Escola de Guardiões escrita por Tynn


Capítulo 4
Capítulo 4 - Conversa com o diretor




Uma equipe médica chegou na sala e levou o meu pai para a enfermaria. Eu mesmo acompanhei tudo de perto para saber que nada de grave aconteceu com ele. Depois, descobri que cachorros não podem ficar soltos na escola, por isso tive que colocar uma coleira no coitado do Tomy e não devia perdê-lo de vista. Após todos esses procedimentos urgentes, resolveram decidir o que fazer comigo. Pelo olhar fuzilador daquela menina de batom vermelho, eu preferia ter ficado em casa com minha simpática família de ratinhos-lagartos.

Eu fiquei sentado na sala de espera do diretor com Jorge, Natália e a menina que descobri se chamar Pâmela. Ela estava irada comigo porque acredita que a culpa de Zeca ter ido parar em outra dimensão foi minha. E tenho certeza que sei quem contou essa versão da história.

– Não pense você – avisou a garota punk – que eu sou calminha como a sonsa da Natália! Você mexeu com um dos meus e vai pagar caro por isso. Quando o diretor chegar, vamos decidir qual vai ser a sua punição. Espero que passe um ano na dimensão do vazio, sofrendo os piores pesadelos!

Eu engoli em seco. De fato, não tinha a mínima ideia do que falar naquela hora. A menina tinha olhos roxos que mais pareciam penetrar na sua alma. Espero que esse tal diretor não seja assim tão bravo.

– Não vai falar nada?

– Ei, deixa o cara em paz, doida de roxo! – Jorge me defendeu, para meu assombro – Ele nem sabe como veio parar aqui. E a casa dele foi atacada por lagartos come-lixo.

– Achei pouco!

– A culpa não foi dele. – Natália finalmente falou, segurando o choro. – Eu fracassei e coloquei a culpa nele. A primeira flechada não atingiu o lagarto... Aquele era o momento ideal, pois ele estava de costas para mim. Eu que errei.

– Que isso, Natália. – Falei, com o coração apertado. – Zeca tentou me salvar, vocês fizeram tudo certo. Eu coloquei tudo a perder quando não sai correndo.

O clima estava tenso na sala de espera. Por sorte, o diretor chegou e pediu para que todos entrassem. Pâmela passou por mim, sussurrando.

– E só para avisar: Zeca é meu irmão. E espero que nada tenha acontecido com ele. Ou eu prometo que farei tudo para que o mesmo aconteça com você.

A sala do diretor era ampla, com uma poltrona onde cabíamos nós quatro. De fato, ficou um pouco apertado, mas foi o suficiente para eu ficar a uma distância segura da doida de roxo. Ela sentou-se em uma ponta e eu na outra. O diretor era um homem de cabelos grisalhos, simpático, e que usava um par de óculos quadrado. Ele apertou a minha mão, se apresentando como Diretor Bartolomeu.

– Pelo visto, você já conhece alguns alunos da escola.

Eu balancei a cabeça, nitidamente constrangido. Pude perceber que ele exalava autoridade, pois todos ficaram quietos assim que começou a falar. Até mesmo a respiração dos alunos parecia mais comportada. Era uma pessoa a quem muitos tinham respeito, e receio também.

– Eu já soube o que aconteceu com Zeca e dou meus sinceros pêsames para Pâmela. A sua relação com Zeca era bastante forte e estou aqui justamente para lhe mostrar que farei o máximo na busca pelo seu irmão.

– Obrigada.

– Contudo, devo avisar que você não poderá ir para a missão de resgate, já que está um tanto quanto abalada pelo que ocorreu...

– Diretor, me desculpe, mas isso é um absurdo! Eu sou a pessoa mais indicada a ir busca-lo.

– Jorge e Natália já estão escalados.

– Eu sei, por isso estou aqui! Sem um manipulador a equipe fica defasada. Nunca nessa escola se mandou uma equipe apenas com duas pessoas. Todas as equipes são formadas por três alunos, sendo a composição clássica: guerreiro, curandeiro e manipulador. O guerreiro pode ser substituído por um bárbaro, uma pessoa mais focada na força física, mas sempre deve haver um manipulador!

– Pâmela, fico feliz por você ter frequentado as aulas teóricas de combate, mas devo informar que essa composição pode ser alterada, a depender da dinâmica entre os alunos. Além do mais, eu enviarei sim um trio para o resgate de Zeca. O terceiro membro está ali e acredito que seu nome seja Marcelo.

Eu gelei. Só então caiu a ficha. Eu estava sendo convocado para fazer parte de uma missão. Uma missão que eu nem sei como é, ou mesmo para onde vou. Na verdade, eu não tenho a mínima ideia de como usar uma arma. Todos nós ficamos espantados com a notícia. Pâmela levantou-se e foi até mim, os olhos roxos vibrando de um nervosismo incrível. Percebi que ela estava com medo que eu fracasse e acontecer algo de ruim com seu irmão. A moça parou bem na minha frente, olhando fixamente para mim.

– Esse garoto não é nada, diretor! Ele nem deve saber como usar uma espada.

– Ele é especial. E aconselho a você voltar a se sentar.

– Vou mostrar para todos como ele pode ser manipulado facilmente. – Ela olhou fixamente nos meus olhos e falou, quase sussurrando. – Me beije.

Eu fiquei vermelho. Olhei discretamente para os lados, vendo que Jorge e Natália não se espantaram com o pedido da garota, mas sim com a minha reação. Eu não a beijei, claro que não, e não tinha a mínima vontade de fazer isso. Toquei levemente nos ombros dela, para que os olhos penetrantes e seus lábios ficassem um pouco mais afastados de mim. Pâmela ficou pálida, como se estivesse vendo um fantasma. Ela olhou para o diretor que continuava impassível.

– Como isso é possível? Vamos lá, garoto, me beije agora!

Percebi que ao dar a ordem, os olhos dela ficavam com uma cor mais intensa. Isso, contudo, não mudava o fato de eu achar estranho beijar uma garota logo depois de conhecê-la (e ser ameaçado por ela). Pâmela bateu o pé no chão com força e voltou a se sentar, exigindo esclarecimento do diretor. Não só ela, como também Jorge e Natália estavam ávidos por explicações.

– Eu também não sei o porquê dele ser diferente, mas ele o é. E deve ir para essa missão junto com o bárbaro e a curandeira. Lógico, se ele aceitar.

Todos olharam para mim esperando a resposta. Mas eu é que precisava de explicações:

– O que Pâmela acabou de tentar fazer comigo? Ela realmente queria o meu beijo?

– Não, idiota! – A menina avisou.

– Ela é uma manipuladora. Consegue fazer com que as pessoas obedeçam as suas ordens apenas dizendo-as. De maneira geral, todos são obrigados a obedecê-la quando ela usa esse recurso. Todos menos você. - O diretor disse.

– É assim que as pessoas não descobrem sobre os portais, Marcelo. – Natália explica. – Como no beco: todo mundo que via o lagarto era convencido pelo Zeca de que aquilo não era real. Zeca forçava as pessoas a acreditar que nada de estranho estava acontecendo e todos voltavam à sua rotina. É por isso que o padrão é possuir um manipulador na equipe para que os cidadãos não descubram sobre essa escola ou os portais ou qualquer coisa que possa tirá-los da vida comum que levam.

– Eu sei que é muita informação para ser absorvida, por isso eu lhe faço uma proposta: passe uma semana conosco, aqui na escola. Durante este período, Jorge, Natália e Pâmela podem lhe mostrar o sistema, explicar como funcionam as equipes e você frequentará algumas aulas. Esse é o tempo que leva para nós conseguirmos abrir um portal para a dimensão do Zeca. Depois desse prazo, você retorna e me diz se pretende ir ou não a missão de resgate.

– Certo... Eu aceito a proposta.

O diretor apertou novamente a minha mão. Ele pediu para que Pâmela ficasse um pouco mais, pois ele precisava conversar com ela em particular. A garota parecia a ponto de explodir. Ou cortar o meu pescoço. Eu, Natália e Jorge saímos para um corredor largo, onde jovens entre 13 e 18 anos passavam com suas armas, cadernos ou celulares. Tudo parecia novo e estranho demais para mim. De repente, paramos diante de um imenso salão onde vários alunos conversavam.

– Jorge, eu estou indo para o dormitório feminino. Leve Marcelo para o seu quarto, acho que ele vai ficar na cama do Zeca por enquanto. Amanhã a gente mostra a escola para ele.

– Tudo bem. Boa noite, Natália.

– Boa noite, Jorge. Boa noite, Marcelo. – Ela encontrou algumas colegas e todas subiram pela escada direita, local que daria, provavelmente, para o dormitório feminino.

Nós fomos pela escada esquerda, subindo até um corredor com vários quartos. O local era semelhante a um corredor de apartamento, parecendo mais uma república de estudantes. Os meninos andavam de um lado ao outro, alguns jogando bola, outros apenas caminhando até o banheiro com a escova de dente nas mãos. Jorge cumprimentou vários deles e parou em frente ao nosso quarto, ao qual teve que passar um cartão para destravar a porta. O quarto era pequeno, mas aconchegante. Existiam dois beliches, cabendo ao todo quatro alunos. No lado oposto da porta, uma televisão estava conectada a um Xbox e dois guarda-roupas ocupavam a parede compartilhada com a televisão. O quarto tinha ar-condicionado e uma janela enorme que dava para a rua. Além disso, existia uma mesa ao fundo, onde poderiam ver alguns cadernos espalhados.

– Este será o seu quarto por enquanto.

– Legal...

A porta se abriu e um rapaz entrou. Ele tinha o rosto severo e o cabelo escuro. Seu andar era rígido; ele carregava uma espada nas costas pendurada em uma bainha, mesmo estando de pijama. A espada era quase do seu tamanho e eu me perguntei como o garoto conseguia usar aquela arma. O menino abriu o guarda-roupa e começou a tirar as suas coisas.

– Guilherme, o que foi?

– O diretor disse que tinha um aluno novo chegando. Deve ser esse cara aí do teu lado. Eu vou ficar no quarto do Claudio.

– Saquei.

O menino, chamado Guilherme, dobrava todas as roupas com precisão de um cirurgião. Pegou o material de estudo, empilhado no lado direito da mesa, e saiu do quarto sem se despedir. Apenas passou por nós, calado.

– Foi um prazer dividir o quarto contigo! – Jorge avisou, tendo o silêncio como resposta. – Cara mal-humorado. Não se preocupe que nem todo mundo é assim.

– Ufa. – Eu me sentei em uma cama, a única que não estava forrada e possivelmente seria a minha. – Se cabem quatro pessoas aqui, então um era você, o outro Zeca e o terceiro Guilherme. Cadê o quarto? Ele está tomando banho?

– Não, ele está aqui dentro já. – Jorge esboçou um sorrisinho e apontou para o vídeo-game. Eu não entendi nada e imaginei que fosse alguma piada sem-graça. Encarei Jorge novamente e reparei que ele ainda olhava para o jogo. Voltei a minha direção para lá, percebendo que o único ser vivo além de nós era uma formiga em cima do controle do Xbox.

O animal virou-se para nós e começou a andar. Desceu do controle, foi caminhando pelo chão e percebi que a cada passo, ele crescia. Aquela não era uma formiga qualquer, pois já estava com quase 30 centímetros de altura e andava só com duas patas. Ou devo dizer pés? A formiga se transformou em um garoto magricelo, risonho e de moicano. Eu quase virei para trás, mas depois daquele dia tudo era possível. De onde ele tirou as roupas, eu realmente não sabia. O rapaz estava usando uma camiseta regata e bermudas floridas.

– E aí, rapaziada. Então você é o carinha que deixou Zeca na pior?

– Pelo visto, todos já me conhecem aqui.

– Como não, tu é famoso, cara! Bate aqui! – O rapaz estendeu o braço e eu bati em uma pata de urso. Dei um pulo da cama com o susto, metendo a cabeça na parte de cima do beliche. – Calma, isso é só para brincar mesmo. Você é o quê?

– Como assim?

– O cara é novato mesmo, né?

– Deixa que eu explico. – Jorge disse, para o meu alívio. – A escola possui 5 tipos de classes: guerreiro, bárbaro, curandeiro, manipulador e mutante. Como você deve ter percebido, eu sou um bárbaro e uso a força para o ataque. Temos a Natália como curandeira e o Zeca é um manipulador. Ah, aquele carinha, Guilherme, é guerreiro.

– Eu sou mutante e essa é a classe mais maneira que tem. De modo geral, se você tem alguma habilidade que não se encaixa em nenhuma das outras quatro classes, você faz parte dos mutantes. Maneiro, não? – Eu assenti. – E qual é a tua classe?

– Eu não tenho ideia. Vocês não passam por nenhum teste vocacional ou algo do tipo?

– É mais ou menos isso. Amanhã eu te levo lá na sala do professor Alfredo.

Eu poderia estar apavorado com a escola, ou com a minha casa ser infestada por lagartos mutantes, mas posso dizer que estou ansioso para conhecer a escola. Por mais estranho e louco que o local possa parecer, eu sinto que fiz verdadeiras amizades aqui dentro e talvez eu possa finalmente me encaixar em algum lugar. A noite passa e nós conversamos sobre milhares de coisas, inclusive novos jogos que vão lançar e os próximos filmes de super-heróis. Acho que fomos dormir lá para 1 hora da manhã, quando finalmente fechei os olhos ansiando o dia seguinte.



Notas finais do capítulo

O Diário de Leandro

E aí, galera? Tudo de boa? Eu sou o carinha estranho ali, que se transforma em animais e gosta de fazer loucuras, por isso devo ser uma pessoa interessante; vocês só precisam me conhecer melhor. Sou Leandro, gosto de comer leite quando estou na forma de gato e de vigiar o dormitório das meninas de vez em quando na forma de mosca. Ei, nem pensem que eu seja um pervertido! Nunca entrei no vestiário. Quer dizer... Enfim, vamos ao que interessa! Eu sou um mutante e essa habilidade foi hereditária. Eu sempre achei que meus pais fossem normais, até descobrir que o meu pai foi meio que amaldiçoado por uma cigana quando era solteiro (coisas de casais apaixonados). Por causa da maldição, seu primeiro filho viria defeituoso, se transformando em uma criatura não-humana de vez em quando. Assim que meus pais descobriram a Escola de Guardiões, me mandaram para aqui e agora eu estou batendo em tudo e em todos. Faço parte da equipe 5, junto com Claudio e a grossa da Pamela. Ela é manipuladora, mas tem o instinto de um bárbaro! Oh mulher doida. Gosto de rock dos anos 80 e de tirar catota do nariz. Mas faço isso sempre quando estou na forma humana (imagina eu tirar catota de um nariz de urso? Eca!). Acho que isso é o mais relevante sobre mim. Lógico que eu poderia falar sobre minhas namoradas, pretendentes e futuras, meu grande sucesso no campeonato da Escola de Guardiões e das grandes missões... O quê? Eu tenho um limite máximo de caracteres para falar? Que zona é essa! Eu quero meus direitos, vocês não podem me impedir de mostrar ao mundo o quanto sou legal! Aposto que se fosse Marcelo, ele poderia falar tudo sobre... Tá bom. Falow, galera!