Blue Falls escrita por Florels


Capítulo 15
Prelúdio




Eu ainda estava sentada digerindo as palavras de Laurie quando Oliver apareceu preocupado e se sentou ao meu lado. Eu ainda não havia entendido o que tinha acabado de acontecer comigo, foi como um momento de epifania onde a grande descoberta era na verdade minha grande frustração. Aproximava-se das três horas da manhã e algumas pessoas começavam a sair do pub, entre elas consegui ver Zac e Abby correndo de mãos dadas para os fundos da pracinha, na parte de trás do prédio. Por que me importar de repende? Estava tentando descobrir. Os cabelos de Zac agora estavam soltos, e sua jaqueta na cintura. Aquilo realmente não fazia sentido, eu precisava esquecer que um dia tive esse sentimento súbito. Era ridículo, embora seja difícil aceitar que o garoto que entra pela sua janela para te ver seja apenas seu amigo. Mas era hora de encarar os fatos e enterrar essa ideia, fazendo-a voltar para o lugar que nunca deveria ter saído.

–Quer dar uma volta J? – Oli perguntou ao meu lado, fiz que sim com a cabeça. No momento eu só precisava sair dali.

Caminhamos até seu carro, que estava estacionado um pouco adiante dali. O ar estava úmido e nossa respiração formava fumaça.

–Garota, você tem que aprender a dosar melhor sua bebida – ele disse rindo, gentilmente.

–É, e preciso aprender a controlar minhas reações também.

–Como assim? O que aconteceu? – ele parecia confuso.

–Ah, longa história na verdade. – meu desânimo era perceptível em minha voz. Nesse momento, chegamos a seu carro, ele abriu a porta para que eu entrasse.

–Para onde vamos? – ele perguntou.

–Só não quero ir para casa agora.

–Que tal irmos para a minha, aí você me conta tudo o que aconteceu? – sua proposta era tentadora, dessa vez sem perceptíveis segundas intenções. Não que elas não pudessem estar ali disfarçadas.

–Tudo bem, vamos lá, não há mais absolutamente nada para nós aqui. – respondi.

Pelo menos daquela forma eu ficaria entretida, ao invés de horas em claro na minha cama me martirizando. Oli era uma ótima companhia.

Avançamos algumas quadras até que parei de reconhecer onde estava. Ele morava um pouco depois do centro, em uma pequena ruazinha arborizada onde havia apenas prediozinhos antigos com flores nas sacadas, dando ao lugar mesmo no escuro um tom acolhedor. Oli morava em um que era coberto por uma videira, onde ao entrarmos segui seus passos rápidos e silenciosos pela escada. Chegando ao segundo andar, ele abriu a porta de seu mundo particular e me convidou para entrar.

–Bem, não é grande coisa – ele disse quando olhei ao redor.

O apartamento era um loft extremamente organizado e repleto de plantas. Era um grande cômodo com chão de madeira e uma coluna central, onde em primeiro plano via-se uma enorme estante dividida em espaços quadrados, e à esquerda, encostada na parede, uma antiga escrivaninha repleta de papéis, frascos e um notebook. Atrás da estante havia um degrau, e nesse plano superior ficava sua cama e um piano de armário preto ao lado da porta para a varanda. O cômodo era repleto de janelas que o iluminavam parcialmente com a luz do luar, e nas paredes estavam colados alguns pôsteres com reproduções de quadros clássicos e pinturas de Van Gogh. Seu bom gosto era inquestionável.

–Nossa, isso aqui é... Incrível. – falei me aproximando da prateleira, observando mais de perto os livros e revistas presentes ali. Parecia o setor de mitologia celta do Masefield.

–Ah, obrigado. – ele disse com certo orgulho no fundo, enquanto se aproximava de onde eu estava – Faço o que posso pra deixar isso aqui agradável.

Oliver seguiu até seu armário passando pelo degrau e tirou sua jaqueta, pendurando-a em um cabideiro ao lado da cama, ficando apenas um a camiseta cinza que usava em baixo. Ele era metódico e organizado.

–Agora vem cá – disse ao se aproximar de mim novamente e me puxar pelas mãos, delicadamente. - Quero saber o que aconteceu.

E com isso, seguimos até a varanda onde sentamos cada um em uma extremidade, ficando frente a frente.

– Deixe me adivinhar – ele começou, em tom de desafio. – Foi seu irmão?

– Ah não. – sorri com desdém pelo fato de eu não estar nem mais lembrando do incidente. - Johnny é a última pessoa com quem eu me importaria nesse ponto.

–Hmm, não gostou da banda então? Só pode. – disse ironicamente, com olhos semicerrados.

–Olha, até que eles nem eram tão ruins sabia? – falei enquanto mexia na folhagem de um dos vasos ao meu lado.

–Já sei! – disse subitamente. – Era uma desculpa para virmos e ficarmos sozinhos – uma mecha de seu cabelo havia caído no canto de seu rosto, e seu olhar era provocante.

Ri enquanto revirava os olhos. Ele não desistia.

–Oliver, sabe quando você se frustra com alguém ou uma situação? Quando você pensa que sabe o que está acontecendo, mas na verdade não sabe nem de metade? – agora ele parecia interessado.

–Olha, muitas vezes, se esse alguém te frustra é um sinal de que não era para você, J. E vai por mim, tem coisas que é melhor nem saber.

–Por que todo mundo aqui é tão a favor dessa política de que é melhor não saber? – questionei um pouco incomodada. – Cansei de ouvir pessoas me dizendo para não ir atrás dos motivos das coisas, deixar estar, se conformando facilmente.

–Talvez porque já vimos muito - disse ele, taciturno. – mais do que gostaríamos na verdade. Então não custa alertar os recém-chegados a permanecer nas sombras, sem investigar muito. Gostaríamos de ter tido alguém pra nos dizer isso um dia.

Uma pausa se seguiu, enquanto eu o fitava. Queria poder ver além dos seus olhos cinzas.

–Mas de quem estamos falando exatamente J? – ele retomou, desta vez chegando mais perto e sentando mais próximo de mim.

–Ahn, bem, vamos manter isso como uma incógnita. "É melhor não saber".

–É algum cara certo? Não sei como foi idiota o suficiente para frustrar você. Não sabe o que perdeu.

Eu já não tinha tanta certeza daquilo.

O horizonte já estava começando a ganhar uma tonalidade mais clara de azul em meio ao amarelo e laranja. Ali, encostados na grade da varanda, observamos a ascensão do sol e o declínio da lua. Oliver deitou a cabeça em meu ombro e eu pude ver seus olhos acinzentados começando a clarear com a luz. Ele mexia em meus cabelos enquanto cantava alguma musica baixinho, que parecia estar em sua cabeça há algum tempo. Eu podia sentir o ar de mudança. Não sei se influenciada por Laurie, mas era como se um prelúdio de algo grandioso estivesse pairado no ar. Não sei que relação isso poderia ter com o meu colar ou algo do tipo que ela tenha mencionado, mas de fato, desde que eu o perdi muita coisa estranha vinha acontecendo. Mas eu não estava com medo. Eu nunca tinha medo.

Notei que comecei a fechar os olhos.

–Quer dormir um pouco, Johanna? – Oli me disse baixinho com a voz rouca, e concordei com a cabeça.

Ao entrarmos, deitei-me em sua cama enquanto ele foi até sua escrivaninha e começou a escrever alguma coisa. Havia um cinzeiro ao seu lado e uma carteira de cigarros, sendo que eu nunca o havia visto fumando. Ele levou as mãos ao rosto e observei como seu perfil era bonito: o desenho quadrado de seu maxilar ficava ainda mais evidente daquele ângulo. O peso dos meus olhos foi aumentando gradativamente, até que a imagem de Oliver foi ficando desfocada até sumir por completo.

x x x x

Acordei com uma leve melodia ao meu lado. Virei-me e vi Oliver tocando algo muito concentrado no piano, como quem estava aprendendo alguma música nova.

–Era isso que você estava escrevendo? – perguntei, ele subitamente parou de tocar se virou assustado.

–Meu Deus, você quase me matou de susto. – disse se levantando e tirando a folha dali.

–Nada disso, me deixa ver o que você estava tocando – comecei a levantar e ameacei tentar pegar sua folha, ele riu e em um movimento rápido a afastou de mim levantando-a com o braço.

Por ele ser mais alto que eu, desisti no segundo pulo de tentar alcançar, frustrada. Seu olhar era de vitória.

–Injusto – falei ao sentar-me de volta na cama.

Ele ainda ria da cena que eu tinha acabado de fazer com olhar travesso quando pareceu refletir por alguns segundos, em seguida dizendo:

–Pode ver se quiser – disse ele soltando a folha em meu colo.

Tratava-se de uma partitura rascunhada. Ele voltou ao piano e continuou tocando a melodia, que aparentemente já tinha decorado. Eu já tinha estudado música uma vez na infância, mas embora soubesse identificar as estruturas básicas de uma partitura, já não era mais capaz de decifrar todas as notas e fazê-las formar algum sentido na minha cabeça. Enquanto Oli tocava, observei como seus dedos eram longos, e as veias azuis afloravam sob a pele de suas mãos. A música era uma valsa, com um misto de melancolia e delicadeza. Só então vi que a folha em minhas mãos tinha a parte superior dobrada. Ao desdobrar, revelou-se o título da partitura: Johanna Dubrowsky.





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