Caixa de Pandora escrita por MarcosFLuder


Capítulo 4
Capítulo 4


Notas iniciais do capítulo

Último capítulo postado. Para quem está lendo, desculpe se demorou mais do que o esperado.



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GARAGEM DO HOSPITAL SANTA ELISABETH

Os homens no carro viram a pequena figura junto a Krycek, mas só ficaram preocupados quando notaram a arma apontada para ele. O motorista fez menção de avançar com o carro, mas o sujeito ao seu lado resolveu esperar para ver como o russo sairia da situação. O fato de ver que era uma mulher que apontava a arma para ele sendo o motivo para essa decisão. A surpresa foi grande para todos ao ver o tiro disparado da arma daquela pequena figura derrubá-lo. O homem ao lado do motorista percebe que super estimou a capacidade de Krycek e manda o carro avançar em direção a mulher que atirou nele. Scully vê o carro vindo em sua direção e joga-se atrás de outro veículo. Vários tiros são disparados em sua direção, Krycek é socorrido por seus cúmplices, que fogem ao ver alguns soldados chegando.

CEMITÉRIO MUNICIPAL DE SAN DIEGO

DOIS DIAS DEPOIS

11:15 Am

O silêncio solene daquele lugar era quebrado apenas pelas palavras do Padre ao fazer a elegia, e pelo choro contido da mãe de Grace Stamford ao ver o caixão da filha baixando a sepultura. Todos os demais permaneciam num silêncio respeitoso, cada um com seus próprios pensamentos. Scully via aquela pobre mulher chorando a perda da filha e não pôde evitar em pensar na sua mãe no enterro de Melissa. Sentiu uma grande vontade de confortá-la mas algo a impedia de fazê-lo, culpa talvez. Ela tratou de espantar aquele pensamento, a culpa não fora dela mas de Krycek, ele a matou, como ajudara a matar sua irmã.

Ainda assim, ela não sentia-se a vontade para confortar aquela mulher, mas resolveu lutar contra esses sentimentos pois também conhecia a dor de perder uma filha. Embora as circunstâncias fossem bem diferentes a dor era a mesma e ainda podia ser sentida por Scully, tão recente que era. Ela aproximou-se da senhora Stamford e tocou-a levemente no ombro, não disse absolutamente nada, ela sabia que nada do que falasse seria capaz de diminuir a dor daquele momento. O medo da rejeição era grande, mas Scully resolveu enfrentar tudo isso, ela precisava. As duas olharam-se de frente e tudo o que Scully viu nos olhos daquela mulher era solidariedade, a senhora Stamford pareceu ler nos olhos de Scully a mesma dor que estava sentindo naquele momento, logo estavam abraçadas, confortando-se mutuamente.

RUA 46

CIDADE DE NOVA YORK

DIA SEGUINTE

1:35 Pm

A fumaça de cigarro parecia espalhar-se por toda a parte, ela envolvia aqueles homens engravatados, o que somado a pouca iluminação do lugar dava-lhes um aspecto sinistro, que lhes caia bem.

— Os colonizadores vão querer uma explicação para o fracasso da operação – disse o primeiro ancião.

— Diremos a verdade – fala o homem das unhas bem feitas – os rebeldes destruíram a base onde seria feito o experimento.

— A epidemia em Phoenix foi controlada com facilidade – disse o segundo ancião – isso significa que o vírus não era o que eles esperavam.

— Nós tivemos foi sorte isso sim – disse o primeiro ancião – foi uma sorte aquele infeliz ter procurado logo um hospital e mais sorte ainda que aqueles agentes do FBI e a Dra. Grace terem tomados as primeiras providências antes mesmo de nós.

— Admito que a ação daqueles três foi de fundamental importância – disse HUBF – e que o nosso pessoal demorou a agir, mas parte da culpa nisso é de vocês por terem mandado eliminar o homem que cuidava dessa parte para nós.

— Não me venha com essa história – o segundo ancião levanta-se irritado – as ações dele estavam independentes demais, ele nunca poderia ter deixado o agente Mulder sair livremente do Pentágono depois de tudo o que viu, e ainda por cima com a cura para sua parceira.

— A decisão de eliminá-lo foi um erro, ele é um operativo extremamente competente e se estivesse comandando a operação nada disso estaria acontecendo.

— Porque você fala como se ele ainda estivesse vivo? – disse um terceiro ancião

— Porque ele está vivo senhores – alguns anciões ficam chocados com a revelação, mas outros não.

— Então é verdade o que Krycek disse – falou o segundo ancião.

— Ele o viu pessoalmente em Phoenix, com certeza é com ele que estão as amostras roubadas.

— Qual é o problema? Podemos conseguir outros corpos e nova amostras.

— Não é tão simples meu caro, e creio que o próprio Dr. Newmam poderá explicar melhor – HUBF passa a palavra para o Dr. Newmam, ele está muito nervoso, pois era a primeira vez que estava ali com aqueles homens, tratou de disfarçar isso

— Os corpos não foram escolhidos aleatoriamente, eram de pessoas em que o vírus atingiu o seu maior estágio de desenvolvimento... e hã... e por isso ainda mantinham um razoável estado de conservação.

— Foram necessários muitos anos de pesquisas para encontrar esses corpos – HUBF percebeu o nervosismo do Dr. Newmam e resolveu completar o seu raciocínio – temos de convencer os colonizadores de que o caminho mais rápido são os Híbridos.

— E quanto a ele? – o segundo ancião referia-se ao canceroso e HUBF viu que era hora de jogar a sua cartada.

— Acho que devemos trazê-lo de volta – um burburinho forma-se entre aqueles homens ao ouvir aquilo.

— Você só pode ter enlouquecido – o segundo ancião era só indignação – ele não é nada confiável.

— Mais um motivo para trazê-lo de volta , é melhor que ele fique embaixo de nossas vistas.

— Pois eu acho melhor encontrá-lo e matá-lo.

 

HUBF observa as reações dos outros homens e percebe que ainda não é hora de insistir com a ideia. O olhar do segundo ancião para ele demonstra a desconfiança em relação a sua pessoa, é melhor esperar uma outra oportunidade. Olhou para o relógio e constatou que a essa hora a operação de Krycek estava para começar e despediu-se dos outros, pois queria acompanhar tudo passo a passo. Ele foi embora, e mesmo sabendo que a sua saída desencadearia muitos murmúrios entre aqueles homens, sentiu-se aliviado, pois cada vez mais essas reuniões, e tudo o que dizia respeito a elas, tornavam-se mais aborrecidas para ele.

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Alex Krycek parecia ver toda sua vida passar diante de si. Ele não sabia direito se estava dormindo ou acordado, mas tinha consciência de que sua vida estava sendo definida numa mesa cirúrgica. Ele jamais gostou de depender de alguém, mas naquele momento sua vida estava nas mãos de estranhos, como chegara até ali? Ele sabia é claro e podia ver as imagens diante si como um filme em câmara lenta. As últimas palavras que disse a Scully e a resposta dela ressoavam em sua cabeça. A partir daí as imagens pareciam vir num quadro a quadro, ele pôde contar os passos que Scully deu em sua direção, três ao todo, era a chance que precisava para tomar-lhe a arma e dominá-la.

Poderia continuar jogando com ela, falar do prazer que teria sentido ao ver sua irmã agonizando no chão daquele apartamento. Podia instigar a culpa que Scully certamente sentia por saber que a bala era pra ela e não para Melissa, seria divertido, quanto tempo seu cérebro levou para processar tudo isso? Um milésimo de segundo talvez, o mesmo tempo que levou para ordenar a seus terminais nervosos que projetasse seu corpo em direção a ela, teria sido simples se o cérebro de Scully não tivesse trabalhado numa sintonia perfeita com o dele – “a morte é pouco pra você Krycek” – podia ouvir as palavras dela.

Ele sabia que aquele tiro não foi apenas revolta e indignação, por trás dele havia um objetivo frio e bem definido de punir alguém que a lei não alcançaria. Quanto tempo levou o cérebro dela para tomar a decisão de puni-lo daquela forma? O mesmo milésimo de segundo com certeza, o mesmo tempo que seus terminais nervosos levaram para ordenar ao dedo que pressionava o gatilho da arma para dispará-la. Era uma arma de calibre comum, mas o tiro foi a queima-roupa e atravessou-lhe a barriga para alojar-se em sua coluna cervical. Alguns poucos segundos, foi esse o tempo que levou para as pernas amolecerem, o corpo desabar, encontrando o chão duro da garagem. Todo esse tempo os olhos verdes dele estavam fixos nos olhos azuis dela. Os olhos azuis leram a surpresa, misturada com a agonia de dor, nos olhos verdes que leram nos azuis a satisfação pelo objetivo alcançado. Ainda olhando para ela, Krycek deu um longo suspiro de dor, depois disso, só escuridão, a mesma que viu cair sobre si quando a anestesia foi aplicada.

SEDE DO FBI

1:55 Pm

Mulder entrou em seu escritório e Scully logo percebeu a indignação estampada no rosto dele, ela não disse nada, ele sentou-se em sua cadeira, ficou alguns segundos em silêncio, e só então falou.

— Skinner me contou a história da carochinha que os militares inventaram para justificar tudo o que aconteceu em Phoenix – ela olha pra ele, profundamente solidária.

— O que foi dessa vez?

— Um grupo terrorista roubou amostras de um hantavírus no laboratório de San Diego, parece que eles tinham a cumplicidade de pesquisador chefe, o Dr. Craig.

— Deixe-me adivinhar, ele está desaparecido.

— E duvido que vá aparecer, provavelmente está morto.

— Não há muito o que possamos fazer Mulder, eles ganharam de novo.

— Eu sei Scully, mas... aquilo que você me disse sobre todos nós termos o DNA da gripe espanhola inativo dentro de nós...

— É só uma suposição Mulder.

— É a verdade Scully e você sabe disso, explica muita coisa que investigamos nesses anos todos – Scully olhou para aquele homem à sua frente, parecia ler o que ia em sua mente e perguntava se ele podia fazer o mesmo com ela.

— Qual é a sua teoria Mulder?

— Eu já disse Scully, a gripe espanhola foi uma tentativa frustrada de iniciar a colonização – ela podia sentir o entusiasmo dele e sorriu, estimulando-o – os registros históricos dizem que a gripe espanhola atingiu metade da população mundial na época.

— Foram mais de um bilhão de pessoas infectadas – completa Scully.

— Pois eu acho que toda a humanidade foi infectada Scully, embora só a metade dela tenha desenvolvido os sintomas da gripe espanhola.

— E porque isso Mulder?

— A ideia era infectar toda a humanidade com o vírus e levá-la a extinção, mas os colonizadores não contavam que os nossos “avós” fossem tão resistentes ao vírus.

— Só que esse grau de resistência era variável – completa Scully – metade da humanidade era muito resistente a ponto de nem desenvolver a doença, a outra metade não tinha o mesmo grau de resistência ao vírus.

— Só que isso variava de pessoa a pessoa, em algumas a resistência era tão pequena que os sintomas acabavam por levá-las a morte.

— Se tudo isso for verdade Mulder, então a gripe espanhola não foi propriamente uma doença, mas sim os sintomas resultantes da reação do organismo frente a um elemento desconhecido, no caso, o vírus alienígena.

— Só que o sistema imunológico humano não destruiu o vírus Scully, apenas tornou-o inativo e a medida que os infectados foram tendo filhos acabaram passando esse vírus para eles sob a forma de um DNA inativo que passou a fazer parte da sua constituição genética.

— E com o código genético do vírus alienígena – Mulder sorriu ao ver Scully completando o seu raciocínio, outra pessoa provavelmente estaria rindo de tudo aquilo – fico imaginando qual seria o grau de resistência que a humanidade teria hoje em dia.

— Você está pensando nas pessoas que morreram em Phoenix?

— A resistência delas foi mínima Mulder, aquelas pessoas morreram poucas horas depois de serem infectadas.

— Eu tenho uma teoria sobre isso também.

— E qual seria?

— Eu acho que aquelas pessoas que morreram tinham algum laço genético com aquela metade da humanidade que desenvolveu os sintomas, por isso o seu grau de resistência ao vírus era muito pequeno.

— Será que é assim com toda humanidade Mulder?

— É só pensar nas ações do sindicato e você vai ver que não Scully, raciocine comigo, se um homem e uma mulher que não desenvolveram os sintomas da gripe espanhola tivessem filhos, eles herdariam a imunidade dos pais, certo?

— Eu diria que sim – disse Scully.

— Agora imagine que esses filhos tivessem filhos com outras pessoas que também eram filhos de pessoas que também não desenvolveram os sintomas da gripe espanhola, os netos herdariam as imunidades dos pais, que já as haviam herdado dos avós, tanto maternos quanto paternos, certo?

— Onde você quer chegar com esse raciocínio Mulder?

— Imaginando que essa linhagem permanecesse sem se misturar com a linhagem dos que desenvolveram os sintomas, com certeza os atuais descendentes daqueles dois casais iniciais teriam um altíssimo grau de resistência ao vírus, mesmo uma versão mais forte dele, como o que vimos em Phoenix, talvez até fossem imunes.

— Você sabe quais as chances desse tipo de linhagem manter-se sem mistura todo esse tempo Mulder?

— Uma em um milhão? – ele disse rindo – e isso significa que muitíssimo poucas pessoas podem ser realmente imunes ao vírus. Encontrá-las seria como procurar uma agulha num palheiro.

— A não ser... – Scully ficou com a aquela expressão enigmática que Mulder conhecia bem.

— A não ser o que?

— Aquela listagem que estava com os clones de Jeremiah Smith e que continham informações, inclusive genéticas, sobre todos os americanos que tomaram a vacina contra a varíola.

— Ela provavelmente significa a mesma coisa que aqueles imenso arquivo que encontramos dentro de uma montanha, o sindicato sabe quem são os imunes Scully, devem haver registros como esse em todo o mundo.

— Tudo o que estamos conjeturando pode ser verdade Mulder, mas não temos como provar – ela deu um longo suspiro e Mulder notou a expressão cansada de quem parecia não ter dormido bem a noite.

— Algum problema Scully? Tenho notado você estranha desde que saímos de Phoenix, e não parece que é só pelo que com o que aconteceu com a Grace.

— Eu não... eu não quero falar sobre isso agora Mulder – ela levanta-se da cadeira e dirige-se a porta – não me sinto bem hoje eu... eu vou pra casa, até amanhã Mulder – ela vai embora, deixando Mulder preocupado por saber que algo está atormentando sua parceira, e que talvez não pudesse ajudá-la.

APARTAMENTO DE SCULLY

10:45 Pm

Ela tentou jantar, mas não conseguiu, tentava ler algo para passar o tempo, mas não conseguia concentrar-se, até ouvir uma batida conhecida na porta e permitir-se um sorriso ao ir abri-la.

— Entra Mulder – disse ela, convidando-o a entrar.

— Não queria incomodá-la Scully, mas estou muito preocupado com você – ele entra e senta-se no sofá, ela faz o mesmo – está tudo bem?

— Ainda estou um pouco deprimida por causa da Grace – ele afasta uma mexa de cabelo dela e ficam olhando-se em silêncio.

— Não é só isso Scully, pode ser pretensão minha, mas eu sinto que você quer me contar algo só que não está tendo coragem.

 

Scully olha para aquele homem que conhece a tantos anos sem nada dizer, como falar de seu ato indigno a alguém cujo opinião lhe é tão cara? Suportaria o julgamento de qualquer outra pessoa a respeito do que fez, mas será que aguentaria a decepção no olhar dele, ao saber de algo que a iguala às pessoas que ele mais odeia? Talvez não, mesmo assim ela teria de contar, só não queria enfrentar o olhar dele ao dizer isso e tratou de abraçá-lo, encostando a cabeça no seu peito.

 

— Eu cometi um crime em Phoenix , Mulder – ela não viu o olhar dele, mas sentiu seu coração disparar com aquela revelação – atirei num homem a sangue-frio. Não foi um gesto de defesa ou desespero, mas uma decisão fria e meticulosamente calculada. Algo que sempre esteve em meus pensamentos desde a morte da minha irmã.

— Não precisa falar nada se não quiser Scully – a voz dele saia tremula e o coração continuava disparado, isso deixava-a ainda mais tensa.

— Preciso sim Mulder, preciso muito – as primeiras lágrimas rolaram por seu rosto suave, indo parar na roupa dele – atirei em Alex Krycek! Não queria matá-lo, nada disso, a morte era muito pouco pra aquele desgraçado. Eu queria que ele sofresse Mulder, queria que ele sofresse uma vida inteira como eu vou sofrer por causa de Melissa, pela culpa que sinto – ela se permite um estranho sorriso antes de voltar a falar – saiba Mulder, poucas coisas no mundo podem causar mais dor numa pessoa que um tiro a queima-roupa na barriga

— Porque está me dizendo isso?

— Porque foi com essa intenção que eu atirei nele! Além disso, pelo ângulo e a distância em que o tiro foi disparado era quase certo que a bala atravessasse o corpo até atingir a coluna cervical, o que o deixaria paralítico – ela sente que está sendo mais apertada contra o peito dele, as lágrimas caem com mais profusão, Scully ainda tenta, mas não consegue conter os soluços.

— Acha que eu vou condenar você por isso Scully? – ele coloca o rosto dela entre as mãos, limpa-lhe as lágrimas e olha fundo no azul dos olhos dela – você tem idéia de quantas vezes eu já sonhei fazer coisa parecida, talvez pior, com aquele filho da mãe? Acha que posso condenar você? Mesmo que pudesse, acha que eu faria? Queria é ter tido a sua coragem para fazer aquele miserável pagar por todos os crimes que cometeu.

— O que eu fiz não tem nada haver com coragem Mulder – disse ela, mais aliviada – na verdade tem haver com um lado sombrio que existe em todos nós, algo mais perigoso até que esse DNA alienígena inativo dentro de nós – ela procura recompor-se antes de continuar – algo que me assusta muito porque... Mulder eu senti muito prazer em fazer aquilo com o Krycek – ela fecha os olhos e dá um longo suspiro – foi delicioso ver a surpresa e a dor nos olhos dele, por algo que ele jamais esperava que eu fizesse. A verdade é que, mesmo sabendo que fiz algo errado, algo que vai contra o que acredito, contra minha fé, e tudo o que meus pais ensinaram, ainda assim, eu não estou arrependida. Se eu tivesse mil novas oportunidades, mil vezes eu faria a mesma coisa.

— Eu entendo o que sente Scully. Em todos esses anos jogando com as regras, e enfrentando pessoas que não tem regras, acha que eu nunca me senti tentado a jogar como eles? Se eu nunca o fiz foi por sua causa, você é o meu lado honesto Scully – ele toca de leve no queixo dela, naquele rosto molhado por lágrimas que não caiam mais, sorri para ela – as vezes eu fico observando você e me pergunto: porque ela não é 10 centímetros mais alta?

— Que ideia Mulder – ela sorri, e lê nos olhos dele a pergunta que deve fazer – porque eu não sou dez centímetros mais alta, Mulder?

— Porque se você fosse dez centímetros mais alta, você seria perfeita, e todo mundo sabe que não existem mulheres perfeitas – ela riu ao ouvir aquilo , um riso alegre e expansivo, quase uma gargalhada, o coração dele aqueceu-se ao vê-la reagir assim, não lembrava de tê-la visto tão alegre, e como ficava linda assim. Ele também riu, contagiado pela alegria dela, até que os dois pararam de rir, embora a alegria daquele momento ainda estivesse estampada em ambos os rostos

— Foi a coisa mais linda que alguém já disse pra mim Mulder.

— Foi só a verdade Scully – ele afasta uma mexa de cabelo do rosto dela – é verdade que agora vou ter de acrescentar esse seu gesto com o Krycek na sua lista de imperfeições, mas ainda assim você está com um crédito altíssimo – ele sorri – pelo menos comigo.

— Fico feliz de ouvir isso – agora ela é que acaricia o rosto dele – suportaria a condenação de qualquer um, menos a sua Mulder.

A respiração deles era suave, bem como o compasso das batidas de seus corações. Tudo começou a mudar quando seus rostos aproximaram-se lentamente, até um leve roçar de lábios, tocavam-se e afastavam-se continuamente. Era possível sentir o hálito quente, a respiração suspensa, o peito arfando, as mãos paradas, esperando a permissão que só os olhos podiam dar, e eles estavam abertos enquanto os lábios continuavam tocando e se afastando. O olhar fixo um no outro, ele esperando a permissão dela, até que a permissão veio e os lábios tocaram-se de vez, as mãos forçaram a aproximação dos corpos, o beijo fez-se intenso.

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As primeiras imagens que vê ao acordar são disformes, a visão turva e a sonolência provocada pela anestesia ainda fazem-se presentes, mas ele consegue reconhecer o homem sentado ao lado de sua cama.

— Bem vindo de volta ao mundo dos vivos Krycek – disse o homem das unhas bem feitas.

— Deixa o papo furado de lado e diz logo se vou ou não ficar aleijado – HUBF sorri.

— Foi por muito pouco meu caro, mas você escapou desse destino terrível.

— Mas...

— Haverão algumas sequelas do ferimento é claro, a principal delas é que não foi possível retirar a bala de sua coluna cervical.

— Porque não?

— Se os médicos a retirassem aí sim você teria de passar o resto da vida numa cadeira de rodas – HUBF mostra um frasco de comprimidos a Krycek – vai ter de passar o resto da vida tomando essas coisinhas aqui para aliviar as dores que volta e meia irá sentir. Foi o máximo que pudemos fazer por você meu caro, mas anime-se Krycek, considere essa bala como um troféu de guerra do mesmo jeito que essa prótese no braço.

— Ora seu... – Krycek o agarra pelo terno fazendo um movimento de levantar o corpo, que causa-lhe uma dor terrível, ele dá um grito lancinante, HUBF não perde a calma.

— Esqueci de dizer que você não vai poder fazer qualquer esforço pelos próximos dias – ele o vê se contorcendo de dor e não consegue evitar de sentir um mórbido prazer com aquilo – acho que vai precisar dos seus remédios, uma pílula por vez é o suficiente – dá o frasco a Krycek, que aos poucos sente a dor passar.

— Aquela cadela vai me pagar, assim que eu estiver melhor vou fazer uma visita pra ela.

— Vai ter de conter seus impulsos vingativos Krycek, se fizer algo contra a agente Scully eu mesmo mando tirar essa bala de você, e sem anestesia.

— Mas o que é isso? Antes era o desgraçado do canceroso, agora é você que também vai proteger Mulder e Scully? O que esses dois tem de tão importante pro sindicato ainda não ter acabado com eles?

— As razões do sindicato não são da sua conta Krycek, apenas obedeça as ordens ou então nós acabamos com você – HUBF levanta-se e vai embora, Krycek sabe que algo está por trás disso tudo. Ele decide que é melhor deixar sua vingança pessoal de lado em nome de um objetivo maior. Ele tem seus próprios planos, saber o que torna Mulder e Scully especiais para o sindicato pode ser importante para que esses planos deem certo e quando isso acontecer, aí sim, todos vão pagar muito caro

GARAGEM DO EDIFÍCIO WATERGATE

UMA SEMANA DEPOIS

Era alta madrugada e o lugar estava deserto, os poucos carros a vista, somados as sombras projetadas pelas pilastras, davam um ar meio sinistro, que mesmo o homem que ali estava sentia um certo temor enquanto esperava a pessoa com quem marcara um encontro.

— Você parece nervoso – disse o canceroso , HUBF procurou disfarçar esse detalhe.

— Acho que estou ficando velho demais para essas coisas.

— Já decidiu como vai ser?

— Já está tudo esquematizado, eles não terão outra escolha a não ser convocar você de volta.

— E quanto as amostras?

— O tempo urge, temos que produzir o máximo possível de vacinas para testar nos “escolhidos” – o canceroso não pôde evitar de rir.

— Que nome você foi escolher.

— É um nome perfeito para eles, não sei se foi a sorte ou a providência divina que os fez serem os humanos com o maior grau de imunidade ao vírus alienígena, mas o fato de serem tão poucos faz deles verdadeiros “escolhidos”, não acha?

— Que seja! O importante é que uma vez neles a vacina produza os anticorpos necessários para que tenhamos a arma definitiva contra os colonizadores.

— Vai acontecer, não se preocupe, trabalhamos nisso a vida toda, fizemos sacrifícios, sujamos as mãos de sangue, inclusive o sangue de amigos – eles fazem um breve silêncio ao lembrar disso – vamos conseguir.

— Eu vou voltar para o meu esconderijo e esperar pelos acontecimentos – ele faz menção de ir, mas lembra-se de algo – como vai o Krycek?

— Bem melhor, acho até que vai participar da operação.

— Precisamos ter cuidado com aquele russo, ele tem seus próprios planos.

— Ele serve aos nossos propósitos lembra? Por isso ainda não o descartamos – eles despendem-se com um aperto de mãos e cada um segue o seu caminho.

IGREJA DE SÃO PATRÍCIO

WASHINGTON DC

8:35 Am

Era um silêncio solene que vinha daquelas paredes adornadas com imagens de santos, além vitrais que retratavam o sofrimento de Cristo e a devoção da Virgem Maria. Dana Scully sentia-se em paz ali, a confissão, feita à pouco, aliviou-lhe o coração angustiado por um sentimento que sabia ser menor e indigno, mas do qual não conseguia livrar-se. O passar dos dias não a fez arrepender-se do que havia feito a seu inimigo, mas as palavras de seu confessor tiraram parte de seu fardo. Ela sabia que havia uma sombra espreitando-lhe a alma, um monstro que devia manter sob controle para continuar digna perante seu Deus. Ela orou com grande fervor, rogando por um perdão, que no fundo, sabia ser merecedora. Foi na humildade de seu gesto que encontrou a força que precisava para seguir o seu destino, ele estava no porão de um edifício, não muito longe dali, e pra lá ela foi, com um sorriso no rosto, e a alma mais aliviada.

*ESTRADA TOTALMENTE FICTÍCIA

FIM


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