Em Chamas - Peeta Mellark escrita por Nicoly Faustino


Capítulo 23
Capítulo 23




Minha equipe de preparação, que sempre fora tão rápida, leva quase a manhã inteira para me “arrumar”. Isso devido ao ataque de lágrimas, que eles têm, de dez em dez minutos. Eles parecem estar realmente sofrendo muito, e quando inocentemente decido perguntar o motivo de tanta tristeza, descubro ser eu. Fico pensando que eu nem sei o nome deles, enquanto eles choram por mim. Tento consolá-los, mas não é a ordem natural das coisas, então, não dá certo. Quando eles dão o trabalho por encerrado e me enchem de abraços, dizendo como não queriam que eu morresse, e como será triste perder o melhor casamento que Panem poderia ter visto, saem me deixando na companhia de um atendente da capital, e meu farto almoço.

– Qualquer coisa que precisar me informe – ele diz.

– Certo, muito obrigado.

– E... Bom... Só quero lhe proporcionar o melhor que podemos oferecer. Em termos de acomodação, refeição. Pode me pedir – ele informa, olhando para baixo.

Antes que eu possa responder, ele se vira, e antes de sair murmura:

– Sinto muito.

Realmente, acho que essa não era a reação que o presidente Snow gostaria de ter nesse massacre.

Como se tivesse algo entalado em minha garganta, não consigo saborear nem metade do meu almoço, e por fim, acabo por dispensar até a sobremesa, que é a parte do almoço que eu sempre gostei mais. Aguardo ansiosamente por Portia. Quero que tudo isso acabe logo, ou essa agonia acabará comigo primeiro.

Portia finalmente chega, com meu traje. Mas, primeiro, ela faz uma maquiagem muito pesada sobre meu rosto. No começo não entendo direito onde ela deseja chegar com tudo isso. Tem algo quase sombrio estampado em sua expressão. Ela que costuma sempre sorrir quando me vê, parece estar de luto. E eu sei o porquê, mas evito tocar no assunto. Quando ela termina a maquiagem que se estende através de meus olhos, principalmente, me entrega um traje todo preto. Visto o macacão que me cobre do pescoço aos pés. Em seguida, ela coloca uma coroa pela metade em minha cabeça, idêntica à que Katniss e eu ganhamos quando fomos coroados pelo presidente Snow. Ela ainda faz alguns ajustes nas minhas roupas, visto que ganhei mais músculos durante as últimas semanas, e então me vira para o espelho. Estou, no mínimo assustador. Olho para ela, confuso, pensando em como isso representa nosso distrito. É aí, que um sorriso maroto escapa de seus lábios pintados de roxo, e ela toca um botão em meu pulso.

A roupa começa a clarear. Um tom azul, alaranjado, vermelho, amarelo. Então, eu entendo tudo. O fogo já queimou. E quando o fogo queima, restam apenas brasas. E eu sou as brasas que restaram. A maquiagem do rosto, toma formas com as luzes do traje refletindo. A coroa em minha cabeça, parece queimar. Olho para Portia, encantado com isso, e vejo que seus olhos estão marejados.

– Sem sorrisos. Sem acenos. Olhe para a multidão como se tivesse nojo deles. Vocês são bem maiores que tudo isso – ela me instrui.

Assinto.

– Portia, isso está...

– Não diga nada. Apenas desça lá, e encare essa merda toda em que meteram vocês.

Sorrio.

– Eu farei isso. Obrigado.

Apero o botão em meu pulso, apago minhas brasas, e desço ansioso para ver Katniss, e me embasbacar mais uma vez, com sua beleza estonteante.

Para minha surpresa, quando chego ao térreo do centro de treinamentos, há vários grupos de tributos e mentores reunidos. Eles conversam animosamente, parecendo nenhum pouco abalados. Procuro Katniss em meio a eles, e me deparo com uma figura muito conhecida. Finnick Odair. O pavão da capital. Considerado o homem mais desejado de toda a Panem. E ele está com sua boca, apenas a alguns centímetros da boca de Katniss. Ele me avista antes que Katniss possa me ver, e então se afasta, com um sorriso no mínimo malicioso no rosto.

Me aproximo rápido, com algo que só pode ser ciúme dentro de mim, mas quando vejo Katniss o ciúme se dissipa. Tudo que consigo pensar, é em como Katniss está bonita. Ela está aterrorizantemente linda. Vestida igual a mim, seu rosto foi pintado em traços fortes e dramáticos, simulando chamas. Seu cabelo longo, cai com uma trança. E no topo de sua cabeça, ela exibe a outra metade de minha coroa.

— O que Finnick Odair quer? — pergunto, assim que me posiciono ao seu lado.

Ela tenta, sem muito sucesso, fazer uma imitação de Finnick, chegando seus lábios bem perto dos meus.

— Ele me ofereceu cubos de açúcar e queria saber todos os meus segredos - ela diz, com uma voz forçadamente sedutora.

Começo a rir com a sua interpretação.

— Ugh, não mesmo – digo, percebendo o quanto é inútil sentir ciúmes de Katniss, pois ela nunca sentiria algo por alguém como Finnick. Por mais que ele possa parecer perfeito para todas as outras mulheres, e ser o queridinho da capital, quando a dez anos atrás ganhou os jogos com apenas 14 anos.

— Sério. Te conto mais quando minha pele parar de formigar.

Olho ao redor, percebendo o quanto alguns tributos parecem ainda mais ferozes pessoalmente, e outros ainda mais debilitados.

— Você não acha que teríamos terminado assim se só um de nós tivesse ganhado? Apenas em outra parte do show dos horrores? – pergunto.

— Claro, especialmente você.

— Oh, e por que especialmente eu? — pergunto, fingindo estar ofendido, mas sorrindo.

— Porque você tem uma fraqueza por coisas bonitas e eu não — ela responde, fingindo superioridade. — Eles te seduziriam nas formas da Capital e você estaria completamente perdido.

— Ter um olhar para a beleza não é a mesma coisa do que fraqueza. Exceto quando se trata de você – explico.

Ela fica corada. Está prestes a dizer algo, quando a música explode em nossos ouvidos. As largas portas de metal se abrem e o primeiro carro sai. O rugido da multidão é ensurdecedor.

— Vamos?

Ela assente. Eu a ajudo a subir na carruagem, e depois ela me puxa.

— Fique quieto — ela diz, enquanto ajeita minha coroa. — Você viu seu traje ligado? Nós estaremos fabulosos novamente.

— Absolutamente. Mas Portia disse que estamos muito acima disso tudo. Sem acenos nem nada. Onde eles estão, afinal?

— Eu não sei. Talvez seja melhor irmos em frente e nos ligar.

Quando apertamos nossos botões e as roupas começam a brilhar, sinto o olhar das pessoas sobre nós. Principalmente dos mentores. Procuro Haymitch, Cinna ou Portia. Até mesmo Effie, mas não avisto nenhum deles.

— Nós deveríamos dar as mãos esse ano? — Katniss pergunta.

— Acho que eles deixaram para nós decidirmos – respondo, temendo a sua decisão.

Ela fita demoradamente meus olhos. Parece que voltei no tempo, e estou enfrentando o nervosismo de ter sido sorteado, e não o bastante, ter que ir para a arena com a garota que eu amo. Isso aconteceu a apenas um ano, e eu estava morrendo de medo, mas decidido a dar minha vida por Katniss, que não parecia sentir nada muito diferente de desprezo, por mim. Tanta coisa mudou desde então. A ironia, é que tudo está se repetindo. Estou indo para os jogos, com a garota que amo. Estou com medo, mas, mais do que nunca, decidido a dar minha vida por Katniss. A única diferença, é o seu sentimento por mim. O que antes beirava a indiferença, agora beira amor. E isso se reforça, quando instantaneamente, nossas mãos se procuram. Entrelaço meus dedos nos dela, bem apertados. Emergimos na praça com a fraca luz da noite, nos fazendo brilhar. A multidão chega a histeria, gritando nossos nomes. Mas, quando fixo meus olhos em Katniss, não sou capaz de ouvir mais nada. Observo as luzes dançarem em seu rosto, fazendo um contraste absurdo com seus olhos cinzas, e penso que não pode haver sensação melhor, que estar ao lado de quem a gente ama. Aperto ainda mais sua mão, e ela me lança um olhar, que quer dizer muita coisa. Morrer, chega até a ser um preço justo a se pagar, por ser contemplado nem que uma vez na vida, por um momento como esse, onde estou olhando nos olhos de Katniss, segurando sua mão, e sentindo algo que só pode ser amor, emanando dela, diretamente para mim.