Juntos Contra o Clichê escrita por VILAR


Capítulo 26
Namoridos




— De jeito nenhum — eu respondi sem precisar pensar.

Pedro, que parecia irado pela possibilidade de me ter como companheira, agora estava insultado por eu ter negado algo que, segundo suas palavras, era uma honra sem tamanho.

— Graças a deus. — Gabriel soltou o ar que seus pulmões seguravam desde que escutou a pergunta.

Existem vários motivos para minha decisão. Primeiramente, mesmo que combata outras, a Alvorecer Rubro é uma gangue. Não quero me envolver com nada tão perigoso quanto, tenho um ano letivo do qual quero terminar. Fora que é um ambiente repleto de homens, do chão ao teto, e não estou a fim de ser uma smurfette. Sobrou-me um pouco de bom senso. Eu acho.

É incrível o que uma conversa sincera pode fazer na cabeça de uma pessoa, Madrinha colocou-me um pouco de juízo. Certamente teria aceitado sem pensar duas vezes antes de conversarmos, sem ligar para as pessoas que mais se preocupavam comigo. Não seria capaz de mentir para eles. Nunca.

— O avisarei sobre sua decisão — disse Gigante, amassando o saco de balas agora vazio e enfiando no bolso.

— Agradeça pelo convite — respondi.

Não é necessário verbalizar sobre de quem se tratava. Todos sabíamos quem tinha poder suficiente para tal.

Voltei para casa pensando no que havia acabado de recusar. Era a oportunidade perfeita para ficar um tempo a mais com o Leo, bem como praticar minhas habilidades em luta, há algum tempo trancafiada. Eu teria só vantagens e mesmo assim recusei.

Só vantagens? Não posso continuar pensando assim. Eles podem ser traficantes armados, suas vidas devem estar por um fio. A vida que levam tem muitas incertezas e eu não quero fazer parte disso. Leo, inclusive, pode ser um deles. O meu amado Leo, armado, tentando — até mesmo conseguindo — ferir pessoas.

Pela primeira vez me perguntei se deveríamos mesmo nos casar. Teríamos um felizes para sempre?

Existem poucas coisas que não consigo fazer. Pouquíssimas. Geralmente quando encontro uma dificuldade simplesmente insisto até conseguir realizar o que pretendo, estraçalhando em milhares de pedaços as pedras em meu caminho. Mas ficar dentro de casa por duas semanas inteiras sem absolutamente nada para fazer me leva a loucuras.

— Se limpar esse banheiro mais uma vez juro que passo a divulgar seus serviços domésticos para todo o bairro — resmungou minha Madrinha, deitada no sofá, aproveitando o começo da noite de quinta.

Deixei o balde com água no chão.

— Isso vai encerrar o meu castigo?

Ela suspirou alto, sentando-se.

— Por que você não pode ser uma adolescente normal, querida? — Madrinha colocou a televisão no mudo. — Faça as tarefas domésticas uma vez — Ela emendou rápido antes que eu tivesse tempo de contestar —, assista novela comigo, reclame da vida, coisas assim. Por que lavar esse maldito banheiro nove vezes em quatro dias?

— É porque estou tão entediada! — Caminhei até o sofá e me joguei ao seu lado. — Estou prestes a enlouquecer. Não suporto ter que ficar trancada em casa. Tenho amigos, quero sair com eles nem que seja para ficarmos sentados na praça da esquina. Por favor, Madrinha, me devolva pelo menos o Wi-Fi. Foi maldade pedir para o vizinho mudar a senha.

— Me lembro bem das vezes que ficou dentro de casa quando seus "amigos" — Ela desenhos as aspas com os dedos — não precisavam de você. Lembro-me de ouvi-la rir sozinha.

— Sim, com as maravilhas proporcionadas pela internet! Nem isso eu tenho agora. Por favor, Madrinha. Por favor, por favor, por favor!

Ela colocou uma mecha que escapou do meu choque atrás da minha orelha. Sua olhos exibiam um pesar que me fez cultivar esperanças. A luz no fim do túnel estava mais próxima do que nunca.

— Não — disse e retirou a televisão do mudo, me deixando observando-a embasbacada. — Eu estava prestes a reclamar e implorar mais vezes quando seu celular tocou. — Só um momento. — Ela se levantou e foi em direção a cozinha, deixando-me a sós com a minha mediocridade.

Enquanto subi as escadas para o meu quarto escutei risinhos e suspiros e minha curiosidade despertou. Questionei se seria mesmo tão errado sentar e escutar, uma vez que é o maior entretenimento que ocorreu até então nesta casa, mas ela sempre foi tão concisa em respeitar nosso espaço pessoal que logo descartei a ideia. Mas isso, claro, não me impede de perguntar mais tarde.

Meia hora depois, às 19h30, um furacão invadiu o meu quarto com vestidos pendurados nos ombros e sapatos de salto com pares diferentes nas mãos.

— Sophie — Madrinha gritou, sem fôlego. Imediatamente me levantei da cama. — Apresse-se e se arrume. Vamos jantar fora! Temos quarenta minutos apenas! Ai, meu deus, trinta e oito agora! — Ela correu pelo corredor e escutei as portas do seu armário fechando e abrindo violentamente.

Ação! Finalmente!

— Com quem nós vamos? — gritei do meu quarto enquanto buscava roupas. — É chique?

— Não posso apenas levar minha afilhada para jantar? — Descartei um vestido marrom que "peguei emprestado" de Sara antes de me mudar. — Não sei se é chique. Na dúvida, vamos de meio termo.

— Quer me levar para jantar e nem sabe onde vamos?

Ela apareceu na minha porta com um vestido azul escuro tomara-que-caia, em tubo. O cabelo ainda estava em nós depois de ficar deitada de qualquer jeito pelo sofá.

— O que acha? — perguntou.

— Está maravilhosa! — Coloquei na frente das minhas roupas um vestido branco com mangas até o cotovelo e detalhes dourados na ponta. Meu presente de quinze anos, que ela mesma havia me dado. — E eu?

— Perfeita!

Nunca tomei um banho tão rápido na minha vida. Não deu tempo nem de passar o condicionador. Enquanto eu ia me maquiando Madrinha passava o secador pelo meu cabelo, depois fiz o mesmo com ela.

Exatamente às 20h10 escutamos uma buzina na frente de casa. Pontual. Já gostei. Peguei minha bolsa e fui andando enquanto ajeitava o sapato na frente da porta.

Normalmente Madrinha já era linda, agora, pronta para o ataque, é quase uma deusa grega. Seus cachos, tão negros quanto o céu noturno, estavam perfeitamente presos em um belo coque alto, deixando a vista seus ombros nus e destacando o colar de pérolas em volta do pescoço que nunca havia visto antes. Recente? Relíquia? Ah, eu tinha tantas perguntas!

Eu não me importei em fingir surpresa quando atravessamos a porta. Meio que esperava ser Oswaldo. Impecável, de terno preto e gravata amarela, com gel nos cabelos grisalhos. Mas confesso que levantei as sobrancelhas para o buque de rosas vermelhas que tinha nas mãos.

— Partidão — sussurrei em seus ouvidos.

Meu queixo caiu quando a vi corar. Desde quando me entendo por gente nunca, jamais, em hipótese alguma vi Madrinha corar. Nunca também a vi apaixonada. Céus, é pra valer. Ai, meu deus, esse jantar é para apresentá-los como namorados.

Eu definitivamente não estava preparada para isso quando dei dois beijos em sua bochecha, o cumprimentando.

— É um prazer revê-la, Sophie — disse Oswaldo, sorrindo.

— Pelo menos não nos vemos entre grades como achei que seria da última vez. — Ri, nervosa, tentando passar panos quentes na situação. Claro que isso só piorou, nos deixando com desconfortáveis sorrisos amarelos.

Me calei e parti para dentro do Audi preto, deixei os pombinhos se cumprimentando, com direito a risinhos e elogios bregas. Resmunguei, completamente louca de ciúmes, tanto pela minha Madrinha quanto porque queria uma situação melosa dessas para mim. Nem me importei em apreciar o carrão que nunca tive a oportunidade de chegar tão perto, quem dirá entrar.

Quase cai para trás ao abrir a porta traseira.

Uma criança de cinco anos me encarava de seu assento elevado, com uma boneca descabelada nas mãos. Ela tinha cabelos lisos na altura dos ombros e os mesmos olhos castanhos escuros de Oswaldo, suas bochechas grandes e rosadas imploravam para serem apertadas.

— Tia, segura para mim. — Ela me empurrou a boneca.

Me ajeitei no banco e peguei a pobre coitada de cabelos em pé. Tentei arrumá-la com os dedos enquanto observava a menina brincar com o dinossauro roxo pelos ares.

— Como é o seu nome, pequenininha? — perguntei, tirando uma mecha escura da sua boca.

— Eu não sou pequena — ela disse. Eu segurei uma risada. — Meu nome é Camila e tenho cinco aninhos. — Camila mostrou o número com os dedinhos miúdos.

Camila é, sem dúvidas, a coisinha mais fofa que já vi. Ela está na idade do "por quê?", portanto foi o que mais ouvimos durante o trajeto. Oswaldo sempre tinha paciência para explicar tudo o que ela queria saber sem poupar palavras, até mesmo as que ela não sabia, aí ele aproveitava e já explicava o que significava. Camila foi a primeira criança no auge dos cinco anos a falar insosso da qual tomei conhecimento. Madrinha elogiou tanto a pequena quanto Oswaldo pela atitude.

Uma das coisas que percebi foi que Camila não chama Oswaldo de papai, apenas de tio ou até mesmo pelo seu próprio nome. Madrinha e eu, claro, também somos tias. Será que de fato é sua sobrinha?

Essa noite me rendeu diversas dúvidas.

O restaurante é lindo, com direito a janelas panorâmicas, pisos de madeira brilhante e toalhas brancas por cima de cada mesa. Oswaldo precisou confirmar nossa reserva — nunca reservamos nem um hotel! — antes de seguirmos para uma das mesas próximas as janelas. A cadeirinha de Camila já estava adaptada, um pouco mais alta do que a nossa.

No menu me peguei confusa com alguns listados e interrompi os apaixonados para que me explicassem o que diabos era um Foie Gras. Quase vomitei ao receber a resposta. Não posso acreditar que fazem tanta crueldade com um bichinho. Já basta comer!

Pedi algo conhecido com um molho de nome chique. Tivemos entrada, prato principal e sobremesa, de modo que precisarei voltar para casa a pé para digerir tanta comida. Enquanto conversavam, tirei o meu celular da bolsa para checar por algum Wi-Fi e comemorei mentalmente quando achei o do restaurante com a senha no próprio nome.

Olhei de um lado para o outro antes de abrir o aplicativo de mensagens. Para minha sorte Madrinha estava bastante entretida com Oswaldo. Estava devidamente preparada com o celular no mudo para as mais de duzentas e oitenta mensagens que recebi do grupo "A.M.I.G.O.S.", editado de modo que ficasse idêntico a série dos anos 2000.

Gabriel, Maria Luíza, Leonardo, Jô, Gigante e até Pedro estavam no grupo e pelo menos as primeiras duzentas mensagens são sobre a discussão do porquê dos últimos três estarem ali. Pelo que entendi, Léo — que desistiu depois de tentar sair três vezes e ser colocado de volta — adicionou Jô e este convidou o restante.

Malu foi a primeira a responder ao "oi" que mandei com uma foto sorrindo. Não precisei ser muito discreta já que Madrinha e Oswaldo estavam curtindo o mundinho deles.

"Sophie! Você finalmente foi libertada da prisão domiciliar?"

"Reviveu", comentou Gabi logo em seguida. "Ei, que lugar é esse de fundo? Bonito o lustre."

"Preciso confessar algo a vocês, meus bons amigos...", eu comentei e esperei eles mandarem diversas interrogações antes de prosseguir. "Ganhei na loteria e agora frequento restaurantes caros.". Mandei outra foto em anexo, desta vez pegando metade da cadeira de Camila, que me observava curiosa.

— O que você está fazendo, tia?

Nenhum dos meus movimentos foi capaz de atrair a atenção da mulher apaixonada a minha frente, mas Camila conseguiu fazer isso facilmente ao perguntar alto o bastante por mim. Fitei seus olhinhos curiosos antes de me arriscar a observar a fera.

Madrinha olhou diretamente em meus olhos. Depois para as minhas mãos que tentavam esconder o celular.

Sorri.

— Pode ir me passando.

Ela estendeu a palma da mão.

Entreguei o celular franzindo o nariz.

Oswaldo se mostrou curioso com a situação depois de atender Camila e perguntou o que houve. Quando Madrinha contou minha história do começo ao fim percebi realmente o perigo em que me meti. Repensei sobre aceitar a escolta que Léo ofereceu.

Não. De jeito nenhum. Meu maior problema foi ter arrastado Malu comigo. Se estivesse sozinha teria facilmente despistado o homem, como fiz quando a larguei. Consigo me virar.

— Sophie? — chamou a voz feminina levemente alterada, apesar da expressão calma. — Escutou o que Oswaldo disse?

— Nem o começo. Mas posso adivinhar! Se apresentaram como namorados, certo? — chutei pela face envergonhada de ambos. — Parabéns, pombinhos!

Madrinha suspirou.

— Repita, Oswaldo. Por favor — pediu.

Oswaldo limpou a garganta e coçou a sobrancelha.

— Nosso casamento está marcado para julho, Sophie. Daqui a três meses. Portanto será um prazer passarmos mais tempos juntos para que possamos nos conhecer melhor. Você é como uma filha para...

Eu desmaiei. 





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