O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 6
T.i.t.a.n.


Notas iniciais do capítulo

Yo! Trazendo pra vocês aqui o primeiro capítulo dessa pequena sequência, hehe. Seguindo as votações, iremos acompanhar Odin com o sobrevivente, hehe.

Agora, por demanda popular, ficou o seguinte:

Kastor vai para o Mercado de Escravos (dois votos a favor disso, dos três recebidos)
Hozar, por sua vez, vai para a Mansão (os votos ficaram empatados, mas não sobrou lugar, então vai esse)

Sobre os grupos, ficou definido que:

Kastor vai com Anabelle
Hozar vai com Teigra

Kyanna, Duke e Bryen, no entanto, ficam indecisos devido ao fato de que tiveram dois votos nos três para que fossem pro grupo de Kastor e um para que fossem pro grupo de Hozar. Sendo assim, farei da seguinte forma; rolarei 1d4 para cada um deles, sendo que se cair 1 ou 2, o personagem vai com Kastor, e se cair 3 ou 4, ele vai com Hozar. E por sinal, depois que tivermos um personagem a mais acompanhando Hozar ou dois personagens a mais acompanhando Kastor, o restante automaticamente vai para o outro grupo, entendido? Sendo assim, vamos lá!

Kyanna - 2 (Grupo de Kastor)
Duke - 3 (Grupo de Hozar)
Bryen - Automático

Sendo assim, os grupos ficam!

Kastor, Anabeth, Kyanna e Bryen - Mercado de Escravos
Hozar, Duke e Teigra - Mansão

Mas, sem mais delongas... vamos agora para o capítulo!



– Ahn? – fez a velha senhora que cuidava daquela padaria, erguendo uma sobrancelha em confusão ao ouvir a pergunta de Odin. – Você quer se encontrar com aquele homem? Mas por que você iria querer algo assim?

– Motivos... um pouco pessoais, minha boa senhora – foi a resposta de Odin, sorrindo amavelmente para ela. Eu nunca pensei que, na minha idade e posição, eu iria chamar alguém de senhor ou senhora. Mas, supunha que isso era apenas educado da sua parte. Afinal de contas, eu tenho pouco mais de sessenta. Ela deve ter seus oitenta ou noventa anos. – Ele... pra ser sincero, ele é um parente meu, ainda que um pouco distante. Filho do filho do irmão mais velho do meu pai. Acontece que, bem, nossa família tem ficado um tanto quanto menor ultimamente, e isso tem motivado os que sobraram de nós a procurar uns aos outros. E aconteceu que, através de um amigo, ouvi falar sobre o que aconteceu com ele. Algo terrível. Terrível! Por isso eu vim aqui. Quero tentar ajuda-lo, da forma que eu conseguir.

A velha não deu uma resposta para isso; ao invés disso, tudo que ela fez foi afiar seus olhos de forma suspeita, como se não acreditasse em uma palavra do que ele havia dito ali. Ouviu um estalado atrás dele, e nem sequer precisou virar-se para ser capaz de dizer que aquilo era Breath, acertando um tapa no próprio rosto. Hmm... talvez, pensando bem, um cavaleiro gigante só com um olho acompanhado por três mercenários não pareça realmente alguém que está procurando um parente. Tinha de trabalhar na qualidade das suas mentiras.

– Que seja, tanto faz – disse a senhora, dando de ombros. – Não me importo realmente com ele. Se você quer acha-lo tanto assim, procure na frente da loja de artesanatos do Nial. Ele deu pra ficar ali agora, de uns tempos pra cá.

Artesanatos do Nial, hum? Pensou em perguntar também para ela aonde era aquele lugar, mas quando olhou para ela novamente, viu que os olhos da velha lhe encaravam de uma forma que parecia gritar para que ele saísse dali. Ela provavelmente não vai querer responder minhas perguntas. O mais provável é que ela só queira que eu vá embora.

Felizmente, ele era muito bom em ignorar a vontade dos outros quando lhe convinha.

– Como eu chego lá? – perguntou ele de forma inocente.

Subitamente, dezenas de veias sanguíneas ficaram a mostra por todo o corpo da velha, como se cada uma delas estivesse prestes a explodir. A senhora tinha uma vassoura em mãos que ela estava usando para varrer sua loja, mas o cabo de madeira dela não tardou a explodir na mão daquela mulher, tamanha a pressão e força que ela exerceu sobre ele. Sentiu suor frio escorrer por seu rosto, e só sentiu isso piorar ainda mais no momento em que viu a fúria nos olhos da senhora enquanto ela lhe encarava, seus dedos tremendo e sofrendo espasmos como se ela estivesse lutando para se conter ali. Talvez... talvez irritar ela não tenha sido necessariamente a melhor decisão da minha parte.

– Siga a esquerda saindo da loja – sussurrou a velha, em um tom tão baixo e tão cheio de ódio que aquilo mais parecia um grunhido do que tudo. – Você vai seguir esse caminho por um bom tempo, até chegar à quarta esquina que vira a direita. Pegue ela. Depois disso, não deve demorar muito para que chegue até lá.

Sair daqui, seguir a esquerda até ver a quarta a direita, pegar a direita e depois seguir reto, certo? Não me parece muito difícil. Agradeceu a senhora com um aceno de sua cabeça e virou-se para ir embora dali... mas antes que desse um passo para fora daquele lugar, sentiu a mão dela fechar-se ao redor de seu braço.

– Espere aí, mocinho – disse ela, ainda no mesmo tom que lembrava um grunhido de antes. Outra coisa que eu nunca pensei que aconteceria comigo nessa minha idade; ser chamado de “mocinho”. – Você vem aqui, me incomoda, me interroga por informações... e não me dá nada em troca? Nem sequer dá voz à um “obrigado”?

– Obrigado! – disse rapidamente Odin, olhando para ela com verdadeiro medo em seu olhar aqui. Tenho de ter cuidado aqui, pensou ele. Em uma situação normal, eu simplesmente assumiria que eu sou muito mais forte do que essa mulher, mas acontece que ela não é apenas uma mulher. Ela é uma mulher irritada. E mulheres irritadas são assustadoras, muito, muito assustadoras!

– Um simples obrigado não basta! – exclamou a senhora, e isso foi o suficiente para que Odin quase visse um demônio surgir atrás dela; um demônio grotesco e monstruoso, feito da pura ira feminina. – Você tomou meu tempo aqui! O mínimo que você deve fazer é comprar alguma coisa para fazer com que isso não seja um desperdício total!

– Mas... mas... eu não quero comprar nada aqui – protestou Odin com voz manhosa. A velha não disse nada em resposta... mas ao mesmo tempo, conseguiu ver aquela velha erguer uma de suas sobrancelhas de forma ameaçadora, ao mesmo tempo que os dedos dela se estalaram subitamente de forma assustadora.

=====

Mais de vinte minutos depois da sua discussão com aquela senhora, seguia pelas ruas daquela cidade em direção a loja de Nial com uma bisnaga enfiada em sua boca, algo que ele havia sido forçado a comprar pelas mãos daquela velha da padaria. A bem da verdade, em retrospectiva, talvez não tenha sido realmente algo tão ruim assim que eu tenha comprado esse pão. Quero dizer, eu não precisava dele, e acho que a velha me cobrou duas ou três vezes mais que o normal, mas ei! Esse é um bom pão. Gostoso. Crocante. Saboroso. Gosto desse pão.

– Senhor Odin? – chamou gentilmente a voz de um dos seus mercenários, alguém que Odin logo reconheceu como sendo Denis. Virou-se levemente em direção ao homem ainda mastigando seu pão, parecendo desatento, mas na verdade prestou atenção ao que aquele homem tinha a dizer. Ele é alguém que merece minha atenção. Toda a minha atenção. Entre os três mercenários que havia contratado para servirem como uma escolta para ele, Denis era de longe o mais calado e misterioso dele. Era um homem suave pelo que Odin havia visto, alguém com um tipo de jeito malandro, sempre sorrindo e fazendo pequenas piadas... mas não confiava nele. E os olhos dele fazer com que eu só possa pensar que essa minha desconfiança é uma coisa boa. Por mais que aquele homem risse e brincasse, seus olhos nunca acompanhavam seus sorrisos; enquanto seus lábios mostravam alegria, seus olhos permaneciam sempre calmos e sérios, sem demonstrar emoção alguma. Essa é a marca de um homem que esconde o seu verdadeiro eu. Um homem assim não é alguém no qual você pode confiar. Pra ser sincero, eu não iria ficar realmente surpreso nem se ele se revelasse, no fim das contas, um membro do Olho Vermelho ou coisa do tipo. Mas mesmo caso fosse esse o caso, ainda era bom pra ele manter aquele homem por perto. Afinal de contas, é isso que diz aquele ditado, não é? Mantenha seus amigos por perto, e seus inimigos mais perto ainda. – Creio que aquele é o homem que você procura, não é? – e com aquelas palavras, ergueu um de seus dedos para apontar na direção que seus olhos indiferentes fitavam.

Os olhos de Odin seguiram na mesma direção, e não demorou nem um momento para que ele se desse conta de que, aparentemente, Denis estava certo ali. Em frente a uma construção modesta feita de madeira, encostado na parede enquanto fitava o horizonte com olhos desolados e mortos, um homem de cabelos e olhos negros vestidos em trapos podia ser visto. Em seu queixo, um cavanhaque ficava a mostra para todos ali, uma visão um tanto quanto estranha em um mendigo como ele. Mendigos não tem acesso à coisas como navalhas ou coisa do tipo, o que significa que eles não possuem maneira de cuidar de seu cabelo e barba. Era por isso que, na maioria deles, esses dois eram grandes e espessos. No entanto, os cabelos desses homens são curtos demais, e sua barba é muito bem arrumada para que alguém possa acreditar que ela é natural. Isso significava algo bem simples; aquele homem não era um mendigo há muito tempo.

Fez um rápido sinal para que seus mercenários mantivessem uma certa distância, e depois disso aproximou-se calmamente do mendigo, retirando outra bisnaga do saco de pães que ele havia comprado.

– Aqui – disse ele, oferecendo a bisnaga para aquele homem. Os olhos dele se ergueram para fitar o rosto de Odin. – Você deve estar com fome, não é? Nada sustenta alguém como um bom pão fresco.

Por um momento, simplesmente não soube dizer o que aquele homem iria fazer. Esperava que ele aceitasse e comesse a bisnaga, mas viu ele estremecer visivelmente no momento em que viu a arma e armadura de Odin. Isso é algo que eu previ, no entanto. Não era realmente de se estranhar que um mendigo se sentisse amedrontado ao ver alguém de armadura; afinal, em cidades, esses constantemente sofriam abuso por partes de guardas e afins. Eu provavelmente passaria uma primeira-impressão melhor se eu tivesse me mostrado pra ele sem algo como a armadura, mas isso seria simplesmente imprudente demais da minha parte. Existiam muitas pessoas no mundo que tinham vários motivos para querer a vida de Odin, e ele não se sentia necessariamente tentado a dar uma chance a elas de realizar seus desejos.

Entretanto, todas as suas preocupações logo se provaram desnecessárias. Apesar de ter tido um momento de hesitação antes daquilo, o homem no fim acabou estendendo suas mãos, e no momento em que ele fez isso Odin pode ver dezenas de cicatrizes nas palmas delas, como se várias adagas tivessem a retalhado de mil e uma formas diferentes. Isso já não é algo que se vê em todos os mendigos, observou Odin, curioso. Será que isso foi algo feito pelos guardas? ... Não, não, não pode ser. Pelo que me parece, esse homem é mendigo a pouco tempo, e essas cicatrizes me parecem velhas. É impossível que os guardas tenham feito isso. Não sabia o que exatamente havia causado aquilo, mas estava bem certo de que isso era uma herança da vida daquele homem antes de se tornar um mendigo.

– M-muito obrigado... – murmurou o homem de forma fraca, segurando a bisnaga com tanto cuidado e amor que quase parecia que ele estava segurando um bebê. – Isso... isso vai ajudar.

Sorriu ao ouvir aquilo. A sensação que se tem quando se ajuda alguma pessoa necessitada assim... ela é muito, muito boa. No entanto, infelizmente, não estava ali apenas para fazer caridade. Eu preciso de informações. É por isso que eu, Hozar e Kastor estamos fazendo isso. Tal como os outros dois estavam em outros lugares fazendo a sua parte, ele também tinha de fazer a parte dele ali. Foi por isso que, assim que o homem começou a comer, se ajoelhou para ficar ao nível daquele homem.

– Qual é o seu nome? – perguntou Odin de forma delicada. Tenho de tomar cuidado aqui agora. Havia feito um primeiro-contato; o que tinha de fazer agora era jogar suas cartas de forma correta e conquistar a amizade daquele homem. Ele não vai me dizer o que eu quero saber imediatamente. Para que isso ocorra, eu preciso fazer com que ele se sinta confortável o suficiente para falar comigo sobre isso.

– ... Salazar – respondeu o homem, depois de engolir um pedaço da bisnaga e manter um momento de silêncio. – Meu nome é... Salazar. – e como que para se esconder logo em seguida, aquele homem voltou a atacar a bisnaga como se estivesse morto de fome. O que, pra ser sincero, pode muito bem ser verdade.

– Salazar, hum? – contemplou o Cavaleiro Negro. – Um nome exótico. Interessante. Sua mãe deve ter pensado nele pra você por algum tempo, não é? – não obteve resposta para isso, e por tal, permaneceu por um momento e silêncio. Muito bem, parece que não vou ir a lugar nenhum tentando falar da mãe dele, então, vejamos... do que podemos falar? Não tinha muitas ideias ali... até lembrar-se de algo. – Diga... notei que você tem algumas cicatrizes em suas mãos, Salazar. Alguma... alguma coisa aconteceu com você?

Isso pareceu chamar a atenção daquele homem. Por um minuto ele chegou até mesmo a parar de comer para olhar para Odin, e logo em seguida ele olhou para as suas próprias mãos, como se só tivesse notado aquelas cicatrizes nelas agora.

– As cicatrizes... – disse ele, pensativo. – Elas... são de treino. Eu treinava com adagas. Fazia malabarismo. Quando eu estava treinando, algumas vezes eu errava, e aí as adagas me cortavam. Mas eventualmente eu melhorei. Melhorei e me tornei parte do espetáculo da tru... – e subitamente, as palavras daquele homem morreram em sua garganta. Por um momento seus olhos se arregalaram como se ele tivesse acabado de se lembrar de algo terrível, e ele foi bem rápido em abaixar sua cabeça de novo.

Estamos chegando no meu ponto de interesse, pelo que parece, refletiu Odin, olhando bem para aquele homem enquanto coçava seu queixo com uma de suas mãos. Talvez seja hora de mudar um pouco minha abordagem. Haviam coisas para as quais uma certa gentileza era melhor, mas da mesma forma, também haviam coisas que necessitavam de uma abordagem um pouco mais forçosa.

– Salazar – disse ele, colocando um pouco mais de aço por trás de sua voz, embora nem de longe o suficiente para realmente amedrontar aquele homem. – O que aconteceu, exatamente?

O homem não deu resposta. Ficou completamente quieto, e por um momento Odin pensou que ele havia ignorado sua pergunta... mas foi então que viu o corpo daquele homem tremer, balançar como se alguma força invisível estivesse lhe chacoalhando violentamente. Ele está tendo convulsões? De puro nervosismo? Aquilo não era algo completamente impossível pelo que sabia, mas ainda assim... tinha de ser algo extremamente sério para fazer isso com alguém. Raios partam. O que fizeram com esse homem, afinal de contas?

Olhou ao redor. Ainda não tinham muitas pessoas próximas deles, mas cada vez mais passantes estavam parando para olhar o que se desenrolava ali, olhar o que estava acontecendo. Isso lhe incomodava profundamente. Maldição, isso não é bom. Havia abandonado sua capa já que, em uma cidade, aquilo iria chamar atenção mais do que tudo, mas ainda assim, estava escondido ali. Milhares de coisas ruins podiam acontecer se fosse descoberto de Odin Wynthers estava ali, em uma cidade localizada tão ao sul de Fredora. Não posso me dar ao luxo de chamar a atenção.

Virou-se rapidamente para os mercenários que havia contratado como escolta e fez um sinal para eles. A compreensão brilhou nos rostos deles imediatamente, e isso foi tudo que ele precisou. Rapidamente alcançou o homem a sua frente com uma de suas mãos, e no momento em que isso aconteceu, cinco pessoas desapareceram no meio da cidade, para a surpresa de todos os cidadãos que estavam ali.

=====

O corpo de Salazar bateu de costas com a parede de concreto daquele lugar com força, fazendo com que o homem soltasse um grunhido de dor. Em uma situação normal ele ficaria preocupado com aquilo e pediria desculpas por ter agido de forma tão dura, mas naquele momento, estava simplesmente irritado demais para fazer algo assim. Essa foi por pouco. Pouco demais. Não gostava de passar por apertos como aqueles. Mas, suponho que não há nada que eu possa fazer quanto a isso, não é?

Virou-se de novo para Salazar, mas dessa vez, no momento em que que seus olhos caíram sobre aquele homem, ele imediatamente se encolheu como se fosse um animal encurralado, uma ovelha ou coelho diante de um tigre ou coisa do tipo. Franziu o cenho ao ver aquilo, mas não podia realmente reclamar. Bem, considerando tão rápido eu me movi e a força que mostrei carregando esse homem até aqui, não julgo que posso ficar realmente surpreso pelo fato dele estar assustado. Mas ainda assim, isso era algo bem problemático. Não obtive praticamente nada desse homem, e agora é capaz que ele se sinta muito menos propenso a me dar informações do que antes. E simplesmente não podia se dar ao luxo de ter toda a sua viagem até ali tendo sido inútil no fim das contas.

– Salazar – chamou ele. O simples som da sua voz foi o suficiente para fazer com que o homem tremesse, pelo que ele pode ver. Isso não é um bom sinal. – Está disposto a falar comigo agora, Salazar? O que foi que aconteceu? O que aconteceu com você?

O homem só fez se encolher ainda mais. Quando Odin tentou se aproximar dele, ele se encolheu mais ainda, chegando até mesmo ao ponto de gemer em voz baixa como se o Cavaleiro Negro estivesse o ferindo. Raios partam, isso não vai ser fácil. Coçou a cabeça, incomodado, e tentou pensar no que fazer ali agora... mas antes que tivesse tempo o suficiente para pensar em qualquer coisa ali, ouviu um resmungo de irritação vindo da garganta de Breath. Ah, não.

– Mas que diabos está acontecendo aqui?! – reclamou o mais jovem e cabeça quente dos seus mercenários, Breath “do fogo”, aproximando-se de forma irritada com passos largos e duros. – Ei, Odin! Você está sendo leve demais com esse cara! Seja um pouco mais duro com ele! Interrogue-o, pelo amor dos Deuses, não faça simplesmente algumas perguntinhas gentis pra ele!

Estalou sua língua ao ouvir aquilo. Merda. A situação já estava ruim e complicada o suficiente por si só; não precisava da agressividade de Breath piorando as coisas ali ainda mais.

– Breath – disse ele, lutando para manter sua irritação longe da sua voz, tanto pelo bem da sua conversa com Salazar quanto pelo bem da sua relação com o próprio Breath. Gosto desse cara, mas tenho de admitir... as vezes, essa agressividade dele me irrita. – Fique fora disso.

Infelizmente, as leis divinas ditavam que Breath nunca deveria ouvir o bom senso.

– Não me peça pra ficar de fora disso! Pelo amor dos Deuses, você está sendo muito bonzinho aqui! Bonzinho demais!

– Isso não é algo que cabe a você decidir, Breath – apontou Zetsuko, cautelosa, pousando sua mão sobre uma de suas espadas. A mais velha e experiente dos três mercenários, desde que havia contratado os serviços dela, ela havia servido como uma espécie de mãe ou irmã mais velha para o grupo em si, principalmente Breath. Nos vários ataques de fúria e agressividade de Breath, era ela que sempre acalmava o mais novo, embora soubesse muito bem que haviam limites de até onde era possível acalmar aquele homem apenas com palavras. – Odin é o que nos contratou. Ele que paga nosso salário. Não estamos aqui para dizer a ele como fazer as coisas. Estamos aqui simplesmente para fazermos o que nos for ordenado.

– Acredite em mim; eu não estaria dizendo nada sobre isso se eu não soubesse que simplesmente não estamos indo a lugar nenhum! – exclamou Breath, furioso, jogando ambos os braços para o ar. – Ele pode passar o resto do dia e toda a noite falando com esse cara desse jeito, e isso simplesmente não vai adiantar em nada! Esse cara não vai nos dizer nada se ficarmos sendo bonzinhos assim! Se queremos conseguir alguma coisa dele, temos de pegar mais pesado!

– Na verdade, pegar pesado ou leve vai fazer pouca diferença aqui. Salazar está com medo demais de nós para falar alguma coisa a vocês. – aquela voz desconhecida ressoou por aquele lugar como se estivesse o preenchendo. Viu Salazar subitamente parar de se encolher. Viu ele erguer seu rosto, viu seus olhos se esbugalharem e, logo em seguida, ouviu o grito dele, um grito estridente e sonoro como se estivesse vindo do fundo da sua alma, como se ele fosse um homem desesperado diante da própria morte. Sentiu o dono da voz sorrir. – Você se lembra de mim, não se lembra, Salazar?

Seu rosto virou-se lentamente, ao mesmo tempo que seus mercenários fizeram o mesmo. Do outro lado da sala, à cerca de quinze ou vinte metros de distância, estavam reunidos três homens.

O primeiro deles era um indivíduo aterrorizador. Um homem grande o suficiente para competir com Odin, tendo pelo menos dois metros de altura e seu corpo coberto por cicatrizes, com uma que cortava seu olho direito de cima a baixo chamando a atenção especial de Odin. Seu físico era musculoso, algo digno de um guerreiro, e seus cabelos castanhos eram volumosos, longos e espetados. Seus olhos eram vermelhos e agressivos, e um sorriso sedento de sangue brilhava em seu rosto, como se ele parecesse tirar um prazer imenso no mero pensamento de matar todos ali. Em sua mão direita jazia uma lança grande e pesada, algo que lembrava as grandes lanças de cavalaria pesada do mundo, enquanto na direita um grande escudo-torre de aço como os das grande legiões do passado jazia em prontidão.

O segundo homem parecia menos agressivo que o primeiro, mas ainda assim, de alguma forma, ele passava a impressão de ser mais intimidador ainda para Odin. Era alto e corpulento, com cerca de um e noventa de altura, e seu corpo era coberto por uma armadura rústica de ferro negro. Botas, pernas, cintura, peito... a armadura era feia e grossa, mas cobria todo o corpo daquele homem, por exceção de sua cabeça – devido à falta de um elmo – e de seu braço direito. Em sua cintura ele trazia uma pequena adaga vermelha de empunhadura rústica de ferro puro e uma lâmina que não deveria ter nem quinze centímetros, e aparentemente essa era sua única arma, algo que conquistou um erguer de sobrancelhas de Odin. Aquele homem tinha cabelos negros curtos e ainda espetados, parecendo recém-cortados, e de forma similar sua barba parecia recém-aparada; a única parte realmente visível dela eram os fios que originavam-se de suas suíças e seguiam, grossos, por todo o contorno do seu rosto, até por fim de juntarem-se e protenderem-se, orgulhosos, do queixo duro dele.

E o terceiro homem... o terceiro homem era quem, imediatamente, Odin compreendeu como sendo o dono daquela voz. Era um homem de cabelos prateados até que razoavelmente longos, caindo tanto sobre suas costas quanto sobre seus ombros quanto sobre a frente de seu rosto, ameaçando até mesmo ocultar os olhos daquele homem... embora as órbitas douradas que ele tinha brilhassem de forma maliciosa, afastando esse perigo por completo. Sua pele era um pouco pálida, lembrando até mesmo a pele de um cadáver, mas apesar disso, o homem parecia muito saudável. Não era tão alto quanto os seus companheiros, estando provavelmente em qualquer coisa entre um e setenta e um e oitenta, mas isso não o impedia de ter um físico claramente bem desenvolvido. O que usava era um colete azul-marinho na parte de superior do corpo com um zíper parcialmente aberto, deixando parte de seu peito a mostra, bem como calças longas e grossas de coloração também azul. No entanto, o que mais chamava atenção nele não era isso, mas sim três outras coisas. A primeira delas era o estranho colar que ele trazia ao redor de seu pescoço; um olhar aonde estavam dependuradas inúmeras presas de animais diversos como tigres, leões, ursos, panteras... e lobos, lobos principalmente. A segunda se tratava dos dedos do homem, dedos absurdamente longos para um humano, com unhas tão grande e afiadas que pareciam serem capazes de cortar como adagas, e a terceira... a terceira característica era a mais simples, e ainda assim, a mais enervante. Esses caninos que esse homem mostra quando sorri, longos e afiados... eles definitivamente não são naturais.

Ficaram em silêncio, tanto o grupo de Odin quanto o do homem prateado. A única coisa que podia ser ouvida ali eram os gritos de Salazar, gritos de pânico, medo e desespero, gritos que faziam com que ele parecesse uma alma atormentada mais do que tudo. Isso está começando a me incomodar. Virou seu rosto levemente em direção a Salazar e deixou que a força de seu espírito agisse sobre ele. Não demorou muito para que os olhos daquele homem se tornassem brancos como leite, e um momento depois seu corpo desabou no chão, completamente desacordado.

– Que cruel da sua parte – disse a voz do homem de cabelos prateados de forma zombeteira. – Nunca pensei que você tivesse um coração tão duro assim, meu amigo. Embora, talvez, isso seja algo que eu devesse esperar de você. Afinal de contas, você é o Cavaleiro Negro.

Não deu resposta alguma a isso. Apenas virou novamente seu rosto em direção a ele e fitou aquele homem com seu único olho, um olhar tão profundo e afiado que seria capaz de causar calafrios no mais duro dos guerreiros.

O homem ignorou-o completamente.

– Que assustador! – disse ele, com descaso, erguendo suas mãos e moldando seu rosto como se ele tivesse tomado um susto, apenas para logo em seguida voltar a sorrir. – Bem, bem. Chega de provocações por hora, não é? Creio que ainda não nos apresentamos para você, não é, Cavaleiro Negro? Que grosseria da nossa parte! Vejamos... esse aqui... – disse ele, gesticulando na direção do maior dos três, o homem das cicatrizes – é Maverick Graves, chamado de “Lança-Tonelada”. Um cara simpático, ele, embora... um pouco animado demais, na minha opinião. – deu de ombros como se estivesse dizendo que não se importava com isso, e logo sua mão moveu-se para o outro, o que parecia um cavaleiro. – Esse, por sua vez, é Cleus Jombaek, também conhecido como “Pássaro de Fogo”. Talvez você já tenha ouvido falar dele. Ele foi bem famoso em seus dias, pelo que sei. – Pior que já, pensou Odin, sem demonstrar nada de seus pensamentos em seu rosto. Pássaro de Fogo... ouvi rumores sobre ele anos atrás. Um mercenário jovem, mas extremamente capaz. Pelo que os rumores dizem, ele desapareceu depois de bater de frente com Ember Vyhler... mas aparentemente ele não morreu, como todos imaginaram. – E eu, por minha vez – disse o homem, gesticulando em direção a si mesmo – sou... bem, “quem eu sou” depende bastante de “quem você é”, sabe? Alguns me chamam de “Presa-da-lua”. Outros me chamam de “Presa-de-prata”. Eu, francamente, prefiro ser chamado apenas de “Presas”. – sorriu, mostrando novamente seus caninos avantajados. Apesar de seus sorriso parecerem simpáticos, zombeteiros e divertidos, Odin simplesmente não conseguia deixar de sentir que cada um deles trazia também uma ameaça escondida. – Prazer em lhe conhecer, Odin Wynthers.

A pronuncia do nome de Odin serviu como um sinal para todos ali. No momento em que isso foi dito, viu Breath, Zetsuko e Denis colocarem-se em posição de batalha, prontos para avançarem contra aquele homem ao seu sinal. Mas não deu o sinal de ataque. Não, ainda não. Ainda é cedo demais. Aquele homem era, obviamente, sua única forma de obter informações ali. Não estava disposto a perder a chance de descobrir alguma coisa por agir de forma precipitada.

– Quem são vocês? – perguntou ele, em um tom que deixava claro que não admitiria uma falta de resposta para essa pergunta.

– Essa é uma pergunta idiota da sua parte, Odin – gracejou Presas. – Você sabe quem nós somos, não sabe? – seus sorriso se alargou ainda mais, e seus olhos dourados brilharam. – Somos o seu inimigo, aqueles que você tem caçado. Somos o Olho Vermelho, os que mataram seus cavaleiros.

Tinha boa ideia disso desde o início. Não fazia sentido o modo como eles agiam se não fosse esse o caso. Ainda assim, aquelas palavras, aquela confirmação dita de uma forma tão pomposa, como se aquele homem estivesse orgulhoso disso... isso fez o sangue de Odin ferver. Foi uma verdadeira luta para ele manter-se imóvel, segurar-se para não saltar contra aquele homem e esmagar o rosto dele com seu punho.

– O que vocês fizeram com Salazar? – questionou ele, sua voz saindo mais grossa e rude dessa vez, graças a sua irritação.

– Sala– quem? Ah, sim, o cara que você nocauteou. Bem, nada com ele, pra ser sincero – disse Presas, erguendo as mãos como quem diz “não me culpe”. – Quero dizer, eu posso ter retalhado e devorado toda a trupe que o acompanhava, mas não toquei num fio de cabelo dele. Para que meu objetivo fosse alcançado, eu tinha de deixar ao menos um sobrevivente?

– Objetivo? – repetiu Odin, confuso. Ele atacou uma trupe... por quê? O que exatamente ele queria com isso.

– Kastor e Hozar passaram um tempo com essa trupe, sabe? – informou-lhe o homem de forma bem casual. – Dois meses atrás, antes do Torneio de Valhala começar, eles passaram uma noite aqui. Pelo que sei, eles fizeram até um pouco de amizade com esse cara. Sendo assim, atacar a trupe me pareceu uma boa ideia. Eu matava todos e me certificava de fazer um espetáculo bem aterrorizador, mas deixava um escapar vivo. Ele ia pra cidade, espalhava a história, e aí era só esperar. Eventualmente, eu pensei, Kastor e Hozar viriam até aqui para investigar as coisas, e quando eles estivessem falando com esse cara eu teria a chance perfeita de bolar uma armadilha para eles. – parou após dizer isso, lançou uma olhadela para Odin e depois deu de ombros de novo. – Bem, parece que as coisas não ocorreram exatamente como eu planejei, mas que seja.

– Kastor e Hozar... – o pensamento de um dos dois caindo naquela armadilha não era algo que agradasse Odin nem um pouco, principalmente considerando que isso havia chegado perigosamente perto de ocorrer. Ainda bem que decidimos que eu seria o que viria pra cá. – Diga-me; por que vocês estão caçando meus cavaleiros? Kastor, Hozar, Teigra, Adelien, Umbar... por que vocês estão os atacando?!

A única resposta do homem a isso foi sorrir de forma provocante.

– Sinto muito, Odin, mas isso é pra eu saber e você descobrir – disse ele, erguendo uma de suas mãos ao nível de seu rosto. Por um momento perguntou-se o que isso queria dizer, mas obteve sua resposta rapidamente. Viu a mão daquele homem sofrer algo como se fosse uma convulsão, viu os nervos, músculos e ossos no interior dela começarem a se mover como se estivessem se rearranjando, e subitamente, a mão daquele homem mais parecia a garra gigante de algum tipo de animal selvagem. – Apesar de que, creio que você não terá tempo para tal. Você não é exatamente o que eu queria quando fiz essa armadilha, mas vai servir. Matar você, um dos líderes do Salão Cinzento... isso nos ajudaria bastante nessa altura.

Foi a vez dele rir ali.

Riu muito, intensamente, sem se importar com os olhares confusos que todos ali lançaram para ele. Riu tanto quanto quis, aproveitando-se disso para livrar-se de parte da sua raiva através da risada. Não posso me dar ao luxo de ficar com raiva aqui. Raiva faz com que você faça coisas estupidas, e não posso vir com estupidez pra cima de caras como esses.

– Você? Me matar? Por favor, não me faça rir! – exclamou Odin, apontando para Presas com um de seus dedos. – Você acha que vocês três são capazes de me matar? Nenhum de vocês é tão forte quanto eu, posso dizer isso só com um olhar, e além do mais... vocês tem desvantagem numérica. São três contra quatro aqui.

– É claro que podemos lhe matar, Odin; se não pudéssemos, eu não estaria tentando – disse Presas por sua vez, como se isso fosse algo de lógica básica. – Além do mais... creio que você errou a conta.

Não entendeu o que o homem quis dizer com aquilo. Errei a conta? Isso quer dizer que... tem mais um inimigo aqui?! Olhou rapidamente ao redor tentando localizar um possível inimigo oculto, mas não conseguiu ver nada. Talvez... Salazar! Virou seu rosto rapidamente para Salazar, pensando que ele pudesse ser um inimigo ou pudesse estar sendo controlado por alguém, mas também não viu nada ali. Maldição, aonde está, aonde está o inimigo?!

Obteve sua resposta rapidamente.

O estrondo ensurdecedor fez com que ele olhasse para cima imediatamente. Acima dele, a metade superior do prédio aonde estava simplesmente não existia mais. Havia sido quebrada, arrancada brutalmente dali por uma forma monstruosa. Pedaços de concreto e escombro caíram do ar como se fossem chuva, mas não seu a menor atenção para eles. Estava simplesmente focado demais no que seus olhos viam para dar a mínima para qualquer outra coisa ao seu redor. Não... não pode ser...

Acima deles estava um gigante de pedra. Não tinha ideia de quão grande aquilo era, mas sabia que aquela coisa era monstruosa. Um único golpe de sua mão havia sido o suficiente para arrancar a parte superior daquele prédio como se ele não fosse nada, e a simples mão daquilo era tão grande quanto cinco casas de tamanho mediano juntas. Seu corpo era humanoide e feito de pura rocha e terra, como se ele fosse algum tipo de humano, mas o rosto daquilo afastava completamente qualquer possibilidade de que isso fosse remotamente humano. Não tinha um rosto, a bem da verdade; sua cabeça parecia não ser nada mais do que um bloco de pedra gigante com uma boca nele cheia de dentes – cada um do tamanho de um elefante – e um maxilar que se abria muito mais do que o que era humanamente possível. Aquele monstro mostrou isso quando abriu a boca e urrou, um rugido tão alto que Odin sentiu como se ele pudesse ser ouvido do outro lado do continente.

– É quatro contra quatro, Odin – disse Presas com um sorriso triunfante no rosto, enquanto olhava para aquele monstro. – Creio que T.I.T.A.N. assegura isso, não é?



Notas finais do capítulo

Hehehehehe.... HEHEHEHEHEHE!

Oi.