Escola de Guardiões escrita por Tynn


Capítulo 5
Capítulo 5 - Escolha de Classe




Quando Jorge acordou, eu já estava bem desperto, olhando para a janela. Por incrível que pareça, a gente continuava em Recife, só não consigo descobrir exatamente qual o bairro. O meu colega, ainda sonolento, sentou-se na cama.

– Bom dia, brother.

– Bom dia, Jorge.

– Leandro virou uma formiga de novo? Ou ele já foi tomar café?

– Ele está no banheiro. Daqui a pouco deve voltar.

Eu não quis sair do quarto sozinho. Jorge, então, resolveu me explicar sobre como funcionavam as coisas na escola. A maioria dos alunos acordava às seis horas da manhã para irem ao banheiro, se arrumar e organizar suas coisas. O café da manhã era servido entre às 7 e às 8 horas da manhã, pois a partir daí todos já devem estar nas suas atividades. Os alunos novatos possuem aula teórica pela manhã, que vão desde filosofia a como montar em dragões alados, e pela tarde possuem as aulas práticas, criando o horário dependendo da sua classe. Como eu era novo, ainda não tinha nada definido. A única coisa certa era que eu deveria passar na sala do professor Alfredo, pois lá deveria ser definida uma classe para mim. Sobre como era feita essa seleção, Jorge não quis me dizer nada.

Descobri que o diretor tinha arrumado roupas novas para mim e eram bem confortáveis. Eu tomei banho, me arrumei e fui tomar café-da-manhã com o pessoal. Meu pai estava lá, sendo que numa mesa bastante afastada, onde fica o pessoal da enfermaria. Eu falei com ele e o velho parecia bem, apesar da confusão que deve estar em sua mente. Ele me disse que a casa da gente já tinha sido “dedetizada”. Nós poderíamos voltar para lá a hora que quiséssemos.

– Você quer ficar aqui? – Ele perguntou. – Porque eu não vou passar mais nem um dia nesse prédio. Nunca gostei de morar em apartamento. Você, pelo contrário, parece está se dando bem. Tem feito bons amigos aqui, hein?

Percebi que Natália, Jorge e Leandro estavam olhando para mim e acenaram quando eu os vi. Apenas Pâmela fez uma careta de nojo e passou a mão sobre o pescoço, como se fosse arrancar minha garganta. Eu não duvidaria disso.

– Pai, eu vou ficar aqui por mais um tempo. Conhecer um pouco as coisas, quem sabe eu não me adapto?

– Eu apoio. E Tomy está doido para voltar para casa.

– Cadê ele?

– Está bem. O pessoal deixo-o preso no meu quarto, mas cuidam bem do animal. Eu vou tomar café para ir trabalha, eles fizeram um ótimo trabalho me curando.

– Ok. Eu vou voltar para minha mesa. Até mais, pai!

Ele acenou e voltou a comer pão com queijo e suco de laranja. Eu já tinha pegado a minha refeição e voltei para a mesa dos meus colegas. Eles pareciam animados com a ideia de eu ser selecionado para alguma das classes.

– Bicho, aposto que você é do meu time. Um mutante bem escroto.

– Eu não sei se é legal ficar mudando de forma. – Quando eu falei isso, Leandro fez uma tromba de elefante e transformou os membros superiores em braços de macaco.

– Como não?

– Você vai ser um manipulador. – Natália anunciou, séria. – Só assim você poderá fazer parte da nossa equipe e ir buscar Zeca. Ontem eu não tinha entendido por que o diretor quis você, mas agora faz todo o sentido. Os lagartos-come-lixo estavam atrás de alguma coisa. Na verdade, estavam atrás de você. Se nós formos buscar Zeca e não o encontrarmos, podemos ficar parados e eles nos encontrarão, pois virão até você, Marcelo.

Ser importante para a equipe era algo bom. Ser alvo de criaturas monstruosas e gigantes, não. Aquelas palavras de Natália fizeram todos ficar pensativos. Desde que cheguei aqui, nunca parei para pensar como deve ser difícil perder alguém tão próximo. Pâmela tinha razão em estar com raiva de mim, afinal foi por minha culpa que tudo aconteceu. Eu preciso dar um jeito de corrigir isso antes que seja tarde demais.

O horário do café-da-manhã estava chegando ao fim e eles me levaram para a sala do professor Alfredo, que ficava no terceiro andar do prédio. Eu bati algumas vezes na porta e um senhor de idade avançada abriu, sorridente. Ele usava camisa social e chinelos, o que parecia uma contradição. Percebi que ninguém se atreveu a ultrapassar a porta além de mim. A escolha de classe era algo sigiloso, entre mim e este professor aloprado.

O velhinho pediu para eu sentar em uma cadeira, onde me senti diante de uma visita a um médico. A diferença é que atrás do professor existiam várias armas penduradas, como lanças, espadas, arco-e-flecha, adagas e outras coisas bem medievais.

– Eu sou professor Alfredo e você é Marcelo, certo?

Assenti. Ele puxou uma gaveta e começou a tirar pequenas pedras de lá, das mais variadas cores. O professor fechava o olho esquerdo e me observava por trás da pedra, alterando-as e fazendo pequenas exclamações de surpresa ou desagrado. No final de 15 minutos, ele já estava com uma quantidade de pedras suficientes para fazer um arco-íris. Em seguida, pediu para que eu me levantar e o seguir até o mural de armas medievais, onde deveria escolher uma para testar.

– Vamos, fique à vontade para pegar qualquer uma. Aquela parece ser a mais atraente para você.

Peguei um machado, só que era pesado demais. A arma caiu no chão e quase rachou o piso. Espero que não tenha assustado ninguém lá embaixo. Usei uma adaga, mas ela era leve demais. Parecia que ia voar da minha mão a qualquer movimento. O arco tremia toda vez que eu tentava colocar uma flecha nele e a espada que eu peguei, bem, quase cortou a cabeça do velhinho. Eu já estava pegando outra arma quando o professor suspirou.

– Pelo visto, você vai precisar de um empurrãozinho.

Ele caminhou calmamente até a sua mesa, onde puxou alguma coisa que estava grudada no fundo. O barulho de lâmina preencheu o cômodo e eu vi a espada mais incrível da minha vida. O cabo era negro com detalhes em dourado e a lâmina bem afiada. Ele sorriu para mim e eu estendi o braço, esperando a arma ser depositada em minhas mãos. De súbito, o velhote me atacou, quase arrancando meus pulsos.

– O que foi isso?

– Vamos, moleque, pegue uma arma e se defenda. Ou não vai sair daqui vivo!

Esse era o “empurrãozinho”? O senhor deu mais um golpe que acertaria em cheio a minha cabeça se eu não me abaixasse. O cara não estava brincando, se eu não fosse rápido iria sair de lá morto. Ele desceu a espada para o meu lado e eu pulei para a direita, ficando mais longe das armas.

– Que pena, pelo visto vamos perder um aluno de novo.

O professor me atacou mais uma vez. Eu me joguei para trás da mesa e cai do outro lado. A espada atingiu a mesa, só que não a quebrou. Pelo visto, ela foi feita de material mais resistente para aguentar os golpes da espada de seu usuário. Mais um ataque e eu me abaixei. A espada atingiu em cheio o cabide. Apesar disso, o cabide apenas balançou. Era por isso que eu não via marcas de arranhões nem pedaços de madeira rolando. Todo o escritório era feito de material mais resistente, talvez de um metal especial. Os golpes não cessaram, eu tendo que me esquivar de instante em instante. A porta continuava trancada (eu tentei sair) e não havia para onde fugir. Precisava enfrentar o velhote de alguma forma.

Alfredo atacou-me como a espada e eu me esquivei, puxando a luminária que ficava em cima da mesa. Espero que isso dê certo. No próximo golpe, eu defendi a espada com a luminária que aguentou por alguns segundos até se espatifar. O professor pareceu surpreso, pois não esperava o meu movimento. Puxei o cabide com força e o derrubei em cima do velho. Ele precisou de uma das mãos para não ser esmagado. Chutei uma cadeira na sua direção e corri até as armas. Ali estava exatamente o que eu precisava. O velho jogou o cabide para o lado e empurrou a cadeira, tendo que defender às pressas do meu ataque. Eu estava segurando um escudo de prata e o bati com força contra a espada dele. O professor foi pego de surpresa; não teve tempo de usar as duas mãos para segurar a espada, que foi ao chão. Eu corri atrás dela e a peguei, apontando para o louco.

– Bom, eu gostei dessa espada. Achava que você ia me dar para eu experimentar.

– Interessante, meu caro... Ela é sua.

Eu o olhei incrédulo. Aquela espada seria minha? O velho ajeitou a roupa e sentou-se na cadeira. Pegou uma luminária nova que ficava guardada na última gaveta (onde havia várias daquelas), anotou algumas coisas no papel e depois olhou para mim. Passou um bom tempo fitando a espada. Voltou para o papel e escreveu várias coisas. Eu me sentei depois de colocar a cadeira no lugar.

– Pronto, a sua avaliação está terminada.

– E aí?

– Você é um ótimo guerreiro, Marcelo. Parabéns! Aqui está o seu horário de aula. Para saber onde ficam as salas, pode perguntar a alguém da secretaria que saberá lhe informar melhor.

– E isso? – Apontei para o escudo.

– É tudo seu. Vá, eu tenho que arrumar a sala antes do próximo aluno.

Eu sai de lá desorientado. Olhei para o papel que o professor havia me fornecido. Eu terei aula de História das Dimensões em cinco minutos. Fui até o elevador, onde vários alunos saíram e pareceram chocados ao ver a minha espada. Eu sei que não é comum andar por aí com uma espada e um escudo na mão, mas aqui as pessoas fazem isso, certo? Esperei chegar no primeiro andar e fui até o dormitório masculino, passando pela sala de estar. Infelizmente, Pâmela estava lá.

– Conseguiu uma espada nova, garoto?

– Sim.

Ela ficou surpresa assim como os demais ao ver minha espada. Tentou disfarçar, fazendo da melhor forma a sua cara de nojo.

– Só porque conseguiu a espada de Éron não significa que você seja muita coisa. Quer dizer, significa sim. Você não é um manipulador!

– Fui selecionado para guerreiro.

– Eu sabia! Agora vá embora, vou falar hoje mesmo com o diretor para marcar a minha missão de resgate. Duvido você ir agora que não é manipulador. E se quando eu chegar lá algo ter acontecido com o meu irmão... É melhor estar preparado!

Pâmela saiu. Eu dei de ombros e subi até o meu quarto, onde pretendia guardar a espada. Enquanto andava pelo corredor, vi alguns alunos admirarem a lâmina. Não entendi o motivo, só quando entrei no meu quarto e dei de cara com Jorge.

– Cara, você conseguiu a espada de Éron?

– Acho que sim. O que tem de tão especial nela?

– Nada... Simplesmente é a espada mais incrível do universo! E ninguém da escola conseguiu ficar com ela, até você aparecer. Dizem que ela guarda os grandes segredos dos sábios. Uma espada rara, brother. Se deu bem.

– Uhum. Valeu.

Eu coloquei a espada perto das minhas coisas, junto com o escudo. Peguei a mochila que me deram com o material escolar básico, como caderno, lápis, borracha e canetas. Jorge estava se preparando para ir a sua próxima aula, quando algo o fez parar perto da porta.

– Marcelo, geralmente os manipuladores usam armas pequenas e leves, como adagas, facões, kunai ou chakram... Você não é manipulador, certo?

– Não. Sinto muito, Jorge. Acho que não poderei ir com vocês resgatar Zeca. Eu sou guerreiro.

– Tudo bem. As coisas mudam muito aqui na escola, nunca se sabe.

Eu peguei o papel com as aulas e dei uma rápida olhada. Praticamente todos os dias em todos os horários em terei aula, exceto à noite, horário em que ao menos eu terei para dormir ou descansar. Peguei a mochila e desci para a primeira aula, onde iria começar a aprender tudo do zero. Como farei para sair com algum conhecimento mínimo em uma semana? Não tenho ideia. Mas já que estou aqui, não custa nada tentar.



Notas finais do capítulo

Um pouco mais sobre A Espada de Éron

Um dos itens mais cobiçados pelos guerreiros, a Espada de Éron é conhecida por ser capaz de destruir quinhentos monstros com apenas um golpe. O seu criador, Éron de Vanhustér, foi um grande guerreiro em um mundo onde criaturas das trevas surgiam com o cair da noite. Dizem que Éron viveu em uma pacífica cidade, capaz de deter as criaturas por causa do campo de força de um mago. Houve um dia, contudo, que o mago desapareceu e a cidade ficou desprotegida. Com a invasão dos monstros, Éron viajou várias milhas até as fontes mágicas do Oeste, onde aprendeu a arte de forjar espadas com um anão. Ele mesmo fez, portanto, uma espada capaz de captar a sua própria alma e a essência da natureza, destruindo tudo o que fosse possível. Dizem que Éron é o único capaz de usar toda a força da espada, conseguindo destruir as criaturas e salvando seu povoado. Ele lutou durante décadas com sua espada, até que a velhice chegou e espada teve que ser enviada a uma pessoa de sua confiança, para não cair em mãos erradas.