One-Shot O Amor É Cego escrita por Hurricane


Capítulo 1
Capítulo Único - Amor Juvenil.


Notas iniciais do capítulo

Como dito, eu escrevi pra uma amiga que queria um romance bem água com açúcar. Ele ficou meio bruto, foi o primeiro do gênero que eu escrevi e espero que gostem.
P.S.: Se já leu algo meu, saiba que esse romance água com açúcar tem minha marca.



O Sol ainda estava alto quando os dois iam brincar, e eles só voltavam para as suas casas quando ele se escondia e o vento frio da noite soprava. Era assim sempre que podia ser assim. Eram, afinal de contas, crianças e não precisavam se preocupar.

Eles eram amigos desde que podiam se lembrar, grandes amigos. Aprenderam a andar juntos, aprenderam a falar juntos. Inclusive, suas primeiras palavras foram os nomes um do outro: Robert e Mary.

Tinham 4 anos, mas Rob era dois meses mais velho do que ela. Eram inseparáveis, simples assim. Ela estava escondida atrás do grande carvalho quando sua mãe a chamou.

– Mary! Hora de ir pra casa, amor!

– Já vou, mãe! – Ela gritou, então percebeu que tinha se entregado.

Rob a encontrou, então os dois riram e foram embora. A mãe dele também o esperava. No outro dia, brincariam de... Bem, de alguma coisa. Iriam decidir na hora. Ela correu até Diana, a mulher alta de cabelos negros, e, juntas, elas partiram em direção ao carro. Robert não teve tanta pressa de chegar até sua mãe, então ela comprou sorvete. Ele recebeu o seu, de baunilha.

– Se divertiu hoje? – Perguntou a mulher de sorriso tão doce quanto o sorvete.

– Muito. As garotas geralmente são chatas, e estranhas, mas a Mary é diferente. – Rob disse enquanto se pendurava na cadeira. – Ela até parece um menino.

Lily pegou um guardanapo e limpou o rostinho lambuzado de sorvete de baunilha, depois despenteou os cabelos castanhos.

– Não diga isso pra ela. Não é bem um elogio.

Robert não entendeu como isso podia não ser bem um elogio, mas sua mãe era a voz da experiência e da sabedoria. Decidiu aceitar o conselho. Depois do sorvete, eles foram pra casa.

Lá Rob assistiu desenhos até seu pai chegar, uma hora depois, e eles irem jantar. Ele se sentou à mesa como seu pai mandava, Jack Brooks era um homem severo, porém gentil. E foi dele que Rob herdou os cabelos castanhos e os lábios nem finos nem carnudos – como os de sua mãe. Mas dele não herdou os olhos azuis, não, estes ele herdou de sua mãe.

No outro dia eles se encontraram e brincaram. No outro dia também. Estavam sempre juntos. Começaram a estudar juntos no fim do mês. Era um pouco estranho pra ele, seus amigos achavam estúpido ele ser amigo de uma garota.

– Garotas são chatas! – Dizia John.

– Garotas são estúpidas! – Afirmava Joshua.

– O Robert é uma garota! – Cantarolou Leo. Logo todos cantavam em coro "o Rob é uma garota, o Rob é uma garota."

Robert corou e se afundou na cadeira, fazendo o máximo possível pra ignorar as risadas. Enquanto a raiva queimava seu caminho até a boca, ele sentiu uma mão encostar em seu ombro. Era Mary, mais uma vez ao seu lado.

– Vocês são todos uns bobocas! Tudo o que queriam é ter uma amiga como eu, e têm inveja do Rob!

– Ah, cara. Garotas são tão... Demais. – Disse John, 9 anos mais tarde.

– Amém. – Concordou Joshua, com os olhos fechados e a mão apontada para o céu.

Leo não disse nada, há 2 anos ele havia se mudado para outra cidade. John e Joshua olharam para Robert com um sorrisinho maldoso.

– Ah, queria saber como conquistar uma delas. Pena que o Rob não conta como conseguiu a Mary.

– Eu não consegui a Mary! Nós não somos namorados!

– E falando no Diabo. Bem, Joshua e eu vamos saindo. Deixar os pombinhos a sós.

Com amigos como esses...

– Hey, Rob! Entendeu alguma coisa de matemática hoje? – Ela perguntou com um sorriso meigo, os cabelos negros como os da mãe caindo até a altura dos ombros. Os olhos avelã escondidos pelo reflexo do óculos. – Se eu pudesse, trocaria minha aptidão de história por matemática.

– Se você não ficasse desenhando durante a aula, talvez conseguisse se sair melhor. – Rob se pegou olhando para os lábios finos e sorridentes, então buscou algo diferente para olhar. – Sorte sua que eu sempre te ajudo.

– Ah, é. A próxima aula vai ser de geografia, então... Temos tempo livre, certo?

– Se você está tão confiante... Se bem que aquele professor não sabe as besteiras que fala.

– Viu só? – Ela piscou e depois riu. – Bem, eu decidi da última vez. O que vamos fazer hoje?

– Que tal assumir o namoro? – Sugeriu John detrás de um grupinho de alunos.

– Boa ideia, John! – Ela respondeu, divertida. Rob se pegou perguntando "e se realmente fossemos namorados?".

– Ah, bem. – Ele chacoalhou a cabeça de leve. – Depois de uma vida de brincadeiras e reuniões, acho que fiquei sem ideias.

– Eu confio em você. – O sinal tocou e a conversa foi momentaneamente interrompida.

Durante a aula eles continuaram conversando. Em voz baixa, claro.

– Sabe uma coisa pela qual me interessei? RPG. Acha que o Joshua e o John aceitariam participar?

– Primeiro: isso é coisa de nerd. Segundo: eu poderia perguntar, mas não acho que seria muito, hum, produtivo.

– Por que é uma garota e três garotos?

– Porque aqueles dois não se empenham em nada que não seja comer e encher o saco. Acredite em mim.

– Então o que você sugere Rob? E, por favor, não me fale videogame... Te humilhar cansa.

– Me humilhar? Eu te deixo ganhar!

– Não. Você só é MUITO noob.

Robert não quis continuar a discussão, em parte porque não ia ganhar e em parte porque ela estava certa. Outra vez ele estava observando o rosto de Mary, percebeu.

– Que tal tomarmos um sorvete? – Sua voz falseou, ele limpou a garganta antes de continuar. – Sorvete. E então decidimos como continuar.

– Como eu disse: confio em você. Mas não esqueça que eu topo uma partida de RPG de mesa.

Ele assentiu e sorriu. Era sempre assim, ao lado dela ele era todo sorrisos. E eles estavam sempre juntos. Eles continuaram conversando coisas bobas, teorias sobre uma ou outra série, o futuro de um ou outro personagem, quem terminaria com quem enquanto quem estrebuchava em uma trincheira. Eles nem perceberam quando o sinal tocou. E nem perceberam que a aula já tinha acabado até os outros alunos começarem a guardar suas coisas.

– Hm... Algum problema em eu ir almoçar na sua casa?

– Se você pode. Tem sempre espaço pra mais um na mesa.

Mary pegou o celular e ligou pra sua mãe, avisando onde estaria.

– Você precisa de um desses. Facilita muito a comunicação.

– Não acho que eu realmente precise. Parece o tipo de coisa que fazem você acreditar que precisa, mas na verdade é totalmente supérfluo.

– Se você diz... – Ela deu de ombros.

Mas Robert descobriu que um celular poderia ter feito toda a diferença. Dois dias depois, ele desejou com todas as suas forças ter um celular. O dia começou normalmente, um sábado típico. Ele levantou, trocou de roupa e tomou café da manhã. A campainha tocou enquanto ele escovava os dentes. Sua mãe atendeu, o pai havia saído.

Era Mary, ele imaginou o que ela estaria fazendo ali tão cedo. Diferente dele, ela nunca acordava antes do meio-dia aos sábados e domingos. Também não haviam combinado nada para o dia.

Ela parecia meio desconfortável, como se algo a incomodasse. Ficava brincando com o cabelo, olhando para os pés. Ela ficava linda assim, Rob pensou.

– O que foi?

– Eu queria... eu queria passar o dia com você.

– Eu, hã... Tudo bem. Espera eu me arrumar, então. – Rob não estava de maneira alguma vestido para passar o dia com alguém que não fosse o sofá. Ele não se demorou.

Pegou algum dinheiro do pote em que guardava tudo e que ganhasse e avisou que estava saindo. Sua mãe, acostumada, apenas avisou-o para voltar antes de seu pai. Seu pai queria passar um tempo com ele, o trabalho não estava deixando.

– Você tem algo planejado?

– Não. Fora passar o dia com você, eu não pensei em mais nada.

Robert se sentiu um pouco animado com aquela frase, embora não soubesse ao certo porquê. Então seria algo pra decidirem na hora, e eles eram ótimos fazendo isso.

– Sabe o que eu quero MUITO fazer? Nadar no Lake Treesteps.

– Isso não é ilegal?

– Só se nos pegarem. – Ela piscou e começou a correr.

Eles apostaram uma corrida, Lake Treesteps ficava um pouco distante, dois quilômetros e meio, no centro de um parque. O Parque Estadual Renerich era um lugar conhecido dos dois, eles já haviam passado muitas tardes ali, caçando borboletas, frutas, ovos de páscoa ou só conversando e aproveitando a companhia um do outro. E agora passariam uma manhã cometendo um delito. Depois de um tempo de corrida alucinada os dois concordaram em parar um pouco, estavam cansados, suando e ofegando.

– Melhor andarmos, que tal?

– Andar é pra perdedores! – Ela arfou antes de voltar a correr. Dois metros depois ela torceu o pé e foi obrigada a parar.

– Tudo bem?

– Acho que torci meu pé. Me carrega?

– O que? – Ao invés de repetir, ela pulou nas costas de Rob e o obrigou a carregá-la o resto do caminho.

– Você tá ficando pesada. – Bufou Rob quando estavam quase na entrada do parque.

– Ei! – Mary o acertou com um poderoso pescotapa. – Quem você chamou de gorda?

Rob não estava em condições de responder, ele simplesmente entrou no parque, se posicionou estrategicamente ao lado de um banco e desabou no chão. Mary teve a decência de continuar em cima dele, o incentivando a levantar.

– Upa, upa, cavalinho!

– O cavalinho morreu, hora de sacrificar ele.

Ela levantou e sentou no banco, balançando as pernas como se tivesse 4 anos outra vez. Robert passou mais uns três minutos no chão antes de se levantar. Mary o agarrou pelo braço e começou a atravessar o parque até o centro, onde ficava o lago.

– Vamos antes que os namorados venham se encontrar e a gente perca a nossa chance.

– Olha, eu acho que tem... E O SEU PÉ?

– Eu menti, só queria te fazer me carregar. Agora vem!

Eles chegaram no lago bem rápido, ela olhou pro lago e olhou pra ele. Então Robert percebeu um grande obstáculo.

– Eu não vim preparado pra nadar.

– Você precisa de boia ou algo assim?

– Não, você sabe que eu sei nadar!

– Então veio sim. – Antes que Rob pudesse entender o sentido daquelas palavras Mary o jogou no lago.

Ele tropeçou três passos e então foi pra dentro da água. Esticou as mãos pra amortecer a queda no raso mas terminou ensopado. Ele olhou para ela furioso, se levantou... e a puxou para junto dele, então ambos tropeçaram para cada vez mais fundo no lago. Um espirrou água no outro, e os risos chamaram atenção do vigia que fazia sua ronda por ali exatamente para pegar quem resolvesse nadar no lago. Mary praguejou e nadou pra fora o mais rápido que pôde, Robert demorou um pouco pra entender o que devia fazer.

Por sorte o vigia não era um homem de muito fôlego, e eles conseguiram correr para fora do parque sem problemas. Eles continuaram correndo por mais dois minutos, botando uma boa distância entre eles e o Treesteps. Eles sentaram, ensopados e cansados, numa mesinha na frente de uma cafeteria. Assim que a ficha caiu eles começaram a rir.

– O que foi isso, Mary? O que a gente fez?

– Cometemos um crime e fugimos, qual foi a parte que você não entendeu?

– Quando sairmos daqui vamos fazer o que? Assaltar um banco? Pichar um mendigo, talvez?

– O que você acha de só comermos alguma coisa e ir comprar algum livro ou coisa assim?

– Se você quer fazer assim...

Robert enfiou a mão no bolso e descobriu que, milagrosamente, o dinheiro só havia molhado, mas não terminou derretido ou empapado. Eles tomaram um café e comeram um sonho – cada um pagando pelo seu, claro, embora ela tenha pago em moedas –, então foram em busca de uma livraria. Eram 10:00 horas quando chegaram na livraria, e eles só saíram 12:00 pro almoço. Mary disse que tinha o dia todo pra fazer o que quisesse, então eles comeram na casa de Robert. Como o Sr. Brooks só voltaria mais tarde eles tinham mais um pouco de tempo. Ela insistiu para que jogassem uma partida de qualquer coisa. A única coisa em que ele venceu foi na competição de quem perdeu mais. Mary olhou para o relógio e se levantou.

– Acho que já deu. Vamos fazer uma visita ao velho carvalho?

– Por que me pergunta se vai me arrastar até lá de qualquer maneira?

– Educação? – Ela deu de ombros. – Vamos lá.

Robert avisou mais uma vez que estava saindo, e dali eles seguiram até a Praça do Carvalho – havia recebido esse nome há dois meses, quando a árvore completou 100 anos. Eles chegaram lá e ela o arrastou para o carvalho, onde sentaram encostados no tronco e apenas aproveitaram a companhia um do outro em silêncio. Robert deixou seus olhos se perderem no sorriso dela, nos olhos dela por trás dos óculos, no queixo dela. Era um queixo realmente gracioso, fino e delicado. Abanou a cabeça outra vez, espantando esses pensamentos estranhos.

– Então, agora você vai me contar o que te incomodou o dia todo?

– Não. – Ela deu um sorriso triste. – Em dez minutos eu vou te MOSTRAR.

– Sabe, foi uma pena não termos comprado nenhum livro...

– Ah, eu acho que ainda tenho algumas coisas pra ler.

O silêncio voltou, nenhum dos dois queria estragar o momento com palavras. Um bem-te-vi cantava em um dos galhos do carvalho e, mais acima, um canário competia com ele. O vento soprava suave enquanto o Sol, já preparado para ir embora, lançava seus raios sobre a cidade. Sobre Mary, que parecia absorvê-los e usá-los para ficar ainda mais radiante. Mas que droga eu tô pensando?, Robert se censurou. Os dez minutos acabaram passando rápido, com ambos perdidos em seus pensamentos.

A garota se levantou e fez seu amigo acompanhá-la. Eles andaram a passos largos o caminho até a casa dela. Um caminhão recebia um sofá, e então tinha o baú fechado. O pai dela entrava no carro, a mãe acenou para os dois antes de fazer o mesmo.

– Eu estou me mudando. – Ela disse com a voz carregada de tristeza. – Queria só passar o último dia aqui com a pessoa que mais gosto. – Então ela o abraçou forte. Robert não sabia bem como reagir, retribuiu o abraço um pouco antes de eles se separarem. – Mas eu te ligo qualquer hora.

Ela saiu correndo ao som das buzinas do carro, antes de poder escutar a última frase dele.

– Nós... trocamos... de número... – Ele disse ao vento, ela já tinha ido embora.

Pela primeira vez na vida ele quis ter um celular, assim eles não teriam perdido contato. Quis ter pelo menos pedido o número do celular dela, mas estavam sempre juntos e ele nunca viu necessidade. Quis ter avisado antes, mas agora era tarde, ela havia ido embora sem o seu novo número, e sem dar o dela. Robert foi tomado de profunda tristeza, o coração deu alguns saltos raivosos contra as costelas. Ele voltou pra casa andando com pesar.

Robert afundou no sofá com uma expressão melancólica na cara. Estava profundamente arrependido de não ter uma droga de celular, e decidiu que compraria um o mais rápido possível, assim isso não aconteceria outra vez.

O resto do dia passou, e a noite o encontrou ainda meio desacreditado. Ele deitou na cama, esperando dormir. Deixou seus pensamentos flutuarem. Eles sempre flutuavam para ela, então ele os trazia de volta. Minutos depois estava pensando na beleza dela, em seu rosto emoldurado pelos raios de Sol em baixo do carvalho, no sorriso dela ou nos olhos por trás dos óculos. Abriu os olhos de repente e percebeu que estava apaixonado.

Segunda-feira ele levantou decidido, iria comprar um celular. Pegou todo o dinheiro que tinha guardado antes de sair para a aula, avisou que hoje se atrasaria para o almoço.

E anos depois, Robert continuava com o mesmo celular. Todos na faculdade tinham seus touch screens, modelos de última linha, menos ele.

– Bob, já pensou em trocar de celular? Seu modelo já era velho quando os dinossauros foram extintos. Olha bem pra essas porcaria, ele tem uma TAMPA!

– Sam, já te disse milhares de vezes que eu não vou gastar meu dinheiro com uma droga de celular novo. Esse meu não é de última linha, mas não é lixo.

Seu colega de quarto ameaçou abrir a boca pra tentar argumentar contra, mas então a porta se abriu e uma negra entrou. Cabelos lisos caindo até abaixo dos ombros, olhos castanhos sorridentes e lábios convidativos.

– Ah, finalmente. Camila, faça o seu namorado entender que o celular dele é um belo pedaço de lixo.

– Ele faz ligações? Recebe mensagens?

– Sim para os dois.

– Não é lixo, Sam.

– Eu não te entendo. Aluno mais promissor da classe do MacGregor – e olha que ele odeia tudo que respira –, tem um emprego bom em uma loja de eletrônicos e se recusa a comprar um celular novo! – Ele ergueu os braços em sinal de desistência.

– É, é. Agora me empresta ele um pouquinho porque ele prometeu que vai me ajudar a comprar o vestido pro casamento.

Robert respirou fundo. Tinha algo importante a fazer hoje, e se ele não fizesse talvez não pudesse fazer mais. Mesmo assim ele adiou mais um pouco. Camila precisava de ajuda, e ele não podia dizer não pra ela... Não ainda.

Ela o arrastou para o shopping e, por três horas, o fez vê-la trocar de vestidos para o casamento da irmã. Ela vestiu tantos vestidos que, em um certo momento, Rob simplesmente parou de reconhecer qualquer diferença entre um e outro. Talvez só não quisesse ver diferença. Depois que ela escolheu, sozinha, o vestido, ainda o arrastou por um tour por outras mil lojas.

– Ei, o que aconteceu? Você parece distante hoje.

– É que... – Ele inspirou fundo, precisava escolher com cuidado as próximas palavras. Estava em um campo minado. – ...Eu só acho que... Quero dizer... Não vai dar certo. Não me sinto preparado para o tipo de compromisso que você quer.

Ela o fitou. Primeiro, não entendeu, então ela riu, foi tomada por incredulidade, tantas emoções dançavam em sua face que Robert mal as conseguia identificar. Finalmente, ela começou a falar. Ou melhor, começou a gritar.

Depois de gritar com ele por dois minutos, finalmente conseguiu formular frases inteiras. Camila estava possessa, e Robert estava com medo. Ela parecia pronta para pular em seu pescoço.

E de fato o fez.

Se soubesse que romper com Camila terminaria com ela indo pra cadeia, não teria feito isso em público – mas ninguém poderia imaginar que sua namorada sempre tão calma e controlada era uma louca de pedra. Ele pegou o celular e ligou para Sam.

– Você não vai acreditar no que vou...

– Camila voou no seu pescoço na praça de alimentação. Foi preciso três seguranças pra fazer ela parar de te estrangular, e, segundo o que eu li, um deles teve que disparar tranquilizantes nela. Tá tudo na internet, inclusive tem umas versões remix com Skrillex e uma muito legal em que ela usa um sabre de luz.

– Ela foi pra cadeia.

– Merecido... Eu acho. Pelo amor de Deus, Bob, ela tentou te matar. Eu não sei o que você fez, mas a mulher enlouqueceu.

– Eu rompi com ela.

– Jesus amado... Ainda bem, imagine se fica sério, imagine se você tivesse se casado com aquela louca!

– Bom, dependendo de como for acho que não vou mais ver ela por um boooom tempo. O juiz deve me garantir isso... Eu espero.

– Mas tá tudo bem? Pelo que vi, ela grudou no seu pescoço lindamente.

– Vai ficar, me aplicaram uns primeiros-socorros lá.

– Mas e aí? Ligou só pra me contar isso mesmo?

– Não, é que acho que vou precisar de uma carona. Camila estragou a chave do carro quando meteu ela no meu olho.

– Beleza, pode deixar. Eu te pego aí, só me esperar.

Sam não demorou a chegar, mas demorou ao observar Robert. Não Robert em si, mas o pescoço vermelho, as marcas de dedos na pele e o olho inchado e com um corte feio – feito pela chave estragada.

– Certeza que tá tudo bem?

– Bom, não muito, na verdade. Me leva pro hospital, vai, é melhor.

Os machucados se provaram bem inofensivos, exceto pelo corte no olho. Robert precisou tê-lo coberto por um tempo até que melhorasse e depois teria de ir a um oculista para checar se não havia tido algum dano severo à visão. E foi no oculista que algo inesperado aconteceu.

– Cuide desse problema, Mary. – O oculista disse para a mulher que saía.

Ela estava mais velha, o cabelo estava mais curto e os óculos mais grossos, mas era ela. Robert a reconheceu no exato momento em que pôs os olhos sobre aquele sorriso, era AQUELA Mary! Ela passou por ele, o olhou por alguns segundos, mas devia estar vendo seu machucado. Nenhum sinal de reconhecimento transpareceu.

Robert precisou pensar rápido, ele era o próximo mas não podia deixá-la ir assim. Não podia perdê-la outra vez. Inspirou fundo uma vez, depois outra. Estava tão impotente quanto da vez que a viu partir, e isso o matava.

Ela começou a se afastar, indo embora uma vez mais. Saindo de sua vida lentamente, de novo Robert era aquela criança que viu Mary partir anos atrás.

Mas o que posso fazer, ela nem sabe quem eu sou mais... Ele tentou se consolar quando ela alcançou a porta. E seu eu não fizer nada agora, ela nunca saberá!

Robert se levantou, munido de toda a coragem que lhe cabia e andou em direção à ela. Seu nome seria chamado em instantes, mas ele não se importava, só que importava era ela.

Ele alcançou a porta, abriu-a.

Para encontrar a garota que havia esperado por tanto tempo abraçada com outra pessoa.

– Então, como foi? – O homem de terno perguntou.

– Foi uma droga, ele disse que piora cada vez que venho aqui... – A voz dela soava amargurada. – Amor, – AMOR? – acho que deveríamos adiantar o casamento.

CASAMENTO?

O mundo parou, o tempo já não corria e Robert podia escutar as batidas de seu coração ecoarem na cabeça. Era como se o peso do planeta houvesse despencado em si.

Ali estava a pessoa que o fizera recusar cada relacionamento sério, a garota por quem havia se apaixonado e aguardado, a mulher que amava, abraçada a outro homem.

Com quem iria se casar.

Ele viu o mundo desmoronar, caindo pedaço por pedaço ao seu redor enquanto a realidade, cruel e implacável, o acertava com a fúria de um rinoceronte raivoso.

Então era isso. Havia esperado sua vida inteira reencontrar uma pessoa que nem se lembrava dele, Mary havia seguido com sua vida enquanto ele se prendeu ao passado, confundindo amizade com paixão e paixão com amor.

Mas, se não era amor? O que era? Por que estava tão arrasado, por que doía tanto? Por que vê-la ali, tão perto e tão longe, o machucava tão profundamente? Se não era amor, por que aquela lágrima queria tanto escorrer pelo seu olho?

Percebeu que estava os encarando, percebeu o sorriso no rosto dela. Percebeu que ela era feliz sem ele e, mais importante, já nem se lembrava mais dele. Deu as costas enquanto o tempo ao seu redor voltava a correr, não fazia sentido ir atrás dela e ser um estorvo à sua vida.

Não fazia sentido dizer o que sentia.

Não fazia sentido sentir o que sentia, não fazia sentido dedicar uma vida àquele sentimento.

Adeus, Mary.

Robert abriu a porta da clínica, seu nome estava sendo chamado. Um sopro frio pareceu vir de trás dele enquanto ele percebia uma coisa. Não podia deixá-la partir assim, se Mary saísse de sua vida outra vez ele nunca se perdoaria.

Ela ia se casar, mas e daí? Ele queria vê-la feliz, queria estar com ela e isso seria o suficiente para que ele fosse feliz também. Virou-se para dizer alguma coisa.

Mas tinham ido embora, ela e seu noivo. Robert percebeu que, outra vez, havia deixado que Mary partisse e não se perdoaria por isso. Voltou para a clínica, estava a um passo de perder sua consulta.

Por sorte a chave não havia causado nenhum grande dano ao seu olho, e ele se recuperaria. A noite o encontrou no bar, bebendo na esperança de afogar aquele sentimento que já não sabia mais o que era. Havia trazido Sam e alguns companheiros da classe do MacGregor, sendo o primeiro o motorista da rodada.

Robert tentava afogar o sentimento sem afogar a si mesmo em álcool, não queria falar demais como os bêbados geralmente fazem. Se forçou a parar quando sentiu que seu limite havia sido ultrapassado e qualquer coisa além daquilo seria perigoso.

A noite conseguiu terminar bem, exceto pelo vômito no estofado do banco do carro de Sam. A manhã já não veio assim tão pacífica.

O Sol queimava os olhos de Rob, sua cabeça doía infernalmente, e ele jurou a si mesmo que nunca mais na vida iria beber. Tomou alguns analgésicos e achou uns óculos escuros, a pior parte talvez fosse ter de ir trabalhar de ressaca.

O dia estava com um movimento fraco, de forma que Rob não precisou se preocupar muito em perder o emprego. Até as duas da tarde só havia tido três clientes. Às duas da tarde, ele abriu um sorriso.

Por mais incrível que fosse, Mary estava ali outra vez. Robert ganhava uma nova chance.

– Boa tarde, em que posso ajudá-la?

– Esse celular vagabundo tá dando problema! A tela trava a cada dez segundos!

Ela colocou o smartphone à sua frente, Rob o observou.

– Já pensou que ele pode ter se magoado com a senhora xingando o pobre coitado a todo momento? – Rob brincou.

Ela o encarou, tentando decidir se havia gostado da piada ou achado Rob muito abusado. Ele abriu o sorriso mais caloroso que conseguiu, tentando transparecer conforto. O que estragou tudo deve ter sido o fato de ele estar de ressaca.

– Certo, deixe-me ver... – Ele ia pegar o celular quando se lembrou de uma coisa.

Passou as duas mãos por cima do objeto e Mary ficou impressionada quando ele sumiu. Ela gostava de ver as pequenas mágicas que ele tinha aprendido quando eram crianças.

– A mágica é de graça, não se preocupe. – Ele brincou, e dessa vez ela sorriu.

Robert foi para os fundos para checar melhor o celular.

– Você faz mágica para todas as clientes? – Ela perguntou quando Rob retornou.

– Só para as mais simpáticas... Infelizmente não deu pra consertar.

– Sem problemas, Robert.

Ele abriu um sorriso por dentro, ela havia se lembrado do seu nome. Foi isso que ele pensou até perceber que o nome estava no crachá.

– Bem, se quiser eu posso te arranjar um outro agora.

Mary ficou pensativa por um momento, então assentiu. Ela não demorou muito para escolher um outro celular, Rob pegou o dinheiro, era a quantia exata.

– Temos um desconto para clientes tão simpáticas. – Ele disse ao devolver uma parte do dinheiro.

– Ei, abusado... Eu sou noiva.

– Nesse caso aceite como um presente, desde que eu seja convidado. – Ele devolveu todo o dinheiro, ela ficou hesitante em pegá-lo.

– Isso vai te causar problemas, Robert...

– Pode me chamar de Rob.

Ela sorriu para ele, podia não se lembrar do velho amigo, mas parecia inclinada a gostar dele.

– Só Deus sabe o que meu noivo vai dizer quando souber que um vendedor abusado me deu esse celular de presente... Mas posso dizer que você é um amigo.

– Se me der tempo o suficiente, não vai ser só da boca pra fora.

– Será? – Ela riu, um riso inocente. – Certo, então eu quero descobrir. Mas você não é um estuprador, é?

– Estupradores não conseguem esse emprego, eu te garanto.

Ela riu outra vez, parecia já estar gostando de seu velho novo amigo.

– Muito bem, então. Eu posso perguntar? – Ela indicou com o dedo no seu rosto o lugar onde a chave deixara uma marca no de Robert.

– Pode, mas eu preferia responder em algum outro lugar, talvez tomando um sorvete de... flocos, acertei? – Pelo menos era, quando eles eram crianças.

– Como você...?

– Mágica. Eu saio assim que o Ray chegar, se importa de esperar?

– Eu deveria era sair correndo, acabei de te conhecer, sabia?

– Ah, mas eu sinto como se te conhecesse a minha vida inteira.

– Engraçado, eu também sinto isso... – O comentário o fez se animar. – Certo, ganhou sua chance.

Antes que o silêncio se estendesse o suficiente para deixar de ser satisfatório e começasse a ser incômodo a porta se abriu e Raymond entrou.

– Ray, me faz um favor e conte para esta adorável senhorinha quem eu sou.

– Robert Brooks, metido a mágico, a engraçado e a bom aluno. Faz faculdade de administração e trabalha aqui... quando não tá enchendo a cara ou levando uma chave na cara.

– Obrigado, Ray. Você é um amor. Pronto, satisfeita agora?

– É, isso deve servir.

Robert acompanhou Mary para fora, e dali para uma sorveteria próxima. Com um sorvete de baunilha e um de flocos, ela o conheceu. Ele apenas descobriu coisas novas.

– Então, qual é a história de "levar uma chave na cara"? – Ela perguntou quando se lembrou.

– Bem, agora que você sabe a base dá pra encurtar bastante. Eu terminei com uma namorada há pouco tempo, ela surtou e tentou me esganar, depois tentou me cegar com uma chave.

– Ei! Agora eu lembrei, lembrei porque você é tão familiar! – Robert cruzou os dedos imaginariamente. – Eu te vi no oculista outro dia! O machucado parecia pior.

– É... é, agora que você falou eu acho que te vi lá também. – Ele fingiu se lembrar, nunca havia se esquecido.

– Bem, isso explica algumas coisas.

E eles conversaram até ela ter que ir embora, mas no outro dia se encontraram e conversaram de novo. Para Robert eles eram aquelas crianças que brincavam todos os dias outra vez.

– Rob, – O apelido havia voltado, ele percebeu que ela repetia as coisas de quando eram crianças sem perceber. – acho que já é hora de você conhecer meu noivo. Acho que vocês podem se dar bem.

– Se você acha... – Ele deu de ombros, mas por dentro se sentia de diversas formas.

Feliz porque, em pouco tempo, havia reconquistado aquela amizade e ela já se sentia segura pra apresentar o homem com quem iria se casar, um misto de raiva, tristeza, decepção e amargura porque ela ia apresentar o homem com quem ia se casar, e esse homem não era ele.

– Robert, Robert... É bom finalmente conhecer o homem de que Mary tanto fala. Na verdade, eu estava ficando com medo de perder minha noiva. – Ele disse, sua voz era confiante, imponente, forte... À sua maneira, sedutora.

Rob sorriu, um pouco tímido. Percebeu que ali não existia competição, ele não conseguiria ganhar do homem que ela escolhera... O mais estranho é que isso o consolava, saber que ela tinha alguém tão bom ao seu lado.

– Ah, não se preocupe com isso. Não tem chance da Mary te trocar por mim.

Drake gargalhou com o comentário. Mas até os cegos podiam enxergar a diferença gritante, Drake o'Connor usava um terno negro bem arrumado, seu cabelo era penteado com esmero e seus olhos azuis claros eram... bem, azuis – a cor que todos desejam para seus olhos, e mais, CLAROS.

Rob usava uma camiseta regata que, apesar de não ser velha, já estava bem usada, uma calça jeans que parecia a melhor entre suas roupas e tênis simples, sem marca, sem nada. E, não importava o quanto MacGregor puxasse seu saco, ainda faltava muito para ele se formar.

– Ora, falando desse jeito nunca vai conseguir nada. Precisa de mais autoestima, anime-se!

– É, acho que você tem razão... – Robert esboçou um sorriso, tentando transparecer um pouco mais de animação.

– Esse é o espírito! – Mary comemorou, mas se tivesse olhado melhor veria que aquele sorriso mostrava dor. Drake era, em todos os aspectos e ângulos, melhor para ela do que Rob nunca seria. – Agora que tal a gente ir comer?

Drake era um empresário bem-sucedido o suficiente, Mary parecia ter se formado em direito há pouco tempo mas também mostrava ser bem-sucedida. Robert se sentia deslocado, mesmo com o diálogo fluindo perfeitamente.

Mary começou a olhar fixamente para Robert, apertando os olhos por trás das lentes, inclinando levemente a cabeça.

– O que foi, amor?

– Percebi que tem algo escrito na camiseta do Rob, mas não consigo ler...

– California 33. – Em letras garrafais...

E então tudo se juntou de forma súbita e devastadora na cabeça de Robert. Mary já usava óculos há muito tempo, mas para escolher o sorvete havia mantido o cardápio muito perto, aquele comentário no oculista, a dificuldade em ler a frase em sua camiseta.

Quando percebeu, ele havia acordado em sua cama. A noite havia passado mecanicamente, ele mal lembrava do que tanto havia feito ou dito. Agora que havia descoberto aquilo, sentia necessidade de estar com ela, de vê-la. Foi naquele momento que ele sentiu mais falta do tempo em que eram crianças, vivendo um dia de cada vez sem se importar com o próximo.

Mas eles já não eram mais crianças, e Mary estava para se casar. Rob compartilhava da dor que ela deveria sentir, nunca veria o rosto de seus filhos ou seu marido envelhecer, não veria mais pôr do sóis, nem as estrelas no céu claro. Sentiria a chuva, mas não veria as gotas, assim como sentiria o frio da neve mas não veria a luz refletir nela. Mary estava para se casar, assim como estava para ficar cega.

Precisaria de alguém para ler as coisas para ela, teria de aprender braile e usar o dobro, talvez mais, de papel para escrever as coisas, seu trabalho estava para se tornar inviável a não ser que tivesse um ajudante.

Que se dane, eu vou ser esse ajudante, vou ser os olhos dela! O que ela não puder ver, eu vou descrever, e o que for indescritível eu a farei sentir ou imaginar!

Então ele se levantou, decidido a estar ao lado dela, decidido a não viver sua vida, se isso fosse necessário para que Mary vivesse a dela.

Diria para Drake adiar o casamento, para que eles viajassem. Ela merecia ver o máximo possível de coisas bonitas antes que não pudesse ver mais nada. Ligou para Mary e pediu para que ela e seu noivo o encontrassem no Parque Ecológico Yohonama, um dos mais bonitos do país.

Na hora marcada, lá estavam eles. Mary olhava, com dificuldade, a paisagem de árvores com folhas verdes vivas, as flores nas mais diversas cores. Drake estava apenas sentado em um banco, observando-a observar.

– Drake... Se importa se eu falar um pouco com você? A sós.

– Bem... claro, podemos.

– Ela vai ficar cega. – Rob fez uma afirmação, não uma pergunta. – Não deviam se casar antes disso acontecer.

– E por quê?

– Ela merece ver coisas bonitas antes de perder a visão. Vocês deveriam viajar, têm dinheiro pra isso... Deem a volta ao mundo, vejam todos aqueles cartões postais.

– Ela merece, é?

– Sim, merece. E se você vai se casar com ela sabe disso.

– É, tem razão. O casamento pode ficar pra depois, ela merece ver essas coisas todas antes que fique cega.

– O que vai acontecer logo. – Outra afirmação.

Drake o encarou com interesse renovado, o empresário era um pouco mais alto do que Rob. Eles voltaram para junto de Mary, que tinha agora uma violeta no cabelo e um suco de alguma coisa na mão. Seu noivo sugeriu a viagem para ela, cujo rosto foi invadido por um sorriso caloroso.

Robert sorriu, seu trabalho havia sido feito. Mary ainda veria algumas belezas, e as manteria consigo quando só pudesse imaginar as belezas que a cercassem.

– Rob, você ouviu isso? Nós vamos viajar pelo mundo, meu Deus! Vou te mandar um monte de fotos!

– Que bom! Bom proveito!

– Ahhh, isso até desanima. Pra mim "bom proveito" não significa animação, significa algo do tipo "como se eu me importasse".

– Não, não, eu fiquei animado por vocês. Juro!

– Então tá, vou te mandar o dobro de fotos por causa disso. Vai ficar com vontade de estar lá. – Ela riu, estava genuinamente animada com a notícia.

O dia estava acabado para Robert, ele saiu do parque e foi para o trabalho, depois para a aula. No dia seguinte, Mary invadiu a loja pra ficar falando sobre a viagem.

Na verdade, a semana toda ela ficou falando sobre a viagem, sobre onde iria primeiro, sobre qual era o lugar que mais queria ir. Robert tinha medo de que se ela não fosse logo à Torre Eiffel acabaria explodindo.

E então algo aconteceu. Duas semanas depois, quando Robert já se perguntava o porquê da demora, Mary ligou para ele.

– Rob... – Ela disse, sua voz estava abalada e o choro era claro. – Rob, vem pra cá correndo, por favor. Aqui em casa, mas vem AGORA!

Robert apenas esboçou uma resposta, então saiu correndo da loja. A fechou em horário comercial, isso provavelmente lhe traria problemas, senão uma demissão. Mas não importava, ele precisava correr, algo havia acontecido com Mary e era urgente. Ele pegou o carro e, imprudentemente, atravessou faróis vermelhos, derrubou um motoqueiro e quase atropelou uma velhinha. Chegou na casa de Mary com infrações diversas, além de demitido poderia ir pra cadeia.

Mas isso tampouco importava.

Ele irrompeu pela porta da frente, para encontrar Mary chorando no sofá.

– Mary! Mary, o que foi!?

– Ele levou tudo, Robert! Ele sumiu com tudo!

– Espere, o que aconteceu?

– Drake, esse desgraçado! Pegou todo o dinheiro que supostamente era pra nossa viagem e sumiu! Foi embora! Me roubou e abandonou! Todo o noivado, todas as juras de amor, tudo foi só pra me roubar!

O tempo de Robert parou uma vez mais. Mary chorava em seu braços, as lágrimas escorriam pelos seus braços.

Drake a havia roubado, e ele facilitara tudo. Havia permitido todo o sofrimento que sua amada sentia agora, seu coração cheio de pesar não queria aceitar o que fizera. Como ele devia reagir? O ladrão maldito já estava longe, já devia ter outro nome e talvez até outra cara. E um sorriso no rosto, pois havia se aproveitado de um amor verdadeiro para concluir seus planos. Com a ajuda de Robert, ele havia roubado Mary e fugido impune.

– Foi tudo... culpa minha. Eu sugeri a viagem, eu facilitei pra ele. – Robert disse, mas em voz baixa.

– Não, não foi. Você só queria que eu pudesse ver coisas bonitas, ele fez questão de dizer. – Ela chorou mais.

– Me... Me... O que eu posso fazer?

– Nada, apenas fiquei aqui comigo. Apenas seja meu porto seguro.

– Estou aqui e sempre estarei, não se preocupe. – Robert a abraçou.

– Você me lembra um amigo que eu tinha quando criança... ele sempre me fez sentir segura. Se ao menos eu lembrasse seu nome...

– E se eu te disser que sou esse amigo?

– Então você está mentindo pra ser aproveitar do meu momento de fragilidade. – Ela disse em meio às lagrimas e soluços.

– Também estou mentindo quando te disser que uma vez você me fez te carregar por ser preguiçosa? Que me fez nadar em um rio no meio de um parque público? Que John e Josh viviam dizendo que éramos namorados?

– Meu De... – Ela tentou dizer, mais lágrimas escorreram pelo seu rosto, ensopando suas bochechas. – Robert, você... Por que não me disse?

– Você parecia feliz sem mim, não queria te prender ao passado. – Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dele também, a dor era compartilhada pelos dois.

– Se você tivesse me dito eu.. eu... eu teria...

– Eu sei o que você teria feito. Eu sei porque queria que tivesse feito, mas fui muito covarde... Covarde demais para pedir que fizesse...

Ela o abraçou, um sorriso brotando timidamente de seus lábios.

– Não tem problema, isso não importa mais.

– Tem razão, isso não importa agora. Estamos juntos e é isso que importa.

As lágrimas dela pararam, e com a última delas se foi também sua visão. Robert havia se esforçado tanto para que ela visse coisas bonitas antes de não poder ver mais nada que se sentia culpado. Mas ela havia visto as coisas mais bonitas naquele momento.

Ela havia visto amor verdadeiro e a última coisa que viu foi a face, mesmo que borrada pelas lágrimas, daquele que a amou verdadeiramente.

– Eu te amo. – Eles sussurraram um para o outro.

Mary não viu a Torre Eiffel no fim das contas. Mas esteve nela em sua lua de mel.



Notas finais do capítulo

Talvez eu devesse ter incluído "Tragédia", mas não achei tão radical assim. Se gostaram, deixem um review que talvez eu escreva algum outro romance XD
E, se puderem, curtam minha page, Shoot A Mammoth, e se sintam livres para pedir alguma história, eu tenho o costume de escrever coisas pros outros vez ou outra.



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