O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 99
A Rosa Branca




Céu acima do Pandemonium

 

TENTÁCULOS DE SOMBRAS DISPARARAM EM DIREÇÃO A BALAK HAUSS COMO SE FOSSEM FLECHAS, a uma velocidade tão alta que seus movimentos causavam um zunido irritante, mas o mago do tempo só fez sorrir e erguer calmamente uma de suas mãos em resposta ao golpe, criando uma barreira a partir da ponta dos seus dedos que parou o ataque como se não fosse nada. Ao mesmo tempo, Kastor avançou por trás, batendo suas asas com força para tentar se aproximar antes que ele pudesse reagir e brandindo uma espada cercada por chamas fantasmas em sua direção, mas quando parecia faltar meros milímetros para que o ataque acertasse a nuca de Balak o golpe foi parado por uma barreira invisível, como se feita de vidro. Mas que droga?! O homem não havia tido em momento algum tempo para criar uma barreira – mais do que isso, ele sequer havia tido o tempo de fazer os movimentos necessários para aquilo! Como foi que ele fez isso?! Como foi que...

Foi então que seus olhos viram algo. Balak havia erguido apenas uma de suas mãos para bloquear o golpe de Ekhart, mantendo a segundo atrás das suas costas, e essa segunda mão tinha dois dedos erguidos e uma concentração quase imperceptível de mana ao redor deles. Miserável... ele não teve tempo de movimentar seu braço para criar uma barreira mais precisa, então o que ele fez foi criar uma barreira mais forte e imprecisa de curto alcance. Ergueu seus olhos novamente e viu o mago olhando para ele de rabo de olho, um sorriso cínico e divertido em seus lábios, como se ele estivesse tratando tudo aquilo como uma grande piada. Esse filho da mãe é bem esperto, e ele é bem talentoso com suas magias. Mas ele vai cair. Eu vou me certificar disso!

Girou a sua outra espada, golpeando a barreira com ela com todas as suas forças. Essas barreiras podem ser fortes, mas tudo tem um limite! Coloque pressão o suficiente sobre elas e elas quebram como uma parede de vidro! Aparentemente Ekhart havia tido a mesma ideia, pois foi o tempo de Kastor começar a fazer aquilo para que outros tentáculos viessem pelo mesmo caminho dos anteriores, chocando-se com toda força contra a barreira de Balak, vindo cada vez mais e mais deles. Inicialmente o mago manteve o sorriso no rosto, tratando aquilo como se não fosse nada demais, mas a medida que a pressão ia aumentando a máscara que ele colocou no rosto ia caindo. Não demorou muito para que ele tivesse que mover a mão em suas costas, empurrando Kastor um pouco para o lado com sua barreira para que pudesse abrir ambos os seus braços e concentrar mais força nas suas barreiras.

Isso ajudou um pouco, mas não muito. As barreiras se tornaram claramente mais fortes depois daquilo, mas não demorou muito para que elas começassem a fraquejar depois daquilo. Rachaduras eventualmente se tornaram visíveis nelas, e a expressão de pânico crescente no rosto de Balak foi quase o suficiente para fazer com que Kastor gargalhasse em felicidade. O que foi, mago?! Sem cartas na manga? Sem planos mirabolantes? Não importa a sua estratégia ou o quanto você tente seguir com esse jogo, você é um humano e você tem os seus limites!

Foi nesse momento que, como se ele lesse os pensamentos de Kastor, as feições de Balak mudaram completamente para mostrar um sorriso afiado. Um brilho branco e puro surgiu nas palmas de suas mãos, cegando Kastor um momento antes que ele se transformasse em uma rajada de energia.

Glória! — Gritou o Tecelão do Tempo, liberando duas grandes rajadas de energia santa das suas mãos, rajadas que vieram assim que as suas barreiras foram quebradas. Ekhart, que se mantinha distante do seu oponente enquanto atacava, conseguiu se manobrar para evitar o golpe, deixando que apenas os seus tentáculos fossem desintegrados pela rajada, mas Kastor não teve a mesma sorte. Ele foi atingido em cheio por ela e arremessado longe pela força por trás do golpe, tudo isso enquanto sentia como se seus próprios ossos queimassem dentro do seu corpo. Balak apenas contemplou isso de onde estava, o sorriso em seus lábios se tornando ainda mais largo. Essa rajada é poderosa o suficiente para desintegrar grandes prédios imediatamente. Ela deve ser ainda mais poderosa em demônios como você, principalmente agora que você assumiu a sua forma demoníaca. E no entanto, sabia que isso não seria o suficiente. Os Corações são demônios poderosos, e por mais que você ainda não tenha acesso a todo o poder deles, você tem o bastante para ser bem chato de si matar. Algo assim não vai ser o suficiente para te derrubar completamente, não..., mas isso vai te deixar ferido por tempo o suficiente para que eu possa me focar no seu amiguinho.

Ainda sorrindo, Balak voltou seu rosto para o Demônio Negro... apenas para ser surpreendido quando viu que esse havia se aproveitado da sua pequena distração para fazer seu caminho em sua direção, estando perigosamente próximo naquele exato momento.

Surpreendido, o mago tentou rapidamente criar uma barreira protetora a sua frente, mas nem bem começou a mover o seu braço e um tentáculo de sombras disparou do ombro direito de Ekhart, enroscando-se ao redor do pulso de Balak, e então ele subitamente não conseguiu mais transferir mana para a palma da sua mão. Isso é.… não me diga que esse tentáculo pode interromper o fluxo de mana do meu corpo?! Aquilo era péssimo, não só pelo fato de que isso lhe atrasava, mas também porque aquilo também estava lhe segurando, o que significava que ele não iria conseguir se afastar de seu oponente agora. Maldição...!

Tentou ainda criar a barreira com sua outra mão, mas não teve tempo; no momento em que começou a fazer seus movimentos ele viu Ekhart já bem diante de si, com seu braço esquerdo envolto por uma massa negra que era mais grossa na região do ombro e se afunilava até chegar numa ponta na sua extremidade, tendo cinco traços laminados que desciam em uma espiral até essa ponta – traços que logo se tornaram impossíveis de se ver a olho nu no momento em que aquilo começou a rodar em altíssima velocidade.

Broca Negra! — Entoou Ekhart, e de uma vez a grande broca em suas mãos avançou com tudo contra Balak, sem que o mago tivesse qualquer condição de impedi-la. Ela perfurou e atravessou seu peito bem no meio, e o movimento giratório arrancou boa parte do seu estômago e peitoral como se não fosse nada, criando um verdadeiro buraco vermelho em Balak e espalhando sangue e pedaços de carne retalhada para todos os lados. Vomitou o que deveria ser litros e litros de sangue sobre ela enquanto sentia aquela dor terrível que lhe fazia não querer nada mais do que chorar de dor, mas não fez isso. Não chorou, não gritou, mal sequer grunhiu.

Custasse o que custasse, não ia dar um prazer desses aos seus oponentes.

Os orbes dourados de Ekhart olharam nos seus olhos mesmo enquanto a broca fazia todo aquele estrago, lhe encarando sem dizer uma palavra como se estivesse se perguntando como ele conseguia continuar consciente depois daquilo. Então, subitamente, ele retirou a broca de Balak em um movimento rápido, fazendo com que o corpo do mago vacilasse e pendesse para frente, e então a sua garra direita caiu como um martelo, acertando um golpe de mão aberta com toda a força na parte de trás do crânio de Balak como se quisesse esmagar a sua cabeça com um único golpe.

Sofra a pior das dores pelos seus crimes, Hauss, e então afunde no abismo da escuridão! — Declarou Ekhart, um instante antes que seu golpe arremessasse o corpo de Balak em alta velocidade para baixo, fazendo com que ele quebrasse a própria plataforma que havia criado com ele e avançasse com tudo em direção ao Pandemonium. Não estava satisfeito só com isso, no entanto, e por isso ele ajustou sua posição no ar para que estivesse com seu corpo virado na direção de Balak. Esticou ambos os seus braços, desfez a sua broca e fez com que tentáculos de sombra viessem de seus braços, se esticando e disparando contra Balak como se fossem lanças. – Canção Impura do Rei da Noite: Sinfonia da Destruição Celeste!

Rasgando os céus como anjos negros, seus tentáculos foram lentamente assumindo a forma de verdadeiras lanças enquanto faziam seu caminho em direção a Balak, ganhando ainda mais velocidade graças a sua forma aerodinâmica, miradas direto no mago do tempo.

Foi então que, mesmo enquanto caia e com o corpo coberto em seu próprio sangue, Balak sorriu, e um momento após o seu sorriso se mostra o buraco em seu peito já não existia mais. Uma plataforma formou-se bem abaixo dele, cerca de três vezes maior do que as normais, e suas costas explodiram contra ela. Que aquilo havia doido era óbvio, mas Balak não exibiu sinal algum de dor. Ao invés disso o que ele fez foi erguer ambos os seus braços e estendê-los aos céus – em direção às lanças que vinham contra ele e, mais importante, de Ekhart – e então as palmas das suas mãos brilharam em branco.

Santa Extinção! — Trovejou ele, e das palmas de sua mão vieram dezenas de feixes de luz branca, raios puros que aniquilaram as lanças de sombra de Ekhart como se elas não fossem nada com um único toque, sem deixar uma migalha para trás. Os ataques de Ekhart haviam sido rápidos, facilmente capazes de superar a velocidade do som, mas aqueles raios eram feitos de pura luz e portando tinham a velocidade da luz, uma velocidade com a qual o Demônio não podia esperar competir. Ele nem teve tempo de compreender o que havia acontecido antes que os orbes que serviam como seus olhos se arregalassem e um grito de dor escapasse da sua garganta a medida que seu peito, pernas, asas e braços eram perfurados por inúmeros raios de luz.

O demônio começou a gritar e se debater de dor em meio ar, e enquanto ele fazia isso Balak se levantou calmamente. Cuspiu um pouco de sangue que havia ficado em sua boca pro lado e moveu sua mão esquerda para o queixo, sentindo-o sujo; quando olhou para seus dedos, eles estavam tingidos de vermelho.

— Ah, droga, ele estragou a minha melhor roupa – reclamou Balak em tom desolado, olhando o buraco que suas vestes haviam ganhado na parte das costas e como a maior parte das suas roupas haviam agora sido tingidas de vermelho. Não só elas, mas graças ao último ataque de Ekhart uma boa parte do corpo de Balak havia ficado sujo com seu próprio sangue, incluindo seu peito, queixo e pescoço. – Ora ora, dessa forma eu pareço mais um zumbi do que tudo. Que.… deselegante. Vamos concertar isso, sim? – Com um estalar dos dedos Balak fez com que uma onda de magia começasse a fluir pelo seu corpo, começando nos pés e subindo em direção a sua cabeça. Por onde ela ia passando, Balak ia sendo arrumado. Suas vestes eram limpas e ajeitadas e até reparadas se haviam sofrido algum dano, e até mesmo o sangue no seu corpo foi limpo por aquela magia, desaparecendo sem deixar rastros como se ele nunca tivesse existido em primeiro lugar. Em menos de um minuto Balak estava completamente de volta ao seu estado normal, como se nada tivesse acontecido. – Ah, bem melhor agora. Nada melhor do que se sentir limpo e elegante antes de matar alguns demônios – murmurou ele, estalando seu pescoço para um lado e para o outro antes de parar e focar seus olhos vermelhos sobre Ekhart, o demônio que ainda se debatia no céu. – Agora... hora de começar o extermínio.

Dobrou suas pernas e colocou cinco feitiços sobre elas simultaneamente. Usou a Metamorfose para transformar o que deveria ser carne em diamante, fazendo com que elas se tornassem muito mais duras do que deveriam ser. Usou Endurecimento para aplicar uma camada de magia sobre isso, fazendo com que os diamantes se tornassem negro e com que a dureza deles triplicasse. Usou Reforço para ampliar a força quintuplicar a força dos músculos de sua perna, permitindo que colocasse muito mais poder sobre os seus movimentos. Usou Jet para ampliar a velocidade das suas pernas, permitindo que as movesse em uma aceleração dez vezes maior do que a sua velocidade base, e por fim usou Benção para não só elevar todos os parâmetros que envolviam as suas pernas em um nível como também para aplicar características sagradas sobre elas, fazendo com que elas fossem basicamente iguais às técnicas santas que usava. Vamos ver como você lida com isso, demônio. Eu posso ser um mago e especializado no combate a longa distância, mas eu também sou bem letal no corpo-a-corpo. Permita-me demonstrar.

Quando saltou o seu avanço foi tão rápido como o de um falcão, fazendo com que ele subisse pelos céus com um controle e habilidade espantosos, dignos das maiores e melhores aves que o mundo um dia já viu. Essa velocidade impressionante só foi ainda mais ampliada quando ainda em ar liberou ondas de impacto da sola de seus pés para impulsionar-se ainda mais rapidamente em sua ascendência, e com a ajuda dessa velocidade ele alcançou Ekhart num piscar de olhos. E então, quando se viu paralelo ao seu oponente, Balak moveu sua perna direito em um chute carregado com toda a sua força, um chute que moveu com uma velocidade que se comparava a da luz, com uma força digna dos titãs e uma dureza capaz de fazer com que diamantes parecessem algodão.

A mera onda de impacto criada pela colisão do seu golpe foi o suficiente para fazer com que o mundo parecesse ficar surdo e mudo, fazer com que todos os sons morressem e com que o deslocamento de ar resultado daquilo fosse como a ventania de um furacão, ameaçado varrer o próprio Pandemonium de existência. Ao longe – muito longe deles, a cerca de quarenta e dois quilômetros de distância, visível apenas devido à altura a que estavam e graças ao seu monstruoso tamanho de cinco mil e seiscentos metros – jazia uma das grandes montanhas do Sul, uma montanha conhecida como “Pico da Providência”, famosa e imortalizada em histórias por ser o local aonde um Oráculo ouviu vozes misteriosas que lhe avisavam sobre o que viria a se tornar a Guerra dos Grandes depois de alguns meses. Foi em direção a essa montanha que Ekhart foi arremessado, e a força e velocidade desse arremesso forma tão monstruosas que por onde ele passou o mundo se abriu; os céus se partiram, as árvores foram arrancadas do chão e jogadas longe pela força do vento, e em um piscar de olhos o Pico da Providência foi quebrado em quebrado em pedaços que caíram um após o outro sobre o demônio soterrado sobre ele.

Girando majestosamente no ar como que em um passo de dança, Balak só precisou estalar um de seus dedos para criar uma de suas plataformas sob os seus pés para apará-lo. Virado em direção a montanha que ruía, o mago não tentou esconder o sorriso de seu rosto enquanto observava a destruição que havia causado. Parece que eu fiz um bom estrago com isso. Considerando a força por trás do meu ataque, creio que é seguro imaginar que Ekhart deve estar bem ferido depois disso. E, no entanto, não se sentia confiante o suficiente para afirmar que ele estava morto. Hum... como um demônio, o Coração Negro certamente é poderoso o suficiente para sobreviver a um golpe como esse. É verdade que Ekhart não é exatamente tão forte quanto ele, mas seria arrogância demais assumir que sou poderoso o suficiente para mata-lo tão facilmente com um único ataque. Estupidamente arrogante. E se tinha algo do qual Balak se orgulhava, era do fato de ser alguém que evitava os erros estúpidos que culminavam nas falhas de tantos e tantos pelo mundo afora.

Ergueu sua mão direita acima de sua cabeça e estendeu dois de seus dedos – o indicador e o pai-de-todos – em direção ao céu. Nada aconteceu por um momento, fazendo com que o mais puro silêncio reinasse pelo ambiente... até que lentamente esse silêncio foi sendo quebrado pelo som de uma música, a mais bela melodia. Um coro de vozes harmônicas e angelicais ressoou, murmurando palavras que fugiam a qualquer idioma daquele mundo, mas que ao mesmo tempo eram fáceis de se entender. Uma prece, uma oração, uma melodia de louvor e adoração ao mais alto dos Deuses que veio acompanhando feixes de uma pura energia branca que vinham de todos os lados, parecendo materializarem-se do próprio ar, se juntando em uma esfera branca que brilhava acima da cabeça de Balak – ainda pouco maior do que a sua cabeça, mas com um brilho tão intenso quanto o do sol da tarde.

— Ouve essas vozes, demônio? Elas são as Vozes da Adoração. Os sons das preces dos fiéis. Essas são as vozes de todas as pessoas que, em algum ponto da existência, oraram em adoração com corações cheios de fé. Não importa para qual Deus eles oraram, pois no fim das contas, todas as orações vão para apenas um: o maior de todos, o Deus que criou os Deuses, o que alguns chamam de o Original. Toda a fé das pessoas do mundo se reúne em poder às mãos dele, e como o descendente de um clã de caçadores de demônios, eu sou uma das últimas pessoas vivas com o poder, o direito e a honra de usar um pouco desse poder em minha missão. Isso que eu vou lhe mostrar é pouco na grande escala da existência, menos que a milésima parte de um milésimo..., mas mais do que o suficiente para erradicar a sua existência. Prove do poder das orações dos homens e seja exterminado, Demônio! — A esfera que antes era minúscula se expandiu de uma só vez a proporções inimagináveis. Ela, que antes era pouco maior do que a cabeça de Balak, se tornou tão grande quanto a própria fortaleza do Pandemonium, brilhando com uma intensidade tão grande que toda aquela seção do mundo foi envolvida por uma luz branca que engolia todas as sombras. Mas isso não incomodava. Pela lógica, toda aquela luz e o calor que ela trazia deveria causar uma dor imensa, mas ela não fazia nada contra Balak, e ele sabia bem o porquê. Essa energia das preces é a mais pura de todas. Ela desintegra os impuros e purifica os puros. Ela protege os inocentes e pune os malfeitores. Em outras palavras... ela extingue aqueles com corações maldosos, mas não faz absolutamente nada com aqueles que tem corações bondosos. E essa... essa era a maior prova possível que, apesar de tudo, Balak estava no caminho certo. – Tome isso, demônio! SANTA NOV-

Investida do Dragão Demoníaco!

A voz que disse aquelas palavras soou familiar aos ouvidos de Balak, mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa sentiu algo duro lhe acertar com força na boca do estômago, avançando em alta velocidade pelos ares e arrastando o mago consigo como se não fosse nada. A força absurda com a qual aquilo arrastava Balak fazia com que ele não conseguisse parar por mais que tentasse, e não demorou muito para que ele visse toda a energia santa que havia reunido para a Santa Nova se perder, se dissipando para todos os lados agora que não tinha ele para canalizá-la. Maldição! Esse ataque iria marcar a minha vitória! Nada conseguia descrever a fúria que sentiu com aquilo, mas conseguiu canalizar essa fúria de forma útil; voltou seus olhos para baixo e com eles viu quem exatamente era o responsável por aquilo.

Com suas asas batendo com força para fazer com que ele ganhasse cada vez mais velocidade com sua cabeça batendo de frente no estômago de Balak – deixando claro que o golpe que havia lhe acertado era uma cabeçada, de todas as coisas – Kastor Strauss confrontava o mago do tempo sem medo, nem qualquer sinal dos ferimentos que a Glória deveria ter lhe causado.

Maldição... você é um maldito estorvo, Strauss! Concentrou energia na palma de sua mão direita e sem pensar duas vezes desceu ela contra o meio das costas de Strauss, decidido a jogar o cavaleiro direto no chão em retaliação por aquilo, mas não conseguiu fazer nem isso. Por mais que ele estivesse focado no ataque, Kastor não estava completamente desatento ao que acontecia ao seu redor; assim que a mão começou a descer ele foi rápido em parar o seu ataque e bater suas asas na direção contrária, recuando rapidamente a tempo de evitar o golpe do Tecelão do Tempo. Com sua mão livre Balak criou rapidamente uma plataforma no ar, e seus olhos vermelhos caíram sobre a figura do Dragão Demoníaco Alado com mais do que apenas um pouco de ódio no olhar.

— Strauss – disse Balak, cuspindo um pouco de sangue para o lado. Havia sentido aquela última pancada, mas por sorte contava com a Joia do Infinito e as habilidades sobre-humanas de cura que sua magia temporal lhe proporcionava, e por isso não demorou mais do que alguns momentos para que seu corpo estivesse como novo, sem qualquer sinal do golpe que havia lhe atingido. Fechou seus olhos por um momento e respirou fundo para tentar se acalmar, e quando voltou a abri-los ele fez seu melhor para mimicar adequadamente o seu ar arrogante de sempre. – Você me surpreende. Pensei que você iria ficar fora de combate por mais tempo do que isso, principalmente depois de ter levado um golpe como o “Glória” a queima-roupa daquele jeito. Parece que você é mais durão do que eu imaginei.

Ou que você não é tão forte quanto se acha— retrucou o azul, em um tom totalmente desprovido de graça. Fez uma feição de ofendido ao ouvir aquilo, mas secretamente ele se alegrava com isso. Irritadinho ele, não é? Perfeito. Isso só facilita um pouco mais o meu trabalho.

— Ah, por favor Kastor, sem mentiras agora – murmurou Balak no seu tom condescendente, mostrando um sorriso zombeteiro e provocante ao cavaleiro. – Você sabe tão bem quanto eu que isso não é verdade. Quero dizer, se esse realmente fosse o caso, então o seu amiguinho não teria sofrido tanto com o meu chute, não é? – Sem nunca deixar de sorrir, Balak moveu seus olhos para a montanha destruída de forma bem visível. Kastor não acompanhou o movimento, mas pela forma como as feições do dragão se tornaram sombrias ele teve a certeza de que ele sabia a que se referia, e isso era o bastante. – Esse foi um chute bem poderoso, sabe? Para destruir uma montanha tão grande e tão longe com o corpo do meu oponente... ora, eu poderia dizer até que exagerei um pouco nisso. Não sei, não sou nenhum especialista, mas... diga, vendo o estrago que o meu chute causou, não acha que pode ser que Ekhart esteja com graves problemas? Hehe, sabe, isso chega a ser engraçado. O que você acha que o matou, Kastor? O pescoço quebrado, o choque do impacto ou os destroços que o esmagaram?

Ekhart não está morto, e você sabe disso tão bem quanto eu. — A réplica do azul veio surpreendentemente segura, algo que Balak francamente não esperava considerando o que saiba da personalidade dele e a forma como ele parecia irritado, fazendo com que ele fosse temporariamente desarmado e com que seu rosto exibisse a sua surpresa por isso. – Se você acreditasse que Ekhart havia sido morto com aquilo, você nunca teria gastado tempo tentando executar aquela magia. Se não pela quantia de mana que algo daquela dimensão deve gastar, pelo fato daquilo lhe deixar completamente aberto a ataques, como a minha interrupção da sua técnica provou.

Ele está falando da Santa Nova, compreendeu Balak, e seu rosto azedou de imediato. Maldito, esse cavaleiro é mais esperto do que parece. E falando nisso... agora que ele mencionou a Santa Nova eu me lembrei de uma coisa. Como ele não está ferido? A mera luz emitida pela Santa Nova deveria ser poderosa o suficiente para erradicar o mal; um demônio como Kastor deveria ter sido completamente desintegrado assim que ela caiu sobre ele. E ainda assim, ele não tem nada. Nenhum sinal de queimadura, nenhum ferimento aparente... ele nem parece estar cansado, o que indica que ele não deve ter usado nenhuma técnica para se proteger dela. Mas se era assim, então qual poderia ser a explicação para isso? Aquela luz engole tudo, sem deixar sombras. Não há lugar para se esconder dela. E mesmo que tivesse, Kastor não teria como fazer algo assim enquanto avançava contra mim. O que significa que... a única explicação coerente é que a Santa Nova não tenha lhe ferido. Ou, melhor dizendo... que ela não seja capaz de o ferir.

Francamente, não sabia o porquê de estar tão surpreso com isso. O Coração Azul podia viver dentro de Kastor, mas isso não mudava o fato de que ele era apenas algo contigo no interior do cavaleiro. Seu hospedeiro era uma entidade separada, e até onde Balak sabia, ele não era particularmente mal. A Santa Nova só faz mal aos que tem corações maldosos, e tecnicamente, quem ela estava julgando era Kastor, não Coração Azul. O que significa que é completamente possível que a corrupção do Azul não tenha se estendido até o coração de Kastor ainda, o que significaria que ele seria visto como “bondoso” pela técnica. Aquilo era um pouco ingênuo, mas era como a técnica funcionava, e Balak não podia fazer nada quanto a isso. Eu não sei se o mesmo vale para Ekhart e o seu coração, mas isso significa que Kastor em particular é imune a uma técnica como essa. Algo um pouco problemático, mas nada demais.

Tinha muitas técnicas feitas especialmente para derrotar os hospedeiros em seu arsenal, e já tinha até uma ideia perfeita da próxima que usaria contra Strauss.

— Você parece bem certo do que fala, Strauss. – Apesar de já ter realizado o seu ataque há um bom tempo a essa altura, a sua despreocupação com gastos de mana havia feito com que optasse em manter as magias de antes ativas, o que já lhe deixava preparado para o que estava por vir a seguir. – Vamos testar essa convicção, hum?

Disparou contra o cavaleiro-demônio antes que ele tivesse chance de sequer tentar tirar alguma lógica da sua declaração, girando em alta velocidade em meio ar para desferir um chute carregado com todas as suas forças direto contra o rosto de Kastor. O demônio aparentemente conseguiu ver o seu ataque apesar dos seus melhores esforços, no entanto, e um de seus braços se ergueu em sua defesa. Ficou surpreso por isso em um primeiro momento, mas não demorou nada para que desconsiderasse essa tentativa de defesa. Braço ou sem braço, não faz diferença! Com o poder por trás do meu chute, todas as defesas são nulas diante de mim! Eu vou quebrar seu braço com esse golpe, Kastor Strauss.

Foi isso que ele pensou, mas quando seu chute colidiu com tudo contra o braço de Kastor, ele foi parado. A onda de choque veio, fazendo com que tudo estremecesse e balançando o próprio mundo ao redor deles, mas não aconteceu nada além disso.

Kastor havia recebido seu chute – o mesmo chute que havia lançado Ekhart por quilômetros em questão de segundos e destruído completamente uma montanha distante – diretamente, e mesmo assim, Balak não conseguiu movê-lo um centímetro sequer. Dizer que os seus olhos se arregalaram diante disso era pouco para sequer começar a descrever o estado em que se encontrou após aquilo.

Eu sou um cavaleiro, criado e treinado no Salão Cinzento, com os poderes de um dragão-demônio lendário, famoso por ter sido capaz de matar até os Deuses— declarou Kastor friamente, olhando direto nos olhos de Balak enquanto dizia cada uma dessas palavras. – É bem idiota da sua parte achar que tinha alguma chance de competir comigo no combate corpo-a-corpo.

Abriu a boca para responder a isso, mas foi interrompido quando Kastor moveu rapidamente um de seus punhos para desferir um soco poderoso direto na boca de Balak, arrancando boa parte de seus dentes e arremessando o mago em direção ao chão em alta velocidade. Mas o quê... o que diabos?! Com sua boca cheia de sangue Balak ainda tentou girar de alguma forma no ar para poder reagir àquilo, mas mal começou a fazer isso e uma sombra passou rapidamente acima da sua cabeça, obscurecendo sua visão por apenas um instante, mas mais do que o suficiente para que sentisse o medo subir pela sua espinha. Um momento depois sentiu uma dor excruciante em suas costelas, e quando olhou para o lado viu que lá Kastor, pairando a mesma altura que ele, com a perna que havia usado para golpear suas costas ainda meio erguida. Uma das garras de Kastor se fechou ao redor de seu braço, e aproveitou-se desse momento para usar sua magia tanto quanto podia para reverter o seu corpo e melhorar as suas condições o máximo possível, uma decisão pela qual logo agradeceu. Kastor arremessou-o violentamente pelo ar como se fosse uma bola de arremesso, mas Balak se dessa sem muitas dificuldades, girando um pouco no ar antes de criar uma plataforma sob a qual pudesse aterrissar. Caiu sobre ela de joelhos e ofegante, respirando em golfadas longas para tentar manter um pouco de ar em seus pulmões, ao menos até ouvir o som de algo avançando. Ergueu sua cabeça e o que viu foi uma grande rajada de energia azulada avançando em sua direção como um grande raio da morte, parecendo incendiar o próprio ar ao seu redor enquanto seguia. Tch, nem um momento de descanso, não é? Por mim, tudo bem. Bateu suas mãos em posição de reza a frente de seu corpo, e sem hesitar ele realizou a invocação.

Ghaal Maas!

Mais uma vez o escudo da Deusa surgiu em sua frente como um grande guardião, e mais uma vez a rajada de energia foi incapaz de quebrar através dele. Não pode deixar de abrir um curto sorriso ao ver isso, já com seus dentes de volta e com sua boca se sentindo bem, apesar de todo o sangue nela. Não importa o quanto você tente, Kastor, isso nunca vai funcionar. Não importa quanto poder você coloque por trás desse ataque ou como você tente o usar, eu vou estar sempre um passo à frente. Você nunca vai me atingir com um ataque des-

Eu notei isso da primeira vez e pensei em te avisar...— começou uma voz familiar, fácil de reconhecer, e o seu soar fez o sangue de Balak gelar. Impossível... absolutamente impossível.... Seu rosto começou a se voltar para trás, e ao fazer isso ele viu duas coisas; o punho que vinha em sua direção, próximo demais do seu rosto para que pudesse se defender dele, e o rosto de Kastor Strauss, o Dragão Demoníaco que estava às suas costas, respirando um hálito de chamas fantasmas e fitando Balak com uma intenção assassina impossível de se perder no olhar. – Quando você usa esse escudo, você foca toda a proteção na frente e esquece do resto. Sua direita, esquerda e principalmente as suas costas... todos ficam abertos.

O soco lhe acertou bem no meio do rosto com a brutalidade de uma marreta. Sentiu seu nariz e dentes se quebrarem, sentiu seus olhos incharem, sentiu a sua própria cara sendo empurrada para dentro do rosto por nada mais do que a força brutal por trás daquele ataque, e essa sensação durou por alguns instantes que pareceram uma eternidade antes que ele fosse isolado. Foi jogado longe pela força do golpe em alta velocidade, tão rápido que as nuvens no céu passavam como borrões diante dos seus olhos. Maldição, isso está começando a se tornar realmente problemático...! Podia se curar daqueles golpes usando sua magia para reverter seu corpo ao estado que estava antes deles, mas tinha que ter um certo tempo para fazer isso, e cada vez mais Kastor estava lhe deixando sem reação com as suas sequências de golpes. Eu tenho que de alguma forma ao menos acabar com o momento dele para que eu possa ter a chance de reagir. Se eu não conseguir, ele vai acabar me matando com esses seus golpes consecutivos!

Usou novamente a sua magia para criar plataformas, mas dessa vez viu-se forçado a fazer algo um pouco mais diferente. Seu corpo ainda estava sendo arremessado pelos ares a essa altura, e isso fez com que ele decidisse criar uma de suas plataformas atrás dele para servir como uma espécie de parede em meio ar. Suas costas acertaram essa parede em cheio com todas as forças, fazendo com que cuspisse um pouco de sangue, mas apesar da dor imensa que sentiu ele de alguma ainda conseguiu criar outra plataforma abaixo de seus pés, sob a qual caiu ajoelhado e exausto, respirando fundo para tentar manter o ar nos pulmões. Além do mais... se por nada mais, eu deveria acabar com esses ataques por dó de mim mesmo. Não corria grandes riscos com as suas feridas caso ficasse se recuperando delas de novo e de novo, mas isso não mudava o fato de que ainda sentia muita dor com cada um daqueles golpes.

Enquanto estava de joelhos em sua plataforma, tentando se recuperar o melhor possível e usando sua magia para tentar reverter os danos que havia sofrido, um brilho azul começou a tomar conta do ambiente, e esse serviu como um aviso imediato para Balak de que Kastor estava seguindo com o seu próximo ataque. Rangeu os dentes em frustração, mas por mais que quisesse fazer o contrário o mago ergueu o rosto para ver exatamente o que o cavaleiro estava fazendo, e teve sua resposta de imediato. O Dragão Demoníaco estava parado em pleno ar, sustentado pelo bater das suas asas, e sua boca se encontrava aberta naquele momento para que pudesse armazenar energia dentro dela. Uma esfera de energia azulada brilhava na boca de Kastor, um brilho forte o suficiente para afetar toda a área ao redor dele, e mesmo de onde Balak estava ele conseguia ver partículas de energia azulada seguirem em direção a esfera de Kastor, atraídas a ela como um urso ao mel. Isso é.… mana. Ergueu uma sobrancelha ao constatar isso, mais surpreso do que nunca. Eu pensei que Kastor trabalhava unicamente com Chamas Fantasmas, mas parece que eu estava enganado. Então, o Coração Azul é capaz de usar também mana, ao menos em alguns ataques? Isso é interessante. E muito, muito perigoso. E no entanto... no entanto, o que se abriu em seu rosto ao ver aquilo foi um sorriso, grande e largo. Aquilo dava tempo a Balak, o tempo do qual ele tanto precisava. Tempo para se recuperar... e tempo para preparar a técnica que podia bater de frente com aquele demônio.

Terminou de se curar com a sua magia do tempo e se colocou em pé com um salto. Bateu ambas as suas mãos numa posição de reza e fechou os olhos, se concentrando, se focando no que tinha de fazer. Deixou que sua mana fluísse por todo o seu corpo livremente, sem limitá-la a um ponto especifico, e uniu ela a outra coisa: o poder da fé. Ainda que a Santa Nova não tenha sido completa, eu ainda tenho resquícios do poder que usei para tentar cria-la ao meu alcance. Isso vai me servir bem. Todas as Magias Sagradas eram alimentadas pelo poder da fé de uma forma ou de outra, mas aquela em particular era uma das mais avançadas desse tipo de magia, e por isso os seus requerimentos eram consideravelmente mais elevados.

Não demorou muito para que os efeitos daquela magia começassem a surgir. Atrás de Balak, surgindo a partir da sua cintura, abrindo-se e estendendo-se para cima ao ponto de ter a sua ponta pairando há mais de um metro do topo da cabeça do mago, surgiu uma espécie de pétala de energia branca, idêntica a pétala de uma rosa. E não demorou muito para que outras iguais a essa surgissem. Originadas do mesmo ponto da primeira, pétalas surgiram se abrindo para a direita, esquerda e para baixo – sendo que essa última chegou até mesmo a passar através da plataforma de Balak de forma completamente harmônica, sem causar o menor dano a ela –, todas aproximadamente do mesmo tamanho e com as mesmas dimensões, todas brilhantes e reluzentes em oposição ao brilho azulado que vinha da concentração de poder de Kastor. Se você pretende me matar com uma rajada de energia, Azul, então eu vou jogar o seu jogo. Vou combater fogo com fogo.

Rosa Branca! — Gritou Balak enquanto movia um de seus braços e apontava com um dedo em direção a Kastor, e no momento em que fez isso as quatro pétalas que ele havia criado seguiram o seu comando. Suas pontas se dobraram na direção para a qual ele apontou e se estenderam em direção ao seu alvo, ganhando velocidade em questão de instantes até o ponto em que se foi possível ouvir a barreira do chão se quebrar, avançando contra Kastor na forma de quatro grandes feixes de energia que em meio ar se misturaram numa única rajada poderosa que avançou contra o demônio azul como se fosse a ponta de uma flecha... bem no momento em que a técnica de Kastor ficou pronta.

Rugido da Destruição do Dragão Demoníaco! — A boca do dragão havia se fechado e sua cabeça foi jogada para trás por um momento, mas quando ele a lançou de volta para frente e tornou a abrir sua boca uma enorme rajada de energia azulada foi disparada por ela, grande e destrutiva o suficiente para se comparar facilmente à rajada da Rosa Branca.

Ambas as rajadas se chocaram a meio caminho, e só o impacto de uma com a outra foi o bastante para fazer com que o mundo fosse tingido por apenas duas cores; o azul fantasmagórico que predominava do lado de Kastor e o branco puro que predominava do lado de Balak. Esse ataque certamente é bem forte!, observou o mago, uma careta de esforço reinando soberana sobre as suas feições enquanto ele colocava toda a sua força sobre a rajada para tentar competir com Kastor. Estava mordendo seus próprios dentes com tanta força que sentia sangue escorrer por entre eles, e estava se esforçando tanto em colocar força sobre a sua rajada que sentia seus braços queimarem e via as próprias pontas dos seus dedos descascarem, mas seu esforço foi recompensando quando viu que sua rajada estava começando a fazer pressão sobre Kastor, empurrando o disparo azul do cavaleiro-demônio cada vez mais para trás, chegando cada vez mais perto dele. Isso! Continue assim! Mais um pouco! Só mais um pouco e esse demônio vai finalmente morrer! Seus olhos brilharam como os de uma criança ao ver aquilo, tudo de pura felicidade.

Mas essa felicidade não durou muito. Mesmo enquanto se focava em colocar mais e mais força sobre o seu ataque, Balak não deixou de notar a forma como ambos os braços de Kastor começaram a subitamente arder em chamas azuis. Ele está planejando alguma coisa!, compreendeu o mago, mas não tinha mais condição de fazer nada contra aquilo. Suas duas mãos estavam todas ocupadas, e por isso Balak não pode fazer nada mais do que observar passivamente enquanto Kastor disparava chamas azuis das suas mãos para a sua rajada, fazendo com que suas chamas fantasmas se misturassem a sua rajada de mana e com que começasse a correr pelo raio de energia como uma espécie de espiral de fogo, aumentando ainda mais a força da sua rajada e começando a empurrar a rajada da Rosa Branca de volta contra Balak, cada vez mais. Não, não, não, não, não! Eu estava tão perto! Tentou o seu melhor para empurrar aquela rajada de volta, mas em seu interior, já sabia que aquilo seria inútil.

Sem que pudesse resistir aquela força, a rajada de Kastor atingiu Balak diretamente, engolindo completamente o corpo do Tecelão do Tempo.

=====

Suas asas bateram em um ritmo maneirado, só para mantê-lo na altura em que estava. Sua respiração estava descompassada pela sua exaustão, e as chamas azuis que normalmente queimavam ao redor de sua boca haviam desaparecido por hora, graças a grande quantia delas que havia acabado de usar. Apesar disso, Kastor não tinha arrependimentos disso. Usar essas chamas foi necessário... eu precisava acertar esse golpe. Aquelas rajadas eram algumas das técnicas mais poderosas que seu arsenal havia ganhado com sua parceria com o demônio no seu interior, mas elas eram também bem desgastantes, técnicas que não podiam ser desperdiçadas de forma alguma.

Bom, o que importa é que eu acertei ele. Fumaça reinava soberana sobre o trajeto pelo qual o seu raio correu, e ela sobre essa fumaça que Kastor mantinha o olhar, atento a qualquer sinal do seu oponente. É difícil imaginar que qualquer coisa nesse mundo possa sobreviver a um disparo direto de algo como isso, mas Balak já mostrou ser alguém ardiloso, cheio de truques na manga. Havia visto seu ataque acertar o mago, mas isso não era o suficiente; havia lhe cortado pessoalmente momentos antes, quando ainda se encontravam em terra firme, e isso não havia impedido o mago de sobreviver e continuar a lutar contra eles.

Acerto direto? — Perguntou uma voz com tom único, mais do que o suficiente para que Kastor pudesse identificar o dono dela imediatamente. Virou sua cabeça na direção dele um pouco mesmo assim, só para olhar Ekhart. Apesar de ter sofrido um golpe tão poderoso de Balak anteriormente, o Demônio Negro até parecia estar em bom estado. Seu corpo negro tinha certas rachaduras, sim, e parecia que um de seus chifres havia se quebrado graças ao golpe, mas tudo isso iria se regenerar ao seu tempo.

Pelo que parece, sim — retrucou Kastor, voltando a olhar para a fumaça com atenção, disposto a não perder qualquer coisa que pudesse vir dela, por menor que fosse. – Não confio totalmente nisso, no entanto. Vou ficar observando daqui para me certificar.

Hmm, não vou negar a importância de ser cuidadoso em uma luta contra um oponente desse nível, mas talvez você queira reconsiderar ficar simplesmente observando as coisas — sugeriu o Coração Negro. – Shell está enfrentando o Anjo de Sangue sozinho nesse exato momento, e esse não é um oponente fraco. Se continuarmos deixando ele sozinho, é bem capaz que ele seja derrotado.

Eu sei, e eu quero ajuda-lo, mas não adiantaria que eu fosse lá para lhe ajudar contra esse oponente e deixasse a minha guarda aberta para um ataque de Balak — apontou Kastor. Já havia se decidido quanto àquilo, e não ia voltar atrás na sua decisão a não ser que fosse absolutamente necessário. Além do mais, eu não seria tão rápido em julgar Shell. Posso não o conhecer a tanto tempo quanto os outros, mas ele pareceu ser bem forte pelo que eu já vi e é membro de um grupo seleto de elite do Colégio Branco. Ele não vai cair tão fácil assim. Talvez ele até seja capaz de ganhar sozinho.

Mas confiando ou não em Shell, também não era estúpido o suficiente ao ponto de deixar o seu companheiro correr um risco sozinho desnecessariamente.

Vá você, Ekhart. Ajude Shell — disse Kastor. – Eu ficarei aqui de guarda. Assim que eu me certificar de que Balak não será mais um problema, eu me juntarei a vocês.

— Bom, então espero que os dois tenham trago alguns livros e cadeiras, porque vocês vão esperar por um bom tempo! – A voz zombeteira veio de dentro da cortina de fumaça que seu ataque havia causado, ressoando pelo ambiente de uma forma que conseguia ser ao mesmo tempo harmoniosa e perigosa, trazendo uma ameaça bem clara por detrás de cada palavra. – Demônio Azul... Demônio Negro...! É melhor que os dois coloquem em mente desde já que eu não vou cair! Eu caminhei muito, enfrentei muitas provações e fiz muitos sacrifícios para chegar aonde estou, e não irei me permitir morrer antes que alcance o meu objetivo! Em outras palavras... criaturas miseráveis como vocês não irão me matar!

Como? Como ele sobreviveu a isso?! Sua rajada havia sido muito mais poderosa do que as anteriores, e ela havia o atingido em cheio! Balak já havia demonstrado uma resistência maior do que o que alguém esperaria de um mago normal pelo simples fato de ter sido capaz de sobreviver aos golpes que havia levado até então, mas isso... isso estava num nível completamente diferente. Para receber um golpe desses diretamente e sair vivo, alguém teria que ter no mínimo um nível de resistência comparável ao meu e ao de Ekhart! Não é possível que um mago como ele seja tão resistente assim!

Foi só quando a fumaça começou a se dissipar totalmente que compreendeu o que havia acontecido. Balak havia realmente sobrevivido ao seu ataque, sim..., mas ele não havia feito isso sem ajuda. As pétalas da “rosa” que haviam surgido a partir das suas costas haviam se fechado ao redor de seu corpo, formando uma espécie de carapaça defensiva que havia aparentemente se solidificado o suficiente para protege-lo, dada a forma como fumaça saia delas. Mesmo agora elas ainda estavam meio fechadas, como que preparadas para protege-lo novamente de qualquer ataque que os dois pudessem lançar; uma armadura de certa forma, e uma que protegia o convencido e cheio de si de Balak Hauss.

— Talvez eu não tenha lhes avisado disso, demônios, mas por mais que ela possa ser usada de forma ofensiva, a Rosa Branca é originalmente uma técnica defensiva, e uma das melhores. Ela não possui o mesmo poder defensivo de algo como o Ghaal Maas, mas a sua invocação é mais fácil, ela pode ser usada para ataque e defesa simultaneamente, e o melhor de tudo: ela me torna imune a qualquer coisa corrompida por energia demoníaca. – Os olhos de tanto Kastor quanto Ekhart se arregalaram simultaneamente naquele momento, e isso fez com que o sorriso no rosto de Hauss se abrisse ainda mais. – Ah, sim, exatamente! Vocês dois não são nada burros, não é! Vocês sabem do que estou falando! Pois bem, mantenham isso em mente; pela natureza de vocês, todos os seus ataques possuem energia demoníaca. Alguns um pouco mais, alguns um pouco menos, mas não importa no fim das contas. Desde que o ataque possua energia demoníaca, ele é completamente ineficaz contra mim. E como eu tenho uma reserva infinita de mana ao meu acesso e vocês são incapazes de retirar a energia demoníaca dos seus ataques... vocês não são mais capazes de me ferir.





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