Além das Dunas Brancas escrita por Shalashaska


Capítulo 23
Palmas


Notas iniciais do capítulo

Oi, gente!
Como estão? Espero que bem.
Aqui vai mais um capítulo, de todo o meu coração.



 Venha aqui

 A criança ouviu o vento muito morno e doce dizer, tão doce quanto o aroma dos bolos de semolina molhados por calda de laranjeiras da feira. Ela brincava junto a seus irmãos e amigos, a pular e gritar em volta da fonte enquanto suas mães conversavam perto das barracas. Parada, encarou a multidão barulhenta ao seu redor e por fim decidiu que não era a si que aquela voz chamava; é claro que não. O vento não sussurrava assim.

Correu atrás de sua irmã mais nova, que lhe furtara a maçã. Sempre ficavam nesse jogo de tomar uma da outra o que quer tivessem nas mãos, principalmente quando a tia de ambas as subornava com alguma fruta suculenta ou brinquedo em troca do bom comportamento. Não funcionava todos os dias, mas ao menos o estardalhaço das duas era distante enquanto as mais velhas faziam compras e fofocavam.

A menina ria quando mais uma vez escutou algo se sobressair do  resto.

Vamos

Era paciente, muito mais paciente do que seu pai; Infinitas vezes mais do que sua mãe.

Tenho um presente para você

Será rápido. Será somente seu. E com ele...

A irmã se foi junto com o grupo, afastando-se das barracas e do largo poço, e a algazarra que faziam diminuía a cada segundo, assim com a luz do imenso Sol estranhamente fez. Na tentativa de localizar a origem do som entre a atmosfera e a multidão, a menina ergueu seu queixo em direção da brisa.

Você nunca mais derrubará uma lágrima.

— Asya, – A mulher se reequilibrou com a pesada cesta marcando a pele de seu antebraço. Suor escorria de seu belo rosto marcado pelo tempo, mas os olhos jaziam arregalados e inquietos, movendo-se de um lado para o outro feito a própria filha mais jovem, que distraía-se com as outras crianças. – Asya! Onde está a sua irmã?

— Eu não sei, mamãe. – A menina disse, segurando uma maçã vermelha. Parecia notar somente agora a ausência da outra garota, de onze anos, e resignada chacoalhou os ombros.

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Jamais havia ido muito longe sem a vigilância aguda da mãe, mas andar pelo labirinto das ruas e pessoas não era tão difícil ou assustador o quanto ela e seu pai faziam parecer pelos sermões longos e enfadonhos, pelas lendas assustadoras de garotas de sua idade sendo devoradas por grandes najas. Na verdade, poucos pareciam prestar atenção em sua estatura baixa e roupas simples, mas não sabia dizer se não a viam ou se não lhe achavam digna de algo qualquer.

Assim que esse pensamento lhe veio, o rosto da mãe também atravessou sua mente. Ela reclamava das dores nas juntas dos dedos e nas costas, seus joelhos estalavam a cada movimento seu e o Sol marcava mais e mais sua pele com um tom de cobre. No entanto, a filha quebrava pratos e derrubava o leite tirado das cabras; seu chá era amargo e as mãos impróprias para a mínima tarefa de casa. A menina só pensava em correr com os rapazotes da vila, gargalhando em meio ao campo e aos animais. Não era capaz de ajudá-la assim como não era capaz de pôr a mão na terra e arar o solo. Jamais levantaria uma enxada por conta própria e seria inútil levá-la à lavoura da aldeia, à despeito de todas as suas súplicas infantis e irritantes.

A cada vez que ela a olhava nos olhos, lembrava-se do possível dote que teria que pagar à seu noivo no futuro, e num futuro que aproximava-se cada vez mais. Tal costume ainda exista em uma família ou outra, em vilas distantes. Onze anos, mais alguns meses e faria doze. Tinha por volta de mais dois ou três anos para sossegar seu espírito indolente e aprender o serviço doméstico de maneira decente; e seu pai mais algumas colheitas a juntar e negociar o valor do casamento com alguém.

Isso sem contar a filha mais nova, Asya.

A cada vez que ela a olhava nos olhos, a menina enxergava decepção e raiva refletidas em seus olhos semicerrados.

Seguindo o breve riso do vento e o rastro de tinta negra ao chão, ela desviou de pedintes velhos e multidões ocupadas; atravessou lojas abarrotadas de pratos, vidros e cerâmica barata para enfim chegar à uma rua distante, erma. Apesar das casas tão iguais às outras do centro, a luz repousava de maneira mais cálida e gentil naquele canto da cidadela, onde punhados de grama e flores silvestres brotavam aqui e ali pelos pedregulhos saltados dos paralelepípedos. As lufadas de ar eram salpicadas de pó e areia, tapetes e esteiras tremulavam coloridas no alto varal.

Havia algumas outras crianças ali, ela via. E elas riam também, frente à uma jovem trajada em mantos claros ao lado de uma cadeira de vime, onde repousava uma velha.

O caminho de sombras sibilantes terminava no sorriso encantador da mulher.

— É maravilhoso que tenha chegado. – Era a mesma voz sussurrando no ar, porém agora mais alta e clara. Mais natural. – Nós estávamos esperando, não é mesmo?

A garota mirou a idosa, esperando que esta permanecesse cansada e oculta pelo véu negro que lhe cobria a face. Será que era parecida com sua avó, sempre a dizer que a neta carregava um sopro de Munira em si, destemida e veloz? Será que seus cabelos grisalhos eram nuvens e os olhos esbranquiçados, um fresco oásis? Qual não foi o seu espanto quando ela lhe ergueu o rosto cheio de rugas e os lábios crispados, como se sua mera presença fosse uma das mais graves ofensas. Ela murmurou algo indescritível em seu timbre rouco e então fechou as pálpebras, indo para sua posição inicial.

Os dedos longos e enrugados acariciavam um pingente comprido, feito de uma pedra negra. De súbito, a recém chegada sentiu que haviam mais olhos do que os deles todos naquele recinto.

— Não se acanhe, menina. – A moça lhe estendeu a palma aberta, convidando-a a se juntar à elas. – Venha cá, venha.

Na mão de cada menino e menina havia um ramalhete de flor ou erva, uns com alecrim e alfazema, outros com espécies que ainda não aprendera a nomear. Alguns já iam embora, exclamando despedidas e oferecendo breves e desajeitados abraços. Ela aprumou-se de passagem, no medo de estar desarrumada à vista de um sorriso tão largo e bondoso, em seguida contando os passos para chegar perto do mulher e de sua imensa cesta de palha trançada.

— Qual é o seu nome, menina?

As íris grandes e escuras da garota procuraram perigo ao seu redor, mas afinal eram somente crianças de sua idade, uma jovem e uma anciã. Era só uma sensação. Era só um colar, afinal de contas. Não deveria sentir medo.

Não sentiria.

— Zeliha.

— Ze-Li-Ha... – Repetiu, deliciando-se com cada sílaba. Parecia ter mel na boca. – Devo dizer, Zeliha, que há algo à sua volta. Consigo ver as marcas de lágrimas que há muito secaram-se de seu pequeno rosto...

Lembranças sufocaram sua garganta, fazendo que a voz saísse com um soluço.

— Você é uma alis?

Alis, uma abreviação do termo forma alisfata. Seres encantados daquelas terras de areia, celestiais. Possuíam asas imensas e poderes não bem compreendidos ou explicados através das mais antigas lendas, uma vez que também já não se falava mais nelas. Todas haviam partido.

 A pergunta foi um deleite para a jovem.

— Não, minha querida. Não. Mas...

Devido ao entrelaçar de dedos das duas, a mulher piscou um punhado de vezes seguidas. As emoções da criança tremulavam feito tempestades de areia e Farah suspirou ao se desenlaçar da aura da outra, então sorrindo como se nada houvesse acontecido. Na verdade, para quem mirasse aquela estranha reunião, nada demais veria senão uma jovem e uma velha, talvez sua mãe, vendendo flores para infantes ingênuos. Para quem mirasse para a aprendiz, enxergaria suas finas cicatrizes no rosto como se fossem desenhos de um mapa para o mais misterioso artefato.

— ...Deixe-me ler o seu destino.

Farah pegou a mão direita de Zeliha, virando a palma para os céus. Vinha o entardecer e seu punhado de estrelas, e ela sabia que não haveria muito mais tempo, fato que a criança nem poderia supor. Pensava que conseguira fugir, afinal. Passando as pontas dos dedos sobre a pele da menina, percebeu a textura era ressecada apesar da idade. Trabalhava em casa, talvez aquela queimadura viesse de preparar chá para os mais velhos. Talvez as palmas fossem o alvo de duros castigos por suas peripécias, que pela imundície das vestes na altura dos joelhos, eram muitas. O rosto infantil querendo amadurecer não lhe permitia mentir: havia algo de errado.

— Sua linha do coração... – Ela lhe indicou com as unhas o traço que iniciava-se perto do dedo mindinho, e que recortava-se até o médio. – Não é continua. Isso significa muitas pedras e espinhos no seu caminho, pedras que feriram teus pés. E pela sua mão esquerda... Ainda permite que te ataquem.

— Eu não posso fazer nada. – Um soluço tentou mais uma vez escapar de sua garganta, enquanto a voz arranhava-se fina na boca. Em resposta,  Farah apertou sua mão carinhosamente, pois não passava de uma pequena ainda muito delicada sob a tolice de outrem. – É a minha mãe. Não posso fazer nada, devo respeitá-la.

“Então é a mãe.”

Aquela espécie de relacionamento lhe era familiar, terrivelmente familiar. Nada como uma senhora mais velha e portadora da razão divina, uma imperatriz cheia de vontades e desmandos dentro de casa. Nada como expectativas inalcançáveis ou o mais vil desdém. Nada como frases venenosas de puro sarcasmo.

Ao lado da menina, desenhos e diagramas brotaram serpenteando do chão e coloriram o ar. Sim, as imagens antigas de mãos e linhas oriundas de seus livros estavam ali, com as mil e uma anotações das possibilidades existentes nos fios do mundo. Os cílios da feiticeira piscaram rápido, asas de mariposas negras aos olhos de Zeliha.
Ela cresceria mais, é claro. Suas formas tornariam-se curvilíneas, viçosas como pêssegos, e as mãos calejariam-se. As linhas das noites passadas e do futuros dias cravariam-se mais e mais fundos na palma da mão, sendo então mais certeiras para uma previsão, mas Farah preferia destinos abertos para uma leitura simplificada.

Tocar a mão de uma criança era tocar o futuro, tatear a aura de tragédias e felicidades que estão por vir. Dissera ao tímido Abbas que ele faria jus ao seu nome, pois tornaria-se forte e altivo como um leão. Ninguém mais o ignoraria a sua voz, embora a cólera e a insanidade fizessem sombras ao sonho de grandeza. Dera à ele um ramo de violetas bem roxas, além de enfatizar com toda a seriedade possível que o rapazote deveria cuidar daquela planta como se tratasse da própria alma.
A alfazema fora para Imran, que tremia de ansiedade ao lembrar de voltar para a casa. Perderam tudo por um erro do tio e a egrégora da casa era de rubra violência. Se dormisse com a alfazema ao lado da esteira, o seu sono seria povoado por serenidade. O aroma da planta suavizaria o seu lar.
Para a outra menina, Hayedeh, arruda. Havia muitos olhos, olhos imensos,  a espreitar a beleza de seus cabelos escuros e sedosos, de seu lábio pequeno e vermelho feito uma flor.

Cada um com dores sofridas desde tenra idade. Era uma benção que os deuses tenham soprado aos ouvidos meio surdos de Aziz, clamando para que ela atribuísse tal treino à devota aprendiz. Sim, crianças eram mais fáceis de se ler e mais fáceis de se atrair a atenção. Não esperavam que lhe dissessem o que queriam ouvir, ao contrário de adultos, e não lhe chamavam as feiticeiras por nomes vis, embora logo fossem aprender tal costume. Farah suspirou, concentrando-se de novo.

Dedos mais longos do que a palma, cujo o formato era um pequeno quadrado. Uma mão do ar tão espirituosa, intangível e rancorosa quanto o próprio elemento, quanto a própria Zeliha.

— Vejo cruzes nas linhas da cabeça, que é longa e separada da linha da vida. Apesar do ânimo e da alegria em ti, tens decisões importantes a tomar, pois os deuses lhe conferiram o privilégio da escolha. Pondere com muita sabedoria para que este privilégio não se torne um fardo.

 A garota assentiu, lágrimas já desabrochando de seus olhos.

— Agora, a linha da sua vida é esta. – O vento soprou mais forte, parecendo puxar as estrelas para que a noite caísse mais rápido. Lentamente, a moça riscou a palma da mais nova com nada senão o toque suave de sua unha. – Começa entre o indicador e o polegar, embora sempre mais próxima ao dedão. Geralmente curva-se até o pulso, mas a sua não é tão curvada, nem tão longa. Não, não se assuste. O comprimento não tem relação com o seu tempo neste mundo, pequena. A sua...

— ZELIHA!

Uma figura ao fundo ribombava ira, iluminada calidamente pelo entardecer. Rapazes passaram por ela, acendendo archotes nas paredes e completamente desinteressados pela ocasião, pois não era raro encontrar uma mulher com pesadas sacolas nas mãos a gritar com a sua cria. No entanto, a cada vez que acendiam uma tocha presa às paredes, a ira dela incendiava-se feito altas labaredas. A mulher largou as compras da semana no chão, ao lado da menina mais nova que tinha uma maçã na mão esquerda e a barra das vestes da tia na direita. Veio marchando rua abaixo, o vento trazendo suas exclamações exageradas enquanto as mãos da garota tremiam sobre as de Farah.

— Zeliha, quantas vezes eu já te avisei que não quero que saia de perto de mim? – As sobrancelhas dela se ergueram e franziram a testa, onde vincos formaram verdadeiras dunas sobre sua pele. – Quantas vezes? Consegue imaginar o tanto que eu e sua tia tivemos que andar nessa cidade pra te encontrar? Carregando peso? Eu quase pensei em te deixar.

As pálpebras da anciã abriram-se por causa de todo o estúpido vozerio na penumbra. Ela estalou os lábios, passou os dedos sobre a jade e desabou seus olhos sobre a tola no pátio, cheia de gestos e duros impropérios. Em resposta, a mãe lembrou-se que existiam mais do que ela e a filha no recinto.

— E está a incomodar as pessoas de novo? – Talvez oferecesse um sorriso de desculpas para as duas mulheres, mas reconheceu a postura de ambas: Ociosas numa rua erma, com ervas e pedras sobre a esteira no chão, feiticeiras. Franziu o nariz, Zeliha não tinha jeito mesmo. – Em casa nós conversamos, menina indecente.

As mãos dela arderam só da menção da suposta conversa, a qual seria o ressoar da palmatória noite adentro. Outra madrugada mal dormida devido aos dedos quentes e latejantes. Em pânico ela encarou o rosto da alisfata e das outras crianças, procurando algum apoio, alguém que pudesse fazer algo. Qualquer coisa. No entanto, nenhum dos infantes  que restavam sabia o que dizer ou como ajudar, encarando-a de volta com os dedos envoltos com força nos ramalhetes. E a jovem jamais seria uma alis.

Farah encarou Zeliha de volta.

— Queira aguardar um pouco, minha ama. Não demoro. – A jovem em seguida ergueu o rosto para a mãe da menina com a expressão suave estampada no rosto, embora a claridade fizesse brilhar a alvura de seus caninos. Oh, ela não ousaria soltar a língua com uma feiticeira. Não aqui, não sozinha. A mulher abriu a boca para falar, mas calou-se.

O breve e ácido riso da aprendiz foi capaz de despertar a mestra de seus devaneios com os mortos, e esta piscou e piscou, querendo compreender a razão da súbita insanidade da outra. Até os espíritos que sempre a acompanhavam desviaram seus olhos vazios para aquele divertido crocitar. Ela remexeu a cesta cheia de ervas, fazendo o aroma de manjericão, um dos mais fortes,  espalhar-se no ar. Já anoitecendo, o restante das crianças também não demorou-se a sair dali. Não esperariam mais mães e pais virem para mais gritaria.

No mesmo lugar e ardendo em fúria e medo, a mãe remexia-se sem saber se agarrava o pulso de Zeliha e partia ou se simplesmente gritava com a feiticeira barata. Era bom que a filha não tivesse dado um único tostão àquelas duas, senão mal conseguia imaginar o que faria. Ela voltou seus olhos para a irmã, igualmente assustada, e a filha pequena que importava-se mais com os insetos que criquilavam nos arbustos. Nesse pequeno ato, curto como o piscar de olhos ou o cair de uma estrela, Farah pegou a mão da menina.

— Aqui, minha querida. – A neófita segurava com as pontas dos dedos da outra mão, de unhas compridas e secas, uma longa pena preta de um corvo deveras elegante. Ainda não o encontrara pessoalmente, a pena estava nos paralelepípedos do chão no caminho de manhã. Ainda não era hora de encontrá-lo. Farah sacudiu de leve a cabeça, num gesto calmo e que balançou de forma graciosa o seus cabelos. Seus olhos, porém, adquiriram um brilho semelhante da lâmina de uma adaga quando pôs a pena na palma predestinada da garota. – Leve isto e saiba manter um segredo.

Também lhe entregou um ramo pequeno de alecrim.

— Eu acho que já basta. – Ela ousou dar mais um passo a frente, mas não dois. – Zeliha, chega. Afaste-se dessas duas!

— Mas... A minha linha da vida? A minha linha do destino? – Ela sussurrava com urgência, tropeçando nas palavras. A mãe não poderia ouvir, tampouco ela poderia ficar.

— Diga-me, Zeliha... – O sorriso dela mais uma vez foi calmo, tanto que a menina se perguntou se ela ouvia os impropérios e ameaças de sua mãe, ou o marchar de seus pés para cada vez mais perto. – Quando os corvos voam?

Ela não respondeu.

— O que traz a tempestade? Quando a chuva cai? Vamos outra vez, resuma: Quando os corvos voam?

De repente o peso de sua tenra idade desabou sobre os ombros magros de Zeliha. Estava cansada, tão cansada, e a pergunta da alis mais parecia uma piada de mal gosto. Afinal, quando os corvos voavam?

— ...Quando compreender a razão dos corvos voarem, vai compreender a sua própria palma. – Farah completou, agora séria. – Não se preocupe com as linhas de seu futuro, no fim são linhas. Apenas linhas. Não deixe de fazer o que quer por causa de marcas nas mãos.

Zeliha ocultou a pena nas dobras das vestes num movimento rápido, mal tendo tempo de  sentir sua textura de encontro com sua pele, pois a mão de sua mãe lhe rapinou o pulso e ela cuspiu mais ofensas ao vento, ofensas que Farah nada fez senão rir.

A noite então finalmente caiu serena e os arquejos de dor da menina já não passavam de sons distantes. Nada mais de exclamações estúpidas e falta de fineza evidente, nada mais de crianças a rir com ervas e seus destinos nos dedos. A aprendiz soltou mais um suspiro, organizando os objetos que trouxeram naquela tarde como se nada importasse e ninguém houvesse gritado a três palmos de distância de seu rosto.

Archotes clarearam as ruas e as estrelas preocupavam-se em pôr luz na face das duas. Foi neste instante que a mais jovem notou que a anciã a encarava pesadamente, os olhos profundos e enraizados de rugas, embora o brilho no início de sua catarata fosse diferente. Aquilo era...orgulho? Mesmo praticando a clarividência, Farah não soube dizer. Talvez fosse a sua própria soberba distorcendo a visão de suas pupilas, talvez não. De quê serviria se importar com isso, de qualquer maneira?

— Você podia ter simplesmente dito que as linhas dela eram rompidas. Tanto a linha da vida quanto a do destino. Poderia ter dito à ela, mas não o fez.

Ah, a linha da vida... A linha da interpretação do conforto e das mudanças da existência. Rompida. Começava ali, serpenteando a pele... Para cessar um centímetro, e aí prosseguir feito uma estranha naja que aprendera a saltar. De fato, havia uma mudança brusca ali. Uma bela mudança. E a linha do destino? Bem, a linha do destino revela a ação dos ventos externos, que alteram a rota das flechas lançadas. De novo, a linha se interrompia e depois mudava de direção.

Mas, ela era uma criança. Uma criança com o futuro aberto e caminhos ainda muito vagos.

Uma palma de leitura simples e...

Manipulável.

— Não. – Farah pegou a cesta com uma das mãos e ofereceu seu outro braço à velha, cuja a força física estava longe dos seus dias de glória. Aziz ergueu-se com dificuldade, segurando o colar de jade como se temesse perdê-lo na mais fortuita ação. – É claro que não. Qual seria a graça?



Notas finais do capítulo

Erros? Podem mandar nos comentários. Sou distraída e pode ser que algo tenha escapado.
Gostaram? Aceito comentários também hahah ~~ não dói e me deixa feliz



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