O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 85
Especial de Natal (III)


Notas iniciais do capítulo

Depois do especial anterior que foi um pouco sombrio, esse é um tanto quanto alegre e bem mais leve. Esperem ver mais humor nesse aqui, embora não se enganem; por mais que ele tenha humor, esse especial também traz uma mensagem, tal como os outros dois atrás dele. Espero que gostem!



– EI, BRYEN, BRYEN, DÊ SÓ UMA OLHADA NISSO!

Um suspiro cansado escapou de Bryen ao ouvir aquilo. Ah, não. Kastor não. O líder da Era Dourada era um bom homem, um sujeito carismático e forte, mas se tinha uma coisa que Bryen havia aprendido sobre ele nos últimos tempos é que ele conseguia ser estupidamente chato durante metade do tempo. Sempre hiperativo, sempre fazendo bobeiras, sempre sendo barulhento... Kastor tinha uma personalidade que cutucava todos os nervos de Bryen, mesmo com ela simpatizando com ele.

– O que foi, Kastor? – Respondeu ela de forma cansada, com as sobrancelhas franzidas e os ombros caídos, claramente sem vontade nenhuma de ouvir o que ele tinha de falar. Infelizmente, Strauss não notou isso, ou se notou decidiu por ignorar esse fato completamente.

– Olhe só essa piada que eu vi agora no jornal! – Declarou ele animadamente, e só de falar isso Bryen imediatamente soube que boa coisa não estava por vir. – O filho chega pro mãe e fala: “Mãe, você é uma mentirosa!”. A mãe, confusa, vira pra ele e pergunta: “Mas por quê, Juquinha? Por quê eu sou mentirosa?”. Ele responde: “Você não vive falando que o meu irmão, o Joãozinho, é um anjo?”. “Ah, sim, mas ele é um anjo, Juquinha. Um menino tão doce, tão bonzinho, tão bonitinho...”. “Mentira! A senhora é uma mentirosa! Acabei de jogar ele da janela do quarto e ele não voou!”.

O fim da piada veio acompanhado de uma gargalhada satisfeita de Kastor e um sorriso bobo que tomou conta do rosto do cavaleiro. Logo em seguida ele olhou para Bryen, ainda sorridente, para ver a reação dela, e seu sorriso logo virou uma expressou de confusão ao ver a expressão estoica que a espadachim tinha no rosto. Será que ele realmente acredita que vai me fazer rir com coisas assim? É necessária muita inocência para pensar assim...

– E? É isso? – Perguntou Bryen, sem um pingo de humor na voz. – Suas piadas não são lá muito boas, não é, Kastor?

– Não, não, as minhas piadas são magníficas, o problema é com você mesmo – respondeu ele, parecendo tão intrigado e fascinado por ela não ter rido de sua piada que nem demonstrou notar o quão rude haviam sido suas palavras. Seus braços se cruzaram e ele olhou para Bryen de forma estranha, com o rosto inclinado, como se estivesse olhando para algum tipo de animal estranho que nunca antes havia visto. – Você... você não ri muito, não é?

– O que te faz pensar nisso? O fato de eu não rir das suas piadas? – Provavelmente acabou soando mais defensiva do que deveria em sua resposta, mas isso foi algo que não pode evitar. Nunca gostou de ser acusada de nada. Acusações eram coisas graves e ofensivas, e as pessoas gostavam demais de fazê-las sem um bom motivo para o seu gosto. Fossem elas acusações graves ou pequenas, Bryen se irritava facilmente com qualquer acusação que fosse dirigida a ela. – É verdade que eu não sou tão risonha quanto você ou Duke, mas eu não sou uma eterna mal-humorada também.

– Calminha aí, Faísca. Ninguém te chamou de mal-humorada aqui. – Ele aparentemente tinha dito aquilo com a intenção de acalmá-la, mas só conseguiu irritar Bryen ainda mais ao se referir a ela por um apelido que ele aparentemente havia acabado de criar. Faísca? Que tipo de apelido é esse? Quem ele pensa que é pra decidir me dar um apelido desses arbitrariamente? – Isso dito, você tem que admitir que é estranho. Eu acho que nunca te vi rindo.

– Isso é porque você nunca fez nada que me fizesse ter vontade de rir – respondeu ela simplesmente, dando as costas para Kastor e começando a se afastar dele a passos largos. Esse idiota... é melhor eu manter distância dele. Se continuarmos perto um do outro, nós vamos acabar discutindo, e eu não quero discutir com ele, principalmente não na noite de natal.

– Ah, é? – A figura de Kastor surgiu na sua frente com uma velocidade tão grande que só viu um borro azul em um primeiro momento, fazendo com que ela saltasse para trás e retirasse sua espada da bainha antes que visse que esse era o seu líder. – Muito bem. Nesse caso, tomarei isso como um desafio! – A declaração sem pé nem cabeça fez com que Bryen levantasse uma sobrancelha, mas Kastor não pareceu dar a mínima para isso, de peito cheio e rosto orgulhoso. – Eu, Kastor Strauss, cavaleiro do Salão Cinzento e líder da Era Dourada, prometo pela minha suprema masculinidade que farei com que você gargalhe até o fim da noite de hoje!

– ... Tá, tudo bem, boa sorte com isso. – A resposta simples que deu a toda aquela encenação dramática fez com que Kastor perdesse de uma vez toda a sua animação, sua postura perdendo energia de uma forma que fazia até com que parecesse que ele estava encolhendo até se tornar ínfimo. Um sorrisinho quase ganhou o rosto de Bryen ao ver aquilo, mas lembrou-se da “promessa” que ele havia feito e suprimiu isso. Ao invés de rir, o que fez foi caminhar em linha reta sem dar muita atenção para ele, salvo pelas palavras que murmurou quando passou ao seu lado. – Ah, e por sinal, eu recomendo que você já vá pensando no nome do seu “eu” feminino. Karina é a minha sugestão.

=====

Estava na cozinha da guilda, descascando uma maçã, quando sofreu o primeiro ataque.

Em um determinado momento, enquanto estava comendo um pedaço da casca que havia acabado de cortar, as luzes da sala se apagaram subitamente. Sua mão caiu imediatamente sobre a empunhadura de sua espada, mas logo compreendeu que aquilo era arrumação de Kastor quando o som da música começou – e chamar aquilo de “música” era ser extremamente generosa. O som era uma sinfonia desarranjada e em completa desarmonia em que cada instrumento parecia ser tocado por um macaco maneta enlouquecido, fazendo algo que foi capaz de fazer com que Bryen começasse a ranger os dentes de raiva de imediato. Virou sua cabeça na direção da qual aquele som vinha, e o que viu foi Kastor, vestido em nada mais do que uma sunga azul, uma capa branca e óculos de sol, com uma única luz que seguia os seus movimentos e apenas eles, caminhando lentamente em direção a Bryen com posse de maioral enquanto fazia uma dancinha ridícula em que batia palmas e passava as mãos à frente do rosto. Aquilo, aparentemente, era parte do plano dele para fazê-la rir... mas com uma visão como aquela, tudo que ele estava conseguindo fazer é criar em Bryen a vontade de cortar os seus próprios olhos para não ser forçada a ver uma coisa tão horrorosa.

Diante daquilo, fez a coisa mais sábia que uma mulher podia fazer; aproximou-se rapidamente dele com sua velocidade, e antes que ele pudesse mostrar qualquer reação, acertou um chute com todas as forças bem no meio das pernas dele, esmagando a sunga e algumas coisas a mais contra o corpo dele. Os olhos dele saltaram tanto de suas órbitas que quebraram seus óculos, e o grito que veio da sua garganta foi tão forte e agudo que sentiu como se tivesse ficado um pouco surda com aquilo, mas mesmo assim ignorou os dois. Apenas acompanhou com seus olhos o movimento de Kastor e a forma como ele foi direto ao chão, gemendo de dor e com ambas as mãos entre as pernas.

– Muito bem, Kastor. Meus parabéns. Você oficialmente evoluiu de um simples idiota para um idiota pervertido – resmungou Bryen, girando os olhos, antes de fazer seu caminho para fora da cozinha. Depois daquilo, já não tinha mais apetite para nada.

=====

O segundo ataque veio quando estava no salão principal da guilda. Estava sentada calmamente em uma cadeira de madeira, lendo um livro sobre as famílias nobres de Fredora para tentar descobrir um pouco mais sobre a família de seu pai, quando sons irritantes ressoaram pelo ambiente. Suas sobrancelhas se franziram, seus olhos se afiaram e um grunhido escapou imediatamente da sua garganta – nem precisava olhar para saber que o responsável por aquilo era Kastor, mas mesmo assim acabou o fazendo.

Imediatamente se arrependeu dessa escolha.

Se antes a visão que havia tido de um Kastor dançante seminu havia sido perturbadora, a que tinha agora de um Kastor vestido em uma roupa larga cheia de bolinhas coloridas, com uma peruca vermelha na cabeça, maquiagem exagerada no rosto e sapatos grandes e ultrajantes que faziam um som que só podia assemelhar ao de um peido, dançando de forma alegre e agitada na sua frente, foi completamente ridícula. Mas que... por que diabos eu me juntei a essa guilda mesmo? Novamente, supunha que aquilo era algo feito para tentar fazê-la rir, mas ainda assim, não era possível que Kastor fosse estúpido o suficiente para achar que ele realmente conseguiria fazer com que ela risse com algo assim, não é?

Foi quando pensou nisso que ele pulou, fazendo com que seus sapatos soltassem um som de peido enorme que fez com que ele imediatamente começasse a gargalhar como uma hiena, e então teve a certeza que sim, ele era idiota a esse ponto.

Suspirou, sentindo-se dez anos mais velha. Eu não acredito nisso. Quando foi que eu virei a figura materna dessa guilda? Com tanta calma como pode ter, Bryen retirou lentamente sua espada de sua bainha, deixando que o aço fizesse seu som característico ao raspar no couro, até desnudá-la completamente. Kastor não havia parado de dançar enquanto ela fazia isso, mas notou que seus olhos haviam ficado fixos na espada, e suor frio começou a surgir em sua testa pintada de branco. Pousou delicadamente a espada sobre seu colo, equilibrando a lâmina entre suas duas pernas, apoiou suas mãos sobre ela e então murmurou, bem calmamente.

– Kastor, você tem vontade de ter filhos algum dia?

Em uma situação normal, aquela ameaça provavelmente seria algo um pouco difícil de se entender. Mas considerando o que havia feito recentemente com ele, o olhar de falsa calma em seu rosto e a espada entre as suas pernas, a mensagem foi bem clara. O rosto de Kastor azedou de imediato em uma careta que parecia digna do que você esperaria de uma criança emburrada, mas ele não insistiu naquela idiotice, e com passos largos ele foi embora, o som de peidos acompanhando cada passo seu. Só depois que ele deixou a sala que Bryen balançou sua cabeça e tornou a embainhar sua arma.

– Eu juro pelos Deuses, se eu não cortar esse cara hoje, então milagres realmente acontecem – murmurou Bryen entre dentes, decidindo abandonar o salão em favor do seu quarto no segundo andar.

=====

Depois de ter intimidado Kastor e ido para o seu quarto, pareceu que o cavaleiro finalmente havia desistido de lhe atormentar. Passou dez minutos lá, depois vinte, trinta, até chegar a uma hora inteira lá sem que Kastor desse um sinal de vida sequer. Nada poderia deixa-la mais satisfeita. Finalmente, pensou Bryen, suspirando um pouco em alívio por ter finalmente um pouco de sossego. Eu já não sabia mais o que fazer em relação a ele me atormentando. Se Kastor continuasse com aquilo, eu ia acabar ou forçando um sorriso, ou cortando a cabeça dele. Mas no fim das contas, ele havia recuado. No fim das contas, ele havia parado de lhe atormentar. Quem diria? Você só precisa ameaçar castrar um homem para que ele pare de te encher o saco.

.... Ou, ao menos, foi isso que ela pensou antes que sua porta – que havia trancado! – fosse subitamente ao chão, lhe assustando tanto que ela saltou em sua cama. Uma de suas mãos se precipitou contra sua espada, mas nem chegou a tocá-la antes que ouvisse aquilo.

OW!

O grito estranho e afeminado fez com que parasse seus movimentos em simples descrença, e logo em seguida Kastor entrou no seu quarto. Vestido em um terno branco, com um chapéu branco na cabeça, de costas, com seus pés deslizando de alguma forma pelo chão enquanto ele segurava se chapéu com uma das mãos. Você tem que estar brincando comigo... Ele avançou até ficar bem em cima da sua porta caída, e então ele se virou de uma vez, liberando outro gritinho de “ow!”, dobrando suas pernas em uma pose estranha e fazendo o que Bryen só sabia descrever como “puxar o próprio saco pra cima” com uma das mãos enquanto apontava para ela com a outra.

As he came into the window

It was the sound of a crescendo

He came into her apartment

He left the bloodstains on the carpet

She ran underneath the table

He could see she was unable

So she ran into the bedroom

She was struck down, it was her doom.

Annie are you ok?

So, Annie are you ok?

Are you ok, Annie?

Annie, are you ok?

So, Annie are you ok

Are you ok, Annie?

Annie, are you ok?

So, Annie are you ok?

Are you ok, Annie? Annie, are you ok?

So, Annie are you ok, are you ok Annie?

(Annie are you ok?)

(Will you tell us that you're ok?)

(There's a sign in the window)

(That he struck you – a crescendo Annie)

(He came into your apartment)

(He left the bloodstains on the carpet)

(Then you ran into the bedroom)

(You were struck down)

(It was your doom)

Annie, are you ok?

So, Annie are you ok?

Are you ok, Annie?

Annie, are you ok?

So, Annie are you ok?

Are you ok, Annie?

Annie, are you ok?

So, Annie are you ok?

Are you ok, Annie?

You've been hit by

You've been hit by a smooth criminal!

Os olhos de Bryen não podiam acreditar no que ela via diante dela. A medida que ele cantava, Kastor também dançava, uma dança estranha e bizarra que conseguia ser ao mesmo tempo ridícula e fascinante pelo simples fato de ser tão absurda. Ele jogava sua perna para o ar, fazia poses, fazia caretas, girava no lugar – em certo ponto ele chegou até mesmo a inclinar seu corpo em um ângulo no qual ninguém deveria ser capaz de ficar, e isso sem apoio algum.

Mas se isso deveria deixa-la impressionada ou fazê-la rir, Kastor havia falhado de novo. Eu... eu não sei o que dizer sobre isso. Então eu simplesmente não vou dizer nada. Balançou sua cabeça, apanhou sua espada e, sem dizer nada, caminhou para fora do quarto pela porta arruinada, contornando Kastor sem esbarrar nele. Tão imerso que ele estava em sua própria dança, o azul nem notou aquilo. O que é que eu fui fazer pra vir parar numa guilda liderada por um maluco desses? Esse cara faz com que Tiamat pareça são e previsível perto dele. Balançou sua cabeça, desolada, e ganhou a rua em questão de momentos. Eu vou andar por aí. É melhor ficar beeeem longe desse doido. Vai que essa doença é contagiosa.

=====

Não demorou muito uma vez que estava na rua para que ele tornasse a aparecer. Estava passando pelo parque cheio de neve quando ouviu os sons de passos correndo em sua direção, e o grito jovial não deixou dúvida de quem se tratava.

– Ei, Bryen! Espere aí!

Não queria esperar. Não queria mesmo esperar. Sua mente, seus desejos e toda a sua lógica lhe diziam que ela deveria aproveitar a distância que tinha para começar a correr pra longe dele tão rápido quanto possível, mas por algum motivo ela não fez isso. O que fez foi virar-se para ele, bem no momento em que o cavaleiro azul apoiou suas mãos nos joelhos para tentar recuperar o fôlego, suado e cansado por todo aquele esforço.

– Kastor, antes de qualquer coisa, eu já te aviso que se você vier com qualquer tipo de dança de novo pra cima de mim, você vai ter problemas em explicar pra quem quer que vá cuidar de você como uma mulher ruiva chutou sua bunda tão forte que a bota dela foi parar no seu intestino.

Ele não respondeu a isso – claro que não, estava ocupado demais tentando manter um mínimo de ar em seus pulmões para responder qualquer coisa – mas balançou a cabeça de uma forma que deu a entender que não tinha vindo tratar de nada a ver com aquilo. Aquilo chamou um pouco a atenção dela, fazendo com que cruzasse os braços e erguesse uma sobrancelha enquanto olhava para ele, esperando que ele se recuperasse o suficiente para voltar a falar.

Quando ele o fez, as palavras que vieram de seus lábios foram surpreendentes.

– Por que? Por que você não ri?

A surpresa daquilo foi o suficiente para fazer com que até mesmo abrisse sua boca. Não necessariamente surpresa por não esperar aquilo, mas surpresa por não esperar que ele fosse ousado o suficiente para lhe perguntar algo assim. Depois de tudo isso, de todo o tormento que você me causou com essas suas danças e suas palhaçadas, você ainda tem a cara de pau de me perguntar algo assim, Strauss?

– Porque você não me faz ter vontade de rir – respondeu ela, azeda. Nunca tinha tido lá muita paciência com Kastor devido a forma como ele lhe dava nos nervos, mas ele estava realmente testando os seus limites naquela noite com tudo que havia feito. – Você não é engraçado, Kastor. Nem um pouco engraçado. Existe uma grande diferença entre ser alguém engraçado e alguém simplesmente idiota, e você se encaixa na segunda opção. Você age como um bobo, faz palhaçadas e coisas estúpidas aqui e ali sem parar, e fica atormentando aqueles ao seu redor com isso. Você se acha engraçado e acha que você está divertindo alguém com as suas bobagens, mas a verdade é que a única coisa que você está conseguindo é irritar as pessoas e denegrir a sua própria imagem. Por mil raios, você não tem vergonha nenhuma de agir como um idiota como você faz?

– Não, nenhuma – foi a simples resposta que ele lhe deu, sem nem parar pra pensar. Seus olhos chegaram a se arregalar por um momento em surpresa pela forma como ele respondeu, antes que essa surpresa se convertesse em combustível para a sua acidez.

– Então você não tem vergonha nenhuma de agir como um palhaço? Tem tanta sede de atenção assim? Tch! Que patético! – Deu as costas pra ele de uma vez e se colocou a caminhar para longe dele de olhos fechados, não estando disposta a ver o rosto daquele cavaleiro de novo assim tão cedo. – Você me desaponta, Kastor. Eu esperava mais de vo-

– Você está entendendo as coisas errado, Bryen. – A voz que veio da sua frente fez com que abrisse novamente seus olhos para dar de cara com Kastor bem a sua frente, o rosto dele bem próximo do seu. Mas como...?! Saltou para trás instintivamente, criando alguma distância do homem e fazendo com que ele lhe olhasse com uma expressão levemente curiosa, como se não entendesse o porquê disso. Ele... quando foi que ele se aproximou? Eu não senti sua presença, nem ouvi qualquer som da sua aproximação... – Eu realmente não tenho vergonha de agir como um idiota, mas isso não é porque eu quero atenção ou coisa do tipo. Quero dizer, se fosse esse o caso, você me veria sair na rua pra fazer esse tipo de coisa, não é? Francamente, eu não ligo para atenção. Quando eu estou agindo como um idiota, esse não é o meu foco.

– Ah, é? – Perguntou Bryen, cética. – E qual seria o seu foco então? Irritar as pessoas?

– Hm.… em parte. Eu tenho de admitir que ver você ou o Hozar irritados é algo bem divertido. Você principalmente, já que você fica bem adorável quando está nervosa – disse ele, mostrando um fino sorriso zombeteiro que fez com que Bryen grunhisse em irritação. – Mas, não, esse também não é meu foco. Eu não sei se você vai acreditar nisso ou não, Bryen, mas o meu objetivo com o meu modo de agir é colocar as pessoas à vontade. Fazê-las relaxar, aliviar o clima, fazer com que as coisas parecessem um pouco mais agradáveis.

– .... Colocar as pessoas à vontade? Você está falando sério com isso? – Pensou por um momento que aquilo podia ser alguma piada, mas um olhar para o rosto de Kastor foi o bastante para que soubesse que ele estava realmente falando sério sobre aquilo, por mais que isso não fizesse muito sentido. Seus olhos rolaram ao notar isso, e pelo que deveria ser a milésima vez naquela noite Bryen suspirou. Isso é estúpido. Eu nem sei por que estou ouvindo ele ainda. Mas de alguma forma, por mais estúpido que aquilo pudesse ser, ela sentia-se curiosa quanto ao que ele tinha a dizer. E essa curiosidade fez com que ela voltasse novamente sua atenção para Kastor, por mais que achasse aquilo estúpido. – Muito bem, explique-se. Por que você faz isso? O que te faz ter essa necessidade de “colocar as pessoas à vontade”?

– O fato do mundo em que vivermos ser uma grande merda – respondeu ele sem hesitar, com uma convicção e firmeza na voz que fizeram com que Bryen, que até então estava ouvindo o que ele falava de forma um tanto condescendente e impaciente, voltasse toda a sua atenção para ele de forma séria. – Você sabe disso, não sabe, Bryen? Esse mundo em que vivemos é uma merda. Quero dizer, tome Fredora por exemplo. Essa não é podre até os ossos. Ela é uma nação dos ricos, feita para os ricos, na qual os pobres só são explorados e pisoteados. Todo mundo que é rico nessa nação é alguém que trapaceou, traiu e matou pessoas por dinheiro, e cada membro do governo é corrupto em um ponto ou outro. E mesmo assim, essas pessoas são as boas, essas pessoas são as que a nossa sociedade considera como as “bem-sucedidas”. Elas andam pelas ruas como se fossem boas demais para essa terra, fazem com que nos ajoelhemos e nos humilhemos para que possamos ter o mais básico do básico e brincam com as nossas vidas como se fossemos bonecos em suas mãos. Eles literalmente nos alimentam com merda e nos forçam a elogiar o gosto dela depois, e o resto não é muito melhor. Em Carcino, por exemplo, Tiamat é famoso por sequestrar plebeus aleatoriamente para conduzir seus experimentos neles. Alguns acabam mutilados, outros acabam com mutações, outros acabam se tornando verdadeiras aberrações. E esses são os que são vistos depois de serem levados por ele, que não são nem um décimo das pessoas que ele já sequestrou. E se alguém tenta reclamar ou tenta fazer alguma coisa para impedi-lo ele mata essa pessoa, ou essas pessoas, sem pensar duas vezes. E sabe o que é pior? As outras nações poderiam parar isso. Carcino é literalmente a mais fraca das Grandes Nações em poder bélico e militar, mas ninguém tenta fazer nada contra Tiamat. Sabe por quê? Porque ele é um gênio e supre o mundo com tecnologias cada vez mais avançadas, e isso é algo que convence as nações a deixarem ele em paz. O que são milhões de vidas diante de avanços tecnológicos, hm?

“E isso tudo é só em relação aos grandes. Existe muito mais dor e sofrimento no nosso mundo. Não muito tempo atrás, por exemplo, eu tive que salvar a filha de um fazendeiro de ser estuprada e vendida como escrava por um grupo de bandidos. Eu consegui salvar ela, mas a coitada provavelmente vai ficar pra sempre traumatizada com o que aconteceu, e o velho perdeu o filho, que foi morto pelos bandidos quando eles a sequestraram. Diabos, você não precisa olhar longe para ver a dor do nosso mundo. Todos os membros da nossa guilda possuem uma história dolorosa. Todos, sem exceção. Olhe para as pessoas que você vê na rua e você estará vendo o sofrimento. Um ente querido que foi morto, um familiar que foi escravizado, um abuso ou uma violência que sofreu no passado, uma humilhação que passa todo dia.… faça a sua escolha. Eu nunca vi até hoje um adulto que não tivesse um passado de sofrimento, e francamente, acho que nunca verei.

É por isso que eu ajo dessa minha forma, sabe? Eu sei que estou sendo um idiota, mas é essa a intenção. Talvez, ao agir como um idiota, eu consiga fazer algum bem. Consiga fazer as pessoas relaxarem, consiga amenizar o clima. Se eu consigo fazer uma pessoa esquecer dos seus problemas e das suas dores por um minuto, isso já valeu a pena. Se eu consigo fazer com que alguém sorria ou ria com as minhas bobagens, eu me sinto o cara mais sortudo do mundo. Em um mundo como o nosso, não há nada mais precioso do que o sorriso, sabe? Uma demonstração de pura alegria e divertimento, algo que consegue exalar calor e levantar os espíritos de qualquer um. Não importa o que eu tenha de fazer ou o quão ridículo eu esteja parecendo, eu nunca vou sentir vergonha de fazer algo que possa abrir um sorriso no rosto de uma pessoa.”

Em algum ponto durante o monólogo de Kastor, o queixo de Bryen havia caído. Quando ele parou de falar e olhou para ela, a ruiva estava parada de boca aberta, olhando para Kastor com olhos arregalados e incrédulos, mal sendo capaz de acreditar no que havia acabado de ouvir. Eu... eu não imaginava... nunca pensei que tinha um motivo como esse por trás das ações dele. Quando havia ouvido Kastor falar que ele agia assim para colocar as pessoas à vontade ela havia achado a motivação dele ridícula e fajuta, mas agora que ouvia a explicação dele sobre isso... ela não conseguia deixar de achar aquilo algo um tanto quanto nobre.

– É por isso que eu me preocupo com o fato de você não sorrir – disse ele, colocando as mãos no bolso enquanto olhava para Bryen. – Talvez você não tenha notado, Bryen, mas você está sempre com a cara tão... marrenta. É difícil de explicar, mas eu sinto como se muitas vezes você estivesse irritada com alguma coisa, como se algo lhe incomodasse. É diferente de Teigra ou Hozar, que são simplesmente sérios, sabe? E isso me preocupa. Eu não quero ver você marrenta. Eu gostaria de ver você sorrindo, mas francamente, eu nem quero também que você esteja necessariamente sorrindo. Eu só quero ver você feliz. Quero ver você parecendo plenamente feliz, sabe? E quero te ajudar a ficar feliz, se possível. – Antes ela havia se afastado dele com um salto, e em um passo Kastor cruzou a distância que os separavam. Suas mãos caíram sobre os ombros de Bryen, e seus olhos olharam dentro dos dela. – Eu não sei o que te incomoda, Bryen, e nem vou perguntar o que é caso você não queira revelar. Mas, por favor, deixe-me te ajudar. Não precisa me contar do que se trata, basta me dizer como eu posso te ajudar, o que eu posso fazer. Por favor, me diga isso, sim? Me diga como eu posso te fazer sor-

Foi nesse exato momento, no meio daquele discurso, que bosta caiu em Kastor.

Ele estava falando, imerso em seu discurso, e Bryen estava focada nele, completamente focada nele, quando uma bosta branca de pássaro caiu do céu como uma flecha, acertando Kastor na cabeça e correndo pelo seu rosto até escorrer do seu queixo. Todos os movimentos dele pararam ao sentir aquilo. Seus olhos primeiramente se arregalaram, para logo em seguida suas pupilas se tornarem minúsculas. Começou a senti-lo tremer de nervosismo enquanto segurava seus ombros, e de onde estava viu o rosto dele ir lentamente se transformando em uma máscara de pura fúria, até que chegou um ponto em que ele simplesmente não aguentou mais. Soltou-a rapidamente, saltou para trás, tirou um par de espadas gêmeas da sua dimensão particular e começou a brandi-las furiosamente em direção ao ar.

FILHO DA PUTA, EU VOU TE MATAR SEU PÁSSARO DE MERDA! SÉRIO CARA, QUE BOSTA É ISSO?! EU ESTAVA CONVERSANDO AQUI, SEU MISERÁVEL SEM EDUCAÇÃO! VEM CÁ, SEU PROTÓTIPO DE POMBO DE BOSTA! VEM QUE EU VOU TE CORTAR EM PEDACINHOS! AFINAL DE CONTAS, QUE TIPO DE PÁSSARO FICA VOANDO E CAGANDO POR AÍ A ESSA HORA DA NOITE?!

Suas bochechas incharam ao ouvir aquilo. Um som abafado escapou de seus lábios, e Bryen até tentou segurá-lo, mas não teve sucesso. Antes de muito a espadachim ruiva começou a gargalhar alto – uma gargalhada gostosa e divertida, uma risada que ela há muito não conhecia. Eu... a última vez que eu gargalhei assim foi no dia em que meu pai e minha mãe me levaram pra passear e meu pai caiu no rio. Isso foi há quantos anos? Seis? Sete? Fazia muito tempo. Fazia muito tempo desde que seus pais haviam sido mortos, e fazia muito tempo desde que havia se divertido com eles. De certa forma... eu acho que Kastor tem um ponto, pensou ela, mesmo enquanto gargalhava loucamente daquela forma descontrolada. O meu passado... ele é como uma sombra sobre mim. Algo que não sai da minha cabeça. Realmente, estava marrenta na maioria das vezes. Não costumava ser assim. Antes ela era cheia de vida, alegre, simpática, risonha. Mas depois da morte de seus pais as coisas aparentemente haviam mudado. Eu me tornei marrenta, nervosa, estressada... infeliz. Eu... eu era uma mulher infeliz, eu acho.

“Era” porque, agora... agora ela não se considerava infeliz. Kastor... obrigada. Por ter me dado essa guilda, esses companheiros. Por.… ser você.

– EI! QUEM ESTÁ GRITANDO POR AÍ A ESSA HORA DA NOITE?! – A voz revoltada do que deveria ser um morador das redondezas chamou a atenção a de Bryen e fez com que ela começasse a agir mesmo enquanto continuava a rir. Correu até Kastor, que ainda estava gritando contra o pássaro, e envolveu um braço dele com um dos seus.

– Vamos lá, poleiro de pombo – zombou ela, puxando-o consigo. O rosto dele voltou para ela irritado, mas a irritação sumiu de imediato para dar lugar a uma expressão embasbacada quando ele viu Bryen, sorrindo, radiante, exibindo uma de suas raras expressões de pura felicidade no rosto. Os lábios dele se moveram de forma quase que muda, mas conseguiu murmurar a palavra “linda”, e isso fez com que corasse e o puxasse um pouco mais quase que instintivamente. Quase. – É hora de voltarmos pra guilda, não concorda?





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "O Olho Vermelho" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.