Juntos Contra o Clichê escrita por VILAR


Capítulo 6
Você nunca é o que espera de si mesmo


Notas iniciais do capítulo

Wow, a sequência de capítulos mais rápida até hoje. Espero que tenha alguém comemorando perdida por aí, haha. Boa leitura!



O domingo foi um dia normal, passei alternando em estar enfiada no meu quarto e na sala junto com a minha madrinha. Gabriel estava ocupado sendo social, e eu não estava muito animada para sair por ai batendo perna sozinha. Pensei em chamar o Leonardo para um glorioso dia ao meu lado, mas fiquei tão empolgada com a ideia o dia todo que a noite chegou mais rápido do que deveria. A ideia de ainda não ter o número dele não me passou pela cabeça.

Quando o alarme soou ao meu lado levantei imediatamente, alegre por estrear o primeiro dia de escola com o meu novo melhor amigo. Mal posso esperar para desfilar pelos corredores com a pessoa que deveria me odiar. Bem, ele ainda me odeia, porém seremos os únicos a saber disso. Coloquei a charmosa blusa de uniforme, branca com o brasão da escola preto – um corvo de asas abertas segurando com as patas uma placa com o nome da escola –, e a melhor calça jeans escura que tinha no meu guarda-roupa. O jeans estava meio gasto e um pouco desbotado, ainda assim era a minha favorita. Realmente preciso de roupas novas, conclui.

O sinal já havia batido quando cheguei à escola, os alunos estavam ocupando suas determinadas salas. Fiquei um pouco receosa ao caminhar por todos aqueles corredores sozinha, com medo de algum fã fanático do Gabriel se vingar socando meu rosto. A caminhada ocorreu sem problemas, no final das contas. Quando cheguei na frente da minha sala, pronta para abrir a porta e arrasar ao ir diretamente falar com o Gabriel, o segundo sinal tocou, indicando que o professor daquele período estava a caminho. Particularmente achava aquele sistema bem desnecessário. Um sinal para os alunos se acomodarem dentro das salas e o segundo para o chefão do momento chegar. Já estavam todos em seus lugares mesmo, para que outro?

Não tive escolha, abri a porta e corri para o meu lugar antes que o professor de matemática chegasse a me ver parada na porta – não gostaria de receber uma advertência tão cedo. Pendurei minha mochila na cadeira, aproveitando a deixa para percorrer os olhos pela sala. Não demorei para encontrar o meu alvo, o emaranhado ruivo em sua cabeça chamava bastante atenção no meio de muitas cabeças castanhas e loiras.

A aula passou tortuosamente devagar, estendendo-se ainda mais por causa da matéria extremamente chata. Odeio matemática. A aula de biologia também se prolongou mais do que o necessário. Precisei chacoalhar minha cabeça várias vezes para não cair no sono enquanto o professor Roberto empolgava-se com sua ‘famosa’ revisão de sistemas. Não aguento mais estudar isso. Quem no mundo não decorou ainda? Odeio biologia. O sinal estridente do recreio veio para alegrar minha manhã, extinguiu todo meu tédio em matérias que já estamos cansados de aprender dando lugar para uma animação sem fim.

Guardei a bagunça embaixo da minha mesa e fui o mais rápido possível roubar o Gabriel, que já começava a reunir pessoas em sua volta. Empurrei alguns que me atrapalhavam e finalmente fiz contato com os seus olhos.

— Oi, Gabriel! – disse alto o suficiente para que todos ali presentes pudessem me ouvir. Observem a si mesmos decaindo, rele plebeia, pensei. Contemplem sua nova rainha!— Vamos lanchar em outro lugar. – argumentei ainda mais com o maior sorriso do meu estoque.

Os ‘sussurros’ maldosos puderam ser ouvidos sem muita dificuldade, o restante dos alunos presentes praticamente me assassinava com o olhar e com palavras cruéis. “O que essa retardada está fazendo?”, dizia um zero à esquerda que não me preocupei em decorar o nome. “Essa piranha está abusando da sorte”, reclamava uma das oferecidas. Rica coitada. Mal sabe que o reizinho aqui gosta de coroar outro tipo de rainha. Tentei segurar a risada, entretanto poucas escaparam de meus lábios, fazendo os comentários se intensificarem.

Com um olhar semicerrado e uma veia pulsando em sua testa, Gabriel respondeu: - É claro, minha boa e velha Sophie. Vamos andando. Rápido. – meu melhor amigo número um se levantou tão rápido que a cadeira acabou se distanciando muito da mesa. Nunca pensei que ele fosse perder a compostura na frente de tantas pessoas.

Nós percorremos metade da escola lado a lado, como parte do meu plano. O guiei para um local distante exatamente para todos percebam a atual situação. Passei a maior parte do tempo tagarelando bobagens; “qual a sua cor favorita?” ou “qual é pior: ser dilacerado por um tubarão branco ou ser obrigado a ouvir a música Lepo Lepo vinte horas por dia todos os dias da sua vida?”. Mas logo parei quando ouvi como resposta “cadê a opção de você falando na minha cabeça? Aí eu saberia qual escolher”.

Chegamos ao pátio no maior silêncio. Gabriel com uma expressão séria de “alguém me mate” e eu com um sorriso bobo no rosto, ainda não acreditando no que fui capaz de conquistar. Caminhamos para um dos bancos ao ar livre entre cochichos e olhares surpresos. Agora sim posso iniciar meu interrogatório.

— Então, onde ele estuda? – soltei sem cerimônia.

— Ele quem? – respondeu desanimado, enquanto parecia mais interessado em uma formiga andando no chão.

— O Leo, oras!

— Ah. – fingiu surpresa. – Deveria ter imaginado. – voltou sua atenção para mim, onde deveria ter permanecido desde o início. - O Leo não estuda mais. Terminou os estudos há dois anos. Não frequentava esta escola.

Não pude evitar o choque. Tive até mesmo esperanças de ele estudar aqui em uma das salas que ainda não havia conhecido. Não me passou pela cabeça ele já estar quase com os seus vinte anos. Era dois anos mais velho do que eu.

— Frequenta faculdade?

— Não. Tem uns bicos por aí. – o olhar de Gabriel parecia triste, como se quisesse contar outra história. Evitavam os meus a todo custo.

— É só isso mesmo? – tentei.

— Sim.

Talvez seja algo muito íntimo para contar a uma recente conhecida. Ainda assim não pude evitar minha curiosidade. Insisti mais algumas vezes, mas nada fez Gabriel soltar a verdade. Pode ser só coisa da minha cabeça. Será que estou ficando paranoica depois de ouvir minha madrinha falando que minto muito mal?, pensei.

O papo se prolongou até o fim do recreio, meia hora depois. Não pude descobrir muitas coisas, parece que nem o Gabriel sabe muito do próprio amigo. Segundo ele, Leonardo não gosta de falar sobre essas coisas. Terei que arrancar da fonte. Antes de entrarmos na sala de aula tentei mais uma pergunta:

— Que tipo de garota ele gosta? – perguntei baixo, para que ninguém do outro lado da porta pudesse ouvir e inventar ainda mais rumores ao meu respeito.

O ruivo pareceu ponderar por um tempo, mas soltou dentro de longos segundos: – De todas. – soltou as palavras e adentrou a sala, me deixando sozinha, com o queixo quase encostado no chão, olhando para a porta enquanto processava o que exatamente isso deveria significar.

O segundo sinal tocou e eu corri para o meu lugar, ainda com o cérebro fritando. Não me lembro de nada sobre o que o professor de filosofia explicou. A única coisa pairando na minha cabeça era o significado do “de todas”. A minha expressão deveria estar tão óbvia sobre o quando estava em choque que o professor chegou a interromper a aula para me chamar atenção, me fazendo cortar a linha de raciocínio feliz que tinha inventado para a explicação de Gabriel. Odeio filosofia.

O professor se despediu e meus companheiros de sala começaram a se levar, só assim percebi que já estava na hora de ir embora. Joguei minhas coisas dentro da mochila e me atirei para o as mesas do fundo, onde Gaby estava arrumando suas coisas.

Agarrei um de seus pulsos e alertei: – Nós vamos embora juntos.

Pude jurar ter ouvidos chiados do meu melhor amigo me xingando, porém o “de todas” ainda assombrava minha mente. Descemos os três lances de escadas e saímos pelo enorme portão de grades pretas que cercava a escola.

— Você está me ouvindo, pigmeu? – Gabriel perguntou enquanto sacudia meu ombro.

Livrei-me de sua mão e disse: – Se eu estou ouvindo? Gabriel, eu pareço uma garota em condições de conversar agora? – indaguei. – Esqueça tudo isso aí, eu não ligo! A única coisa que eu quero saber é o significado das suas palavras de antes. – libertei as palavras da minha garganta mais alto do que gostaria, mas não pude evitar minha histeria.

Gabriel bufou enquanto arrumava a mochila em suas costas, se livrando do estresse. Depois de um minuto em que eu estava entre a vida e a morte, ele resolveu responder.

— Significa que se você tiver uma vagina já basta para ele. – respondeu atônito.

O que?— senti o choque se transformando em repulsa. – Que coisa horrível! – desviei o olhar para os meus tênis, processando o que acabei de ouvir. – Não posso acreditar que considerei como paixonite esse tipo de pessoa. Sou uma idiota!

Então eu realmente tinha azar no amor e azar no jogo. Não que eu já não soubesse do meu desastre em se apaixonar a primeira vista, apenas tinha esperanças de que desta vez seria diferente. Não pude evitar minha tristeza. Sentia-me decepcionada comigo mesma por ser tão ingênua. Minha visão ficava cada vez mais embasada, lágrimas se amontoavam em meus olhos; não por ele, uma pessoa que sequer conhecia, e sim pelo quanto sou estúpida. Isso é...

Logo depois do suspiro despreocupado e de me interromper, Gabriel soltou: – Olha, ele definitivamente não é esse tipo de pessoa que você está pensando. Leonardo pode ter esse problema com compromissos, mas ele é uma das melhores pessoas que eu conheço. Se não a melhor. Ele é do tipo que faz qualquer coisa para proteger amigos e familiares. – desviei a atenção dos meus sapatos para o rosto do meu amigo. – Ele apenas... não achou a garota certa. – Gabriel fez o mesmo olhar de quando conversávamos sobre o trabalho de Leonardo, um tanto triste.

Devo admitir que para mim, dentro do que conhecia sobre meu amigo, Gabriel seria a última pessoa no mundo a defender outra. Sua fala realmente mudou a repulsa que senti sobre Leonardo alguns minutos atrás. Na verdade, mesmo sendo um hábito horrível, até minha consciência chegou a perdoá-lo. Eu também tenho problema com compromissos por ser uma louca que não sabe controlar sua paixão. Se eu sou assim também, não tenho direito de julgá-lo. Por termos o ‘mesmo’ problema, isso me faz ainda mais querer ser sua amiga. Nos ajudarmos a enfrentar esse monstro que insiste em nos atormentar parece ser um bom começo. Logo esse sentimento de amor que sinto por ele também passará, como todos os outros que já aconteceram, e dará lugar a uma linda e sincera amizade.

...

Depois que me despedi do meu melhor amigo segui para a casa da minha madrinha onde passei o restante da segunda fazendo alguns deveres complicados e abraçada ao sr. Pomposo. O meu urso gigante era uma das únicas lembranças que tinha de casa. Ele foi o último presente que ganhei de aniversário da minha mãe, há cinco anos. Os remendos e a costura apareciam chamativos em seu pelo, minha mãe não era muito boa em fazer bichinhos de pelúcia. Um de seus olhos caiu há algum tempo, e ela desembolsou algum tempo entre os seus trabalhos para confeccionar um charmoso tapa-olho para ele. Eu o amava.

Adormeci com o sentimento romântico por Leonardo ainda inundando o meu peito, quase me sufocando. Às vezes esse problema se ligava muito a pessoa, e eu tinha mais trabalho para enterrá-lo depois da investida não dar certo. Só aconteceu umas três vezes até hoje, todos com pessoas que não eram bons exemplos para se namorar. Nunca compartilhei esse meu problema com ninguém, nunca clamei por ajuda. A única coisa que peço é para isso acabar logo.

O despertador soou e me levantei sonolenta por ter passado metade da noite acordada assistindo seriados para acalmar minha mente. Fiz minha higiene pessoal e amarrei meu cabelo castanho em um rabo de cavalo alto. Estava ficando quente e meu cabelo grande, que batia na cintura, estava me incomodando. Calça jeans clara e tênis branco seriam meus companheiros de hoje. Caminhei calmamente pela casa para não acordar minha madrinha e me atirei rua afora a caminho de mais um dia de escola.

Faltando cerca de dez minutos para chegar ao meu destino, um estrondo me assustou. Parei de andar por instinto e procurei sobre o que poderia ter o causado. Conclui que vinha de um espaçoso beco que ficava atrás de três lojas ainda fechadas. Ai meu deus, isso é um assassinato?, pensei, tremendo. Preciso ligar para a polícia! Tirei o meu celular ultrapassado do bolso e comecei a discar. Assim que me atenderam, vi de relance um rosto conhecido revidando com socos dois homens carrancudos. Ele parecia cansado e tinha machucados no supercílio e no maxilar que sangravam.

Desliguei o celular com a moça ainda gritando “alô”. Se eu o denunciasse, poderia passar alguns dias atrás das grades. Não passava ninguém na rua e os carros correndo pela estrada pareciam me ignorar quando fazia sinal para pararem. Decidi agir por mim mesma. Corri até achar outra entrada para o beco a fim de pegar os dois homens de costas. Demorei alguns minutos para chegar à rua de trás, também vazia, e controlar minha tremedeira. Um dos homens carrancudos estava caído no chão ao lado de mais dois com a mesma tatuagem negra no braço direito, um lobo preparando para uivar.

Esgueirei-me até ficar próxima suficiente do homem a qual iria atacar. Quando Leonardo me viu e seu rosto empalideceu de surpresa, coloquei um dedo sobre os lábios pedindo silêncio. Ele pareceu não concordar e se atirou para golpear o carrancudo na minha frente. Eu estava mais próxima e pulei no pescoço do homem antes do golpe de Leonardo chegar. Meus pés não encostavam no chão. O homem se assustou com o meu ataque, e apesar disso ainda foi capaz de desviar do golpe de Leonardo, que parecia ainda mais chocado, como se estivesse com medo.

O surto de adrenalina interrompeu minha tremedeira. Sentia-me uma super-heroína, concentrada em apertar meus braços em torno do pescoço do vilão. O homem se contorceu enquanto apertava meus pulsos, forte o suficiente para eu soltar alguns gemidos de dor. Era como se ele pudesse quebra-los com aquelas mãos gigantes. Leonardo acertou alguns socos no estômago e no rosto do homem, contudo ele ainda se mantinha de pé. Eu estava prestes a desferir uma mordida em sua orelha, quando um solavanco quase me derrubou de suas costas. Olhei para frente e vi Leonardo caído. O grandalhão havia acertado um chute em sua barriga, fazendo a marca perfeita de sujeira em sua blusa clara. Vacilei ao ver meu segundo melhor amigo jogado entre alguns sacos de lixo se contorcendo pela dor e o carrancudo percebeu. Jogou seu corpo contra a parede e bati a cabeça com força, caindo de suas costas. Ele não demonstrou piedade por ser uma garota ou ter uma eternidade de centímetros a menos que ele. O soco pegou um pouco abaixo do meu olho esquerdo e quase todo esse lado do meu rosto.

Cambaleei alguns passos para fugir de sua ira, no entanto ele me alcançou sem muito esforço. Cai de joelhos enquanto aguardava tremendo o chute que iria pegar no meu queixo. Atrás dele vi um Leonardo correndo em nossa direção segurando algo metálico, sua expressão de pura fúria e sangue escorrendo. Eu torcia para ele chegar e me salvar, mas logo percebi que levaria o golpe antes do homem que ria a minha frente. Preciso desviar Preciso desviar. Preciso desviar. Preciso desviar. Preciso desviar. Quando o vi levar o pé à frente, pronto para me acertar, joguei todo o meu peso para o lado direito. A dor excruciante no meu ombro esquerdo me alegrou por ter salvado o meu queixo. Sua força era tanta que rolei um metro para trás, prendendo minha mão no meu ombro como se pudesse aliviar a dor. Gritei com o impacto e o carrancudo pareceu satisfeito, entretanto não durou por muito tempo. Leonardo usou todo sua força para golpear a cabeça do homem com uma barra de ferro.

O vi correr na minha direção, porém a única coisa de que me recordo era de murmurar “sabia que eu era foda, mas não a esse ponto” e em seguida cair em um sono pesado, causado pela dor no meu rosto, no meu ombro ou por ter batido a cabeça novamente. Não faço a menor ideia de qual poderia ser.



Notas finais do capítulo

As referências deram uma sumida, porém já, já começam a dar as caras novamente.