Na Melodia do Amor escrita por J R Mamede


Capítulo 19
Capítulo XIX




Petrificada é a palavra exata para me descrever naquele momento.

Enquanto eu encarava o piano, escutava murmúrios do público: uns afirmavam que eu estava passando mal e logo iria desmaiar, enquanto outros eram adeptos à teoria de que estava com a síndrome do pânico de palcos.

Os últimos acertaram, embora os primeiros não estivessem tão errados assim.

Meus dedos tentavam entrar em ação, mas meu cérebro não permitia que tal fato acontecesse.

Sentia a pulsação forte e as mãos frias.

Meus olhos passavam pelas teclas do piano e eu tentava corrigir o erro de meu sistema nervoso.

– O que está acontecendo com você, Chiara? – escutei Rosalya sussurrar atrás das cortinas.

Eu a olhei aturdida, sem ter a resposta para tal questão.

O único desejo era sumir dali; sair correndo e nunca mais aparecer.

Percebi, então, que minhas pernas me obedeciam.

“É agora”, pensei. “Vou sair correndo daqui imediatamente”.

Quando as minhas pernas obedeceram aos meus comandos, levantei-me de pressa e me deparei com a grande multidão a me encarar.

Novamente, fiquei estática.

Minha respiração estava descompassada e minha boca seca.

A humilhação ficou perfeita quando escutei risinhos atrás do palco e vi que as autoras deles eram Ambre, Charlotte e Li.

Constrangida e com raiva, estava prestes a sair do palco e da presença daquela gente toda, quando, de repente, escuto alguém gritar:

– Chiara!

Olho para a direção da plateia e vejo quem havia me chamado. Um sorriso bobo ilumina minha face ao ver Castiel em pé sobre o corredor que separa uma coluna de cadeiras das outras.

– Cante, Chiara. Você consegue.

Sorrio gentilmente para o ruivo, o qual faz o mesmo.

Castiel começa a bater palmas e chamar um coro para fazer o mesmo que ele. Me vejo diante de uma plateia me incentivando a fazer o meu número, gritando em uníssono ”Canta! Canta! Canta!”.

Olho para trás do palco e vejo todos meus amigos fazerem o mesmo, exceto Ambre e suas amigas, as quais me encaram com desgosto.

Respiro fundo e volto ao piano, fazendo a multidão bater palmas com euforia e animação.

Castiel conseguira trazer de volta a música em mim.

Volto a relembrar todas as minhas habilidades musicais e reconheço o meu fiel e grande amigo: o piano.

– Boa noite. – digo timidamente ao público. – Esta música é de minha autoria, a qual fiz e dedico à memória de minha mãe, Jane. Apesar de estar tão longe de mim, eu sei que, na verdade, ela está bem mais perto do que eu imagino.

Olho para direção de meu pai, o qual dá uma piscada, mostrando que estava muito orgulhoso de mim.

Ele estava certo: minha mãe permanecia ao meu lado.

Com delicadeza e precisão, as primeiras notas surgem no piano, fazendo-o soar uma melodia doce e calma, assemelhando-se à personalidade de minha mãe.

Começo a cantar a música que fiz para ela, sentindo sua presença naquele momento:

”Você se foi

Me deixou sem colo

Fiquei aqui

Sem entender o que aconteceu.

Fecho os olhos,

Tentando encontrar você nas minhas memórias.

Me desespero quando não consigo

Achar a sua imagem em mim.

Tento ser forte, dizer que tudo está normal,

Mas normal deixou de ser quando você partiu.

Não compreendo o porquê

De você ter me deixado aqui

Uma menina que nem cresceu

Ficou em lágrimas por ti.

O mundo não ouviu

O choro que ecoou em mim.

Mas consegui reencontrar você

Na Melodia do Amor.”


Assim, como no começo, termino a canção com delicadeza.

Todos me aplaudem de pé. Escuto assobios e pessoas gritando o meu nome com entusiasmo – provavelmente, meu pai e meus tios.

Termino com a satisfação de ter conseguido pular mais um obstáculo em minha vida.

Foi mais um medo sendo interrompido, deixando-me mais confiante em minhas atitudes.

Levanto-me do banco e faço reverência à plateia como forma de agradecimento. Retiro-me do palco e vou juntar-me aos meus amigos que estão contentíssimos com minha vitória pessoal.

– Você arrasou, Chiara! – abraçava-me Alexy fortemente.

– Eu disse que ia dar tudo certo, menina! – chorava Rosalya. – Eu disse!

Agradeci a todos os presentes pelos incentivos e encorajamentos. Sem eles - Rosalya, Alexy, Armin, Iris, Nathaniel, Melody, Kim, Violette, Peggy , Lysandre– eu não teria conseguido. Mas meu agradecimento em especial era para um tal ruivo teimoso e rabugento que eu tanto amava.

Fiquei procurando Castiel sobre a multidão e, quando finalmente nos encontramos, andamos em direção um ao outro com sorrisos estampados.

– Acho que você me deve um “muito obrigado”, não acha, senhorita? – brincou o ruivo.

– Acho sim. – concordei. – Muito obrigada, Castiel!

– Só isso? – fez uma careta.

– Sem você eu não teria conseguido...

– Não. – interrompeu-me Castiel. – Não vai me agradecer de uma forma melhor?

O rapaz simulou uma expressão teatral insinuativa. Ri de seu gesto e de seu pedido.

– Acho que você merece. – concordei.

Ambos aproximamos nossas cabeças, prestes a nos beijarmos, quando fomos interrompidos por alguém.

– Castiel! – berrou Ambre.

Assustamos com a aparição maldita da loura, a qual não estava para brincadeiras.

– Esqueceu quem é a sua acompanhante ao baile? – fez questão de perguntar Ambre.

– Não, Ambre. – revirou os olhos o ruivo. – Não me esqueci. Porém, você quem está esquecendo que eu sou apenas o seu acompanhante ao baile...

– Você não tem palavra, Castiel? – interrompeu a irmã de Nathaniel.

Percebi que, com este comentário, Castiel ficara bem abalado, como se lhe acabassem de cravar uma faca nas costas. O ruivo mostrou-se nitidamente ofendido com a acusação de Ambre, deixando-se abalar pelo veneno da loura.

– Tenho sim, Ambre. – falou Castiel um tanto desconfortado. – Você sabe que eu tenho.

– Pois bem. – disse a garota. – Só porque tal fato não ocorreu, não significa que você pode estar por ai com essa coisinha. – olhou-me de cima a baixo. – Eu cumpri com a minha parte. Trate de cumprir com a sua.

Antes que Castiel pudesse se manifestar, Ambre agarrou-lhe o pulso e tirou imediatamente o rapaz de minha presença.

Ambre estava aprontando, isso era óbvio. De alguma forma conseguira convencer Castiel a ir ao baile com ela através de chantagens. Só me restava saber do que se tratava e isso eu estava determinada a descobrir.

Antes que eu pudesse bancar a Sherlock Holmes, escutei Nathaniel no palco chamando todos os alunos que se apresentaram no Show de Talentos de Sweet Amoris naquela noite.

– Vamos, Chiara. – chamou-me Lysandre. - Queira me acompanhar, por favor.

O rapaz ofereceu-me seu braço e fomos à presença dos professores e da plateia.

– Você foi magnificamente bem, bela Chiara. – sussurrou Lysandre ao meu lado no palco.

– Obrigada. – agradeci no mesmo tom. – A sua banda é incrível. Tenho certeza que irão ganhar.

Lysandre sorriu, porém fiquei sem resposta, pois a diretora subiu ao palco para informar quem seria o ganhador do Show de Talentos.

– Quero agradecer a todos os presentes nesta noite maravilhosa em Sweet Amoris. – começou a idosa. – Informo-lhes que foi muito difícil escolher apenas um vencedor. Todos aqui, sem dúvida, possuem habilidades extraordinárias.

Uma salva de palmas surgiu do público e dos alunos.

– Então vamos ao que interessa. – a diretora segurava um pequeno envelope dourado, o qual ela abria com cuidado para deixar o suspense ainda maior. – Quem levará o prêmio do Show de Talentos de Sweet Amoris ...

Alguns segundos a mais de mistério para fazer todos segurarem as respirações e arregalarem os olhos de curiosidade.

Por fim, a diretora revelou:

– Rosalya e Alexy, pelas suas incríveis coleções de Verão!

Aplausos animados e sinceros preenchiam o teatro, exceto Ambre e suas capangas que olhavam com inveja para os ganhadores.

Rosalya pegou o microfone das mãos da diretora, fazendo todos rirem de sua reação emocional.

– Obrigada! Obrigada! – dizia ela. – Nem acredito... Ano passado eu ia ganhar... Era para eu ter ganho...

– Rosa. – sussurrava Alexy no ouvido de sua parceira. – Menos, minha filha. Menos.

– Quero agradecer a todos vocês. – continuou a minha amiga. – Logicamente a minha apresentação foi bem melhor. – olhou para trás. – Nada pessoal, gente. – voltou-se para a plateia e nem percebeu a mão de Alexy espalmando seu próprio rosto como forma de descontentamento. – Eu fiz essas coleções com o maior carinho...

Nós fizemos. – corrigiu Alexy, tirando o microfone das mãos de Rosalya. – Foi um grande e cansativo trabalho em equipe.

A diretora precisou intervir, pois, caso contrário, Rosalya faria um discurso até o amanhecer.

Eu estava muito feliz pelos meus amigos. Os dois iriam dividir o prêmio em dinheiro pela metade e Alexy aceitou deixar o troféu com Rosalya.

– Ela o quer bem mais do que eu. – brincou meu amigo.

Apesar de não ter ganho o prêmio, ganhei a satisfação de ter dado um grande passo em minha vida.

Eu havia conseguido enfrentar os palcos.

Sentia-me como Davi enfrentando o malvado gigante Golias.

Eu sempre havia sido forte. Só precisava ter a coragem de mostrar essa força ao mundo.





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