Juntos Contra o Clichê escrita por VILAR


Capítulo 5
Talvez insistir seja a melhor opção para os desesperados


Notas iniciais do capítulo

Tem vem, tempo vai... e ainda estou conhecendo meus personagens. É como fazer novos amigos, conhecer as qualidades e os defeitos conforme o tempo vai passando. O estranho disso tudo é que todos estão na minha mente, haha.




          Amor à primeira vista sempre foi algo no qual eu acreditei, pois acontecia comigo frequentemente. Não consigo controlar a minha paixonite, então às vezes acabo me interessando pela pessoa errada, como no caso do atendente de locadora da minha antiga cidade. Toda vez que tinha algum dinheirinho extra, passava lá para alugar algum filme, que, no fim, acabava sendo “Procurando Nemo”. Me tornei bilíngue só de ouvir a Dory falando baleiês pela trigésima quinta vez em menos de seis meses


Tinha apenas treze anos quando sofri minha primeira desilusão amorosa. O atendente – que nem me lembro o nome – estava noivo, mas não usava aliança porque gostava de paquerar a atende da loja ao lado. Descobri isso quando ele saiu para jogar o lixo fora, que ficava atrás da loja, e o segui, apenas para me certificar porque ele iria lá a cada duas horas, algumas vezes sem estar com o lixo. Não sou nenhuma louca obcecada.

Espero.

O desfecho da história foi pegar eles no amasso ao lado da caçamba. O choque foi grande, mas não deixei barato. Tirei uma fotografia e esperei até o dia em que sua noiva veio o visitar no trabalho. Tudo bem que eu não tinha nada a ver com isso, porém traição é algo que não perdoo. No fim, a sua noiva me agradeceu tanto que, de tanto me visitar para dizer o quanto estava feliz por ter descoberto, se tornou amiga da minha mãe. Mais tarde revelou o quanto estava insegura por ser bem mais velha que seu ex futuro marido. Nos confidenciou também que já suspeitava que isso estava ocorrendo quando ele a visitou com uma marca de batom em sua testa. Na testa! E o pior, ela havia acreditado nele dizendo que foi apenas um acidente na rua. Ele tinha carro!

Me recordar dessa história enquanto estou observando Leonardo do outro lado da rua é algo estranho, pois me faz pensar se não estou comentando um erro gravíssimo tentado me aproximar dele. O moreno está com as costas apoiadas no muro olhando para baixo com os seu fone de ouvido, com certeza esperando alguém. A hipótese do Leonardo ter namorada sequer passou pela minha cabeça, porque tenho certeza de ouvir a voz do meu coração me dizendo “não têm!”.

Será que estou ficando louca?

Enquanto folheava uma revista da vitrine, a livraria me dava uma vista ótima da sua direção. Estava a caminho de casa – depois de comprar tudo o que minha madrinha havia pedido – quando o vi do outro lado da rua, ainda esperando, e então aproveitei a chance para tirar minhas dúvidas se ele estava namorando. Definitivamente não é obsessão.

Estou o observando há trinta minutos e nada da pessoa aparecer. A cada segundo que passa Leonardo parece ficar mais estressado, e com razão. A curiosidade está me matando em saber se posso arriscar me apaixonar ou desistir de tudo de uma vez.

Naquele dia em que nos tornamos “amigos” troquei meu número com Gabriel, a pessoa que se tornou a única a falar regularmente comigo nesta cidade abarrotada de gente. Hoje, um dia depois, já estava passando mensagens loucamente para ele, o atualizando sobre o meu romance. Já havia resumido tudo para ele na noite de ontem, contando como foi que aconteceu e todas as minhas tentativas. Queria ter contado pessoalmente já que agora ele terá que me fazer companhia no recreio e não teremos muito sobre o que conversar, mas não temos aula no dia de sábado.

No momento estou observando ele, Gaby!— enviei a mensagem seguida de vários emoticons para demonstrar toda minha animação.

Para de me incomodar com isso, idiota. Eu definitivamente não quero saber. E pare de me chamar de Gaby, porra.— a resposta veio mais rápida do que das outras vezes. Então ele quer mesmo saber.

Venha me encontrar, Gaby. Estou na livraria ao lado da praça central. Preciso de ajuda caso perceba que ele já é compromissado. — agora os emoticons foram de lágrimas, muitos deles.

Não posso. Estou ocupado. Ah, e mesmo se não estivesse não iria.— curto, grosso e chato.

Gabriel não seria a melhor pessoa que poderia dividir este momento, porém é bem melhor do que aguentar a barra sozinha. Não insistirei, pois isso não mudará nada já que está ocupado.

Depois de poucos minutos a agonia finalmente acabou. Leonardo levantou o olhar e acenou para uma pessoa no meio da multidão. Segui seu olhar, entretanto não localizei ninguém que seguia em sua direção. Guardei a revista e saí da loja, evitando o olhar furioso do balconista depois de passar todo esse tempo e eu não comprar nada. Atravessei a rua e, a dez metros de Leonardo, percebi quem ele estava esperando.

Meu queixo caiu.

Logo depois a fixa.

Após o cumprimentar com tapinhas do ombro, Gabriel trocou algumas palavras com ele e seguiu andando.

Minha mente se esvaziou completamente, escapulindo somente alguns xingamentos a Gabriel. Filho da puta. Depois de recobrar os sentidos, pequei meu celular e mandei a seguinte mensagem:

Eu vou te matar.— nada de emoticons desta vez.

Convincentemente, Gabriel checou a mensagem assim quando chegou, porém não a respondeu e balbuciou reclamações para seu companheiro e continuou seguindo seu caminho. O segui marchando violentamente.

Dê uma olhada para trás.— decidi agir.

Assim que o ruivo visualizou a mensagem e raciocinava se deveria ou não seguir minhas instruções segurei seu ombro levemente, amenizando o máximo possível minhas intenções assassinas, uma missão quase impossível no momento. Gabriel tentou protestar assim que falei que precisávamos conversar urgentemente, entretanto ele acabou cedendo depois de eu apertar minha mão em seu ombro. Preferi evitar contato visual com Leonardo, já era ruim pensar que ele estava namorando e agora ter que engolir a verdade de estar saindo com o meu melhor amigo é ainda mais doloroso. Não posso acreditar que ele tenha tanto mau gosto.

Caminhei alguns metros puxando Gabriel pelo braço para poder despejar toda minha raiva contida, afinal amigos servem para isso também.

— Eu não posso acreditar nesta situação! – declarei, indignada. Pude perceber que gesticulava muito, algo no qual já fui alertada que ocorre principalmente quando estou sentido emoções muito fortes. Raiva, no momento. Tentarei consertar outra hora.

— E eu não posso acreditar que você estava apaixonada logo por àquele Leonardo. – rebateu Gabriel, apontado descaradamente para o assunto da conversa.

— Você deveria ter me contado, seu traidor! – reafirmei minha fala apertando as mãos e batendo um dos pés no chão enquanto olhava fixamente em seus olhos. Atos infantis também vinham à tona quando estava sentido emoções intensas, porém ocorre apenas nas variações de estresse existentes.

— Te contado? – indagou franzindo o cenho e logo soltando uma risada sarcástica – Como você queria que eu soubesse qual Leonardo você estava falando? E sua descrição de “moreno, alto, bonito e sensual” não ajudou em nada! Sabe quantos Leonardos existem nesta cidade, Sophie?

De fato. Tinha me esquecido completamente que aqui não vivem seis mil habitantes e com a população de jovens sendo menos da metade da metade, sendo possível conhecermos todos e logo descobrir de quem estávamos falando mesmo com uma descrição tão vaga quanto a minha. Estou sendo mesquinha jogando toda culpa no meu novo melhor falso-amigo. Perdi totalmente a cabeça e me deixei levar pela situação.

Respire, Sophie.

Inspire, expire. Inspire, expire.

Desviei meu olhar para os meus tênis e relaxei meus músculos e minha expressão facial. Se me lembro bem, minha mãe disse que ficar por muito tempo assim causará rugas antes da hora, como as da minha irmã mais velha – coisa que bastava para todos lá em casa pararem de se estressar facilmente, já que minha irmã mais velha conseguia se tornar bem assustadora com todas aquelas marcas quando estava com raiva.

— Certo... – concordei, derrotada. Não adiantava mais jogar a culpa em outra pessoa. – Me desculpe, Gaby. Você pode sair com quem você quiser. Você não tem culpa se não sabia que eu estava com uma queda por ele. Podemos fazer as pazes? – estendi minha mão aberta em sua direção.

O riso sarcástico do meu falso-amigo foi substituído por uma expressão surpresa. Ele abria seus lábios e logo depois os fechava, repedindo o gesto cinco vezes enquanto me deixava com a mão estendida para o vento. Será que ele tinha nojo de tocar em mim?

— Sair? – repetiu, incrédulo. – Acha que estou saindo com o Leonardo? Àquele cara é totalmente hétero, Sophie. Eu bem que tentei transformá-lo, mas o cabeça-dura não entende.

Descrever minha esperança sendo recolhida do chão e empurrada para dentro da minha casca vazia é quase impossível sem todos os surtos internos no qual estou passando. Ganhei vida. Meu sorriso gigantesco acompanhava meu olhar emocionado para a direção de Gabriel. Corri até ele e o abracei o mais apertado que pude, esquecendo por um momento todo o receio que temos entre nós. Acompanhado dos seus gemidos de dor, minha risada ecoou pela rua movimentada.

E foi assim que terminou nossa primeira briga. Sem contar com a que nos fez tornámos amigos.

Gabriel foi à frente para voltar para sua companhia, que nos olhava com uma expressão de divertimento como se tivesse acabado de assistir a uma peça de teatro. Decidi o segui para me desculpar, já que ele teve que esperar tudo isso para continuar com seus afazeres. E aproveitar para trocar umas palavras com ele também.

Não sou do tipo de garota tímida, entretanto observar Leonardo de perto e pronunciar seu nome me deixava extremamente nervosa – uma sensação ótima. Leonardo. Leonardo. Leonardo. A queimação que sentia em meu rosto me levava a crer que estava enrubescida. O moreno demonstrava não notar meu olhar ansioso, porém ao evitar olhar para mim indicava que ele simplesmente não se importava.

Ao reunir toda a minha coragem existente e esconder minhas mãos trêmulas atrás das costas disse:

— Sinto muito por atrapalhar sua tarde, Leo... – eu não tenho certeza se deveria usar o nome dele logo de cara deste jeito, então, sem perceber, o deixei pela metade.

— Tudo bem, ahn... Como é o seu nome mesmo? – sua voz drogou meus ouvidos, entretanto não me impediu de me decepcionar por ele não se lembrar do meu nome ou, talvez, realmente não ter me escutado.

— Sophie. Me chamo Sophie. – afirmei, sorrindo.

Não me deixarei abalar por uma coisa tão pequena quanto essa. Devo me sentir agradecida o suficiente apenas por ele me se recordar do meu rosto.

— Ei, Leo, por que diabos você deixou ela te chamar por seu apelido tão facilmente? – indagou Gabriel, se intrometendo na minha conversa que desejei loucamente nesses últimos dias, não se preocupando em esconder sua frustação. – Fala sério, cara. Você só me deixou te chamar assim depois de três anos!

A discussão dos amigos prolongou por mais dez minutos, sendo impossível definir um vencedor já que as frases de Leo eram sempre “Acalme-se” ou “Não precisa fazer tanto alarde”. Meus companheiros no meio desses resmungos foram meus pensamentos amorosos sobre o porquê dele me deixar chama-lo desta maneira. Não podia acreditar que seria tão difícil usar seu apelido e eu pude logo de primeira. Ele definitivamente também se apaixonou por mim a primeira vista.

Entretanto não durou muito mais tempo, Gabriel desistiu de implicar com o companheiro e dirigiu seus insultos a mim, evidentemente com ciúmes e sentindo-se derrotado. Pensar em ganhar dele com três anos de diferença me empolga, porém meu amor está ocupando mais espaço dentro de mim.

— Ok. Chega. Calem a boca os dois. – ordenou o moreno e obedecemos. Mesmo quando deveria se sentir irritado Leo sorria, mas sua expressão, quase escondida pelo sorriso, era puro estresse. – Olha, Gabriel, Sophie obviamente cometeu um erro que não acontecerá novamente, ok? – ele se virou para mim – Ok? – repetiu.

Senti uma flecha perfurar meu coração iludido, entretanto a tirei rapidamente. Então não será tão fácil para mim no final das contas. Infelizmente para ele, não sou do tipo que desiste sem lutar arduamente.

— Mas por que, Leo? – não pararei de chama-lo assim depois de conquistar essa proeza por pura sorte. – Nós já somos amigos, não tem problema. – se era um motivo que queria, aqui está um.

— Não, nós não somos amigos. – declarou, diminuindo o sorriso. – Nós acabamos de nos conhecer.

E pude sentir a novamente a flecha no meu coração, agora com todas as suas cem companheiras. Achei que já tinha dado o primeiro passo para uma relação, mas ele nem ao menos me considera como uma amiga. Droga, eu não sabia que seria tão difícil. Calma, Sophie. Respira. Expira. Não consigo pensar em mais argumentos para continuar usando seu apelido íntimo. Queria muito arriscar mesmo sem ter uma desculpa, porém parece que ele fica furioso quando tentam isso. Estou o encarando sem dizer nada tempo o suficiente para pensarem que entregarei minha bandeira branca e desistirei dessa ideia de uma vez.

Dane-se! Continuarei a usar seu apelido e lidarei com a sua fúria outra dia. Não deixarei escapar a oportunidade de me tornar mais íntima dele por um medo estúpido. É preciso se arriscar.

— Então nos tornaremos amigos agora mesmo! – afirmei, animada. Estou ciente de que estou sendo inconveniente, mas Sophie Novais nunca mais será a garota amuada e tediosa de anos atrás. – Você pode ficar com o título segundo melhor amigo da Sophie e poderá desbloquear várias conquistas com o decorrer do tempo. Se nos dermos bem o suficiente, posso até trocar o seu título com o do Gaby, coisa que não será muito difícil de conseguir. Ele é bem rabugento, sabe? – o sussurro estava alto o suficiente para chegar aos ouvidos da vítima, minha verdadeira intenção.

Leonardo soltou uma gargalhada depois de ouvir o apelido ‘carinhoso’ do Gabriel, levando a vítima a uma surpresa genuína e depois uma fúria sem precedentes. Entretanto não durou por muito tempo, dentro de pouco tempo tentou me convencer a abandonar a ideia. Continuei insistindo. Uma vez até mesmo tentou me convencer sem o sorriso e um tom ameaçador, e quase desisti. Depois do deslize, me mantive ainda mais forte e nada me vez dar-me por vencida.

Sem que pudéssemos perceber, já havia se passado uma horas que encontrei o Gabriel e meu novo segundo melhor amigo, que também é minha paixonite, na rua. Podia jurar que depois disso eles me convidariam para o tal compromisso como ato de amizade, mas ambos apenas seguiram rua abaixo depois de terem perdido em uma batalha de quem conseguia insistir por mais tempo.

Conseguir um novo melhor amigo em dois dias fez este sábado render como nenhum outro dia desde que mudei para esta nova cidade. A felicidade interna me dominou completamente e fiquei no mesmo lugar em que ocorreu a maravilhosa progressão com o Leonardo, repassando todas as cenas que acabaram de ocorrer. A empolgação me fez esquecer de que as sacolas com os ingredientes que minha madrinha havia pedido eram para o almoço... e já são 13h45. Almoçar às 12h era praticamente uma lei. Posso escutar antes de girar a maçaneta o barulho do chicote estalando no ar, esperando ansiosamente encontrar meu corpo comandado por uma mente irresponsável.



Notas finais do capítulo

Aos que ainda estão vivos lendo a história de Sophie, deixo claro que aceito dicas e críticas do rumo que seguirá daqui em diante. Abraços e Boas Festas!



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