de botar a cabeça pra fora.

— Medo? Porra nenhuma. — Fingiu conferir os botões do terno. Em sua defesa, eles tinham o hábito de arrebentar. — Só não quero fofocas se espalhando por aí.

O elevador chegou, apitando e abrindo as portas. Não trazia ninguém.

— Medo, vergonha, que se dane. Você não consegue admitir o que quer. — ralhou Leo, enquanto entravam. — Não tem-

— Ah, eu sei o que eu quero. — corrigiu em tom salaz, sorrindo enquanto buscava o pescoço do parceiro. Só conseguiu tocar os lábios brevemente antes de ser afastado.

Leo apertou o botão do décimo segundo andar, revestido de uma armadura de mau humor.

— Você vai deixar uma coisinha dessa estragar nossos planos pra hoje? — Flávio o envolveu com os braços. Não foi rejeitado, o que o encorajou. — É quinta, quinta é quase sexta, sextas precisam ser comemoradas, e já faz tanto tempo que...

Até o sexto andar, a discussão sobre honestidade e assunção esforçou-se para persistir. O período entre o sexto e o nono foi um pouco intersecional. Do nono em diante, estavam aos beijos.

Não que o atrito estivesse encerrado, oh, não. Ressurgiria durante aquela noite, teimoso, entre momentos de felicidade, no ciclo infindável de espinhos e pétalas dos opostos que se atraem. Mas, como sabe o povo da Física, estes atingem o equilíbrio após o contato.

E, se falo merda, eu peço perdão ao povo da Física. Sou uma voz narrativa de Humanas.

(Mais ou menos uma semana depois, a gravação do elevador viralizou entre alguns funcionários do condomínio. Ao ver incesto onde os demais viam uma confirmação de suspeitas, o UÉ! de Neyde das entregas contrastou com o ahá! geral do povo.

Mas isso ocorreu lá pra quarta-feira e esta história acaba no domingo).



Notas finais do capítulo

Hey! Pois é, nada acontece, feijoada -q Sinto muito por postar um prólogo sem o resto, mas escrever os outros capítulos com um terminado e guardado seria muito agonizante para mim :c O título é uma referência a "O Quereres", Caetano Veloso (https://www.youtube.com/watch?v=_CuWgaJMg0U). Mas a música não tem final feliz, essa história tem u.u O Brasil monárquico: do Império à República faz parte de uma série de livros de História escritos pelo Boris Fausto e o Sérgio Buarque de Hollanda.