Escola de Guardiões escrita por Tynn


Capítulo 13
Capítulo 12 - O Plano




Eu me acordei com o sol batendo no meu rosto. Por mais que eu adore a tecnologia do meu mundo, devo admitir que as camas daqui são incrivelmente confortáveis. Pelo menos eu fiquei com vontade de cochilar até o meio-dia. Pena que o restante dos meus companheiros não compartilhavam do mesmo pensamento.

Samyra estava na frente do espelho, testando suas habilidades. Ela já era capaz de mudar a aparência em menos de um segundo, ganhando a aparência inclusive de um homem! Infelizmente, a rainha não conseguia ainda se transmutar para uma forma animalesca. Ela me deu um bom dia quando eu passei e voltou a encarar o espelho, que mostrava a sua forma ilusória. Nunca tinha reparado antes, mas o colar de safira dela era bastante chamativo.

Da janela, pude ver Natália atirando flechas em uma árvore que saia do lugar toda vez que ia ser atingida. Acho que aquele era o nível expert do tiro ao alvo. A curandeira soltou alguns xingamentos e continuou com o treino, puxando mais uma flecha da aljava. Na sala, Luc e Jorge estavam sentados sobre um imenso papiro, apontando os dedos para lá e para cá.

– Bom dia, pessoal. – Eu desejei, ainda sonolento.

– Psiu, não fale muito alto. O jovem bárbaro está tentando se concentrar na missão. – Luc avisou, sem tirar os olhos do papiro.

– Venha dá uma olhada no mapa deste mundo, Marcelo! Aqui estamos nós, ao lado das montanhas.

Jorge apontou para um local onde várias elevações foram desenhadas. Eu reparei na clareira onde a tribo indígena nos atacou e logo consegui ver o riacho, que descia até um frondoso castelo no lado direito do mapa. A gente estava próximo a um conjunto de árvores, colocada no mapa como a Floresta do Encantamento. Imaginei que aquele era o motivo de termos visto fadas voando por lá. O caminho para o castelo seria fácil se nós tivéssemos um barco. Seria só seguir o rio e chegar lá de surpresa. Contudo, não era este o plano de Jorge; ele mostrou uma estrada que ligava o Reino de Crisélia com um povoado distante. A estrada não estava longe da nossa localização e em menos de um dia conseguiríamos alcança-la.

– E aí a gente chega no castelo, bate palmas e pede para entrar? – Eu perguntei, impressionado por Jorge não ter pensado nisso.

– Er... Ainda precisamos ver alguns detalhes.

– Nós não vamos fazer isso, Marcelo! – Samyra respondeu, descendo as escadas enquanto o seu colar brilhava intensamente. Eu queria saber como era a ilusão da garota, pois Luc e Jorge levantaram-se sobressaltados. – Não vamos entrar sozinhos!

– Pelo amor dos deuses! Como você é capaz de fazer isso? – Luc tremia-se todo, sem saber se deveria venerar a rainha ou ficar com medo dela.

Só depois de algum tempo, Samyra lembrou-se que eu não conseguia ver as suas ilusões, exceto sob o reflexo de um espelho. A garota posicionou as mãos sobre o colar e, aparentemente, a ilusão se desfez, pois tanto Luc quando Jorge voltaram a se sentar nas cadeiras.

A rainha demorou os olhos em mim, como se tentasse ver algo dentro da minha alma. Não sei, mas desde que ela desenvolveu seus novos dons, ficou ainda mais enigmática. Natália entrou na casa com o arco-e-flecha apontado. Ela mirou primeiramente em Samyra e depois começou a girar de um lado ao outro, procurando inimigos cruéis.

– Onde estão os invasores? Eu vi uns 10 guerreiros com tacapes descendo as escadas! Eles ainda estão por aqui?

Só então me dei conta da grandiosidade de Samyra.

Ela precisou mostrar o truque mais uma vez para Natália ter certeza que era tudo uma ilusão. Em seguida, explicou que poderíamos tentar invadir o castelo em último caso, fingindo ter um número maior de pessoas. Lógico que ela não era capaz de criar um exército, mas conseguia simular uma pequena equipe de assassinos. E o seu plano era ainda mais ardiloso: nós nos passaríamos de mercadores. Portanto que ficássemos a alguns metros da rainha, ela poderia mudar nossas roupas e fazer com que parecêssemos meros comerciantes. Uma vez que entrássemos no castelo, poderíamos procurar por Zeca e tirá-lo de lá, sobrando tempo para destruir a feiticeira negra de uma vez por todas. Essa parte não deixou Natália empolgada, que estava a fim de pegar Zeca e voltar para nosso mundo, mas Jorge foi contra:

– Se nós conseguiremos invadir o castelo por causa de Samyra, devemos ajudá-la a conquistar o que é dela. Isso é o que os alunos da Escola de Guardiões fazem.

Como todos concordaram com o plano, seguimos adiante. Luc preparou um conjunto de roupas e alimentos para que nós pudéssemos levar. O mago Crispim continuou trancado na sua sala, sem falar com ninguém, nem mesmo desejando-nos boa sorte. Eu bem que queria arrancar dele algumas verdades sobre a minha mãe, mas Luc quase teve um treco quando eu tentei abrir a porta da sala de poções. Ele bateu na minha cabeça com o seu capuz (que ataque cruel!) e me puxou para longe do local.

Ao passar pela floresta, nós falamos com as árvores, que agora pareceram bem mais simpáticas que antes. Elas até derramaram algumas pétalas sobre as nossas cabeças, desejando-nos sucesso na aventura que se iniciava. Por fim, passamos pela grade e caminhamos na floresta, atravessando-a até a estrada de areia. Como eu era o mais ágil da equipe, resolvi ir à frente, mostrando a minha bravura e espírito de liderança. Por que eu fui inventar de fazer isso?

Ao sair da floresta, me deparei com uma carruagem repleta de prisioneiros e dois cocheiros que não foram muito com a minha cara. Um deles parou o cavalo e o outro, atirou uma flecha no meu peito.

Ah, como eu adoro os meus reflexos! Eu girei o meu corpo como um pião e consegui me safar, mas o perigo ainda estava à minha frente. O cocheiro jogou o arco no chão e pegou uma enorme marreta, daquelas bem rudimentares e pesadas, pulando para fora da carroça. Ele era alto e ameaçador, usava uma armadura pesada e estava pronto para me quebrar em pedacinhos. Eu dei uma olhada para trás, esperando o campo de força mágico de Natália, mas nada aconteceu. O homem aproveitou a oportunidade para deferir o primeiro golpe. Eu saltei para o chão, salvando minha cabeça. O outro cocheiro ficou assistindo o espetáculo e aposto que se ele tivesse uma pipoca, estaria comendo.

Me levantei e usei a espada de Éron contra o inimigo, que se defendeu facilmente. Dei uma nova investida e o ataque não surtiu efeito nenhum. O cara apunhalou minha espada com um golpe forte da marreta, o que me fez ter certeza que eu não seria nada sem o escudo. A cada movimento que ele fazia, minha espada quicava na marreta dele sendo afastada como um débil graveto. Eu dava passos para trás, implorando por ajuda, mas ninguém saiu na floresta. Nem Jorge, nem Natália, nem Samyra. Se isso era alguma ilusão daquela rainha, eu não estava achando graça nenhuma.

O meu rival resolveu parar de brincar; me deu um chute no peito, fazendo com que eu batesse com força contra uma árvore. Ele tentou acertar a minha cabeça e eu me abaixe. Em seguida, o golpe foi direto contra o meu peito. Usei a espada para defender, mas dessa vez ela voou longe. A lâmina bateu no chão e ficou lá, paradinha. Como eu queria mover as coisas com a mente agora! Corri como um louco atrás dela e vi que o segundo cocheiro ficou impaciente, descendo da carroça com seu martelo. Dois contra um, ótimo! Eu peguei a espada do chão; vi que ela estava mais pesada. Só então me lembrei do mago Crispim e de seu truque com os elementos. Espero que aquilo realmente funcione.

Finquei a espada no chão para então puxá-la, sentindo o seu peso aumentar. Em seguida, avancei contra o cocheiro de martelo, que não aguentou defender um golpe meu. O motivo? A lâmina da espada de Éron parecia ser feita de terra, com a cor marrom, e tão resistente quanto uma rocha. Deveria estar 10 vezes mais pesada que o normal, pois o golpe que dei no rival o fez voar para trás como se tivesse sido atingido por um rinoceronte. Ele embolou no chão e bateu a cabeça na carroça. Os prisioneiros vibraram de alegria. Eu até dei um aceno, mas o outro cocheiro não perdeu tempo.

Corri para frente e me esquivei do vilão. Em seguida, o ataquei com a minha nova espada, fazendo a marreta dele parecer de brinquedo, e atingi a armadura do rival. Esta ficou amassada. Ele caiu para o lado, atordoado. Bati o punhal na cabeça dele para desmaia-lo. Os prisioneiros voltaram a vibrar; eu me senti como um herói. Até que um grito me fez gelar a espinha. Era Natália e vinha de dentro da floresta. De repente, me dei conta de que ninguém veio me ajudar por o único motivo possível: eles estão em perigo e eu preciso salvá-los.