Blue Falls escrita por Florels


Capítulo 44
Exaurir




Eu acordei em minha cama na manhã seguinte, sozinha. Tímidos raios de luz entravam pela janela e havia apenas as minhas roupas no chão. Eu ainda vestia o suéter de Zac, que me confirmou de que tudo havia sido real. Me sentia um pouco melhor, e ao me levantar as coisas não giraram. Ótimo. Abri a porta de meu quarto e observei pelo corredor: silêncio. A casa ainda dormia. Era uma manhã de domingo, a neve lá fora continuava a cair lentamente, fazendo os dias cada vez mais frios. Olhei a paisagem pálida pela janela, e para o amuleto logo acima pendurado. Por onde estaria Zachary? Me perguntei baixinho percorrendo os olhos pela floresta ao longe.

–Oi J - sua voz vinda de trás de mim me fez dar um pulo de susto.

Ao me virar, ele estava encostado na minha estante, me observando.

–Olha, temos que combinar melhor isso de você aparecer assim de repente... - comecei a protestar, mas ele me interrompeu rindo e dando-me um abraço apertado.

–Você está melhor? - ele perguntou calmamente.

–Aparentemente. O que aconteceu?

Ele se afastou e sentou-se no tapete.

–Você desmaiou, eu fiquei muito assustado - ele disse olhando para as mãos. - Então eu coloquei você na cama e aguardei até você acordar. Mas acho que você acabou pegando no sono.

Me sentei na janela e o fitei. Ele sentado no tapete segurando as pernas parecia frágil e inofensivo.

–Zac, o que estamos fazendo é certo? - perguntei.

–O que quer dizer com isso? - seus olhos azuis subitamente se ergueram para mim.

–Não sei, eu só estava pensando... Não estamos indo contra a natureza?

–O simples fato de eu estar diante de você não alterou sua concepção de natureza? - ele disse com um olhar perturbador.

Fiquei pensando naquilo.

De repente, ouvi passos e a voz de meu irmão me chamando pelo corredor. Subitamente a porta se abriu, e um Johnny descabelado apareceu.

–Com quem você estava conversando? - ele perguntou curioso.

Olhei para o tapete, Zac não estava mais ali.

–Com ninguém, Johnny. E não chegue mais no meu quarto abrindo a porta assim, ao menos bata antes - resmunguei descendo da janela e indo para o banheiro, passando por ele irritada.

Johnny ficou sem entender, me olhando com uma expressão confusa.

x x x x

Naquela tarde combinei de me encontrar com Laurie, e fomos até um café no centro da cidade. A neve não pemitia mais caminhadas pelo bosque, e o dia terminava cada vez mais cedo. Depois de trivialidades, a conversa tomou seu rumo:

–Então J, o que você quer me contar? - perguntava ela enquanto comia um pedaço de seu brownie.

A cafeteria onde estávamos era um local agradável e aconchegante. Havíamos deixado nossos casacos na entrada e sentado no segundo andar, próximo à uma enorme janela. A vista da praça central coberta de neve era quase que romântica. A cafeteria tinha uma decoração estilo irlandesa, as mesas e o chão eram de uma madeira escura e o ambiente era iluminado parcialmente por luzinhas nas paredes, dando um toque acolhedor ao lugar.

Fui direta:

–Tenho novidades. Zachary Walker voltou.

E ao dizer isso, Laurie imediatamente parou de mastigar seu brownie e olhou para mim atônita, quase como que de reflexo. Eu tomei um gole de meu capuccino, o que fez com que eu me sentisse aquecida, enquanto ela se recuperava do choque.

–Mas como assim, o que aconteceu? Ele estava com Abby?

Ah, Abby. Eu havia quase me esquecido.

–Não, ele apareceu em meu quarto sozinho.

–E o amuleto... - ela começou a dizer, mas era como se já soubesse a resposta.

–Pois então, parece que não exerce o mínimo efeito sobre ele.

Ela refletiu por alguns instantes, e tomou um gole do seu chocolate quente. Ela me olhou fundo nos olhos, antes de me dirigir a pergunta:

–J, seja sincera. O que vocês tiveram foi mais do que uma conversa não é?
Automaticamente senti meu rosto corar, e o calor antes confortável causado pelo café agora parecia me fazer suar.

–Como assim, Laurie? - perguntei contendo o riso.

Ela ainda estava muito séria.

–Não precisa entrar em detalhes, mas é que eu posso ver em você. Sua aura está fraca J. Acho que ninguém te explicou ainda sobre o vampirismo de energia praticado por alguns espíritos, não é?

Devo ter feito uma expressão muito confusa, pois Laurie começou uma aula despreocupada logo em seguida:

"Os espíritos não possuem uma força motriz de energia como nós, de carne e osso. Eles têm o necessário para existir como essência, mas não para interagir com a matéria. Ou seja, os desencarnados que vagam por esse mundo necessitam obter energia em alguma fonte. Os Tenebris por exemplo têm seus rituais de transferência: para um espírito da Tradição poder voltar à nossa dimensão, ele necessita de algum feiticeiro para lhe suprir por meio de magia a dose enérgica necessária. Alguns outros espíritos se alimentam da energia que foi gerada um dia por eventos, renovada por memórias e lembranças, daí que vem aquele conhecimento comum de que casas antigas e os pertences de mortos costumam atrair os chamados fantasmas; são objetos e locais com muita energia acumulada. Além de que o próprio pensamento emite energia, isso você já deve ter ouvido falar. Quanto mais se pensa em algo, mais se atrai energia que esteja relacionada àquilo."

Ela terminou de tomar o chocolate em sua xícara, e após dar a última mordida em seu brownie, concluiu:

–E bem, temos também os chamados vampiros energéticos, um termo puramente figurativo em alusão à nossa querida literatura, não comece a associar coisas. São espíritos que sugam a energia dos vivos, mesmo sem perceber. Eles faziam isso também durante a vida sem saber, embora em uma escala bem menor. É uma condição nata e suas causas são ainda desconhecidas.

Ela amassou o guardanapo e o jogou na mesa, e me disse com um sorriso malicioso:

–Então sinto lhe dizer J, mas nosso querido Walker é um desses vampiros. Eu demorei para entender, mas hoje me é muito claro. Perceba que passar muito tempo com ele pode lhe deixar cansada ou irritada. E que se você permitir que suas almas se unam, a energia transferida será tanta que pode lhe fazer mal, de verdade.

Eu a observava como uma fiel aluna, sem interromper, atenta ao rumo que a conversa ia tomando.

–A energia transferida é enorme quando tem a sua permissão. E isso deixa um verdadeiro dano momentâneo na sua aura, que com o passar do tempo pode te causar consequências graves. Essa transfêrencia ocorre entre os vivos também, mas é apenas uma troca. Quando um dos dois está morto, é uma via de mão única. E não é o espírito quem sai perdendo - ela concluiu.

–E o que posso fazer, afinal? Mandar Zac embora de minha vida?

–Isso seria o ideal, mas eu não sou ingênua o suficiente para acreditar que você cogitaria isso. Só mantenha a sua vida à parte, não deixe que ele te consuma inteiramente. Você lembra como Abby era? Não seja como ela.

Continuamos ali sentadas, observando a paisagem melancólica.

–Falando nela, - Laurie começou - aquele dia em Bloomfield, você se lembra? Em que eu e Zachary ficamos para trás, o mesmo dia em que ele brigou com Abby.

Assenti com a cabeça.

–Naquela noite de Samhain, Zac havia decidido partir para a dimensão dos espectros, local em que deveria estar desde sua morte, e que nunca entenderemos por que não esteve. Alguns espíritos simplesmente ficam presos aqui, enquanto outros vão para onde quiserem. Depois de anos de angústia, ele finalmente tinha se decidido. Não havia contado nada para Abby, sabia que ela iria entrar em crise. Ela entraria de qualquer forma, mas ele não queria estar por perto quando isso acontecesse. Sim, iria ser cruel, ele iria abandoná-la sem piedade. Aquela havia sido sua decisão desde o início do outono, e somente eu, ele e Nathan sabíamos.

–E porque ele mudou de ideia? - perguntei, lembrando-me da Abby desesperada em meu jardim, poucos minutos antes de desaparecer na floresta.
Laurie deu um sorriso, talvez pela minha inocência.

–Porque ele conheceu você.

x x x x

Ao sair da cafeteria, me despedi de Laurie e segui para casa. Atravessei a praça central despreocupadamente, observando as luzes natalinas que haviam sido colocadas pelas árvores e que davam às ruas uma atmosfera quase que mágica. Destraída, prestava atenção em cada rosto que passava por mim, a maioria observando tudo ao redor como eu com olhos brilhando, não deveria fazer muito tempo que as luzes tinham sido colocadas. Uma música ao fundo vinha de algum estabelecimento, e eu idealizei que aquele era meu primeiro natal com neve.

No meio da praça, parei para uma melhor contemplação. Eu estava ao lado do velho chafariz esculpido com anjos, o limo agora coberto com neve. Entre os diversos rostos que eu via, um em segundo plano me passou despercebido por um breve momento. A face pálida estava séria e me fitava inerte, de pé em frente ao último e mais isolado banco da praça central. Ao seu lado, outra face, esta com um sorriso irônico, me cumprimentava com um aceno cortês. Oliver e Leonard, lado a lado com seus sobretudos negros, agora de viravam e partiam na direção oposta.





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