The place that never sleeps escrita por Elizabeth


Capítulo 15
Descoberta




Uma semana se passou, o ar na casa da tia Joyce tornou-se mais pesado e enigmático, meus tios continuavam com seu comportamento estranho, minhas reflexões a respeito disso não me levaram a respostas concretas e senti necessidade de saber os motivos. Arrisquei uma última ligação para Lexington, Grace atendeu novamente.

Alô?

— Não desligue.

Aurora — sussurrou.

— Grace me conta o que está acontecendo.

A mamãe não quer que eu fale com você.

— Só me diz por quê. — insisti.

Por favor, volta para casa, Aurora.

— Grace, por favor-

Ela desligou, minha aflição chegou ao limite. Na mesma hora tio Roger anunciou o jantar, desci e me juntei à mesa. O tilintar dos talheres batendo nos pratos encobria o silêncio e isso passou a me peturbar, não toquei na comida, não estava com estômago para isso.

— Minha mãe sempre foi assim? — perguntei.

O barulho cessou um momento, eles se entreolharam e tia Joyce respondeu.

— Assim como?

— Louca. — respondi.

Ela parou e empertigou-se na cadeira.

— Não julgue sua mãe, Aurora. — censurou ela — Ela sofre com a dor da perda de seu pai. O que você faria se perdesse alguém que tanto amou na vida?

— Com certeza não conversaria com paredes — retruquei. — Vocês estão estranhos e eu quero saber o que está havendo.

— Não estamos estranhos, Aurora.

— Ora Joyce, vamos lá, ela não é mais uma criança. — disse tio Roger. — Aurora, amigo como John eu sei que não existirá, e acredito que ele não gostaria que continuássemos escondendo isso de você.

— Roger, não intrometa-se. — repreendeu tia Joyce.

— Se você não disser, eu digo. — replicou ele.

Ela ficou estática, eu apenas esperei ansiosa pelo que estava por vir.

— Sua avó, Aurora. — ela murmurou.

— O que tem ela? — perguntei. Não obtive resposta alguma, meu coração apertou, foi comprimido e podia caber dentro de uma caixa de fósforos pelas coisas que se passavam em minha cabeça, todas ruins. — O que tem ela?!

— Dormiu — sua voz falhou — e não mais acordou.

Minha vida deu uma parada violenta, tudo se desfocou de repente. Eu sabia que não havia desmaiado, minhas mãos ainda se mantinham cravadas nas bordas da mesa e minha audição captou o choro de tia Joyce ao longe. O turbilhão de coisas que enchiam minha cabeça reduziram a uma só, culpa.

— Quanto tempo? — minha voz saiu num sopro abatido.

— Duas semanas — respondeu tio Roger, sério.

Levantei-me da mesa num átimo, silenciosa mas determinada. No quarto, peguei minha mala debaixo da cama e comecei a entupí-la com todas as roupas que couberam, dispensei as que sobraram, desci as escadas e fui impedida de passar pela porta por Joyce.

— O que você vai fazer, Aurora?

— Sai da minha frente — rosnei.

— Não, me escute.

— Eu já escutei, aliás, o que ouvi era para ter sido dito semanas atrás! — bravejei.

— Você está fora de si, menina! — ela pôr os braços em meus ombros.

— Não queira me comparar à minha mãe! — tirei seus braços de cima de mim — Saia da minha frente!

— Não com isso — Joyce puxou a mala da minha mão, tão forte e rápido que não consegui pegá-la de volta.

— Que se dane! — cuspi.

Saí em disparada pela porta, não olhei para trás ou pensei na possibilidade de voltar. As ruas estavam abarrotadas de gente, pessoas estranhas com vidas talvez menos medíocres que a minha neste momento. Rejeitei o absurdo de acreditar no que Joyce dissera, recebi a notícia tão de repente que não absorvi coragem suficiente para aceitá-la como um fato. Eu precisava de uma válvula de escape, mas ninguém podia me ajudar, apelei para as minhas últimas alternativas, o preço a ser pago seria agir como a antiga Aurora. Havia um local onde se vendia de tudo, descobri ele a um tempo atrás e esta foi a primeira vez que entrei lá, eu ainda estava com algumas cédulas no bolso e as usei sem hesitar, comprei o que precisava e peregrinei sem destino certo.

Parei na Brooklyn Bridge, algumas pessoas passavam, mas havia um lugar mais afastado e reservado onde me estabeleci. O chão de madeira estava frio assim como esta noite, mas apenas uma coisa podia me esquentar, peguei a garrafa de whisky, destampei-a e virei na minha boca, o líquido desceu queimando por minha garganta e nunca senti tanta falta desta sensação desde que abdiquei dos vícios. Gole atrás de gole não estava adiantando, a intenção era chegar a embriaguez, mas meu corpo sacana sabotou minha vontade. Então tomei os cigarros que havia comprado e acendi um, dei uma tragada profunda e minha mente esvaziou por um instante, minha visão alterou também, tudo ao meu redor parecia diferente.

Meu espítiro acalmou, infelizmente pelo mínimo tempo até o efeito passar gradativamente e eu voltar à realidade miserável. Voltei ao whisky alternando com o cigarro até conseguir o refúgio de outro universo, mas era inútil, a dor voltava mais latejante. Consegui remédios controlados, o bastante para “dormir e não mais acordar”, coloquei alguns na boca e engoli. Não entendo por que me entreguei aos excessos do que talvez, fosse apenas um capricho meu. Mas a escuridão não demorou a chegar, lenta e envolvente, ela me tomou e me libertou do desconsolo.

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— Aurora — ouvi uma voz familiar soando distante. — Aurora!

Meu corpo sacolejava um pouco forte demais para o meu gosto e acordei sem vontade. O chão era duro e frio, o vento soprava gélido contra meu rosto, olhei para cima e vi Dean levantando meu corpo de modo que ele ficasse sentado.

— Vai embora — falei.

— Não, sabe o quanto eu procurei você todo esse tempo? Passei a noite andando por toda a ilha de Manhattan — ele se sentou ao meu lado e me apoiou ao lado de seu corpo.

— Como me achou? — me afastei um pouco tonta, minha cabeça doía.

— Seus tios me ligaram preocupados, disseram que você tinha saído e estava alterada.

— E eles disseram o porquê? — notei garrafas de bebidas vazias e pontas de cigarro espalhados ao meu redor.

Um silêncio se estendeu. Me situei de repente e não acreditei onde estava.

— Como eu vim parar aqui?

— Me responde você, e o que é isso? — ele pegou uma pequena embalagem do chão, pertencia a algum tipo de medicamento — Onde conseguiu isso? Estava tentando se matar? Desista, é inútil.

— Eu não lembro, mas quem sabe, isso não é da sua conta.

— Não é da minha conta? — ele pareceu irritado.

— Sim. Você não tem que estar aqui, não precisa me ajudar. — falei entredentes.

— Eu não vou deixar você aqui. Não depois do que aconteceu.

As interrogações em minha mente logo obtiveram respostas, lembrei a razão de eu estar naquele lugar, com tudo aquilo perto de mim e me senti uma verdadeira idiota, uma fraca.

— E agora? Vai começar a cuspir aqueles clichês patéticos? “Ela foi para um lugar melhor”, “Não se preocupe, ela sempre vai estar viva no seu coração”. — Eu senti que se não fosse minha armadura de gelo teria chorado — Ela morreu! E eu não estava lá, Dean!

— Eu ia dizer o contrário, você vai sofrer muito, e ninguém sabe se ela está num bom lugar, você vai ter que lidar com isso, assim como a dor e a culpa por não estar ao lado dela no fim. Você vai enfrentar o inferno e queimar em angústia. Mas há um lado bom nisso tudo, você não vai estar sozinha.

— Estava tudo indo tão bem.

— Essas coisas acontecem, é a lei da vida.

— Odeio leis.

— É por isso que tentou ter uma overdose? Sabia que tem pessoas que se importam com você?

— Tipo quem? Você? Não enche.

— Hey, eu sei que pode parecer ridículo, mas sim, eu me importo com você.

— Por que você não me deixa aqui? Eu quero ficar sozinha, entende? Eu quero ficar sozinha! Eu não quero nem preciso de ninguém, nunca precisei, então ou você sai daqui e nunca mais fala comigo ou eu-

— Espera, é isso que você quer?

— Merda! Por que você simplesmente não me deixa que nem o último que me esqueceu?

— Desculpe, Aurora. Eu entendo sua dor. Mas eu não sou o Brad.

Ele se levantou e saiu.



Notas finais do capítulo

Provavelmente você deve ter ficado chateado(a) com a Aurora, mas keep calm que tudo vai se ajeitar kkk



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