Escola de Guardiões escrita por Tynn


Capítulo 2
Capítulo 2 - Convite




O clima dentro do beco nunca foi mais fúnebre. Eu olhei para os dois estranhos que ainda estava inconformados.

– Não, Zeca! Volte! – A menina gritou com a voz embargada. O rapaz bateu com seu tacape inúmeras vezes na parede. – Você não pode nos abandonar.

– Natália, o diretor deve saber para onde esse portal o levou.

– Eu sei, mas o mundo dos lagartos-come-lixo é perigoso! Zeca não pode ficar lá sozinho...

Ela já estava com os olhos cheios de lágrimas. Os dois se abraçaram por fim. Eu não sabia se deveria atrapalhar a cena ou sair de fininho. Resolvi dar alguns passos para fora do beco, mas a garota olhou furiosamente para mim.

– A culpa é toda sua! Quem manda você ser idiota e não sair do canto? Zeca foi para outro mundo tentando te salvar!

– Foi mal! Eu juro que não queria que nada disso tivesse acontecido. Nada mesmo!

O rapaz resolveu acalmá-la, antes que ela tentasse arrancar a minha cabeça fora.

– Ei, ele é só um estudante medroso e perdido. Não vamos culpar os outros pelo nosso fracasso, okay?

A menina fungou mais resignada. Ela puxou o celular, afastando-se de nós. O rapaz aproximou-se de mim e eu dei um passo para trás.

– Cara, foi a gente que te salvou. Não se preocupe. Eu me chamo Jorge e aquela é Natália.

– Prazer, sou Marcelo.

– Agora eu preciso saber exatamente o que aconteceu. Aquela criatura que você viu, lagarto-come-lixo, eles não atacam seres humanos. Foi muito estranho o que aconteceu e mais estranho ainda ela ir atrás de você. Por isso que Natália está revoltada, ela acha que a causa disso tudo é sua.

– Eu não fiz nada, eu juro! Só estava lá na lata de lixo e apareceu aquele monstro querendo me devorar! Talvez eu tenha pisado sem querer no rabo dele, ou na cabeça, mas não fiz nada além disso.

Natália desligou o celular e foi ao nosso encontro. Ela ainda estava bastante chateada com o que aconteceu.

– Eu falei com o diretor. Ele disse que nós devemos ir para a escola imediatamente e esse garoto vem com a gente.

– Epa! Eu não vou para canto nenhum!

– Como é que é? – Eu juro que a vi bufar. – Nós viemos correndo te salvar, fazemos com que você não perca essa sua cabeça desmiolada por um roedor gigante, e nem gastar dois minutos com o diretor você quer?

– Ei, os esquisitos aqui são vocês. E não sei que escola é essa e nem estou entendendo o que aconteceu.

Jorge e Natália entreolham-se como se estivessem trocando um segredo. Os dois acenam positivamente e resolvem me contar toda a história por trás daquilo.

A gente caminhou até um banco perto dali. Eu sugeri irmos a um restaurante ou lanchonete, mas a garota teve a delicadeza de me lembrar que eu fedia a lixo. Nós nos sentamos e Jorge iniciou a conversa:

– Nós somos alunos de uma escola diferente das demais. O nosso diretor, bem, nos prepara para enfrentar os desafios da vida de uma maneira mais prática, entende? Tipo, a gente vai lá e faz as coisas! Tá ligado?

Eu balancei a cabeça, sem entender nada.

– Quanta enrolação! - Natália replicou. - Olha, esse mundinho de contos de fadas que você vive não existe mais! Há criaturas de outras partes do universo, que vivem em mundos paralelos ao nosso e que vez ou outra ameaçam invadir a Terra através de portais que ligam ao nosso mundo ou outro. Por isso, foi criada a Escola de Guardiões, onde crianças e jovens são treinadas para proteger o nosso planeta e impedir que qualquer pessoa saiba o que acontece nos bastidores. Entendeu?

Eu tinha entendido o que ela disse, só não tinha aceitado. Toda aquela história de outro mundo parecia roteiro de seriado americano e dos mais clichês. Eu não sabia se eles eram doidos ou realmente acreditavam naquilo. Por outro lado, como explicar o surgimento de uma bola verde no meio do nada e aquele bicho escroto? Quanta confusão! Mas tinha uma parte que eu não engolia.

– Por que eu tenho que ir para lá?

Os dois ficaram constrangidos. Aparentemente, não era tão comum eles terem essa conversa com um completo desconhecido. Natália já estava impaciente, mas Jorge juntou as próprias mãos, acomodando-se melhor no banco. Felizmente, o movimento na rua estava fraco e ninguém prestava atenção na nossa conversa.

– Brother, você viu o portal e foi atacado por um lagarto-come-lixo. Se Zeca estivesse aqui, provavelmente iria fazer com que toda essa confusão fosse solucionada. Mas Zeca sumiu e você é o motivo disso tudo. Você já viu um rato pular em cima de alguém e começar a atacar essa pessoa com todas as suas forças? - Eu balancei a cabeça, contrariando. - Pois é, foi quase a mesma que aconteceu. E acredite, se esse rato estava te atacando, existe algo em você que ele quer ou outra criatura quer. Não é mais seguro você continuar sozinho por aí. Cara, você precisa aprender a se virar.

– Você vai vir ou não? - Natália foi mais direta.

– Não. - Disse rapidamente. - E-eu... Eu acho maneiro vocês salvarem o mundo e tal, e eu sempre quis ser um dos membros dos Vingadores, só que... Eu não estou preparado. Também não sou o Capitão América nem nada. Então eu acho melhor voltar para a minha casa e torcer para não precisar de um psiquiatra.

– Eu não estou acreditando... - A moça sussurrou.

– Posso ir? - Perguntei, nervoso. Jorge meneou a cabeça e eu me levantei do banco, vendo que os dois continuavam conversando, ou discutindo. Na verdade, acho que Natália estava dando uma bronca em Jorge, mas isso não era mais da minha conta. Ela então encostou o rosto no ombro do amigo e começou a chorar copiosamente. A cena mexeu comigo, entretanto eu não fazia parte do mundo deles. Precisava tomar um banho e dormir.

Quem sabe tudo não foi um sonho? Um sonho esquisito e nojento. Peguei o ônibus para a minha casa e fiquei pensativo. Por mais bizarro que a ideia possa parecer, eu realmente estava curioso sobre essa tal Escola de Guardiões. Será que eles fazem tudo aquilo? E aquele monstro nojento, por que ele me queria? Eram muitas perguntam sem quase ou nenhuma resposta. Só sei que eu cheguei em casa são e salvo e com inúmeras dúvidas rondando a minha cabeça. Principalmente o fato de minhas roupas estarem imundas e rasgadas e eu precisar contar alguma coisa para meu pai, mas acho difícil ele engolir a história do lagarto gigante.



Notas finais do capítulo

Ficha Técnica

Nome: Lagarto-Come-Lixo.
Peso: 700 gramas a 4 quilos.
Comprimento: 50 centímetros a 2 metros.
Onde vive: bueiros, esgotos e lixões das grandes cidades.
Mundo de Origem: Nallük
Alimentação: Pequenos roedores, pássaros, frutos, sementes e restos de alimentos.
Filhotes: Em média, 6 a 12 filhotes por parto. Nascem com os olhos abertos e são dependentes da mãe nos 30 primeiros dias. Após este período, já conseguem encontrar seu alimento sozinho.
Curiosidade: Os lagartos-come-lixo se desenvolvem a depender da oferta de alimentos na região. Lugares com pouco lixo possuem animais menores, que mesmo durante a fase adulta (2 anos em diante) não ultrapassam 50 centímetros de comprimento.



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