O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 71
O Profano


Notas iniciais do capítulo

Existem coisas nesse mundo com as quais ninguém deve mexer.



Primeiro Andar do Porão do Pandemonium, “Terra das Bestas”

SALTOU PARA O LADO BEM A TEMPO DE EVITAR A INVESTIDA DE UM DOS VÁRIOS CENTAUROS QUE ENFRENTAVA, e nem bem seus pés tocaram novamente o chão e ele se viu forçado a saltar novamente afim de evitar outro ataque. Hmm. Essas criaturas são realmente irritantes. Havia enfrentado muitas coisas desde que havia ido ao porão. Basiliscos, manticoras, quimeras, trolls, praticamente tudo que uma pessoa podia imaginar. Mas dentre todas elas, os centauros facilmente ganhavam o título de mais irritantes.

Isso não era devido a uma dificuldade em enfrenta-los, por assim dizer. Apesar das habilidades das bestas serem claramente superiores às de um guerreiro tradicional, elas ainda não estavam num nível que pudesse representar alguma ameaça para Odin. Mas havia outra coisa no meio disso, algo muito maior e que lhe afetava muito mais.

Todos os que havia enfrentado antes dos centauros eram bestas puras – até mesmo os trolls, que tinham uma forma que pelo menos lembrava levemente a de um humano – eram bestas praticamente sem mente. O mesmo não se atribuía aos centauros, no entanto. Meio-homem, meio-cavalo – essa é a definição de um centauro. Tal como essa definição sugeria, centauros possuíam características de humanos – não apenas em terem a parte superior dos corpos similar à de um homem, mas também em terem uma mentalidade bem próxima da de humanos. Eles são ininteligíveis, agem muito por instinto e são bárbaros e selvagens, mas centauros possuem algum tipo de sociedade, um certo tipo de consciência. De certa forma, eles possuem laços que os ligam uns aos outros.

Podia matar bestas sem mente a qualquer hora, mas matar criaturas com consciência era outra história completamente diferente. E era exatamente isso que lhe dava problemas ali.

Saltou mais uma vez para desviar de outra das investidas dos centauros, mas nem bem fez isso e viu com sua visão periférica que outro dos centauros estava se preparando para investir contra ele por um ângulo que não conseguiria evitar. Eles podem parecer idiotas por ficarem recorrendo sempre ao mesmo recurso, mas eles são mais espertos do que parecem. Por mais que eles apenas investissem contra ele, eles estavam coordenando suas investidas para fazer com que ele se movesse de uma determinada forma, organizando suas posições de forma a lançarem ataques que ele simplesmente não podia evitar, como o de agora. Isso é problemático..., mas nada com o qual eu não possa lidar.

Um comando mental foi tudo o que precisou para criar um de seus clones no caminho da investida, e usando-o como um escudo humano conseguiu evitar que o golpe lhe atingisse.

Assim que aterrissou, foi rápido em se agachar e mover ambos os braços com seus dedos rente ao chão, criando cortes profundos que desnivelaram totalmente o ambiente ao seu redor, lhe dando uma certa folga das investidas de seus oponentes. Tch... essa sensação é tão... estranha. Não era a primeira vez que usava um de seus clones como um sacrifício para se livrar de alguma situação problemática. Não sentia culpa em fazer isso; a Doppelgänger era famosa por criar clones baseados em diversas facetas da sua personalidade que não podia controlar, mas era capaz de fazer com que um clone viesse como apenas um corpo, desprovido de qualquer consciência. Ainda assim, era estranho. Sacrificar o que é literalmente um corpo igual o seu para viver... isso é bizarro. Sempre sinto como se estivesse tendo algum tipo de aviso quando faço isso, como se isso fosse uma premonição para mim.

Sacudiu sua cabeça para tirar esses pensamentos da mente. Não, não, não é hora de pensar em coisas assim. Tinha coisas mais importantes nas quais se focar, bem mais importantes. Eu preciso pensar logo em uma forma de lidar com esses centauros. Os outros precisam da minha ajuda, principalmente se o Juggernaut realmente se aliou ao Olho Vermelho. Havia ficado encantado com o esforço de todos e a forma como eles se tornaram mais fortes em preparação para essa batalha, mas se havia qualquer traço de verdade no que diziam sobre Jiazz, Odin era o único ali que tinha alguma chance de verdade contra o mercenário. E mesmo desconsiderando Jiazz, ainda existem problemas como Balak, Dokurei e os demais membros do Olho Vermelho. Eu tenho que terminar logo aqui para ir ajudar os outros, isso é claro.

Mas o problema era que, cada vez mais, sentia que a sua única alternativa para conseguir isso seria matando os centauros, e isso era algo que realmente não queria fazer. Maldição... esse não pode ser o único jeito. Deve ter alguma outra forma, não é? Eu só preciso descobrir co-

– Até agora lidando com esses imprestáveis, Odin? – A voz que disse aquilo tinha um tom jovial e arrogante, um tom que parecia zombar dos que o ouviam, como se seu dono estivesse dizendo que era superior àquele com quem falava. Ele não pertencia a nenhum dos companheiros de Odin, não... mas nem por isso era um tom estranho para os seus ouvidos.

Aquele era um tom de voz que ele já havia ouvido antes, e por mais que não pudesse acreditar nisso, já conseguia decifrar quem era o dono dele. Não é possível...

Uma criatura cortou o ar acima de sua cabeça, algo que conseguia ver apenas como um manto rubro velho e rasgado, e sem hesitação essa criatura avançou contra um grupo dos centauros. Assustados pelo ser estranho, os centauros não hesitaram em investir contra ela com suas lanças, mas foi inútil; cada vez que a ponta de uma delas ameaçava tocar a criatura ela enferrujava subitamente de forma praticamente instantânea, ao ponto de se quebrar imediatamente ao alcança-la.

Uma gargalhada sombria ecoou da criatura quando ela começou seu ataque. De dentro daquele manto rubro emergiu um crânio de formato similar ao de um humano, embora duas ou três vezes maior do que o de uma pessoa normal. Sustentado por uma espécie de vinha negra o crânio avançou contra um dos centauros, abrindo sua grande mandíbula e abocanhando boa parte do ombro da besta com aquilo. Um grito agoniado de dor veio do centauro, mas ele logo foi silenciado quando dezenas de outras caveiras emergiram do manto, de todos os tipos e tamanhos, cravando seus dentes em alguma parte do centauro ou dos outros que o cercavam. Não demorou para que o som de carne e ossos sendo quebrados, rasgados e triturados pelos dentes dos crânios tomasse conta do ambiente... tudo isso bem diante de Odin, que só podia fitar o que acontecia com total descrença, seu olho se arregalando cada vez mais. Essa habilidade... só pode ser ele..., mas... como?

– O que foi, Odin? Parece até que você viu um fantasma. – A voz soou novamente, ainda mais irônica dessa vez, ao mesmo tempo em que outra coisa ia emergindo do manto. Não um crânio, mas um corpo humano ao qual o manto pertencia, um corpo que tinha o manto preso ao seu ombro direito por um broche e cabelos e olhos cor-de-sangue. Um corpo que sorria com dentes brancos afiados e que se vestia em vestes negras de couro, envolvidas por todos os lados por amarras como se existissem para conter quem as usava. Seus pés e suas mãos não eram os de um humano, mas sim os de um monstro, tendo facilmente o dobro do tamanho que o de uma pessoa normal devia ter e sendo compostos por quatro garras afiadas ao invés de cinco dedos. Com um movimento súbito aquela figura se voltou totalmente para Odin, todos os crânios que haviam emergido de seu corpo ainda se alimentando dos restos dos centauros, se banqueteando na carne de criaturas que ainda estavam vivas e gemiam de dor naquele exato momento. – Não faz tanto tempo desde que nos encontramos pela última vez. Ou faz? Francamente, eu me esqueço. Com tantas pesquisas e tantas coisas a fazer, é fácil que você perca a noção de algumas coisas, não concorda?

– Como? – A pergunta escapou dos lábios de Odin sem que ele sequer se desse conta, criada pela mais absoluta confusão. Seu olho arregalado estava fixo sobre a aberração que via diante de si, uma aberração que já havia enfrentado no passado. – Você morreu! Eu vi você morrer!

– Oh, por favor. Você realmente achou que seria tão fácil assim me matar? Pobre inocente. – Hashmaul sorriu largamente ao dizer aquilo e seus olhos vermelhos cintilaram em malícia e travessura, como se fosse uma criança cruel. – Eu sou Hashmaul, Odin. O Profano. Eu não sou um mestre das artes negras, mas sim o mestre. Todos os feitiços sombrios, todas as artes das trevas, todas as magias proibidas... todas elas estão ao meu alcance. Não sou reconhecido como mereço, mas mesmo assim, sou um mago muito superior do que qualquer um dos Seis Tecelões, incluindo o garoto que enfrenta o seu discípulo nesse exato momento, e você ainda ousa achar que uma espada no coração seria o suficiente para me matar? – Gargalhou de forma inicialmente divertida, mas logo a sua voz foi se modificando enquanto ele gargalhada, assumindo um tom muito mais profundo e ameaçador, fazendo com que sua gargalhada se transformasse em algo medonho. Quando ele voltou a falar, sua voz veio em um sussurro distorcido que poderia muito bem pertencer a um demônio saído das profundezas do inferno. – Ora, você me subestima tanto que quase me ofende, cavaleiro.

Por mais que estivesse tentando manter um rosto corajoso, sentiu sua garganta se mover visivelmente ao engolir em seco. Isso é péssimo. Dentre todas as previsões e todos os cenários imaginados, nunca imaginou que Balak fosse se aliar com alguém como Hashmaul. Balak, Jiazz, Dokurei, Hashmaul... isso é como um jogo de Xadrez em que o oponente possuí quatro reis que funcionam como rainhas. Como seu oponente havia conseguido reunir tantas pessoas tão poderosas à sua causa era algo que Odin não conseguia explicar, mas o fato era que isso estabelecia um problema monstruoso para ele e seus cavaleiros. Maldição, a situação não poderia ficar pior...

– Isso é um desafio? – Perguntou Hashmaul com uma gargalhada leve, fazendo com que Odin o fitasse em confusão por um momento, até se lembrar que uma das habilidades do mago negro era a de ler mentes. – Odin, Odin, meu bom cavaleiro fracote, você deve se lembrar de uma das regras mais básicas das batalhas, não é? “Nunca diga que as coisas não podem piorar, pois elas podem, e vão”. – Os braços de Hashmaul se abriram em arcos largos, suas palmas voltadas para baixo e suas garras estendidas em direção ao chão. Diretamente abaixo deles surgiram dois portais criados pelo que parecia ser pura trevas, dois buracos negros que pareciam poder engolir qualquer coisa. – Você sabe o porquê disso ser uma regra, Odin? Porque isso não é um rumor, mas sim, um fato!

Sua voz trovoou ao final de sua falha, e feixes de energia foram vistos por toda a sala ao fim de sua declaração. Mas o quê? Toda a atmosfera que o envolvia havia se tornado mais tensa com aquelas palavras, como se o próprio ar tivesse ganhado peso, e Odin sabia que isso só podia ser fruto de uma coisa. Magia... ele vai começar seu ataque? A postura de Hashmaul não era necessariamente ofensiva, mas o sorriso que ele mantinha nos lábios era desconcertante, e Odin não estava disposto a correr riscos. Sem esperar que seu oponente pudesse agir primeiro ele rapidamente moveu ambos os seus braços, lançando dois cortes pelo ar com seus movimentos, apenas para que seu ataque se provasse ineficaz ao bater em uma barreira mágica incolor que protegia o Profano. Maldição, ele já ergueu sua barreira? Quando que ele fez isso? Parecia que a cada momento que passava as coisas estavam ficando piores.

E essa impressão foi provada logo a seguir.

De cada um dos portais que Hashmaul havia criado antes emergiu um caixão, cada um deles negro como a noite, sem nenhum símbolo neles que pudesse indicar qualquer coisa... por exceção de uma peculiaridade. Na parte superior da frente de caixões, era comum que as pessoas desenhassem uma cruz; segundo algumas superstições, o Deus da Morte era representado por uma cruz, e a presença de uma dessas no caixão de alguém ajudava a alma do falecido a achar seu caminho ao outro mundo com mais facilidade. Essa superstição se manteve mesmo após a morte do Deus em questão na guerra de séculos atrás, e da mesma forma, a própria variação dos cavaleiros do Salão Cinzento se manteve; ao invés de apenas desenhar uma cruz no caixão de seus mortos, os cavaleiros faziam uma cruz com duas espadas em seus caixões, afim de simbolizar que o falecido era um guerreiro que havia vivido uma vida honrada e caído em batalha.

E eram duas cruzes exatamente assim as que estavam na frente daqueles caixões.

– Odin, você se lembra da última vez que nos enfrentamos? – Perguntou Hashmaul subitamente, fazendo com que o olhar de Odin abandonasse os caixões por um momento para tornar a cair sobre ele. – Eu me lembro. Eu me lembro bem sobre como vocês se reuniram para invadir a minha casa atrás da minha cabeça. Você, Soulcairn, Ezequiel, Gwynevere e Azel. Ah... eu poderia dizer que essas são boas lembranças, mas essa seria uma grande mentira. Vocês fizeram uma bagunça, destruíram frutos de anos de pesquisa e ainda tentaram me matar! Foi tudo bem... inconveniente. – Os dois caixões que o Profano havia invocado já haviam emergido completamente de além dos portais a essa altura, e com um estalar das garras do mago negro, suas tampas começaram a se abrir sozinhas, apesar de que de forma bem vagarosa. – Mas, veja agora como as coisas são! O tempo passou, e muito mudou. Você se tornou velho, e aquele que um dia foi considerado como um dos homens mais fortes do mundo agora não passa de uma relíquia enferrujada. Azel Royes, que foi sempre mais forte do que você, desapareceu em pleno ar como se fosse fumaça, e ninguém mais tem qualquer ideia de qual pode ser o seu paradeiro. Soulcairn, que sempre foi o seu maior rival, perdeu um de seus braços em batalha contra um dos garotos do Olho Vermelho, o que faz com que ele não só seja uma relíquia enferrujada como você como também seja uma relíquia quebrada. E Gwynevere e Ezequiel... ah, pobrezinhos. Foram brutalizados durante a batalha contra o Olho Vermelho, ganhando novos buracos que eu acho que não fizeram lá muito bem a eles. – O rosto de Odin foi se tornando cada vez mais duro a medida que ia ouvindo aquelas palavras, e Hashmaul claramente notava e se deleitava com isso, o sorrindo em seus lábios se tornando mais largo a cada segundo que passava. – Você devia me agradecer, Odin.

A essa altura, a tampas dos caixões já estavam a meio caminho para se abrirem por completo, mas o que quer que estava dentro deles se provou impaciente. Uma grossa e grande mão negra se fechou ao redor de uma das tampas, enquanto uma mão bem menor e mais fina fazia o mesmo com a outra. Ambas as mãos vinham de dentro dos caixões e ambas eram humanas, mas Odin não conseguia ver muito mais do que elas pela falta de iluminação que obscurecia o interior dos caixões, mas isso logo mudou; assim que ambas as mãos jogaram as tampas longe simultaneamente, tudo se tornou bem visível.

E Odin sentiu seu coração parar de bater por um momento.

– Foi bem trabalhoso concertar os corpos deles, Cavaleiro Negro – completou Hashmaul, sorrindo de forma maldosa.

Não... não, não, bondosos sejam os Deuses, não... De dentro dos dois caixões, os corpos de Ezequiel e Gwynevere – dois dos mais antigos companheiros de Odin e pessoas que ele considerava como alguns de seus melhores amigos – emergiram, vestidos em suas armaduras e trajando as mesmas armas que brandiram orgulhosamente em vida, porém trazendo também olhos mortos e uma pele pálida. Não... por favor, não... eles não merecem isso.... Sentiu suas pernas fraquejarem, sentiu um bolo na garganta, e antes de muito teve que levar uma mão a sua boca para impedir que vomitasse de vez. Ezequiel... Gwynevere... por quê? Por que vocês têm de sofrer tanto assim?

– Emocionado, Odin? Não se preocupe, isso é completamente natural – disse o Profano, gargalhando de forma zombeteira como se aquilo fosse uma grande piada. – Eu sei, eu sei, deve ser muito emocionante para você rever seus amigos, mas espere, não me agradeça ainda! Eu ainda não te mostrei o melhor! Você vê, a maioria dos zumbis... ou ao menos os zumbis do mago negro incompetente que eu ensinei... bem, eles são apenas corpos, sabem? Compartilham a maioria dos poderes que tinham em vida, mas em proporções bem menores do que tinham originalmente. Com nem metade da sua força natural. Mas mais do que isso, eu fiz um esforço e consegui realizar um avanço histórico, Odin! Contemple: esses que você vê diante desse seu olhinho são os primeiros zumbis com uma mente ativa!

Mente ativa? Seu cérebro estava um pouco desligado graças ao susto que havia sofrido, sua atenção ainda voltada completamente para Gwynevere e Ezequiel, mas aquelas palavras conseguiram lhe tirar de seu transe... pelo simples fato do que elas sugeriam. Ele não pode querer dizer que... não, isso não é possível...

– Odin... – seu nome veio arrastado, arranhado, pronunciado com uma dificuldade imensa. Quem havia o dito era Ezequiel, e embora o rosto do cavaleiro se conservasse completamente impassível, Odin conseguia sentir o esforço que ele fazia para falar... bem como podia ver a lágrima de sangue que escorria de seu olho direito. – Nos.... ajude...

– Odin... – quem falou dessa foi Gwynevere. Em vida a cavaleira havia sido uma das mais grandiosas e orgulhosas mulheres que havia visto, uma mulher nascida para o militarismo que comandava uma unidade de guerra com punho firme e talento nato. Agora, no entanto... sua voz soava tão agoniada e repleta de dor que era quase impossível imaginar que pertencia realmente à Gwynevere. – Nos.... mate... por favor... me mate...

Choque era o que havia sentido com tudo que havia acontecido até então desde que Hashmaul havia se mostrado – e de certa forma, sentiu choque com aquela revelação por algum tempo, também. Mas muito pouco. O que realmente sentiu com aquilo foi raiva, fúria. Sentiu seu sangue parecer ferver em suas veias, sentiu seus dentes rasparem uns nos outros, sentiu suas mãos se fecharem em punhos com tanta força que podia furar sua própria carne.

E isso pareceu apenas divertir Hashmaul ainda mais.

– Vê, Odin? Isso não é incrível?! – Questionou o Profano, gargalhando loucamente enquanto caminhava em direção à Gwynevere, envolvendo os ombros dela com um braço de forma casual, como se fossem grandes amigos. – Esses não são apenas corpos inanimados que só fazem a minha vontade, mas sim corpos com consciência! Uma consciência que não controla mais o corpo, sim, mas ainda assim, consciência! Ah, vai ser tão divertido ver você ser morto por seus velhos amigos! A única coisa que seria melhor do que isso seria depois juntar você a eles e fazer com que os três matassem todos os membros restantes do Salão Cinzento! Mas, não se preocupe! Isso é parte do plano.

Hashmaul abriu um sorriso largo ao dizer aquilo, mas esse sorriso só durou por um momento. Ele desapareceu logo em seguida, assim que ele sentiu a pressão do espírito de Odin.

O Cavaleiro Negro continuava parado em pé aonde estava desde o início, mas seu espírito não fazia o mesmo. Ele se espalhou por todo o ambiente, e carregado pela ira do cavaleiro ele atuou com peso, fazendo com que o próprio ar parecesse pesado. Pedaços de ossos dos centauros que Hashmaul havia devorado foram triturados às cinzas pela pressão, rachaduras surgiram no chão e nas paredes, e até mesmo o próprio Hashmaul pareceu afetado por ela. Mas o que é isso? Isso não estava no plano! A intenção do Profano havia sido de provocar Odin, tanto para seu divertimento pessoal quanto para fazer com que o cavaleiro fizesse alguma estupidez, mas isso não estava acontecendo. Ele está irritado, mas não faz nada! Ele apenas está parado ali, parecendo furioso! E essa pressão... o poder dele está crescendo? Sentia o peso sobre suas costas cada vez maior, como se alguém estivesse lhe empurrando para baixo, como se tentassem força-lo a se ajoe-

DE JOELHOS!

O grito de Odin veio de forma súbita e carregado de força, e um momento depois Hashmaul deu por si ajoelhado no chão, completamente prostrado de forma subordinada. Mas... o quê?! O que diabos é isso?! Aquilo não havia sido feito pela pressão, mas era algo muito maior. Não foi nenhuma força que lhe forçou a se ajoelhar, mas sim o seu próprio corpo que agiu sem a sua permissão e se colocou de joelhos no chão. Impossível... completamente impossível! A Aloeiris de Odin apenas cria clones, ela não lhe fornece nenhuma habilidade de influenciar nas ações de outras pessoas! E ele é um guerreiro, apenas um guerreiro estúpido! Ele não possuía nenhum conhecimento de magia quando o enfrentei pela última vez, e seria necessário o estudo de uma vida para aprender uma magia capaz de fazer algo assim, principalmente capaz de fazer algo assim com alguém como eu! Mas deixando isso de lado, só resta uma alternativa, e ela não é possível! É...?

Seus olhos se ergueram para fitar o rosto de Odin, uma máscara de pura fúria com os dentes a mostra, um olho hostil, punhos fechados e uma aura violenta que o cercava, como a que você esperaria de uma besta selvagem.

– Você foi longe demais, Hashmaul – rosnou Odin com uma voz tão carregada pela fúria que era difícil até mesmo discernir as palavras graças a ela. – Eu não me importo com o que você faz comigo, mas você resolveu brincar com o que não devia. Faça o que quiser comigo ou contra mim, mas nunca ameace os meus discípulos, nunca fira os meus amigos, nunca coloque em risco os meus filhos! Eu, absolutamente, não posso perdoar aqueles que fazem algo assim! – Com aquelas palavras veio novamente a mesma pressão que havia sentido antes, só que muito mais intensa. Intensa o bastante ao ponto de fazer com que até mesmo ele, Hashmaul, perdesse por um momento o seu equilíbrio e vacilasse para trás, caindo de bunda no chão. – Quando eu era um garoto, o Herói Cinzento me disse que eu era especial. Segundo ele, pelo ambiente no qual vivíamos e o ambiente para o qual estávamos sendo criados, uma das necessidades da vida era a de ensinar jovens cavaleiros a serem desprovidos de misericórdia. Ele dizia que, por mais admirável que a misericórdia fosse, ela era algo que não tinha lugar em um campo de batalha, um conceito que iria acabar te matando se você se agarrasse a ele. E é por isso que ele se impressionou tanto comigo. A maioria dos cavaleiros acabava abandonando completamente a misericórdia para abraçarem sua natureza guerreira, mas eu nunca fiz isso; sempre conservei a misericórdia em meu ser e sempre a dispensei apenas quando era estritamente necessário. Pela minha natureza misericordiosa ele fez questão de me treinar pessoalmente e me escolher a dedo para ser um dos líderes do Salão Cinzento. Faz muito tempo, Hashmaul. Muito tempo desde a última vez em que uma pessoa me irritou o suficiente para que eu deixasse de lado toda a minha misericordiosa. Mas você... você não terá misericórdia alguma! Eu vou fazer com que você se arrependa de ter feito mal aos meus amigos, Profano!

Uma gota de suor frio escorreu por seu rosto ao ouvir aquelas palavras, e por um momento ele se arrependeu de ter provocado tanto Odin. Não há dúvidas..., mas como? Quando? Quando foi que ele obteve isso?!

Quando foi que Odin obteve a Vontade do Soberano?!



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES!

*Alguns de vocês podem se lembrar disso, mas Hashmaul é um personagem que já foi mencionado na história antes desse arco. No último capítulo do Arco da Batalha do Salão Cinzento, "A Terra do Céu de Sangue", Gwynevere se lembra da missão na qual ela participou em que os maiores cavaleiros do Salão Cinzento - liderados por Odin - avançavam contra ele. Essa, no entanto, é a sua primeira aparição física na história.



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