Blue Falls escrita por Florels


Capítulo 49
O Adeus


Notas iniciais do capítulo

(ladies and gentlemans, esté é o penúltimo capítulo)



Passaram-se alguns dias de calmaria. Era uma manhã pálida como todas as outras, porém uma chuva fina caía lá fora. Acordei com Zachary do meu lado, o que não era habitual. De olhos fechados, era como se fosse um anjo. O leve rosado de suas bochechas até o faziam parecer com um garoto normal, apenas cansado de uma longa noite de aventuras. Mas eu sabia que ele carregava nas costas todo o peso de uma vida e de uma morte.

Acariciei seus cabelos dourados. Ele abraçou o travesseiro e se comprimiu ainda mais. Parecia sempre querer se esconder para dentro de si mesmo, ainda mais quando dormia. Após alguns minutos, seus olhos azuis se abriram e pareceram me focar.

–Bom dia, Walker - eu disse ainda com as mãos em seus cabelos.

Zac se espreguiçou, ainda parecendo perdido. Depois, veio até mim e me deu um beijo na testa, me abraçando com força e sussurando um "bom dia, pequena" nos meus ouvidos. Permaneci em seus braços por certo tempo, observando as finas gotas de chuva salpicarem a janela. Ouvia-se trovoadas ao longe, aquele definitivamente seria um dia melancólico. Me aninhei ainda mais em seu abraço.

A manhã descorreu preguiçosamente enquanto compartilhávamos nosso silêncio confortável, mas eu sentia algo incomum no ar. Zac estava quieto demais, o que significava que sua mente estava muito barulhenta.

–Zac, tá tudo bem? - perguntei devagar depois de um tempo, e senti seu corpo se tensionar.

Ele se levantou dizendo um "sim" baixo, enquanto vestia seu suéter e seus jeans rasgados, para depois se encostar na minha estante oposta à cama virado para mim. Ali ele cruzou os braços e ficou me observando. Foi então que notei algo que tinha me passado despercebido: havia um traço de dor em seus olhos avermelhados.

Me sentei na cama, e o encarei de volta.

–Pode me falar o que tá acontecendo? - perguntei começando a ficar preocupada.

–Já se viu no espelho hoje? - ele perguntou rispidamente.

–O que você tá dizendo, Zac? - respondi confusa.

Ele permaneceu em silêncio, e engoliu em seco.

–Eu perguntei o que você quer dizer com isso– repeti em um tom severo.

Então, em menos de um piscar de olhos, ele apareceu do meu lado e me puxou da cama me levando até o espelho ao lado da estante, de maneira um pouco brusca.

Em pé ao meu lado, ele dizia desesperadamente:

–Veja só seus olhos, J! E olha como você tá pálida!

Levei as mãos ao meu rosto. Meus olhos estavam profundos e escuros em volta, e minha pele tinha uma tonalidade anêmica. Eu estava protelando esses efeitos faz um tempo, mas nessa manhã em específico eles pareciam mais evidentes. Ou era porque eu havia parado para analisar.

Não respondi.

–J, você parece morta. Eu estou sugando a sua vida. - ele disse agora sem emoção.

Olhei para seu reflexo ao lado do meu. Eu iria envelhecer, e ele continuaria para sempre jovem e bonito. Senti um enorme vazio.

–Zac... - comecei a dizer.

Isso não é natural, isso não é natural– ele começou a repetir em um transe, dando voltas pelo quarto.

–Zachary, me escute - eu disse, mas minha voz saía baixa demais para que ele desse atenção.

–Você merece viver J! - ele disse, agora gritando - e eu estou sugando esse seu único direito!

–Zachary, por favor! - eu disse, sentindo as lágrimas escorrerem por meu rosto.

Ele correu até mim e me abraçou, secando minhas lágrimas desesperadamente.

–Eu só queria te proteger Johanna, eu queria que nunca nada te fizesse mal, como me fizeram. Mas eu percebi que quem mais te faz mal, sou eu.

Quando ele pronunciou essas palavras, senti uma pontada no peito. Era a conclusão que eu tanto temia que ele chegasse.

–Zachary, não... - eu lutava para respirar e falar alguma coisa, mas as sentenças não conseguiam se completar.

–Sim J, se eu quero te proteger, o melhor que posso fazer é ficar longe de você.

–Não! Você não pode! - e então, corri até minha escrivaninha, e peguei o estilete junto às minhas canetas, o apontando para meu pulso.

–É porque eu irei envelhecer, não é? Posso resolver isso agora - eu dizia já deixando a sanidade de lado.

–Johanna, pelo amor de deus - ele disse vindo até mim e tirando a lâmina de minhas mãos sem esforço.

–Me devolva! - gritei.

–Não, você não vai perder sua vida por minha causa! - ele gritou ainda mais alto, segurando meus pulsos com suas mãos firmes, e completou:

–Tudo o que eu queria era ainda ter uma pulsação, e então eu colocaria fim nesse pesadelo. Você ainda tem a sua, e não vai abrir mão disso assim.

Só então ele me soltou duramente, e minha pele onde suas mãos seguraram começou a ficar vermelha.

–De que adianta um pulso nas veias se eu não posso ter você? - falei com voz falha, entre lágrimas e soluços.

–O tempo vai passar para você, e o tempo cura tudo quando se está vivo. Aos poucos me tornarei apenas uma memória embaçada, você sabe disso - ele dizia triste, como se quisesse que aquilo fosse falso ao mesmo tempo que afirmava.

–Você sabe que não - eu respondi.

–Johanna, eu preciso que você me deixe partir para que você enfim siga seu caminho. Veja só, você mal sai do seu quarto, e desperdiça sua alma viva com uma morta. Isso não é natural. Uma vez eu fora egoísta com Abby, mas eu jamais a amei, muito embora tentasse. Eu achava que nem era mais capaz de sentir alguma coisa, eu já te disse uma vez... a morte é um imenso vazio. Mas você, J, me mostrou da maneira mais dolorosa que eu ainda posso amar. E por te amar, eu preciso partir.

–Zachary, você não pode me abandonar assim - eu disse, encostando-me na parede, sentindo-me exausta.

–Eu estou cansado de causar danos, minha pequena J. Eu já fiz estragos demais por essa minha tortuosa e eterna trajetória, não quero que você seja mais um. Você é tão especial para isso, tão preciosa... eu queria que eu também fosse. Mas eu não pertenço mais à este lugar, talvez eu não pertença a lugar nenhum.

–Mas e Leonard, Zac? - eu disse, desesperada para arrumar argumentos - ele vai lhe caçar assim que sair dos limites desse jardim.

–Ah J - ele sorriu triste - O que seria de Peter Pan sem o seu Capitão Gancho? De certa forma acho que esse é meu destino, assim como o de Leonard. Acho que nós dois precisamos disso para dar um sentido à nossa existência.

–Primeiro Oliver, agora você.... - eu disse com o olhar perdido.

Ele então veio até mim e segurou meu rosto em suas mãos, me olhando profundamente com seus olhos melancólicos, e disse com uma voz muito doce:

–Johanna, você não está sozinha. Você tem uma família que te ama, tem amigos que estão vivos, prontos para viver milhões de coisas ao seu lado. Não se lembra das minhas fotos? Eu vivi muita coisa. E está na sua vez de fazer sua própria história.

Apertei os olhos negando tudo, como se tentasse em um ato aflito acordar de um pesadelo.

–Você sabe, eu não posso sair de Blue Falls. E esse lugar ainda tem muito de mim, essa casa, esse quarto... digamos que eu me torne o seu anjo da guarda agora, mesmo que eu esteja mais para demônio– ele disse olhando pra baixo. - Mas eu irei te proteger de longe com todas as minhas forças, e um dia ainda nos encontraremos de novo. Eu só peço que você não espere por esse dia, e por favor, até lá, viva. Se quiser fazer algo por mim, viva a sua vida.

–Você vai se esquecer de mim - eu disse.

–Nem se eu quisesse. Mortos guardam rancor e lembranças melhor do que escorpianos, se lembra? - ele disse antes de dar novamente um sorriso agridoce.

Olhei para ele, e senti novas lágrimas escorrerem. Não havia nada que eu pudesse fazer, ele estava decidido. Ele beijou minha testa, e em seguida beijou meus lábios, com um desespero similar à primeira vez. Essa seria a última.

–E eu amarei você, Johanna Dubrowsky, por toda a eternidade pela qual eu vagar - ele sussurrou ainda com os lábios nos meus.

E quando nos separamos, ele deu alguns passos para trás. Eu ainda estava entorpecida, aquele beijo havia me doído mais do que todas as palavras por ele ditas antes. Subitamente a janela atrás dele se abriu, fazendo com que os pingos finos de chuva entrassem e molhassem o quarto. Ele a fitou brevemente. A mesma janela pela qual ele visou sonhos e esperanças um dia, hoje parecia lhe trazer apenas lembranças tristes de um período que jamais voltaria.

Quando voltei à mim mesma e comecei a correr até ele, já era tarde. Ele passou pela janela, seu eterno portal, dessa vez sem previsão de volta. Ainda com os olhos nos meus, Zac deu passos cuidadosos para trás até chegar ao limite do telhado com o vazio.

–Tchau J - foram suas últimas palavras.

E então ele fechou os olhos e abriu os braços, caindo do telhado em direção ao grande vazio.

Naquela fração de segundo, me lembrei do garoto sentado no banco da praça deixando seu livro para trás, que me chamou tanto a atenção.

–Zachary! - gritei, pulando a janela e indo até a direção que ele estava no segundo anterior.

Lembrei-me do arrepio que senti quando ele olhou pela primeira vez no fundo dos meus olhos.

Cheguei até a ponta do telhado. Mas já não havia mais Zac ali.

Lembrei-me da sua imagem fitando-me por entre as chamas na clareira, e do olhar curioso e travesso surgindo no meu quarto pela primeira vez, cantarolando Sonic Youth.

Não havia mais Zac lá embaixo, nem em lugar nenhum.

Lembrei-me de seus momentos explosivos, e da dor contida na imensidão do seu olhar.

Eu nunca mais viveria nenhum desses momentos.

Eu nunca mais o veria, provavelmente.

E mesmo assim eu ainda podia sentir que a sua essência permaneceria viva naquele lugar, perseguindo-me e assombrando-me para sempre.





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