Blue Falls escrita por Florels


Capítulo 6
Invasão de Domicílio




–Sabe, é bem estranho eles terem se aproximado de você desse jeito, eles costumam ser muito reclusos e distantes de todos. – Stanley observou – Mas eu já te contei resumidamente sobre a noite de Halloween e tudo mais. Abby costumava ser apenas uma garota normal até aquela noite. Aí de repente ela desaparece e tempos depois quando volta está totalmente diferente. Ela sempre gostou das coisas estranhas, adorava a estrutura antiga desse colégio e todas as histórias macabras e de mistério sobre a cidade, mas não passava disso. De repente, ela quem se tornou um mistério. – Ele riu para si mesmo. Falava em um tom despreocupado, era muito aberto. – E tem aquele cara esquisito ainda, o Zachary. Nunca tínhamos visto ele na cidade, nem sabemos onde ele mora. Todo mundo culpa ele por essa transformação da Abby.

–Você me disse que ele era muito estranho no começo... – Joguei, para ver se conseguia mais informações. Era muito fácil fazer Stanley falar.

–Ah sim, ele era. Ainda mais do que é agora, se bem que eu não o vejo constantemente. Ele não fava com ninguém além de Abby, nos olhava como se fossemos ameaças. Não sei explicar, mas Laurie é a única que fala com eles de todos nós. Só que ela é muito reservada, na época nós a questionávamos sobre o que estava acontecendo, mas ela media muito as palavras, como quem esconde algo.

Eu ouvia tudo atentamente, com a cabeça apoiada nas mãos. Stanley falava sem olhar em meus olhos, e gesticulava muito.

–É realmente bem estranho... – Eu disse, pensativa. – Vocês nunca tentaram investigar isso?

– Investigar? Pra que? Seja lá o que fosse eu não estou interessado em saber. Tenho objetivos maiores do que perder meu tempo com eles. – Concluiu, pondo fim às revelações que vinha fazendo.

Naquela tarde, eu estava sozinha em casa novamente desenhando. Bebi tanto café que as xícaras se acumularam em minha escrivaninha, o sono estava por certo tempo domado. Desde que me mudei meu sketchbook antes vazio já estava desenhado até a metade, e meu bloco de papel de desenho diminuía rapidamente enquanto minhas paredes se enchiam na mesma velocidade, revelando como minha inspiração ali era claramente maior. O fim da tarde se aproximava, e o céu estava ficando alaranjado-roxeado. Abri minha janela e me sentei no telhado a fim de apreciar o espetáculo. Era um dos poucos dias em que o tímido sol tinha durado o dia todo. Olhei para a floresta que cercava os lados e o fundo da casa, imaginando qual rota teríamos feito ontem. Fiz uma nota mental de que aquele seria meu destino na próxima caminhada. Seria aquela clareira a do meu sonho? Aliás, que relação aquele sonho teria com tudo o que aconteceu nessa madrugada? Eu gostava muito de ligar os pontos.

De repente ouvi uma voz me chamar, o que me trouxe de volta a realidade. Vi de longe alguém acenando no portão e imediatamente gelei. Os cabelos loiros eram inconfundíveis. Acenei de volta, sem saber o que fazer. Ameacei me levantar quando Zac gritou de volta:

–Fique aí!

O que aconteceu depois foi surreal. Zac escalou o enorme portão pontiagudo da entrada sem dificuldades, e entrou em meu jardim. Eu não vi direito como, mas ele subiu pela lateral de minha casa se apoiando nas janelas, subindo em meu telhado sem muita dificuldade. Confesso que por aquilo eu não esperava. Tudo bem que ele era magro, mas aquilo? Seu espírito imprudente me surpreendia cada vez mais.

– Ér... Oi? – disse ele desamarrotando as roupas enquanto sentava ao meu lado. – Espero que não tenha ficado assustada, eu... Eu costumava entrar aqui quando não havia morador – Ele confessou tímido enquanto encolhia os ombros.

– Acho que não estou muito acostumada em receber visitas inesperadas invadindo minha casa – falei enquanto olhava para frente.

–É, eu também não estaria – disse sorrindo, aquele seu sorriso vivaz de por fim à guerras. As olheiras que ele tinha na madrugada passada haviam desaparecido. – Eu queria me desculpar por ontem Johanna. Não quero que pense que sou daquele jeito, é que não foi um bom dia para mim.

Ponderei. Se ele tinha vindo até ali pedir desculpas, talvez se importasse.

–Você tem que ter mais autocontrole – falei séria. – Se não fosse por Oliver lá, acho que eu ainda estaria perdida.

–Autocontrole, escuto muito essa palavra direcionada a mim – seu olhar era distante, como se estivesse revivendo memórias antigas.

Seguiu-se um silêncio, quando propus para que entrássemos. Zac pareceu se animar com a ideia. Em meu quarto, ele explorou tudo. Observou meus desenhos e pegava os pequenos objetos de decoração para poder ver mais de mais perto, mas foi ao ver meus vinis que seu semblante se iluminou.

–Puxa, alguém com discos! – disse entusiasmado, enquanto observava um por um. – Eu sempre os adorei, nunca me conformei por terem sidos substituídos pelos CDs.

–Que agora foram substituídos pelas mídias digitais – falei decepcionada.

Eu também era uma das poucas fãs de discos e coisas analógicas. Adorava fazer compras nas lojinhas de discos de Portland e ficava animada quando descobria alguma banda alternativa atual que fabricava versão vinil de seus álbuns. Zac pegou um disco do Sonic Youth e colocou para tocar, enquanto explorava todos os cantos do quarto. Ele cantarolava Dirty Boots quando pegou um livro da estante e começou a folhear sentado no chão. E então começou a fazer perguntas.

– Você não era daqui não é? – A pergunta que eu vinha respondendo desde que cheguei.

–Não, na verdade vim do litoral.

–Portland certo? Ouvi rumores. Eu também não era daqui... – ele começou a falar, mas interrompeu seu pensamento.

Ele usava tênis Converse pretos, os quais batia no ritmo da música.

–Como os rumores aqui correm! – ri surpresa.

–Você nem imagina. Eu costumava odiar esse lugar por isso. Gostei da sua pedra – disse apontando para a ônix preta presa em minha gargantilha de couro.

–Ah, este é meu amuleto de proteção. Tem gente que acha isso idiota, mas...

–Não, não é idiota. – ele logo interrompeu. – eu gosto bastante de pedras inclusive. Não é interessante pensar em como elas levam milhões de anos para se formar, cada uma totalmente única?

–Sim, eu acho isso incrível! Justamente por isso acreditam que elas possuem uma energia enorme, por passarem tanto tempo na natureza, a maior fonte de energia que existe afinal. A ônix preta por exemplo tem energia de proteção. Mas isso é só uma crença. – logo justifiquei. Não me sentia a vontade falando sobre o que acreditava.

– As crenças existem por algum motivo, não é mesmo? Há muitas coisas nesse mundo além de nossa mera compreensão. - Disse enquanto se levantava.

Fiquei pensativa.

Ele colocou o livro de volta e pegou minha câmera Polaroid analógica, que estava sobre a estante, e tirou um autorretrato. Ri com sua ação, ele parecia muito animado com a sessão nostalgia que era meu quarto. O retrato saiu alguns segundos depois, e ele fixou a pequena foto entre meus desenhos. Cantarolamos Sunday antes do disco chegar ao fim, quando então ficamos os dois observando minha parede por alguns segundos em silêncio. Foi então que ouvi o barulho da porta principal se fechando. Olhei lá fora, o carro de papai já estava estacionado.

Gelei onde estava.

–Zac, acho que você deveria ir, não avisei que iria trazer visitas hoje.

Ele olhou pela janela e viu o carro, entendendo imediatamente o que eu quis dizer.

"Johanna, cheguei, você está aí?"

Pude ouvir os passos de meu pai se aproximando na escada, junto a sua voz.

Zac e eu trocamos olhares nervosos, enquanto ele me sussurrava rindo:

–Me desculpe, eu já estou indo... Ah! Não conte nada para Abby que eu estive aqui, por favor – seu olhar era de súplica.

Antes mesmo que eu respondesse, a porta do meu quarto se abriu. Virei-me para meu pai.

Estava tudo acabado.

–Ah você está aí, por que não me respondeu? – perguntou ele. – Feche essa janela, está ficando frio garota! Vou preparar o jantar – E seguiu para cozinha.

Respirei fundo.

Voltei-me para a janela novamente, surpresa. Minhas mãos tremiam e meu coração estava acelerado. Apoiei-me no parapeito da janela e dei uma boa olhada em volta. Olhei para o portão, para a floresta, cheguei até a ir para a janela da parede oposta para ver o jardim dos fundos:

Já não havia mais nenhum sinal de Zac.





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