Blue Falls escrita por Florels


Capítulo 21
Dilemas




Voltamos todos juntos pelo caminho do riacho. Zac ia à frente, caminhando daquele seu jeito perdido e livre. Eu ia ao lado de Abby, que tagarelava, e Oliver atrás de nós, sério. Era realmente muito difícil acompanhar os diálogos de Abby, como sempre: suas ações eram alternadamente vívidas e taciturnas. Sua voz variava constantemente de tom, indo de entusiasmada à sombria com pouco. Mas ela era divertida. Percebi que ela costumava dançar sem música e sorrir por pouco, embora seu sorriso parecesse mais maníaco do que sincero. Ela estava usando uma bolsa jeans cheia de bottons e enquanto falava eu concordava sem prestar atenção, torcendo para que ela não estivesse fazendo perguntas.

O pequeno papel ainda estava em minhas mãos, servindo como uma espécie de curativo entre meus dedos. Eu ainda não havia tido oportunidade de ler seu conteúdo. Nós passávamos por uma parte repleta de enormes carvalhos, que formavam um estreito corredor com suas folhagens parecendo um túnel verde e alaranjado. Alguns deles estavam quase sem folhas, enquanto no chão um tapete laranja delas se formava.

Nos galhos retorcidos dos carvalhos viam-se pequenas plantas entrelaçadas. Oliver me contou que o carvalho era a árvore sagrada dos celtas, e que os antigos sacerdotes, os druidas, se reuniam nos bosques de carvalho para rituais e cerimônias pagãs. As pequenas plantas que cresciam entrelaçadas nos galhos eram na verdade ramos de visco, uma das mais sagradas das ervas, pois diziam que suas raízes não cresciam sob a terra, mas acima dela. Ele estava, portanto, entre os dois mundos. Suas propriedades curativas protegiam contra todas as formas de mal, por isso era muito usada em encantamentos. Segundo o mito da colheita do visco, os cachos deviam ser cortados por um sacerdote druida na lua nova antes do solstício de inverno.

A neblina da manhã aos poucos se dissipava.

–Para onde vamos? – perguntou Zac à frente.

–Pensei que era você quem estava nos guiando – respondi.

Agora ele tinha se virado, caminhando de costas olhando para nós.

–Vamos para a casa da J – decretou, com olhar animado.

As compridas mangas de seu suéter cobriam a metade de suas mãos, deixando apenas os magros dedos à mostra. Ele adorava usar roupas enormes.

–Mas meu pai acha que fui pra aula... – admiti.

Aproximava-se das dez horas da manhã.

–Vamos para o apartamento do Oliver então – Abby propôs.

Olhamos todos para ele, que rebateu em tom provocativo:

–Por que não podemos ir para a casa de Zac?

Eles se entreolharam, e o clima pareceu tenso. Era como se Oliver tivesse tocado em algum ponto fraco que eu desconhecia.

–Tudo bem, estou brincando, vamos para meu apartamento mesmo – logo disse, mas tarde demais para desfazer o clima.

Zac ainda o fitava com um olhar sombrio, e aos poucos se virou para frente e continuou a caminhada sem olhar para trás.

Algum tempo depois, começamos finalmente ver a estrada ao longe. Quando chegamos à ponte, o carro preto de Oliver estava estacionado um pouco à frente. Ele abriu a porta do carona para mim enquanto Abby se acomodava no banco de trás, quando Zac passou direto do carro e continuou descendo a rua.

–Zac! – Abby gritou, com a cabeça para fora da janela. – Vem cá!

–Eu não vou! – Zac gritou de volta, alterado.

–Zac, por favor, pare com isso... – começou Oliver.

Vá se foder, Oliver – respondeu Zac secamente.

–É por isso que você sempre estraga tudo, ta vendo? – Oliver gritou para ele, mas Zac já estava de costas, e se limitou a levantar o braço exibindo o dedo do meio enquanto caminhava.

Oliver entrou no carro bufando, e Abby saiu dizendo-nos que tinha que ir atrás dele. O carro acelerou e pelo retrovisor pude ver a silhueta magra de Zac se afastando na direção oposta de nós, e uma Abby desajeitada correndo logo atrás.

Ficamos em silêncio durante boa parte percurso. Quando comecei a ver os prédios clássicos do bairro de Oliver, resolvi puxar assunto.

–Ele sempre foi assim Oli?

Ele estralou o pescoço e os dedos enquanto dizia:

–Sabe J, Zac é um caso complicado. Já te falei como ele tem essas psicoses dele. Eu já o suportei por bastante tempo, acha que você já viu muito? Imagine eu em dois anos.

O carro estacionou na ruazinha estreita e subimos rapidamente pelas escadas do edifício coberto pela videira.

– Sempre se lamentando, sempre caindo nos mesmos erros – Oliver continuou, pegando a chave do apartamento no elegante casaco. – Nós éramos melhores amigos sabia?

Ele destrancou a porta e entramos em seu organizado loft.

–Conte mais – incentivei, sentando-me na cadeira de sua escrivaninha.

Ele tirou o casaco e pendurou perto da porta, revelando a blusa preta de manga longa que usava por baixo. Oliver parecia sempre usar preto. Em seguida, deitou-se no sofá vermelho que havia ao lado da escrivaninha, com as mãos cruzadas atrás da cabeça.

–Quando Abby me apresentou à Zac, anos atrás, ele era exatamente como hoje, porém totalmente antissocial. Ela teve muita paciência lidando com ele. Ela nunca me disse exatamente se aconteceu algo a ele, só sei que os dois não se separavam, para onde quer que fossem. Com o tempo ele foi ficando o que se pode chamar de “normal” – disse rindo, fazendo aspas com os dedos. – Nos tornamos muito amigos. Éramos sempre nós três. Em tudo. Ele nunca havia chamado muito minha atenção fora isso.

–E como isso mudou? – perguntei, me sentindo como em uma entrevista.

–Bem, Zac é desse jeito que você já sabe. Dramático e imprudente, mas sabe mascarar tudo isso muito bem com um mínimo de esforço. Ele sempre tinha esses ataques de impulsividade, que você já presenciou, mas sabia quando deveria usar a máscara de pessoa normal. Demorei pra perceber. Contudo, eu tolerava essa parte. Mas desde que você chegou, parece que algo começou a mudar nele. Comecei a vê-lo andando sozinho algumas vezes por aí, e os ataques antes raros tornaram-se frequentes. Mal saímos juntos ultimamente, e quando o fazemos vê no que dá?

Assenti, preocupada, ligando os fatos. Quando eu os conheci ainda havia aquele clima fraterno entre eles. Estremeci relacionando minha chegada à queda de tudo.

–Você acha que eu tenho algo a ver com isso? – perguntei, temendo ouvir um sim.

–Na verdade acho que não. Só coincidiu que você chegou quando as coisas já estavam desandando - respondeu Oliver, sentando-se no sofá. – A única relação direta à você que consigo fazer é que Zac adorava sua casa. Ele tinha uma atração por aquele lugar. Ele e Abby pulavam as grades e passavam horas lá, fazendo seja lá o que fosse. E não tinha problema, pois desde que eu me conheço por gente aquela casa estava à venda, praticamente abandonada. Quando você se mudou, Zac temia não poder nunca mais voltar à grande casa vitoriana. Chegamos até a ir algumas vezes de noite com ele pra conferir se ela estava ocupada mesmo.

Imediatamente lembrei-me do dia em que cheguei. Os três parados à noite em meu portão... Então eram eles. Algumas coisas começavam a fazer sentido. Outras, menos ainda. Isso explicava bastante o fato de Zac parecer conhecer tão bem técnicas de escalar minha casa. Mas em contrapartida, teriam os dois se aproximado de mim apenas pela casa? O que haveria de demais nela, aliás? Em meio a meus dilemas, comecei a me questionar também quais seriam as reais intenções de Oli me contando isso tudo. Estava começando a não conseguir mais confiar em ninguém.

–Mas acalme-se J – disse ele parecendo ler meus pensamentos, o que talvez minha expressão tivesse transpassado por mim. - Não quero te preocupar, são apenas minhas observações.

–Tudo bem, não estou preocupada – menti. – Mas sobre hoje, por que Zac ficou bravo com você daquele jeito quando você falou para irmos para a casa dele?

Oliver pigarreou e deitou novamente, o que pareceu um ganho de tempo antes de responder.

–Ele tem problemas com os pais, eu acho. Nunca me explicaram direito, nunca ouvi falar sobre onde ele mora também. O que me instiga, então eu provoco falando coisas assim às vezes – riu ele, com um ar de desdém. - Talvez um dia eu descubra.

Acho que minhas perguntas estavam tomando um rumo fora de seus planos. Oliver parecia esconder a verdade quando a isso, ou contando-me apenas em partes.

–Mas por que você está tão interessada nessas histórias, Johanna Dubrowsky? – retomou.

–São curiosidades que me acercam, Oliver Wingfield.

–Tem certeza de que é só curiosidade mesmo? – provocou ele.

Seus olhos acinzentados pareciam hipnotizantes, combinados com seu tom sempre baixo de voz. O que lhe conferiam certo charme, porém às vezes, certa ameaça. Eu não havia percebido, mas ele havia se levantado e agora estava bem próximo de mim. Olhei para a escrivaninha e vi o cinzeiro e a carteira de cigarros vermelha ao lado.

–Não sabia que você fumava – falei, pegando um cigarro e posicionando-o entre os dedos na tentativa de mudar de assunto.

–Só quando preciso de inspiração. Mas com você aqui, isto não é necessário.

Ele foi até o piano e começou a tocar uma música rebuscada e melancólica. A vista da janela à frente da escrivaninha ao meu lado dava para a estreita rua, vendo-se a árvore da calçada agora sem folhas em primeiro plano, a série de prédios do outro lado da calçada. Comecei a fuçar sua escrivaninha: sob uma pequena luminária ficavam alguns livros de mitologia celta, frascos de perfume com água e plantas, e o notebook ainda fechado. Mas entre os livros, um em especial me chamou a atenção. Era muito volumoso e tinha a capa dura marrom, com adornos de prata envelhecidos em volta. Havia uma pequena fechadura na lateral, que estava aberta. Curiosa, abri.

As páginas amareladas entregavam se tratar de uma relíquia. Esfolhei com cuidado: ele era todo manuscrito com uma caligrafia floreada. Tive que ler com atenção alguns trechos até entender: se tratava de um livro de feitiços. As bordas das páginas eram repletas de ilustrações antigas, parecendo formar molduras. Foi quando reparei que uma das páginas havia sido arrancada, e nesse instante, imediatamente reconheci como aquilo se assemelhava muito ao papel que Laurie havia me dado.

Em um movimento rápido, o desdobrei de meu bolso, e colocando ao lado do pedaço que sobrou do que fora arrancado, eles se encaixavam como peças de um quebra-cabeça. A música do piano subitamente parou e senti que Oliver se aproximava.

Eu precisava esconder aquilo logo.





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