O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 92
Trabalho em Equipe




Primeiro Andar do Pandemonium, ”Mundo de Pedra”...

GEMENDO QUASE COMO SE ESTIVESSEM EM DOR, os zumbis foram ao chão um após o outro, fazendo com que uma das sobrancelhas de Breath se erguesse sem entender nada. Mas o que diabos...? Ainda estava com Ifrit ativado, o demônio de fogo pairando acima dele como se fosse a sua sombra, imitando todos os seus movimentos. Estava até poucos momentos atrás atacando eles a distância com Ifrit – uma vez que não podia se mover por cortesia de Alcatraz – e agora eles estavam todos caídos no chão, completamente imóveis como se estivessem ali por horas, talvez dias. Eu não estou entendendo mais nada. Será que quem quer que foi o responsável por esses zumbis morreu ou coisa do tipo? Essa era a única alternativa que podia imaginar..., mas francamente, isso não importava muito. O que quer que tenha acontecido, o que importa agora é que esses zumbis não estão mais nos atrapalhando. O que me dá a chance perfeita de fazer alguma coisa!

Virou seu corpo e rosto na direção de Denis para ver como o seu amigo estava se saindo contra o oponente deles. O que viu não foi nada bom. O braço direito de Denis havia sido imobilizado pelo que pareciam ser várias amarras de energia púrpura que estavam liberando choques contínuos no mago; duvidava que eles fossem muito intensos, mas independente disso, era óbvio que aquilo estava prejudicando bastante o desempenho do mercenário. E além disso, Denis também exibia clássicos sinais de cansaço. Seu boné havia desaparecido, sua camisa estava amassada e agarrada ao seu peito pelo puro suor dele, e conseguia mesmo a distância ver as gotas gordas de suor que pingavam do seu queixo. Sua respiração estava entrecortada e ele não parecia ter fôlego o suficiente para sequer se aguentar completamente erguido, mantendo uma postura um pouco rebaixada e agachada, mais de joelhos do que de pé. Com só um braço disponível e cansado daquele jeito, Denis parecia estar prestes a entrar em colapso a qualquer momento... e em contrapartida seu oponente estava completamente ileso, sorrindo de braços abertos enquanto sapateava de forma zombeteira em direção a Denis, fazendo pouco do mago. Isso irritou seu amigo, fazendo com que ele fechasse sua mão e concentrasse mana nela, criando múltiplas esferas de energia que ele não perdeu tempo em lançar contra seu oponente..., mas inutilmente. Alcatraz apenas abriu seu sorriso ainda mais ao ver aquilo e esperou pelo ataque, desviando com movimentos rápidos de todas as esferas sem que nenhuma delas pudesse sequer chegar perto de fazer algo contra ele, e mesmo enquanto via Denis criando outras em suas mãos, Breath já entendia que ele não ia atingir o Aprisionador com aqueles ataques.

Seus dentes rangeram, e antes que se desse conta ele já havia se agachado e levado suas mãos até os grilhões que prendiam suas pernas. Eles liberaram choques surpreendentemente fortes assim que os tocou numa tentativa de o afastar, mas Breath estava decidido e suportou aquilo, focando-se em puxar aqueles grilhões com todas as suas forças, tentando quebra-los em pedaços com suas mãos nuas. A situação está mal. Eu não posso só ficar aqui parado! Blair havia sido tirada da luta logo no início pela Gaiola, e Zetsuko havia sido pregada à parede pelas habilidades de Alcatraz. Eram apenas ele e Denis os que ainda tinham qualquer condição de enfrentar o inimigo, e já havia visto que Denis sozinho não ia conseguir muito. Eu preciso ajudar ele. Não importa como, mas eu preciso fazer alguma coisa!

Puxou os grilhões com todas as suas forças, mas isso não foi o suficiente. Não importava o quanto ou como tentasse, não conseguia fazer nada com eles, era incapaz de fazer sequer uma sombra de progresso. E os choques estavam lhe prejudicando também. Seu corpo agora estava todo bambo, meio que adormecido ou enfraquecido, fazendo com que tivesse algum trabalho só para se manter de pé com os olhos abertos. Bosta... não, eu não vou desmaiar aqui! Sacudiu sua cabeça violentamente para se manter acesso e soltou os grilhões ao menos por hora para olhar de novo como a luta progredia. Ou, merda...

Meia dúzia de bastões de energia havia atravessado as pernas de Denis. Felizmente eles não pareciam ferir realmente o mago – aparentemente eles apenas atravessavam literalmente a carne e os ossos, sem causar nenhuma ferida visível – mas eles estavam o pregando ao chão, e isso já era ruim o suficiente. Denis sabia disso também, e era exatamente por isso que ele tinha uma expressão tão desesperada em seu rosto, lançando ataques quase que aleatórios contra Alcatraz, mais para distraí-lo do que tudo, enquanto tentava tirar esses bastões das suas pernas de alguma forma. O Aprisionador, por sua vez, se divertia com a situação; armado de um sorriso maldoso ele desviava facilmente de todos os ataques de Denis, se aproximando lentamente, cada vez mais.

Merda, eu não tenho tempo! Naquele ritmo era uma questão de minutos para que Alcatraz prendesse Denis como havia feito com os outros, e depois disso só restaria Breath para se opor a ele, e não havia muito que podia fazer enquanto tinha as pernas presas daquela forma. Ele não podia ficar parado indefeso ali..., mas só conhecia uma alternativa que podia lhe ajudar naquela situação, e ela era bem arriscada. Eu não queria ter de recorrer a isso. Essa técnica ainda é um protótipo, pouco mais do que uma ideia. Eu não sei o que exatamente isso vai fazer comigo ou se vai ser realmente útil, mas sei que isso com certeza vai ferrar com o meu corpo.

Porém, aos olhos de Breath, um corpo ferrado valia bem mais do que um cadáver frio.

IFRIT! – Gritou ele, jogando sua cabeça para trás e erguendo tanto o seu olhar quanto os seus braços ao que estava acima dele, ao demônio de fogo que acompanhava seus movimentos. Em uma das poucas vezes em que aquele demônio demonstrou autonomia, seu rosto se virou para que seus olhos de fogo fitassem Breath também. – Venha a mim! Eu vou precisar de seu poder agora, então junte-se a mim!

Pelo que ele era, Ifrit não tinha sobrancelhas, mas não duvidava que ele estaria as erguendo nesse momento se tivesse, pela forma como ele manteve o olhar sobre Breath. Mesmo assim, ele lhe obedeceu; em um momento o demônio de fogo avançou contra Breath, e sentiu as chamas dele entrando para dentro de seu corpo – parte sendo absorvidas direto pela sua pele enquanto uma outra parte entrou por aberturas como a sua boca e narinas, como se ele estivesse puxando ar. E a medida que aquelas chamas foram adentrando dele, sentiu sua carne e ossos mudarem. Sentiu seus músculos expandirem à outras proporções, como se ele tivesse ganhado uma dezena de quilos de puro músculo de uma hora para a outra, fazendo com que seu peito, braços e pernas estufassem a um ponto que fazia com que espadas e machados pudessem acertá-los em cheio sem que conseguissem causar um arranhão sequer. Sentiu um pouco de calor no topo da sua cabeça e nas suas costas, e quando virou seu rosto para ver o que estava acontecendo, Breath viu que seu cabelo havia se transformado em chamas vivas que dançavam e tremulavam ao redor dele. Sentiu seu peito arder como se ele estivesse pegando fogo, e aparentemente era exatamente isso que estava acontecendo, pois logo em seguida chamas pareceram explodir de dentro dele, espalhando-se por todo o corpo de Breath num primeiro momento para então começarem a se concentrar em suas extremidades, fazendo com que seus braços se tornassem brilhantes e vermelhos como metal aquecido enquanto suas mãos queimavam como tochas, bem como também fazendo algo similar com suas pernas e pés.

Camisa de Força! – Gritou Alcatraz ao bater suas duas mãos abertas e carregadas com a sua energia nos ombros de seu oponente. Uma expressão de pânico tomou conta do rosto de Denis e ele abriu a boca para falar algo, mas não teve a chance de dizer uma palavra antes que mordaças lhe silenciassem. Com o contado físico a sua energia se moldado ao redor do corpo do mago, forçando seus braços para a frente de seu corpo e imobilizando-os um junto ao outro, como que em uma camisa de força. Não só isso, mas sua energia também afetou o resto do corpo dele em menor escala, juntando e prendendo suas pernas com amarras de energia enquanto também cobriam os seus olhos com uma venda de energia. Ver aquilo fez com que se sentisse tão generoso que foi bondoso o suficiente ao ponto de desfazer os bastões que seguravam seu oponente no lugar... apenas para que ele caísse de cara no chão logo em seguida, incapaz de sequer manter-se firme no lugar graças a todas as amarras que lhe seguravam. – Há! Parece que você está um pouco amarrado, não é, Denis? – Gargalhou abertamente enquanto se ajoelhava para mais próximo do nível de seu oponente, contemplando a forma como o outro se debatia em uma tentativa de se libertar com um olhar divertido. – Ora, ora, vamos lá, não seja um mal perdedor. Se isso te consola, você fez um bom trabalho. Quero dizer, você não me acertou em nenhum momento em que eu não estivesse distraído com algo, falhou em me causar qualquer dano que fosse realmente me prejudicar bastante na luta, falhou em me impedir de usar algumas magias de cura em mim mesmo e basicamente só conseguiu explodir o lugar em que estamos..., mas ei, tenho certeza de que em algum lugar do mundo eles consideram isso um trabalho decente para um mercenário de quinta categoria! .... Francamente, eu devo dizer que estou desapontado. Pensei que você seria um oponente decente, mas Breath acabou se mostrando melhor. Você é mais forte que ele, mas não tanto, e ele é bem mais determinado do que você. Acho que a determinação influencia bastante numa luta, não concorda?

Aquilo fez com que Denis se debatesse com ainda mais força e provocou sons abafados que pareciam insultos dele, mas Alcatraz não deu atenção a isso. Só ergueu o seu rosto um pouco, o suficiente para que pudesse coçar seu queixo com a ponta dos dedos enquanto pensava no que havia acabado de falar. É.… eu não diria que a determinação é o fator decisivo de uma luta, mas acho que ela influencia bastante. Acho que é dela que os guerreiros tiram a maior parte das suas forças. Saber era de longe a mais forte do pequeno trio de guerreiros que seguiam Jiazz, e embora parte disso se devesse a simples força natural que ela possuía, outra parte vinha da determinação que ela tinha em tudo que fazia devido à sua dedicação para com Jiazz. E o próprio Juggernaut também era determinado, da sua própria forma. Ele é determinado a fazer o que quiser, a seguir suas próprias regras. Ele rejeita que imponham qualquer coisa sobre ele e se recusa a seguir padrões, normas ou sequer cortesias que não tenham o seu respeito. Creio que poderíamos dizer que ele é alguém rebelde, mas não acho que isso seria realmente correto. Jiazz... ele é sobretudo determinado. Determinado a viver a vida do seu jeito, pelas suas vontades e sob os seus próprios conceitos, sem se curvar aos desejos de ninguém.

Talvez, o que devesse fazer para ficar mais forte era conseguir exatamente isso; a determinação para ser forte.

Um novo ruído abafado vindo da garganta de Denis fez com que voltasse seu olhar novamente para o mago, um tanto quanto aborrecido agora. Havia achado divertido vê-lo naquele estado quando o prendeu, mas estava rapidamente começando a ficar bem enjoado disso pela simples teimosia do idiota em ficar se debatendo inutilmente. Sua anta, será que você não vê que essa é a pior escolha que você poderia fazer em um momento como esse? Você só está me irritando e gastando inutilmente as suas forças. O ideal seria que você ficasse calado e parado pensando, poupando suas forças até que você tivesse uma ideia que pudesse realmente ser útil nessa situação, mas creio que isso seria esperar muito de você, não é?

Levantou-se novamente sem pressa, erguendo-se até que a sua sombra pairasse sobre a figura de Denis, e com as mãos no bolso ele considerou suas opções. Bom, vejamos... a Invocadora está presa na gaiola, a Espadachim está pregada na parede, o Esquentadinho tem grilhões nas pernas e o Kabum-Kabum está preso por amarras. Tecnicamente, considerando que a minha função é “parar os inimigos”, isso deve servir bem..., mas seria um tanto inviável simplesmente deixá-los assim. Tenho que gastar energia constantemente para mantê-los presos, e do jeito que as coisas estão um aliado deles poderia chegar a qualquer momento e soltá-los usando de alguma magia peculiar ou coisa do tipo. Suspirou, já sabendo o que teria que fazer, mas não gostando nem um pouco disso. As ordens de Jiazz haviam sido para evitar mortes se possível, e eu não sou nenhum assassino. Eu gostaria de poder poupar todo mundo se pudesse, mas isso colocaria os outros em risco, e eu não posso suportar o pensamento de ter Reivjak ou Saber sofrendo por culpa minha. Ergueu sua perna alto e olhou para baixo afim de se certificar de que ela estivesse bem acima da cabeça de Denis, o mercenário que até agora se debatia tentando se libertar.

– Sinto muito, compadre – murmurou Alcatraz, sua voz tremulando em nervosismo. Tentou engolir para tirar o nó que tinha na garganta e sentiu suor frio escorrer pelo seu rosto, mas manteve a convicção no que ia fazer. – Eu sinto muito, mas... sua hora chegou.

Aquelas palavras afetaram Denis, fazendo com que seus movimentos parassem por um momento em surpresa, e isso deu a Alcatraz uma chance que ele simplesmente não podia desperdiçar. Seu pé desceu com tudo, determinado a esmagar a cabeça de Denis em um único golpe. Se eu não posso lhe poupar... então eu vou ao menos lhe dar uma morte decente. Ter o crânio esmagado é uma forma bem brutal de morrer, mas também uma das menos dolorosas, não é? Afinal, se você esmaga o cérebro, a pessoa não sente mais nada, certo?

Essa era a sua teoria, mas não teve a chance de ver se estava certo ou não com ela, foi antes que pudesse terminar o seu golpe uma poderosa explosão de chamas lhe parou.

A força da explosão fez com que perdesse seu equilíbrio, e teve que se apressar em colocar seu pé de volta no chão para impedir que caísse de bunda no chão. Seu corpo se virou quase que automaticamente na direção da qual ela vinha, e então testemunhou tudo. A explosão havia se originado de bem perto dele, e com ela havia vindo um mar de chamas que havia se espalhado como um incêndio florestal, fazendo com que toda a sala fosse banhada no brilho vermelho das chamas e com que todo o ambiente ficasse quente como uma fornaça. Mas aquilo não era nada quando comparado ao que era o responsável por isso; acima do solo, erguido por chamas como um anjo de fogo, com suas pernas ainda presas por seus grilhões de energia, tendo garras flamejantes no lugar de dedos e braços e pernas tão quentes que pareciam aço aquecido, tendo uma musculatura de fazer inveja aos bárbaros, trazendo um par de chifres retorcidos azuis que saiam de sua testa e se contorciam para trás e tendo cabelos e olhos que eram nada mais do que fogo puro, Breath “do Fogo” se erguia e encarava Alcatraz firmemente com seus olhos flamejantes, envolto por chamas que saiam de seus pés, braços e peito, soberano sobre elas.

– O que você pensa que está fazendo, Alcatraz? – Questionou ele em uma voz que ecoou e ressoou por toda a sala, como se um mutirão repetisse cada palavra que ele dizia. Esse cara... o que aconteceu com ele? É ele o responsável por todo esse fogo? Parecia ser esse o caso, mas Alcatraz tinha dificuldade em acreditar n’algo assim. Olhou um pouco ao redor e viu as chamas lamberem as paredes de pedra da sala, e quase que de imediato essas começaram a derreter e escorrer em algo que lembrava um pouco magma, pingando no chão tão quentes que queimavam buracos profundos nele em questão de instantes. Raios, essas chamas são quentes o suficiente para derreter pedra! Como isso é possível? – Acha que eu permitirei que você faça mal aos meus companheiros, Alcatraz? Tolice sua.

Uma das mãos de Breath se ergueu rapidamente, e um punhado de chamas vieram até ela, se reunindo à essa mão até formar um pequeno orbe meio vermelho-alaranjada que brilhava intensamente e parecia quente como o inferno. Olhando para ele, a impressão que Alcatraz tinha era que aquilo era uma espécie de sol de mão, uma miniatura do astro-rei.

– As chamas que você vê são de minha criação, e eu as controlo em totalidade – murmurou calmamente Breath enquanto olhava para o orbe em sua mão com algo que lembrava curiosidade. – Por controla-las, sou capaz de definir não só a sua temperatura, mas também como ela afeta o quê, em que intensidade. Fiz com que elas fizessem com que a temperatura dessa sala fosse para 53ºC, mas esse está longe de ser o meu limite. Para deixar claro o meu poder, pense da seguinte forma: a camada exterior do Sol, a que conseguimos ver no nosso dia a dia, tem uma temperatura de aproximadamente 6000º

C, arredondando para cima. A temperatura máxima a qual posso elevar minhas chamas é... 20000ºC.

Dizer que seus olhos se arregalaram ao ouvir aquilo era pouco. Oh. Oooh. Oh bosta, oh merda, oh lixo, oh caquinha, oh puta-que-me-pariu, oh sorte-maldita-de-merda, oh meu saco. Aquilo não era nada, nada bom.

– O que eu quero dizer com isso é o seguinte, Alcatraz: – disse Breath, fechando sua mão de uma só fez e “esmagando” o orbe de fogo nela, fazendo com que toda a energia que havia concentrado nele fosse liberada de uma só fez, fazendo com que todo o seu braço fosse consumido por chamas que queimaram com a intensidade de um Sol, fazendo com que o próprio ar ao redor dele começasse a se distorcer. – Com esse poder, pelo bem dos meus companheiros, eu irei te derrotar!

Foi com aquela declaração que ele avançou. As chamas que saiam das suas pernas ganharam uma intensidade muito maior, e ele usou elas como propulsores para disparar seu corpo em direção à Alcatraz enquanto brandia no ar suas garras flamejantes. A velocidade dele era fenomenal, muito além de tudo que já havia visto naquele dia, e foi só por pouco que ele conseguiu saltar para evitar o golpe.

Ou, ao menos, foi o que ele pensou, até o momento em que olhou para baixo enquanto no ar e notou que um pedaço da sua barriga havia sido arrancado.

Como eu não senti isso? Foi essa a primeira pergunta que passou pela sua mente. A maioria das pessoas ou entraria em pânico ou questionaria como ou quando isso havia acontecido, mas Alcatraz era diferente. Ele mantinha sua mente no que era importante. Afinal de contas, se um inimigo havia lhe causado uma ferida séria, o “quando” ou “como” não eram tão importantes quanto a forma como ele conseguiu te ferir sem que você tivesse consciência disso. A ferida não é tão grande assim. Suas garras devem ter passado de raspão e apenas arrancado algumas partes da barriga que conseguiram alcançar. O calor delas deve ter sido o suficiente para cauterizar as feridas imediatamente. Mas mesmo assim... como eu não senti isso?! Aquilo não era um feito de puro poder ou que exibia apenas o calor que Breath estava emanando. A velocidade naquilo tinha que ser extraordinária para algo assim. Maior até do que a velocidade do avanço dele. Desgraçado, pensou o Aprisionador, movendo seus olhos para seu oponente no chão. E eu que estava pensando que você era o mais fraco dos quatro. Você... você daria uma boa luta com Jiazz, seu pedaço de merda.

Lá em baixo, Breath rolou seu corpo no ar em uma espécie de cambalhota para aterrissar firmemente com seus pés no chão. Seus olhos de fogo cravaram-se em Alcatraz por apenas um instante antes que as chamas viessem novamente de seus pés, lançando-o para cima com um pilar de fogo enquanto ele jogava uma de suas mãos para trás e a deixava reta, com seus quatro dedos principais erguidos e rígidos como se fossem de pedra. Já podia imaginar o que estava por vir daquilo, e por uma vez não se sentiu tentado a simplesmente esperar pelo ataque.

Teia de Aranha! – Gritou Alcatraz, revestindo sua mão de energia e jogando-a em direção à Breath. Assim que a estendeu ele liberou a energia que havia contido nela, e à sua vontade essa se moldou em malhas fechadas e apertadas compostas por filamentos resistentes como diamantes; uma verdadeira “teia de aranha” no ar, capaz de parar qualquer ataque como se ele não fosse nada. Heh... essa é a minha melhor técnica defensiva. Vamos lá, Breath! Vamos ver como você se sai contra ela!

Mesmo vendo a teia na sua frente, Breath não demonstrou sinal algum de hesitação. Seu avanço considerou inalterado, e o mercenário bateu de frente com a rede de Alcatraz com toda a força e velocidade que suas chamas lhe davam.

O calor que era emitido por ele era tão forte que conseguia senti-lo ao longe como se estivesse queimando sua pele. A força por trás do homem foi tão grande que sua teia – que sempre havia permanecido firme independente da força dos golpes de seus inimigos – chegou a ser empurrada contra Alcatraz, fazendo com que Breath conseguisse chegar bem próximo dele, ao ponto de ter pouco mais que um palmo os separando. O Aprisionador suou frio no momento em que isso aconteceu, temendo por um momento que sua teia fosse lhe falhar e que seu oponente conseguisse lhe alcançar, mas isso não aconteceu. Apesar dos melhores esforços de Breath e de toda a força que ele estava dedicando, aquele era o limite dele, e compreender isso fez com que Alcatraz suspirasse em alívio.

E nem bem o suspiro havia escapado de seus lábios antes que a mão que Breath havia lançado para trás disparasse em sua direção, abrindo um buraco na teia com facilidade e perfurando o ombro direito do Aprisionador em uma ferida que imediatamente pegou fogo.

A careta que tomou conta do seu rosto foi tão abominável que quase chegava a ser indescritível, uma faceta de dor extrema que fazia com que ele parecesse estar prestes a chorar a qualquer momento. Filho duma... MERDA! Jogou sua cabeça para trás, mordendo seus próprios dentes com força para que não gritasse pateticamente, tentando suportar de alguma a sensação que tinha, como se o seu sangue fervesse em suas veias, como se todos os seus músculos e nervos estivessem sendo queimados até as cinzas naquele exato momento. Breath... como raios alguém como você alcançou tanto poder assim em tão pouco tempo?! Isso está completamente fora do nível que você havia exibido antes!

Uma explosão criada pelo próprio calor do mercenário foi o que os separou, lançando Alcatraz longe, jogando-o do outro lado da sala num instante. Aquilo arruinou o seu ombro, deixando um buraco grotesco ali que exibia carne pura e queimada, mas só conseguia se sentir grato por aquilo ter posto um ponto final ao sofrimento que era aguentar todo aquele calor. Quando seu corpo começou a escorregar pela parede me direção ao chão, a vontade de Alcatraz foi simplesmente deixar isso acontecer sem fazer nada, mas a parte racional da sua mente não deixou que ele fizesse isso. Se... se eu ficar parado aqui, serei um alvo fácil. Eu não posso parar. Por isso, mesmo enquanto escorregava em direção ao chão, o que ele fez foi ajustar sua postura tanto quanto possível para que aterrissasse de pé de alguma forma.

Estava ferido ao ponto de ter sido mais fácil aterrissar do que se sustentar de pé. Nenhum dos últimos golpes haviam lhe atingido na região inferior do corpo, mas estava começando a sentir os resultados de toda aquela luta. Mesmo com as minhas magias de cura, o meu corpo tem sofrido muito dano em pouco tempo, submetido a muito estresse em um curto período de tempo. Não sou nenhum médico, mas isso não pode ser saudável. Se as coisas continuassem naquele ritmo, seria uma questão de tempo para que entrasse em colapso, com ou sem habilidades de cura. Mas isso ainda não aconteceu, e enquanto não acontecer... bom, enquanto não acontecer eu acho que não posso simplesmente desistir, não é?

Exausto, Alcatraz ergueu seus olhos para voltar a prestar atenção aos movimentos de seu oponente... e foi então que se surpreendeu ao ver que, apesar de tudo aquilo, Breath parecia bem pior do que ele.

Havia estranhado o fato do mercenário não ter voltado a lhe atacar com todo o tempo que havia gastado tentando se recuperar do último golpe dele, mas havia imaginado que isso era apenas algum tipo de cortesia de luta, uma dessas estranhas manias que alguns guerreiros tinham e aplicavam em batalhas. Mas não; olhando para Breath e para a postura dele – para a forma como as chamas dos seus cabelos e olhos pareciam tremular e perder as forças a cada momento e a maneira como o seu peito subia e descia pesadamente como se ele estivesse exausto – parecia que ele era o que estava na pior das situações. Mas... por que? Isso não faz sentido. Ele está comandando o ritmo da luta até agora. Ele tem me acertado com seus golpes, ele tem me pressionado. Por que ele está nesse estado? Por qu-

Foi só então que entendeu o que estava acontecendo. Essa técnica... esse estado... seu corpo não suporta bem ele. Era isso, era só isso que podia explicar tudo aquilo. É claro... não faz sentido pensar nisso por outra ótica. Se Breath pudesse usar uma técnica como aquela normalmente, ele já teria feito isso há muito tempo. Não podia dizer que conhecia o jovem mercenário muito bem, mas já havia visto o suficiente dele para saber que ele tinha algum tipo de honra e não era um filho-da-puta, e isso já era o suficiente para que acreditasse que ele não deixaria seus companheiros entrarem em apuros como aqueles se tivesse uma técnica para salvá-los escondida na manga o tempo todo. Essa deve ser uma técnica experimental ou coisa do tipo. Um protótipo, um experimento incompleto. Ele deve ter usado ela em desespero antes de terminar de desenvolvê-la, e isso deve significar que ela tem alguns bons efeitos colaterais. Pelo que via, conseguia chutar alguns deles; exaustão, dano ao corpo, talvez até algumas coisas mais graves como uma atrofia muscular causada por possíveis queimaduras que ele podia estar suportando graças ao seu estado.

Ver aquilo fez com que um sorriso fino se abrisse no rosto de Alcatraz. Heh... eu não acho que é muito politicamente correto ficar feliz com a desgraça de alguém, mas esse azar de Breath pode muito bem ser o que vai me salvar aqui. Sem hesitar o Aprisionador ergueu seu braço que ainda estava bom, e sua energia púrpura começou a faiscar e estalar nas pontas dos seus dedos.

Aquilo não passou despercebido aos olhos de Breath, e assim que ele viu as preparações de Alcatraz ele tratou de reagir o mais rápido possível. Ele puxou ar como se quisesse sugar um rio por um canudo, estufou o peito, esticou ambas as suas mãos para baixo e liberou chamas por elas com todas as suas forças, usando-as como propulsores para avançar direto contra Alcatraz. Como uma mariposa à uma chama...

Lutou para manter uma feição neutra em seu rosto, por mais que a sua vontade fosse gargalhar em voz alta. Perfeito! Simplesmente perfeito! Isso é algo tão simples, mas que está funcionando tão bem! Sabia que seu inimigo iria assumir que ele tinha alguma carta na manga quando mostrasse um pouco do seu poder, e era exatamente com isso que o Aprisionador contava. Um julgamento apressado gera atos impensados, e são nessas falhas que eu triunfo! Ajustou sua base para ficar firme aonde estava e concentrou tanto da sua energia quanto pôde em seu braço, fazendo com que ele ficasse cercado por um brilho púrpura enquanto mantinha seus olhos fixos sobre o oponente que avançava contra ele.

Firme agora...

A energia concentrada ao redor de seu braço estalava audivelmente, como milhares de pequenos relâmpagos que iam do seu ombro até a palma da sua mão, cada um acompanhado por um estrondo que fazia o seu coração bater mais forte.

Firme...

O brilho de Breath era intenso enquanto ele avançava em direção a Alcatraz. A intensidade das chamas dele havia sido reduzida anteriormente quando ele havia demonstrado fraqueza, mas agora elas haviam se recuperado, alimentadas pela força do espírito de Breath, fazendo com que o mercenário reluzisse como uma estrela cadente de pura determinação.

Firme...!

Quando o homem de fogo chegou bem perto, conseguiu sentir o calor das suas chamas em seus ossos. Como se elas os lambessem, como se elas estivessem consumindo o seu corpo. Conseguiu sentir o mundo ao seu redor ficar mais lento, os sons ficarem mudos, até mesmo as cores perderem o seu brilho e tornarem-se amênicas aos seus olhos. Já ouvi falar disso. O momento em que alguém está diante da morte e seu corpo e alma se encontram a um passo de deixar o mundo dos vivos e partir para o “ponto intermediário” no ciclo das almas, o Limbo.

AGORA!

Um passo rápido para o lado e a investida da garra de Breath foi evitada, embora não sem que ao menos uma das suas garras perfurasse a bochecha de Alcatraz e rasgasse seu rosto desde perto do nariz até a parte inferior da orelha. Aquilo doeu, mas nem mesmo essa dor foi capaz de impedir a gargalhada que explodiu da garganta de Alcatraz ao ver que seu plano havia dado certo.

Correntes da Fúria! – Gritou ele à plenos pulmões, investindo com tudo e acertando Breath bem no meio do peito com um golpe em cheio com todo o seu braço. O golpe em si causou mais danos a ele do que ao seu oponente, fazendo com que seu braço se queimasse no peito ardente do homem-de-fogo, mas isso não importava, pois a sua intenção nunca foi causar dano com aquele ataque. No momento em que seu golpe atingiu Breath, seu braço brilhou intensamente no tom de púrpura característico da sua habilidade, e então toda a energia que havia concentrado nesse braço começou a agir. Uma corrente grossa de pura energia envolveu a área que seu braço havia atingido, apertando os braços do seu oponente para junto do seu peito, e a partir dessa se originaram mais meia dúzia de correntes que foram se enroscando firmemente ao redor do corpo de Breath, acorrentando o peito, os braços, as pernas e até mesmo o pescoço do homem-de-fogo em correntes inquebráveis de energia. Um passo rápido para o lado e Alcatraz se afastou o suficiente para que pudesse deixar o corpo ainda flamejante do mercenário do fogo cair no chão, se debatendo furiosamente em busca da liberdade.

Essa não foi uma decisão esperta da parte de Breath, algo que o mercenário logo descobriu quando as correntes começaram a se apertar com força ao redor do seu corpo, fazendo com o que antes eram grunhidos de fúria se transformassem em gemidos de dor. As chamas que ardiam ao redor do corpo dele se apagaram, revelando por baixo delas o corpo de Breath, coberto em queimaduras. É, aparentemente eu estava certo. Ele não controla tão bem a sua habilidade. Nenhuma delas eram queimaduras particularmente perigosas, mas eram graves o bastante para serem dolorosas, o que fazia com que o apertar das correntes causasse ainda mais dor ao mercenário. Ver aquilo fez com que o sorriso de Alcatraz se alargasse um pouco mais.

– Cuidado, cuidado! Você pode querer ficar bem calminho agora que está lidando com essas correntes, Breath – murmurou Alcatraz, tentando concentrar sua mana de forma geral nos pontos feridos do seu corpo para tentar se curar ao menos um pouco enquanto falava. Podia ter conseguido sair por cima no fim das contas, mas o fato era que aquela luta havia sido muito mais sangrenta e perigosa do que havia antecipado, e seu corpo não havia ficado em bom estado depois dela. – Essas correntes são bem especiais, sabe? Quero dizer, além do simples fato de serem feitas de energia, elas também possuem um certo grau de... hm, como chamar isso? “Inteligência”, por falta de termo melhor. Basicamente, essas correntes funcionam com um pequeno sistema que faz com que, quanto mais aquele que está envolvido por elas se debata, mais elas se contraiam ao redor deste para mantê-lo seguro. Daí o nome, “Correntes da Fúria”. Quanto mais enfurecido você ficar, pior as coisas ficam para você. Legal, não acha?

O olhar transbordando de desejo assassino que Breath disparou contra ele ao ouvir aquilo já foi o suficiente para deixar claro qual era a resposta dele, arrancando uma gargalhada da garganta de Alcatraz... ou, ao menos, uma curta gargalhada. Mal ele começou a rir e sentiu a dor se espalhar por todo o seu corpo, forçando-o a cortar subitamente a gargalhada para que uma expressão de dor tomasse conta do seu rosto. Bosta... eu devia saber que isso ia acontecer. Os ferimentos que havia adquirido não eram leves, e não havia tido nem de longe tempo o suficiente para se curar deles. Esse cara pode ser o derrotado, mas eu estou em maus lençóis aqui também. Tinha que acabar logo com aquilo para poder se focar em se curar, e isso significava que não podia ficar se vangloriando.

– De qualquer forma... eu devo dizer, Breath, essa foi uma boa tentativa. Não o suficiente, mas perto o bastante. – Se aproximou do mercenário lentamente enquanto falava, colocando as mãos nos bolsos para assumir uma postura mais intimidadora enquanto fazia seu caminho até ele. Assim que se viu perto o suficiente, não hesitou em chutar a lateral do estômago de Breath com todas as forças, fazendo com que o mercenário tossisse sangue e virando seu corpo para cima. Eu posso não ter forças nos braços para fazer nada direito agora, mas minhas pernas estão boas como novas, Breath. De certa forma, isso é sorte sua. Ter o crânio esmagado deve ser uma das formas menos dolorosas de morrer, não é? – Sabe, é uma pena, realmente. Se você fosse um pouco mais experiente, tivesse um pouco mais de maestria sobre os seus poderes e conseguisse manter uma mente clara durante a batalha... bom, quem sabe então a situação não seria revertida? Quem sabe não fosse eu que estivesse no chão, enquanto você se preparava para acabar comigo? – Sua perna direita se ergueu acima da cabeça de Breath, pairando sobre ela como a lâmina de uma guilhotina. Juiz, Júri e Executor. Como vencedor da luta, isso é o que me torno. Foi mal, meu chapa, mas sua vida é minha. – Foi mal, Breath, mas por mais que você tenha se esforçado e que essa tenha sido uma boa tentativa... você simplesmente não tem o necessário para me derrotar.

– Heh... eu sei. Nunca me iludi quanto a isso.

Quando aquilo foi dito seu pé já estava a meio caminho do rosto de Breath, prestes a esmaga-lo em pedaços, quando parou seu ataque. O quê? Sabia que aquela era uma péssima decisão – e praticamente todas as partes racionais da sua mente estavam gritando para que seguisse logo com o ataque e acabasse com seu inimigo antes que fosse tarde demais – mas Alcatraz estava curioso. Muito curioso. Curioso o suficiente para simplesmente ter de fazer mais perguntas sobre aquilo.

– “Nunca me iludi”...? O que você quer dizer com isso?

– Exatamente o que as palavras sugerem; eu nunca me iludi, nunca mantive ilusão nenhuma de que eu iria lhe derrotar. Ao menos não em um combate mano-a-mano. – Disse Breath calmamente. Um de seus olhos estava encoberto pelos seus cabelos, mas o outro que se mantinha visível olhava diretamente dentro dos olhos de Alcatraz, parecendo sorrir em satisfação. – Foi por isso que eu nunca tentei lhe derrotar sozinho.

Um portal se abriu no ar a direita de Alcatraz no momento em que aquelas palavras foram ditas, e dele veio a lâmina de uma katana, girando em um arco rápido em direção ao pescoço de Alcatraz. Uma katana brandida por Zetsuko, a espadachim prateada que ele havia tirado da batalha tanto tempo atrás. Essa mulher! Mas... como?! Eu a prendi! Sua mente não conseguia acompanhar o desenvolvimento de tudo aquilo, mas felizmente o seu corpo era bem mais rápido. Ele não tentou entender nada, nem tampouco tentou fazer alguma lógica de toda aquela bagunça; ele apenas foi movido por puro instinto e se abaixou para deixar que a lâmina passasse acima da sua cabeça sem causar danos.

Mas nem mesmo seu instinto pôde reagir ao segundo ataque, que ele só percebeu quando sentiu uma segunda lâmina atravessá-lo pelas costas, perto do início da coluna.

– Ei... – sussurrou a voz de uma mulher, bem próxima da sua orelha, em um tom que parecia provocante, mas na verdade servia apenas como uma fachada frágil para esconder uma fúria descomunal. – Sua mãe nunca te ensinou que é feio tentar fazer mulheres de passarinhos, seu Tatuado de Merda?

Essa voz... ela também?! Sangue escapou de seus lábios, manchando seu rosto e peito de vermelho, mesmo enquanto Alcatraz tentava virar seu rosto para trás o melhor possível para olhar nos olhos da que havia o acertado. Tal como ele imaginava, quem viu ali era ninguém menos do que Blair White, a maga das Invocações que ele havia prendido em sua Gaiola assim que a luta começou. Mas... eu não entendo...! Como...? Como elas estão livres...?!

– Maldição, eu prendi vocês! – Berrou ele a plenos pulmões, incapaz de se manter em silêncio diante de tamanho absurdo, incapaz de aceitar tudo aquilo sem uma explicação, mesmo que já fosse tarde demais para isso. – Como?! Como vocês estão todas livres?!

– Você não prestou muita atenção enquanto lutava – quem lhe respondeu foi Breath, falando em um tom bem calmo e coeso, embora não escondesse também um sorriso satisfeito e convencido do seu rosto. – Enquanto lutávamos, a sua atenção estava toda sobre mim. No que eu fazia, no que eu deixava de fazer, nos meus ataques e no meu avanço. Você não pode ser culpado por isso, essa é uma reação normal de qualquer um quando se tem alguém tentando te matar, e eu também estava tentando chamar a sua atenção tanto quanto possível para os meus próprios fins, mas é impossível negar que isso fez com que fosse muito mais fácil para mim seguir com o meu plano.

– Plano? – A lâmina que perfurava sua barriga torceu-se um pouco, fazendo com que cuspisse um pouco de sangue e começasse a virar seu rosto para trás... até que outra torcida deixasse claro que aquela não seria uma boa ideia, forçando Alcatraz a se conformar em simplesmente seguir com aquela conversa. – Que tipo de plano?

– Você deve ter notado isso no início da nossa luta, mas quando eu estou transformado, as minhas chamas são quentes o suficiente para derreterem até mesmo as pedras que compõe as salas desse andar, não é? E caso você se lembre também, uma das primeiras coisas que eu fiz foi espalhar as minhas chamas por todo o ambiente. Você acha que isso foi apenas coincidência, Alcatraz? Acha que eu não queimei nada com tudo isso? – Seus olhos se arregalaram ao entender o que Breath estava sugerindo, e ver isso foi o suficiente para que o mercenário do fogo sorrisse de forma ainda mais larga. – Sim, sim, você está entendendo tudo agora, não é? Ao contrário do que você fez comigo ou com Denis, os “aprisionamentos” que você colocou sobre Zetsuko e Blair não foram aprisionamentos colocados diretamente sobre os corpos delas para impedir os seus movimentos. Eles foram colocados ao redor do local onde elas estavam, no chão e na parede ao redor das duas. O que significa que, caso eu deformasse essa área de alguma forma, as duas ficariam livres de novo.

– Seu... filho-da-puta... – Moveu seus olhos rapidamente para os dois pontos nos quais havia aprisionado as mulheres anteriormente, e viu exatamente o que Breath sugeria. A parede na qual Zetsuko estava antes pregada havia sido derretida pelas chamas de Breath como se fosse uma vela, e o chão na área na qual Blair antes estava havia sido derretido ao ponto de ser bem mais rebaixado do que deveria ser, o suficiente para criar um buraco grande o bastante para que uma mulher como Blair pudesse rastejar para fora da Gaiola sem muitas complicações. – Miserável... maldito, miserável...

– Heh... – foi tudo que Breath fez em resposta, sem se importar com a fúria do seu oponente. – Pode não parecer, mas eu não sou tão imprudente e arrogante quanto a minha aparência pode sugerir. Eu sei que não tenho a menor condição de lhe derrotar numa luta justa no momento. Queria ter essa chance, mas não tenho. E não sou ingênuo o suficiente para achar que uma habilidade que eu não domino vai ser o bastante para me dar a vitória contra um oponente que eu não conseguia derrotar antes. Então eu me precavi. Eu gostaria de te derrotar por mim mesmo... mas se isso for necessário, eu não vou hesitar em te derrotar com um pouco de trabalho em equipe.

– Depois que Breath fez o favor de nos soltar, as coisas ficaram bem mais simples para o nosso lado – sussurrou novamente Blair, girando um pouco mais a sua arma enquanto falava, só para causar um pouco mais de dor à Alcatraz. – As chamas dele não nos queimavam, então elas serviram como cobertura perfeita para nos prepararmos para nosso ataque. Conversamos um pouco entre nós e bolamos um plano de ataque, e depois foi só nos posicionar. Zetsuko ia usar das suas habilidades para se distrair com o primeiro golpe, e enquanto isso eu iria me aproximar por um ponto cego para te apunhalar no momento certo. E adivinhe só qual foi esse “momento cego”?

– A Judas o que é de Judas, os seus instintos são muito bons, Alcatraz – parabenizou Zetsuko, pousando a lâmina da sua katana bem no pescoço de Alcatraz, fazendo com que o aço beijasse a carne de uma forma que deixava claro que ele podia se cortar gravemente ao menor movimento fora da linha. – Mesmo com um ataque surpresa, seria no mínimo difícil acertar um bom golpe em você. Por isso tivemos que nos dar a um trabalho ainda maior. Não apenas tivemos de enganar a sua mente de forma a fazer com que você não conseguisse compreender o que estava acontecendo, mas também tivemos que enganar o seu instinto para fazer com que você ficasse em uma situação na qual você definitivamente não tivesse chance nenhuma de evitar o nosso golpe. Algo bem trabalhoso, mas, bem... – a lâmina se afastou da sua garganta, por apenas um instante. Tempo o suficiente para que Zetsuko erguesse sua espada e desferisse um golpe direto que ele não tinha como evitar, um corte diagonal que cruzou seu corpo de cima a baixo, leste a oeste. – Bem-sucedido.

O sangue de Alcatraz esguichou até o chão em jatos fortes, escorrendo sem miséria para fora do seu corpo e levando a força do seu dono junto. Mer... merda... O Aprisionador tentou se manter firme, mas a cada minuto que passava isso se provava mais e mais difícil. Suas pernas vacilavam, seu corpo parecia mole, seus próprios movimentos se tornaram similares aos de um homem bêbado... e antes que muito, seus olhos se tornaram brancos e o corpo inconsciente do guerreiro caiu no chão, ao lado do de Breath.

Apesar da sua queda, o silêncio e a tensão continuaram a reinar por algum tempo. Os olhos de todos os que mercenários estavam fixos sobre seu oponente, quase que incapazes de aceitar que ele havia realmente sido derrotado, como se esperassem que ele se levantasse a qualquer momento para avançar novamente contra eles.

– Bom, acabou, enfim. – A voz que cortou o silêncio foi a de Denis. Com suas mãos no bolso, o homem emergiu caminhando normalmente, seu corpo já livre da energia de Alcatraz, enquanto ao mesmo tempo as correntes que selavam os movimentos de Breath iam se quebrando pouco a pouco. – Esse cara foi um oponente bem complicado.

– Sim. Eu nunca imaginei que um oponente que não possui uma habilidade agressiva pudesse ser tão problemático – comentou Blair, agachando para apanhar Breath, envolvendo um dos braços do guerreiro em seu pescoço para usá-lo como apoio para levantar o outro. – Quando se fala de uma Aloeiris poderosa, você imagina algo que poderia destruir uma cidade em instante, ou alguma coisa em geral que pudesse ser usada para fins de destruição geral. Mas parece que até mesmo habilidades mais “passivas” como a de criar artifícios e engenhocas com para aprisionar as pessoas podem ser perigosas nas mãos de alguém que sabe usá-las.

– Perigosas demais – concordou Zetsuko, movendo sua espada para repousar a ponta de sua katana contra a nuca de Alcatraz, de forma que bastaria a ela empurrar um pouco para perfurar o crânio dele. – Bom, e agora, o que fazemos? Suponho que mataremos esse cara, mas iremos seguir em frente ou coisa do ti-

– Seguir em frente seria uma péssima ideia – interrompeu Breath, fazendo com que o olhar da espadachim fosse para ele. – Podemos ter sido vitoriosos aqui, mas eu estou bem ferido, e ao menos Denis entre vocês deve estar cansado depois de toda a energia que ele usou. Além do mais, vamos ser francos: se tivemos todo esse trabalho para derrotar esse cara, não vamos conseguir derrotar outro inimigo a não ser que estejamos no nosso melhor ao enfrenta-lo. Seguir em frente, francamente, só iria nos colocar em riscos desnecessários. A minha sugestão é que voltemos atrás agora. Devemos recuar para a entrada, buscar nos recuperar da melhor forma possível e só depois pensar em seguir em frente.

As expressões nos rostos dos três companheiros de Breath foram quase que cômicas diante daquilo. Todos – sem exceção – pareciam completamente surpresos por aquilo, ao ponto de parecerem não ter a menor ideia de como deveriam reagir, ficando apenas olhando embasbacados para Breath como se estivessem se perguntando que tipo de milagre havia feito com que o mercenário normalmente esquentado e impulsivo dissesse algo assim.

– Ei, parem de ficar me olhando assim, seus panacas! – Gritou o jovem, seu rosto vermelho como um pimentão em um misto de vergonha e irritação. – Se vocês ficarem me encarando assim, eu juro que chuto a bunda de cada um de vocês!

Todos balançaram afirmativamente a cabeça ao ouvir aquilo no que Breath assumiu ser sinal de que haviam entendido o recado (embora, em verdade, fosse apenas eles ficando um pouco mais tranquilizados em verem que seu amigo ainda era o mesmo no fim das contas). Em silêncio, Denis e Blair começaram a fazer seu caminho em direção de volta à entrada, levando Breath consigo... enquanto Zetsuko, por sua vez, ergueu sua espada, preparada para desferir o golpe final.

– Ei, espera aí! – O grito de Breath veio justo quando a espadachim começou a descer sua espada, fazendo com que todos se surpreendessem e se precipitassem para ele de novo. – O que você pensa que está fazendo? Não mate esse cara! Não há razão para isso!

Foi o tempo dessas palavras serem ditas para que Zetsuko erguesse uma de suas sobrancelhas. Se antes ela já estava estranhando um pouco as ações do seu companheiro, agora ela estava completamente certa que tinha algo de errado com ele.

– Não há razão para isso, Breath? – Repetiu ela, descrente. – Eu não sei se você notou ou se você já se esqueceu, mas esse cara literalmente esteve tentando nos matar pelos últimos vinte minutos! Pelos Deuses, ele estava tentando esmagar a sua cabeça há meros momentos atrás! E você diz que não há razão para mata-lo? Não acha que está sendo, sei lá, um pouco inocente com esse pensamento?

– Inocente? Por favor, eu já me meti em mais batalhas do que eu posso contar e já matei mais oponentes do que estrelas no céu, mas isso não significa que eu sou um carniceiro! Matar alguém durante uma batalha justa é uma coisa, é algo que acontece naturalmente durante batalhas de alto nível e é algo digno de respeito de ambas as partes, tanto do perdedor quanto do vencedor. Mas matar alguém que já foi derrotado... isso é bem diferente. Isso seria execução! Não há nada de honrado numa execução!

– É... Breath, sem querer parecer meio ofensiva aqui nem nada, mas a honra meio que fica de lado quando estamos em uma guerra como essa – interpôs Blair, erguendo uma de suas sobrancelhas para o jovem mercenário que trazia apoiado em si mesma, se perguntando se ele realmente estava falando sério com tudo aquilo. – Uma guerra não funciona a base de morais ou honra. Você luta com tudo aqui, e os derrotados morrem. Quero dizer, você pode captura-los também, mas nós não temos forma nenhuma de manter alguém sob a nossa custódia de forma segura, o que significa que tentar capturar alguém seria colocar mais “colocar um alvo em nossas costas” do que tudo. Matar o seu inimigo é a melhor escolha possível em uma guerra, e francamente, matar alguém em batalha não é tão diferente de simplesmente cortar o pescoço de um sujeito desacordado.

– Então podemos simplesmente deixa-lo aí! – Declarou Breath, insistente. – Ele está ferido demais para voltar a se juntar a luta, de qualquer forma. Na verdade, nesse estado o mais provável é que ele acabe morrendo naturalmente devido aos seus ferimentos do quê que tenhamos realmente que o matar.

– Breath, se o problema é que você não quer matar esse cara, você não precisa se preocupar. Eu cuido disso. Você pode apenas seguir andando e fingir que nada aconteceu – sugeriu Zetsuko, uma mão na cintura e quadris para a direita enquanto esperava por uma resposta de seu companheiro, ainda mantendo sua espada sobre a cabeça de Alcatraz. De alguma forma, no entanto, ela já sabia que Breath não iria concordar com aquilo, e foi exatamente isso que aconteceu.

– Não! Não, não, não! Raios, vocês não entendem mesmo o problema? Não é uma questão de querer ou não o matar! Diabos, não é nem mesmo uma questão de ele morrer ou não! Se trata de uma questão de decência básica; pessoas não matam outras pessoas. Não assim. Não de forma tão... desnecessária. Se fôssemos matar cada pessoa que derrotamos assim, executando todas elas dessa forma, a humanidade nunca teria chegado até aonde chegou. Se ele morrer por seus ferimentos, então isso é azar dele. Se ele morre em uma batalha contra um de nós, ele foi uma fatalidade da batalha, algo comum e que pode ser respeitado. Mas se formos matar ele agora enquanto ele está desacordado e não representa mais nenhuma ameaça para nós, então não seremos diferentes de assassinos, e eu me recuso a descer a esse ponto, ou a deixar que qualquer um de vocês desçam tanto assim.

Os três trocaram olhares ao ouvirem aquilo; Denis divertido, Blair parecendo pensativa no que Breath havia dito e Zetsuko... suspirando. Ah, pelos Deuses. Às vezes você realmente demonstra ser o mais novo de nós, Breath. Em batalha ele era absolutamente brutal e formidável, um guerreiro tão bom quanto qualquer outro – talvez até melhor! Mas fora dessas batalhas, Breath exibia o seu lado juvenil por meio de coisas como aquilo. Ações impensadas. Imprudentes. Inocentes, de certa forma. Bom, acho que é isso que uma mulher tão velha quanto eu ganha por trabalhar com um garoto como ele. Ainda não estava segura de que aquilo era uma boa ideia e tinha alguns pontos que podia fazer para defender seu ponto, mas decidiu não seguir com nenhum deles. Sacudiu sua cabeça, embainhou sua espada e colocou-se a caminhar calmamente em direção a Breath.

– Muito bem, muito bem, você venceu, Breath do Fogo – murmurou a espadachim enquanto se aproximava, mantendo um olhar fixo nos olhos de Breath, olhando para dentro deles. O que estava prestes a dizer não era algo agradável e ela sabia disso, mas como uma mercenária mais experiente, era quase que seu dever passar isso para um novato como Breath. – Isso dito, deixe-me te dizer algo, Breath. Essa sua natureza misericordiosa e honrada... isso não é algo que combina bem com o tipo de vida que pessoas como eu e você vivemos. Se você continuar se agarrando a conceitos como esse, pessoas vão morrer por sua causa um dia desses.

=====

– Ele caiu também...

A voz que murmurou aquilo era a de um homem alto e forte que rasgava os céus com duas asas de fogo. Voando em alta velocidade, Jiazz seguia em uma velocidade assombrosa em direção ao Pandemonium, embora nem mesmo toda essa velocidade significasse que ele estava tendo que manter um verdadeiro foco no que fazia. Na verdade, era exatamente o contrário. Enquanto ele voava, a mente de Jiazz fervilhava, pensando em mil coisas diferentes.

– Ah, cara... Primeiro Reivjak, agora Alcatraz... parece que é só a Saber que resta dos três – lamentou ele, suspirando e balançando a cabeça enquanto voava. – O inimigo deve ser bem forte para conseguir derrotar pessoas como eles. Esses dois não iriam cair com pouco. O que é.… perigoso.

Até então, por todo o seu voo, Jiazz havia mantido uma expressão amigável o suficiente em seu rosto; um pouco entediado, talvez, mas nada demais. Essa expressão desapareceu rapidamente assim que ele começou a pensar. Como que de uma hora para a outra, o seu rosto virou outro; seus traços enrijeceram, seus olhos se tornaram duros, o próprio ar ao seu redor pareceu se tornar mais frio e sombrio, como se ele fosse coberto pela aura que você esperaria sentir de uma criatura monstruosa.

– Por serem tão fortes assim, a possibilidade de que esses dois sejam mortos aumenta – contemplou ele consigo mesmo, enquanto suas mãos iam se fechando lentamente em punhos. – Não só porque a batalha vai ser mais intensa, mas também porque o inimigo pode decidir que eles são muito perigosos e decidir mata-los para se prevenir. Se algo assim ocorrer... aí teremos problemas.

Chamas douradas foram criadas em suas mãos, e fazendo-as queimar intensamente, Jiazz usou-as como propulsores para acelerar ainda mais a velocidade do seu voo. Momento após momento, seu rosto estava mudando cada vez mais. O que havia se transformado em uma careta séria foi se modificando de novo e de novo, se tornando uma carranca furiosa terrível. Os lábios de Jiazz se abriram como se ele estivesse rosnando, revelando uma fileira de dentes brancos com caninos avantajados que pareciam hostis como os de um cão raivoso, como se uma mordida deles pudesse arrancar um pedaço de um homem.

– Os três estão lutando lá devido a mim. Sendo assim, eu não posso ficar irritado se eles forem apenas derrotados – racionalizou Jiazz, mesmo enquanto as chamas douradas que tornavam o Juggernaut famoso começavam a cobrir não apenas seus punhos, mas todo o seu corpo, fazendo com que ele se transformasse em uma bola de chamas douradas flamejantes que cruzava o ar em altíssima velocidade, seguindo em direção ao Pandemonium como um pequeno meteoro. – Mas eu juro... se alguém ali tiver pensando em matar qualquer um deles, NÃO HÁ DEUS OU DEMÔNIO QUE VÁ OS LIVRAR DE MIM! – O grito furioso do Juggernaut ecoou com uma força terrível. Ele estava sobrevoando nada mais do que o vasto azul do mar naquele momento, mas isso não impediu que ele fosse ouvido. Norte, sul, não importava; o grito de Jiazz foi tão alto que todos aqueles na costa oeste do continente puderam o ouvir claramente, como se sua voz trovejasse dos próprios céus. – VOCÊS OUVIRAM ISSO, CAVALEIROS DO SALÃO CINZENTO?! MATEM UM DOS MEUS COMPANHEIROS, QUALQUER UM DELES, E EU NÃO IREI DESCANSAR ATÉ TER PARTIR CADA CAVALEIRO QUE JÁ PISOU NESSA TERRA EM PEDAÇOS! EU SOU JIAZZ, O JUGGERNAUT, E NUNCA IREI PERDOAR OS QUE FIZEREM MAL AOS MEUS COMPANHEIROS!





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