O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 84
Especial de Natal (II)


Notas iniciais do capítulo

Desde já, aviso que esse capítulo provavelmente é bem mais pesado do que você provavelmente esperaria de um especial de natal. Ele trabalha com temas bem pesados, alguns até que eu ainda não havia trabalhado nas minhas histórias, então talvez você possa querer pular esse. Isso dito, não se engane; por mais que esse capítulo trabalhe com temas pesados, o foco dele é em algo muito mais agradável, e acho que a mensagem que ele passa é uma coisa que deve ser passada às pessoas.



– HOZAR, A MINHA BUNDA TÁ DOENDO! Resmungou Kastor, o não-tão-orgulhoso líder da Era Dourada, deitado em cima de uma maca no meio da recepção da guilda deles, suas calças arriadas e sua bunda vermelha cheia de pomada apontada pro ar enquanto ele choramingava por ali. – Faça ela parar de doer, por favor!

– Eu não vejo como a sua bunda é problema meu – respondeu o Cinzento, sentado em uma poltrona do outro lado da sala, tentando ler um jornal para não ter de ficar olhando a visão desagradável que era a poupança em branco-e-vermelho de Kastor. – E de qualquer forma, por quê ela ainda está ferida em primeiro lugar? Você tem uma regeneração capaz de recriar membros perdidos em poucos instantes, não é possível que ela não possa curar algumas queimaduras na retaguarda.

Aquele simples comentário pareceu lembrar Kastor de algo crucial, dado o brilho que surgiu em seus olhos. De forma um pouco hesitante ele moveu sua mão para seu traseiro, apalpando a superfície de forma tentativa para avaliar o estado dela, e logo em seguida em deu um tapão na sua própria bunda que estalou e ecoou por toda a sala, fazendo com que Hozar estremecesse, resmungasse entre dentes e com que um tique nervoso se tornasse visível no olho esquerdo do cavaleiro. Com um salto, o azul se pôs de pé.

MINHA BUNDA ESTÁ CURADA! YAAAAAAAAAAAAAAAY! – Exclamou ele com todo o ar de seus pulmões... esquecendo (de alguma forma) que suas calças estavam arriadas, o que fez com que elas caíssem até seus pés e deixassem sua intimidade a mostra por um momento. Corando ao se dar conta de que ele estaria completamente ferrado se alguma das garotas vissem aquilo ele se apressou em apanhar a barra de sua calça, prendê-la bem ao redor de sua cintura com o cinto, e voltar a fazer a mesma posse que antes em glória e orgulho-próprio infinitos.

– Sim, sim, parabéns – murmurou Hozar sem dar muita atenção para ele, passando a página de seu jornal. – Da próxima vez, tenha um pouco de dó de si mesmo e tente não queimar tanto a rosca, ok?

Aquele comentário fez com que Kastor o encarasse com uma cara azeda e se aproximasse com uma postura marrenta até que estivesse pairando bem em frente a Hozar, encarando-o de braços cruzados e postura imponente. Não fosse pelo fato de que ele estava fazendo sombra sobre o jornal, Hozar nem se importaria com isso tudo, e mesmo esse fato só fez com que ele afastasse o jornal enquanto resmungava pragas, erguesse os olhos e encarasse Kastor sem paciência.

– O que foi? Cansou de queimar a própria rosca e quer que alguém faça isso por você agora?

Kastor não respondeu a isso. Apenas continuou de braços cruzados, encarando Hozar seriamente.

Por toda a duração de três segundos, antes que ele perdesse toda a sua compostura e começasse a gargalhar alegremente, como característico do cavaleiro risonho.

– Hahahahahaha! Hahahahahaha! Cara, cara, eu normalmente ficaria meio puto com uma piadinha dessas, mas eu tenho que assumir que essa foi boa! – Disse o azul, dando tapinhas nas costas de Hozar enquanto gargalhava daquela forma estridente e irritando. O cinzento teve de ficar rangendo os dentes e se contendo para não dar um cascudo na cabeça dele em resposta a isso. – Ei, Hozar, que tal darmos uma volta por aí? É natal, afinal! Tem lá época melhor pra ficar bêbado?

– Se você acha que o natal é uma época para ficar bêbado, você não entende mesmo a lógica por trás dessa festa. Ou só não se importa. De qualquer forma, não, obrigado. – Não tinha intenção nenhuma de sair com Kastor, mas aquelas palavras dele haviam lhe lembrado de algo que tinha que fazer e do qual estava se esquecendo até agora. Dobrou o jornal ao meio em suas mãos e o colocou no chão, antes de se levantar e começar a fazer seu caminho em silêncio até o segundo andar da guilda.

– Ei, o que você está fazendo? – Perguntou Kastor, parado em frente a poltrona como estava antes, olhando para Hozar com a cabeça inclinada enquanto um ponto de interrogação brilhava em cima dela. De onde caralhos vem esse maldito ponto? Foi essa a pergunta que passou pela cabeça de Hozar naquele momento, antes que ele a afastasse da sua mente, decidindo que simplesmente não queria saber.

– Indo buscar Teigra. – Respondeu Hozar de forma simples. – Eu e ela vamos sair.

– Hã? – Kastor sempre foi alguém bem expressivo, e aquela não foi uma exceção. Não estava nem olhando para ele mais, mas mesmo assim conseguia saber que ele estava bem confuso pelo seu tom de voz. – Mas eu não me lembro dela ter dito nada sobre sair hoje.

– Isso é porque eu não a avisei – foi a última resposta que Hozar deu ao azul antes de ganhar o corredor do segundo andar e sumir para dentro dele, sem oferecer qualquer outra explicação a Kastor.

Por alguns momentos o Cavaleiro Azul ficou parado aonde estava, olhando de baixo para o corredor pelo qual Hozar havia seguido enquanto pensava no que Hozar havia dito e no que isso sugeria. Hmm... Hozar está pretendendo levar a Teigra pra sair, não é? Eu assumiria que ele tem algum interesse romântico por trás disso, mas a assexualidade meio que é um problema para essa teoria. Apesar de que creio que a assexualidade só impede que ele tenha atração sexual por alguém – interesse romântico não deve estar completamente além das capacidades dele. Mas mesmo assim, deixando isso tudo de lado, aquilo tudo também não criava uma situação muito boa. A maioria das mulheres não gostaria que um homem decidisse que elas vão sair com ele. E Teigra pode parecer calma e tudo mais, mas como uma cavaleira do Salão Cinzento, é certeza que ela tem uma personalidade bem forte.

Balançou sua cabeça, desconsolado, e deixou seu corpo cair para trás, afundando na poltrona em que Hozar estava até alguns minutos atrás e apanhando o jornal que ele tinha deixado do chão.

– Tsc, tsc, tsc. Parece que depois eu vou ter de dar algumas dicas ao meu amigo cinzento de como se aproximar de uma garota – comentou Kastor consigo mesmo, enquanto passava as páginas em busca da seção de piadas.

=====

Segurou entre seus dedos a pequena gema que havia criado e ergueu-a a luz para vê-la melhor, analisando a forma dela com a ajuda de uma luneta. Hm.… será que isso vai funcionar? Estava trabalhando já há um bom tempo em criar artifícios que pudesse usar em uma luta, já que havia ficado bem claro pelos acontecidos do Torneio que o que ela tinha estava longe de ser o suficiente. Duke saiu praticamente ileso da nossa luta, mesmo depois de ter recebido de frente as chamas mais fortes da minha espada. Poderia tentar tirar algum consolo do fato de que havia sido Duke a fazer isso, o homem que era de longe o mais resistente dentre todos os membros da sua guilda, mas sabia que estaria apenas se enganando se resolvesse acreditar em algo assim. Mais resistente ou não, Duke deveria ter sofrido no mínimo danos consideráveis depois do que ele fez. O fato dele ter saído em bom estado depois de algo assim indica a deficiência na potência do meu ataque, e considerando que essas chamas não possuem propriedades mágicas e que eu não posso influenciar nelas com alguma habilidade ou coisa do tipo, isso é inaceitável. Precisava de algo novo, alguma coisa mais poderosa que pudesse usar para conseguir enfrentar oponentes poderosos em algum tipo de pé de igualdade. Se o Olho Vermelho voltar a atacar algum dia, eu não quero tornar a ser a donzela indefesa que fica tremendo de medo enquanto vê seus companheiros serem derrotados, um após o outro.

Lembrar daquilo fez com que parte da fúria adormecida no coração de Teigra despertasse novamente, e sem que sequer se desse conta a cavaleira fechou a mão que segurava a gema com força, apertando a pequena na palma dela com tanta força que ameaçava esmaga-la em pedaços a qualquer momento. E isso provavelmente era exatamente o que iria acontecer, não fosse Teigra tirada de seu transe e pensamentos pelo som da porta do seu quarto sendo arrancada do seu lugar.

Quando virou sua cabeça para ver quem havia sido o responsável por isso ela se surpreendeu ao ver Hozar, o Cinzento, segurando sua porta destruída com uma das mãos tranquilamente enquanto mantinha a outra no bolso e olhava para Teigra com um rosto tão sério e sereno que alguém podia imaginar que isso não era nada demais.

– Vista algumas roupas decentes, Teigra – murmurou ele. – É natal e nós vamos sair.

No primeiro momento após ouvir aquilo, ela ficou calada. No segundo momento após ouvir aquilo, ela levantou uma sobrancelha e cruzou os braços sobre os seios. No terceiro momento após ouvir isso, ela sentiu o ímpeto de acertar Hozar direto na cara. Você está passando tempo demais junto de Kastor e Duke, Royes, pensou Teigra, balançando a cabeça de forma desolada por aquilo. Que pena. Você sempre me pareceu sério, impaciente e talvez até um pouco bruto... mas nunca estúpido.

– O que te faz pensar que eu não estou vestindo roupas decentes? – Decidiu começar questionando o mais básico e inconsequente em meio a tudo aquilo, só para ver qual seria a resposta de Hozar a isso.

Considerando o que ele havia acabado de fazer, ela foi melhor do que esperava. Hozar não disse nada em resposta, mas apenas gesticulou com a cabeça, apontando para suas roupas. Seus olhos acompanharam o movimento dele e caíram sobre as suas peças, manchadas de fluídos que iam de graxa e óleo até seiva de mandrágoras e saliva de salamandras, com algumas marcas de queimados e rasgados e desbotados aqui e ali. Hm.… muito bem, ele pode ter um ponto sobre as “roupas decentes”. Eu provavelmente não seria vista com bons olhos se saísse na rua assim.

– Muito bem, vamos deixar isso de lado. Por que eu deveria sair pra qualquer lugar, muito menos com você?

– Porque você está trancada nesse quarto há praticamente um mês, sem sair dele por mais do que alguns minutos para usar o banheiro e comer. E mesmo isso você está negligenciando. Você precisa sair um pouco; respirar ar fresco, beber um pouco de chocolate quente, comer um pouco, qualquer coisa. Ficar trancada aqui não está te fazendo bem.

– Ah, é isso? – Já devia ter previsto que eventualmente um dos seus companheiros de guilda iria fazer algo assim, considerando tudo. Francamente, o mais surpreendente é que não tenham sido Kastor ou Duke aqueles a fazer isso. – Bom, não precisa se preocupar, eu já sou grandinha o suficiente para cuidar de mim mesma, Hozar. Além do mais, mesmo se eu realmente precisasse sair, eu não vejo motivos para fazer isso com você. Você não fez um bom caso quando arrancou a porta do meu quarto.

– Ela estava trancada.

– Você poderia ter batido.

– Você teria ignorado.

– Provavelmente. Mas aí você teria uma justificativa, ainda que frágil.

– Além disso, eu não estou te convidando pra sair, estou apenas apontando o que vai acontecer. Você vai sair desse quarto e pegar um pouco de ar fresco, quer queira ou não.

– Isso é uma ameaça, Hozar? Não tolero ameaças, nem mesmo de você – retrucou Teigra, sentindo seu rosto enrijecer um pouco a medida que ia ficando progressivamente mais irritada com aquilo. Você vem até o meu quarto, arromba a porta dele, não se desculpa em momento algum e depois quer me forçar a fazer o que você quer independente dos meus desejos... você realmente está testando a sua sorte, Hozar. Você pode ser mais forte que eu, mas não ache por um momento que eu vou aceitar algo assim em silêncio.

– Não, não é uma ameaça. – A voz soou próxima, bem próxima, vinda bem do lado do ouvido de Teigra. Piscou os olhos por um momento, e quando voltou a abri-los Hozar já não estava mais a sua frente. Tentou ainda girar nos calcanhares, mas não teve tempo para isso; antes que pudesse sequer começar o seu movimento sentiu algo atingir a parte de trás da sua cabeça com uma pancada forte, e suas forças foram embora com isso. Tentou resistir de alguma forma, mas não foi capaz; caiu no chão sem que pudesse se amparar, sua visão ficando mais escura a cada momento, e só pode ouvir as últimas palavras que o Cinzento murmurou. – É uma promessa.

=====

Os olhos de Teigra estavam o fuzilando constantemente do outro lado da mesa, de uma forma que sugeria que ela estaria lhe esganando nesse exato momento se pudesse. Mas ela não podia, e por isso Hozar estava comendo seu pão quente tranquilamente, ignorando os olhares dela e das outras pessoas no restaurante/bar/lanchonete como se nenhuma delas existisse.

Não se surpreendia com todos esses olhares. Era normal que as pessoas estivessem lhe olhando daquela forma – afinal de contas, ele era um cavaleiro vestindo uma grossa armadura de aço que havia praticamente invadido aquele lugar com uma mulher desacordada nos ombros. Considerando como isso devia parecer, não era surpresa que tantos olhares assustados e temerosos estivessem sobre seus ombros. Não me importo particularmente com esse tipo de olhares ou com como as pessoas pensam de mim..., mas talvez seja melhor eu maneirar um pouco mais da próxima vez. Havia ficado um pouco famoso desde que havia saído numa manchete de jornal graças ao seu desempenho durante o Torneio de Valhala, e não queria arriscar que suas ações refletissem negativamente na reputação da guilda, de Kastor ou – que os Deuses não permitam – na de Odin.

– Hozar. – A voz de Teigra soou pela primeira vez desde que ela havia acordado, fria como uma geleira, embora não pudesse culpa-la por isso também. Não acho que muitas pessoas ficariam felizes depois de terem sido praticamente sequestradas como ela. Um pouco de rancor durante algum tempo é... aceitável, eu acho. – Minha cabeça dói como o diabo, mas eu me lembro bem de não estar vestindo essas roupas da última vez que estive consciente.

O comentário fez com que dignasse um olhar às roupas dela enquanto bebia um pouco de chocolate quente. Ao invés da camisa branca e das calças longas sujas que ela tinha antes, agora a mulher estava vestida com uma camisa preta e calças largas também pretas, com um casaco de pele de raposa fechado ao redor de seu corpo para aquecê-la um pouco na noite de natal. Bom, ela certamente se preocupou em se certificar de que Teigra ficasse quente. Pelo que sabia, Teigra era descendente dos povos de Carcino, e uma das características marcantes dos habitantes das Ilhas era que eles tinham uma certa resistência ao calor que refletia numa vulnerabilidade maior ao frio. Basicamente, eles custam mais a sentir calor, mas sentem frio com mais facilidade.

– De fato, você estava – respondeu ele, pousando delicadamente a xícara novamente no prato. – Não se preocupe, não fui eu que troquei suas roupas. Foi Anabeth.

– Anabeth? – Repetiu Teigra, erguendo uma sobrancelha. – Por que ela iria se envolver nisso?

– Ela não se envolveu. Ela só trocou a sua roupa. E ela fez isso porque eu avisei que iria cuidar disso eu mesmo se ela se recusasse. – Fez questão de frisar bem aquilo: a última coisa que queria agora era criar desavenças internas devido ao que havia feito. – Nenhum dos outros tem nada a ver com isso, então não fique chateada com nenhum deles. Eu sou o responsável por tudo.

– Certamente que você é – retrucou Teigra seca, sem fazer o menor esforço para esconder o quão irritada estava com Hozar da sua voz. – E então? Qual é o seu grande plano? Duvido que você se deu ao trabalho de me sequestrar apenas para me dar um lanche com chocolate quente.

– Óbvio que não. Seria o cúmulo absurdo fazer um esforço tão grande por tão pouco. Depois que terminarmos aqui nós iremos para uma loja de presentes. Eles ainda devem ter alguma coisa boa o bastante para que eu possa te dar como presente, um livro ou coisa do tipo. E depois iremos passear um pouco, simplesmente andar pela cidade. Talvez sentar na praça um pouco e conversarmos.

– Você tem ideia do quão assustador você está parecendo com tudo isso? Eu pensei que você era um homem adulto e maduro, Hozar. Não um garotinho imaturo que não sabe lidar com seus hormônios ou sua fantasia romântica deturpada.

– Eu não tenho esse tipo de interesse em você nem em ninguém, então não se preocupe com isso – murmurou ele em resposta, embora soubesse que ela dificilmente iria descartar essa hipótese assim tão fácil. Nem podia culpa-la por isso, francamente; tudo aquilo realmente parecia bem algo que uma espécie de perseguidor doente faria, apesar de Hozar ter intenções completamente diferente. – Acredite ou não, eu estou fazendo isso pelo seu bem, Teigra. Como um amigo.

– Eu não acho que amigos costumam sequestrar uns aos outros. E acho que já disse isso, mas deixe-me repetir: sou grandinha o suficiente para cuidar de mim mesma. Eu não preciso que você me diga o que é bom para mim, não preciso que você cuide do “meu bem”.

– E é aí que você se engana – disse ele, fechando os olhos. Sabia que o que ia falar era algo que provavelmente iria soar muito errado, mas era algo que ele tinha de dizer, algo que tinha de expressar da melhor forma possível. Maldição... as vezes eu queria ter alguma habilidade social. Eu provavelmente poderia ter pensado numa maneira bem mais fácil e menos perturbadora de fazer tudo isso se eu tivesse alguma ideia de como lidar com as pessoas. – Você precisa de ajuda, Teigra. Não necessariamente minha, mas das pessoas ao seu redor. Você provavelmente não nota isso, mas você está se matando. Lentamente, pouco a pouco, mas dia após dia você está se matando um pouco mais, e eu não planejo ficar simplesmente parado vendo isso. Sinto muito se pareço bruto ou assustador com tudo que estou fazendo, e você tem todo o direito de me odiar por tudo isso se quiser, mas desde que eu consiga fazer o meu ponto, eu não me importo que você me odeie.

Essas palavras conquistaram a atenção dela. Soube disso pela forma como ela lhe olhou. Os olhos de Teigra continuaram sérios com antes, e a raiva não sumiu deles, mas conseguiu ver algo mais – uma curiosidade, uma confusão, uma incerteza que fez com que ela afiasse os olhos um pouco. Sabia que ela estava esperando que ele continuasse, mas não fez isso, não ainda. Precisava primeiro que ela pedisse para que ele continuasse, pois só assim teria certeza de que teria a atenção dela para o que tinha de falar. Isso vai ser algo que vou ter de dizer uma vez, de forma clara e sem interrupções. É tudo ou nada.

– .... Prossiga. – Resmungou ela, uma careta de descontentamento começando a surgir em seu rosto por ter tido que dizer aquilo. Para não deixar ela se irritar mais ainda, começou logo a falar.

– Pelo último mês, você tem se negligenciado em vários níveis. Você não está tomando banho e se lavando bem, tornando-se relapsa com sua higiene pessoal. Você está comendo menos, mais rápido e de forma inconstante, sendo que já ocorreu de você passar alguns dias sem comer, o que está fazendo com que você perca peso e forças. Eu não estou no seu quarto para acompanhar isso ao certo, mas pelos seus olhos eu posso dizer que você não está dormindo bem, o que me sugere que você está ou dormindo por poucas horas, ou passando noites em claro para ficar trabalhando em seus projetos. E os seus projetos... eu dei uma olhada nas coisas que você trabalhou. São todos produtos agressivos e perigosos, substâncias controladas e com as quais trabalham em geral usando múltiplos equipamentos de proteção. Equipamentos esses que você não tem, já que você usa o dinheiro que seria destinado a eles para comprar mais materiais.

– .... Sim, isso é verdade. – Pela expressão em seu rosto ela não parecia muito satisfeita, mas mesmo assim, Hozar surpreendeu-se pelo simples fato dela ter concordado com ele. Isso é.… inesperado. Diante de acusações como essas a reação da maioria das pessoas defende o que está fazendo, insistindo que isso é seguro ou que elas estão se cuidando ou simplesmente mandando os outros não se intrometerem na sua vida. Eu... não acho que já vi alguém que aceita o fato de estar sendo inconsequente. – Tudo isso que você disse é verdade, e eu acho que consigo entender seu ponto, Hozar. De fato, eu posso estar sendo um pouco relapsa com meu bem-estar ultimamente, talvez a um ponto um pouco perigoso. Imagino que o que você quer dizer é que vocês estão preocupados comigo devido a isso, não é? Bom... você realmente poderia ter aproximado esse assunto de forma melhor, mas de qualquer forma, agradeço pela preocupação. Tentarei ser um pouco mais cuidadosa de agora em dian-

– Eu não terminei. – As palavras foram poucas, simples e curtas, mas elas foram ditas com tamanha firmeza e forma tão decidida que tiveram um bom impacto. Teigra parou de falar imediatamente ao ouvi-las, seu foco tornando a cair sobre Hozar. Embora ela ainda parecesse um pouco irritada, agora isso não era nada comparável ao que ela exibia antes, e a expressão em seu rosto era mais confusa e inquisitiva do que tudo. – Tudo o que eu disse são problemas relevantes relacionados a sua saúde pessoal, sim. É realmente importante que você trabalhe neles e comece a cuidar um pouco mais de si mesma, mas existe um problema maior que você está enfrentando e ainda não notou até agora. Um problema no âmbito social.

– No âmbito social? Você quer dizer na minha socialização com os outros? – Os olhos de Teigra se afiaram novamente ao ouvir aquilo, dessa vez mais em suspeita do que em curiosidade. – Bom, eu suponho que tenho alguns problemas nisso, realmente. Não é comum que os companheiros de alguém arranquem a porta do quarto dessa pessoa.

– Eu te dou uma porta melhor do que aquela se te incomoda tanto o fato de eu ter a arrancado, mas por hora, por que você não se foca em coisas mais pertinentes, como o fato de você ter assumido que iria ter me ignorado se eu tivesse batido nela? – Foi um pouco mais ríspido do que queria naquelas palavras, mas conseguiu fazer com que Teigra voltasse novamente seu foco para ele, e isso era o que realmente queria. – Você não tem tido contato com ninguém pelo último mês, Teigra. Você só fica trancada naquele quarto trabalhando sem parar nos seus projetos, sem nunca falar com ninguém. Kastor, Kyanna e Anabeth já tentaram falar com você algumas vezes, mas você só ignora se baterem na porta. Nas poucas vezes que você sai do quarto você vai direto fazer o que quer que tenha de fazer, responde com poucas palavras a qualquer pergunta que te façam, volta para o quarto e se tranca lá de novo por um bom tempo. Um corpo doente é problemático, mas ele pode ser curado. Um estômago vazio pode ser preenchido com um pouco de comida. Mas amizades não são coisas fáceis de se recuperar, quando é possível recuperá-las. Nossa guilda está começando agora: esse é o momento em que devemos nos unir, conversar uns com os outros e fortalecer os nossos laços. Não nos afastar. Se você continuar nesse ritmo, não vai demorar para que os outros sejam estranhos para você e que você seja uma estranha para eles, e talvez você nunca consiga sair disso se as coisas chegarem a esse ponto.

– ... E o que te faz pensar que eu me importo com isso? – Perguntou ela, voltando para a sua voz fria enquanto encarava seriamente Hozar. – Eu não sou uma criança, Hozar. Não preciso de outras pessoas tomando conta de mim.

– Tomando conta? Talvez não. Mas você precisa de outras pessoas, mesmo que não queira assumir. Não existe um homem ou mulher nesse mundo que é capaz de viver sozinho, Teigra, e isso é algo que você tem de entender. – Viu a suspeita nos olhos dela quando disse aquilo, mas ignorou-a completamente. Não estava mais apenas tentando transmitir uma mensagem ou tentar fazer com que ela entendesse determinado ponto de vista. O que dizia agora vinha do coração, era fruto de suas próprias experiências. – Durante o nosso tempo no Salão, você não tinha amigos. Agora que você se juntou a guilda, você se mantém distante dos outros. Você é uma pessoa antissocial, isso é visível. Você não se dá bem com as pessoas e tende a ficar mais isolada, e isso é compreensível. Mas se você continuar nesse rumo, você vai ficar sozinha, Teigra, e acredite em mim quando digo que não há nada pior do que isso. Você pode ser antissocial, você pode não saber se relacionar bem com as pessoas e pode se sentir desconfortável tentando falar com elas, mas você deve fazer isso. Nesse momento você está na beira do precipício, na beirada do poço escuro e fundo que é a solidão. Mais alguns passos e você cai nele, e uma vez nesse poço, é difícil sair dele. E se você permanecer nesse poço por tempo demais, uma de duas coisas vai acontecer: ou você vai quebrar sua própria mente, ou você vai tirar sua própria vida.

=====

Os flocos de neve caiam levemente sobre sua cabeça enquanto estava no banco, sentada enquanto simplesmente apreciava a calma da noite. Em suas mãos ela trazia sacolas, todas cheias de vários livros. Alguns eram sobre Alquimia, textos de qualidade que exploravam a ciência em teoria e prática, com catálogos úteis de vários ingredientes, detalhando a raridade deles, aonde podiam ser encontrados e explicando os vários resultados que eles podiam criar. Mas só alguns. Outros eram livros de autoajuda – algo no qual nunca havia acreditado muito, mas que Hozar havia insistido para que levasse e lesse, dizendo que aqueles livros podiam ajudá-la a interagir com outras pessoas, mesmo que apenas um pouco. E por fins, outros eram simplesmente... livros. Novelas, contos, crônicas... histórias sobre várias coisas diferentes. Um falava sobre um cavaleiro em um mundo similar (mas diferente) do que em que viviam, que viajava pelas terras vastas em busca de aventuras. Outro falava sobre um futuro distante no qual uma mulher de uma estranha raça que parecia ser feita de híbridos entre caninos e felinos viajava por entre vários mundos através de uma espécie de máquina superpotente que podia cruzar grandes distâncias num piscar de olhos, trazendo justiça para onde ia. Outro simplesmente contava o drama da vida de um homem, narrando a sua história desde a sua infância até a sua morte, mostrando toda a sua trajetória de vida e os problemas que ele enfrentou no caminho. E outro, ainda, contava a história de um reino corrupto, cheio de nobres que viviam jogando o jogo da política na tentativa de derrubarem uns aos outros por poder, enquanto um grupo de pessoas que sofriam nas mãos deles começava a se reunir para tentar derrubar seu governo tirânico. Já havia visto livros como esses várias vezes, mas nunca teve interesse em ler um. Por algum motivo, hoje as coisas tinham sido diferentes.

Moveu seus olhos para Hozar enquanto ainda estava sentada, vendo o que o Cinzento estava fazendo. A noite havia sido praticamente dela: ele havia comprado tudo o que ela queria, e por vezes ele tinha insistido para que ela pegasse alguma coisa. Ele lhe comprou lanche, ele lhe comprou livros, ele lhe comprou até coisas que duvidava que fosse usar um dia, como colares e brincos. Mas não comprou nada para si mesmo. Nada... exceto o boneco que tinha em mãos. Um pequeno boneco de uns quinze centímetros, feito de madeira e pintado à mão, modelado à imagem de Odin Wynthers, líder do Salão Cinzento... e pai de Hozar e Kastor, pelo que sabia.

– Você admira bastante ele, não é? – Perguntou ela, fazendo com que Hozar erguesse os olhos para olhar na sua direção. – Odin.

– Ah. Sim, bastante – murmurou ele, meio que perdido em pensamentos. Seus olhos logo voltaram para o boneco, e delicadamente Hozar passou o dedo pelo seu rosto, limpando um floco de neve que havia caído em cima dele. – Odin... palavras não conseguem descrever o quão importante ele é para mim. Ele é provavelmente a pessoa mais importante na minha vida. Talvez até mais do que Kastor.

– Bom, ele é o seu pai – disse Teigra com um meneio da cabeça. – Creio que isso é de se esperar, certo?

Hozar não respondeu, e isso fez com que Teigra compreendesse imediatamente que havia dito alguma coisa errada. Droga, pensou a cavaleira, franzindo o cenho. Talvez eu precise mesmo desses livros no fim das contas. Por alguns momentos eles voltaram a ficar em silêncio, ele distraído com seu boneco, ela envergonhada demais para ousar dizer mais alguma coisa. Mas eventualmente a vergonha foi passando, e em certa altura Teigra resolveu arriscar de novo.

– Ei, Hozar – disse ela, conquistando um grunhido do cavaleiro em resposta, sinal de que ele estava ouvindo o que dizia. – Quando você falou sobre a solidão e ser solitário... me pareceu que você não estava falando aquilo da boca pra fora. Eu tive a sensação de que você estava falando aquilo com.… experiência, por assim dizer. Como se você tivesse passado justamente por aquilo uma vez e estivesse me dando conselhos de acordo com o que aconteceu no passado. – Moveu seu rosto, olhando bem para ele afim de ver suas reações. A essa altura, apesar de tudo que ela dizia, Hozar estava agindo normalmente, como se ele nem escutasse suas palavras. Mas ele está me ouvindo, sim. Eu sei disso. – Estou correta em pensar assim?

Aquela era uma pergunta para a qual Teigra honestamente não esperava por uma resposta. O Cinzento havia sempre parecido um homem bem reservado aos seus olhos, alguém que mantém o seu passado e seus problemas como coisas que só dizem respeito a ele. Mas, de certa forma, ele já havia quebrado alguns dos conceitos que tinha dele naquele dia. Com seu modo de agir e as coisas que ele disse, Hozar havia pintado uma imagem um pouco diferente na mente de Teigra.

E foi exatamente por causa disso que ela não ficou tão surpresa quando ele começou a responder sua pergunta.

– Na minha infância, eu fui bem solitário. Nunca vi o meu pai biológico, e minha mãe... ela não era mãe nenhuma. Uma mulher asquerosa que se preocupava mais em abrir as pernas por alguns trocados do que com qualquer outra coisa... para ela, eu era um estorvo, um empecilho que atrapalhava a sua vida e que nunca deveria ter nascido. E ela sempre fez questão de deixar isso bem claro para mim.

– Ela era abusiva? – Perguntou Teigra. Outra pessoa, talvez, notasse o quão pessoal era uma pergunta dessas e o quanto você deveria evitar interromper alguém quando a pessoa conta uma história tão pessoal quanto aquela, mas ela era uma mulher que simplesmente não sabia dessas coisas. Por sorte, Hozar também não era um homem que se preocupava muito com isso.

– “Abusiva” é pouco para ela. Ela me batia e me humilhava diariamente. Eu era tratado como um escravo frequentemente, forçado a tratar dela e da casa como se fosse um servo, e sempre que ela trazia um homem para casa ela se certificava que ele me humilhasse também. E isso tudo se eu tivesse sorte. – Os dedos de Hozar se apertaram com mais força ao redor do boneco em suas mãos, e não demorou para que ele afastasse esse e o colocasse sobre o banco há uma certa distância dele, só para que não acabasse destruindo ele por acidente. – Às vezes ela fazia coisas bem piores do que me bater e me humilhar. Algumas vezes, quando nenhum homem se interessava por ela, ela voltava pra casa bêbada e começava a resmungar qualquer coisa sobre ser desejável ou coisa do tipo, reclamando que os homens deviam fazer fila para ter a sua atenção, falando que ela era mais do que qualquer um deles merecia e tudo mais. E.… eventualmente... eventualmente o olhar dela caia sobre mim. Aí ela vinha até mim e falava coisas estranhas. Falava que eu lembrava meu pai, que eu estava crescendo... elogiava meus ombros ou meus músculos, falava que eu estava ficando bonito, e começava a ficar querendo tocar meu rosto ou peito. – A medida que Hozar ia falando, os olhos de Teigra iam se arregalando cada vez mais. Ele não está sugerindo que.... Olhando para o cavaleiro, ele parecia outra pessoa. Sua pele havia se tornado pálida, seus olhos haviam se tornado desfocados. Seus dentes rangiam uns nos outros, e seus braços... eles tremiam, não de frio, mas de medo. E ainda assim, ele não parava. Ele parecia imerso demais na sua história para parar. – Nessas horas eu tentava me afastar, e aí ela ficava brava. Aí ela batia, me jogava no chão e começava a me arranhar e puxar o meu cabelo, gritando comigo que eu não podia ousar negar ela, que eu devia tudo a ela, que ela tinha o direito de fazer o que quiser comigo, que eu era dela, que eu tinha de obedecê-la. E depois... sempre depois que ela dizia que eu tinha de obedecê-la, ela olhava nos meus olhos e dizia: “agora seja um bom menino e tire a roupa pra ma-

Sua mão tampou a boca de Hozar antes que ele pudesse terminar sua frase. Chega. Sua respiração estava descompassada. Sentia seu corpo tremer e sentia seu coração bater com força em seu peito. Estava nervosa, mais do que nervosa. Eu ouvi o bastante. Mais do que o suficiente. Os olhos do Cinzento que antes estavam desfocados ganharam subitamente o foco de novo, mas ainda estavam longe de serem seus olhos normais. Quando ele os ergueu para olhar para Teigra eles não pareciam os olhos de um homem maduro, um cavaleiro treinado e provado que já derrotou grandes guerreiros com facilidade.

Eles pareciam os olhos de uma criança jovem e assustada.

– Me perdoe, Hozar. – Murmurou ela, sentindo-se culpada por aquilo. Eu nunca deveria ter perguntado a ele sobre isso. Maldição, por que eu fui abrir a minha boca?! Sentia uma infinidade de emoções naquele momento. Tristeza. Dó. Piedade. Raiva. Ódio. Incredulidade. Sua vontade era de descobrir quem era a mãe de Hozar, ir até ela e então garantir que aquele lixo humano tivesse a pior das mortes possíveis. – Você não precisa dizer mais nada, tudo bem? Não precisar fal-

Foi interrompida quando uma das mãos dele se ergueu para alcançar a mão dela que tampava sua boca. Gentilmente, bem gentilmente, Hozar tirou a mão dela do lugar. Seus olhos nunca moveram-se dos de Teigra, mas pouco a pouco eles recuperaram seu estado normal.

Em um piscar de olhos, o velho Hozar que ela conhecia estava de volta.

– ... Devido a minha mãe, eu sempre fui muito solitário – continuou ele em um tom de voz neutro, surpreendendo Teigra com aquilo. Mas... por quê? Eu disse que ele não precisa dizer nada. Então, por que ele... – Mesmo depois que Odin me tirou das garras dela e me trouxe para o Salão Cinzento, eu era muito isolado. Não me enturmava com ninguém. Negava contato com as outras pessoas. Ficava sempre sozinho no meu canto. Eu sempre... sempre rejeitava a aproximação de outras pessoas, e isso me fez mal.

“Com o passar do tempo, eu me tornei depressivo. Eu tinha problemas, mas eu não lidava com eles e nem tinha ninguém que pudesse me ajudar com eles. E como teria? Eu não deixava ninguém se aproximar. Era como se eu estivesse dentro de uma concha dura e me encolhesse para o fundo dela sempre que alguém estendia a mão na minha direção. Essa isolação criou uma solidão, e essa solidão abriu espaço para depressão. E, eventualmente, a depressão evoluiu para o desejo suicida.

Eu não sei bem descrever o que eu sentia naquela época. Francamente, as memórias são confusas. Quase como se fosse outro alguém no meu corpo, se isso faz algum sentido. Eu só sei que eu queria morrer. Eu estava decidido que as coisas eram ruins agora e que elas só iriam piorar mais e mais, e por isso eu queria morrer de uma vez e me poupar de mais sofrimento. Foi por isso que eu fiz aquilo, a maior merda da minha vida. Um dia, durante a noite, eu me esgueirei até a cozinha. Os talheres ficavam em uma gaveta que ela trancada a cadeado, mas eu sabia aonde ficava a chave. Peguei ela, abri a gaveta, tirei uma faca bem afiada dali e cortei meus pulsos com ela.

... Em retrospectiva, de todas as formas idiotas possíveis de se cometer suicídio, essa provavelmente foi a ‘melhor escolha’. Não acho que iriam me notar antes do dia seguinte caso eu tivesse tentado me entupir de medicamentos ou saltar do todo do prédio, mas cortar os pulsos é algo doloroso, e eu gritei de dor ao fazer isso. Isso chamou a atenção dos cavaleiros, e eles me impediram de seguir em frente com o que seria a maior merda que eu poderia fazer. Se eu estou vivo hoje, devo isso a eles.

Odin só me bateu uma vez na vida, e foi depois disso. Não foi um soco, ou palmadas, ou qualquer coisa do tipo. Foi um tapa. Ele me deu um tapa e perguntou o porquê de eu ter feito algo assim. E logo depois, sem nem me dar chance de responder, ele me abraçou com força e chorou no meu ombro, falando que me amava e que eu nunca mais deveria fazer algo assim. Dizendo que... dizendo que ele não sabia o que faria da vida se eu morresse.

Eu fiquei na ala médica por um ano depois disso. Claro, minhas feridas não demoraram um ano para se fechar, mas eles queriam ficar de olho em mim, se certificar de que eu não faria algo assim de novo. E durante esse ano, Odin ficou do meu lado o tempo todo: vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Pelo que eu soube depois ele delegou todo o seu trabalho para Gwynevere e Ezequiel e colocou Soulcairn para o substituir por esse período, mas o importante é que ele ficou comigo e se recusou a sair do meu lado. Mesmo quando falavam com ele que era algo importante e que só ele podia resolver aquilo ele não lhes dava atenção. E quando eu lhe perguntava o porquê dele não ter dado atenção a essas pessoas ele sempre sorria e dizia: ‘porque você é a coisa mais importante do mundo para mim. O resto pode esperar’.”

Ouviu tudo aquilo em silêncio, parada em frente a Hozar, ouvindo cada palavra dele com toda a sua atenção. Durante a maior parte do que ele havia dito, Hozar havia mantido uma expressão completamente neutra em seu rosto, mas naquele ponto isso estava mudando. Nessa última parte, um sorriso havia começado a surgir em seus lábios. Do seu bolso ele retirou um cigarro, colocando-o nos lábios, mas quando estava prestes a acendê-lo ele pareceu ter uma ideia. Ao invés de simplesmente acender aquele cigarro o que ele fez foi pegar também um segundo, colocá-lo nos lábios ao lado do primeiro e acender os dois de uma vez, antes de continuar com sua história.

– Foi graças a Odin que eu saí da minha depressão. Graças ao amor dele. Um ano depois do incidente Kastor chegou, e então nós dois começamos a interagir. No início eu odiava ele; achava ele um moleque chato e enjoado e estava decidido de que eu estava desperdiçando o meu tempo com ele. Mas ele insistia. Não importava o quanto eu o insultasse ou o quanto eu me afastasse, ele continuava vindo atrás de mim, de novo e de novo. Sempre dizendo a mesma coisa. “Você é um cara legal! Vamos ser amigos!”. Hunf. De certa forma, acho que ele conseguiu o que queria, não concorda?

A mão direita de Hozar se esticou, apanhando o boneco. O cavaleiro cinzento lançou um último olhar para ele, apreciando-o brevemente antes de colocá-lo no bolso. Ele se levantou, ficando de pé bem em frente a Teigra, e então ele tornou a olhar nos olhos dela.

– Sim, Teigra. Eu experimentei a solidão. Eu sei do que estou falando. E é por isso que eu fiz o que fiz hoje – disse ele com firmeza, embora sua voz também trouxesse uma gentileza muito maior do que estava acostumada a ver nele. – Eu sinto muito por ter te atrapalhado. Eu sinto muito se fui chato. Sinto muito se fui um babaca. Mas eu fiz o que eu acho que tinha que ser feito. A solidão é um abismo terrível, Teigra. Ela faz com que você afunde num oceano sem fundo. Por favor, evite ela. Você não tem a necessidade de ficar sozinha. Eu, Kastor, Duke, Bryen, Anabeth, Kyanna... estamos todos aqui com você, por você. Não se isole de nós. Eu sei que pode parecer difícil, mas tente se socializar um pouco, sim? Se há alguma coisa que fez com que eu me tornasse o homem que sou hoje ao invés de um coitado depressivo, são os meus amigos. As pessoas que estão ao meu lado. Não falo apenas de Kastor e Odin, embora eles sejam os principais pilares da minha vida, mas de todos os meus companheiros. Incluindo você. – A mão de Hozar pousou sobre seu ombro, quente e firme. – Você pode não saber disso, mas você é uma das pessoas que me impede de cair de novo na escuridão, Teigra. E eu me recuso a deixar que você caia nela, também.





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