Crônicas de Cecília escrita por Taborelli


Capítulo 3
Quando a morte mandou-me beijos


Notas iniciais do capítulo

Existiu uma colônia anarquista de nome Cecília na vida real. Pode-se verificar um pouco sobre a experiência que ocorreu ao sul do Brasil aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Col%C3%B4nia_Cec%C3%ADlia



Posso descrever que desmaiar é a sensação mais próxima de morrer. Meu pulmão ardia sem piedade, minha pela formigava como em brasa. Mergulhados nas lágrimas, meus olhos embaçaram-se, passaram para listras negras e para a escuridão completa. Delirei. Pude vislumbrar uma moça atraente, de uns 20 anos. Acredito que estava a esperar-me, vestida provocantemente de cetim. Tinha madeixas louras e branca pele. Sua aproximação permitiu que perdesse-me em seus estonteante olhar. Ela puxou-me, agarrou-me, fazendo-me caminhar em tal ambiente escuro e distorcido. Ela, muda ao meu lado, beijou-me. Oh, beijos de gostos estranhos que eu quero e não desejo! SMAC! Senti um toque, humano, em meu braço. Assim, meu chão fora dissolvido e caí na inconsciência.

Minha alma não seria entregue, ainda, para a cruel atmosfera. Acordei com a visão embaçada novamente, e pessoas de negras vestimentas, notaram-me. Eles identificaram-se como meus irmãos, embora eu nunca tivera irmãos. Logo, pude perceber que era apenas consideração. Eles trataram de verificar a minha "reação", passando as mãos próximas do meu rosto, nas quais pude observar marcas com a palavra EXCLUÍDO. Foi depois de conferir minha pressão, pois já tinha passado por alguns exames, que contaram-me que fui achado durante uma expedição vital. Salvaram-me utilizando uma máquina de oxigênio em sobra, para que pudessem trazer-me até o hospital, um pouco distante, da comunidade. Aproveitaram para mudar o assunto, trazendo em tona a história do local.

–De outrora anarquista, Vila Cecília foi um foco de resistência. Contava com pouco mais de duas mil pessoas, escola libertária, hospital, loja grátis, sistema de dessalinização e pequenas indústrias auto-gestionadas. Eles dominaram a cidade por um tempo, construindo o pulmão artificial e forçando que uma grande parcela deixasse o local, o que ficara conhecido por Diáspora de Cecília. Seus poucos habitantes restantes só puderam gozar da liberdade novamente após uma campanha militar, na qual os expulsos aproveitaram para voltar, armados, com suas famílias. Nesse dia, a vila tornou-se Colônia e recebeu um carinhoso sobrenome, Esperanza. - contaram-me meus irmãos.

Vivendo aqui e hoje, descreveria a C.C.E como um pedaço do céu que caiu, onde mantivemos com muito esforço tudo que fora deixado da antiga vila. Agora são duas escolas libertárias. Temos também um depósito de materiais abandonados por Eles, algumas árvores frutíferas -mesmo que não sejam muitas- e um programa para vazar da Terra. Além disso, ampliamos a Loja Grátis. Em meus primeiros dias, a descrição não seria a mesma. A minha chegada fez com que todos ficassem em alerta, durante a semana esperavam que coisas terríveis viessem a acontecer. O que aconteceu, sim, no terceiro dia... Houve um ataque que danificou o portão Oeste do pulmão, por onde entraram alguns combatentes. Atearam fogo em algumas estruturas e após trocas de tiros por armas lasers - gostaria de registrar isso, por não existir durante minha infância -, finalmente fomos deixados em paz. Não me pertencem muitos detalhes.

Permaneci escondido, obrigatoriamente, durante todo o conflito. Disseram-me que vieram em busca de minha morte, que foram enviados por Eles de meu município após correr a notícia do resgate. Velamos nossos mortos por três dias, enquanto isso meu destino encontrava-se novamente em jogo. Que seria decidido em um tribunal improvisado em uma colônia anarquista. Uau.

Evo Morales, Cecília Esperanza. 19-09-2098.





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