O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 67
Traidor


Notas iniciais do capítulo

A traição não é um mistério. Ela é um medo. Algo que todos temem. Ninguém quer passar pela sensação de ver alguém que você ama te traindo. Seja por amor, por medo, por ganância... ninguém nunca ter nada haver com isso.

Mas e o Traidor? Será que ele aprecia a Traição? Ou será que isso dói nele, talvez tanto quanto dói no traído?



Segundo Andar do Pandemonium, “Labirinto Eterno”

– DENTRE TODOS AS PESSOAS, eu devo confessar que você era a última que eu esperava encontrar – comentou Behemoth, deixando seus olhos pousarem levemente sobre a mulher que estava diante dele. Levemente interessado, seu rosto moveu-se para a direita e para a direita afim de ter uma visão melhor da... “armadura” que cobria o corpo da cavaleira. – Parece que você mudou bastante desde a última vez que nos vimos.

– Todos nós mudamos. – Respondeu Teigra Blacktiger, cruzando os braços enquanto avaliava Behemoth com um olhar calmo e analítico. O Quarto Cavaleiro estava sentado no chão de pernas cruzadas, segurando seu massivo machado com sua mão direita. – Você incluso. Você sempre pareceu silencioso e retraído, Behemoth. Mas nunca tão melancólico.

– Hum. Melancólico, você diz? ... É, creio que eu realmente estou um pouco melancólico ultimamente – concordou ele, suspirando pesadamente ao dizer aquilo, como se estivesse completamente exausto. – É estranho. Quando eu recebi a missão de me infiltrar no Salão Cinzento, o meu pensamento era que eu queria que isso terminasse o mais rápido possível para que eu pudesse voltar para os meus companheiros. E agora que estou de volta com eles eu me sinto... triste. Desmotivado. Um intruso. Como se eu não fizesse parte deles.

– Hmm, você diz que você recebeu a missão de se infiltrar no Salão? Isso significa que você nunca fez parte do Salão de verdade?

– De certa forma, sim. Os meus companheiros provavelmente pensam exatamente dessa forma, mas francamente, as coisas não são tão simples assim – murmurou ele, balançando a cabeça. – Quando eu me infiltrei no Salão, eu realmente não fazia parte de vocês. E isso continuou por um bom tempo. Mas eu passei anos em meio a vocês. Não importa o quanto você tente resistir a isso ou os motivos que lhe façam querer impedir que isso ocorra, você é afetado pelo meio em que vive. Coloque um homem honesto em meio a ladrões, e ele eventualmente vai se tornar um ladrão, e o inverso também é verdade. Eu não queria me tornar um de vocês e fiz o possível para evitar isso... mas no fim das contas, eu acho que acabei me misturando aos outros de qualquer forma.

– E mesmo assim você nos traiu – apontou Teigra, inclinando um pouco seu rosto. – Por que você fez isso? Acredito que você fez ao menos alguns amigos no Salão. Mesmo que você tenha fingido boa parte do que aconteceu ali, existem coisas que não podem ser fingidas. A amizade entre você e Florian, por exemplo, era genuína, além de qualquer dúvida.

Essa foi uma pergunta que balanceou um pouco Behemoth, como Teigra pode ver. Ele tentou disfarçar, mas suas feições estremeceram um pouco ao ouvir aquilo, como se as palavras dela tivessem despertado alguma memória desagradável que ele tentava trancar nos confins da sua mente.

– Por que...? Isso deveria ser óbvio. – Disse ele, hesitante a princípio. Seus olhos se fecharam e grande homem respirou profundamente para se acalmar um pouco, antes de subitamente erguer seu machado e bater o cabo dele com força no chão, ainda usando apenas uma de suas mãos. Levantou-se lentamente, e mesmo com toda a grossa armadura azul que cobria seu corpo, Teigra pode ver os movimentos dos seus músculos por baixo da sua carne. – Motivos para fazer o que fiz não me faltaram Teigra. Em primeiro lugar, isso era algo necessário. A essa altura, você certamente deve ter ao menos uma noção de qual é o objetivo do Olho Vermelho. Nós não somos os vilões aqui. Nossos métodos tem uma tendência a parecerem negativos e são um pouco... extremos, sim, mas eles são usados porque são as melhores formas de lidar com os problemas diante de nós. No fim do dia, o Olho Vermelho não busca a riqueza ou o poder, mas apenas proteger a humanidade. Toda essa guilda, toda a nossa fundação e os nossos esforços, tudo isso existe pelo único motivo de proteger o futuro da humanidade. E para fazer isso, por vezes é necessário fazer coisas detestáveis. – Ele avançou um passo em direção a Teigra, mas não o suficiente para representar uma ameaça, e por isso a postura da mulher não se alterou em um centímetro sequer. – Você é esperta e racional, então você deve compreender o que estou falando bem. Os Corações são um perigo para a humanidade. Foi um grande erro apenas aprisiona-los quando eles foram derrotados, um erro que agora cabe a nós corrigir. Infelizmente, como o hospedeiro do Coração Azul, Kastor deve morrer pelo bem do mundo. Eu preferia que as coisas não tivessem de ser assim, mas infelizmente o nosso mundo é cruel de várias formas. Mas Odin não aceitaria isso. Ele é um bom homem, mas de um líder ele passou a ser um pai para os cavaleiros, principalmente para Kastor e Hozar, e ele não sabe separar as coisas de forma saudável. Tudo seria muito mais simples se ele pudesse agir de uma forma racional e colaborar conosco pelo bem maior, mas você e eu sabemos que isso nunca vai acontecer. Não importa o argumento que usássemos ou a aproximação que tentássemos, ele iria defender Kastor até o fim, e com ele viria o Salão Cinzento. Por isso nós tivemos de agir primeiro. Antes que as forças de Kastor e as de Odin pudessem se juntar, nós enfraquecemos vocês. Destruímos seu exército, matamos alguns de seus campeões. Isso não foi algo agradável, Teigra. Não foi algo do qual eu gostei. Mas foi algo necessário. E você pode ver isso, não pode?

Ele olhou para Teigra ao dizer aquilo, buscando alguma reação nela, e se desapontou com o que viu. Apesar de todo o discurso de Behemoth, a expressão de Teigra não havia mudado nem um pouco. A mesma expressão neutra continuava a reinar em seu rosto, e seus olhos calmos continuavam a fitar Behemoth como se ainda estivessem esperando pela resposta para sua pergunta. Por fim, ele acabou suspirando.

– E também... eu suponho que existe outro motivo pelo qual eu fiz o que eu fiz. Um bem mais simples. – Erguendo seu machado, ele o pousou sobre seu ombro sem demonstrar a menor dificuldade, ignorando o grande peso da arma. – Eles são meus companheiros, os membros do Olho Vermelho. São meus companheiros desde o início, desde muito antes de eu conhecer qualquer um de vocês. A minha lealdade está com eles. Mesmo que eu tenha criado alguma afeição por vocês, os meus laços com o Olho Vermelho são muito mais antigos e profundos do que qualquer coisa que eu possa ter criado com os cavaleiros. Isso já é razão o bastante para que lute por eles ao invés de por vocês.

– ... Sim, isso é – retrucou Teigra, sua voz sugerindo que ela havia pelo menos aceitado essa resposta. – Mas você compreende que isso faz com que sejamos inimigos agora, certo? Não espere misericórdia de mim.

O gigante não pode deixar de sorrir ao ouvir aquilo.

– Hum, eu imaginaria normalmente que seria eu que diria algo assim – contemplo ele, retirando seu machado dos ombros para começar a segurá-lo com ambas as mãos, assumindo uma verdadeira posição de batalha. – Quando ainda estávamos no Salão, eu fui declarado como Quarto Cavaleiro, Teigra, enquanto você recebeu o título de Sétima Cavaleira. E eu estava escondendo meu poder real naquela época para não chamar atenção indevida. Ainda assim... talvez eu esteja sendo um pouco arrogante demais ao dizer isso. Muito tempo passou desde então. E eu tenho certeza que você ficou mais forte desde então, não ficou?

– Fiquei. – Respondeu ela, simplesmente.

– Muito bem então – disse Behemoth, jogando seu machado e metade do seu corpo para trás afim de ajustar sua postura. – Mostre-me sua força!

Apesar de grande e forte, Behemoth era também muito ágil. Com um salto ele cobriu toda a distância que o separava da mulher, e brandido seu machado ele lançou um golpe vertical contra ela, carregado de força o suficiente para cortá-la em dois. Mas quando a sombra de seu machado havia caído sobre ela, Teigra já havia desaparecido. Hum? Sua arma acertou em cheio o chão, e força de impacto do golpe dividiu-se em três feixes que foram para norte, leste e oeste, destruindo o portão de ferro pelo qual ela havia entrado, criando profundas rachaduras em uma parede e quebrando meia dúzia de pilares, três de cada lado. Eu não sei se ela ficou mais forte, mas ela certamente está mais rápida, contemplou Behemoth, correndo seus olhos pelo ambiente em busca dela.

A sala era bem simples. Além de quatro dúzias de pilares que ficavam enfileirados a direita e esquerda e algumas caixas e barris de suprimentos que ficavam jogados em um canto, não havia muito ali. Ela era ampla, sim, mas só isso não era o suficiente. Não há lugar para ela se esconder aqui. Mesmo esses pilares, eles não servem. Eles são pilares estéticos, não de suporte; eles não são grossos o suficiente para esconder todo o seu corpo, e mesmo que fossem, eu deveria ao menos ser capaz de sentir seu cheiro ou coisa do tipo. Mas não há nada. Era como se ela tivesse desaparecido completamente. Ela não pode ter fugido, eu teria visto isso, mas ela também não demonstra sinal algum... maldição, aonde é que ela est-

– Procurando por mim? – Perguntou a voz calma da Sétima Cavaleira, fazendo com que imediatamente os olhos de Behemoth fossem um pouco para baixo. Teigra estava parada bem a sua frente, olhando-o em silêncio com um olhar que parecia demonstrar decepção e preguiça, como se ele estivesse dando sono nela. Mas... como?! Eu olhei aqui! Como ela fez isso?! O que ela fe-

Não teve tempo para concluir seu pensamento. Assim que os olhos dele caíram sobre ela, a cavaleira não perdeu tempo em saltar. Ela era pequena diante de um homem tão massivo quanto Behemoth, mas isso não a impediu de saltar contra ele e desferir um verdadeiro gancho voador direto no queixo do homem. E aquilo doeu. Mas que merda?! Pela constituição de Teigra ela não tinha direito nenhum de ser forte daquele jeito, mas isso não a impedia de estar carregando força o suficiente em seu braço para fazer com que Behemoth sentisse como se ela tivesse quebrado sua mandíbula com um único golpe.

E a maior surpresa ainda estava por vir.

Soco Foguete – foi o que ela sussurrou, e no momento em que isso foi dito, algo inacreditável aconteceu. O punho dela simplesmente soltou de seu antebraço, revelando uma espécie de buraco metálico estranho por trás daquilo, e da parte do punho que ficou vaga vieram chamas que queimaram com força o suficiente para impulsioná-lo com tudo para cima, fazendo com que ele tirasse Behemoth do chão e lançasse-o aos céus como se não fosse nada. Mas que merda é tudo isso?! O que diabos aconteceu?! Tentou resistir de alguma forma a isso, mas nem mesmo ele tinha força o suficiente para resistir a algo assim, e nem teve tempo para tal. Sem alguém lhe controlando diretamente o punho não teve tanta firmeza e controle quanto deveria ter, o que fez com que ele deslizasse para fora do queixo de Behemoth, e embora isso fosse por um lado bom já que significava que o homem não estava mais sendo arrastado para cima, isso também lhe colocava em uma queda livre em direção ao chão, algo que dava uma chance à Teigra que ele tinha certeza de que ela não iria desperdiçar.

E seus temores foram comprovados quando ele olhou para baixo enquanto caia e viu que ela havia assumido uma posição, criando uma base firme no chão com seus pés enquanto erguia seu braço sem punho em direção a Behemoth... e no espaço aonde seu punho deveria estar, agora se reunia um orbe de pura energia dourada.

Magnum Solaris. – Disse ela, um momento antes que toda a energia concentrada fosse disparada em uma única rajada dourada mirada diretamente em Behemoth. Oh, maldição! Sabia que aquilo era péssimo, mas em meio ao ar como estava ele não tinha forma alguma de esquivar-se daquilo. Cruzando seus braços à frente do corpo da melhor forma possível, Behemoth se preparou para o pior.

Tal como ele esperava, a força por trás daquela rajada era estrondosa. Ela lhe engoliu e lhe lançou muito longe com facilidade extrema, jogando-o contra a parede do outro lado da sala com tanta força que ele quase a quebrou por completo. Sua armadura havia sido completamente destruída, e mesmo suas calça e camisa haviam sido reduzidas a trapos pelo disparo. Ainda assim, de alguma forma ele ainda conseguiu aterrissar bem no chão, dobrando as pernas e apoiando-se também com os braços para reduzir o impacto. Isso... isso foi... muito perigoso. Seu rosto se ergueu raivoso, seus cabelos caindo sobre ele, e o que viu foi Teigra lhe contemplando calmamente, encaixando seu punho (que havia voltado para ela em algum momento) de volta no lugar enquanto caminhava lentamente em direção a ele. Maldição... ela está bem mais forte agora do que era antes. Eu vou ter de levar isso a sério. Se eu brincar, ela vai me matar, sem sombra de dúvidas.

Fechou seus olhos por um momento para se concentrar, e no instante seguinte sentiu seus músculos se expandirem. Havia feito essa transformação várias vezes no passado, mas até hoje não conseguia deixar de se sentir desconfortável com ela – não só pelo fato de seu corpo estar mudando bruscamente em um período minúsculo de tempo como também pelo fato de que aquilo simplesmente não parecia natural. Essa transformação me transforma em uma espécie de monstro. Embora talvez isso não seja errado. De certa forma, eram todos monstros.

– Você realmente melhorou, Teigra. Meus parabéns! – Elogiou Behemoth com sua voz alterada pela transformação. Havia perdido seu machado depois de ser atingido pela rajada de energia, mas não se preocupou; ao invés de brandi-lo, o que ele fez foi bater um punho no outro com força, e o estrondo resultante disso pareceu fazer com que toda a sala estremecesse. – A questão é.... isso é o suficiente?

SHELL: Presas é alguém que vocês já devem conhecer um pouco, não é? Se eu não me engano, Odin o enfrentou quando caiu na emboscada que eles haviam tramado para vocês, algum tempo atrás. Pelo que sei, Presas saiu bem ferido dessa luta. Esses ferimentos o deixaram de fora da ação por um bom tempo, ao ponto dele não participar da Batalha do Salão Cinzento, mas considerando o tempo que já se passou e o fato de que estaremos atacando o Pandemonium em breve, acho seguro afirmar que podemos esperar encontrar com ele de novo. Caso algum de vocês se encontre com ele, lembre-se de que ele não é um oponente que você pode enfrentar normalmente. Para derrota-lo vocês precisarão usar coisas como ataques surpresas, técnicas exóticas e qualquer tipo de plano que tenham debaixo das mangas. Presas é, no mínimo, um oponente bem chato de se enfrentar.



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES!

*Sim, o gancho que Teigra deu em Behemoth foi um Shoryuken, com a implementação de um punho foguete nele para deixar as coisas ainda melhores. Não precisa agradecer.



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