Escola de Guardiões escrita por Tynn


Capítulo 20
Capítulo 17 - O ataque das armaduras




A primeira flecha de Natália acertou em cheio o peitoral de uma armadura, mas esta não sofreu nenhum arranhão. A garota puxou outra flecha e tentou um segundo disparo, sem efeito. As armaduras eram bem mais resistentes do que imaginávamos. Jorge correu como um louco para o meio do inimigo, batendo o tacape no braço de uma armadura que continuou intacta. O rival socou a barriga de Jorge e depois atingiu o rosto do garoto. O bárbaro caiu no chão, indefeso.

Eu fiquei na frente de Jorge e comecei a defender uma série de investidas de espadas. Mesmo sendo bastante fortes, elas eram igualmente ágeis. Depois de cem números de ataques, finalmente eu encontrei uma brecha e ataquei com toda a minha força a criatura de metal. A espada bateu e só fez arranhar levemente a armadura, que se tivesse rosto estaria rindo de mim com desdém. Pulei para o lado antes de ser partido em dois pela espada rival. Logo fui chutado por uma armadura que andava em nossa direção, embolando para os pés de Natália. Ela puxava flechas e mais flechas da bainha e atirava, todas não surtindo enfeito naquelas armaduras resistentes.

– Jorge, volte para cá agora mesmo! – A curandeira gritou ao ver o bárbaro se levantar e partir para cima daqueles monstros prateados.

O tacape de Jorge era tão destruidor quanto um cotonete. Por mais que ele atingisse o braço, perna, barriga, costas das armaduras, elas não sofreram com nenhum ataque. Algumas não seguravam armas, de tal forma que a sequência de socos em cima do pobre Jorge o fez cambalear para o nosso lado.

– Que porcarias de armaduras são essas? – Ele perguntou, com o olho roxo.

– O meu pai colecionou as melhores armaduras de todos os reinos. Nunca achei que isso seria um problema. – Samyra comentou, apontando a lança para os monstros. – Existem 26 armaduras ao total e parece que todas elas ganharam vida.

Natália fechou as mãos e se concentrou, expandindo o seu campo de força ao redor de nós 5. As armaduras continuaram a marchar como se estivessem em guerra, batendo contra a barreira mágica, apesar de não conseguirem passar. A cada golpe dos rivais, contudo, Natália fazia uma careta. Eu também sentia os impactos das armaduras. Elas eram muito fortes, bem mais do que os guardas reais.

– Eu não vou aguentar por muito tempo. – Natália admitiu. – Meu tipo de barreira não aguenta grandes impactos. Ela tem a capacidade de se expandir por vários metros de diâmetro, mas não suporta toda essa quantidade de ataques. Se Mariana estivesse aqui, ela seria mais útil.

– Não diga isso. – Jorge replicou, segurando o tacape em posição de luta. O corpo dele já tinha vários hematomas, assim como o meu. Eu senti uma pontada no meu joelho e vi o preço por ter rolado no chão. – Nós já passamos por situações piores. Vamos superar isso.

Eu queria estar otimista também, mas a situação era realmente complicada. Um brutamonte de ferro desceu a mão sobre o escudo e a barreira mágica se desfez completamente. Natália caiu no chão atordoada e eu tive que ser rápido para defendê-la, travando uma luta de espada. O meu primeiro corte ocorreu na altura da barriga, quando me descuidei por completo. Escutei o grito de Samyra e a vi sendo erguida no ar por uma armadura de 2 metros de altura. A rainha estava apavorada, com sua lança caída no chão. Jorge parecia um saco de areia em treinamento, recebendo vários golpes das armaduras rivais. Eu olhei para a cena com profunda angustia e recebi um chute da armadura a minha frente.

Fui arremessado para a parede, onde uma tocha caiu ao meu lado. O fogo começou a crepitar no chão, em uma mistura de brilho e revolta. Zeca estava perto, encolhido no canto. Ele sentiu o calor da tocha e tateou o chão até pegá-la. O manipulador balançou as chamas de um lado ao outro, impedindo o ataque de uma armadura. Por uma fração de segundos, a armadura ambulante hesitou em atacar. O fogo... Se eu tivesse uma lâmina fervente a 200 °C, poderia partir uma armadura daquela facilmente em picadinho, derretendo o ferro.

Uma fagulha de esperança surgiu no meu coração. Toda a dor e desespero da situação me fez querer lutar ainda mais. As minhas mãos começaram a se aquecer. Senti meu coração batendo forte, pulsando vivamente. O calor do meu corpo fez a espada de Éron emitir uma radiação avermelhada, depois explodir em chamas. Eu estava com a arma perfeita para destruir aqueles monstros molengas.

A primeira armadura partida ao meio estava próxima de Natália. A curandeira se encontrava fraca demais. Eu a ajudei a ficar em pé e logo exibi minha espada flamejante, girando-a no ar contra uma armadura que ameaçava me atacar. Eu atingi o peitoral dela e o fatiei, vendo as outras partes da armadura cair com um castelo de lego. Continuei com a chacina de metal, atingindo àquela que suspendia Samyra no ar. A rainha caiu no chão, mas tenho certeza que a dor queda não foi nada comparada ao desespero que ela sentia.

Uma armadura atingiu minhas costas com sua espada e me curvei para frente, ferido. Samyra reagiu instantaneamente, pegando a lança e acertando a criatura de metal. Eu me virei e terminei o trabalho. A adrenalina fazia com que eu continuasse, mesmo com a dor. Salvei Jorge em seguida, partindo as pernas da armadura. Depois foi Zeca e então me enfureci, destruindo todas as criaturas ambulantes com minha espada, que emitia uma chama avermelhada constante. Quando finalmente todas as armaduras estavam espatifadas no chão, pude ver o estrago da minha própria equipe. Estávamos exaustos e feridos. A espada de Éron voltou ao seu estado normal.

– Obrigada. – Samyra agradeceu. – Você tem uma espada muito especial.

– Não foi nada.

Eu caminhei e tentei ajudar Jorge a se levantar, mas o rapaz estava desmaiado. O seu corpo possuía hematomas em vários lugares. Natália começava a se recompor, observando o ferimento nas minhas costas. Eu não conseguia ver, mas acho que não estava muito bonito. A moça estendeu as mãos, mas o rangido de uma porta se abrindo fez com que todos ficassem em alerta.

– Tem alguém aí? – Uma voz feminina perguntou.

Eu me levantei com um salto. A voz vinha de uma porta muito distante, do outro lado do salão, onde Samyra havia falado de uma passagem para o antigo aposento do rei. Eu segurei a espada com firmeza e Natália puxou o arco.

– Eu escutei barulho aqui. O que é isso? – A voz prosseguia. Ela caminhou em nossa direção, afastando as partes das armaduras quebradas. A moça possuía o cabelo grisalho e amarrado, um longo vestido azul claro e os olhos castanhos. Nos encarou assustada, mas quem me deu um susto mesmo foi Samyra.

– Dona Therina! – A menina gritou, indo até a mulher. – A senhora continua no reino!

– Quem é você? – Ela perguntou alarmada. Pegou uma espada no chão e apontou para a rainha. – Não chegue perto de mim. Eu sei me defender e posso chamar toda a guarda real contra vocês. Aposto que são vândalos, ladrões!

– Não, eu sou a sua pequena Samy. – Respondeu Samyra. – Você me cuidou quando eu era pequena, virou a minha mãe quando Sophírena, a antiga rainha daqui, faleceu da peste. Me ensinou a jantar, a conhecer as palavras e me contou um montão de histórias. Por favor, Therina, você precisa acreditar em mim.

Toda aquela cena me comoveu. Deveria ser triste ter a sua própria aparência roubada. Imaginei se um dia eu não pudesse ser eu mesmo, se tivesse que convencer meus pais ou meus amigos de quem eu sou. Samyra se encontrava naquela condição, tentando convencer a antiga babá sobre a sua real identidade.

– Se você é a rainha Samyra, quem é que está comandando tudo? - A mulher quis saber desconfiada.

– Foi uma bruxa que roubou minha aparência. Ela entrou no castelo como uma costureira, com um vestido bastante bonito, e quando eu estava sozinha com ela no quarto, lançou o feitiço sobre mim. Por favor, Therina, você precisa nos ajudar a derrubar essa bruxa.

– Eu não preciso acreditar em você. Nunca vi uma história sem pé nem cabeça!

– Então me diga se o reino não está diferente? Se não parece que outra pessoa está tomando as decisões por mim? Se eu fosse a rainha, eu nunca aceitaria a escravidão de volta. O povo viveria em paz, sem esses soldados de chicotes ou impostos para tudo! Therina, eu sou a verdadeira Rainha Samyra!

A mulher encarou cada um de nós. Ela deu um passo à frente, ainda apontando a espada para Samyra, e depois soltou a arma letal e abraçou a menina. Lágrimas caíram dos olhos das duas. Elas passaram mais de um minuto abraçadas, silenciosas.

– Como eu estava preocupada, Samyra! Eu sabia que aquela não era você, não podia ser! Você voltou!

– Eu estava com saudade! Você não sabe o quanto eu estou sofrendo...

– Venham, saiam logo daqui e entrem no aposento. Nós temos muito o que conversar.

Ela nos mostrou o caminho para o antigo aposento do rei e fomos andando até lá. Eu e Natália nos juntamos para carregar Jorge, já que o bárbaro ainda estava desacordado. Zeca foi caminhando, guiado por Samyra, e logo entramos no quarto do antigo rei.





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