Juntos Contra o Clichê escrita por VILAR


Capítulo 12
A pena para omissão é cruel


Notas iniciais do capítulo

Plena semana de provas e eu estou fazendo o que? Escrevendo, óbvio.
Tentei escrever um capítulo breve, mas, como podem ver, não resisti.

Espero que se alegrem e/ou riam, pois enquanto vocês estiverem lendo estarei chorando pelas notas. Aimeudeusdocéu.



Estávamos um do lado do outro, sentados no chão de cabeça baixa, escutando os sermões histéricos da Sandra. Sua elegância é uma lembrança distante, mesmo que tenha acontecido há poucos minutos. Marchava de um lado para outro, cuspindo xingamentos e lições de moral. O sangue tornava-se visível em sua pele amendoada. Às vezes se empolgava e levava as mãos à cabeça, lutando para não arrancar os fios negros.

— Não, mãe... – tentava pela milésima a figura envergonhada do meu lado direito. Gabriel estava tão vermelho quanto à mãe, mas por motivos diferentes. Suas mãos tão cerradas a ponto de torna-las pálidas.

— Cala boca, Gabriel. – rosnou em direção ao filho. – Se tentar me explicar alguma coisa agora piorará ainda mais a situação. – e sua tentativa desencadeou mais uma série de indignações.

Arrisquei a olhar para o lado esquerdo e, para minha surpresa, peguei um Leonardo tão vermelho quanto Gabriel. Sua cabeça estava ainda mais baixa do que a minha; seus cabelos caídos tampavam seus olhos. Nunca passou pela minha cabeça que alguém como ele, tão desinibido e confiante, deixaria se levar por este tipo de situação equívoca.

Ah.

Todos à minha volta estavam vermelhos. Eu não. Minha tranquilidade me faz parecer à vilã da história – a Rainha Má, a Malévola, a Úrsula, a... não. Pior do que todas elas. Esse tipo de situação me faz parecer o Hisoka, enquanto Gabriel e Leonardo fazem papel de Gon e Killua. Eu pareço um palhaço que quer abusar deles.

Sandra parou de marchar em nossa frente. Interrompeu as gesticulações e relaxou os músculos da face. – Mesmo sabendo que nada disso adiantará muito coisa precisava alertar vocês, meninos. – alternou o olhar entre Gabriel e Leonardo, agindo como se eu não existisse. Não escondi o desconforto. – Sabe... – suas pausas expressavam em alerde a hesitação em seu olhar magoado. Sua personalidade mudou de forma drástica novamente. – Entendo que estejam em uma idade onde o desejo sexual esteja no ápice, loucos para extravasar, mas não acho que devam fazer isso com uma prostituta, ainda mais vocês dois, primos, juntos.

— PRIMOS? – não controlei minha voz.

— PROSTITUTA? – Leonardo e Gabriel me acompanharam, em uníssono. Logo após me olharam com o queixo caído e os olhos saltando do rosto.

Desviei meus olhos escancarados de Sandra, que agora fuzilam Gabriel e Leonardo. – Eu não posso acreditar que vocês não me contaram que eram primos! – estava difícil controlar meu desejo de avançar para cima deles e estrangulá-los. – Isso é praticamente traição de amizade!

— Você não deveria se preocupar com isso agora, sua idiota! – afirmou um Leonardo raivoso. – Alguém acabou de te chamar de prostituta e essa é sua preocupação? – após indagar colocou sua mão no meu ombro e aproximou-se. Seu estresse ainda permanecia intacto. – Você perdeu o juízo?

Apontei meu dedo indicador para o rosto do indignado ao meu lado. – Nem vem para cima de mim como esperto, Leonardo! – por causa do estresse comecei a gesticular sem parar. – Não consigo acreditar que você, meu melhor amigo número dois, me enganou, sua melhor amiga número um!

Leonardo soltou meu ombro e passou a mão no cabelo despenteado, bufando. A veia na sua testa saltitava energética. – Me escute, Sophie. – não planejava deixa-lo falar, porém ele insistiu até que eu ficasse quieta. – Alguém acabou de te chamar de prostituta. – falou pausadamente. – Você pode, por favor, raciocinar em tentar reverter esta situação em vez de surtar por sermos primos?

— Ele está certo. – Gabriel surge atrás de mim.

Virei-me para trás a fim de encarar o outro traidor. – E você, seu escroto. – me curvei para aproximar de Gabriel. – Pensei que fossemos melhores amigos!

Gabriel jogou a coluna para trás, distanciando-se de mim. Suas mãos posicionaram entre nós, me empurrando levemente.

Nunca passou pela minha cabeça de um possível parentesco entre Leonardo e Gabriel; eles não têm semelhanças. Leonardo é moreno, herdeiro de um cabelo bagunçado, Gabriel tem os fios curtos e ruivos. O tom de pele deles é diferente, sendo Leonardo mais bronzeado. Gabriel está sempre estressado, pronto para reclamar de qualquer coisa, Leonardo está sempre com aquele sorriso enigmático no rosto, dono de um carisma irresistível. O melhor amigo mora nesta mansão, repleto de luxo e conforto, e o príncipe encantado tem aquela espécie cabana caindo aos pedaços junto com várias outras pessoas. Eles são tão opostos que daria um ótimo mangá Yaoi repleto de clichês.

Sandra nos observava estupefata. Seu rosto antes vermelho de estresse agora se encontrava pálido. Seus lábios avermelhados se abriam e fechavam, tentando empurrar as palavras. – Então... – começou devagar, interrompendo nossas discussões. – essa garota não é uma prostituta? – seu olhar escancarado pousou sobre mim, finalmente notando minha presença entre os dois.

Eu e Sandra trocamos olhares por alguns segundos. Prestei atenção em sua última fala e repassei-a incontáveis vezes na minha cabeça. Prostituta. Prostituta. Prostituta. Franzi minhas sobrancelhas e abri a boca para negar em protesto, chocada. A voz de Gabriel sobressaiu sobre a minha. – Não, mãe. Esta garota não é uma prostituta.

— Pois é, tia. – iniciou Leonardo. – Em primeiro lugar, nenhuma prostituta atenderia seus clientes com roupas tão fodidas quanto essas. – sua palma aberta apontava para a minha blusa verde.

Sandra não precisou olhar para onde Leonardo estava apontado, sua checagem de antes foi perfeita. – Olha a boca, Leo. – alertou, severa.

— Pelo menos estou de blusa, não é, querido? – revidei. Olhei-o de cima a baixo outra vez, dando ênfase na minha fala. Acabei caindo na tentação, demorando mais do que o necessário.

Leonardo abriu o seu meio sorriso sedutor e arqueou as sobrancelhas. Levantou uma das pernas, apoiando o cotovelo no joelho enquanto segurava o queixo com a mão fechado, a cabeça levemente tombada. – Tem certeza que isso é um problema? – seus olhos não largaram os meus.

Nocaute.

Sophie está fora de combate.

— Me desculpe, senhorita Sophie. – interviu a voz melódica de Sandra, a imune aos golpes, cortando o domínio de Leonardo sobre a situação.

Aproveitei a quebra do feitiço e dei as costas, controlando a hemorragia interna da explosão do meu coração. Sandra tinha os olhos baixos e os lábios em risco, demonstrando arrependimento.

Levantei-me do chão e fui a sua direção. Estendi minha mão para a elegante figura na minha frente, que me olhava confusa. – Tudo bem, tia. Parece que apenas começamos de maneira errada. – deixei a emoção daquele momento fluir, resultando em um sorriso enorme. – Muito prazer, me chamo Sophie.

Sandra hesitou em pegar minha mão, mas o fez, mesmo com o olhar perdido. – Muito prazer, Sophie. Sou Sandra, mãe de Gabriel e tia de Leonardo. – suas sobrancelhas caíram e logo o risco dos seus lábios se curvou, repercutindo em um sorriso suave. – Mas tia?

— Sim, claro. – disse, simplesmente. – Que outra maneira poderia chamar a mãe do meu melhor amigo e, de quebra, a tia do meu segundo melhor amigo? Podemos ser uma grande família feliz.

Não me deixei abalar pelos dois muxoxos atrás de mim, e Sandra também não. Soltou sua mão da minha e a levou aos lábios, tampando-os enquanto deixava escapar uma risada baixa. Surpreendi ao ver que tinha aceitado bem o que propus. Pelo visto, Gabriel tinha puxado ao pai.

Joguei-me em seus braços, abraçando-a de forma com que não perca o equilíbrio em cima do salto. Encostei o ouvido em seu peito e virei o olhar na direção dos dois estressados atrás de mim. – Eles são cruéis, não é, tia? – indaguei, forçando a voz de choro. Não estava tão triste assim, mas precisava atormentá-los como forma de castigo por terem omitido o parentesco. – Como puderam esconder algo tão importante da melhor amiga?

Sandra hesitou em retribuir o abraço. Optou por dar tapas leves nas minhas costas e dizer para me acalmar, um pouco sem jeito. Não parecia acostumada a este tipo de contato vindo de uma estranha, o que, bom, é o normal.

— Vocês me decepcionaram, rapazes! – afirmou em tom autoritário. – Como puderam fazer uma coisa dessas? – Sandra encarava-os com a sobrancelha franzida, expressão na qual Gabriel parecia muito com a mãe.

Ambos tentaram se explicar ao mesmo tempo, tornando impossível entender. – Fiquem quietos! – sua voz se destacou no meio do falatório. Os meninos obedeceram sem alarde e ajeitaram suas posturas, ainda sentados no chão. A reação foi tão imediata que se demonstraram temerosos. – Pois saiba que colorei os dois de castigo. – Sandra estava rígida com eles, mas usava uma de suas mãos para afagar minha cabeça.

— O quê? – Leonardo foi o primeiro a protestar. – A senhora não pode me deixar de castigo. – sua indignação estava evidente sem o seu sorriso casual. Levantou-se do chão enquanto falava: – Fala sério, eu sou velho demais para isso. Aliás, – continuou, passando ambas as mãos no cabelo, apreensivo. – a senhora nem mesmo é minha mãe.

Gabriel levou-se também, mas antes que pudesse se juntar a negação do primo Sandra disparou: – Não posso, Leonardo? – esboçou um sorriso sarcástico, digno do Leonardo, tentando provocar o sobrinho. – Pois saiba que é exatamente isto que farei. Você ficará aqui em casa pelos próximos três dias, no quarto de hóspedes, só saindo quando eu autorizar. – pálido como a neve, Leonardo não tinha reação para o que tinha acabado de ouvir. – O menininho fez dezenove anos há duas semanas e já se acha adulto? – libertou uma risada debochada. – Ninguém é velho demais para um castigo.

— A senhor só pode estar brincado. – empurrou as palavras, cético das últimas palavras que atravessaram seus ouvidos.

— Brincado? – repetiu, mantendo o tom sarcástico. – Estou falando muito sério, mocinho. – Sandra mudou de volta para o tom autoritário depois que proferiu a frase clássica de filmes adolescentes norte-americanos. – Também o deixarei sem internet, televisão, vídeo-game e qualquer outra coisa de entretenimento daqui de casa. – Leonardo apenas abaixou a cabeça, ainda com os olhos arregalados, sem forças para argumentar. A situação só piorava para o seu lado. – E você, Gabriel. – seu filho tremeu só de ouvir seu nome. – Tudo que vale para o Leonardo, vale também para você.

Nunca pensei que Sandra seria tão severa com sua família. Poderia vê-la claramente mimando seu filho, dando tudo a sua vontade, ou até mesmo preocupada demais com o trabalho para dar atenção. Gabriel deve ter tido uma educação excepcional. Estou ansiosa para conhecer o seu pai.

Sandra me pegou pelo pulso e me tirou do quarto sem perder a elegância no andar. Ela me levou até a cozinha e se ofereceu para fazer um chá, preocupa comigo. Não era exatamente a situação que queria deixar os dois, mas, devo admitir, eles com certeza aprenderam a lição. Estava difícil controlar a risada na hora da bronca, seus rostos estavam hilários. Cheguei a morder meus lábios para conter a gargalhada.

Depois de esquecer a água no fogo enquanto mantinha uma conversa calma comigo e ter que fazer tudo de novo, nós estávamos nos conhecendo um pouco. Contei para ela como vim parar aqui nesta cidade e sobre a minha madrinha – Sandra fez questão de exigir que eu a traga da próxima vez que vier aqui. Até passei meu número a ela.

Ficamos um bom tempo conversando, sem a interrupção dos dois de castigo. Às vezes passava pela minha cabeça o que eles poderiam estar fazendo. Em relance, observei o relógio prateado no topo da parede, assustando-me com a hora. Já estava para dar 18h. Estávamos há três horas conversando sem parar. Levantei-me em um pulo, temendo ter que pegar o primeiro ônibus às 18h e o próximo às 20h, chegando em casa excedendo o limite seguro que uma jovem deve andar na rua, segundo minha madrinha. Após explicar a situação, Sandra ofereceu-se a pagar um taxi. Neguei nas primeiras insistências, porém cedi depois que se mascarou com o tom autoritário que xingou os meninos.

O taxi não demorou a chegar. Sandra se despediu com um abraço certo desta vez, sem esconder a felicidade. Ela me lembra a minha mãe, o que rendeu uma conversa maravilhosa repleta de nostalgia. Quando estava no meio do caminho a ouvi gritar pelos dois, que vieram disparados assim que ouviram sua voz ríspida. Gabriel e Leonardo acevam com sorrisos, mas as veias em suas testas não escondem a vontade de me matar.

Antes de abrir a porta do taxi, tirei de forma despistada o meu velho amigo do sutiã. Ele era tão pequeno que nem me incomodou durante todo este tempo. O liguei e fui para a galeria. Sandra, neste momento, me observava de dentro de casa. Abri a porta do taxi e virei para trás, sorrindo. Uma mão acenava, a outra segurava em tela cheia a foto de um Leonardo indefeso seminu; o meu tesouro.

— EU VOU TE MATAR! – gritou, enquanto corria na minha direção.

Adentrei o carro apressada falando para o motorista, confuso, seguir com o percurso. Leonardo não me alcançaria a tempo. Com o motor ligado e o carro devagar em movimento, pousei os dedos da mão nos lábios e soprei um beijo vitorioso, o que o deixou ainda mais irado. As últimas palavras que pude ouvir foram as da Sandra repreendendo o sobrinho.



Notas finais do capítulo

*Hisoka, Gon e Killua são personagens do mangá Hunter x Hunter. Dá até felicidade de escrever sobre essa maravilha, já que o Togashi finalmente voltou com os capítulos. Vamos comemorar enquanto ele está publicando.



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