O Jardim de Ino escrita por Lie


Capítulo 1
Esperanças


Notas iniciais do capítulo

É algo simples, um fragmento que não segue a sequência cronológica de Naruto, tampouco o enredo.



Haviam anos que ela partiu, de forma simples e sutil, sem se despedir ou sequer avisar de sua ida. “Ela foi treinar, longe daqui” me diria Shikamaru, quando eu finalmente me dei conta de sua falta na vila. E quando novamente perguntava “onde está, com quem está treinando?”, ou “quando volta?”, eles me olhavam impacientes ou cansados, “você deveria esquecer a Ino, Sakura. Não sabemos quando volta, até mais”. E mesmo que sem saber o motivo, mais que preocupada com o sumiço repentino (talvez porque tinha um certo trauma com fugas durante a noite), eu me sentia magoada. Porque mesmo que já não fôssemos amigas eu não imaginava o quão nosso laço se desfizera, já que, como vi, até mesmo rivais tinham considerações uns pelos outros, como Kakashi sempre teve respeito por Gai.

Eu, durante os primeiros meses (nos primeiros anos), aguardava sua volta e continuava a tentar entender, mas “ela não escreveu, Sakura” e quando nem mesmo Tsunade disse saber eu me conformei com “ela disse que está bem” e fiquei bem, na minha. Não insistiria, pois estava claro no rosto entediado de Shikamaru que eu não era bem quista, então desistir de saber o porquê veio naturalmente, assim como o tempo que passou e passou até que minha infância se tornasse um borrão e a única prova de nossa amizade voltasse silenciosamente como a destruiu. Me deparei com Sasuke na vila e mesmo que tentasse ver o mesmo garoto de quando éramos infantis (apesar de não crer que ele um dia fora), não havia nada; somente o olhar cansado e o rosto com as primeiras linhas de expressão.

Apesar de aguardar ansiosamente a primavera porque Ino uma vez dissera que essa era minha estação, ainda estávamos nos primeiros dias de outono, se bem me lembro, e o lótus vagarosamente desabrochava como se houvesse uma preguiça de despertar. Mas aquele outono começou diferente, com um temporal atípico (desses que levam telhados e obrigam os shinobis a saírem da cama na madrugada para proteger os civis) e quando de rotina vagava pela cidade em uma possível busca por feridos, acabei por me aproximar do rio em uma leve atração de algo que ainda não havia identificado e as vi mortas, em maioria.

Os lótus de pé pendiam as pétalas como se decidissem viver ou não depois de ver o horror, enquanto a brisa se encarregava de amenizar seu sofrimento. Mas, estranhamente, no centro de todas permanecia uma, excepcionalmente grande e branca, como um ponto de luz no negro, e extremamente forte por não se desgarrar e seguir o fluxo do rio corrente pela tempestade recente. Instintivamente me aproximei e senti a maciez da pétala, fascinada por ter escapado do vendaval. Foi quando me virei, em uma postura automática de defesa, e me vi frente a frente com Sasuke, que recebia a luz da lua e tinha a pele branca ressaltada pelo negro de seus cabelos. Respirei fundo, acalmando a minha súbita surpresa enquanto minha cabeça começava a imaginar os possíveis porquês de ele estar ali.

“Senti um chakra diferente e vim conferir do que se tratava”.

Sagaz como sempre, Sasuke permaneceu parado; a lua continuava a iluminá-lo e eu continuava a pensar nele, já não borbulhando de ansiedade e sim com uma dor latente pela sua indiferença. Ele não reconhecia meu chakra e isso era extremamente ofensivo quando assimilava que um dia fomos companheiros de time. Com um juntar de sobrancelhas eu vi seus lábios se mexerem e sua voz novamente passou a se sobressair ao som da água correndo. “Não o seu, Sakura”, mas antes que pudesse infantilmente me alegrar com isso, “o seu é altamente perceptível, estaria em apuros se fosse um inimigo”, ele revelou, com a expressão que sempre se dirigiu a mim, como quem diz irritante sorrateiramente. Alguma parte em mim ainda martelava, remoendo as palavras altamente perceptível,  e enquanto brigava comigo mesma ele me ultrapassou, se agachando próximo à flor, com a pétala entre seus dedos, a acariciando e deixando-me extremamente confusa, pois desde quando Sasuke acariciava flores?

“Apesar de estranho, o chakra vem dessa flor, mas não acho que se trata de algum jutso”. Enquanto ele a examinava novamente, com seus olhos vermelhos, eu me concentrei em procurar sentir o chakra ao mesmo tempo em que admirava a perceptividade de Sasuke. Era extremamente sutil, mas estava ali e o questionamento dele (“mas quem, diabos, daria chakra às flores?”) foi como um estalo em minha mente; só poderia haver alguém que doaria parte de si às flores, alguém que tinha um chakra doce como o que emanava ali. “Há mais, posso sentir!”. Levantando-se, seguindo o rio em direção contrária à correnteza e me dando as costas enquanto se afastava, eu só pude o seguir, pensando na sua capacidade perceptiva, tentando me concentrar no chakra e entender tudo aquilo.

Andamos assim, calados, com Sasuke nos guiando entre os lótus que corriam rio abaixo junto dos galhos de árvores e alguns destroços que provavelmente vinham do canal principal do rio. Entretanto, invés de o seguirmos e irmos de encontro ao centro de Konoha, Sasuke seguiu à esquerda, caminhando sobre a água mansa, comigo o seguindo; a correnteza era fraca, sem vestígios da noite tempestuosa, e a vegetação era mais densa. Continuei a encarar o lugar à minha volta, a água clara e as costas do garoto que sequer me dirigia a palavra. Porém, Sasuke sempre foi assim e, embora eu quisesse falar, segurei minha língua; uma voz infantil (talvez meu senso) me dizia que eu não devia continuar me ferindo e que ele realmente não responderia meu tagarelar com algo além de deixe de ser irritante, Sakura.

Foi brigando comigo mesma e ralhando com meus infantis sentimentos que segui a curva do rio, um passo atrás do garoto pelo qual lutei, esperei e que trombei quando subitamente parou. Com o rosto vermelho o vi me encarando, algo como o que está fazendo? gritava em seu rosto e eu só pude dizer um perdão gaguejado. Quando ele voltou a olhar para frente eu me amaldiçoei pelo vexame, até que a curiosidade me venceu e eu olhei sobre o seu ombro, procurando o motivo da súbita parada e me concentrando no chakra.

Com um 'o' gritante em minha boca eu me adiantei, encarando o lugar, sem me lembrar de um dia ter estado ali. A luz natural entrava pelas frestas das folhas e iluminava um chão repleto de flores, algo que jamais imaginei possível já que era outono, mas estavam lá, bem firmes ao chão, as mais variadas flores das mais variadas cores. Busquei Sasuke, uma interrogação brotando em minha face, “mas como?”, querendo uma explicação para tudo aquilo. Ele me olhou e eu vi dúvida em seu rosto, uma dúvida de porquê e não como. “O chakra emana das flores, de todas elas. Alguém deu chakra a cada uma dessas flores, mas por que alguém faria isso?” e percebi que ele considerava a obra uma imensa perda de tempo, todavia eu sentia o doce do chakra ali, assim como o aroma no ar.

“Conheço alguém que pode ter sido a responsável” confessei, olhando a azaleia rosa próxima ao meu pé, já que seu galho pendia e a flor caia sobre a água. Eu não conhecia de flores, sequer sabia que floresciam fora da primavera, mas senti, em meio a tantos aromas, o cheiro da verbena junto da brisa. “Pois é uma ninja muito tola por desperdiçar seu chakra com isso!” e quando ele se virou, pronto para partir irritado pela perda de tempo, a lua pendeu acima de nós, como uma grande lâmpada, trazendo luz ao centro de tudo aquilo. Inconscientemente minha mão, presa a seu pulso, retivera sua passagem. Não me virei para ver sua expressão, a visão que tinha talvez fosse melhor que o escárnio que poderia estar estampado lá e meus olhos correram pelo campo de flores, pelos copos-de-leite crescendo próximo à água e pela nascente borbulhando.

Com a iluminação da lua eu via os lótus como jamais vi, vistosos e coloridos. Eram lótus azuis, brancos e vermelhos, e um imenso lótus rosa, no centro, expondo toda a devoção de Ino. Eu finalmente o olhei, não crendo que ele poderia subjugar aquele santuário, porém ele me olhava, seus olhos correndo de minha mão, sobre seu pulso, para meu rosto; não soube dizer o que seus olhos diziam, mas sabia que era muito além de friúra. Poderia ousar e dizer que Sasuke estava pasmo sob aquele rosto inerte. Eu ainda não sabia por que eu o segurava, ou por que ele não se afastava com sua característica rude, entretanto continuamos ali, admirados com o espetáculo de beleza, com a pureza entrando por nossos poros e o sentimento de intromissão por estarmos em um lugar tão particular. Quando o olhei, pensando em como estávamos invadindo, fiquei surpresa por o ver de olhos fechados, sentido a brisa o tocar. Poderíamos estar manchando aquele espaço sagrado, mas eu sabia que Sasuke precisava daquilo, era como um remédio para sua alma.

Não sabia como realmente chegamos naquele lugar; talvez a terra remexida me dissesse que alguém estivera ali, cuidando, ou talvez fosse um desses acasos do destino. Somente sentia e via uma parte de Ino que jamais sonhei que existisse e me entristeci por ter perdido nossa amizade e não ser capaz de ter esperado algo assim dela. Ali, em meio a todas as flores e à água, eu via uma Ino madura, que sentia muito e que amava a beleza, e sem querer me perguntei se esse seria o motivo pelo qual ela o amava. Talvez ela visse uma beleza diferente da que eu via, algo que a atraía, algo que emanou dele, sutilmente, desde que a lua nos revelara o santuário.

A essência dela estava impregnada naquele lugar e pensei em perguntar se somente eu a sentia, todavia me ocorreu que talvez Sasuke não se lembrasse de Ino ou um toque de ciúmes esperasse por isso. Talvez ele se lembrasse realmente dela ou aquilo somente o remetesse a alguém, sem saber realmente quem. Me ocorreu que, se fosse isso, revelar o segredo, a quem pertencia o jardim, fizesse perder parte do fascínio que aquilo teria para ele, em partes uma desculpa para não aumentar as chances de Ino, e acabei sorrindo enquanto pensava o quão infantil aquilo soava. Com um aperto em seu pulso atraí seu olhar, sorrindo sem me importar realmente por ser Sasuke ali, o Sasuke por quem eu sempre lutei. Percebi que não queria, naquele momento, nada em troca, sequer sua afeição; só queria poder lhe trazer um pouco de paz, como o jardim de Ino. “Não creio que seja uma perda de tempo, Sasuke. Acho que é um exercício para a alma, se doar. Algo que eleva nosso ser” e eu vi que ele não achava uma perda de tempo.

A lua continuou a iluminar o santuário. Sasuke estava calado, mas ainda não afastara sua mão, nem eu a minha. O cheiro doce do chakra dela se misturava aos das flores e eu me questionei onde Ino estaria, se estava bem, se voltaria e, principalmente, se mais alguém conheceria aquele lugar. Me pareceu incólume demais para ser frequentado, íntimo demais para ser mostrado a qualquer um. Talvez houvesse esperança para mim, assim como sentia que havia para Sasuke, e inspirei, assim como ele, o doce cheiro dos lótus. Antes de fechar os olhos eu pude ver algo no rosto dele, como a insinuação de um sorriso.

[...] a amnésia causada pela flor de lótus é uma coisa que muitas pessoas desejam: a possibilidade de começar de novo, de renascer e apagar o passado.

— Significados.com.br



Notas finais do capítulo

Não foi minha primeira história, mas é a primeira que posto em minha vida. A crítica contribui para que cada vez mais surja boas histórias no site, e estou ansiosa para responder algum comentário pela primeira vez.



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