O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 8
Excalibur


Notas iniciais do capítulo

Se você, como eu, já viu CDZ na sua infância, é provável que você ache esse capítulo nostálgico, hehe.



O avanço de Presas veio no exato momento em que as palavras terminaram de deixar seus lábios, o homem-lobo avançando contra Odin com uma velocidade ainda mais assustadora do que a que ele havia demonstrado antes, suas garras erguidas, prontas para rasgar Odin em pedaços, ao mesmo tempo em que ele exibia seus dentes gigantes, os caninos brilhando de forma intimidadora enquanto a parte frontal da arcaria dentária estava manchada de vermelho do sangue do clone. Infelizmente para ele, Odin também era rápido, e contava com mais quatro clones ali para lhe proteger. Foram dois deles que avançaram contra Presas, balançando suas espadas pelo ar com força e rapidez. No entanto, o que aconteceu logo a seguir assustou Odin; quando a espada de um dos clones estava prestes a atingir Presas e rasgar seu peito, um sorriso surgiu no rosto do homem-lobo, apenas um momento antes que seu corpo se tornasse transparente e a espada simplesmente passasse por ele sem lhe afetar. Pode ver em primeira mão os olhos de seu clone se esbugalharem no mesmo momento em que o corpo de Presas pareceu forçar ao normal, e o membro do Olho Vermelho não perdeu tempo; sua garra se moveu mais rápido do que Odin podia acompanhar, acertando um golpe brutal no rosto de seu clone, arrancando pele dali e deixando cortes tão profundos que era possível se ver o osso dele. Um golpe tão violento assim, obviamente, lançou seu clone direto ao chão, e isso deixou o caminho livre para que Presas pudesse lidar com o segundo. A mesma mão que golpeou o rosto do primeiro clone ergueu-se para bloquear a espada do clone de Odin, e uma vez que o perigo desapareceu, Presas viu-se livre para usar sua outra mão e perfurar com ela a barriga do clone do Cavaleiro Negro, atravessando aço, carne e osso para que sua garra emergisse do outro lado, coberta em sangue.

Esse cara é perigoso! Não sabia exatamente quais eram as habilidades daquele homem com aquela transformação que ele havia sofrido, e isso lhe deixava em ainda mais desvantagem ali, mas já tinha visto o suficiente para saber que aquele homem ao menos tinha força bruta o suficiente para competir de frente com ele. Em uma situação como essa, permanecer na linha de frente não é nada mais do que estupidez. Com isso em mente, saltou para trás afim de ganhar distância de seus oponentes, ao mesmo tempo em que usou sua mente coletiva para ordenar aos dois clones que ainda estavam bem um ataque contra Presas.

O homem-lobo sorriu ao ver-lhe se afastando, certamente se deleitando em ver um cavaleiro como Odin agindo daquela forma que muitos chamariam de covarde. Que ele sorria tanto quanto quiser. Não era um garoto, nem tão pouco um novato em batalhas; sabia a diferença entre bravura e insensatez e conhecia as táticas mais comuns melhor do que a palma da sua mão. Atacar um oponente poderoso com poderes desconhecidos de frente é a mesma coisa que pedir pra morrer. Tinha de ao menos criar um plano de batalha se quisesse ter alguma chance contra aquele homem. E se eu quero ter alguma chance contra ele, vou precisar de mais clones.

Presas lidou com os dois clones que Odin havia mandado contra ele tão rapidamente que sentiu até mesmo vergonha por isso. Um movimento rápido foi todo o necessário para que sangue esguichasse dos rasgos que surgiram na garganta deles, fruto das garras afiadas do lobo. Um sorriso animalesco e satisfeito surgiu no rosto de Presas no momento em que ele pensou que tinha Odin em suas mãos, mas ele logo se desapontou. Sua boca avançou contra o Cavaleiro Negro, almejando rasgar sua garganta tal como ele havia feito com o primeiro clone, mas Odin foi mais rápido. Sua mão direita fechou-se ao redor da garganta do lobo de prata, forçando a cabeça dele para cima e abrindo a guarda dele para que seus clones agissem. Duas espadas perfuraram o peito do homem-lobo com força o suficiente para atravessá-lo diretamente, arrancando um ganido de dor por parte dele e fazendo com que suas garras movessem-se freneticamente em uma tentativa de afastar seus inimigos de si. Elas rasgaram o peito de um dos clones e o rosto do segundo, mas mesmo assim ambos permaneceram fortes e firmes, deram a Odin a chance perfeita. Fechou sua mão esquerda em um punho de aço e golpeou Presas no rosto sem pensar duas vezes.

Resistência era algo que realmente faltava a Odin. Conseguia suportar graves ferimentos, sim, até que muito bem, mas isso não mudava o fato de que seu corpo era apenas um pouco mais duro do que o de uma pessoa normal; era por isso que, de todos os cavaleiros, ele era o que mais priorizava uso da armadura. Minha resistência é o meu ponto fraco, e isso é uma das coisas que tornam minha habilidade tão útil para alguém como eu. Usava frequentemente seus clones para se proteger e evitar ter de correr riscos, e assim, mitigava sua fraqueza com sua própria força. No entanto, enquanto minha resistência é ruim, minha força é excelente. Entre todos os cavaleiros, apenas Ezequiel lhe superava em força física, e aquele era muito mais lento do que Odin. Uma vez havia treinado com Hozar, e mesmo deixando seu filho extremamente irritado durante a luta para aumentar o poder dele, conseguia derrotar o Cinzento facilmente simplesmente rebatendo os socos deles com socos próprios seus. E foi um desses socos que Presas recebeu ali.

O membro do Olho Vermelho foi arremessado longe pela força por trás do punho de Odin, sangue voando de seus lábios, reluzindo em meio ao ar junto do branco de seus dentes. Isso é uma preocupação a menos para mim, pensou Odin, sorrindo em satisfação ao ver o lobo quicando no chão repetidamente enquanto era jogado pra trás, só parando quando colidiu com uma parede, e mesmo assim destruindo essa por completo com seu corpo, fazendo com que destroços de pedra e concreto caíssem sobre ele como uma pequena avalanche. Os destroços encobriram o corpo de Presas, e por um momento isso foi o suficiente para parar os movimentos do homem-lobo... mas apenas por um momento.

Ele não demorou a erguer novamente, sacudindo pedacinhos de pedra e poeira de cima dele furiosamente, cuspindo sangue de sua boca em quantidades tão grande que um podia imaginar que ele estava vomitando todo o sangue de seu corpo ali. Os olhos do lobo brilhavam com uma força assombrosa, quase como se ele tivesse dois sóis em miniatura no lugar dos olhos, e um simples olhar para eles era o suficiente para deixar claro ali exatamente o quanto havia irritado seu oponente com seu último ataque. Não que Presas fizesse qualquer esforço em esconder isso, de qualquer forma.

– Seu... seu... FILHO DA PUTA! – exclamou em fúria o lobisomem, deixando de lado todo o divertimento, toda a calma e todo o controle que ele antes havia gostado de demonstrar para expressar pura fúria ali, fúria e ódio. – Você quebrou os meus dentes! Você quebrou todos os meus malditos dentes!

– É, parece que sim – comentou calmamente Odin por sua vez, sorrindo ainda mais satisfeito agora, tirando um enorme prazer em ver toda a raiva daquele homem. – Não me leve a mal por isso, entretanto. Você sabe como é, certo? Quando um animal é selvagem e você não pode confiar nele, você tem de no mínimo minimizar o risco dele. Lobos sem presas não fazem mal a ninguém.

– Mesmo sem presas, um lobo ainda tem garras – disse Presas, erguendo suas garras para demonstrá-las à Odin. – Eu não posso rasgar sua carne sem dentes, Odin Wynthers... mas isso apenas significa que eu vou ter de rasga-lo em pedaços com minhas garras e jogar pedaço após pedaço na minha garganta!

Assim que aquelas palavras foram ditas, Presas voltou a saltar e avançar contra Odin, brandindo suas garras no ar como se estivesse pronto para rasgar seu rosto da mesma forma como havia rasgado os rostos de seus clones... e no entanto, para a grande frustração dele, antes que suas garras conseguissem atingir o Cavaleiro Negro, dois recém-criados clones de Odin detiveram seu ataque com suas respectivas espadas. O lobisomem misturou um urro à um rugido em resposta a isso, forçando suas garras ainda mais contra os dois, mas a força dele estava dividida ali, e ambos os clones contavam com a mesma força que Odin. Mesmo se ele estivesse usando ambos os braços, ele provavelmente simplesmente não teria a força necessária para me subjugar. E isso, por sua vez, lhe deu a chance mais de perfeita para saltar pra trás e se afastar novamente. Bom, vamos analisar agora o que tenho de informações. Com a ajuda de seus clones ali, havia conseguido observar algumas coisas sobre aquele homem, e isso lhe revelava um pouco das habilidades dele.

Primeira coisa relevante; ele não é completamente imune a ataques físicos. Essa havia sido a primeira impressão que ele havia tirado quando viu o homem-lobo de alguma forma fazer com que se corpo se tornasse transparente e simplesmente deixasse que os ataques passagem por ele como se ele não estivesse ali. No entanto, se fosse assim, eu não teria conseguido segurá-lo antes. Na verdade, mesmo se Presas tivesse conscientemente deixado que Odin o segurasse antes para poder ainda tentar lhe atacar, ele definitivamente não teria deixado que os clones do Cavaleiro Negro lhe atingissem com golpes como aquele. O que estabelece que, apesar dele conseguir se tornar imune a meus ataques, essa não é uma habilidade “absoluta”; existe algum tipo de condição que ele deve cumprir para que seja capaz de usar seu poder.

Conseguia pensar em uma hipótese para essa “condição”.

Ela era consideravelmente simples; ele tinha de estar consciente do que transcorre ao seu redor. Isso explicaria o porquê que eu consegui segurá-lo em primeiro lugar. No momento em que havia feito isso, Presas estava distraído, focado no ataque; o mais provável é que ele simplesmente não havia notado a ação de Odin até quando sua mão se fechou nele. No entanto, se fosse esse o caso, ele poderia ter evitado os ataques de meus clones ao deixar seu torso transparente, já que ele estava ciente deles. No entanto, isso não aconteceu. E isso abria um novo leque de possibilidades à Odin. Pode ser que “estar consciente” seja a condição principal de sua habilidade, mas é improvável que ela seja a única. Presas não havia tornado sua garganta transparente para deixar que a mão de Odin simplesmente passasse por ela, da mesma forma que ele não havia tornado seu torso transparente para deixar que a espada de seus clones passagem por ele. Isso sugeria que, para que o poder daquele homem funcionasse, ele não só precisava estar ciente do perigo como também precisava estar intocado. Não sei se é necessário que alguém o segure ou se posso simplesmente colocar uma algema em suas mãos e dar o problema como resolvido, mas o fato é que, desde que eu segure Presas, posso golpeá-lo a vontade.

Diante de seus olhos, viu Presas lidar com seus clones; já que não conseguia jogá-los para trás, o que o lobo fez foi rugir e apertar suas mãos ao redor das lâminas das espadas, quebrando ambas ao mesmo tempo. Isso fez com que os homens vacilassem e pendessem para frente, algo que Presas não perdoou. Suas mãos se fecharam em punhos prateados, e com esses punhos ele esmagou facilmente a cabeça de ambos os clones no chão. Seu rosto se ergueu – ainda irritado, mas agora carregado de triunfo também... apenas para dar de cara com Odin e uma dúzia de novos clones, todos a postos, prontos para a batalha. Com um rugido de raiva e frustração de Presas e um grito de guerra dos clones, a batalha recomeçou enquanto Odin tornava a se afastar.

De qualquer forma, essas condições não me ajudam muito aqui no momento. Era útil saber delas e saber que a habilidade daquele homem não eram tão absurdas quanto pareciam ser, mas ele não estava realmente em condições ali de ficar usando de maneiras criativas para lidar com seu oponente. Eu não sei se isso é natural dele ou algo que ele conseguiu com essa transformação, mas o fato é que a resistência e vitalidade dele são absurdas. Os dentes dele haviam sido quebrados. Duas espadas haviam perfurado seu peito. Havia levado um soco direto no rosto que era forte o suficiente para arrancar a cabeça da maioria dos homens de uma só vez. E ainda assim, ele fica de pé e continua a lutar como se nada tivesse acontecido. Aquilo era mais do que o bastante para lhe provar que precisaria de algo mais forte para derrota-lo.

Foi por isso que o que ele fez foi recuar tanto quanto possível, criando rapidamente mais cinco clones para sua proteção pessoal, para logo em seguida apoiar as palmas de suas mãos uma na outra, como em uma reza, e concentrar energia ali.

Em situações normais, nunca poderia utilizar aquela técnica em uma batalha. Estaria simplesmente sobre perigo e pressão demais para fazer algo assim... mas para isso, sua habilidade era uma benção dos céus. Em uma situação normal, eu não teria tempo ou chance de reunir energia, mas com minha habilidade de criar clones eu posso fazer com que meus clones lutem por mim enquanto me concentro no importante. Felizmente, tinha condições boas o suficiente ali para que não tivesse uma urgência tão grande por juntar energia... e por tal, pode permanecer com seus dois olhos bem abertos ali e assistir a luta que se desenrolava diante de seus olhos.

Ainda bem que não decidi enfrentar esse homem de frente, pensou ele de imediato quando viu as ações de Presas. O poder físico dele é muito maior do que o meu. Muito maior. Mesmo sem seus dentes e em uma desvantagem numérica tão grande quanto aquela, Presas lutava de uma forma surpreendente, simplesmente superando cada clone de Odin com uma mistura de força física e velocidade absurda. Viu em primeira mão a forma como ele estava lidando com eles; quando um dos clones moveu sua espada contra Presas, tentando cortar o peito dele, o que o lobo fez foi abaixar-se com uma velocidade e flexibilidade incrível. Sua mão disparou para frente, atravessando o corpo do clone à pouco mais de dez centímetros acima de seu umbigo com força o bastante para emergir do outro lado, coberta em sangue. Outro clone avançava contra Presas pela direita, mas o homem-lobo já havia visto os movimentos deste, e por isso, tudo que ele fez foi sorrir. Moveu seu braço, arremessando o corpo do clone que havia acabado de atacar contra o que avançava contra ele, praticamente ao mesmo tempo que, pela esquerda, um terceiro clone de Odin movia sua espada contra ele. O primeiro par de garras de Presas moveu-se para parar a lâmina dessa espada, enquanto sua outra garra se moveu simultaneamente para rasgar a garganta do clone de uma só vez com a ponta de seus dedos.

Pelas costas de Presas, outro dos clones do Cavaleiro Negro avançava, erguendo sua espada alto, pronto para cravá-la na cabeça de seu oponente. Quase chegou a conseguir fazer isso, realmente, mas quando estava quase lá, quando sua espada estava prestes a atingi-lo, o lobo de prata desapareceu subitamente, e tudo que ele atingiu foi o outro clone. Ah, merda! Chegou a trincar os dentes em fúria e frustração quando viu aquilo, pois logo em seguida, diante de seus olhos, todos os seus clones transformaram-se em pó no momento em que a espada de um atingiu a cabeça do outro. Merda, merda, merda! Eu nunca pensei que uma medida preventiva como essa iria me atrapalhar tanto assim! Achava que suas habilidades nunca iriam criar um clone cruel ou mal, mas não tinha certeza disso, tal como não tinha certeza se podia sempre confiar em seus clones, e por isso havia criado aquela medida preventiva. Se em algum momento, por algum motivo, um de seus clones ferisse consideravelmente Odin ou qualquer um que Odin considerasse como aliado naquele momento, toda a habilidade Doppelgänger seria imediatamente desativada e todos os clones criados por ele iriam se desfazer. Isso foi feito para que eu pudesse me prevenir contra uma possível revolta dos clones ou qualquer coisa do tipo. Uma vez criados, meus clones são como seres vivos independentes de mim, com personalidades diferentes da minha e livre arbítrio para tomar suas decisões. Essa condição que eu estabeleci é o que impede que eles em algum momento ajam de forma a diretamente fazer mal à mim ou à um de meus aliados. Mas naquele momento em particular, isso havia simplesmente arruinado por completo as coisas para ele. Eu poderia criar mais clones ou coisa do tipo, mas isso iria requerer uma concentração que significaria que eu teria de desistir da minha técnica... e mais importante que isso... Presas não vai me dar a chance de fazer algo assim.

Pelo que viu, o homem-lobo parecia ser capaz de sorrir e gargalhar ali, não estivesse ele tão irritado. Ainda assim, nem mesmo a irritação dele foi o suficiente para fazer com que ele deixasse de exibir arrogância em seu rosto. Ele parou à frente de Odin, separado dele por cerca de dez ou quinze metros de distância, olhando diretamente para o Cavaleiro Negro.

– Eu não vou fingir que entendo o que aconteceu aqui, Odin, porque isso seria uma grande mentira... mas francamente, eu não me importo com isso. – um sorriso realmente surgiu em seus lábios ao dizer aquilo, exibindo os dentes que Odin havia quebrado. – Pelo que vejo em seu rosto, isso não é algo que você queria... na verdade, aposto que isso é algo extremamente ruim pra você. Sem os seus clones para ficar lhe protegendo, você não é nada. Se não me engano, quando ativou sua Aloeiris, você me disse algo interessante. “Cada um dos meus clones tem a mesma força que eu”, ou qualquer coisa desse tipo. Agora, claro, você pode ter mentido quando disse isso... mas honestamente, eu simplesmente duvido que esse seja o caso. Pra mim, você estava falando a verdade quando disse aquilo... e se a sua força é realmente a mesma força desses clones, então isso significa que eu posso lhe matar tão facilmente quanto os matei!

Não disse nada em resposta a isso. Não por não ter uma resposta para aquilo, mas sim porque deixar aquilo sem resposta era bom pra ele ali. Mais um pouco... talvez ainda dê tempo! Para usar aquela técnica com todo o seu poder, teria de passar ao menos dez minutos juntando energia ali, e isso em uma batalha era muita coisa... mas não precisava de tudo isso. Para um oponente do nível desse lobo, um minuto deve ser mais o suficiente. Só preciso de mais alguns segundos. Mais alguns segundos e a vitória será minha.

Lentamente, o semblante no rosto do lobo morreu. A arrogância e satisfação que ele havia sentido quando imaginou que sua luta já estava ganha foi dando espaço à uma irritação em não obter uma resposta. Avançou um passo em direção a Odin, como se pretendesse pressionar o cavaleiro a lhe responder... e subitamente, todos os seus movimentos pararam, no mesmo momento em que uma expressão pasma e surpresa cruzou sua face. Não precisou nem sequer pensar para saber o que havia chamado a atenção dele. Merda. Ele compreendeu o que estou fazendo.

Em crédito a ele, sua reação foi bem rápida assim que ele compreendeu o que estava acontecendo ali. Demorou apenas um segundo para recuperar sua compostura, e assim que o fez, ele imediatamente avançou contra Odin. Com sua velocidade, a distância entre eles era tão boa como se estivessem à um palmo um do outro, e em instantes ele estava diante de Odin.

... Mas a essa altura, já era tarde demais para ele. Está pronto!

Todo o mundo pareceu correr mais lentamente quando ele fez aquilo... não, por um minuto, o mundo realmente correu mais lentamente. Isso não foi devido a nenhuma habilidade de Odin ou à algum tipo de feitiçaria, mas sim devido a força. A força que tinha nele, a força que seu oponente tinha e a força que ele havia concentrado... a reunião desses três tipos de força foi o suficiente para, por um instante, retardar o fluxo do tempo para qualquer um que não fosse Odin ali.

EX...

Sua mão direita afastou-se da esquerda, subindo enquanto sua irmão descia. Ela se ergueu acima da cabeça de Odin, ficando erguida de forma retilínea ao seu lado direito enquanto o braço e mão esquerda dele permaneciam retos ao lado de sua perna. Uma fina camada de energia cercava não só suas mãos como também seus braços, envolvendo-os como se fosse uma armadura... e por um momento, essa energia alterou a imagem que eles representavam. Seu braço e mão esquerda se tornaram uma bainha de couro com detalhes em dourado, ao mesmo tempo em que seu braço e mão direita se tornaram uma espada longa, de ouro e prata.

E em seguida, essa espada desceu.

CALIBUR!

=====

De seu olho, um único filete de sangue escorreu como se fosse uma lágrima, correndo por seu rosto até pingar por seu queixo em uma gota gorda.

– Não... – murmurou Balak, para todos e para ninguém. Em seu peito, conseguia sentir o símbolo que havia encravado no próprio corpo arder, o símbolo que representava a vida de seus companheiros. Sabia o que isso significava. – Não... eu não vou aceitar isso!

Seus braços cruzaram-se, um com o outro, e a energia que fluiu de seu corpo foi o suficiente para balançar suas roupas e levantar seus cabelos, agitar o ambiente ao seu redor como se toda uma ventania tivesse surgido naquele lugar. Fechou seus olhos por um momento, e quando voltou a abri-los, eles haviam sido tomados por um brilho verde, pela energia do mundo, pelo poder de sua habilidade.

GEAS! – anunciou ele, em alto e bom som para que o Mundo lhe ouvisse. – Eu faço um contrato! Eu, Balak Hauss, ofereço ao mundo dez anos da minha expectativa de vida! Entrego isso agora, de mão aberta, mas em troca, também peço algo! Em troca dos meus dez anos de vida... por favor... por favor... poupem a vida dos meus amigos!

Se o mundo lhe ouviu, ele não lhe deu resposta. Mas também, ele nunca dava. Era difícil lidar com o mundo exatamente por causa disso. Ele não barganhava. Ele não se comunicava. A habilidade de Balak lhe dava a habilidade de entrar em contato com ele, mas isso era apenas com relação aos seus contratos, e mesmo assim, isso não era fácil. Ele oferecia algo, e o mundo decidia se essa oferta valia a pena ou não para atender aos seus pedidos. Tenho de usar esse poder com cuidado, pensou Balak, no momento em que a energia lhe faltou e ele caiu de joelhos ao chão, ofegante. Eu posso conseguir virtualmente qualquer coisa com ele, mas isso depende da vontade do mundo de aceitar ou não esses contratos. Mais que isso, não posso simplesmente ficar fazendo contratos verdadeiramente sérios a torto e a direito ou acabarei virando um esqueleto. Os contratos que fez em Valhala lhe custaram uma fortuna em ouro e sacrifícios animais, e esse contrato de agora. Dez anos... dez anos não é muito. Devo demorar pouco mais para alcançar meu objetivo agora. Dois demônios se foram. Faltam três. Kastor, Ekhart e o Branco. Só mais três. Só precisava viver um pouco mais para alcança-los. Talvez eu tenha sido um pouco imprudente com isso, fazer um sacrifício tão grande apenas para salvar uma vida, mas eu... mas eu...

Sua mão que estava apoiada no chão fechou-se em um punho com tanta força que suas unhas perfuraram a pele e filetes de sangue escorreram por seus dedos.

– Eu apenas não quero perder mais ninguém. – sussurrou ele, nos braços da solidão.

=====

Excalibur era pura força destrutiva na forma de uma lâmina espiritual. Seu poder era imenso, de longe a mais poderosa arma no arsenal de Odin, e uma das mais poderosas técnicas entre todas as cartas nas mangas dos cavaleiros do Salão Cinzento. Em sua forma perfeita, ela era simplesmente a mais forte das armas, uma espada que podia cortar qualquer coisa, independente do que ela fosse. Não era a forma perfeita que ele havia usado – nem sequer perto disso – mas ainda assim, havia sido mais do que o suficiente.

Boa parte do segundo andar – ou do que sobrava do segundo andar – havia sido cortada por seu ataque, seguindo para simplesmente deslizar a seguir e cair no chão, quebrando-se com estrondos gigantescos. O chão também trazia marcas de seu movimento, pedaços do solo abaixo dele estando visivelmente em falta graças àquilo.

Mas aquilo não era nada se comparada a prova viva do poder de seu ataque que era Presas.

O corte que seu ataque havia criado abria o corpo de Presas da direita à esquerda, cortando-o com uma perfeição quase que cirúrgica. Não era um corte violento aquele, não era grosso nem nada do tipo, mas sim algo eficaz. Demorou um momento para que isso ocorresse, mas quando ocorreu, foi satisfatório ver aquilo. O sangue fluiu do corte em grandes jatos, esguichando até mesmo no rosto de Odin e umedecendo todo o chão a sua frente. Viu os joelhos de Presas fraquejarem, viu o grande lobo prateado por um momento parecer prestes a cair no chão, seus joelhos vacilando como se não aguentassem mais suportar seu peso, mas de alguma forma ele conseguiu se sustentar de pé no último momento, embora seu estado continuasse a ser deprimente mesmo assim.

– Estou surpreso, devo admitir – contemplou em voz alta Odin, olhando com interesse para a persistência daquele homem. – Não usei o poder total de Excalibur, mas ainda assim pensei que isso seria o suficiente para cortar você ao meio com facilidade. Não sei como, mas de alguma forma, você conseguiu de alguma forma não só impedir que eu lhe matasse com aquilo como ainda conseguiu reduzir o dano que ele causou o suficiente para permanecer consciente mesmo depois disso. Isso é algo realmente admirável, Presas.

O homem não lhe deu resposta a isso, ao menos não imediatamente. O corpo de lobo de Presas começou lentamente a retroceder a sua forma normal, a carne voltando a surgir, os pelos desaparecendo, seu tamanho diminuindo mais e mais até que voltasse ao seu tamanho normal, voltasse a sua forma humana. Ali, o ferimento parecia muito mais grotesco. Eu disse que ele conseguiu reduzir o dano e que isso impediu que eu lhe cortasse ao meio com esse golpe... mas francamente, eu não sei se isso foi pior ou melhor para ele. Tendo sido forçado a voltar para sua forma humana – o que fez com que seu corpo encolhesse – os danos que Presas havia sofrido mostravam-se mil vezes piores. O corte que antes tinha precisão cirúrgica agora se mostrava muito mais brutal, como se uma gigantesca espada rústica tivesse rasgado o peito do homem de um lado ao outro. Antes ele era só músculo e osso, mas agora em sua forma humana, Presas exibia carne viva no lugar aonde havia sido atingido enquanto o sangue fluía em quantias muito maiores do que antes visto. Ele foi realmente destroçado por Excalibur. Pensei que havia sido um milagre que ele tivesse resistência o suficiente para resistir a isso, mas acho que o verdadeiro milagre é que ele simplesmente esteja vivo ainda depois de receber tanto dano. Eu não me surpreenderia se pelo menos um dos seus órgãos tivesse sido completamente aniquilado nisso.

– Como... – começou a dizer Presas, apenas para ser subitamente interrompido por um ataque de tosse. Cuspiu sangue em quantias muito maiores do que Odin julgava saudável, e por fim caiu no chão de joelhos, já sem conseguir sequer se aguentar de pé. Seu rosto se ergueu para fitar o Cavaleiro Negro que permanecia impassível ali, apenas fitando o estado deplorável daquele guerreiro. – Como... você me... acertou?

– Pela sua pergunta, suponho que você estava naquele seu estado intocável, não é? – questionou Odin, embora não precisasse realmente de uma resposta para saber que estava ali. – Bom, isso é simples. Eu usei um pouco a minha inteligência e descobri como te atingir. Simples assim.

Viu que aquilo não foi o suficiente para ele pela expressão de confusão no rosto de Presas, e isso fez com que Odin suspirasse e coçasse a cabeça. Saco, eu sou péssimo com explicações. Ainda assim, com um ferimento como o que tinha, aquele homem não iria demorar a morrer. Era o mínimo da cortesia que Odin lhe oferecesse ao menos uma explicação de como havia feito aquilo.

– Quando o seu corpo se tornava transparente, meus ataques passavam direto por você – observou Odin, olhando diretamente para Presas enquanto falava. – Isso é algo um tanto quanto estranho, sabe? Conheço muitas técnicas, tanto defensivas quanto ofensivas, mas a sua foi a primeira técnica que eu já vi que fazia com que eu literalmente não conseguisse lhe tocar. E isso não era nem sequer uma questão de ilusão ou você estar se esquivando dos meus golpes em alta velocidade, veja bem; eu literalmente estava passando direto por você apesar de lhe acertar, como se você simplesmente não estivesse ali. Tenho de dizer, se não por uma dica que você me deu, eu demoraria muito, muito tempo para descobrir os princípios dessa sua habilidade.

“Você lembra o que você disse quando começamos essa luta, ou, mais especificamente, quando você se transformou na sua forma de lobo? Eu lembro. Você anunciou sua Aloeiris em voz alta para mim, e o nome dela era Lobo Fantasma. Você provavelmente fez isso devido ao fato de eu ter anunciado o nome da minha Aloeiris antes, mas mesmo se foi esse o caso, você se esqueceu de algo crucial naquele momento, Presas; o nome da minha Aloeiris revela os meus poderes a você, mas você saber ou não dos meus poderes não faz diferença alguma já que eles funcionam da mesma forma independente do seu nível de conhecimento. No entanto, a sua Aloeiris por sua vez requer que o inimigo não entenda os seus poderes e seu funcionamento para exercer toda a sua capacidade. Enquanto na minha Aloeiris o inimigo não pode realmente fazer nada contra a minha habilidade mesmo tendo noção do que se trata ela, na sua Aloeiris, o inimigo pode contra-atacar a partir do momento em que ele entende seu poder. E foi exatamente isso que eu fiz.

Quando seu corpo parecia tornar-se transparente, na verdade ele estava se tornando etéreo. Sua Aloeiris na verdade baseia-se em duas habilidades distintas; a habilidade de transformar-se em um lobisomem e a habilidade de alternar seu corpo entre uma forma física e uma etérea, espiritual. Algo absurdamente raro, devo dizer; é a primeira vez que vejo algo assim, mas, bem, creio que nada é impossível, não concorda? Mas, o mais importante disso tudo é que, sendo etéreo, o seu corpo não se tornava necessariamente invulnerável, como parecia ser o caso. Ataques físicos não iriam lhe atingir, obviamente, e francamente não estou certo se magia teria mais sucesso ou não nisso... mas se tem uma coisa que eu sei é que, se você está em uma forma espiritual, um ataque feito com base em energia espiritual é mais do que capaz de lhe causar dano.”

– Um ataque feito de... energia espiritual? – Presas vomitou mais sangue, curvando-se tanto em dor que seu nariz quase chegou a tocar o chão ensanguentado, mas de alguma forma ele conseguiu deter-se antes disso e voltar a erguer a parte superior de seu corpo. – Isso é... impossível. Sua Aloeiris... ela baseia-se em clones. Não há... nada... nada que envolva... espírito...

– Você pensa que Excalibur é algo referente à Aloeiris ou coisa do tipo? Está enganado. É algo muito mais simples que isso, na verdade. – cruzou os braços diante de seu peito enquanto falava com o homem, já meio absorto em suas explicações. – Excalibur é uma técnica que lida com meu espírito. Entenda uma coisa; existem diversos fluxos de energia que correm no corpo de uma pessoa. A energia da vida. A energia da mana. A energia da alma. A energia espiritual. A energia da vida é, obviamente, o que nos sustenta vivos; sem ela, morreríamos instantaneamente. A energia da mana é algo que está, essencialmente, presente em todos os seres, embora apenas os magos consigam a manipular de forma ativa devido a talentos inatos. Ainda assim, é importante notar que ela afeta cada um de nós; mesmo que não consigamos manipulá-la, a mana dentro de nós afeta o nosso corpo de várias formas, possibilitando que tenhamos um crescimento virtualmente ilimitado. Cada vez que treinamos, não estamos apenas melhorando a nossa condição física como também exercitando a mana em nosso interior, fazendo com que ela atue de forma a melhorar nossos músculos, pele e nervos ao ponto de fazer com que tenhamos punhos capazes de destruir rochas e pele mais dura do que aço. A energia da alma também é algo que todas as pessoas do mundo tem, porém, ao invés da energia da mana, ela não possui nenhum uso “passivo”, por assim dizer, e o uso ativo dela é raramente algo inato. Já ouvi rumores sobre pessoas que nasceram com a habilidade de utilizar esse tipo de energia, mas o mais comum é que as pessoas aprendam a usá-la depois de superarem seus próprios limites ou experimentarem grandes emoções. Esse tipo de poder, completamente separado de algo como a energia da mana ou energia da vida e muitas vezes servindo como a mais forte energia que alguém consegue manifestar, é chamado de “Aloeiris” por nós.

“No entanto, a energia do espírito é algo que muitos simplesmente não conhecem, e os que conhecem normalmente a confundem com a energia da alma, mas elas são diferentes. A alma é algo puramente do indivíduo, algo pessoal; a essência de uma pessoa, por assim dizer. O espírito, por sua vez, é uma energia que liga o material com o imaterial... ou, mais especificamente, o mortal com o divino. Explicando de forma simples, a alma é a essência do indivíduo, enquanto o espírito é o que separa o indivíduo humano do divino. Em outras palavras, quando alguém consegue manipular a energia de sua alma, essa pessoa está liberando todos os poderes ocultos em seu interior. Mas quando uma pessoa consegue manipular a energia de seu espírito, essa pessoa está transcendendo os limites humanos e entrando no território divino.”

Fez uma pequena pausa naquele momento, parando para fitar a palma de sua mão direita. Tal como esperava, ela estava ferida. É como eu pensei. Ainda não domino totalmente a manipulação do espírito. Sua mão estava vermelha, com vários pequenos cortes espalhados por sua palma, como se ele tivesse a esforçado até o máximo... o que, a bem da verdade, era exatamente o que ele havia feito. Bem, não acho que posso realmente ficar surpreso por meu domínio não ser perfeito. A maioria das pessoas contava com a ajuda de um mestre para lhe ensinar a arte do combate e o domínio de determinadas técnicas, mas se existia mais alguém no mundo que possuía uma habilidade como a de Odin, ele desconhecia totalmente essa pessoa. A manipulação de espírito é uma habilidade que eu criei, tirando como base o estilo de luta tradicional das amazonas. Elas usam a “aura” em seus ataques, o que é basicamente apenas retirar uma pequena parte da energia de sua alma e, ao invés de manifestá-la por meio de sua Aloeiris, usá-la para revestir seus golpes e aumentar o poder deles. O princípio que uso aqui é o mesmo, com a exceção de que estou usando uma energia muito superior, e por tal, muito mais difícil de controlar. Estava confiante de que um dia, eventualmente, ele iria conseguir controla-la, no entanto, e quando esse dia chegasse, a primeira coisa que ele faria seria passar esse conhecimento para seus alunos. Kastor e Hozar... tenho certeza de que eles conseguiram aprimorar essa técnica muito mais do que eu.

– De qualquer forma, creio que me desviei um pouco do ponto aqui, não é? – perguntou retoricamente Odin, dando de ombros em resposta a si mesmo e tornando a focar-se no assunto em questão. – A questão é; uma das habilidades de sua Aloeiris consiste em fazer com que seu corpo alcance um estado espiritual. Em outras palavras, a sua habilidade funciona exatamente como o nome sugere; ela te transforma em um lobo, e ela te dá a capacidade de transformar-se de certa forma em um fantasma. No entanto, voltando ao princípio inicial aqui... você não fica necessariamente imune à ataques, mas sim imune à ataques físicos graças ao fato de seu corpo ser espiritual naquele momento. Sendo assim, ataques que usam da energia do espírito como Excalibur conseguem lhe atingir normalmente. E você sabe o que é mais curioso disso? Se você não tivesse dito o nome de sua Aloeiris, algo que aconteceu bem no início da nossa luta, eu não teria descoberto isso, e talvez você terminasse como o vencedor aqui.

A resposta do homem lobo a isso não foi nada mais do que um grunhido e o som do ranger de dentes. Nem sequer lhe resta nem sequer energia o suficiente para falar? Bem, isso não é surpreendente. Por todo o tempo que havia passado falando ali, aquele homem havia permanecido sangrando no chão, ao ponto que ele estava agora praticamente ajoelhado em uma poça do seu próprio sangue. Já é por si só um milagre que ele tenha sobrevivido ao meu golpe, e é um milagre maior ainda que ele esteja vivo até agora, com toda essa perda de sangue. A essa altura, no entanto, “viver” deveria ser mais uma agonia do que tudo para Presas. Ele lutou bem, e com mais honra do que eu esperava de um membro do Olho Vermelho. O mínimo que alguém como ele merecia era uma morte rápida e nas mãos de um guerreiro.

Precisou de nada mais do que dois dedos para puxar sua espada da bainha, retirando o aço nu e mostrando-o ao mundo, erguendo-o acima de sua cabeça.

– Bom, acho que isso é adeus – contemplou ele, um momento antes de descer sua espada. – Adeus, Presas do Olho Vermelho.

O lobo de prata fechou seus olhos ao ouvir aquelas palavras, sabendo que aquele era o seu fim, sem tentar resistir a isso. Ele aceita bem a morte. Isso é algo raro de se ver nos dias de hoje. O Olho Vermelho era um inimigo, uma guilda ilegal que havia causado a morte de vários a morte de vários cavaleiros e atacado muitos outros. Umbar e Adelien estavam mortos devido a eles, Lancelot e Titânia estavam entre a vida e a morte, e Hozar, Kastor e Teigra já haviam sido atacados por eles também. Palavras não conseguiam descrever o quanto odiava aquela guilda por isso, o quanto queria reduzi-la a cinzas pelo que fizeram... mas mesmo assim, tinha de admitir; aquele homem havia conquistado um pouco de seu respeito com suas ações.

E foi exatamente no momento em que esse pensamento cruzou sua mente que aquilo aconteceu.

O único aviso que teve para aquilo foi o som de uma explosão vindo da sua esquerda, mas esse foi aviso o suficiente. De alguma forma conseguiu mover sua espada no curto período de tempo que teve ali, e ao invés de usá-la para cortar a cabeça de seu inimigo, usou-a para bloquear o golpe de seu mais novo oponente. Aço confrontou fogo solidificado ao mesmo tempo em que Odin e Cleus se encararam firmemente, apenas para que um momento depois uma pequena cratera surgisse aonde estavam, formada por nada mais do que a simples força absurda que aqueles dois possuíam. Esse cara... eu não tenho uma noção do nível total dele, mas ao menos a força bruta está em um nível bem superior ao de Presas. Por mais habilidoso que o lobo fosse, ele não tinha força física para subjugar os clones de Odin, e por isso ele foi forçado por mais de uma vez a recorrer a esperteza e meios alternativos para conseguir acertar seus golpes. Com aquele homem, no entanto, Odin sentia pressão sobre ele, e tinha de se esforçar um pouco para não ser arrastado para trás por aquela força monstruosa. Pássaro de Fogo... se ele está me atacando... isso significa que Denis está...?

Não teve tempo nem sequer para completar seu pensamento. Enquanto estava medindo forças com aquele homem, foi surpreendido ao ver a espada de fogo de Cleus brilhar, para que no momento seguinte ela se desfizesse. Todas as chamas concentradas e contidas ali foram liberadas de uma só vez em uma grande explosão de fogo, algo grande o suficiente para engolir Odin e forte o bastante para lhe jogar pra trás. Maldição! Sentiu o fogo lhe lamber, e isso foi o suficiente para que compreendesse que se permanecesse ali ele iria queimar até a morte. Por isso apressou-se para saltar para trás, recuando tanto quanto podia tão rapidamente quanto era capaz, criando a maior distância possível daquele homem. Maldição, maldição! Ele não é um oponente que posso enfrentar a curta-distância! Nem sequer sabia se aquele ataque era realmente poderoso, graças a sua vulnerabilidade natural; simplesmente sabia que tinha de manter-se distante dele caso quisesse continuar vivo. Vou ter de usar uma outra estratégia aqui. Criar alguns clones e manda-los fazerem um ataque frontal contra esse homem para chamar sua atenção, e enquanto ele estiver distraído com eles, eu me aproximo por trás e acabo com ele com um único golpe!

Foi exatamente isso que ele fez. Quando saiu da área de efeito da explosão, apressou-se em criar quatro clones com sua habilidade... mas simplesmente não viu utilidade para eles.

Quando as chamas desapareceram e ele pode realmente ver o que havia acontecido ali, tudo que ele encontrou ali foi um campo carbonizado. Todos os destroços que haviam sido causados e espalhados por aquela arena durante sua luta contra Presas estavam ali, queimados, mas o próprio Presas e Cleus simplesmente não estavam visíveis, desaparecidos por completo dali. Eles fugiram?! Era possível acreditar que Cleus havia fugido, mas Presas estava simplesmente ferido demais para imaginar que ele havia saído correndo dali. Isso significa que ele provavelmente está sendo levado por Cleus. Isso é bom. Se Cleus está levando um homem ferido com ele, isso significa que ele vai ficar mais lento. Não havia se passado muito tempo, então eles simplesmente não podiam estar muito longe. Presas está ferido. Só preciso seguir a trilha de sangue e ela me levará até eles.

Demorou algum tempo de Odin procurando incessantemente por ali por esse sangue para que ele compreendesse o que havia acontecido ali, e no momento em que compreendeu isso, sua fúria foi inimaginável.

FILHO DA PUTA! – gritou ele, enfurecido, batendo ambos os punhos fechados com tanta força no chão que a terra quebrou-se e tremeu abaixo dele. Ele acabou com ele! Ele acabou com todo o sangue! Sangue era líquido, e líquidos podiam ser derretidos por calor intenso. Aquela explosão que ele causou não foi apenas algo que ele fez para me afastar e conseguir uma chance de fugir. Ela também foi feita com o objetivo de derreter todo o sangue daquele homem para limpar os rastros! Mais que isso, considerando que a habilidade de Cleus era o fogo e que aquela explosão provavelmente também havia envolvido Presas, era perfeitamente possível que ele tivesse se aproveitado dela também para cauterizar apressadamente o ferimento de seu companheiro e impedir a perda de mais sangue. Presas provavelmente iria gritar de dor graças a isso, mas ocupado em fugir da explosão como eu estava e com o som dela em minhas orelhas, eu simplesmente não notaria isso! A forma como aquele homem havia conduzido tudo aquilo bem debaixo do nariz de Odin sem que o Cavaleiro Negro desconfiasse de nada era, simultaneamente, admirável, enfurecedora e assustadora.

– Ei, contratador! – chamou uma voz conhecida por Odin, fazendo com que a cabeça do Cavaleiro Negro se erguesse subitamente com o susto. – Err... essa é uma boa hora pra falar com você?

Não pode ser! Virou sua cabeça tão rapidamente quanto pode naquela direção, e para a sua surpresa, realmente era ele. Seu boné estava perdido e metade de suas roupas estavam queimadas, deixando a metade esquerda da parte superior de seu corpo a mostra – bem como metade de sua perna direita, também – mas ainda assim, Denis estava ali, sorrindo de olhos fechados e de pé, aparentemente ignorando todas as queimaduras em seu corpo e o sangue que corria acima de um de seus olhos.

– Denis? – exclamou Odin, surpreso. – Eu... pensei que você tinha morrido. Quero dizer, Cleus apareceu aqui e tudo mais...

– Ah, não se preocupe com isso – disse Denis por sua vez, gesticulando de forma despreocupada com sua mão. – Quero dizer, a maioria das pessoas pensaria que eu morri depois de algo assim. Não foi exatamente isso que aconteceu, mas devo dizer que eu cheguei mais perto de morrer do que eu gostaria por uma ou duas vezes ali. Esse cara, esse Pássaro de Fogo... ele é bem forte. Eu estava lutando contra ele quando, do nada, alguma coisa chamou sua atenção e o distraiu. Aproveitei-me disso para lançar alguns ataques contra ele, mas o bastardo simplesmente emergiu ileso da poeira deles e me acertou um soco na boca do estômago que me mandou longe. Quando eu me recuperei desse soco, uma explosão me mandou longe, e quando eu finalmente pude voltar aqui, o que encontrei foi você.

– Entendo – murmurou Odin, sentindo uma frustração começar a surgir dentro de si. Isso não é bom. – Então, você não morreu, mas mesmo assim ele te derrotou.

– Eu não diria exatamente que ele me derrotou – apontou Denis – mas sim, ele certamente estava com a vantagem na luta. Ele era bem forte.

– Todos eles eram bem fortes – retrucou uma outra voz, irritadiça. – Nenhum de nós se saiu muito melhor do que Denis aqui.

Moveu sua atenção para a voz que disse essas palavras, e ficou surpreso com o que viu. Pelo que ele havia dito e o tom irritado que ele tinha em sua voz, era mais do que capaz de dizer que Breath deveria estar ferido, mas não imaginava que era algo assim. Os ferimentos no corpo daquele homem eram alguns, nenhum chamativo demais, mas eles certamente eram compensados pelas faixas e algodão que cobriam o olho direito do jovem mercenário, olho do qual ainda escorria sangue, escorrendo por suas bochechas e pingando de seu queixo.

– Breath? – disse Denis, surpreso. – Seu olho...

– Eu perdi ele – foi a resposta curta e grossa do mercenário. – Durante minha luta contra aquele gigante de pedra de merda, fui jogado contra um prédio e uma pedra especialmente afiada dos destroços caiu no meu olho, cortando e esmagando a órbita. Acho que vou ter de usar um tapa-olho de agora em diante.

– Bem-vindo ao clube – comentou Odin, armado de um humor seco. – Por falar nisso, sua luta foi na cidade, não foi? Como ela está?

– Bem pior que nós – respondeu uma terceira voz, feminina. Zetsuko emergiu vindo de outro lado a passos lentos, com o corpo ainda sujo de sangue de sua batalha. Em algum pontos durante a luta a mulher havia perdido seu quimono, fazendo com que tudo o que cobrisse a parte superior de seu corpo fossem algumas faixas que continuavam amarradas ao redor de seus seios consideravelmente fartos, deixando seus braços, ombros e umbigo a mostra. Por um momento, ficou distraído com a visão que teve dela. Seios. Seeeeeeios.

Voltou ao normal em pouco tempo, no entanto.

– Como assim “bem pior”? – questionou Odin, tentando focar-se mais no rosto e nas palavras da mercenária do que em seu corpo.

Os olhos de Zetsuko se afiaram, fitando diretamente Odin como se ela estivesse dizendo “eu sei o que você está fazendo, seu velho pervertido”, mas ainda assim ela lhe deu uma resposta, embora seu olhar desconfiado permanecesse incessante sobre ele.

– A batalha de Breath e o Golem foi brutal, pelo que posso ver – esclareceu ela. – Metade da cidade está morta, e os que não estão mortos estão fugindo daqui com medo de serem envolvidos em outra batalha como essa. Construções inteiras foram esmagadas durante a batalha, muitas com pessoas ainda nelas. As casualidades aqui superam facilmente a casa dos milhares... e sinto que elas incluem algumas pessoas conhecidas. Aquela velha que te vendeu pão antes acabou esmagada junto de sua loja quando o braço do Golem caiu sobre ela, e Salazar morreu esmagado embaixo de algum destroço em algum ponto durante a batalha, não estou bem certa de qual em específico. Além disso, parece que todo o Olho Vermelho fugiu; Cleus e Presas desapareceram diante de seus olh... seu olho, como você viu, enquanto que o Golem pareceu se fundir com a terra em certo ponto da batalha. Surpreendentemente, até Maverick desapareceu em um determinado momento... o que é um tanto quanto estranho quando paro pra pensar nisso, pra ser sincera. Com a personalidade e o estilo de luta dele, pensei que ele era o tipo de pessoa que nunca dá pra trás numa luta.

– Ele provavelmente não teve muita opção – opinou Denis, por sua vez. – Com todos os seus companheiros fugindo, ele deveria saber que não havia muito mais que ele pudesse fazer aqui sozinho. Quero dizer, sejamos francos; ele não me pareceu ser necessariamente o mais forte dos inimigos, e ele dificilmente conseguiria fazer algo contra nós lutando sozinho.

– Mesmo assim, pelo que vi da personalidade dele, me parece que ele simplesmente não iria recuar assim – apontou Breath, estalando os dedos. – Pra ser sincero, acho que isso foi muito mais uma questão de terem forçado ele a se retirar do que dele ter se retirado por vontade própria. E por forçar, quero dizer que acho que alguém literalmente arrastou ele a força pra fora daqui.

– Isso não importa, no fim das contas – disse Odin, sentindo vários sentimentos arderem em seu peito ali. Vergonha. Frustração. Fracasso. Medo. Aquela não havia sido uma boa demonstração por parte deles. Metade de uma cidade destruída na batalha. Dos quatro que lutaram, apenas eu não fui derrotado, e mesmo assim eu fui incapaz de capturar ou executar o inimigo que derrotei. Minha melhor pista, Salazar, está morta agora, e além de eu não ter conseguido nenhuma informação, Breath perdeu um olho, o que certamente vai afetar seu desempenho em batalhas futuras. Não importava a forma como tentasse ver aquilo, simplesmente não conseguia pensar naquela batalha como nada além de um fracasso.

Suspirou pesadamente. Bom, não há nada que eu possa fazer. Bem sucedido ou não, ele havia feito sua parte ali. Sua tarefa estava feita. Seria estúpido e imprudente da minha parte se eu tentasse caçar os membros do Olho Vermelho que fugiram. Eu provavelmente faria isso se fosse mais novo, mas estou velho demais para esse tipo de coisa. Agora, naquela situação, só podia ir para o lugar aonde havia combinado de se reagrupar com seus pupilos e torcer para que Kastor e Hozar tivessem mais sucesso.

– Vamos – disse ele para seus mercenários, erguendo-se e se pondo a caminhar ali. – É um longo caminho até o Salão Cinzento. Não temos tempo a perder aqui.



Notas finais do capítulo

Yo! Se você esperava ver a luta dos outros com mais detalhe, bem, eu sinto muito. Quero organizar o prosseguimento dessa história de forma com que possamos chegar ao ponto-alto da saga no início do ano que vem, e considerando os capítulos que faltam, tenho de dar uma pequena acelerada para isso, hehe. Além do mais, vocês podem ter notado isso ou não na temporada anterior com a luta de Hozar e Kastor, mas eu não gosto e não sou realmente tão bom em fazer lutas que não tem realmente conclusão como essas; prefiro fazer algo que tenha realmente um fim, sabem?

E também, tenho de esconder o realmente potencial desses personagens por enquanto, hehe.

Mas, se você ficou desapontado por isso, não se preocupe. Todos os personagens terão pelo menos uma luta no ponto-alto da saga, o que significa que vocês terão a chance de vê-los em batalha por pelo menos uma vez. E além do mais, temos algo mais importante com o qual nos preocupar agora, não concordam? Pois bem, hora de votar! Que grupo devemos acompanhar a seguir? Kastor ou Hozar, vocês decidem!

Por sinal, provavelmente teremos capítulo extra nessa sexta. Tudo depende se eu vou conseguir terminá-lo a tempo. Mas devo ser capaz disso, hehe.

Até a próxima!



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