O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 76
Carga Pesada




Primeiro Andar do Pandemonium, “Mundo de Pedra”...

SEUS DENTES RANGERAM UNS NOS OUTROS COM FORÇA ENQUANTO SUPORTAVA O PESO DO GOLPE DE SEU INIMIGO. Maldição... parece que a força desse cara aumentou mais do que eu havia esperado! O golpe de Kong havia sido bem simples; ele saltou contra Soul e moveu seu punho contra ele em um murro, como se estivesse fazendo brandindo um martelo. Um golpe tão simples como aquele deveria ser algo tão fácil de defender que nem teria de fazer esforço... e, no entanto, aqui estava Soulcairn, afundando cada vez mais no chão, sentindo a pressão sobre o braço que havia usado para bloquear o golpe crescer mais e mais a cada instante que passava, ao ponto que sentia como se seu braço pudesse quebrar em dois a qualquer momento. Impressionante... não importa quanto tempo passe, eu nunca deixo de me surpreender com o quanto os seguidores do Caminho das Bestas ficam mais fortes com suas transformações. Quase fazia com que os invejasse, para ser sincero. Essa força bruta é bem impressionante, bem mais do que eu esperava..., mas eu sou um Cavaleiro, e não serei derrotado apenas por tão pouco!

Rugiu ao colocar força sobre seu braço, empurrando-o com tudo para cima, conseguindo afastar o punho de Kong o suficiente para que pudesse reagir. Seu punho se moveu de imediato assim que teve espaço, atingindo um soco em cheio no queixo do mercenário, aplicando as propriedades da Carga sobre ele. O dano poderia servir para atordoa-lo e deixar que eu começasse uma sequência de golpes, mas não vale a pena. Eu não posso alongar essa luta. Já não era tão jovem quanto foi um dia; quanto mais tempo lutava, mais se desgastava, e não podia recuperar o fôlego tão facilmente quanto a maioria dos jovens fazia. Além do mais, cada minuto desperdiçado contra esse cara é um minuto que eu poderia estar dedicando a ajudar algum dos outros. Tinha que derrotar seu oponente não rápido quanto possível, e a melhor forma de fazer isso era usando a Carga.

Mesmo que faltasse dano ao seu golpe, ainda tinha impacto por trás dele. O corpo de Kong foi arremessado para cima pela força por trás do ataque, pairando no ar por alguns momentos... embora ele não tenha demorado nada para voltar a virar seu rosto para Soulcairn, uma expressão feroz e animalesca em sua face. Já se recuperou, não é? Muito bem..., mas não bom o suficiente! Enquanto o seu oponente ainda se recuperava, Soulcairn saltou contra ele e lhe acertou com um chute lateral em meio ar. Kong ainda tentou mover seus braços para bloquear o golpe, mas os movimentos de Soulcairn foram mais rápidos do que o que ele podia acompanhar, e um momento depois ele estava sendo arremessado para longe enquanto Soulcairn voltava a aterrissar no chão. Minha Carga agora é de quatro. Não é o bastante. Dado o que estava vendo, supunha que iria precisar de uma carga de ao menos cem para conseguir derrotar aquele oponente. O mais próximo disso é cento e vinte oito, ou seja... mais cinco golpes para juntar a Carga, e um para liberá-la. Seis golpes, era apenas disso que precisava. Mais seis golpes, e a vitória é minha.

Focou seus olhos sobre seu oponente, e bem a tempo. Depois de ter recebido seus golpes, Kong parecia bem irritado; assim que ele recuperou o controle de seu corpo ele não perdeu tempo em girar em meio ar, forçando sua própria aterrissagem já com as pernas dobradas, e imediatamente ele saltou com tudo em direção a Soul. Vem direto contra mim? Tolo. Mesmo que seus atributos tenham melhorado com essa transformação, isso ainda é uma grande estupidez! Fechou seu punho com força, e sem hesitação o moveu contra Kong.

Foi então que o mercenário lhe surpreendeu. Seu punho avançou contra ele sem encontrar obstáculos durante a maior parte do trajeto, e lhe pareceu praticamente certo que seu golpe iria acertar seu oponente, mas então Kong sorriu, e compreendeu imediatamente que havia caído numa armadilha. Com uma de suas mãos Kong golpeou rapidamente a lateral do braço de Odin, sem força o bastante para feri-lo, mas com mais do que o suficiente para fazer com que seu golpe fosse redirecionado. Seu punho passou raspando o rosto dele, e teve uma visão perfeita do homem-gorila sorrindo selvagemente antes que sentisse o outro punho dele lhe acertar em cheio na boca do estômago.

Vomitou sangue quase de imediato, seus olhos se arregalando de dor, e isso deixou sua guarda aberta. Kong não pestanejou em desferir outro soco com a mão que havia redirecionado seu golpe direto no rosto de Soulcairn, fazendo com que seu corpo pendesse para o lado, e logo em sequência desferiu um chute forte na altura de sua cintura, fazendo com que vacilasse para o outro. Sentia seus joelhos fraquejarem, a força que tinha neles sendo abalada pelos golpes que sofria, mas nem teve tempo para pensar muito nisso antes que Kong lhe golpeasse novamente com um gancho direto no queixo, lançando-o ao ar de forma não muito diferente ao que havia feito com ele meros momentos atrás. Maldição... eu não posso me deixar sofrer tantos golpes assim! Tentou reagir, mas seu corpo reagiu. Tentou se mover e estabelecer alguma forma de defesa para todos aqueles ataques, mas por mais que tentasse, seu corpo recusava-se a lhe obedecer, recusava-se a se mover um centímetro sequer. Droga, não! Não me falhe agora! Tentou novamente, com ainda mais afinco, mas não teve mais resultado do que na primeira vez, e seu oponente não lhe deu tempo para uma terceira tentativa. Sentiu mãos se fecharem ao redor de seus pés, e logo em seguida estava girando e girando, violentamente e em alta velocidade. Mas que merda... maldição! Pare com isso! Sentia-se zonzo com tudo aquilo, quase tanto quanto sentia seu estômago embrulhar. Eu já estou tendo problemas o suficiente em mover o meu corpo normalmente! Não preciso dessa merda para me atrapalhar ainda mais! Mas isso não era problema de seu oponente, e ele não dava a mínima; continuou girando pelo que podia jurar que foi uma eternidade antes que seu corpo fosse enfim arremessado longe, e logo em seguida sentiu uma parede de pedra se quebrar nas suas costas.

Seu corpo caiu em meio aos escombros da parede destruída, dolorido ao ponto de Soul sentir como se seus próprios músculos estivessem pulsando constantemente. Isso não é nada bom..., pensou o velho cavaleiro, rangendo os dentes em dor e frustração enquanto tentava se levantar novamente. Eu não posso sofrer tantos danos contra alguém como ele. Existem muitos inimigos mais fortes aqui, inimigos que eu devo enfrentar em bom estado. Ergueu seus olhos para fitar seu oponente; Kong estava parado bem aonde havia o visto pela última vez, seus braços cruzados em uma postura imponente, um largo sorriso branco estendendo-se pelo seu rosto de orelha a orelha. Mais seis golpes. Isso é tudo que eu preciso. Seis golpes. Iria obter esses seis golpes, não importa o que tivesse de fazer. Eu não vou perder aqui!

Dobrou suas pernas e disparou com tudo contra seu oponente em linha reta, jogando seu braço para trás e fechando sua mão em um punho com todas as forças. O sorriso de Kong se alargou ainda mais ao ver aquilo em divertimento, mas esse sorriso logo foi substituído por uma feição surpresa quando ele viu Soul mover rapidamente seus pés para chutar o solo abaixo de si quando estava prestes a lhe alcançar, lançando seu corpo para cima. Girou seu corpo em meio ao ar para que fossem os seus pés que tocassem primeiro o teto da sala, e saltou de novo imediatamente após isso acontecer. Aterrissou dessa vez atrás de Kong, de costas para ele, e não perdeu tempo; tornou a saltar direto contra ele, virando-se em direção a seu oponente, e quando o guerreiro mercenário se virou na sua direção, ele foi recebido por um soco direto no rosto, tão forte que mesmo sem causar dano ele quase conseguiu o tirar do chão. Um. Colocou mais força ainda em seu braço e o moveu brutalmente em um arco de retorno, fazendo com que seu punho acertasse de novo o rosto do seu oponente, e logo em seguida desferiu uma cabeçada direto na testa dela, fazendo com que o homem atordoado vacilasse um passo para trás. Três! O chute que desferiu na junta do joelho não fez dano, mas ele ainda trazia impacto, e isso fez com que Kong vacilasse um pouco, o suficiente para que ele não pudesse reagir quando sua outra perna se ergueu em seguida e lhe atingiu com um chute na cintura. CINCO!

Bufou em nervosismo e tensão ao jogar seu braço para trás, seu punho fechado de forma tão sólida que parecia esculpido em pedra. É isso!, decidiu ele. Isso termina agora!

DESTRUIDOR DE MUNDOS! – Gritou Soulcairn, desferindo um soco carregado com toda a força de seus ataques anteriores contra seu oponente, mirado bem no meio do peito dele... apenas para que no último momento um sorriso tornasse a surgir no rosto de Kong, um instante antes que ele desaparecesse completamente e deixasse que o soco de Soulcairn acertasse apenas o ar. Mas... como?! Ainda tentou se conter, mas já era tarde demais; toda a energia que havia acumulado com seus ataques anteriores foi liberada de uma só fez, destruindo absolutamente tudo em seu caminho, abrindo uma trilha de destruição no chão e reduzindo as paredes e teto de todo aquele lado da sala a nada mais do que escombros..., mas tudo isso sem que Kong sofresse nada.

– Acha que eu não entendi como o seu poder funciona, Cavaleiro?! – A voz veio acompanhada por um soco direto na nuca que arremessou Soulcairn longe, bem para o meio dos escombros que ele havia acabado de criar. Seu rosto caiu em cima de um pedaço de pedra quebrado, quebrando ao menos dois de seus dentes e enchendo a sua boca de sangue. – Eu vou ser honesto e assumir que o seu poder foi bem estranho na primeira vez que você o usou, mas uma vez que você entende o funcionamento dele as coisas ficam estupidamente simples. A sua habilidade funciona como uma espécie de “aposta”. Você aposta tudo em um golpe, fazendo com que ele seja muito mais forte do que deveria ser. Em troca, todos os outros golpes além desse são completamente inefetivo, mas mesmo assim você precisa os desferir já que eles fazem parte da combinação na qual jaz a sua aposta! Algo como “eu aposto no meu quinto golpe”; os quatro primeiros golpes serão inefetivos, mas em troca o seu quinto golpe virá com uma força muito maior do que deveria ter! Esse é o seu truque, não é?

Mesmo em meio a dor que sentai e o pânico que ver tanto do seu próprio sangue espalhado no chão lhe causava, Soulcairn não pode deixar de parar e erguer os olhos para Kong ao ouvir aquilo, incrédulo. Ele... não é possível... isso está completamente errado! Eu não faço aposta nenhuma, eu apenas concentro e amplio o dano dos meus golpes! Eu posso fazer isso por meio de uma sequência de ataques, sim, mas francamente, eu posso meter três socos na cara de um otário qualquer e depois usar a Carga desses golpes para derrotar outra pessoa com um golpe! Já havia visto muitas lutas e já tinha visto muitas acharem que haviam compreendido a habilidade de seu inimigo apenas para que fosse revelado que elas estavam erradas ou que aquilo era apenas uma fração do poder de seu oponente, mas nunca havia visto alguém cometer um erro tão grande sobre qual era a habilidade de seu oponente depois de ter provado diretamente dela, muito menos vangloriar-se dessa “descoberta” com tanto orgulho. Esse cara é uma anta. Me sinto mal por ter apanhado tanto dele.

– Bom, seu truque é decente e tudo mais, mas ele não é o suficiente! – Esbravejou Kong, enchendo o peito de ar e gargalhando de forma que aparentemente deveria ser maléfica, mas apenas soava como um “Mu-ha-ha-ha-ha-ha” parado e claramente forçado. – Eu sou Kong, o Campeão de Beremburg! Eu consigo ver através de seus movimentos e acompanho cada um de seus planos! Eu bailo como uma abelha e pico como uma borboleta! Eu sou KONG, G-O-N-G-U-E, e você não pode me derrotar!

... Ele... ele seriamente acabou de inverter a frase sem querer? E ele também soletrou o seu próprio nome errado? ... QUE TIPO DE IMBECIL NÃO SABE SOLETRAR O SEU PRÓPRIO NOME?! Quanto mais via aquele homem agindo, mais humilhado ia se sentindo por estar tendo tantos problemas com alguém como ele, mas não teve tempo para mergulhar num poço de auto-piedade; logo após dizer aquelas palavras, Kong começou a caminhar em direção a ele com passos lentos, mas certos.

Se apressou em tentar se colocar novamente de pé ao ouvir aquilo. Isso não foi algo fácil com o seu corpo velho, dolorido e fatigado, mas de alguma forma ele conseguiu se mover e se colocar de pé. Apesar de que isso não é muito... não sei mais quanto dano esses ossos velhos vão suportar. Não gostava de admitir aquilo, mas a idade havia lhe pesado. Em sua juventude, tudo aquilo não seria nada para ele, mas o tempo havia passado; tinha envelhecido, tinha apodrecido, tinha se tornado fraco. Droga... se eu ao menos fosse como Odin! Aquele maldito... ele é ainda mais velho do que eu, mas ele tem tanto vigor. Tanta força... é como se nem um único ano tivesse passado para ele...

“Pare de reclamar”.

A lembrança queimou em sua mente de forma intensa. O quê...? O que está...? Num instante, não estava mais no Pandemonium enfrentando Kong, mas numa muralha, numa das muralhas do Salão Cinzento. Era uma tarde, e o céu vermelho parecia ainda mais intenso do que normalmente era nas Terras Velhas. Guardas se moviam de um lado para o outro um pouco mais longe, mas naquela seção em específico na qual estava, se encontravam apenas dois homens. Um deles era velho, vestido em uma grossa armadura pesada cinzenta, com uma capa fina branca com o símbolo do Salão Cinzento desenhado em seu centro tremulando com o soprar do vento. Ele estava na beirada da muralha, olhando para o longínquo horizonte com uma expressão neutra em seu rosto, de costas para o garoto musculoso de aparência rebelde que estava ajoelhado mais atrás dele. Um garoto de moicano e feição revoltada, com vários curativos espalhados pelo seu rosto, marcas das brigas na qual havia se metido só naquele dia. Esse garoto... ele... esse sou eu!, compreendeu Soulcairn, sentindo seu queixo cair a medida que olhava aquilo. Mas... se esse sou eu... então o outro é...

– Maldição, eu não consigo aceitar isso! – Esbravejou o garoto com imprudência, dando vazão a sua fúria e ressentimento enquanto berrava. – Por quê?! Por que eu não consigo vencer ele?! Mestre Edwid! Você está dando algum tipo de treinamento especial para ele, não é?! Tem de estar!

O seu mestre e fundador do Salão Cinzento, Edwid Armaheim, “o Herói Cinzento”, ficou solene diante daquilo. Ele ignorou a pergunta completamente, como se aquilo não fosse mais do que o zumbido de uma mosca.

– Não me ignore, maldição! – Reclamou o garoto, tolo e estúpido, levantando de sua posição ajoelhada para avançar um passo em direção a Edwid, lívido em fúria. – Maldição, por quê?! Por que você fica dando esses benefícios a Odin?! O filho-da-puta não merece nada disso! Ele é um idiota, um retardado sorridente! Ele não merece ser um cavaleiro, quanto menos ser treinado por você! Por que você o beneficia tanto, Mestre?!

– Silêncio. – A palavra foi dita de forma simples, mas carregada por uma força e autoridade enormes, grandes o suficiente para fazer com que o garoto parasse imediatamente todos os seus movimentos. Edwid não se virou, ao menos ainda não, mas o seu suspiro foi audível. – Pare de reclamar, Soulcairn. Isso é patético, e irritante.

– O... o quê? – Lembrava-se do momento em que havia dito isso, da forma como havia dito isso. Tinha tentado falar parecendo desafiador, tentando mostrar uma presença que não tinha, e havia falhado miseravelmente nisso. Tentou parecer um homem, mas o que conseguiu foi mostrar o que realmente era; um garoto assustado.

Foi então que Edwid se virou na sua memória, e foi exatamente isso o que aconteceu à sua frente. Tal como o seu nome podia sugerir, Edwid era um homem cinzento; isso não se estendia apenas ao modo pragmático e ao mesmo tempo idealista como ele agia, ou ao fato dele não acreditar na real existência de coisas como o bem e o mal, mas a simples aparência dele. Ele tinha olhos e cabelos cinzentos, cortados em um estilo curto e levemente espetados, contribuindo para passar um ar militar a sua imagem. Sua barba era rala e muito bem cuidada, acentuando bem o seu queixo e mesclando-se harmoniosamente ao seu bigode, como se os dois fossem um desde o início. Ele era velho – havia nascido cinquenta anos antes da Guerra dos Grandes, o que significava que naquele momento que se lembrava ele tinha mais de cento e cinquenta anos – mas não demonstrava em nada a sua idade. Tirando por seus cabelos cinzento, o corpo de Edwid tinha a firmeza e a formosura que você esperaria de um jovem de pouco mais de vinte anos.

– Você só fica fazendo a mesma coisa. Reclamando, reclamando, reclamando. Tem ideia do quão cansativo isso é? Do quão e enjoado estou de ouvir sempre a mesma coisa? – Sem demonstrar o menor indício de irritação, Edwid começou a caminhar em direção a Soulcairn. Ele não trazia hostilidade nenhuma em sua postura ou movimentos, mas mesmo assim, a imponência que exalava dele era tão grande que Soul simplesmente via a sua imagem mais jovem recuando a cada passo... e francamente, não podia culpa-la por isso. – Pare de reclamar. Se você tem energia e tempo para reclamar, por que não faz algo útil com eles? Você tem um objetivo que quer alcançar, não tem? Então se dedique a ele. Ficar reclamando por aí só vai irritar aqueles ao seu redor sem nunca te tirar do lugar.

– Me dedicar? – Repetiu o garoto, aparentemente recuperando sua voz graças a raiva que aquelas palavras lhe causaram. – Mas eu já me dedico! Dia e noite, noite e dia, eu estou sempre treinando, sempre me esforçando para ficar mais forte! Não tem ninguém em todo esse Salão que é tão dedicado quanto eu!

– Treine mais. Se você teve tempo o suficiente para fazer todo o seu caminho até mim e reclamar na minha orelha, creio que você não está se esforçando tanto quanto diz. – Respondeu simplesmente o Herói Cinzento, e essas palavras conseguiram silenciar novamente Soulcairn. – Você vê, Soulcairn, você diz que está sempre treinando e sempre se esforçando, mas eu não vejo isso. O que eu vejo é você sempre reclamando. Reclamando que as pessoas dão mais atenção a Odin, reclamando que ele é mais forte que você, reclamando que ele consegue mais elogios, reclamando de absolutamente tudo que envolve ele. No tempo que você gasta com isso, você poderia estar se dedicando a aprimorar a característica sua na qual você vê uma falta em comparação com a de Odin, mas isso não é o que você faz. Você reclama e lamenta e choraminga, como uma criança mimada e irritante, e acha que seus problemas se resolverão magicamente com choro o suficiente. Suponhamos que Odin seja mais talentoso do que você: reclamar disso te fará tão ou mais talentoso do que ele? Suponhamos que eu esteja dando um treinamento especial a ele: acha mesmo que ficar reclamando disso na minha cabeça vai fazer com que eu estenda esse treinamento a você, ao invés de simplesmente começar a te detestar? Suponhamos que ele simplesmente seja mais dedicado do que você e se esforce mais nos treinamentos; acha que reclamar o suficiente fará com que você se torne mais forte do que ele dá noite para o dia? – Edwid parou bem em frente ao garoto, sua figura se erguendo muito além da dele, fazendo com que todo o corpo do jovem Soulcairn fosse engolido pela sua sombra. A essa altura, qualquer rebeldia ou raiva que o garoto havia tido antes tinham desaparecido completamente, deixando apenas terror no lugar, bem como a certeza de que ele havia feito uma grande besteira. – Ficar reclamando dos seus problemas pelos quatro cantos é uma das coisas mais patéticas e detestáveis que alguém pode fazer, Soulcairn. Se a sua intenção é continuar com isso, junte as suas coisas e vá embora daqui; eu não tenho tempo ou paciência para perder com um chorão. Mas se você quiser realmente alcançar seus objetivos, então pare de reclamar, amadureça mentalmente e comece a se dedicar a eles.

Assim que essas palavras foram ditas, tudo voltou ao normal. Se viu subitamente de volta ao Pandemonium, com Kong vindo em sua direção com aquele mesmo avanço lento, sorrindo enquanto avançava. Eu... eu não sei o que raios foi tudo isso, mas acho que entendo a mensagem que isso quis me passar. Aquela lembrança... ela estava falando para ele. Estava lhe lembrando da sua convicção, da decisão que havia feito naquele dia e do que ela acarretou. Foi depois desse dia que eu realmente consegui competir com Odin. Depois desse dia eu consegui o derrotar e consegui me tornar mais forte, consegui fazer alguma coisa.

Estava cometendo ali o mesmo erro que havia cometido no passado. Estava se ocupando demais em lamentar a sua idade e a sua condição ao invés de fazer alguma coisa útil. Mas não mais.

Toda a sua energia fluiu para o seu braço de uma única vez, em um volume tão grande que ela se tornou visível, uma aura avermelhada que o revestia com uma armadura. Ver aquilo foi o suficiente para que Kong parasse seu avanço e erguesse uma de suas sobrancelhas em confusão, mas não deu atenção a ele.

– Faz muito tempo desde a última vez em que usei essa habilidade... – comentou Soulcairn baixinho consigo mesmo, olhando a energia que revestia seu punho, sentindo-a em seus dedos. – Eu nunca pensei que fosse ter de usar essa técnica de novo... que problemático.

Aquelas palavras foram ditas em um tom de contemplação sereno, tão absolutamente calmo que parecia que Soulcairn havia se esquecido completamente da batalha na qual estava... até ele saltar subitamente contra seu oponente. Kong se assustou e tentou se defender do que estava por vir de alguma forma, mas nem teve tempo para colocar seus braços em uma posição de guarda antes que visse o corpo de cavaleiro pairando acima dele, sua feição mortalmente séria, seus olhos mirados certeiramente em seu oponente. O punho do Ascendente desceu, e Kong não pôde estabelecer defesa alguma contra ele... não que nada que ele pudesse fazer fosse servir para lhe defender de um ataque daquela magnitude.

Técnica Proibida do Caminho do Sacrifício: Carga Pesada!

O chão de pedra quebrou-se como vidro, abrindo um buraco imenso que parecia levar ao centro da terra e só fazia ficar mais e mais fundo a medida que o punho de Soulcairn ia empurrando o rosto de Kong. Tudo ao redor dele foi afetado pela força de seu golpe – as pedras que lhe cercavam foram sendo transformadas em pó por nada mais do que a pressão da força que emanava daquele impacto, transformando o que antes era a sala de uma fortaleza em um imenso deserto de pó, com Kong e Soulcairn no centro. As paredes e o teto da sala praticamente explodiram diante da pressão que a força do seu golpe exerceu sobre elas, fazendo com que as entradas e saídas daquela sala desmoronassem e que um espaço branco vazio – preenchido apenas com grossos e gigantescos feixes de uma energia azul que parecia ser a própria mana – se revelasse. Mas nada disso importava para Soulcairn naquele momento.

Para ele, a única coisa que importava era derrotar o seu oponente.

Quando os efeitos do seu soco finalmente foram suprimidos, o corpo de Kong estava meio afundado no chão, meio encoberto pelo pó das pedras. Sua boca ainda estava aberta; seus olhos, arregalados, e brancos como leite. O desenho do punho de Soulcairn estava marcado e afundado em seu rosto como se ele tivesse sido colocado a ferro quente; uma cicatriz que certamente geraria muito constrangimento para ele no futuro. Isso considerando que ele tenha sobrevivido a isso. Não peguei leve com esse golpe. Nem podia, considerando os efeitos que isso causa em mim.

Sangue estava pingando das juntas de seu punho naquele exato momento, caindo sobre o corpo de seu oponente. Seu ataque – a Carga Pesada – era uma técnica muito poderosa e muito útil. Mas muito perigosa também. Ela consiste em criar uma Carga Artificial usando o meu próprio poder. Basicamente, o que ela faz é redirecionar o poder que normalmente é direcionado passivamente para me fornecer a minha resistência sobre-humana para o ataque, estabelecendo um “peso” que aumenta em cem vezes o poder do meu próximo golpe. Mas por fazer exatamente isso, ela também reduz a minha resistência ao nível de uma pessoa normal, o que não é nem de longe o suficiente para suportar essa força. No fim das contas, havia sido bem sortudo; considerando a sua situação, o fato daquilo só ter quebrado os ossos do seu braço era de uma sorte tremenda. Eu pensei que eu perderia todos os ossos do meu corpo ou que meu braço seria esmagado de forma irreversível pressão. Os céus sorriram para mim aqui.

Dobrou suas pernas com um suspiro, saltando para passar por uma das saídas destruídas da sala. Apesar daquela sala em questão estar completamente destruída, uma coisa que notou foi que as estruturas que a cercavam não pareciam ter sofrido nada com seu ataque. Hm.... interessante... De onde estava, Soulcairn inclinou seu corpo e rosto para olhar o “céu” acima de sua cabeça, contemplando os feixes de mana com um olhar avaliador. Essa energia e essas características... suponho que a magia que age sobre todo esse local não só isola cada andar em um “plano” diferente, mas também os divide em vários “terrenos isolados”. Chutava que seria possível que alguém no terreno 1, por exemplo, causasse destruição sobre o terreno 2 ou 3, mas isso deveria ser algo que requereria mais do que um golpe tão simples quanto o que havia executado. Isso é um pouco interessante, eu acho..., mas não vejo muita utilidade para esse tipo de coisa no momento. E de qualquer forma, tenho maiores preocupações. Agora que estava com o seu braço em um estado tão deplorável, precisava fazer seu caminho até Orochi e ver se ela podia fazer alguma coisa por ele. Primeiro preciso ver se consigo concertar esse braço para voltar a lutar, e depois... depois eu vejo o que faço.



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES!

*Desde o começo do planejamento desse capítulo eu tinha a intenção de apresentar uma variação dos poderes de Soulcairn nele. Originalmente, no entanto, essa variação seria a capacidade dele de dividir a sua Carga em múltiplos golpes, fazendo com que vários golpes tivessem um efeito menor dela (se, por exemplo, a Carga atual dele for 32, ele poderá desferir 16 golpes com o dobro de dano). Isso dito, considerando que ele podia simplesmente colocar essa Carga toda em um único golpe muito mais poderoso, me pareceu meio sem sentido que ele tivesse um poder desse. E foi por isso que nasceu a Carga Pesada.



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