Em Chamas - Peeta Mellark escrita por Nicoly Faustino


Capítulo 22
Capítulo 22




O que nos separa, é a chegada de um atendente da capital. Ele coloca sobre a mesa uma bandeja contendo uma bela jarra, e duas canecas. Imagino que Katniss tenha pedido algo antes de me encontrar, mas secretamente amaldiçoo essa pobre criatura por ter nos tirado desse momento tão perfeito.

— Eu trouxe uma caneca extra — ele avisa.

— Obrigada – Katniss responde.

— E acrescentei um pouco de mel ao leite. Para adoçar. E uma pitada de tempero —ele acrescenta, e fica nos olhando como se quisesse dizer mais alguma coisa. Mas depois de alguns instantes, ele balança imperceptivelmente a cabeça, e sai da sala.

— O que há com ele? — Katniss pergunta, com as sobrancelhas arqueadas.

— Acho que ele se sente mal por nós — respondo.

— Certo — ela diz, servindo o leite.

— É sério. Não acho que as pessoas na Capital estão todas felizes com a nossa participação, ou dos outros vencedores. Eles são afeiçoados aos seus campeões.

— Acho que eles vão superar quando o sangue começar a fluir — ela se limita a responder.

E eu sei que ela tem razão.

— Então, você está assistindo aos vídeos de novo?

— Não realmente. Só dando uma olhada nas diferentes técnicas de luta do pessoal – minto, para ela não achar que estou obcecado com isso.

— Quem é o próximo?

— Você que escolhe — falo, estendendo a caixa com as fitas em sua direção.

Ela meche na caixa, olha algumas fitas, até que segura uma em suas mãos. Me assusto ao ver que o nome do vencedor que está marcado, é o de Haymitch. O sono, ou o cansaço, fizeram a sua parte, fazendo eu esquecer este vídeo aqui.

— Nunca assistimos esse — Katniss comenta.

Balanço a cabeça.

— Não. Sabia que Haymitch não queria. Do mesmo modo que não queremos reviver nossos próprios Jogos. E visto que somos um time, não acho que importa muito.

— A pessoa que ganhou no vinte e cinco está aqui?

— Acho que não. Quem quer que fosse deve estar morto agora, e Effie só me entregou os vencedores que poderíamos ter de encarar — respondo, enquanto pego o vídeo de Haymitch da mão de Katniss. — Por quê? Você acha que devemos assistir?

— É o único Massacre Quaternário que temos. Podíamos pegar algo de valor sobre como eles trabalham.

Isso não é uma boa justificativa. Na verdade soa mais como curiosidade da parte dela. Eu, sinto que estou traindo Haymitch, pelo fato de assistir ao horror que ele pode ter vivido na arena.

— Não temos de contar ao Haymitch que vimos – Katniss diz, como se lesse a minha apreensão.

— Ok — concordo.

Katniss se aconchega a mim, com sua caneca nas mãos, me entrega a outra, e eu dou play no vídeo, bebericando o delicioso leite que nos foi trazido, mas com um enorme receio por estar assistindo a isso.

Realmente admito, que não foi uma boa ideia. Neste massacre, houve o dobro de tributos, e uma das pessoas que foi com Haymitch, do distrito doze, foi Maysilee Donner que era muito amiga da mãe de Katniss, e irmã gêmea da mãe de Madge, que é amiga de Katniss, segundo meu pai me contou uma vez. O maior choque foi ver Haymitch mais novo. A bebida acabou com ele, pois há vinte e cinco anos atrás, ele era tão jovem, forte, destemido. E tenho que admitir, era até bonito. Mesmo que tenham se passado muitos anos desde que isso aconteceu, não era para ele estar tão acabado assim. No desfile das carruagens, os tributos do 12 vestem uma terrível roupa de mineiros, fazendo eu entender, como a minha aparição com Katniss, naqueles trajes, chamou tanta atenção.

Nas entrevistas, Haymitch se mostra com o mesmo mau humor de hoje, só que ainda mais arrogante. Inacreditável, mas é.

Quando os jogos têm oficialmente início, a beleza da arena é arrebatadora. A Cornucópia dourada está no meio de uma campina com grupos de flores gloriosas. O céu é um azul celeste com nuvens brancas. O canto dos pássaros é perceptível. E pela reação de alguns tributos, deve ter um cheiro fantástico também. Uma imagem aérea mostra que a campina se estende por quilômetros. À distância, em uma direção, há uma floresta, e na outra, uma montanha coberta de neve. Porém, tudo se mostra ser extremamente venenoso. Haymitch se vira bem, e parece ter como propósito andar sem parar, para o mais longe possível de tudo. Apesar de muitos empecilhos pelo caminho como esquilos carnívoros, ou borboletas venenosas, ele se vira muito bem. Dezoito tributos morrem no banho de sangue. Os carreiristas, que totalizam dez, tomam conta da montanha. Mas, por ironia, a montanha de neve se torna um vulcão em erupção, matando a quase todos que estão naquela direção. Dos tributos restantes, alguns acaba morrendo pelas armadilhas da bela arena, com uma fruta envenenada ou uma picada mortal.

Quando Haymitch e os outros tributos, que ainda são treze se vêem obrigados a ficar na floresta devido ás lavas do vulcão, um grupo de três carreiristas que sobreviveram, fazem uma emboscada e o pegam. Mas Haymitch se mostra rápido, e mata dois, não tem a mesma sorte com o terceiro, e é Maysilee que salva sua vida, atirando um dardo que ela envenenou com as substancias da floresta, no carreirista.

Então, eles se tornam aliados. A parceria funciona muito bem, e Haymitch continua decidido a andar, e andar. Quando eles atravessam uma sebe aparentemente impossível de se escalar, chegam ao que parece ser o final da arena, o que Haymitch queria tanto achar. Ele, teimoso como sempre resolve ficar ali, deixando Maysilee dizer adeus, e ir atrás dos tributos restante, que nessa altura eram apenas cinco.

Haymitch fica andando no pedaço de terra seca, e vai até o limite do penhasco. Ele escorrega e quase cai de lá de cima, derrubando alguns pedregulhos lá embaixo. Ele parece um pouco desconcertado, mas um minuto depois, um pedregulho surge do nada ao seu lado. Ele olha para aquilo incrédulo. Pega um pedaço grande de rocha e joga lá em baixo. Um minuto depois, a rocha volta. Ele cai na gargalhada, pois descobriu algo que a capital com certeza não queria mostrar. Mas então, ouve-se um grito de Maysilee, e um Haymitch desesperado corre na direção do grito e tudo que encontra é um bando de pássaros perfurando o pescoço da bela garota. Ele segura sua mão enquanto ela morre. E posso jurar que vi lágrimas em seus olhos. No final, restam apenas Haymitch e uma garota do distrito 1. Quando o confronto direto e inevitável começa, é terrível, sangrento, e eu me pergunto como Haymitch pode estar vivo. Em várias partes me vejo fechando os olhos, pois a luta é realmente horrível. Haymitch é desarmado pela garota que tem o dobro do seu tamanho, mas não desiste e segue cambaleando pela floresta, segurando seus intestinos. A garota vai atrás dele, com um machado que deveria mata-lo, e quando ele finalmente chega aos limites da arena, a garota joga o machado sobre ele. Numa tentativa de desviar, ele se joga no chão, e o machado cai no abismo. A garota fica com as mãos sobre seu rosto, onde há um buraco enorme, onde deveria ser seu olho. Haymitch convulsiona no chão. É uma questão de tempo até ele morrer, e ela sabe que ele morrerá primeiro, mas o que ela não sabe é que seu machado irá voltar, e quando volta, acerta em cheio a cabeça dela. Haymitch é anunciado o vencedor do massacre.

Desligo o vídeo, ainda assustado com o que vi. Meus pelos estão arrepiados, e meu coração acelerado. Depois de muito silêncio, tenho que comentar sobre a inteligência de Haymitch.

— Aquele campo de força no fundo do penhasco era como o do terraço do Centro de Treinamento. O que atira você de volta se você tentar pular ou cometer suicídio. Haymitch encontrou um modo de transformá-lo numa arma.

— Não apenas contra os outros tributos, mas contra a Capital, também — Katniss comenta. —Você sabe que eles não esperavam que isso acontecesse. Não era para ser parte da arena. Eles nunca planejaram que alguém o usasse como arma. Fez com que eles parecessem estúpidos e ele viu isso. Aposto que eles tomaram um bom tempo tentando adiar isso. Aposto que é por isso que eu não me lembro de vê-lo na televisão. Foi quase tão ruim quanto nós e as frutas!

Dizendo isto, ela começa a rir. Tenho vontade rir também, mas ainda estou muito chocado em ver o que Haymitch passou. Apenas balanço a cabeça e deixo um leve sorriso escapar.

— Quase, mas não exatamente — Haymitch fala detrás de nós.

Me viro para trás, com medo da reação dele. Vejo que ele está bebendo uma garrafa de vinho, mas não me importo com isso. O que me importa, é saber se assistir o vídeo dele, pode o ter magoado. Para o meu alívio, ele sorri. Katniss sorri de volta, e agora consigo entender o quanto eles são parecidos, pois os dois de certa forma desafiaram a capital.

Quando vou me deitar, já é madrugada. E minhas poucas horas de sono, são preenchidas pelas imagens mais terríveis de Haymitch, na arena. E Katniss, morrendo como Maysilee morreu. Nesse ponto eu acordo, desejando abrir os olhos e ver Katniss ao meu lado. Tremendo, visto um agasalho, e guiado pelos raios do sol que esta nascendo, vou até o quarto de Katniss só para me certificar de que ela está bem. Quando abro a porta, vejo ela dormindo. Sorrio. Encosto a porta, me perguntando se irei aguentar tudo que está por vir nesse massacre, e pior, se eu realmente serei capaz de proteger Katniss, e fazer com que ela volte para casa. Estremeço, só de pensar na possibilidade de eu falhar. É nessa hora, que escuto um grito abafado de Katniss, e tenho a certeza de que ela acaba de acordar. Triste, é saber que mesmo que ela sobreviva, os pesadelos nunca irão embora, e eu não estarei mais aqui, para fazer isso passar.