The place that never sleeps escrita por Elizabeth


Capítulo 20
Reatar




— O que está fazendo aí? — reconheci a voz de Rachel enquanto eu estava no chão debruçada sobre umas caixas de papelão no quarto de Edith.

— Procurando o álbum de fotos dela — respondi, não movendo um centímetro da minha posição.

Ouvi a porta fechar e passos se aproximando provocando alguns ruídos no chão rangente.

— Para quê? — perguntou minha mãe num tom brando.

— Quero guardar uma foto dela. Algum problema? — dirigi o olhar a ela.

— Aurora, não precisa de fotos para ter alguém sempre por perto.

— Leu isso em um livro de autoajuda?

Ela revirou os olhos e sentou-se na beirada da cama da vovó.

— Nós precisamos conversar, filha.

— FIlha? — soprei a ironia no ar — Engraçado, há um tempo atrás você não me chamava assim.

— Há um tempo atrás eu não estava em mim. — Minhas sobrancelhas se uniram, Rachel reparou nisso e respirou fundo. — Você pensa que eu sou louca.

— Sim.

— Como pode ser tão fria com sua própria mãe?

— É uma reação à frieza com a qual você deixou de ser minha mãe.

— Deixei de ser sua mãe? — ela meneou a cabeça. — Garota, você nasceu do meu ventre, querendo ou não você sempre será minha filha e vai levar isso até o túmulo.

— Infelizmente.

Eu senti o peso das minhas palavras, mesmo depois de tantos anos tendo uma mãe ausente de espírito ela tinha razão, somos sangue e carne uma da outra e nada pode mudar isso.

— Aurora, eu estou tentando melhorar. — Sibilou — É tão difícil… Sem seu pai é tudo tão complicado.

— Todos nós tivemos que lidar com a ausência dele, mãe — destaquei.

Rachel pôs os braços em volta de si e afagou as costas com as mãos como se estivesse confortando a si mesma. Seu olhar era pesaroso, eu via em sua expressão o esforço colossal para não derramar uma lágrima sequer.

— Eu achava que criando a ilusão de John sempre estar aqui eu não me sentiria mais tão sozinha — sua voz soou distante.

— E quanto a nós? Eu, vovó e Grace não éramos companhias boas o suficiente? — indaguei.

— Não é isso, Aurora. Tente entender.

— Não, eu não consigo. Desde que papai morreu tudo nessa casa pareceu mudar para o lado negro. Você se distanciou de todo o mundo, inclusive das suas filhas!

— Não. Eu ainda sou sua mãe.

— Em todos os meses que passei em Nova York você nem sequer falou comigo ou perguntou através de Edith se eu estava bem. Que tipo de mãe é você?

— Está enganada. — Seu tom tornou-se autoritário de repente — Eu perguntava sim, sua vó não está aqui para provar, mas eu sempre buscava notícias suas. Naquela última noite em que eu lhe vi, quando eu olhei para você e suas malas prontas, foi quando notei o quanto você cresceu, Aurora. E eu fiquei cega durante tanto tempo para não perceber que minha filha virou adulta.

De repente ouvi soluços e fungados, mamãe estava frágil e meu impulso foi instantâneo. Levantei e me pus ao lado dela envolvendo-a num abraço desajeitado, afinal, não tínhamos contato físico há anos.

— Eu sinto muito — sussurrei.

— Não, sou eu quem devo me desculpar — ela disse com a voz embargada. — Seu pai me fez esposa, mãe, dona de casa e a mulher mais feliz do mundo. Éramos felizes. Depois que ele se foi era como se houvesse levado todas essas partes de mim. Mas tudo permaneceu aqui, eu apenas isolei.

— Ainda fala com ele?

— Não — ela riu de leve — Revolvi olhar mais para o mundo real. Não vale a pena perseguir sombras e viver em um universo postiço.

Suspirei de satisfação, ela voltou a ser o que era. A mulher que casou com John Hopper era alegre e divertida, foi isso que o atraiu quando ele ainda estava na faculdade. Ele e o tio Roger faziam ciências contábeis e Rachel jornalismo. Mas enquanto ela ainda começava o segundo semestre John já estava prestes a se formar. Eles namoraram por exatos seis meses antes da gravidez de minha mãe, ela parou de estudar devido a isso e nunca conseguiu retornar. Segundo Edith me dissera, os pais de Rachel não queriam aceitar a criança por acharem que meu pai não assumiria, mas ele provou o contrário quando explodiu de felicidade e pediu a namorada em casamento.

Oito anos depois do nascimento da segunda filha, Grace, ele foi a uma consulta médica de rotina e voltou com a notícia de que o check-up que fizera uma semana antes detectou um estreitamento em suas artérias coronárias. Ninguém imaginava que duas semanas depois ele fosse falecer de cardiopatia isquêmica.

— Eu te amo — ela disse.

— Também te amo, mãe.

Ficamos pregadas no abraço por meia dúzia de minutos, minha cota de carência de atenção materna se dissipou gradualmente até não restar mais resquícios dela. Não lembro mais de quando tive uma sensação de segurança e amparo como esta desde a morte do meu pai.

A porta abriu de repente, era Grace, de início ela ficou paralisada diante da cena, mas Rachel estendeu um braço a fim de chamá-la e ela se uniu ao que se tornou um verdadeiro abraço coletivo.

— Vocês são tudo o que me resta agora — ela beijou nossas cabeças — Vamos ser uma família de novo.

O momento era digno de uma foto ou aqueles momentos em filmes prestes a ir para a cena final. O barulho do chão anunciando a chegada de mais alguém não nos separou, mas a voz de Dean possuía um quê de constrangimento.

— D-Desculpe, eu não quero atrapalhar — gaguejou ele.

— Venha aqui — chamou mamãe. O’Conner se aproximou e foi puxado para o abraço também — Bem-vindo à família.

Ele sorriu.

— Obrigado senhora Hopper — uma pausa foi feita — Hã… Eu só queria avisar à Aurora que um amigo dela ligou e convidou a gente para sair hoje à noite.

Desprendemos-nos uns dos outros. Lancei um olhar apreensivo para Rachel e ela respondeu com um sorriso indulgente.

— Divirtam-se.





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