O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 88
Grande Satã


Notas iniciais do capítulo

"O Olho Vermelho" não é uma história satânica.

... Acho que convém colocar esse aviso considerando o título desse capítulo.



Segundo Andar do Pandemonium, “Labirinto Eterno”...

TREVAS CERCAVAM MAOH ENQUANTO O CAVALEIRO FICAVA EM PÉ AONDE ESTAVA, reto como uma vareta mas sem demonstrar qualquer tipo de movimento, como se ele fosse um cadáver de pé. Mas o quê... o que diabos está acontecendo aqui?! Desde que Maoh havia começado a falar daquela forma estranha que Zaniark não entendia mais nadica de nada do que se desenrolava diante de seus olhos, e embora Byron parecesse ter uma compreensão melhor disso, ele parecia estar preocupado demais em manter a boca aberta e os olhos esbugalhados como um débil mental para dizer qualquer coisa de útil. Apesar de que eu acho que não posso culpa-lo por isso, considerou Zaniark – mesmo sem entender o que exatamente estava acontecendo, as mudanças que o corpo de Maoh havia sofrido eram o suficiente para deixar claro que aquilo não era nada de bom. Mas se é assim mesmo, isso só reforça o fato de não termos tempo para desperdiçar com essa besteira!

– Ei, Byron! – Gritou Zaniark, e sua voz aparentemente conseguiu despertar Byron do transe no qual ele havia caído, fazendo com que o fumacento se virasse de imediato para ele. – Se isso não for muito difícil para você, poderia me explicar o que porra está acontecendo aqui?! O que raios aconteceu com Maoh?

O olhar bobão que havia dominado o rosto do demônio por um momento desapareceu logo desapareceu ao ouvir aquilo, dando lugar a um olhar mais sério, nervoso e preocupado.

– Maoh... eu não imaginei que ele era um desses, mas parece que ele é um descendente de uma das mais poderosas sub-raças de demônios, os “Satãs” – disse o demônio da fumaça, mantendo um olhar atento sobre Maoh, preparado para reagir a qualquer sinal de ataque do outro. – Antes do surgimento dos Corações, eram os Satãs que governavam o mundo dos demônios, os que davam algum tipo de “estabilidade” aquela terra maldita. Pelo que soube, uma boa parte deles foi morta pelos Corações quando eles tomaram o poder no mundo dos demônios, e os poucos que sobreviveram foram escravizados e usados como bucha de canhão durante a Guerra dos Grandes. Por isso não imaginei que veria algum deles de novo um dia.

– Oh, que maravilha! Que supinpa! Chuchu-maravilha-tererê! Mas, ei, deixa eu te contar um segredinho Byron: a história deles não me importa! Você poderia se ater as partes importantes, por favor?!

– Tch! – Resmungou Byron, seu rosto azedo depois de ouvir aquilo. Em uma situação normal Zaniark sabia que aquilo iria provocar uma discussão entre os dois, mas Maoh era um problema muito mais urgente no momento, e por isso seu amigo não discutiu. – Os Satãs são famosos por serem os mais humanoides dentre os demônios, os mais próximos da forma humana, tanto em aparência quanto em modo de agir. Isso se deve ao fato de que eles podem esconder sua “maldade”; a malícia, crueldade, ganância, orgulho e inveja que os demônios possuem em geral. Ela não deixava de existir, mas eles conseguiam mantê-la sobre controle melhor do que os outros demônios, o que permitia que eles fossem mais racionais do que a maioria e que eles até mesmo conseguissem se misturar perfeitamente no mundo humano. Isso dito, uma das habilidades da sub-raça é a de se entregar a essa mesma maldade que eles escondiam. Eles podiam se entregar a sua natureza primordial demoníaca, e ao fazer isso a sua aparência se modificava e o poder deles aumentava exponencialmente. Essa forma, ou melhor, essa transformação era algo que eles chamavam de “Grande Satã”.

– Grande Satã? – Não se julgava a pessoa mais esperta do mundo, mas até mesmo ele foi capaz de fazer a ligação entre o que Byron lhe dizia e o que Maoh havia dito de imediato ao ouvir aquilo. – Então, espera aí... isso significa que...

– Nesse momento, aquele garoto que era apenas um descendente de demônio assumiu sua forma demoníaca completa – confirmou Byron, uma gota de suor frio escorrendo pela lateral de seu rosto ao dizer aquilo. – Em outras palavras... ele agora é um Verdadeiro Demônio!

Aquelas palavras pareceram despertar Maoh, pois no momento em que elas foram ditas o seu corpo subitamente ganhou vida. O cavaleiro-demônio jogou sua cabeça para trás e urrou, e a força e bestialidade desse urro era algo completamente fora do que qualquer humano seria capaz de fazer. Ou droga, parece que Byron não estava brincando com aquilo! A mera força por trás daquele urro era o suficiente para forçar Zaniark a firmar bem os pés no chão e cobrir seu rosto com um braço só para que não jogado longe por aquilo. Raios, eu já estou vendo que isso não vai ser nada fácil!

Nunca esteve tão certo em sua vida quanto no momento em que esse pensamento passou pela sua cabeça.

O rugido de Maoh parou de forma tão súbita quando começou, e quando se deu conta o cavaleiro já havia cruzado toda a distância que o separava de seus oponentes. Seu rosto se virou apenas a tempo o suficiente de vê-lo golpear Byron brutalmente com um soco direto no rosto que arremessou o demônio instantaneamente contra uma das várias passagens daquela sala, e logo em seguida a atenção de voltou para Zaniark. O cavaleiro-demônio rosnou de forma bestial, mostrando presas avantajadas por um momento antes de apontar uma de suas mãos em direção a Zaniark. Ainda tentou saltar para fora do golpe, mas tudo que conseguiu com isso foi fazer com que a onda de energia que Maoh disparou da palma de sua mão tivesse ainda mais facilidade em lhe jogar longe.

A força por trás daquela era completamente incomparável com a das anteriores. Embora elas não fossem nada fracas, as outras ondas de energia eram algo que Zaniark conseguia suportar de alguma forma, mas aquela.... Essa sensação... é como se eu tivesse sido atingido por uma bola de aço de umas dez toneladas! Foi jogado longe de forma tão brutal e com uma velocidade tão grande que mal conseguia se dar conta do que estava acontecendo ao seu redor. Então esse é o poder de um Verdadeiro Demônio? Como foi que os heróis do passado conseguiram derrotar um exército gigante formado de monstros como esse?! Tentou forçar seu corpo para baixo o melhor que pôde, conseguindo com sucesso colocar seus pés no chão e começando a imediatamente aplicar o máximo de pressão possível sobre eles. Seu plano foi bem-sucedido. Aquilo certamente arruinou suas botas e fez com que sentisse como se seus pés estivessem ardendo em brasas, mas o atrito conseguiu diminuir sua velocidade até que parasse por completo, e imediatamente ergueu sua cabeça para encarar novamente seu oponente assim que isso aconteceu.

Não viu nada, e foi então que compreendeu que estava realmente encrencado. Ah, merda.

Pura experiência de lutas já fazia com que ele soubesse o que estava prestes a acontecer, mas em crédito a Maoh, ele foi o primeiro oponente que nem lhe deu a chance de se virar antes de fazer seu movimento. Sentiu ambas as mãos do mesmo tocarem suas costas no mesmo ponto por um único instante antes que a energia fosse liberada e seu corpo fosse lançado descontroladamente para frente. A pressão que a liberação daquelas ondas de energia fez sobre seu corpo foi o bastante para fazer com que ele vomitasse sangue enquanto girava no ar, e seus ferimentos só continuaram a aumentar mais e mais quando em seu descontrole seu rosto acabou batendo de cara no chão, fazendo com que todo o seu corpo começasse a virar e com que ele fosse rolando pelo chão enquanto ainda era arremessado por aquela força monstruosa. Tão forte... eu não consigo controlar o meu corpo! Joelhos, braços, peito, pescoço, cabeça – todas as partes do seu corpo foram batendo de novo e de novo no chão, coletando mais ferimentos com cada impacto e espalhando mais do seu sangue por onde passava. Só conseguiu reganhar o controle sobre si mesmo depois de ter perdido boa parte da sua velocidade e estar quase atingindo a parede, e não perdeu tempo quando fez isso; girou rapidamente – dessa vez propositalmente – e apoiou-se sobre um joelho para firmar uma boa postura. Fazer um movimento como esse com um corpo arruinado como o seu fez com que uma onda de dor corresse pelo seu corpo, mas mordeu seus dentes e aguentou ela em silêncio, focando-se em erguer seus olhos para seu oponente. Maoh – ou o que deveria ser Maoh – estava no mesmo ponto que ele estava antes, olhando para Zaniark com aqueles olhos pretos e uma expressão selvagem no rosto, com sua boca aberta e um bocado de fumaça negra saindo dela cada vez que ele respirava. Esse não é Maoh... esse certamente não é Maoh! Não conseguia acreditar que aquele garoto idealista que queria proteger seus companheiros havia se transformado em um monstro como aquele, ainda mais por sua própria vontade. Maldição, estou começando a entender melhor o ponto de Balak. Se os demônios são tão monstruosos assim e é tão fácil fazer com que uma pessoa fique desesperada o suficiente ao ponto de recorrer a um recurso como esse, o que impede que uma dessas bestas saia do controle e comece a destruir tudo por aí?

Pensar dessa forma fez com que tomasse uma decisão. Eu não tenho interesse nenhum em morrer aqui, e definitivamente não posso deixar uma coisa tão perigosa como essa zanzando por aí. Abriu ambas suas mãos e fez com que lanças de eletricidade surgissem nelas, as duas estalando violentamente praticamente no momento em que foram criadas. Eu não quero te matar, Maoh... mas suponho que não estou lidando mais com Maoh, não é mesmo? E de qualquer forma, “quereres” não entram na equação quando estamos lidando com uma ameaça como essa.

Lanças Gêmeas do Deus do Trovão! – Gritou Zaniark, arremessando simultaneamente as duas lanças que havia criado em direção a Maoh sem pensar duas vezes. Como essas não eram lanças de verdade, Zaniark podia controla-las de certa forma, e ele fez isso para se certificar de que elas voassem em um arco bem largo e avançassem em direção ao seu oponente o mais rápido possível. Os movimentos de Maoh parecem estar um tanto quanto erráticos agora, o que significa que eu simplesmente não sei quando ele irá se mover novamente ou mesmo para onde ele vai quando o fizer, então eu tenho que ser rápido no meu ataque para ter certeza que irei o atingir. Com esse pensamento em mente Zaniark não perdeu tempo em abrir ambas as suas mãos, estendendo-as em direção às suas lanças. – DESCARGA!

O que veio a seguir foi uma explosão. Uma explosão de pura eletricidade. Em cada uma de suas lanças ele havia concentrado uma voltagem absurda, comparável à de raios reais. Essa energia não era constante, nem tampouco estável. Tudo que mantinha ela em uma forma fixa era a vontade de Zaniark, e por isso foi fácil fazer com que ela fosse liberada na forma de uma tempestade elétrica violenta que consumiu toda a seção da sala na qual Maoh estava. Eu poderia ter simplesmente guiado as lanças contra ele e tentar fazer com que ele fosse o epicentro dessa explosão, mas isso seria muito arriscado. Ele poderia se esquivar, ou poderia bolar algum plano para virar isso contra mim. Aquilo deveria servir, de qualquer forma. Ele não está no epicentro, mas uma tempestade como essa é destrutiva e perigosa mesmo se você estiver nas bordas dela. Ele não se moveu, então ele com certeza foi atingido. Queria sorrir em satisfação com a sua façanha, mas não conseguia achar graça no acontecido para fazer algo assim. Maoh... eu sinto muito por isso, mas foi você que fez com que seu destino fosse assim. Apoiou-se no chão com suas mãos e se levantou com alguma dificuldade, ainda sentindo seu corpo dolorido graças ao último golpe que havia sofrido. Eu sinto muito por isso. Nunca quis que você morres-

Seu próprio pensamento foi interrompido quando viu algo. Em meio a poeira que a explosão elétrica do seu ataque havia erguido ele conseguia fez algo. Uma figura, uma silhueta. Uma silhueta chifruda que parecia ter olhos negros que olhavam direto para Zaniark através da poeira. Você... você tem que estar brincando! Seu queixo caiu e sentiu seu corpo tremer, suas pernas vacilarem por um momento em terror. Ele está vivo?! Impossível!

Ou melhor, completamente possível, como ficou provado logo em seguida quando a silhueta pareceu saltar e a cortina de poeira se abriu para dar passagem ao demônio no qual Maoh havia se transformado, avançando direto contra Zaniark com um sorriso sanguinolento em seu rosto e um urro bestial ecoando de sua garganta. Quis reagir a isso, mas não pode, simplesmente não pode; seu corpo estava rígido, duro como se fosse uma estátua, deixando-o incapaz de mover um único dedo mesmo com sua vida dependendo disso. Eu vou morrer, compreendeu Zaniark, vendo a aproximação do seu inimigo. Ele vai me matar. Ele vai me matar, e eu vou morrer.

Esse pensamento era uma certeza para ele naquele momento. E foi por isso que seus olhos se arregalaram tanto quando Byron veio pelo lado do nada, impulsionado por sua fumaça, acertando um chute duplo voador direto no rosto de Maoh enquanto ele ainda estava a meio caminho de alcançar Zaniark. A força por trás do golpe gerou uma onda de choque que ecoou por toda a sala, enchendo-a de novas rachaduras que se somaram com todos os outros traços da batalha que eles haviam travado e fazendo com que a seção na qual Maoh estava naquele momento afundasse um pouco no chão antes que seu corpo fosse isolado violentamente ao outro lado da sala, deixando que Byron aterrissasse seguramente no chão... e assim que ele fez isso, ele não perdeu tempo em tornar a agir. Seus braços se transformaram em pura fumaça e ele imediatamente disparou essa fumaça na direção na qual Maoh havia sido jogado, fazendo com que ela se estendesse pela área na qual ele deveria estar em uma cortina cinzenta que parecia ao mesmo tempo tão fofa quanto uma nuvem e tão sólida como uma muralha. Mas... o que ele está...

ZANIARK! – O grito cheio de urgência do seu amigo chamou a atenção do Raio Dourado, fazendo com que sua atenção se voltasse imediatamente para ele. Os olhos vermelhos de Byron estavam fixos no que ele estava fazendo, e o cenho franzido dele sugeria que ele estava dando o melhor de si naquilo. – Por quanto tempo você planeja ficar parado aí?! Você deve possuir alguma técnica poderosa, não é?! Use ela! Nós não vamos ter outra chance como essa!

Seu rosto acenou instintivamente em resposta a isso até mesmo antes que ele compreendesse totalmente o que seu amigo sugeria. A fumaça, ele está a usando para segurar Maoh! O plano dele era segurar o demônio para que Zaniark pudesse atingi-lo com seu golpe mais forte. Beleza! Eu não sei se isso vai funcionar... depois dele ter saído ileso depois das minhas lanças, eu francamente nem sei se temos alguma chance de derrotar esse demônio... mas isso não importa! Forjou rapidamente lanças elétricas em suas mãos e disparou-as assim que as teve prontas, não diretamente contra seu inimigo como antes, mas para a seção do teto que estava bem acima dele, fazendo com que suas lanças se cravassem firmemente ali. Não foram só duas, também; cada vez que arremessava uma lança ele já forjava uma nova no lugar da antiga e arremessava-a logo que essa estava pronta, fazendo com que estivesse arremessando uma barragem de ataques que parecia não ter fim. Talvez eu perca. Diabos, talvez não tenhamos a menor chance de derrotar esse demônio. Mas isso não importa! Algumas vezes as lutas não são sobre vencer ou perder, mas sobre algo muito mais profundo do que isso! Viu uma expressão de dor cruzar o rosto de Byron por um momento, viu a fumaça tremular como se algo dentro dela estivesse começando a tentar empurrá-la para longe, e isso só fez com que ele acelerasse ainda mais o seu ritmo, com que um grito de guerra escapasse da sua garganta, uma manifestação viva do seu espírito guerreiro. Algumas vezes você luta porquê você tem que lutar! Você deve lutar! Se você vai perder ou vencer pouco importa! O que importa é que você não pode ficar parado de braços cruzados! Você vai lutar, você deve lutar, você tem de lutar!

UOOOOOOOOOOOO! Cem lanças, cada uma com uma carga de um milhão de volts! – A centena de lanças elétricas que havia cravado no teto pareceram brilhar com suas palavras, como se estivessem respondendo a vontade de seu dono. Virou seu rosto na direção de Maoh bem no momento em que Byron foi arremessado voando de onde estava e toda a fumaça que o envolvia foi afastada por um dos urros bestiais do demônio. – Esse é o meu golpe mais forte, Maoh! SOBREVIVA SE PUDER! – Uma descarga elétrica correu pelos seus braços ao mesmo tempo que outra correu pelas suas lanças, e em um movimento Zaniark se jogou de joelhos no chão, batendo ambas as suas palmas revestidas de eletricidade no chão com toda a sua força. – CEM MILHÕES DE VOLTS: JULGAMENTO DE THOR!

Suas lanças reluziram por uma última vez com o seu chamado, e então toda a eletricidade contida nelas foi liberada de uma única vez, em uma única rajada poderosa de energia que caiu sobre Maoh como um raio de vontade divina. O único raio dourado que caiu contra Maoh foi completamente devastador; seu impacto foi capaz de criar instantaneamente uma cratera muito maior do que qualquer outro golpe na batalha tinha deixado, e a pura força por trás do ataque levando uma onda de choque e poeira e fumaça que se estendeu pela sala como um tsunami que abalava um litoral, atingindo Zaniark com tanta força que nem mesmo o próprio Raio Dourado foi capaz de se manter firme. Ele foi lançado aos ares, girando e girando por algum tempo antes que conseguisse recuperar o controle e criasse uma descarga de raios acima de sua cabeça com suas mãos para jogar-lhe de volta ao chão. Assim que aterrissou de forma segura, seu rosto se ergueu para ver o resultado do seu ataque.

Não podia dizer que não estava orgulhoso de si mesmo com o que havia feito. O rastro de destruição que seu ataque havia criado era algo digno de pinturas, similar à destruição que os pintores diziam ter sido causada pelas grandes batalhas na guerra de duzentos anos atrás. A área de impacto do seu raio parecia ter sido completamente obliterada, e mesmo fora dela todo o chão havia sido alterado; o que não estava quebrado ou quebradiço parecia inflado, inchado, estufado. Espera... como eu deixei o chão estufado com um raio? ... Melhor, esquece. Eu nem quero saber. No fim das contas, aquilo não importava. O que importava era se aquele ataque havia sido capaz de acabar com seu oponente. Eu... eu tenho dificuldades em imaginar que qualquer coisa possa sair viva depois de receber um ataque como esse em cheio, mas ao mesmo tempo eu sei que se isso é possível, esse Maoh-demônio certamente pode fazer isso. Afiou seus olhos para tentar enxergar algum sinal de Maoh e ter alguma resposta, mas não conseguiu ver nada; um misto entre fumaça, poeira e vapor ainda reinava sobre a área central que seu ataque havia atingido, e isso lhe impedia de ver qualquer coisa ali. E isso, por sua vez, fazia com que Zaniark ficasse terrivelmente ansioso, ao ponto de sentir suor frio surgir na sua testa e escorrer pela lateral do seu rosto. Maldição, maldição... aonde está você, Maoh?!

Foi então que sentiu uma mão pousar sobre seu ombro direito.

Girou em seus calcanhares já com seu punho rígido e atingiu um soco direto bem no meio do rosto do outro sem nem ver o que fazia. Sangue saltou para o ar e uma exclamação de “filho da mãe!” ressoou quando seu punho quebrou o nariz de Byron e jogou sua cabeça para trás, ao mesmo tempo em que o queixo de Zaniark caiu e uma expressão cômica de espanto tomou conta do rosto antes sério e nervoso do guerreiro.

– Byron! – Gritou ele estupidamente, sem fazer o menor esforço em conter a descrença em sua voz. – O que raios você pensa que está fazendo?!

A resposta que teve de imediato para isso foi um grunhido que deixou bem clara a irritação do demônio da fumaça. O rosto e o corpo dele voltaram a assumir uma postura ereta lentamente e seus olhos caíram direto nos de Zaniark, olhando firmemente para ele enquanto parecia ignorar completamente o sangue que escorria de seu nariz quebrado... ou ao menos tentou fazer isso, pois logo ele se viu forçado a mover uma mão para o nariz afim de limpar o excesso de sangue que saia dele.

– Normalmente, em uma situação como essa, é aquele que foi acredito que pergunta o que o outro está fazendo – murmurou ele, apalpando seu nariz com a ponta dos dedos e fazendo uma careta de dor enquanto mexia nele. – De qualquer forma, eu vim lhe perguntar qual é a sua opinião. Acha que conseguiu derrotar Maoh com isso?

Aquelas palavras fizeram com que Zaniark se lembrasse rapidamente do problema que eles enfrentavam, embora só tivesse se esquecido dele por um misero momento. Seu rosto virou-se para trás, olhando em direção a cratera criada pelo seu ataque, mas tal como antes ele não pôde ver muito.

– Eu francamente não tenho ideia – disse ele simplesmente, com toda a sua honestidade. – Esse ataque foi terrivelmente forte. Pela minha lógica ele deveria ser capaz de matar virtualmente qualquer um se o atingisse em cheio, e eu tenho certeza de que Maoh não conseguiu desviar, ao menos não a tempo. Isso dito, ele é alguém que já mostrou ter uma boa resistência, e essa transformação aparentemente ampliou bastante as suas habilidades naturais. Então... eu não sei. Ele pode ter morrido com isso, mas ele pode muito bem sair completamente ileso. É impossível dizer.

– .... Entendo. – A forma como a palavra foi dita e a expressão que Byron tinha no rosto deixou claro que aquela não era a resposta que ele queria ouvir, mas não tinha intenção alguma de dar falsas esperanças ao seu amigo. O demônio da fumaça caminhou um pouco, parando bem ao lado de Zaniark, e os dois juntos ficaram olhando para a cratera, esperando.

– Eu ainda não consigo acreditar que aquele garoto ficou tão mais forte assim – comentou Zan, cruzando seus braços enquanto tentava fazer algum sentido do que havia acabado de acontecer. – E pensar que alguém poderia ficar tão mais forte assim simplesmente com uma transformação... Byron, você não tem nenhuma carta do tipo na manga, tem?

– Temo que não – respondeu o demônio, balançando sua cabeça para reforçar a negativa. – Algumas sub-raças possuem habilidades de transformação como essa, mas não pertenço a nenhuma delas. Dentre as sub-raças, ou “clãs”, como alguns demônios chamam elas, o meu é um clã guerreiro, mas um dos de mais baixo nível. Geralmente servíamos como soldados de infantaria durante as guerras do Mundo Negro.

– Alguém como você? Como um soldado de infantaria? – Mesmo depois de ter visto todas as habilidades que Maoh havia demonstrado, não podia deixar de ficar surpreso diante de uma afirmação como essa. – Afinal, quão fortes são vocês demônios?!

– Bom, não necessariamente “alguém como eu”. Para o meu clã, sou até que considerado bem poderoso. Se eu fizesse parte de um exército de demônios nos dias de hoje, eu provavelmente seria considerado como um Segundo ou Primeiro Tenente. Maoh, pela força que ele demonstrou até agora, estaria mais acima, provavelmente sendo um Tenente-Coronel ou coisa do tipo. Mas, sim, os demônios são bem fortes, se é isso que você está perguntando. Durante a Grande Guerra, a união dos exércitos demoníacos sobre a única bandeira dos Cinco Corações formou uma grande unidade com cerca de cinquenta mil Tenentes-Coronéis, todos eles do nível de Maoh.

– Cinquenta mil?! Isso é absurdo! Como uma força assim pode ser derrotada?!

– Com muito trabalho e com a dedicação de muitas pessoas poderosas – respondeu Byron. – Os cinquenta mil Tenentes-Coronéis nem eram o preocupante em meio a tudo isso. Você já deve saber disso, mas os Cinco Corações eram muito mais fortes que eles, capazes de competir com os próprios Deuses... e além do mais, tinham os generais. Os sete demônios mais poderosos abaixo dos Cinco Corações, alguns deles antigos Reis Demoníacos que juraram fidelidade aos Corações. “Os Sete Pecados Capitais”, eram como eles eram chamados, e cada um deles ganhou uma alcunha referente ao pecado que representavam: Orgulho, Ira, Ganância, Luxúria, Gula, Preguiça, Inveja. Esses eram os preocupantes. Eles que eram o verdadeiro perigo em meio a tudo.

“Os Sete Pecados Capitais”? Acho que já ouvi esse nome em algum lugar... Não era exatamente o mais ávido dos leitores, mas já havia folheado alguns textos sagrados, mais devido ao interesse que havia tido quando mais novo em relação a Grande Guerra. De qualquer forma, Byron lutou nessa guerra, e pelo que ele está falando esses demônios eram muito poderosos... maldição, eu ainda não consigo acreditar direito em tudo isso. De um lado, Deuses e Anjos. Do outro, demônios de poderes absurdos em números extraordinários. E a humanidade bem no meio disso tudo, tendo que enfrentar não só esses dois como também alguns humanos que tinham sua lealdade para com um ou outro lado ao invés de com a própria raça. E de alguma forma, nós saímos como os vencedores desse confronto. Raios, se fomos os vencedores de uma guerra que envolveu forças como essas, então o quão fortes os Heróis Antigos deviam ser?

– Nem sinais dele até agora – murmurou Byron, e demorou um momento para que Zaniark compreendesse que ele estava falando de Maoh. Realmente, toda a fumaça e o vapor que envolvia a cratera causada pelo seu golpe estava se dissipando cada vez mais, mas mesmo assim não via sinal algum Maoh em nenhum lugar... o que, verdade seja dita, era algo que deixava Zaniark mais preocupado do que aliviado. Esse demônio... eu não posso subestimá-lo. Depois de tudo que ele fez, tudo que ele mostrou, é difícil acreditar que ele morreria pelas mãos de alguém, ainda mais de forma tão fácil assim. Sentia que tinha algo errado ali. Sentia qu-

O pouco que restava da cortina de vapor e fumaça se abriu quando uma figura demoníaca emergiu de dentro dela, avançando tão rapidamente que a terra se abria abaixo de seus pés. Zaniark só teve tempo de vê-lo por um momento antes que ouvisse um gemido de dor e sentisse uma onda de vento passar bem ao lado do seu corpo, pelo lugar aonde antes estava Byron. Não é possível...!

Virou sua cabeça e, tal como imaginava, não viu sinal algum de Byron do seu lado. Mas viu o demônio fumacento de novo assim que virou seu rosto para trás. O corpo dele estava erguido no ar, com sangue escorrendo da sua boca graças ao chifre longo que perfurava seu estômago, erguendo-o acima da cabeça do demônio que enfrentavam. A expressão de Byron era uma de dor imensa e a figura dele parecia extremamente frágil naquela posição, mas mesmo assim ele tentava reagir, tentava segurar o chifre e empurrá-lo para fora de si. A reação do demônio ao notar isso foi simples e brutal; com um movimento brusco da sua cabeça ele jogou o corpo de Byron longe, atirando-o contra uma parede próxima com tanta força que o corpo dele ficou cravado numa cratera nela, e logo em seguida uma das mãos do demônio se ergueu com a palma aberta. Uma energia rubra estranha se concentrou rapidamente na palma dessa mão, formando uma esfera de energia que foi disparada na forma de uma rajada poderosa. O som da explosão dessa rajada de energia com seu impacto ressoou pelo ambiente, e foi o suficiente para quebrar a mente de Zaniark.

– By... Byron? Não... não...! – O corpo do Raio Dourado tremeu, fora de seu controle. Feixes elétricos correram por suas pernas e braços sem que ele sequer se desse conta. Seus dentes brancos rangeram uns nos outros e a expressão em seu rosto se tornou um misto entre completa angústia e fúria indescritível. Algumas poucas lágrimas caíram de seus olhos, cada uma delas tão quente que queimou através do chão. – BYYYYYYYROOOOOOON! – O nome foi chamado inicialmente como um grito doloroso, mas ao seu fim ele já era um rugido de uma besta furiosa, e ao seu fim Zaniark saltou contra o demônio sem dar a mínima para as consequências. Seus olhos ainda lacrimejavam, mas a expressão em seu rosto era de pura fúria, a expressão de um homem sedento por vingança. Correntes elétricas tão poderosas que poderiam ser chamadas de raios corriam por todo o seu corpo, ficando mais fortes a cada minuto que ele olhava para seu alvo. – FILHO DA PUTA! EU VOU TE MATAR! – Seu corpo girou no ar para que sua perna pudesse se estender e Zaniark pudesse desferir um chute com todas as suas forças direto na lateral do pescoço do demônio. Toda a energia que corria pelo seu corpo foi liberada naquele único golpe, criando uma segunda explosão elétrica que conseguia ser ainda mais poderosa do que a que suas lanças haviam criado. Um urro de dor do demônio ecoou quando seu golpe lhe atingiu, e isso só fez incentivar Zaniark a colocar ainda mais força e determinação por trás de seu golpe, urrando em fúria e esforço. – VÁ PARA O INFERNO, DEMÔNIO MALDITO!

Até mesmo o próprio Zaniark ficou surpreso com a força que estava sendo capaz de exercer por trás de seu ataque. Seu oponente – o mesmo oponente que até então tinha ficado firme e forte, resistindo a todos os golpes que jogava contra ele sem adquirir um único arranhão – estava sendo ferido por um chute simples como aquele, e pela forma como via o pescoço dele se deformar e os urros se tornavam mais fortes, Zaniark não duvidava que pudesse causar estragos ainda maiores se simplesmente insistisse naquilo. Maldição, seria bom derrotar esse merda antes que ele tivesse matado Byron, mas eu pego o que puder! Se eu não pude salvar o meu amigo, então eu vou ao menos vingar a sua morte! Usou seus poderes elétricos para propulsionar sua perna com ainda mais força contra seu oponente em uma última tentativa de tentar mata-lo.

Mas foi então que a cabeça do demônio girou em cento e oitenta graus e os seus terríveis olhos negros olharam direto dentro dos de Zaniark com uma expressão enfurecida no rosto, fazendo com que o loiro se assustasse e vacilasse por um momento, tempo mais do que o suficiente para que o demônio pudesse reagir.

Uma das mãos do demônio fechou-se ao redor do seu rosto antes que pudesse se afastar, e logo em seguida seu crânio foi afundado no chão com força, e então arrastado dentro dele para mais e mais longe quando o demônio começou a correr. A sensação de ter sua cabeça batendo com força em rochas e pedras já era por si só extremamente dolorosa, e o fato de que ainda sentia a pressão do seu crânio sendo forçado contra o chão e dos dedos/garras do demônio apertando sua cabeça como se quisesse espreme-la em pedaços era algo que fazia com que tudo aquilo fosse quase insuportável. Maldição... maldi... ção...! Por um momento havia acreditado de verdade na sua vitória. Havia acreditado que, talvez, com a ajuda de algum milagre, ele pudesse matar aquele demônio com um chute bem forte. Mas parecia que o demônio se divertia em alimentar suas esperanças para quebra-las logo em seguida. Isso não vai acontecer mais.... Agora sabia, sem dúvida alguma, que não tinha mais chances. Meu coração ainda bate, mas eu já sou um homem morto.

Em algum momento o seu corpo parou de ser empurrado e a mão que segurava seu rosto se afastou, mas nem por isso ele teve um momento para respirar. Nem um segundo passou depois que a mão se ergueu antes que ela voltasse a cair sobre ele – agora fechada em um punho – esmagando seu rosto contra o chão com força. E depois veio a outra, e então outra, e outra, e outra. De alguma forma, mesmo a mente exausta e o corpo quebrado de Zaniark conseguiam registrar perfeitamente cada ataque, sentir o máximo dele. Isso é alguma habilidade dos demônios? Amplificar as capacidades sensíveis do seu corpo ou coisa do tipo? Não que se importasse. Isso não mudava nada.

... Ou melhor, era disso que queria se convencer. Queria se convencer de que aquilo não importava e que nada mais fazia sentido, mas essa não era a forma como realmente se sentia. A cada golpe que sofria, a cada soco que caia, Zaniark sentia seu espírito reagir mais e mais. Sentia a vontade de lutar começar a arder no seu peito, de novo e de novo, cada vez com mais vontade. E foi então que se decidiu. Eu posso morrer, pensou ele, mas não vai se assim. Se for pra morrer, eu morro lutando!

Enquanto os punhos de Maoh caiam sobre ele, os braços de Zaniark começaram a se erguer lentamente e com dificuldade. Um processo vagaroso e penoso que Maoh pareceu notar, dada a forma como ele começou a colocar ainda mais peso nos golpes e aumentou a velocidade deles. Dizer que a sensação que tinha com aquilo era apenas “dolorosa” seria zombar do que estava acontecendo. A sensação era como se alguém jogasse uma bala de canhão na cara de um sujeito qualquer repetidamente, cada vez mais rápido e cada vez mais forte. A dor foi quase o suficiente para que Zaniark desistisse completamente em um dado momento... mas rangeu seus dentes, suportou toda aquela dor o melhor que pôde e apressou-se em mover suas mãos tão rápido quanto possível, fechando-as ao redor do crânio de Maoh subitamente, conquistando um urro furioso do demônio ao fazer isso.

– Um presentinho de despedida pra você, demônio de merda – zombou ele, mostrando um sorriso torto e ensanguentando enquanto uma onda de eletricidade corria pelo seus corpos, os raios faiscando e correndo em direção às suas mãos. – CHAMADO DO TROVÃO!

Ao seu comando o próprio teto do segundo andar, acima da cabeça de todos, foi perfurado por um raio que caiu diretamente sobre Maoh, fazendo com que o demônio urrasse novamente em dor. Zaniark não foi capaz de deixar de rir diante disso. Há! Considerando as magias que atuam sobre esse lugar, nada de fora deveria ser capaz de chegar sequer perto de adentrar do Pandemonium, mas existem exceções para isso. Não importa quão forte seja uma barreira ou quão perfeitas sejam as defesas de algum lugar... nada nunca pode parar a absoluta força da natureza. Não deixou de colaborar com sua própria força no meio de tudo aquilo; fechou sua mandíbula com todas as suas forças e usou o que lhe restava de energia para liberar a maior descarga elétrica que podia, transferindo-a através de seus braços para o seu oponente e ampliando ainda mais o dano que Maoh sofria. Isso não vai te matar. Eu sei bem disso. Mas francamente, eu não me importo! Você pode me matar se quiser, demônio, mas eu farei você sofrer antes disso! ESSA É A MINHA DETERMINAÇÃO!

Os urros de dor de Maoh duraram um minuto. E depois dois. Três. Quatro. Cinco. Era claro para qualquer um que tivesse olhos que o demônio estava tentando reagir de alguma forma, mas ele simplesmente não conseguia. Ele tentava se mover e tentava arrancar forças para desferir algum golpe contra Zaniark e parar tudo aquilo, mas o Raio Dourado simplesmente não dava trégua para ele, sem nunca parar com suas descargas. A essa altura ele já sabia que era só uma questão de tempo até que sua energia chegasse ao fim e seu oponente pudesse se vingar dele, mas isso só fazia divertir Zaniark e fazia com que ele se esforçasse ainda mais para poupar sua energia o máximo possível, visando assim maximizar o tempo pelo qual poderia manter seu ataque e com isso maximizar o sofrimento de Maoh.

Mas apesar de seus melhores esforços e do sangue de demônio que agora corria em suas veias, Zaniark ainda era, em sua origem, um humano, e eventualmente ele simplesmente alcançou seu limite. Sua energia chegou ao fim, as descargas elétricas acabaram, e imediatamente o punho de Maoh caiu novamente contra ele, carregado com uma força que nem sequer se comparava a que o demônio havia exibido antes. Heh. Quem diria? Até mesmo um demônio tão bestial quanto esse consegue ficar irritado. Sabia bem o quão incrivelmente ferrado estava agora, mas esse conhecimento de forma alguma impedia que um sorriso brilhasse no rosto de Zaniark, em satisfação pelo que ele havia alcançado.

Esse sorriso foi a única coisa que perdurou. Depois que toda a surra brutal de Maoh chegou ao fim e o demônio bufante e exausto jazia por cima do corpo de Zaniark, a caricatura desse sorriso se provou uma das únicas coisas que alguém conseguia realmente distinguir no rosto inchado e amassado de Zaniark Grimmweather. Os dentes do demônio rangiam uns nos outros, ainda furioso. Surrar Zaniark não havia sido o suficiente para acalmar a fúria em seu espírito. Ele queria mais, e quando viu o peito do Raio Dourado se erguer em um sinal de que ele respirava, viu sua chance de obter o que queria. Seu punho direito se ergueu alto, preparado para esmagar de vez o crânio de Zaniark...

Mas quando ele caiu, sua própria mão esquerda o segurou antes que pudesse atingir o Raio Dourado.

– Não. – A voz serena de Maoh soou alienígena naquela sala em meio ao todo o caos criado pelas suas próprias mãos. Decidida e forte, ela parecia estar falando com alguém... consigo mesmo. – Já chega.

O demônio escarniou ao ouvir aquilo... ou melhor dizendo, metade dele escarniou. Cada vez mais isso se tornava mais claro: naquele momento, Maoh era um homem dividido, no sentido mais literal da palavra. A metade direita de seu corpo tinha as feições demoníacas – o olho negro, os chifres avantajados, os pelos no corpo. Mas ao mesmo tempo a metade esquerda do seu corpo trazia as suas feições humanas – o olho normal, os chifres reduzidos, a pele pura e imaculada. Até mesmo as expressões em cada metade eram diferentes; enquanto a metade direita de seu rosto rugia como uma fera enfurecida, a metade esquerda dele mantinha a calma e serenidade que caiam tão naturalmente a Maoh.

Vá a merda! – A voz que rugiu aquilo veio dos lábios de Maoh, mas alterada. Ela era absurdamente grave e rouca e soava com um certo eco assustador. Mesmo o mais cético dos homens não podia negar que ela não era algo que pertencia a um humano, mas sim algo que pertencia a um demônio saído das profundezas do inferno. – Você é mole demais, humano! Eles são inimigos! Devemos matar eles! Rasgar sua carne, quebrar seus ossos, beber seu sangue! Esse é o caminho dos demônios!

– Eu não sou um demônio, nem me importo com os caminhos dos seus – retrucou calmamente a voz de Maoh, saindo desses mesmos lábios. O braço direito forçou-se para baixo, mas o esquerdo permaneceu firme, segurando-o firmemente. – Eles não vão morrer. Byron, Zaniark... as vidas deles não são suas para tirá-las, demônio.

Calado! Você entregou seu corpo para nós! Nós somos os donos desse corpo agora! – Espuma começou a escorrer do canto direito da boca de Maoh, como o que você esperaria ver em um animal raivoso. – Vamos mata-los! Vamos quebra-los! Vamos usar seu crânio como cálice, sua pele como armadura!

– Entreguei meu corpo? Não seja ridículo. Uma criatura patética como você nunca terá esse corpo, demônio. – A cauda que havia emergido com a transformação em um demônio foi lentamente retrocedendo para dentro do corpo de Maoh novamente, e os pelos que se mantinham naquela parte foram desaparecendo pouco a pouco. Seu chifre direito começou a encolher, e seu olho direito começou a clarear e reganhar sua cor natural. – Eu sou Maoh, Cavaleiro do Salão Cinzento. Esse é o meu corpo, e ele obedece às minhas regras. Um monstro como você nunca irá toma-lo.

Em resposta a isso o braço direito mudou sua ação. Ao invés de continuar a tentar acertar Zaniark ele disparou de uma vez contra o pescoço de Maoh, fechando-se ao redor dele com força e aplicando tanta pressão em seu aperto que não foi necessário mais do que um momento para que sangue começasse a escorrer. Ainda assim, Maoh permaneceu completamente calmo.

– Você quer me matar? Compreensível. Vá em frente então, faça o que quer. Rasgue minha carne, quebre meus ossos, beba meu sangue. Esse é o caminho dos demônios, não é? – As palavras vieram tranquilamente apesar do que elas sugeriam, e logo ficou claro o porquê disso. Ao ouvi-las os dedos da mão direita de Maoh se fecharam com ainda mais força ao redor da garganta dele, veias tornando-se visíveis ao redor deles graças ao esforço que estava sendo colocados neles..., mas apesar de tudo isso, eles não causaram nenhum dano a mais. Apesar da força empregada neles ter aumentado, aquilo não estava se provando o suficiente para realmente ferir Maoh, por mais que o próprio demônio tivesse exibido uma força nesse nível pouco tempo atrás. – O que foi, não pode? Como eu esperava. Você habita dentro do meu corpo, demônio. Junto da minha alma. Se esse corpo morrer, você morre com ele. E isso lhe desencoraja, não é mesmo? Parece que seguir o “caminho dos demônios” é algo que não tem muita graça quando você se prejudica com isso, hum? Que covarde.

A metade direita de Maoh pareceu prestes a rosnar a ouvir aquilo, mas ela não teve tempo para isso. Com sua provocação Maoh havia feito com que o espírito do demônio em seu interior ficasse furioso e descuidado, e isso lhe deu a chance que precisava para suprimi-lo. Foi um processo rápido e simples, e num instante todos os sinais do demônio haviam desaparecido das suas feições. Seus olhos brilhavam normalmente, seus chifres estavam reduzidos ao seu tamanho padrão, seu peito era liso e constituído apenas de pele... e seu rosto agora exibia completamente as feições calmas tradicionais de Maoh.

Por alguns minutos ele ficou apenas parado nesse estado, respirando lentamente, fechando seus olhos como que para se concentrar melhor em alguma coisa. Quando voltou a abri-los eles demonstravam a mesma calma de sempre, embora um olhar mais cuidadoso pudesse averiguar que eles também pareciam de certa forma aflitos, incomodados.

– Isso foi perigoso. Pelo meu bem e o dos outros, eu nunca mais devo deixar esse demônio a solta – murmurou Maoh antes de correr seu olhar por cima por toda a destruição que havia causado na sala, avaliando os estragos que sua forma demoníaca havia causado. Logo seu olhar caiu sobre os corpos de seus oponentes, também; o corpo de Byron que ainda trazia traços de queimaduras mesmo com suas habilidades regenerativas, caído próximo a uma parede, e o corpo de Zaniark, com o rosto desfigurado, que se recuperava bem mais lentamente bem abaixo dele. Foi nele que o seu olhar permaneceu um pouco mais. – Eu não sei se ele fará isso, mas Byron deveria lhe agradecer, Zaniark Grimmweather. Normalmente eu não pouparia vocês, independente das minhas vontades..., mas você me mostrou misericórdia antes, e seria vergonhoso se um cavaleiro não concedesse aos seus oponentes a mesma cortesia que eles lhe apresentaram. Graças as suas palavras naquele momento, você e Byron viverão para ver o nascer do dia de amanhã.

Suas mãos fizeram seu caminho para os bolsos de suas calças. Graças a sua transformação e aos múltiplos ataques que havia sofrido não restava muito de suas vestes além dos trapos aos quais haviam sido reduzidas as suas calças, com grandes buracos que deixavam a mostra a parte inferior das suas pernas e seus joelhos, mas não se importava muito com isso. Começou a andar calmamente, seguindo em direção a uma das passagens da sala a esmo.

– Isso dito... – murmurou Maoh, enquanto seguia em busca de novos oponentes – eu não posso dizer o mesmo para o Olho Vermelho.





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