O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 65
O Anjo de Sangue


Notas iniciais do capítulo

Você sabe qual é a coisa mais assustadora e ameaçadora desse mundo?

Não é nenhum monstro.

Nem nenhum demônio.

Nem tampouco algum tipo de Deus cruel ou coisa do gênero.

A coisa mais assustadora do mundo... é a mais pura e completa insanidade.



Quinto Andar do Pandemonium, “Elísio”

– TCH... FUFUFU... FUFUHAHAHAHAHAHA! HAHAHAHAHAHA! – A gargalhada explodiu dos lábios de Balak, ecoando por toda a sala e fazendo com que os olhos dos três homens caíssem sobre ele. Ekhart, cheio de seriedade. Shell, indiferente. Kastor, surpreso e curioso. Os três observaram em silêncio o gargalhar do líder do Olho Vermelho, como se ele estivesse perdendo a sua mente.

Demorou um bom tempo antes que ele parasse, e por todo esse tempo os três apenas esperaram pacientemente. Era só Kastor que exibia claramente em seu rosto a curiosidade, mas essa era uma emoção compartilhada por todos que estavam ali. Cada um deles queria saber o porquê da gargalhada súbita, e por isso todos eles esperaram. Pouco a pouco Balak foi se acalmando, as gargalhadas indo ficando mais fracas até que elas parassem de vez quando o corpo dele estava “morto”, caído para frente sem força alguma, sustentado em pé apenas por suas pernas congeladas.

– .... Patético... – sussurrou ele entre dentes com um risinho. Sua voz soou tão baixa que ninguém foi capaz de ouvir direito o que ele tinha falado, mas no momento em que Kastor começou a se mover como que para se aproximar, Balak jogou de uma vez seu corpo de volta para trás e mostrou seu rosto novamente, agora temperado por um largo sorriso branco. – Patético! Isso é completamente, verdadeiramente, patético! – A voz de Balak enquanto ele falava soava deturpada e enlouquecida, como se ele tivesse perdido sua mente com tudo que havia acontecido. Com gestos desnecessariamente grandiosos ele moveu ambos os seus braços de forma a apontar com os dedos indicadores de ambas as suas mãos direto para Shell. – Glace! Eu sempre pensei que você era esperto! Desde os tempos do Torneio de Valhala, eu sempre lhe mantive em alta consideração! “Ele é mais perigoso do que parece”, eu pensei. “Ele é astuto e cuidadoso”, “ele é flexível e frio”, “ele é forte, bem mais do que deixa mostrar”. Mas aqui, agora, você me desaponta! Com todo o tempo que você passou perto de mim, com tudo que você viu, você ainda falhou em compreender algo tão básico e crucial! – Em um instante a louca feição perturbada que Balak tinha em seu rosto desapareceu para dar lugar a sua feição clássica. Os olhos calmos, o fino sorriso refinado e arrogante, o ar de serena superioridade. De alguma forma, isso tudo era muito mais assustador do que a aparente loucura de antes. – Eu nunca perco.

Tão breve as palavras haviam deixado seus lábios e os braços do mago se abriram, para a direita e para a esquerda. Das palmas abertas de Balak surgiu uma espécie de luz branca que brilhou intensamente. Mais uma vez o mago jogou sua cabeça para trás, dessa vez o bastante para que ele olhasse para cima, de pelo que Shell pode ver de relance, os olhos dele estavam brilhando em puro branco naquele momento.

Benção Divina. – Disse ele com uma voz calma que ecoou pelas paredes, e assim que essas palavras foram ditas, a luz branca se espalhou. Tomando a própria figura de Balak como um ponto de origem, a luz branca envolveu toda a sala em uma explosão luminosa forte o suficiente para fazer com que Shell fosse jogado para trás por ela.

Cego por toda aquela luz, ele pode fazer pouco mais do que girar em meio ar e aterrissar de alguma forma, firmando-se no chão com uma mão para não tornar a sair voando enquanto com seu braço livre cobria seus olhos. Maldição, eu estou completamente vulnerável nesse estado! Não ousava abrir seus olhos temendo perder a visão caso o fizesse, mas fez todo o possível para ficar no maior silencio possível e tentar se orientar através do som. Não teve muito sucesso nisso; por mais que Shell em si estivesse em silêncio, gritos de dor que vinham com as vozes de Kastor e Ekhart faziam com que não tivesse muito sucesso no seu plano. Maldição... Kastor... Ekhart..! Grr, eu me sinto tão impotente assim!

Assim que sentiu que a luz havia parado de atuar ele abriu seus olhos, e o que imediatamente lhe recebeu foi a visão de Balak caminhando de forma pomposa em direção a ele, de braços abertos e com seus olhos vermelhos, algo que deixava claro que a situação estava indo de mal a pior. Sua vontade era de manter seus olhos fixos sobre o mago para não o perder de vista, mas os gritos que ouviu de Kastor e Ekhart forçaram-no a voltar seu foco para eles. Os dois estavam no chão, ambos se debatendo; Ekhart havia regredido de volta a sua forma humana, e ambos os Hospedeiros arranhavam o próprio peito como se quisessem arrancar sua pele. Logo percebeu o porquê disso. Os peitorais dos dois homens estavam completamente queimados ao ponto de fumaça branca sair deles, e mesmo contando com habilidades regenerativas, não parecia que essas estavam fazendo muito por eles... ou, ao menos, não o suficiente.

– Por que tão surpreso, Shell? – Perguntou Balak, sorrindo daquela sua forma arrogante e provocante. – Eu sou um mago que lidera uma organização destinada a exterminar demônios. Certamente não é surpreendente que eu tenha algumas Magias Divinas em meu arsenal, não é?

Rangeu os dentes em resposta a isso e moveu rapidamente seus braços, esticando suas mãos em direção a Balak e liberando das palmas delas uma onda gélida que congelou tudo em seu caminho. O chão e o teto, todos foram transformados em gelo cristalino, e o mesmo aconteceu com Balak. Em não mais do que dois segundos todo o corpo do mago foi congelado, transformado em uma escultura de gelo que ainda trazia no rosto aquela mesma expressão arrogante, para sempre congelada.

Chegou a abrir um meio-sorriso ao ver isso, mas esse sorriso desapareceu no momento em o gelo ruiu sobre seu próprio peso, caindo em pedaços no cão enquanto um pouco fumaça escapulia por entre eles, em densidade demais e quantidade muito grande para ser qualquer coisa “natural”. Essa fumaça... não me diga que... isso foi um clone?!

Obteve a confirmação do seu pensamento no momento seguinte, quando uma mão pousou amigavelmente sobre seu ombro.

Gráviton.

Seu corpo foi direto ao chão com força o suficiente para que o lábio inferior de Shell se partisse e sangrasse com o impacto. Um gemido de dor escapou dele quando sentiu aquilo, aquela grande pressão sobre cada parte do seu corpo, como se tivessem colocado pesos de toneladas sobre cada membro dele. Tão... pesado...! O solo abaixo dele afundou enquanto sentia como se seu corpo estivesse sendo esmagado sobre o seu próprio peso.

– Ah, isso dói? Perdoe-me, Shell, mas tire lições disso também. Eu sei que a dor é desagradável, mas ela também nos ensina valiosas lições. Lições como “crianças não devem se meter nos assuntos de gente grande”, ou melhor ainda: “não provoque um inimigo que você não pode vencer”. – Balak disse aquilo enquanto contornava lentamente ao redor de Shell, olhando para o mago de gelo a todo momento com aquele seu sorriso superior no rosto, gargalhando levemente da situação na qual ele se encontrava, até parar em frente a ele. – Nesse momento, “Gráviton” está exercendo uma força gravitacional sobre o seu corpo cem vezes superior à que estamos sujeitos normalmente. Não pare de resistir a ela, ouviu? Afinal de contas, no momento em que você ceder, ela vai te esmagar.

Seus dentes rangeram com força ao ouvir aquilo, mas teve de ficar calado, simplesmente porque não conseguia abrir sua boca sem gemer de dor, e não queria dar esse prazer à Balak. Estava bem certo de que o Tecelão do Tempo havia dito o que disse já esperando alguma reação, mas apesar disso ele não demonstrou nada quando não deu resposta. Com uma postura calma e arrogante Balak caminhou até o meio da sala, o ponto central que o separava de Shell e dos demônios.

– Sabem, eu tenho que admitir que esse plano de vocês foi válido, de certa forma. Não, mentira. Estou talvez sendo um pouco arrogante aqui, não? Ele foi mais do que válido; ele foi esperto, muito esperto. Mostrar apenas parte dos que estavam aqui para que eu imaginasse que eles eram tudo, enquanto o outro que ainda se mantinha oculto para mim aproveitava-se de um momento de distração meu para fazer algo que me deixava completamente aberto aos outros. Esse é um plano bem bolado e bem executado. Vocês têm os meus parabéns por ele, Shell e demônios. – Congratulou Balak, gesticulando com seus braços enquanto falava e até mesmo chegando ao ponto de bater verdadeiras palminhas ao fim de tudo, embora a ironia e o escárnio desse ato não fosse perdido ou disfarçado. – Mas isso dito, vocês cometeram um erro gigantesco. Vocês me subestimaram. Vocês pensaram, mesmo que apenas por um momento, que vocês tinham uma chance de me derrotar. Estúpido, estúpido, um grande e bobo erro estúpido. Entendam isso logo; vocês não vão me derrotar. Vocês não podem me derrotar... ou, melhor dizendo, eu não posso ser derrotado. Tenho certeza que vocês se lembram de que eu já disse isso, mas eu tenho uma motivação para lutar aqui. O meu objetivo é muito importante, e enquanto ele não for alcançado, eu não posso me dar ao luxo de ser derrotado. Sendo assim, crianças, eu creio que vocês vão ter de aprender a lidar um pouco com a decepção e ter em mente que vocês não irão me derrotar, não importa o quanto tentem.

Não brinque comigo.... Havia passado tempo o suficiente com Balak para saber que uma das estratégias mais comuns do mago era agir de forma arrogante afim de provocar seus inimigos, mas mesmo tendo esse conhecimento, era quase impossível não se sentir enfurecido pelas palavras dele. O objetivo de Balak tem um ponto bem decente, mas a forma como ele tenta alcança-lo é totalmente deturpada. Se envolvendo no Mercado Negro, no tráfico de escravos, no contrabando e em assassinatos... matando pessoas que nunca fizeram nada a ninguém sem remorso, recorrendo a métodos horríveis e violentos para alcançar o sucesso... não importa qual seja o seu objetivo, ele não faz sentido se para alcança-lo você tem de pisar sobre pilhas de ossos.

– Mas, claro, eu também não sou tolo o suficiente para ser um daqueles que acredita que apenas uma causa justa será o suficiente para me dar sucesso em tudo – murmurou Balak, sem nunca parar de sorrir, movendo seus dedos como se estivesse controlando fantoches por fios. – Felizmente, vocês foram bem prestativos, sabiam? Vocês e essa sua “aliança” jogaram o meu joguinho perfeitamente, como bons bonequinhos estúpidos.

– Estúpida é a sua mãe! – Retrucou Kastor, erguendo-se com alguma dificuldade do chão, as queimaduras que ele havia sofrido graças à luz divina de Balak finalmente começando a serem curadas. Sabe... eu queria poder insultar Balak agora, ou no mínimo que alguém o insultasse, mas apelar pra mãe? Sério mesmo? Somos o quê, garotos de cinco anos? – Eu sei o que você está tentando fazer, Balak, e isso não vai funcionar! Você não vai nos confundir! Não importa o quanto tente nos convencer do contrário, nós sabemos que a realidade é que estamos estragando os seus planos aqui!

– A realidade, ou a mentira que você deseja que seja verdade? – Perguntou Balak, inclinando seu rosto em direção a Kastor com um largo sorriso nos lábios. – Kastor, não importa o quanto você tente se iludir ou no que você realmente acredita, a verdade é que por todo esse tempo vocês tem dançado ao tom da minha música. Ou será que você acha que foram surpreendentes nisso tudo? Admito que eu não esperava que vocês conseguissem de alguma forma ultrapassar as defesas do Pandemonium, mas isso não é mais do que um pequeno inconveniente, nada capaz de atrapalhar o meu plano. Afinal de contas, mesmo com o ataque de vocês direto a mim, os seus companheiros ainda estão assaltando diretamente o Pandemonium, não é?

– E você quer me dizer que foi seu plano desde o início que atacássemos a sua base? – Perguntou Kastor ironicamente, sorrindo também.

– Obviamente! – Declarou Balak, batendo palmas por um momento em animação. – Afinal de contas, por que você acha que eu ataquei o Salão Cinzento?

O sorriso de Kastor logo morreu ao ouvir aquilo, dando lugar para uma sobrancelha erguida em pura confusão.

– Não entendeu, Demônio Azul? Permita-me elaborar. Em nosso mundo, existem muitas criaturas. Humanos são apenas uma das várias raças dentro do nosso mundo, e mesmo dentre nós humanos existem algumas sub-raças, como os Druidas, os Gigantes, os Selvagens e outros mais. Além disso temos os animais e as criaturas mágicas, como você deve saber. E claro, temos mais além disso. Demônios, Bestas, Monstros... e Deuses e Anjos também. Claro, presumo que devemos tirar os “Deuses” da equação já que eles foram exterminados durante a guerra de duzentos anos atrás, mas fora isso, conseguimos ainda achar alguns descendentes dessas outras raças, mesmo que algumas estejam à beira da destruição. E isso inclui os anjos.

– Se refere aos Anjos Caídos? – Questionou Ekhart, olhando para Balak com uma expressão que misturava calma e dor enquanto parecia tentar se focar em fazer com que sua regeneração agisse mais lentamente sobre seus ferimentos. A regeneração dele é pior do que a de Kastor, notou Shell. Havia reparado nisso desde o momento em que sua estalactite deixou uma cicatriz sobre um dos olhos dele durante a Batalha do Salão Cinzento, mas agora isso era ainda mais perceptível; enquanto Kastor já estava praticamente completamente recuperado, Ekhart ainda exibia grande parte dos ferimentos que a luz de Balak havia causado.

– Em parte, sim – respondeu o mago. – Boa parte dos Anjos que abandonaram os Deuses em favor dos Demônios conseguiram sobreviver, escondendo-se no Plano Demoníaco como os covardes que são. Todos os Anjos Leais morreram durante a guerra, servindo os Deuses até o fim..., mas não existem apenas Anjos Leais e Anjos Caídos. Talvez vocês não tenham ouvido falar disso, mas existe uma criatura em particular que está entre esses dois, sem pertencer a nenhum.

No momento em que ouviu aquilo, os olhos de Shell se arregalaram. Uma criatura que está entre os dois? Ele não pode estar falando de.... Abriu sua boca para tentar falar, mas no momento em que fez isso ele perdeu a concentração em resistir, e suas palavras se transformaram em um grito agoniado quando sentiu o peso da gravidade esmagando seus ossos. Esse grito fez com que Balak se voltasse um pouco em sua direção, e vendo o sofrimento do Mago do Gelo, o Tecelão sorriu.

– Ora, parece que nosso amiguinho tem algo a contribuir para a nossa discussão! – Gracejou ele ironicamente. Seus dedos da mão direita estalaram, e então Shell sentiu todo o peso que sentia sobre seu corpo desaparecer de uma única vez como se nunca tivesse existido em primeiro lugar. – Bom, não se acanhe. Vamos lá, fale! Eu permito que você se junte a conversa.

Ouvir Balak falando daquela forma jocosa, tratando-o como se fosse uma criança, era algo que atacava diretamente o orgulho de Shell e fazia com que o mago ficasse cada vez mais irritado. Mas teve de engolir essa irritação. Ele é perigoso, perigoso demais. Eu não posso me dar ao luxo de cometer besteiras contra ele. Sem a gravidade sobre si, tinha agora uma chance de recuperar um pouco o fôlego e pensar num plano. Se para isso tinha que jogar um pouco o jogo dele, então esse era apenas um dos sacrifícios que teria de fazer.

– Eu sei do que você está falando... mesmo que isso não faça muito sentido... – usando seus braços como apoio, Shell ergueu seu rosto com alguma dificuldade, sentindo seus ossos quebrados a cada movimento. – Você não pode estar falando sério... invocar isso é impossível... você não pode invocar o-

Sua voz sumiu de forma súbita quando falava, ao ponto de seus lábios ainda se moverem na conclusão da palavra mesmo sem que o som saísse. Só depois disso foi que reparou no que aconteceu e levou uma mão a sua garganta, confuso.

– Tsc, tsc, tsc. Na-na-ni-na-não! – Fez Balak, balançando um dedo para a direita e para a esquerda em frente a Shell, zombando um pouco mais do Inquisidor. – Tudo bem se você quiser contribuir para a discussão, mas não estrague a surpresa para seus amiguinhos! Esse tipo de coisa deve vir acompanhada de impacto, sabe? Não é algo que pode ser dito assim, como se fosse algo qualquer. Veja, eu vou te mostrar como se faz.

Com um movimento rápido o Mago do Tempo girou em seus calcanhares, virando-se novamente para os dois Hospedeiros com um gesto grandioso exagerado, ambos os seus braços abertos. Quando ele falou, sua voz veio toda dramática e carregada de um tom de superioridade, como se fosse um político fazendo um discurso para as massas ignorantes.

– Kastor, Ekhart! Permitam-me versá-los um pouco sobre a história do nosso mundo, sim? – Ambos os demônios abriram a boca para falarem algo em resposta a isso, mas som nenhum veio da garganta deles. Essa magia... ele está usando a “Silêncio”? Essa normalmente era uma magia que magos usavam em infiltrações, feita para tirar todo o som de determinada coisa. Isso dito, não era incomum que professores do Colégio Branco usassem dela para castigar alguém ou simplesmente silenciar um indivíduo particularmente irritante. Um truque infantil... como eu pensei, ele está realmente nos tratando como crianças! – Como vocês devem saber, a Guerra dos Grandes foi bem grandiosa e brutal. Muito sangue correu nela, sangue o suficiente para que criassem histórias como a de que o céu das Terras Velhas se tornou vermelho devido a ele. Não sei quanta verdade existe nisso, mas eu sei que existe uma história em particular que é bem interessante. A história sobre um ser, um Anjo que lutava pelos Deuses e servia como um dos Comandantes das Forças Divinas, entre tantos outros que lutaram nessa guerra. Mas esse em particular era diferente, sabe? Você vê, os Anjos foram criados pelos Deuses afim de serem pouco mais do que ferramentas ao seu comando, peões nas palmas das suas mãos. E para peões, coisas como “consciência” e “sentimentos” são... desnecessárias. Então, os Deuses fizeram todo o possível para se certificarem de deixar esses de fora na criação dos Anjos.

“Isso dito, como vocês já devem ter compreendido pela criação dos demônios e tudo mais, os Deuses são realmente ruins em criar coisas que não acabem explodindo na cara deles. Isso foi literalmente o que causou a sua exterminação. Algo que faz você pensar sobre o porquê deles insistirem em cometer essa mancada. Mas, estamos saindo do foco aqui!

Ao criar os Anjos, os Deuses fizeram todo o possível para que eles não desenvolvessem consciência ou sentimentos. Mas isso não foi o suficiente. Anjos vivem por muito tempo, você vê, e nesse tempo muitas coisas podem acontecer. Na criação dos Anjos os Deuses espelharam-se em sua própria imagem, tal como fizeram com os humanos e os demônios, e embora eles tenham tentado mudar algumas coisas para fazê-los diferentes, há um limite para isso. Por mais que eles tenham tentado mudar, a essência ainda continua a mesma, e isso foi uma das coisas que garantiu que os Anjos eventualmente desenvolvessem justamente o que os Deuses menos queriam que eles desenvolvessem.

Com o passar dos anos, os Anjos foram desenvolvendo por conta própria consciência e sentimentos, mas isso não foi algo revelado aos Deuses. Como os Deuses queriam que os Anjos fossem ferramentas perfeitas, eles fizeram com que eles fossem leais, mas mais do que isso, eles fizeram com que eles fossem espertos e inteligentes. E essa inteligência superou a lealdade, ao ponto que os Anjos não revelaram aos Deuses o que estava acontecendo. Afinal de contas, eles conheciam o modo-operante dos Deuses. Eles sabiam que, caso revelassem sua situação, o melhor que poderiam esperar seria que os Deuses lhes trancassem para sempre em algum plano distante, mais provavelmente os matassem, e como você poderia ser leal a alguém com o qual nunca mais terá qualquer contato? Como um cadáver pode ser leal a qualquer um?

E com a guerra, essa consciência e sentimentos afloraram. Não necessariamente de uma forma uniforme, veja bem. Muitos Anjos traíram os Deuses durante a Grande Guerra, mas enquanto alguns abandonaram a causa dos Deuses por desgosto para com suas práticas e partiram em defesa dos humanos, outros foram movidos por coisas como ganância e orgulho e se aliaram aos demônios, e outros ainda se conservaram leais apesar de tudo e continuaram a lutar eternamente pela causa dos Deuses. Isso por si só deve ser o suficiente para lhe mostrar que há uma grande divergência entre o que cada Anjo fez, mas as coisas foram além disso. Teve Anjos que tomaram ações que não se caracterizavam em nenhum desses.

Um, em particular, foi um caso... interessante. Esse Anjo que eu mencionei que serviu como um Comandante das Forças Divinas, ele foi um Anjo que se conservou leal aos Deuses à medida que seus companheiros iam se revelando como traidores. Até aí nada muito estranho, se não por algo em particular. Lembra que eu disse que os Anjos criaram duas coisas? Consciência e sentimentos. Se vocês notarem, os sentimentos sempre se mantêm em um nível mais ou menos nivelado, mas a consciência funciona de forma um pouco diferente. Entre os casos que eu mencionei, ela basicamente variou entre extremos. Uma consciência mínima ao ponto de não se importar com a causa pela qual você luta desde que isso lhe dê lucro, e consciência extrema ao ponto de abandonar seu próprio criador afim de defender um povo que você vê como oprimido. Em geral, os Anjos geralmente tinham essa consciência nesses extremos. Mesmo dentre os que permaneceram leais a eles, eram poucos os que fizeram isso apenas por considerarem a causa dos Deuses justa. A maioria fez isso por não se importar, ou por medo, ou simplesmente ainda não tinham consciência e eram movidos pela pura lealdade que os Deuses haviam instalado neles. Mas o Anjo da nossa história, ele se mostrava peculiar por um único motivo:

A consciência dele era apenas tão grande e forte quanto a sua lealdade.

Talvez vocês consigam imaginar o que isso significa, mas permitam-me expressar isso em palavras para não deixar dúvidas. O Anjo sabia que o que estava fazendo era errado, sabia que sua causa não era justa. Ele detestava o que fazia e sofria com suas ações, mas era incapaz de voltar-se contra o desejo dos Deuses devido a lealdade que eles haviam imposto a ele. Na maioria dos casos, à medida que a consciência e os sentimentos iam surgindo os Anjos iam tendo sua lealdade aos Deuses abalada, o que fazia com que ela fosse enfraquecendo cada vez mais até chegar a um ponto em que eles podiam literalmente opor-se aos seus criadores. Mas esse não foi o caso para esse Anjo, e por isso ele sofreu, detestando o que fazia, mas preso em eterna servidão.

Até que, um dia, toda essa situação alcançou o seu ponto culminante. Um dia aquilo tudo se provou demais; gritos demais, choros demais, dor demais, desespero demais. E a mente desse Anjo, já fragilizada por tudo que ele havia presenciado, quebrou de vez, e junto com ela foi tudo. Qualquer consciência, qualquer lealdade, qualquer moral. Tudo se foi, e no lugar disso, restou apenas uma coisa.

Um eterno e extremo desejo pela carnificina.

Pelas mãos desse Anjo, milhares de Anjos caíram. Ele era apenas um Comandante, mas ele matou Generais, Arcanjos e até mesmo um Deus-Menor. Humanos também, e demônios. Bestas, animais, monstros, criaturas mágicas. Para ele, já não fazia mais diferença. Para ele, tudo era apenas carne em um açougue, e ele agora era o açougueiro. A única coisa que importava era a sensação de cortar algo, o cheiro de sangue em suas narinas, a visão da luz morrendo nos olhos de alguém. Fortalecido pela sua insanidade, muitos chamaram esse Anjo de ‘Anjo Louco’. Alguns também o apelidaram de ‘Anjo da Morte’.

Mas o nome pelo qual ele realmente ficou conhecido é ‘Anjo de Sangue’”.

Uma pressão foi sentida por todo o ambiente no momento em que Balak disse aquelas palavras. Kastor e Ekhart pareceram não notar ela, mas eles não eram magos; Shell era, e por isso ele era mais perceptível a mudanças em meio a mana. Essa pressão... ela é o tipo de pressão que normalmente sentimos quando algum mago próximo está realizando um feitiço de invocação. Por exceção de que... essas pressões geralmente eram muito fracas. Magos em geral apenas as sentem quando ainda são inexperientes. Depois que você entra de fato no mundo da magia, você entra em contato com tanta coisa que uma pressão como essa passa a ser algo insignificante. Da mesma forma que as pessoas não reparam em sua própria respiração, a maioria dos magos não reparava em pressões como essa. Para que algo assim seja perceptível a esse ponto mesmo para um mago experiente como eu... a escala disso tem que ser muito grande.

– Agora, o mais interessante de tudo: essa história não é um conto de fadas, mas a mais pura realidade! – Declarou Balak, gesticulando enquanto falava para expressar seu ponto com ainda mais convicção. – O Anjo de Sangue realmente existiu, e existe até hoje. Deuses, Humanos, Demônios... ninguém nunca conseguiu mata-lo, e por isso ele vaga até o dia de hoje. E em lugares aonde o cheiro do sangue reina, aonde grandes quantias de pessoas morrem, ele costuma se mostrar.

Mais uma vez a pressão veio, ainda mais forte do que antes. Ao longe, Shell sentiu uma presença, e seus olhos se ergueram juntamente com os de Kastor e Ekhart. Pelo buraco que Kastor havia criado na invasão eles puderam ver o céu acima de suas cabeças se tornar vermelho como o das Terras Velhas, mas ao contrário do céu daquela terra que apesar de sua cor estranha parecia natural, aquilo era claramente artificial. O céu e as nuvens estavam tornando-se vermelhos cada vez mais rápido e se contorcendo em torno um do outro, assumindo uma forma que lembrava a um redemoinho, com um único buraco de um vermelho ainda mais forte e brilhante no meio de tudo. Um único Olho Vermelho.

– Durante a Batalha do Salão Cinzento, o Anjo de Sangue não se mostrou – continuou Balak, mesmo sabendo que a essa altura ninguém estava prestando atenção no que ele dizia. – Não teve incentivo suficiente, eu temo. Em uma situação normal, centenas de milhares de pessoas devem morrer em um grande banho de sangue antes que ele aparecesse. Aquela Batalha simplesmente não teve essa dimensão, tal como essa não tem. Mas existem formas alternativas de chamar a atenção dele. Um mago particularmente habilidoso poderia, teoricamente, ser capaz de invocar o Anjo de Sangue usando suas habilidades para invoca-lo como a uma besta normal, desde que ele cumprisse os requisitos básicos disso: um mínimo de duzentas mortes em um mesmo local e uma quantia exorbitante de mana.

Estavam todos distraídos demais para ver isso, mas ao dizer aquelas palavras, um sorriso verdadeiramente diabólico se abriu no rosto de Balak.

– Bom, eu tenho um suprimento infinito de mana, sou um dos seis magos mais fortes do mundo, e por mais que vocês possam não ter notado isso, eu me dei ao trabalho de contratar vários mercenários e reunir vários membros de guildas menores aqui. Inúteis incapazes de fazer um arranhão num guerreiro de verdade, sim, mas eu não preciso que eles façam mal a ninguém. Eu só preciso que eles morram nas mãos das forças da sua pequena aliança. E, acreditem se quiserem... parece que acabamos de obter a nossa ducentésima morte.

Ouvir aquilo fez com que três pares de olhos se movessem imediatamente para Balak, mas já era tarde demais. Quando eles caíram sobre ele, a energia fluindo ao seu redor já era quase que palpável. Uma energia avermelhada e tenebrosa, capaz de fazer com que até mesmo o guerreiro com os mais frios nervos suasse frio. Com aquela energia fluindo ao redor dele, Balak parecia mais um demônio do que Kastor e Ekhart juntos, mas aquela não era hora de reparar nisso.

Invocação de Nível Cinco – anunciou ele, erguendo uma de suas mãos aos céus pelo buraco no teto. Por um momento, todo o mundo pareceu brilhar em vermelho. – Anjo de Sangue.

E foi então que aquilo veio.

Do “Olho” no meio dos céus, algo disparou. Por alguns momentos aquilo veio envolto por uma energia vermelha de forma a tornar impossível ver do que se tratava exatamente, mas de qualquer forma, “ver” era desnecessário. Todos sabiam o que era aquilo.

Primeiramente isso se chocou contra a barreira em alto ar que cercava o Pandemonium, o que fez com que por um momento os dois ficassem em uma disputa de forças. Isso não durou muito. Logo a energia que cercava aquela criatura serviu para criar um buraco na barreira por um momento, tempo o suficiente para que ela passasse, e isso pareceu servir para fazer com que o avanço dele fosse ainda mais rápido. Quando a velocidade dele aumentou, nenhum dos três foi capaz de sequer acompanhar o seu movimento.

Antes que pudessem se dar conta de qualquer coisa, os três foram forçados a cobrir os rostos com seus braços graças a poeira que se ergueu no momento em que o Anjo de Sangue aterrissou, bem do lado de Balak.

“Bizarro” não servia nem para começar a descrever aquela criatura. A sua forma era humanoide, mas muito maior do que qualquer homem deveria ser; mesmo ajoelhado como ele estava, ele era facilmente maior do que qualquer um dos homens na sala, e cada uma das asas que se estendia de suas costas eram ainda maiores, indo de pouco acima do seu calcanhar até ao menos dois palmos acima da sua cabeça. Seu “corpo” parecia ser constituído de nada mais do que sangue, e esse nem ao menos tinha uma forma sólida; era como se a criatura que o Anjo um dia havia sido tivesse se banhado tanto em meio ao líquido da vida que eles haviam acabado por si tornar apenas um. O sangue constituía absolutamente tudo nele, desde as suas asas à sua armadura e passando até mesmo ao que deveria ser sua própria carne, misturando tudo em uma única forma. Pelo que conseguia ver das formas daquela criatura, a “armadura” que era usava era uma espécie de resquício do seu tempo como um Anjo em meio aos exércitos divinos, algo que outrora havia sido uma pesada peça de algo similar a aço e ferro. Essa “armadura” cobria praticamente todo o corpo da aberração, deixando apenas um pouco da sua “carne” a mostra, algo que apenas perceptível por um olhar atento que prestasse atenção nas alterações de nível. Em cada uma de suas mãos a criatura trazia uma grande espada de cerca de um metro e setenta de altura por vinte e cinco centímetros de largura, cada uma delas tão grande quanto um homem, e ambas feitas de puro sangue também. O que deveria ser o rosto da criatura era coberto pelo elmo de sua armadura, ocultando a maior parte de suas feições, mas mesmo assim algo se destacava em meio a isso; os olhos brilhantes e brancos do Anjo, que variavam fixamente entre os três de forma mais do que perturbadora.

– O meu plano principal nessa batalha sempre foi deixar que vocês matassem pessoas o suficiente para invocar o Anjo de Sangue, e então deixar que ele cuidasse da exterminação de meus inimigos – disse Balak, gesticulando delicadamente com as mãos enquanto falava, o sorriso indo de orelha a orelha. – A única coisa que vocês mudaram nisso tudo, meus caros, é que vocês morrem primeiro agora.

SHELL: Dentre os membros do Olho Vermelho, eu devo afirmar que Tristah é de longe a mais... enigmática. Aquela mulher é estranha, pura e simplesmente. Sempre calma, sempre sorridente, sempre totalmente despreocupada. Ou ao menos, aparentemente, de forma bem superficial. Francamente, eu diria que a verdade é algo bem mais profundo e assustador do que pode parecer à primeira vista. Ela nunca eleva a voz ou muda a tonalidade dela, mas você sempre sabe exatamente qual é a emoção que ela está transmitindo, e isso assusta. Muito. E a forma como ela olha para você... eu sou capaz de jurar que ela vê alguma coisa na gente quando olha nos nossos olhos, algo profundo, talvez algo que você nem saiba que existe em você. Isso dito, independentemente do quão bizarra ela possa ser, não a subestimem. Nunca cheguei a vê-la em ação, mas já ouvi rumores de que ela é a segunda pessoa mais forte do Olho Vermelho, atrás apenas de Balak. Não duvido nada deles.



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES!

*O Anjo de Sangue é o primeiro anjo a aparecer na história abertamente, apesar de que não o primeiro anjo a aparecer nela em geral. Será que algum de vocês consegue adivinhar quem é o outro?



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