O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 91
Selamento




Segundo Andar do Pandemonium, “Labirinto Eterno”...

SILÊNCIO REINOU PELA SALA APÓS O ESTALAR DO PESCOÇO DE BRYEN. Tanto o cavaleiro quanto o Mago Negro não conseguiam fazer mais do que ficar olhando a espadachim ruiva com expressões embasbacadas nos rostos, sem compreender como ela havia chegado ali, muito menos como ela havia conseguido se defender de um dos golpes de Octo Gall com tanta facilidade. Isso... isso deveria ser impossível. Pelo que eu sei dela, Bryen é uma guerreira que se destaca em velocidade mas peca em força, a um ponto até pior do que Kastor. Eu não sei exatamente o quão forte é Octo Gall agora, mas se a força bruta dessa forma dele é no mínimo uma sombra do que a sua aberração havia exibido, então alguém como ela nunca deveria ser capaz de bloquear um golpe dele assim. Não conseguia entender como aquilo havia acontecido... e aparentemente, o mesmo valia para Gall.

Sua... sua pirralha insolente! – O rugido com aquela voz cavernosa que o Mago Negro havia ganhado naquela forma era verdadeiramente ensurdecedor, tão potente que ele chegava a causar uma onda de som que fez com que o chão ao redor de Octo se quebrasse e arremessou o corpo sem forças de Enderthorn pelos ares, jogando-o até a parede do outro lado da sala. Mas mesmo com aquilo Bryen permaneceu completamente imóvel, fixa aonde estava como se fosse uma estátua, mantendo sempre o mesmo olhar sobre Gall. – Quem você acha que é para me interromper? Quem você acha que é para me desafiar! Você é uma garota, uma pirralha que se acha demais! Enderthorn é ao menos um cavaleiro, mas você não é nada! Irei lhe esmagar com um so-

Ela não lhe deu sequer tempo de terminar. De uma só vez Bryen saltou contra Octo em uma velocidade tão estrondosa que Ender mal pode acompanhar seus movimentos, e antes que o Mago Negro tivesse de sequer entender o que estava acontecendo ela já estava lhe atingindo no que deveria ser o seu estômago com uma voadora poderosa o suficiente para que o a onda de impacto emitida pelo chute fosse sentida até onde Enderthorn estava. O único olho de Octo Gall se arregalou ao extremo com o golpe por um momento antes que ele fosse arremessado pelos ares por ele, jogado até a parede do outro lado da sala.

O corpo gigante que ele havia ganhado afundou um pouco na parede, seu olho ainda perdido e arregalado, sua mente ainda tentando processar o que havia acabado de acontecer. Mas Bryen não lhe deu tempo para isso também. Assim que seus pés tocaram o chão a ruiva não hesitou em avançar novamente, correndo contra ele com uma velocidade tão grande que Enderthorn só foi capaz de ver um vulto vermelho cruzando a sala antes que ela subitamente estivesse bem ao lado de Octo Gall, chutando seu rosto para o lado com uma perna para logo em seguida chutá-lo contra a parede com a outra, fazendo com que ele afundasse ainda mais e formasse uma verdadeira cratera na parede. Tão... tão forte. Ela... quando ela se tornou tão forte assim? Após sua sequência de golpes Bryen saltou para trás, girando no ar um pouco antes de aterrissar de pé há uns seis ou sete metros de distância da cratera que havia criado, de braços cruzados enquanto ainda segurava sua espada em um a de suas mãos, parecendo completamente despreocupada com o que quer que seu oponente pudesse fazer.

RUUUUUUUUUUUOOOOOOOAAAAAAHHHH! – O rugido bestial ecoou por toda a sala com uma força ainda mais do que o que Octo havia demonstrado anteriormente. O Mago Negro emergiu da cratera absolutamente furioso, movendo-se selvagemente como uma besta enlouquecida em direção a Bryen com tudo, lançado seu punho com todas as forças contra ela. A reação da mulher foi calma e controlada. Ela endireitou seu corpo em uma posição de batalha, segurando sua espada com ambas as mãos, e esperou até que ele chegasse bem próximo antes de avançar em um golpe. Em um único instante, sua espada cortou através do braço de Octo Gall desde a metade do punho até o topo do ombro, fazendo com que uma de suas metades caísse no chão enquanto a outra esguichava sangue negro e fazia com que o Mago gritasse em dor.

Octo Gall caiu de joelhos no chão quase que de imediato, gemendo com aquela sua voz gutural em dor enquanto Bryen apenas se virava novamente em sua direção bem lentamente, limpando uma gota de sangue negro podre que havia respingado em seu rosto com uma das mãos. Não demorou para que os gemidos de dor de Octo se transformassem em grunhidos furiosos, e foi então que algo verdadeiramente bizarro aconteceu. A carne podre e queimada do mago se abriu na altura do seu outro ombro em uma espécie de rombo, e desse rombo não saiu nada menos do que um grande olho avermelhado voltado para trás, um olho que olhava diretamente para Bryen com puro ódio e desejo assassino.

Pirralha... sua maldita pirralha! – Desde o momento em que havia notado as mudanças na voz do Mago Negro que Enderthorn estava reparando nisso, mas aqueles rugidos furiosos deixaram tudo ainda mais claro. Parece que... Octo Gall está perdendo sua mente a cada minuto que passa. As palavras dele vinham um pouco mais arrastadas e emboladas, e cada vez mais ele parecia estar rugindo como uma criatura estúpida do que falando como o mago arrogante que era. – Você... você acha que algo assim vai me deter?! Sua pirralha estúpida! Isso não significa nada para mim, NADA! Eu irei regenerar esse braço, e depois irei lhe esmagar com ele!

A reação de Bryen a essa declaração foi apenas virar levemente seu corpo em direção a ele, fitando-o com um olhar sério e neutro que, em sua indiferença, parecia arrogante. Como se ela estivesse o desafiando a fazer seu melhor. E isso serviu para enfurecer ainda mais Octo Gall. Outro rugido explodiu da garganta do homem-monstro ao mesmo tempo em que sua massa corporal começou a se mover visivelmente, seguindo em direção ao seu braço mutilado para regenerá-lo.

Mas ela não conseguiu fazer isso.

Inicialmente Enderthorn estranhou a demora na regeneração, mas pensou que isso fosse apenas uma consequência dos ferimentos que ele havia adquirido somados às mudanças ocasionadas por ele agora ter sua própria consciência inserida diretamente naquele corpo. Mas a forma como o olho “humano” dele se voltou em direção ao seu braço e a preocupação que surgiu em seu rosto deixaram claro que aquilo não era normal. Sua massa havia seguido em direção à mutilação e inúmeras veias – todas sob tamanha pressão que eram visíveis a olho nu – pareciam seguir em direção ao mesmo, mas apesar de tudo aquilo, a regeneração não acontecia. Octo Gall não era capaz de se regenerar.

– Será que você entendeu agora o que aconteceu, Mago Idiota? Ou será que terei que desenhar para você? – A voz de Bryen veio carregada de provocações e sarcasmo seco, fazendo com que a atenção de Octo Gall fosse totalmente para ela, tal como a de Enderthorn. – Esse não é um poder que eu possuía originalmente, e francamente, era algo que eu nunca imaginaria que eu pudesse ter nas mãos. Mas o meu treino revelou isso, a minha Aloeiris. Selamento. – Os olhos de Bryen caíram brevemente sobre a sua espada, antes que ela voltasse a fechá-los e sacudisse com força sua arma no ar, arremessando o sangue negro que manchava a lâmina na parede. – O funcionamento dela é muito simples: o que eu corto é selado. Esse selamento sela as atividades do que foi selado e impede que qualquer coisa interfira em meio a isso, e não existe nada no mundo que pode desfazer um dos meus selos além de uma Aloeiris equivalentemente poderosa à minha ou a minha derrota ou morte. Você entende o que eu quero dizer com isso, não é? A partir do momento em que eu selo uma parte do seu corpo, ela se torna completamente inútil. Você não pode movê-la, você não pode curá-la, você não pode fazer nada com ela. Nada pode fazer nada com ela, e ela não pode fazer nada com nada. Em uma pessoa normal isso seria problemático já que significaria que o fluxo sanguíneo seria interrompido e que eventualmente essa parte iria começar a necrosar, gangrenar e por fim simplesmente cair... mas creio que uma abominação com você não tem que se preocupar com coisas assim, não é? Mas existem problemas causados pela minha Aloeiris com os quais você deve se preocupar – murmurou Bryen, abrindo seus olhos e apontando sua espada para seu oponente sem medo ou hesitação. – Eu cortei seu braço como um aviso, Octo Gall. Você não vai poder regenerá-lo mais e ele é inútil para você agora, mas isso não é nada demais. Isso dito, o que farei a seguir será cortar o seu rosto. Com o selamento agindo sobre ele, seu cérebro será incapaz de enviar comandos para seu corpo, e o selo também irá extinguir qualquer fluxo de sangue ou mana ou o que quer que esteja o mantendo de pé. Em termos simples... você morre no meu próximo golpe.

Aquelas palavras foram ditas com uma tranquilidade e simplicidade tão grande que era impossível não captar a mensagem por trás delas. Ela não está lhe dando um aviso. Ela está fazendo uma afirmação. Ela está declarando que ele vai morrer com o seu próximo ataque como um fato. E isso estava enfurecendo o Obscuro. De onde estava a visão de Enderthorn do que acontecia era um pouco limitada, mas não o suficiente para que ele não visse a clara irritação do Mago Negro. Seu corpo estava curvado, seu punho estava fechado, e veias agora eram visíveis por todo o seu corpo, um sinal do enorme esforço que ele estava fazendo. Não demorou muito para que algo começasse a ser ouvido, primeiramente como um zumbido, para então ir gradativamente ganhando força, se tornando logo um grunhido e logo depois um verdadeiro rugido bestial que ecoou pela sala. Um terceiro braço emergiu de uma vez do meio das costas de Octo Gall, e sem perder tempo o mago-monstro avançou com tudo contra Bryen, movendo seu punho contra ela como se fosse uma marreta. A ruiva esquivou-se saltando por cima dele sem muitas dificuldades, mas assim que ela passou acima dele o braço que havia acabado de surgir avançou contra ela, tentando apanhá-la no ar como alguém tentaria apanhar uma borboleta. Um ruído de aborrecimento foi tudo que veio de Bryen enquanto a mulher girava rapidamente no ar – o suficiente para se distorcer o suficiente para evitar ser apanhada pela mão de Gall – e tomava apoio no braço com uma de suas mãos para manobrar seu corpo em meio ar. Nem mesmo quando um outro braço – muito menor do que as aberrações gigantescas que Octo havia demonstrado até agora, mais no nível do que você esperaria de um humano – emergiu do braço no qual ela se apoiava tentando segurá-la ela mostrou o menor sinal de dificuldades, decepando-o facilmente com um movimento da sua espada e terminando sua manobra para aterrissar de joelhos no chão.

Assim que os pés dela tocaram o chão, Octo Gall não perdeu tempo em avançar novamente contra ela, rugindo tão alto que baba chegou a cair de sua boca aberta e se espalhar pelo chão. Mas dessa vez ela não tentou desviar. Ao ouvir os sons do avanço dele, o que Bryen fez foi virar rapidamente na sua direção e avançar contra ele também, brandindo sua espada a frente de si. O que diabos ela está fazendo?!, pensou Enderthorn por um momento, até se lembrar da habilidade de Bryen e compreender imediatamente o que ela planejava, ao mesmo tempo em que Octo parecia chegar a mesma conclusão. O mago firmou seus pés com força para parar seu avanço tão rápido quanto possível e ergueu rapidamente seu braço “normal” para cobrir seu rosto contra ele, bem a tempo para proteger-se do ataque de Bryen. A espada dela cortou através de dois dos seus dedos e deixou um corte profundo nos outros antes, fazendo com que um grunhido viesse de seu oponente ao mesmo tempo em que o braço nas suas costas se contorcia para avançar contra ela, fazendo com que a espadachim colocasse seu corpo em posição de guarda em meio ao ar e tentasse bloquear o golpe o melhor que pôde, conseguindo absorvê-lo sem danos, embora isso não tenha impedido seu corpo de ser lançado longe, até o outro lado da sala.

Quando ele conseguiu algum espaço e afastou sua mão do rosto, Octo Gall trazia uma expressão curiosa. Seu olho caiu sobre Bryen com algum interesse desconhecido, como se estivesse tentando compreender alguma coisa ao olhar para ela, até que eventualmente ele parecesse compreender o que quer que isso fosse e o que deveria ser um sorriso grotesco se abrisse em seus lábios monstruosos.

Não funcionou, pirralha! – Gritou ele em um tom mais lúcido do que o que havia demonstrado antes, embora a baba que escorreu de sua boca ainda deixasse claro que ele estava longe da racionalidade que tinha ontem. – Seus selos não funcionam! Meu braço está selado! Posso movê-lo ainda! – E para demonstrar o seu ponto ele flexionou o braço que havia acabado de usar como um escudo. Tal como ele dizia, seus movimentos não pareciam minimamente limitados, embora Enderthorn tenha notado que seus dedos pareceram rígidos demais no movimento. – Eu perdi a minha mão, mas isso é tudo! Meu braço ainda se move, e isso é mais do que o suficiente!

Ele disse aquilo e avançou novamente contra ela com tudo, mais confiante do que antes e muito mais selvagem. Mas isso foi um erro. Enquanto ainda estava sendo lançada pelo ar, Bryen girou seu corpo para que alcançasse a parede com seus pés voltados para ela. Assim que atingiu essa parede o que ela fez foi usar do impulso do golpe para que suas pernas se dobrassem rapidamente e voltasse a saltar contra Octo Gall com uma velocidade ainda maior, simulando o efeito de uma mola com o seu próprio corpo. Segurando sua espada firmemente com ambas as mãos ela seguiu como uma flecha em direção ao monstro, seus olhos fixos no rosto dele, e foi então que Octo compreendeu o seu erro: graças ao seu avanço selvagem e descuidado, ele não tinha condições de se defender da investida de Bryen.

Pânico cruzou novamente o seu rosto quando ele compreendeu a situação na qual estava, mas já era tarde demais. Ele ainda tentou parar e erguer alguma defesa, mas não teve chance alguma; antes que ele pudesse se proteger de qualquer forma a espada de Bryen desceu, partindo seu crânio ao meio e espalhando seu sangue negro sobre a ruiva.

Selamento – murmurou ela, soltando sua espada e saltando para trás para se distanciar um pouco enquanto via o corpo de Octo Gall cair no chão, sem vida.

Por um bom tempo Enderthorn ficou apenas vendo tudo aquilo, incapaz de acreditar no que seus olhos haviam acabado de testemunhar. Ele... ele perdeu. Ela o matou, assim, tão fácil! Aquilo fez com que ele se sentisse decepcionado consigo mesmo, mas aquilo era muito pouco perto do alívio que sentia em finalmente ver aquele homem morto.

Esse alívio não durou muito, no entanto.

Depois que caiu, o corpo de Octo Gall ainda sofreu alguns espasmos antes de finalmente parar completamente de se mover. Foi só depois que isso aconteceu que Bryen se aproximou dele, ainda mantendo um ar suspeito e atento enquanto alcançava com sua mão a espada que havia cravado no crânio dele. Logo ficou provado que isso não era cautela demais; o punho das costas de Octo Gall moveu-se subitamente com força, e nem mesmo com a sua velocidade e sua cautela Bryen se viu capaz de desviar do golpe; mesmo com o seu salto o punho de Octo ainda conseguiu a atingir em cheio no estômago, fazendo com que ela cuspisse sangue com o impacto antes que fosse arremessada longe, jogada contra uma das paredes da sala com tanta força que seu corpo criou uma cratera nela antes de escorrer para baixo como uma boneca quebrada.

Pirralha tola! Achou mesmo que iria me matar assim tão fácil?! – A voz de Octo veio mais monstruosa do que nunca, ficando mais grossa a medida que o corpo do necromante ia se levantando apoiado em seu próprio antebraço. Não... isso não... não é possível! O crânio dele havia sido cortado claramente em dois, via isso com seus próprios olhos. Com ou sem a habilidade de Bryen, isso já deveria ser o suficiente para cortar o seu cérebro e acabar com ele. Como ele ainda está vivo? O que é necessário para matar esse monstro?! Uma boca havia se aberto no torso de Octo, cheia de dentes afiados que pareciam capazes de devorar um homem inteiro de uma vez, e ela parecia “sorrir” enquanto “olhava” em direção a ela. – Você ficou arrogante demais, pirralha! Esse não é o meu corpo original, mas um corpo criado usando uma massa de carne! Eu consigo o controlar como eu bem quiser; posso controlar o número dos meus membros, aonde eles estão, quais são as suas dimensões... e posso também controlar coisas como a localização dos meus órgãos! Quando você disse que pretendia selar o meu cérebro, eu movi ele para outra parte do meu corpo! Simples assim!

A boca gargalhou maldosamente ao dizer aquilo, mostrando o óbvio deleite que Octo tirava naquilo. Maldição... ele consegue fazer algo assim?! Eu sabia que ele não era mais nada que você pudesse chamar de “humano” depois dessa transformação, mas ainda assim... Nunca havia imaginado que o mago pudesse ter desenvolvido uma habilidade dessas... e isso era extremamente problemático. Se ele pode controlar o seu corpo, isso significa que ele pode se regenerar quase que infinitamente com o que tem disponível. Ele provavelmente não reabsorveu o pedaço cortado do seu braço ou coisa do tipo já que essas áreas foram seladas, mas ainda assim, isso não importa muito se ele pode apenas criar novos aonde bem quiser. E se ele pode mover seus órgãos para onde quiser dentro de seu corpo, então é impossível saber qual a região que Bryen deve atacar para lhe matar! A cada minuto que passava a situação ficava pior, e cada vez mais Enderthorn se via perdendo a certeza que tinha antes na vitória de Bryen.

Ou, pelo menos, era isso que estava acontecendo até ele mover seus olhos de volta para a espadachim. Lentamente, desprovida de qualquer tipo de pressa, Bryen estava se levantando ainda com as costas apoiadas na parede e usando sua espada como apoio. Ela estava claramente ferida depois de ter recebido um soco como aquele diretamente, mas apesar disso, Enderthorn sentia que aquilo não era um problema para ela.

De alguma forma, ele sentia que o que fazia com que ela fosse tão vagarosa em seus movimentos era nada mais do que a própria fúria da ruiva.

Quando ela se pôs de pé, seus olhos estavam fechados e sangue escorria da sua boca e de uma de suas narinas. Calmamente ela tampou a narina contrária a que sangrava e assoou com força, jogando uma bola de sangue no chão pela outra, e com a ponta dos dedos ela limpou o sangue que havia escorrido de seus lábios. Seu olhar então voltou-se para Octo Gall, e tal como ela havia feito no início de toda aquela luta, Bryen estalou o pescoço.

Você vai se arrepender disso. – Prometeu em um sussurro com uma voz de gelar a alma, capaz de fazer com que um calafrio corresse pela espinha de Enderthorn, um momento antes de desaparecer.

Sangue negro esguichou pelo ar um instante antes que a perna direita de Octo Gall se fosse separada do resto do corpo e escorregasse até o chão. Viu Bryen apenas de relance ali, com sua espada banhada em sangue, e nem isso durou muito tempo. O monstro urrou em dor com aquilo, e num piscar de olhos Bryen apareceu em suas obras, sobre seus ombros, movendo sua espada em direção ao braço “normal” restante do monstro. Ele cai no chão com um baque, conquistando mais um urro de dor do mago-monstro. Sustentado agora apenas por uma perna, Octo Gall parecia prestes a cair a qualquer momento, lutando para manter seu equilíbrio enquanto tentava suportar a dor de todos aqueles golpes... e ainda assim, de alguma, ele conseguiu tirar forças o suficiente para mover seu terceiro braço contra Bryen mesmo enquanto fazia tudo aquilo.

Dessa vez ele não teve metade do sucesso que havia tido na anterior. Bryen já previa um movimento como aquele, e assim que seu braço começou a se mover ela saltou rapidamente em uma espécie de cambalhota; quando o punho se moveu para a posição em que ela estava tentando atingi-la, ele acabou se esticando, o que apenas deixou as coisas ainda mais simples para ela. Um movimento rápido de sua espada e segundos depois o terceiro braço de Gall também caia no chão, espalhando o sangue negro e podre da criatura por ele. E um momento depois a mulher que havia acabado de saltar para trás do mago emergia pela sua frente, sua espada suja de novo enquanto seu corpo estava em uma posição que sugeria que ela havia acabado de realizar um ataque. Foi só depois que ela balançou sua espada para limpá-la e embainhou-a novamente que esse ataque se revelou, e a última perna de Gall foi cortada ao meio.

A queda do torso do mago negro ao chão veio acompanhada de um estrondo, e ela serviu como sinal para que Bryen se virasse novamente em direção a ele... de forma calma, quase como se ela estivesse atrasando propositalmente seus movimentos, segurando com uma mão a empunhadura de sua espada recém-embainhada em sinal de preparo, embora sua postura parecesse mais relaxada do que tudo.

Sua maldita... sua... maldita... vadia! – Sua voz veio cheia de dor, mas veio mesmo assim. Ele erguia-se com dificuldades usando dois braços, muito menores do que os braços monstruosos que ele exibia antes, minúsculos quando comparados ao seu imenso torso. Um único olho gigante surgiu acima da sua boca, fitando intensamente Bryen com uma fúria que ele não tentava esconder. – Quem você pensa que é?! QUEM VOCÊ PENSA QUE É?! Isso é imperdoável! IMPERDOÁVEL, OUVIU BEM?! IMPERDOÁVEL! Eu irei te fazer em pedaços, sua VADIA RUI-

– Calado, seu tolo. – As palavras vieram acompanhadas de um movimento de espada que cortou através do olho e da boca de Octo Gall. Enquanto ele se ocupava em rugir e esbravejar, Bryen se aproximou num único instante, surgindo a sua frente já com a espada desembainhada em mãos e seguindo imediatamente para o ataque. – Você é um idiota, Octo Gall. Se tivesse um pouco de controle da sua própria língua, você poderia ter ganho essa luta. – Bryen esperou que ele começasse a gritar em dor para continuar com seus ataques, movendo sua espada múltiplas vezes em dezenas de golpes, tão rápida quanto qualquer Primeiro Cavaleiro focado na velocidade... ou talvez até mais. – Sua habilidade de mover os seus órgãos no seu corpo é problemática. Somada à sua habilidade de controlar a forma do seu corpo e se regenerar, você se torna praticamente impossível de matar usando-a corretamente. Mas você é idiota demais para usá-la bem. Todo o funcionamento de um corpo provém do cérebro, o que significa que caso você queira fazer qualquer coisa com alguma parte de seu corpo, essa parte tem que ter uma conexão direta ao seu cérebro. Eu acabei de decepar todos os seus membros além do torso, o que significa que para você estar fazendo isso, o seu cérebro tem que estar no torso. E se eu consigo isolar o local onde o seu cérebro está, então é fácil para mim lidar com você. – Dentre todos os golpes que ela havia desferido, nenhum deles havia cortado profundamente o suficiente para separar uma parte do torso de Octo do resto. Havia pensado que aquilo era devido a velocidade dos movimentos que fazia com que Bryen não conseguisse colocar peso o suficiente por trás de cada ataque, mas ao ouvir aquilo compreendeu que esse não era o caso. A espada da mulher parou por um momento para que ela olhasse para o torso de Gall, cortado em todos os cantos, banhado no sangue negro que escorria dele, antes que ela girasse a espada em suas mãos e movesse-a em uma investida direta contra o centro dele. – Selamento!

No momento em que aquela palavra veio dos lábios dela, tudo parou. O torso de Gall antes tremia e sua boca gemia em dor, mas tudo parou imediatamente depois que aquela palavra foi dita, deixando que o mais puro silêncio reinasse. O torso do monstro caiu para trás, a espada ainda presa nele, como se o que um dia havia sido Octo Gall estivesse olhando o teto em busca do céu em seus últimos momentos.

Por um ou dois segundos Bryen ainda ficou parada aonde estava, sua postura indicando que ela estava pronta para desviar de qualquer possível ataque que ele pudesse lançar, mas de qualquer forma ela foi rápida em relaxar um pouco e avançar calmamente em direção àquela carcaça. Subiu em cima dela sem nojo – apesar de todo aquele monte de sangue e podridão fosse mil vezes pior do que qualquer esterco – e avançou por ele até alcançar sua espada. Com uma mão ela alcançou a empunhadura desta, e com um movimento ela a arrancou do torso da criatura morta.

E no momento em que ela fez isso, algo veio do cadáver. A grande boca que ele havia criado ainda estava aberta, e dela saiu o que parecia ser uma fumaça extremamente preta, muito mais escura do que qualquer coisa que você veria de uma queimada, que logo revelou não ser fumaça nenhuma. Aquela “fumaça” subiu, assumindo uma forma levemente humana, parecendo um espectro atormentado, e então ela disparou para fora da sala, numa velocidade tão rápida que até mesmo alguém como Bryen não teve tempo de fazer mais do que se virar na direção na qual ela havia seguido.

Tanto os olhos da ruiva quanto os de Enderthorn se arregalaram ao ver aquilo, embora apenas o cavaleiro tenha sentido um calafrio ao ver aquilo, um aperto no peito como se uma mão estivesse apertando o seu coração. Essa sensação... isso é mal. Eu não sei o que foi essa coisa, mas eu sei que isso não é nada de bom. Supunha que devia se sentir aliviado pela luta ter acabado e por Gall ter aparentemente morrido, mas aquilo havia acabado de arruinar qualquer bom humor que o resultado pudesse ter lhe dado, bem como havia confirmado um dos temores que ele tinha desde o momento em que viu o torso caiu. Isso tudo ainda não acabou. Octo Gall... ele não está morto.

=====

Longe, muito longe do Pandemonium ou de toda a guerra que ocorria ali, em uma floresta verde cheia de vida – uma das áreas intocadas pelo homem de Fredora – uma caverna podia ser encontrada na base de uma montanha. Uma caverna profunda, úmida e escura como muitas cavernas, mas só em algumas seções. Em certo ponto dela as coisas mudavam. A umidade sumia, e o aspecto rude de uma caverna ia dando lugar à ordem e organização de uma civilização. Pareces de azulejos e pisos de cerâmica em cores anêmicas levavam até uma sala que parecia um laboratório, iluminada pelo brilho azul de labaredas mágicas contidas dentro de lâmpadas de vidro. Inúmeros balcões se concentravam nos cantos daquela sala, alguns trazendo instrumentos médicos como seringas, agulhas e bisturis, enquanto outros traziam poções de diversas cores em frascos de mil e uma formas, e outros traziam ingredientes clássicos da bruxaria e alquimia, como olhos de dente-de-sabre, dentes de tiranossauro, escamas de dragões, orelhas de elfos, asas de borboleta, língua de salamandra e coração de cavalo. Todos organizados em potes etiquetados, organizados em conserva. A única exceção para toda aquela decoração era um cabide em uma das paredes que suportava um único manto, escuro como a noite.

E no meio daquela sala, cercada por todos aqueles aparatos que pareciam esperar por alguém, estava uma mesa longa branca impecável, do tamanho de um homem adulto, como a que muitos médicos usavam para fazer autopsias em cadáveres. Mas o que estava em cima dela não era cadáver nenhum, mas sim o esqueleto de alguém que morreu há muito tempo.

O esqueleto era completamente humanoide em suas proporções, embora ele tivesse algumas peculiaridades. Graças ao tempo, o pó e a sujeira haviam aderido aos ossos que o formavam, dando a ele uma aparência amarelada – suja, em poucas palavras. Seu crânio tinha uma rachadura enorme que ia do topo da sua cabeça até o canto superior direito do seu olho direito, algo provavelmente provocado por um golpe de machado enquanto ele ainda estava vivo. Mas o que mais se destacava nele eram os seus dentes; eles eram amarelados como o resto do corpo dele, mas também eram completamente fora de proporção para o seu corpo aparentemente normal. Ao invés de serem uma arcaria dentária normal, aqueles dentes pareciam ter sido afiados manualmente um por um com alguma coisa, fazendo com que cada um deles ficasse pontudo e afiado como uma fina ponta de flecha – e por tal, fazendo com que eles parecessem mais algo que alguém esperaria ver no esqueleto de uma besta do que no de um humano.

Foi por aquela floresta verde que correu o espectro. Foi naquela caverna que ele adentrou, foi por aquele corredor que ele correu, até chegar naquela sala. Foi só então que ele parou, pairando acima do esqueleto, e a feição humana que parecia agonizar naquele espectro olhou para o esqueleto e gritou, mas ela não pode fazer som nenhum além de uma espécie de grito extremamente agudo, ao ponto de, mesmo não ser muito alto, conseguir fazer com que alguns dos potes de vidros da sala se quebrassem em pedaços. E então, de uma vez, o espectro avançou contra o esqueleto. Seu “corpo” se dissipou em fumaça negra, e essa fumaça negra foi se espalhando e se misturando aos ossos do esqueleto, se unindo a eles, forçando-se para dentro de cada osso até que cada um deles começasse a exalar essa fumaça negra, acompanhada de uma aura sombria que lhes revestia como uma perfeita silhueta. Isso aconteceu em cada osso e foi se espalhando de um para o outro, avançando até chegar por fim ao crânio do esqueleto. Os “espaços vazios” entre os vários ossos foram, pouco a pouco, sendo preenchidos por uma matéria negra que lembrava carne ou pele, dando uma aparência mais humana ao esqueleto enquanto ao mesmo tempo fazia com ele parecesse uma criatura demoníaca... algo que só foi reforçado quando um par de chamas azuis surgiram no meio das poças escuras que eram os ossos desse esqueleto, anunciando o seu despertar.

Ele começou a se erguer de forma lenta. Primeiro foi seu torso, erguendo-se até colocá-lo sentado sobre a mesa, e então ele ergueu suas mãos para fita-las com seus olhos de fogo. Por alguns momentos ele apenas ficou assim, como se estivesse pensando em alguma coisa, antes de finalmente falar.

– Então, o ritual realmente deu certo... excelente. – Sua voz veio mais rouca e profunda, mas ainda assim, era bem reconhecível. Ele abriu e fechou suas mãos algumas vezes, como que para testar o funcionamento delas, e uma vez satisfeito foi bem rápido em apoia-las na mesa e mover todo o seu corpo para que estivesse sentado na beirada dela, prestes a se levantar. – Ser um esqueleto é algo um tanto quanto estranho... mas devo me acostumar com isso, dado tempo o suficiente. Muito melhor do que morrer, de qualquer forma. E que forma melhor para um Necromante conhecer a sua arte do que sendo parte dela? – Levantou-se da mesa com um salto, e assim que se colocou de pé ele começou a fazer alguns exercícios, esticando braços e pernas para certificar-se de que seu novo corpo funcionava bem. – Graças à manifestação da minha alma nesse corpo, consigo funcionar como se tivesse carne e músculos mesmo sendo apenas ossos. Às vezes me maravilho com o que a magia pode fazer. Que tipo de idiota tornou uma arte tão magnífica como a Necromancia em algo ilegal?

Uma vez tendo testado seu corpo, virou-se em direção ao cabide afim de apanhar seu manto. Parou antes disso, no entanto. Olhou para o corredor que se estendia para fora do seu covil, e então uma ideia cruzou a sua mente. Esticou uma mão em direção a esse corredor, e por um momento as chamas em seus olhos queimaram com mais intensidade. Uma onda de corrupção foi liberada da palma da sua mão na forma de uma rajada de energia transparente, e embora isso não tenha causado nenhum dano direto, ela fez com que tudo ao redor do local por onde ela passava decaísse. Os azulejos se quebraram e a cerâmica se transformou em pó. Mais ao longe, além do alcance dos olhos dele, a água da caverna se tornou escura como se estivesse suja de lama, e pedaços de pedra da caverna ruíram em pedaços. Na área próxima da entrada dessa caverna as plantas morreram, as árvores envelheceram e caíram, e até mesmo os animais foram perdendo forças e desabando, os menores deles como esquilos e gambas apodrecendo em uma velocidade estrondosa, sendo reduzidos a ossos em meros segundos.

– Hum... parece que os meus poderes se mantêm no nível de antes... ou talvez eles tenham até mesmo ampliado. Perfeito! – Animado por sua descoberta, ele não perdeu tempo em tomar seu manto do cabide e jogá-lo ao redor do seu corpo. Graças a sua nova aparência ele teria de se manter oculto dos olhos dos outros, mas pelo que estava vendo, esse era um preço pequeno a se pagar pelo que havia conquistado. – Humph... me pergunto como Balak vai ficar agora, com toda essa guerra. É uma pena que eu não tenha tempo para voltar ao Pandemonium. Seria bom coletar todos aqueles corpos para os meus experimentos, quase tão bom quanto poder me vingar do cavaleiro e da espadachim. Mas, bem, não importa. “Tudo ao seu tempo”, eu suponho. – Apesar disso, não conseguia deixar de sentir um pouco desapontado pela oportunidade perdida. Quase desejava que a mulher não tivesse o matado, só para que pudesse fazer o que queria. – Bom, não tenho tempo para perder lamentando o meu passado, também – murmurou Octo Gall para si mesmo, começando a andar calmamente para fora de seu covil. Envolto em um manto negro, com olhos de chamas azuis ardentes e cercado por uma névoa negra criada pela fumaça que formava seu novo “corpo”, Octo parecia a própria visão da morte.

Um verdadeiro Lich.





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