Na Melodia do Amor escrita por J R Mamede


Capítulo 11
Capítulo XI





Nos últimos dias do castigo, após eu nocautear a Ambre, o professor Faraize ficou responsável de cuidar da sala de detenção. Até então, eu só presenciara a figura alta, magra e furiosa da professora de Educação Física.

Naquele dia, eu era a única meliante do local. Agradeci, mentalmente, por ser o meu calmo professor de História a estar ali.

Como de costume, o professor escolhido para a sala de detenção deveria passar uma tarefa extra de sua matéria para o aluno punido.

O senhor Faraize aproximou-se de mim para entregar uma folha, a qual deduzi ser a minha tarefa do dia. Antes de me entregar, falou:

– Ainda acho muito estranho uma aluna como a senhorita estar aqui na sala de detenção.

Eu o olhei, surpreendida por ele estar sorrindo simpaticamente. Acho que já estava me desacostumando a ser tratada com delicadeza naquele ambiente.

A professora de Educação Física falava sempre gritando, como se sempre estivesse em um campo de futebol, instruindo os seus jogadores. Encarava-me de forma severa, analisando-me friamente, como se eu fosse uma detenta de uma prisão de segurança máxima.

– Cometi um erro. – disse. – Então preciso repará-lo de alguma forma, não é mesmo?

– Sim, é verdade. – concordou o professor. – Admiro sua postura, senhorita Chiara.

Mais uma vez o sorriso simpático iluminava a face do gentil professor de História. Retribuí o sorriso, como forma de agradecimento.

– É que me espanta uma jovem como a senhorita estar aqui. – continuou. – A senhorita possui excelentes notas e um histórico exemplar. Tem tudo para ser aceita nas melhores Universidades do país.

O senhor Faraize me encarou, dessa vez sem o sorriso simpático estampado. Estava pensativo, como se estivesse escolhendo as melhores palavras para prosseguir.

– Por que a senhorita bateu em sua colega? – perguntou.

– Ela pegou o meu livro. – murmurei.

– Não, não é só isso. – afirmou o perspicaz senhor Faraize. – Não acho que a senhorita chegaria a tanto só porque a senhorita Ambre pegou o seu livro.

– Era o livro da minha mãe, senhor Faraize. – falei. – A Ambre não tinha o direito de pegar algo que pertencera a minha mãe e ainda insultá-la.

Novamente a expressão pensativa do professor foi realizada.

– Por que você não se defendeu perante a diretora? – disse ele, por fim. – Por que ficou calada?

– Não queria falar no momento. – murmurei.

Com ar compreensivo, o senhor Faraize não fez mais interrogatórios, entregando-me a folha de exercícios.

– Sua mãe deve ser uma mulher muito especial para você, senhorita Chiara. – disse, ao virar as costas. – Não são todos os filhos que defendem com tanta veemência seus pais.

Após este comentário, o silêncio reinou na sala e eu pude começar a fazer os exercícios de História.

As questões eram sobre a Revolução Francesa, focando bem a época da negligência da monarquia francesa contra o seu povo; o descuido do Rei Luis XVI com a crise na França e as futilidades de Maria Antonieta na corte.

Fiquei a sós com o professor Faraize apenas alguns minutos, pois, logo depois, alguém veio se juntar a nós: Castiel.

Ele entregou sua ficha assinada pela diretora para o professor, o qual o fitou com ar brincalhão.

– Por aqui de novo, senhor Castiel? – comentou o senhor Faraize. – Pelo visto, o senhor gosta da nossa sala de detenção.

– O que eu posso fazer, senhor Faraize? – falou o ruivo zombeteiramente. – A diretora adora me ver por aqui.

O professor pediu para o rapaz sentar-se em uma carteira, entregando-lhe a folha de exercícios.

Antes de sentar em seu lugar, Castiel me dirigiu um olhar, sorrindo maliciosamente para mim, parecendo que minha presença ali fosse uma grande piada para ele.

Soltei um suspiro forte e voltei a fazer as minhas tarefas.

Não passou muito tempo, e o senhor Faraize foi chamado pela diretora para comparecer em sua sala. Como não havia ninguém para ficar na sala de detenção, o professor orientou a Castiel e a mim:

– Por favor, nada de conversas.

A minha pretensão era fazer o que o professor de História havia pedido, mas escutei Castiel falar comigo:

– Ei, Mike Tyson!

Virei-me para sua direção e o vi rir.

– Do que você me chamou? – perguntei.

– Mike Tyson. – riu. – Você deu um golpe certeiro na Ambre, hein!

Fiquei confusa com o comentário. Eu sabia que a escola toda já estava sabendo da história do soco, alegrando-me com o fato de Ambre ter sido alvo de várias piadas. Mas achei estranha a forma em que o ruivo falara.

– Você fala como se tivesse visto. – comentei.

– E, de fato, estava. – afirmou Castiel, triunfante.

– Eu não o vi...

– Estava me escondendo da diretora. – começou. – Eu tenho um vício: o cigarro. Estava querendo fumar, mas, se a velhota me pegasse, eu estaria frito. Então, costumo me esconder em um canto que, por acaso, fica bem perto daquele banco que você costuma sentar para ler os seus livrinhos.

Eu o encarei, pensando na possibilidade do ruivo ficar me espionando com frequência.

– Portanto, - continuou. – eu tive uma vista privilegiada da grande luta.

Endireitei o meu corpo para frente da mesa com a intenção de terminar a minha tarefa.

– Você vira uma fera quando falam da sua mãe, não é mesmo?

Novamente virei para a direção de Castiel para fitá-lo. Dessa vez ele não ria; sua expressão era serena e curiosa.

– Acho que qualquer um vira. – afirmei.

– Não, creio que não. – retrucou o ruivo. – Eu mesmo pouco me importo o que falam ou deixam de falar da minha mãe.

Revirei os olhos quando o vi rir novamente.

– Por que você fica tão brava quando falam da sua mãe? – insistiu.

– Acho melhor terminarmos de fazer essa tarefa de História, Castiel. – mudei de assunto. – Não quero mais confusões para o meu lado.

Voltei às tarefas, com a mente em turbilhões.

O professor Faraize entrou na sala, sentou em sua cadeira e esperou que terminássemos nossos deveres.





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