Anjo da Água escrita por Chris Lima


Capítulo 6
Capítulo 5


Notas iniciais do capítulo

Olá pessoas bonitas! O fato de vocês estarem aqui melhora ainda mais! :D Espero que gostem, fiz com todo carinho e amor que possuo! E obrigada por todos os Reviwes!!!




Durante o primeiro mês, após encontrarem o último prodígio, os damasos trouxeram a primavera e o processo para a volta das crianças à suas respectivas famílias foi iniciado. Jordi decretou e os guerreiros começaram pelas primeiras crianças que chegaram ao porto. Porém aquele problema tinha apenas iniciado, pois a dificuldade que enfrentavam para a devolução ultrapassava qualquer previsão.

Eles fizeram um controle precário, os documentos que indicavam a origem das crianças estavam confusos ou muitas vezes eram inexistentes. Na maioria dos casos eles se baseavam pelas informações que as próprias crianças davam. Fato que aumentava ainda mais o transtorno.

Muitos eram levados a famílias diferentes das suas verdadeiras, alguns pais que tinham condição iam ao forte reivindicar a tutela de seu filho, mas não era possível saber se realmente estavam falando a verdade, pois as crianças mais bonitas possuíam uma disputa de casais para a sua guarda.

Outras teriam ficado órfãs, devido à truculência dos guerreiros. Quando isso ocorria, a ordem era levar a criança aos seus parentes mais próximos, caso houvesse a descoberta de quem era a família mais próxima da criança. Nesse caso, além da dificuldade de descobrir quem era seus familiares, alguns parentes ainda se recusavam a cuidar da criança. Por isso, aquelas que não possuíam parentes deveriam ser destinadas à adoção, em regra. Mas essa adoção pouco seria executada nos primeiros meses, pois a preocupação principal era da devolução a aqueles que ainda possuíam uma família.

É importante falar também que Sachiel nunca fora esquecida ao longo desse processo. Todos os dias ela recebia instruções de um dos três damasos que estavam no forte. Porém, suas aulas práticas ainda não teriam começado, pois Mosheh estava além das fronteiras, enfrentando os vampiros. Aliás, ele ainda nem tinha conhecimento de Sachiel, pois ele teria saído na manhã do dia que ela chegou.

O clima tenso entre os outros prodígios também insistia. Andreas não estava mentindo quando falou que eles a consideram como ameaça. Isso ocorria, pois aqueles meninos conheciam apenas aquela realidade. Durante os oito anos eles sempre foram o centro das atenções de todos que frequentavam o forte, principalmente das empregadas e professores escolares. Entretanto, após a chegada de Sachiel isso mudou. O fato de a menina ser uma garota abalou aquela estrutura extremamente sólida de mimos e dengos.

Todas as atenções se voltavam apenas àquela ruivinha de cabelos mal cortados. Além do mais, esse corte maldoso apenas aumentou os paparicos das empregadas que além de darem roupas e brinquedos também afagavam na tentativa de se tornar uma espécie de inúmeras mães para ela.

Mas Sachiel não aceitou tal mudança de forma receptiva. A mente da garota estava confusa. Seu coração doía muito e não era por causa de problemas cardíacos. Ela se fechou para aquelas pessoas e não permitia qualquer reciprocidade emocional. De sua boca não se pronunciou nenhuma palavra. “Essa garota é muda?” muitos se perguntavam, mas Andreas e Uri sabiam que ela não era. Entretanto, não falavam nada, pois se falasse os damasos descobririam que eles eram os autores daquele corte exótico de Sachiel.

O mundo se tornou menos interessante para ela, seu maior conforto era se perder em seus pensamentos e voltar à sua antiga casa, em uma vila pequena, afastada dos vizinhos. Sua mãe, uma mulher tão bonita sempre a acariciava e falava que tudo estava bem. Seu pai contava-lhe as mesmas histórias, mas ela ainda sim ficava fascinada. Aquilo lhe trazia paz. O mesmo acontecia com seu irmão. Em seus pensamentos, ele ainda era aquela criança extremamente ativa e chata. A disputa entre brinquedos sempre ocorria e as brincadeiras continuavam as mesmas.

Quando a realidade voltava, ela não conseguia confiar em ninguém o suficiente para perguntar sobre o paradeiro de seu irmão e de sua mãe. Além disso, ela temia a resposta. Sua imaginação era melhor do que uma possível notícia de morte. Todos daquele forte enojavam a garota. As falsas cortesias eram de dar dó. Ela sabia que eles faziam aquilo apenas para tentar conquistar a sua confiança para depois ela ser obrigada a obedecer aos ditames deles e, talvez, encontrar algo para tirarem dela novamente. Ela tinha muito medo daquelas pessoas.

— Soube que seu nome é Sachiel – Falou Jordi em uma das aulas teóricas.

Ele pausou um pouco na tentativa de esperar uma resposta da garota, mas fora em vão. Tudo que soou depois de sua pergunta foi os sorrisos de algumas pessoas que estavam no corredor perto daquele cômodo do forte.

— Seus pais foram muito sábios ao darem esse nome a você, sabe por quê? – Assim que ele se tocou que teria feito uma nova pergunta imediatamente respondeu, ele sabia que ela não iria dizer nada – significa anjo da água, garota. É um nome que se encaixa perfeitamente em você. Sua responsabilidade é garantir a segurança dessas inúmeras pessoas que vivem em Dilecto. Você nunca poderá falhar. Qualquer falha poderá resultar a sua morte ou a morte de milhões de pessoas, entendeu bem? Milhões de pessoas.

Sachiel não prestava atenção ao que ele falava, pouco importava para ela. Sua mente era mais interessante, seus pais sempre a aguardavam ansiosos quando ela saia de seus pensamentos. Ela não queria deixá-los com saudades.

— Sachiel, você tem que entender uma coisa – ele pausou e bateu com um pouco de força na mesa para que a menina saísse de seus pensamentos e, após assustá-la, ele obteve sua atenção – o interesse coletivo se sobressai ao particular. Você é a única que acha que tem perdas? Não minha querida, todos nós carregamos nossas sinas aqui. Mas, nós precisamos de você para dar continuidade à segurança do império. Inclusive, olhe para isso – ele mostrou sua mão esquerda sem os quatro dedos – isso foi pelo império.

A garota nunca percebera que ele não possuía quatro dedos, para falar a verdade era a primeira vez que ela estava prestando atenção naquele homem. A pele negra, os traços fortes e cansados, as veias dilatadas a assustavam. No que toca suas vestes, para proteger o tronco e parte das coxas, ela conseguia ver que ele usava uma típica túnica preta com um colete de pele por cima. A calça também era preta, mas a mesa atrapalhava um pouco, e não lhe proporcionava uma maior visibilidade ou distinção.

— Quer tocar? –Ele perguntou, sua expressão transmitia serenidade e paz à garota.

Com um pouco de relutância ela moveu sua mão ao encontro da mão de Jordi. Ela passou os seus pequenos dedos entre os locais que deveriam possuir dedos, percebeu pequenos relevos, como se existissem ondas em suas mãos. Certamente os dedos devem fazer falta a ele. Ela se imaginou tendo que pegar um copo sem usar os dedos, impossível!

Ele apenas observava a menina enquanto ela explorava sua mão. Os movimentos que fazia, às vezes, fazia cócegas em suas amputações. Ora ela apertava, ora movia em círculos, mas nunca deixava de manter contato com ele. Jordi tentou imaginar o que se passava na cabeça daquela pequena menina, aquilo era muita informação para ela absorver. Ele sabia disso, mas havia tão pouco tempo para que ela pudesse aprender tudo.

Foram oito anos de atraso, oito anos que certamente ceifariam a vida de muitas pessoas. Se a situação deles continuassem assim, provavelmente eles teriam que fazer consultas aos semi-deuses, mas isso era algo que eles procuravam evitar a todo custo.

Sachiel olhou para as paredes daquela sala, quanto mais ela prestava atenção ao que estava ao seu redor mais ela tinha medo. Várias pinturas estavam dispostas ao redor da sala, a maioria retratava guerra, sangue e glória. Essa sociedade é banhada por sangue, pensou a menina. Quantos dedos foram amputados além dos daquele homem que estava a sua frente? Essa sociedade é banhada em sangue. Toda sua antiga família acreditava nisso e agora ela percebia que realmente era verdade.

Quando a aula terminou, a garota se dirigiu ao claustro do forte. Se os tempos e os motivos para ela estar naquele local fossem outros, talvez ela até se acostumasse com o local, pois tudo era muito lindo. Ela parou um instante e poucos metros dela estavam alguns prodígios se movimentando de formas estranhas.

Era a primeira vez que ela pôde andar pelo forte sem que ninguém a observasse, talvez eles quisessem aparentar uma maior confiança à garota. Era necessário que ela se sentisse confortável, como se fizesse parte dali, pois quanto mais ela se sentisse em casa, mais fácil seria a adaptação da garota com aquele novo mundo.

Porém, estava longe dela se sentir assim. Sachiel continuou andando por aquele local, procurando a saída dali. Quanto antes ela se livrasse desse problema, mais tempo ela teria para se dedicar a encontrar seu irmão. Mas para onde ela iria? A garota parou um instante e pensou nos possíveis lugares que poderia se abrigar. Infelizmente não existia nenhum. Sequer ela estava no vilarejo em que morava. Mas ela teve uma ideia que para ela era incrivelmente fantástica.

Em sua inocência, a menina fantasiou uma pequena cabana com uma minúscula fogueira ao lado de algumas frutas para ela se alimentar. Por causa dessa sua ilusão, ela continuou andando, procurando a saída daquele enorme forte. Após andar em círculos por horas ela sentou em um banco que estava próximo e voltou a imaginar sua amada família. Ali sim era seu lugar. Familiar, acolhedor, seguro e feliz... Principalmente feliz.

Era por volta do meio dia quando apareceu uma multidão de pessoas correndo por um enorme corredor. Eles pareciam aflitos e desnorteados, isso causou medo à menina. Ela orou para que o que tivesse acontecido a eles para estarem em tal estado não a afetasse.

A garota seguiu o corredor de onde eles vinham. Talvez aquele lugar fosse a saída do forte. As enormes portas de madeira vermelha com semicírculos na parte superior não a incomodavam, pois aquilo tudo acabaria logo. Suas pequenas sandálias pretas batiam com um pouco de força no chão devido à velocidade que tentava alcançar. Essa tentativa de ser veloz acabava fazendo um barulho engraçado e um pouco semelhante a estalos quando atingiam o chão.

Sua esperança acabou quando ela viu que o corredor a levou para uma porta, igual a todas as outras. Um guarda saiu de dentro do local que a porta isolava e olhou torto para a garota. O corpo da menina estremeceu quando os seus olhos se encontraram. Todo aquele sofrimento de seu aniversário passou por sua mente, uma gota de lágrima desceu de seu olho direito.

— O que você está fazendo aqui, pequena? – O guerreiro se ajoelhou para ficar na mesma altura que a menina.

Ela continuou em silêncio e deu meia volta para sair do corredor. A menina estava muito decepcionada, pois ela não conseguiu sair dali. Aquele local parecia um labirinto sem fim. Na verdade aquele mundo era um labirinto sem fim. Um mundo grande demais e ela era pequena demais.

— Você está aqui para ver o damaso ferido? – o guerreiro insistiu.

☾☾☾

Na noite anterior, Mosheh estava além das muralhas liderando os guerreiros para mais uma batalha. A lua estava diminuindo a cada dia, ela estava na fase Minguante. O local que ele se encontrava era uma floresta pouco densa, era possível ver o céu e as estrelas de onde eles estavam e um lago a alguns metros dele.

A primeira onda de abominações avançou. Eles ficaram em posição de batalha e os arqueiros lançaram as primeiras flechas banhadas com um veneno paralisante. Alguns caíram, mas a maioria continuava correndo em direção a eles.

As armas que essas abominações usavam eram velhas e improvisadas, além disso, eles não valorizavam escudos, pois aquele instrumento tirava a velocidade e as suas a peles eram mais difícil de penetrar, embora esteticamente fossem iguais a de um humano.

Em regra, os instrumento de guerra dos vampiros foram obtidas nas batalhas cotra os guerreiros, mas existiam também aquelas que eram oriundas de visitantes desavisados – ou clandestinos – de outros continentes. Esses visitantes ao chegarem ao continente pátrio dos primeiros vampiros, eram roubados e acabavam sendo infectados.

Outro fato importante, é que a precariedade das armas, nos últimos tempos, estava diminuindo gradativamente, pois o império teria se enfraquecido e, com ele, os guerreiros. Situação que corroborava para que os saques das tropas vencidas aumentassem.

Richard era o vampiro que liderava a horda de vampiros naquela noite. Suas histórias, para o império, viraram lenda. Ele possuía a fama de ter uma crueldade indescritível e seu objetivo era único: destruir Dilecto. Suas características físicas aproximavam-se dos padrões de beleza do continente, pois ele era um homem, alto, magro, de cabelos negros e pele parda. Possuía inúmeras cicatrizes espalhadas pelo corpo, elas eram suas crias, suas companheiras, suas amantes.

Mosheh, ao avistá-lo, aproximou-se mais do lago, levantou sua mão esquerda, tomou impulso com as pernas e fez um enorme círculo rodeando os vampiros, empatando-lhes de avançar. Sua intenção era manter aquele enorme número de vampiros naquele local até o dia seguinte. Entretanto, Richard foi ágil o suficiente para escapar antes que o enorme círculo de gelo se formasse. Após isso, o vampiro levantou seu braço indicando para que as outras abominações que estavam escondidas entre as sombras aparecessem e atacassem.

Embora não fosse esperado, Mosheh imaginou que isso iria ocorrer, pois a quantidade de vampiros da primeira horda estava inferior ao que costumava aparecer. Essas abominações pareciam camaleões, escondiam-se de diversas formas e conseguiam se camuflar surpreendentemente.

Ele analisou a possibilidade de utilizar a água novamente, não era possível, pois ela estava pouca para realizar grandes feitos. Então, ele empunhou uma flissa em sua mão direita e uma adaga na esquerda.

Após isso, ordenou para que os guerreiros adotassem uma formação semicircular e mais unida possível, com os paladinos na frente, pois possuíam escudos enormes, alertando com os assassinos, que empunhavam apenas uma espada e uma adaga. As diversas fileiras se alternavam em uma espécie de fortaleza e ataque. Quando os vampiros se aproximaram, primeiro veio o escudo, o paladino da frende protegia o assassino atrás.

A segunda horda de abominações tentavam penetrar a formação, mas apenas as espadas saiam de dentro, perfurando-lhes os corpos até caírem desacordados, mas não mortos, apenas desacordados. E assim se sucedeu diversos minutos. Até então nenhum guerreiro teria caído.

Mosheh procurou Richard. Ele havia desaparecido. Típico de seu sangue corrompido, covarde e pouco estratégico. Resolveu então avançar. Os assassinos passarão a andar em uma fileira afrente dos paladinos, atacando os vampiros. Quando vinha o contra-ataque os paladinos tomavam a frente com os escudos e os derrubavam, fincando suas espadas nos corpos caídos, a fim de lhes deixarem desacordados, ou então, os degolavam. E assim, sucessivamente, os guerreiros avançavam pela floresta.

Mosheh percebeu que um vulto se movia de árvore em árvore, caminhando sorrateiramente. O damaso então ordenou ao general que comandasse os guerreiros, para poder seguir esse vulto. A silhueta era semelhante a de Richard e há tempos esse damaso da água queria acabar com a existência dessa abominação.

O domador andava devagar, analisando cada lugar, qualquer sombra era suspeita. Um passo em falso e ele seria aniquilado. O som de um pedaço de madeira atrás dele o fez girar bruscamente, não era nada, nem ninguém. Ele respirou um pouco ofegante, seu corpo estava tenso e temeroso, aquele momento seria impar em sua vida, finalmente ele encontrara novamente Richard, depois de tanto tempo. Finalmente ele o mataria.

— Ora, ora – uma voz grossa ressoou uma voz atrás de Mosheh – ele virou-se novamente, era Richard – vejo que meu caro amigo usa espadas também – ele sorriu ironicamente.

— Mais da metade de suas abominações estão presas lá dentro – Mosheh praticamente cuspiu aquilo em Richard.

— Muito bravo – ele aplaudiu – pois veremos se você sabe lutar tanto como sabe domar.

E os dois travaram um duelo. Richard era mais rápido, mas Mosheh era mais forte. A espada do vampiro, por várias vezes, quase que tocava no damaso.

Para os dois, o som da batalha próximo a eles não existia mais. A única coisa que escutavam era o barulho das suas espadas se cruzando. Richard, ao ver que possivelmente perderia, correu para o lado oposto de Mosheh, este, entretanto, foi atrás daquela criatura. Ao chegar perto de um tronco, Richard subiu e pulou para trás do damaso, encurralando-o. Ele sorriu levemente e empurrou Mosheh contra o tronco da árvore, o que lhe deixou um pouco desorientado.

Richard arrancou a adaga da mão de Mosheh e a segurou firme. Feriu levemente seu rosto e o nocauteou. O sangue do pequeno ferimento escorria pela pele branca de Mosheh. Richard olhava com desprezo para aquele damaso. Tudo o que ele mais abominava estava em um único homem, um hipócrita.

— Deixe que eu cuido dele – uma voz feminina revelou-se entre as árvores.

Richard olhou para trás e viu Fidel, a mulher mais sincera e apaixonante que ele conheceu. Tão velha quanto ele. Há tempos atrás, quando ainda eram humanos, eles pretendiam se casar, mas tudo mudou com a iniciação dos dois. Aquele dia, o dia em que se tornaram aquilo.

Ela olhou de soslaio para ele. Os cabelos cacheados e loiros da garota caiam pela pele branca de seu rosto. Seus olhos negros o fitavam e ele ficou um pouco desorientado, sempre se encantava por ela. Durante uns segundos, aquele momento insistiu em continuar, mas logo ele se privou daquilo. Sentimentos e qualquer fraqueza deveria ser apenas de humanos. Vampiros precisam lutar pela sua sobrevivência. Eles não podem viver, apenas sobreviver até o dia que triunfarem.

— E então? – Ela insistiu.

— Ele é todo seu – Richard falou e ao mesmo tempo olhou para Mosheh ainda desmaiado – agora você não é tão ameaçador assim, não é mesmo? – Ele chutou o corpo desfalecido do damaso – poupe penas a sua vida. O nosso futuro precisa dele. Esse monstro ainda fará algo que será extremamente útil para todos nós.