O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 55
As Últimas Preparações


Notas iniciais do capítulo

Bom, finalmente chegamos, pessoal!

Caso vocês estejam se perguntando quanto a isso, sim. Esse é o último capítulo do Arco do S.O.M.B.R.A.. E o próximo capítulo (ao menos cronologicamente falando - posso fazer uma História Paralela como próximo capítulo ainda), meus caros amigos, será o começo do grande climax dessa história. O Assalto a Pandemonium está prestes a começar, e quando ele começar, saibam que estaremos chegando perto do fim do Olho Vermelho.

Uma má notícia que lhes trago, no entanto, é que após o fim dessa história eu demorarei um tempo a lançar a "Guerra das Guildas". Um bom tempo. Tenho outros projetos, como vocês bem sabem, e tenho de me dedicar um pouco a eles. Isso significa que essa história ficará sem continuação por pelo menos alguns meses. Então, não estranhem se vocês não virem uma continuação dela logo em seguida.

Mas, isso é algo para depois! Por hora, deixo vocês com esse capítulo!



SEUS OLHOS CORRERAM CURIOSAMENTE PELOS TRÊS HOMENS QUE LHE CERCAVAM, tentando manter-se o mais calmo possível apesar da situação em que se encontrava não ser algo que tornava isso fácil. Zaniark, Byron, Steelex. Os três eram pessoas que ele conhecia, e por isso sabia que eles não eram pessoas que ele podia subestimar. Mas... por que eles estão aqui? Zaniark e Byron deveriam estar mortos pelo que eu ouvi dos rumores do que aconteceu em relação ao Mercado de Escravos, e mesmo deixando isso de lado, ainda tem toda a questão do porquê deles estarem aqui no Salão Cinzento. Será que eles estavam ali em algum tipo de missão? Será que Balak por algum motivo não tinha confiança no S.O.M.B.R.A. e enviou alguns de seus homens para acompanharem a situação? Esse certamente parece ser o caso.

– Hadvar, eu te fiz uma pergunta – disse Byron, uma sombra de impaciência ressoando por trás de suas palavras, embora ele em si não fizesse nenhum gesto que pudesse sugerir hostilidade ou coisa do tipo. – Você me conhece, não conhece? Se você se lembra do tipo de homem que eu sou, você deve saber que eu não gosto de me repetir.

– .... Eu estou me retirando do campo de batalha – respondeu Hadvar com firmeza, sendo completamente honesto com suas palavras. Eles vão saber caso eu minta, e de qualquer forma, não é como se fosse difícil para eles descobrir a verdade. Ao menos não desde que eles tenham olhos. – Essa batalha já está decidida; nós, o S.O.M.B.R.A., fomos derrotados pelo Salão e seus mercenários.

– Nada surpreendente – resmungou Steelex entre dentes, olhando para Hadvar com claro desprezo no olhar. – Vocês do S.O.M.B.R.A. se acham demais. “Melhores mercenários”... uma derrota como essa era mais do que necessária para ensinar um pouco de realidade a vocês.

– Harclay, fique em silêncio, por favor – murmurou Byron em uma voz baixa, quase que um sussurro, mas ainda forte o bastante para deixar claro que aquilo não era um pedido, mas sim uma ordem. Os olhos de Steelex dispararam para ele quase que imediato, fitando o homem-fumaça sem fazer esforço para disfarçar sua hostilidade, mas Byron daria mais atenção a uma formiga do que ao seu companheiro. – E o que, Hadvar, fez com que você pensasse assim? O que exatamente aconteceu para que você assumisse que a batalha foi perdida e abandonasse os demais?

– Ulrock e Neshka foram derrotados – apontou primeiramente Hadvar, fazendo o seu melhor para não deixar que a palavra “abandonasse” lhe afetasse realmente. Eu não gosto dessa palavra, mas já é tarde demais para que eu faça qualquer coisa em relação a isso. E além do mais, eu meio que abandonei Robert e Flavent, sim. Não que eu me importe muito com eles, de qualquer forma. – Um deles está morto e a outra, como vocês devem ter visto, está tão ferida que eu fiz o esforço de retirá-la do campo de batalha e escondê-la para tentar melhorar as suas chances. Quando eu me retirei agora a pouco estávamos enfrentando um total de nove oponentes de alto nível, sendo que dois deles haviam sido os responsáveis pela derrota de nossos outros companheiros, e convém afirmar que um desses é alguém que saiu completamente ileso de uma luta contra Ulrock. Nos dividimos em três unidades para enfrentar nossos oponentes de forma melhor, e eu particularmente consegui derrotar um dos meus oponentes, mas não tive tanto sucesso contra os outros dois. Nossos oponentes são poderosos e os reforços não param de chegar. Quando eu me retirei, uma mulher que creio ser uma mercenária havia chegado e acabado de se envolver na luta. Não sei como estão Robert e Flavent, mas não consigo imaginar que eles estejam tendo um bom desempenho contra os demais inimigos, e mesmo que eles estejam se saindo melhor, o fato ainda permanece que nossos oponentes contam com reforços de alto nível disponíveis para nos enfrentar, bem como que ainda não chegamos nem perto de achar o nosso objetivo aqui. Em outras palavras: a missão foi um completo fracasso, apesar de nossos melhores esforços.

Terminou seu discurso já esperando por uma reação dos três que lhe observavam, mas para a sua surpresa quase não obteve isso. Byron – que era com quem falava – não fez nada mais do que acenar lentamente com o rosto em sinal de compreensão, e nem mesmo Steelex e Zaniark demonstraram qualquer coisa, ficando completamente impassíveis perante a tal. Por um instante Hadvar se viu confuso por aquilo, mas isso foi coisa rápida; um instante bastou para que ele entendesse o que acontecia, e essa compreensão fez com que a confusão em seu rosto se aliviasse até se tornar uma calma calculista.

– Você já sabia disso, não é? – Perguntou ele, sem realmente esperar uma resposta. – Mas como?

O rosto de Byron moveu-se na direção de Steelex como que em resposta a sua pergunta, fazendo com que o homem grunhisse e praguejasse entre dentes. Ainda assim, ele dispôs a responder; fechou sua mão direita em um punho, concentrou-se um pouco e murmurou algumas palavras em sussurros, e então moveu seus olhos para Hadvar.

– Mostre seu aço, Terror Celeste – disse ele, e apesar de suas palavras, Hadvar sabia que aquilo não era um desafio.

Não entendia bem o que ele estava fazendo, mas de qualquer forma decidiu por seguir suas orientações. Retirou sua bainha da cintura, segurou-a a frente de seu corpo e lentamente puxou sua espada. Nem precisou tirá-la completamente para que entendesse o que Steelex queria dizer.

Mais ou menos no meio da lâmina estava um grande olho branco, bem aberto e atento, movendo-se rapidamente de para todos os lados como se buscasse ver todo o possível.

– Minha Aloeiris me concede a habilidades de manipular metais em geral – anunciou calmamente Steelex, erguendo sua mão direita e abrindo-a a mostra de Hadvar para mostrar que nela jazia o que parecia ser um olho similar ao que via em sua própria espada, apesar de que esse “olho” exibia coisas ao invés de vê-las. Mais especificamente, esse olho exibia o que parecia ser justamente o que o olho na espada de Hadvar via, como se fosse uma espécie de transmissor estranho. – Em geral eu apenas uso o aço já que ele é o mais útil em batalha, mas meus poderes abrangem uma grande quantidade de metais... e apesar de eu normalmente não os usar para nada mais do que a batalha, eles possuem uma grande quantidade de outros usos. A capacidade de criar Olhos Observadores em metais é apenas um desses usos.

Entendo. Sendo assim, fica fácil entender como eles aparentemente já sabem de tudo. Se Steelex tinha a habilidade de criar olhos em metais, então era fácil imaginar que eles haviam usado daquilo para ver tudo que acontecia na cidade. Mas isso não responde algumas outras perguntas mais importantes. E, da mesma forma que eles queriam respostas antes, Hadvar também queria respostas quanto a intenção deles.

– Por que vocês estão aqui? – Perguntou ele primeiramente, dirigindo seu olhar mais para Zaniark e Byron, deixando Steelex um pouco de lado. – Não digo isso apenas no sentido do que os três estão fazendo aqui, mas também para saber exatamente o porquê de vocês estarem vivos. Eu ouvi rumores, Zaniark, Byron. Todos eles concordavam que vocês haviam morrido, envolvidos no incidente que houve no Mercado de Escravos de uma cidade.

– Creio que é por isso que esses eram apenas rumores – murmurejou calmamente Byron de forma cínica, como se ele planejasse fingir que aquilo não tinha nada a ver. – Tome isso como uma lição, Hadvar. Rumores tem lá o seu valor, mas eles são uma fonte de informações da qual você deve sempre desconfiar. De cada dez rumores, nove são mentiras e o restante é um exagero, sempre.

– Você realmente planeja me dar uma resposta tão pobre assim, Byron? – Questionou incredulamente Hadvar, fitando seu velho amigo com uma sobrancelha erguida. Em resposta a isso, o Fumante só fez dar de ombros.

– Acredite em nós quando dizemos que gostaríamos de lhe dar uma resposta melhor do que essa, Hadvar – acrescentou Zaniark, vendo que a discussão entre Byron e Hadvar não estava progredindo de forma muito boa, mantendo um tom de voz que sugeria que ele estava tão insatisfeito em ter de ficar de segredinhos quanto Hadvar estava em ter de ficar se satisfazendo com resposta tão vagas e cheias de mistérios. – Mas o fato é que... bem, esse simplesmente não é o caso. Não pode ser o caso, sabe? Você me conhece bem, sabe o tipo de homem que eu sou e sabe que eu te daria uma resposta decente se isso fosse possível, mas isso não é algo que podemos responder. Ao menos não agora.

Não ficou satisfeito por aquilo... mas compreendeu um pouco melhor a situação com as palavras de Zaniark. Então, isso é algo que eles não podem me dizer? Algo relacionado a Balak ou coisa do tipo? Não apreciava segredinhos nem um pouco, mas supunha que devia no mínimo tentar ser um pouco compreensível com algo desse tipo. Bom, suponho que a forma como eles sobreviveram não me importa, de qualquer forma. E não é como se eu não tivesse outras perguntas mais importantes a fazer.

– E o que vocês pretendem fazer agora que me viram aqui, considerando que sabem o que aconteceu? – Perguntou Hadvar com toda a calma do mundo, guardando novamente sua espada no cinturão e cruzando os braços à frente do corpo. – Eu já sei que vocês estão aqui para verificar os acontecimentos e estabelecerem um bom relatório para Balak, já sei que a intenção de vocês com as perguntas era averiguar se eu iria dizer a verdade ou tentar inventar alguma mentira. Mas o que vocês planejam fazer agora com as informações que tem? Devo esperar pela lâmina da guilhotina?

– Bem, isso seria meio complicado – gracejou Zaniark, sorrindo enquanto falava. – Guilhotinas saíram de circulação há um bom tempo, sabe, Hadvar? Fazem uma grande bagunça, elas. Mas talvez possamos arranjar algo para substituir uma, não é, Steel-

– Não me envolva nas suas piadinhas, Raio Dourado – interrompeu Steelex, lançando um olhar aborrecido de canto de olho ao seu companheiro. – Ou melhor: não faça piadas. Você não tem talento para isso.

– Por que iriamos lhe matar, Hadvar? Não vejo razão alguma para isso – respondeu Byron, ignorando completamente os outros dois que lhe cercavam enquanto tragava mais um pouco do fumo de seu cachimbo com a sua calma de sempre. – Nossa missão aqui foi de supervisionar o trabalho de vocês do S.O.M.B.R.A., mas só isso. Nossa única ordem foi de eliminar vocês caso traíssem o Olho Vermelho por algum motivo, mas vimos o suficiente para sabermos que você não tem intenção alguma de fazer uma tolice como essa. Se você quiser ir embora, bem, não temos problema com isso, nem qualquer ordem para impedi-lo. Vá em frente.

Não pode deixar de erguer uma sobrancelha ao ouvir aquilo. Eles... seriamente não tem nada contra eu fazer algo assim? Em geral, esse tipo de conduta não era bem visto em mercenários, e ainda se somava a isso o fato de que, pelo que sabia, Robert havia recebido parte do pagamento adiantado – ele geralmente cobrava um adiantamento antes de fazer qualquer coisa, e devido a reputação que haviam firmado esses pedidos raramente eram negados. Não acho que Balak vá ficar muito feliz em saber que ele gastou tanto dinheiro para nos contratar apenas para que metade do grupo fosse morto e a outra metade fugisse sem completar seu trabalho. Isso somado ao fato de que Steelex em particular parecia mais do que disposto a ser um pouco mais... “agressivo” era o suficiente para que se sentisse um pouco inseguro quanto a isso.

– Ei, se você está com medo, saiba que não precisa temer nada da nossa parte, Hadvar – tranquilizou Zaniark, notando a desconfiança do Terror Celeste. – Se você não entendeu isso até agora, Balak não tinha realmente a intenção que vocês fossem bem-sucedidos aqui. Quero dizer, não é como se ele tivesse sabotado seu grupo para fazer com que vocês fossem derrotados, mas francamente, por mais que o sucesso de vocês fosse ser ótimo, ninguém estava colocando suas apostas em cima do S.O.M.B.R.A., simplesmente porque os inimigos aqui eram fortes e numerosos.

Ouviu aquilo fez com que os olhos se Hadvar se arregalassem por um momento antes de se tornarem afiados como espadas. Suas mãos alcançou a empunhadura de sua espada, segurando-a com uma força motivada por uma fúria crescente. Isso não passou despercebido aos olhos de Steelex, que não perdeu tempo em revestir um de seus punhos com aço em preparação para uma possível batalha, mas Hadvar não se assustou com isso.

– Seus miseráveis... vocês estão falando sério com isso?! – A ira em seu olhar foi para os três, mas mais focada em Zaniark e Byron. Não conhecia Steelex e não gostava dele pelo que havia visto do homem até agora, então não se importava tanto com aquilo vindo de alguém como ele, mas considerando que pessoas como aqueles dois estavam envolvidas em algo assim, não conseguia deixar de lado o gosto de traição que sentia na boca. – Zaniark... Byron... eu esperava mais de vocês, seus malditos! Vocês também são mercenários, não são?! Como podem deixar que fossemos enviados em uma missão suicida!

Byron permaneceu impassível como sempre perante a sua acusação, mas Zaniark teve uma reação mais acalorada como se podia imaginar... embora não a que esperava. Pensou que o Raio Dourado iria demonstrar algum grau de culpa pelo que havia feito, mas embora ele tenha inicialmente se mostrado surpreso pelo repente de Hadvar, ele foi rápido em mostrar sua própria fúria. Seus dentes rangeram uns nos outros com força, seus cabelos moveram-se como se tivessem ganhado vida própria e pequenos feixes elétricos dourados puderam ser visto ao seu redor, brilhando como se fossem o prenúncio de uma grande tempestade.

– Ei, ei, não me venha com essa merda, Hadvar! – Rugiu ele com uma voz potente e desafiadora, uma voz que deixava claro que ele não iria se abaixar. – Você é um mercenário, não é? Então pare de ficar chorando, caceta! Eu não disse que a missão era suicida, eu disse que não estávamos esperando por um verdadeiro sucesso seus! A diferença é grande, sabia?! Se a propaganda toda que vocês fazem sobre como o S.O.M.B.R.A. é o melhor e tudo mais fosse verdade, então vocês estariam todos vivos e nós só teríamos que pagar o resto do dinheiro para o seu grupo, mas nãããããão, temos de ser os malditos bonzões, não é? Bem, olhem só aonde isso lhe levou; cada um de vocês tomou no cu sem dó nem piedade, e nem teve lubrificante! E não venha ficar com raiva de mim por culpa disso; eu não contratei vocês, não tenho responsabilidade nenhuma no meio disso tudo, estou apenas cumprindo o meu próprio trabalho. Se você quer ficar putinho com alguém, fique com aquele seu líder retardado com nariz em pé que se acha demais! Foi ele que lhes colocou nessa encrenca toda ao aceitar um trabalho tão perigoso assim, não eu ou nem mesmo Balak! Então não comece com essa merda, beleza?!

Sentiu seus próprios dentes rangerem ao ouvir aquelas palavras, e por um momento teve a pura vontade de avançar contra Zaniark e cortá-lo ao meio com a sua espada. Mas não chegou a agir com base em seus desejos. Em parte, porque sabia que aquela seria uma luta perdida – teria dificuldades para derrotar alguém tão forte quanto Zaniark em plenas condições, e não tinha chance nenhuma de derrotar Zaniark, Byron e Steelex em seu estado atual – mas em uma outra parte também simplesmente porquê... ele tinha alguma razão no que falava. Não concordava com tudo que ele havia dito, obviamente, e ainda culpava Balak pelo destino que havia caído sobre ele e seus companheiros naquela batalha, mas Zaniark estava certo: a culpa jazia com Balak e Robert, e com ninguém mais. E.... suponho que, considerando a nossa reputação, nós realmente deveríamos ter sido capazes de completar esse trabalho, independentemente do quão difícil ele pudesse ser. Havia por vezes no passado reclamado com Robert em relação a toda a propaganda que ele fazia do grupo, advertido a ele que existiam pessoas com poderes além da imaginação espalhadas pelo mundo, mas o líder do S.O.M.B.R.A. havia ignorado todos os seus argumentos. Pensar nisso fez com que sentisse mais raiva ainda; raiva de Robert por ter insistido naquela tolice, bem como raiva de si mesmo por não ter impedido a burrice o Dragão das Sombras.

– Gah! Eu odeio discussões como essa! – Reclamou Zaniark, reclinando-se um pouco mais para trás em cima dos destroços nos quais estava, bufando e tentando o seu melhor para respirar fundo em uma tentativa de se acalmar um pouco. – Eu... sei que você pode estar irritado por tudo isso, mas, bem, veja a bem. Você e Neshka escaparam com vida. Isso é bom o suficiente, não é? Quero dizer, talvez você possa dizer que seria melhor se todos escapassem vivos, mas francamente, trabalhe comigo aqui. Flavent era uma vadia superficial que agia como se fosse superior a todo mundo só por ter um par de peitos firmes. Sério, eu fiquei tão feliz em ver que a vaca foi desfigurada antes de morrer que quase que fui lá apertar a mão de quem a matou! Quanto a Robert, bem, você conhecia o otário melhor do que qualquer um. Ele era, sem ofensa para com a sua sexualidade, pouco mais do que um viadinho egocêntrico narcisista com o nariz muito empinado. Ou, como eu prefiro chamar ele, um grande saco escrotal ambulante! Francamente, eu tenho dificuldade em imaginar uma pessoa melhor para morrer do que ele! Você vai ter me perdoar, mas eu não sinto nem um pouco a morte desses dois... e assumo que você também não sente, não é? Eu te conheço e apesar de não estar ciente exatamente do tipo de relacionamento que vocês do S.O.M.B.R.A. tinham entre si, eu sei o bastante para dizer que não tinha amor entre você e esses dois idiotas.

Com um salto Zaniark se colocou de pé. Sua cabeça girou, estalando seu pescoço ao mesmo tempo em que ele estava seus braços, como que para se despreguiçar. Por um momento ele fechou seus olhos enquanto fazia isso, mas no instante em que Hadvar se perguntou o que ele estava fazendo esses se abriram novamente.

Nem conseguiu ver o movimento do outro. Quando se deu conta do que acontecia uma mão pesada já estava caindo sob o seu ombro. Em um único instante Zaniark havia cruzado toda a distância que os separava, e a única coisa que deixava claro de que isso se tratava de uma movimentação tradicional e não de algum tipo de habilidade de movimento instantâneo eram as fracas correntes elétricas que conseguia ver correndo pelos braços e ombros do homem. Isso foi... rápido, rápido demais. Sentiu uma gota de suor escorrer pela lateral de seu rosto diante daquilo, e apesar da mão de Zaniark em seu ombro provavelmente estar ali para lhe tranquilizar, aquele acontecimento só conseguiu fazer com que se sentisse mais nervoso. Zaniark... eu não sei o que aconteceu com ele e Byron durante esse incidente do Mercado dos Escravos, mas ele está bem mais forte agora do que antes. Era... assustador imaginar que alguém podia ganhar tanta força em tão pouco tempo.

– Isso dito, eu sinto pela morte de Ulrock, tal como sei que você deve sentir – disse Zaniark, olhando dentro dos olhos de Hadvar enquanto falava, dando palmadas no ombro do Terror Celeste. – Ulrock era um cara legal. Ele era um homem de honra e princípios, e isso é algo que eu respeito. Você, ele e Neshka eram as pessoas decentes dentre o S.O.M.B.R.A., e é uma pena que um de vocês tenha acabado morto no meio de toda essa batalha. Mas, novamente...Hadvar, vocês são mercenários. Vocês estão preparados para riscos como esses, ou pelo menos deveriam estar. É indigno culpar seu contratante por isso. Não faça mais isso, beleza? Se não por não ter mais raiva de nós, em respeito e valorização a memória de Ulrock.

Zaniark disse aquilo e depois desapareceu. Tão rápido quanto ele havia se aproximado em primeiro lugar ele tornou a se afastar; dessa vez Hadvar pode ver pelo menos o momento em que ele voltou a assumir uma forma física, quando vários raios dourados se congregaram e formaram novamente o corpo do mercenário no meio dos seus companheiros, de braços cruzados.

– De qualquer forma, se isso serve de algum consolo para você, saiba que essa missão não foi um fracasso total – disse Zaniark, virando seu rosto enquanto falava em direção à Byron e Steelex, obtendo um aceno afirmativo como resposta de ambos ao olhar para eles. – Com essa batalha, vocês inutilizaram um bom número de oponentes que seriam perigosos. Skylar, Blair, Breath, Zetsuko, Denis, Coralina, até mesmo Enderthorn! Isso já é mais do que o suficiente. E, claro, nós também obtivemos uma excelente quantidade de informações sobre as capacidades atuais de nossos oponentes a partir das lutas que vocês travaram. Essas serão informações bem úteis. Nós do Olho Vermelho iremos nos vingar por vocês.

– ... “Nós”? – Repetiu Hadvar, confuso pelo significado que aquela palavra deveria trazer. Zaniark sorriu diante da sua confusão, orgulhoso.

– Ah, sim. Eu nunca te disse isso, disse? – Murmurou ele, mostrando um sorriso largo e satisfeito em seu rosto. – Graças a toda essa guerra, Balak recentemente começou a recrutar mais pessoas para integrarem sua guilda. Eu, Byron e Steelex, bem como dois homens que ganharam fama na Batalha do Salão Cinzento chamados Octo Gall e Ibur Caelum, fomos recrutados como novos membros do Olho Vermelho... e claro, nós ganhamos recebemos uma atenção especial por isso. Nesses últimos sete dias, enquanto vocês faziam sei-lá-o-quê e demoravam para chegar aqui, nós treinamos duramente sobre a tutela de membros mais seniores do Olho Vermelho. Estamos bem mais fortes agora do que éramos antes, Hadvar. Não me leve a mal, não considere isso como um sinal de arrogância meu..., mas agora, qualquer um de nós é capaz de derrotar os cinco membros do S.O.M.B.R.A. sozinho com facilidade.

Sua reação imediata a isso foi raiva e ultraje. Ele está me subestimando. Ele está subestimando a minha força e a de todos os outros também! Podia não se importar com Flavent e Robert, nem tampouco com a reputação exagerada que o S.O.M.B.R.A. tinha, mas isso não fazia com que fosse simplesmente aceitar que alguém menosprezasse a sua força e a do grupo em si daquela forma. Abriu sua boca para reclamar, mas nem teve a chance de fazer isso. No momento em que sua boca se abriu ele foi imediatamente recebido por um monte de fumaça com nada menos do que uma mão em meio a ela, algo que compreendeu imediatamente como sendo obra de Byron. No entanto, o mais interessante ali era de longe o que essa mão trazia; segurada por suas roupas e jazendo pendurada no ar a partir delas, Neshka balançava de um lado para o outro, presa em um sono tão profundo que os roncos dela quase que pareciam ecoar pelo ambiente.

– Eu sei, eu sei, você deve estar bem irritado pelo que eu falei no momento, mas você vai entender isso ao seu tempo – falou Zaniark enquanto seus dois companheiros caminhavam em direção a ele, colocando as mãos em seus ombros. Ao mesmo tempo em que isso aconteceu a mão de fumaça de Byron também se desfez, deixando que Neshka caísse nos braços de Zaniark. – De qualquer forma, por hora basta saber que nós iremos nos vingar por vocês, beleza? Se cuide, Hadvar. Ah, e.... bem, você pode querer sair daqui em breve.

Ergueu uma sobrancelha ao ouvir isso, mas não teve nem tempo de perguntar o que exatamente o homem queria dizer com aquilo. Um forte ruído ressoou por todo aquele lugar, um som como o de uma tempestade que estava por vir, e quando Hadvar ergueu instintivamente seu rosto para olhar para os céus ele foi imediatamente recebido por um raio dourado que caiu com uma velocidade imensa diretamente sobre Zaniark. O brilho que veio do impacto daquele raio foi algo completamente absurdo, capaz de fazer com que Hadvar tivesse que cobrir seus olhos para conservar sua visão. Quando esse brilho enfim amenizou o suficiente para que ele pudesse voltar a abrir seus olhos não havia mais nada a sua frente além de uma grande mancha preta. Mas o que? Não me diga que.... Aquele miserável! Compreendia bem agora sobre o quê Zaniark falava antes. Ele havia usado daquele raio para se mover rapidamente de alguma forma junto dos outros, o que explicava o porquê de seus companheiros terem se aproximado dele e segurado seu ombro. E ao mesmo tempo isso explicava o porquê de ele ter dito para Hadvar correr. Depois de um raio como esse, os membros do Salão Cinzento vão certamente investigar essa área. Não tenho tempo para perder aqui!

Soltando maldições pela boca e rangendo seus dentes com força, Hadvar começou a correr tão rápido quanto pôde, fugindo daquela cidade maldita com Neshka em seus braços.

=====

Um grande estrondo chamou sua atenção, fazendo com que o rosto de Kastor se virasse imediatamente para o lado, bem a tempo de ver o que parecia ser um raio dourado caindo dos céus sobre uma seção do Salão Cinzento, há uma distância considerável de onde estavam. Um raio? Ergueu seus olhos para o céu; seria no mínimo irônico dizer que o céu de algum lugar contido nas Terras Velhas estava limpo graças ao eterno vermelho que o coloria, mas não via sinal algum de nuvens que justificariam algo assim. Isso certamente não é um raio natural.

Aparentemente, ele não foi o único a chegar a essa conclusão genial.

– Um raio dourado, hm? – Murmurou Shell com apenas um olho meio aberto, preguiçoso. – Me chamem de paranoico, mas eu apostaria que isso é algo criado por algum inimigo mil vezes antes de imaginar que isso se trata de algum tipo de fenômeno natural. Alguém provavelmente deveria investigar isso. – Um bocejo escapou de seus lábios e com ambos os punhos o mago do gelo coçou seus olhos para espantar o sono. – Contanto que esse não seja eu, claro.

Essa foi uma opção que Kastor contemplou por alguns momentos antes de finalmente descartar. Não, não vale a pena. Havia chegado a pouco tempo de volta ao Salão Cinzento, mas uma das coisas que ele havia aprendido em seu treinamento junto de Ekhart era a sentir a energia das pessoas. Cada pessoa possui um fluxo de energia próprio e diferente. De diferentes cores, de diferentes formas, que transmitem diferentes sensações e representam características diferentes. Havia aprendido a sentir essa energia de forma subconsciente, sem ter de se focar, e isso lhe possibilitava saber o estado das pessoas em determinadas áreas. Eu consigo saber quantas pessoas estão reunidas a um mesmo tempo em um determinado local e sei identificar cada uma delas contanto que eu já tinha tido algum contato com essa pessoa em questão. Mas mais do que isso, eu posso determinar qual é o estado atual de alguém por meio de algumas características da sua energia, em especial pela intensidade dessa energia. Com essa habilidade Kastor conseguia determinar que haviam múltiplas pessoas feridas pela cidade, algumas delas em um estado bem grave, e não fazia sentido perseguir uma luta com tantos feridos por ali. Eu posso tentar ajudar algumas dessas pessoas com as minhas habilidades, e isso é mais importante do que apenas seguir para uma batalha estúpida. Além do mais, mesmo que esse não fosse o caso, ainda deve-se considerar que nunca é bom lutar enquanto temos feridos por perto.

Mas além de tudo isso, havia outra cosia que fez com que Kastor não considerasse uma boa ideia seguir com uma perseguição. Enquanto estava refletindo sobre aquela possibilidade os olhos dele acabaram por cair sobre Anabeth, e o que ele viu lhe deixou intrigado. A mulher estava olhando fixamente na direção daquele raio com olhos afiados e uma expressão tensa e nervosa em seu rosto. Com seu braço que estava ela segurava o coto que havia sobrado do lugar aonde antes era seu braço, e Kastor conseguia ver suor frio escorrer pelo seu rosto. Anabeth... ela me disse uma vez que o responsável por arrancar seu braço havia sido um dos vários mercenários que estavam servindo como guarda-costas para Greed no Mercado dos Escravos. O grande mercenário com os cabelos na forma de raios que se chamava de “Zaniark Grimmweather”. Pelo que ela havia dito, o título daquele homem parecia ser “Raio Dourado”, e considerando que o que havia acabado de cair em outro ponto da cidade havia sido um raio dourado... bem, Kastor era adimissivelmente lerdo, mas até ele era capaz de ligar um ponto ao outro. Eu me lembro de ela ter me dito que havia matado esse cara. Eu não faço a menor ideia de como ele sobreviveu, mas tenho certeza de que esse não é um bom momento para tentarmos enfrentar alguém como ele.

– Não, deixem isso pra lá – decidiu Kastor, fazendo um gesto com a mão em sinal de que não valia a pena dedicarem seus esforços a isso. – Antes de irmos procurar novas brigas devemos nos focar em cuidar daqueles que saíram feridos dessa. Bryen, Duke, Kyanna; vocês são os mais adequados para essa tarefa, então quero que sigam para os pontos de batalha da cidade em busca dos feridos. Se eu não me engano tem um armazém em estado decente aqui por perto, há mais ou menos uns trezentos metros ao sudeste da nossa posição atual. Levem todos os feridos para lá. Eu irei pra lá também em breve afim de cuidar deles, mas tenho que fazer algumas coisas primeiro.

– Ou, uou, uou, uou! Calminha aí meu chapa! Tão rápido assim? – Duke protestou tal como Kastor já imaginava que ele fosse fazer, mas ao menos dessa vez o seu protesto foi um tanto quanto calmo, mantendo as mãos nos bolsos a todo momento. Bom, é um pouco reconfortante ver isso. Normalmente ele seria bem mais hostil em seus protestos. – Kastor, eu não sei se você notou, mas nós passamos um bom tempo longe uns dos outros, e aparentemente o pessoal aqui decidiu mudar bastante nesse tempo. A senhorita Teigra ali é a campeã da competição de “o que porra aconteceu com você?”, mas você fica em segundo lugar só por um pouco com essa sua coisa de disparar raios pela boca e falar com aquela voz esquisita de antes. Se importaria em nos explicar esse tipo de coisa primeiro antes de nos mandar embora?

– Ah, sim. Isso. – Estava tão acostumado a lidar com Ekhart que havia se esquecido por um momento que todas aquelas influências demoníacas sobre ele certamente iriam causar um certo... estranhamento em pessoas normais. – Bom... acredite em mim, Duke: eu adoraria explicar tudo isso para vocês, mas não posso. Não agora. Nossa agenda vai estar um tanto quanto apertada pelos próximos dias; temos de cuidar dos feridos agora, ter uma última reunião estratégica e depois marchar contra o Olho Vermelho o tão rápido quanto possível para evitar que eles tenham tempo para se preparar decentemente. Eu planejo lhes dar respostas sobre muitas coisas e trocar algumas palavras com cada um de vocês, mas temo que isso vai ter de esperar até que tenhamos terminado com isso. Sei que isso pode não ser exatamente do seu gosto, mas... por favor, apenas tenham um pouco de fé em mim até que eu possa lhes dar as explicações que querem.

– ... Você sabe que você provavelmente poderia ter nos explicar explicado o que raios aconteceu com você nesse meio tempo ao invés de nos dar uma explicação sobre o porquê de você não poder nos dar uma explicação, certo?

Duke...

– Ok, ok, eu entendi. Falamos depois. Tá, tanto faz – com uma de suas mãos Duke estalou seu pescoço, sorrindo e jogando a cabeça para trás. – Kyanna, Bryen, sintam-se livres para salvar os caras. O Grande Duke só salva mulheres!

Nem bem aquelas palavras foram ditas e Duke já tratou de desaparecer, sumir completamente sem deixar rastro nenhum. Bryen suspirou e Kyanna riu diante disso, apenas um momento antes que ambas também desaparecessem para acompanhar o outro. Isso deixou Kastor com apenas Hozar e os outros por perto, e ele já tinha uma tarefa para estes também.

– Pessoal, sei que acabamos de nos reencontrar agora, mas o que eu disse para o Duke vale para vocês também. Vamos ter o tempo e a chance para colocarmos a conversa em dia depois, mas por hora eu temo que terei que pedir para que vocês façam algo por mim – disse Kastor, gesticulando enquanto falava para demonstrar melhor seu ponto. – Odin já está chegando no Salão Cinzento. Sei disso porque encontrei com ele antes de chegar aqui. Ekhart deixou que eu viesse sozinho na frente exatamente por isso, uma vez que ele queria falar com ele. Hozar, Teigra, Anabeth, Shell; preciso que vocês quatro vão se encontrar com Odin. Reúnam-se com ele, vejam como vão as coisas, obtenham alguma ideia de como será o nosso curso de ação aqui e depois relatem isso para mim de forma resumida.

– Ei, ei, todo esse trabalho é normal da sua guilda? – Questionou Shell com um certo tom de ironia em sua voz, coçando sua cabeça com o indicador da mão direita. – Eu sinceramente espero que não, porque se for... bem, digamos que então eu cometi um grande erro ao aceitar fazer parte da sua guilda.

– Podemos fazer isso, sem problema algum... – começou Teigra, muito mais séria do que o mago de gelo – mas não deveria ser você aquele a receber Odin, Kastor? Não só pelo fato de que vocês são ambos líderes, mas também pelo fato de que você é um dos discípulos dele. Você e Hozar deveriam ir recebe-lo, não?

– Em uma situação normal, sim, mas como eu disse, o tempo é curto e tem algumas coisas que eu quero fazer que são bem importantes – respondeu Kastor de forma intencionalmente vaga. Verdade seja dita, embora as tarefas que estava passando para os seus companheiros tivessem uma importância inegável e realmente quisesse confiá-las a eles, parte do motivo por estar fazendo tudo isso era para mantê-los... afastados, por assim dizer. Eu não quero que eles me acompanhem no que vou fazer agora, mas seria estranho dizer para simplesmente não me seguirem em determinado momento. Por isso preciso ocupa-los. – Hozar, diga a ele que eu sinto por não poder recebe-lo, sim? Você é um dos líderes da guilda junto comigo, então você comanda uma autoridade maior que os demais membros; você poderia representar a guilda em si com a sua presença ali?

– Eu já não faço isso em tempo integral? – Gracejou o Cinzento com um humor seco. – Deixe isso comigo, eu posso lidar com isso. Não estou completamente satisfeito com tudo o que você está fazendo e eu preferiria ter algumas explicações antes de fazer qualquer coisa..., mas você parece estar falando sério. – Um suspiro cansado deixou os lábios de Hozar. – Odin deve estar chegando pelo Portão do Sul considerando que foi por ele que ele partiu, certo? Irei recebe-lo. Resolvemos o que quer que tenha de ser resolvido depois que acabarmos com esses idiotas do Olho Vermelho.

Um sorriso veio aos seus lábios ao ouvir aquilo. Acenou positivamente com a cabeça, e aparentemente isso foi o suficiente para Hozar. Resmungando qualquer coisa entre dentes ele se virou e começou a seguir em direção ao portão, e lentamente cada um dos outros foi lhe seguindo; primeiro Anabeth com um sorriso, seguida de Teigra com um suspiro, e por fim sendo acompanhados por Shell... que foi bem hesitante, fazendo caretas e gestos teatrais, fazendo parecer como se ele estivesse andando em direção a sua própria forca. Kastor só pode balançar a cabeça diante disso.

Virou seu rosto então para fitar os que haviam restado. Valery lhe observava com um leve interesse, apoiada na parede de uma casa próxima. Esperava encontrar Ex ainda perto de onde Shell estava antes, mas quando virou seu rosto nessa direção ele não viu nada; aparentemente, Ex era tão antissocial quanto seu irmão era preguiçoso. Mas, no fim das contas, isso não importou muito, pois a pessoa com a qual Kastor queria falar ainda estava ali.

– Ei, Titânia! – Chamou ele, fazendo com que a ruiva que tanto lhe aterrorizou no passado dirigisse seu único olho restante para ele. No passado lembrava-se que o mero olhar dela era o suficiente para fazê-lo tremer; para todos os cavaleiros da Quinquagésima Nona leva, Titânia era um verdadeiro monstro, uma mulher absolutamente terrível que era capaz de fazer alguém em pedaços em poucos instantes caso ela assim quisesse. Mas havia crescido recentemente, crescido demais para ainda ter esse medo, e foi exatamente por isso que conseguiu recebe-la com um olhar. – Eu estou planejando visitar ele. Talvez ele esteja acordado a essa hora. Gostaria de me acompanhar?

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Sua visão estava turva e escura, como se estivesse sendo consumido pela escuridão. O que... está acontecendo? Lembrava-se de ter sido atacado por um inimigo. Um homem de cabelos loiros que se transformou numa besta medonha em um único instante e avançou contra ele. Lembrava-se de sentir os dentes dele perfurando sua carne, sua mandíbula fechando-se com tanta força que ele ameaçava quebrar seus ossos e arrancar pedaços de seu corpo. Mas então... então já não se lembrava de mais nada. Era como se todas as suas memórias fossem apagadas depois desse ponto. Quando se deu conta, estava no seu estado atual. Eu estou... no chão, não estou? Sim, supunha que estava caído. Provavelmente algo pelo qual aquele inimigo de antes era responsável. Ele... deve ter me acertado na cabeça com muita força ou coisa do tipo. Eu... me sinto tão... zonzo. Como se.... pudesse cair no sono a qualquer momento. Tinha uma vontade imensa de fazer exatamente isso, mas controlava-se e não dava atenção a essa vontade. Não sabia dizer exatamente o porquê, mas tinha um mal pressentimento quanto a isso. Como se.... como se no momento em que cedesse a essa vontade algo terrível fosse ocorrer com ele. Mas... quanto tempo posso suportar? A cada minuto que passava a vontade ficava mais forte, a cada minuto sua visão ficava mais escura e sentia menos o seu corpo. O que está acontecendo comigo? Estou... desmaiando...?

– Hahaha, HAHAHAHAHA! Olhe só, olhe só! Eu caminho por uma cidade destruída, palco de batalhas, e não demoro muito para achar o lixo que restou de uma delas! – A voz que disse isso era uma masculina, parecendo extremamente divertida e satisfeita, embora ela de alguma forma conseguisse também assustar Skylar de forma terrível. Não conseguia dizer exatamente o quê, mas sentia que algo naquela voz estava completamente errado, sentia como que ela tivesse um tom quebradiço, como se o dono dela variasse entre a sanidade e a loucura enquanto falava com uma velocidade imensa. – Qual o seu nome, pequeno lixo? O que você faz aqui? Aonde estão seus companheiros? Eles lhe abandonaram para morrer, hm? Bom, não me surpreende. Pelas suas vestimentas eu diria que você é um mercenário, e francamente, quem dá a mínima para vocês? Mercenários, putas, mendigos, drogados, órfãos! Esses são o lixo da sociedade, a escória, os indesejados! Quem se importa com o que acontece com eles? Eu lhe respondo, meu caro lixo! Ninguém! Absolutamente ninguém! ... E é exatamente por isso que vocês fazem cobaias tão bons.

Sentiu uma sombra se estabelecer acima de si, e seu próprio raciocínio lhe disse que ela pertencia ao homem que falou aquilo, mas não conseguiu ver o rosto dele. Sua visão estava turva demais, escura demais para que pudesse enxergar o rosto do homem com clareza o bastante para tentar ter sequer uma ideia de qual era a aparência dele. Mas, curiosamente, ele mesmo assim conseguir identificar uma outra coisa, algo que lhe chamou a atenção e fez com que sentisse medo: no rosto do homem brilhava um largo e afiado sorriso branco, completamente insano.

– Ah, sim, ah, SIM! Lixo, alguém tão burrinho como você não deve saber disso, mas existem poucas coisas nesse mundo mais satisfatórias do que superar um desafio. Você... hahaha, você está uma merda! Se eu não fizer nada, você vai morrer assim, num estalar de dedos – o som de um estalar ressoou logo após isso e ele fez com que o homem gargalhasse, sem nunca perder o sorriso do rosto. – Mas, não se preocupe! Eu sou um poço de generosidade, e por isso eu serei bonzinho o bastante para lhe salvar! Alegre-se, lixo! Você terá a honra de fazer parte do meu próximo projeto! Projeto Prometheus: A Criação de um Deus Artificial.

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Quando chegou a sala branca na qual ele estava, Lancelot olhava pela janela para a figura destruída do que havia se tornado o Salão Cinzento. Não havia tido a chance de obter muitas informações à cerca de tudo que a cidade havia sofrido durante a batalha contra o Olho Vermelho, mas pelo que havia conversado com Titânia enquanto seguiam para aquela sala, Lancelot havia acordado em algum momento daquela semana depois que haviam saído para seu treinamento, e uma das primeiras coisas que ele havia feito tinha sido pedir por um quarto em algum ponto elevado do qual pudesse observar a cidade. Foi por isso que Titânia usou da sua influência – leia-se: ameaças – e colocou-o no topo de uma das maiores estruturas que havia sobrado do Salão Cinzento, localizada em uma das partes remanescentes do Salão Cinzento em si. O curioso em meio a tudo isso é como a Titânia descobriu tanto sobre ele e pode lhe ajudar dessa forma se ela estava supostamente ocupada treinando Bryen... mas acho que consigo imaginar qual é a resposta disso. Por mais assustadora que ela pudesse ser e por mais antissocial que a mulher fosse com pessoas normais, não era segredo nenhum que o coração de Titânia batia forte por Lancelot e que o namorado dela era uma das poucas pessoas que conseguiam a eterna gentileza e as boas graças de Titânia. Não duvido nada que ela tenha feito algo como sair no meio da noite do lugar em que estavam para vir até aqui visitar Lancelot. Parece bem a cara dela, de certa forma.

– Isso é triste, Tit – murmurou o cavaleiro loiro, usando o que parecia ser um apelido carinhoso que ele dava a Titânia. Isso não era algo que Kastor havia ouvido antes, e por isso seus olhos foram imediatamente para Titânia: as bochechas coradas dela e a forma como ela desviou seu rosto deixou claro que era exatamente o que ele imaginava. – Essa cidade, tão destruída assim... eu nunca quis ver isso. Isso... faz com que eu me sinta impotente, sabe? Enquanto essa cidade estava sob ataque eu estava inconsciente, ferido. Eu fui um fardo, alguém que forçou você a se retirar da batalha e certamente foi indiretamente responsável pelas perdas de muitas vidas que poderiam ser salvas do contrário. E agora... não vai demorar muito para que você siga para a batalha junto dos outros, não é? E eu não poderei fazer nada de novo. Eu sou completamente inútil assim sem pernas... um completo imprestável... MALDIÇÃO! – A cadeira de rodas na qual ele estava sentado tinha apoios laterais para seus braços, e foi um desses apoios que Lancelot acertou com seu punho, seus dentes rangendo em frustração com tanta força que Kastor conseguia ouvir o som disso mesmo da distância que estava de seu amigo. – Eu quero... Eu quero lutar! Eu quero fazer alguma coisa!

– Eu não sei se isso vai lhe fazer se sentir melhor ou não – disse subitamente Kastor, fazendo com que a cadeira de Lancelot balançasse ao ouvir a sua voz – mas se isso lhe dá algum consolo, eu tenho a intenção de chutar algumas bundas por você quando eu for lá.

Lancelot virou-se tão rápido quanto pôde ao ouvir aquilo. Pelo que podia ver era óbvio que ele ainda estava tendo algumas dificuldades em se adaptar ao uso de uma cadeira de rodas, mas nem isso foi o bastante para impedi-lo de mover-se rapidamente de forma a fitar Kastor. Sua expressão era uma de espanto, uma surpreendida, mas a sua surpresa foi logo desaparecendo a medida que ela ia passando para dar lugar a um sorriso alegre.

– Kastor! – Quando havia visto o estado aparentemente deprimido no qual o outro estava antes, havia imaginado que a reação dele poderia ser um pouco menos entusiástica ou agridoce, mas estava completamente errado nisso. Mesmo com a sua clara dificuldade em manobrar com a cadeira de rodas por aí, Lancelot não perdeu tempo em deslocar-se tão rápido quanto pôde em direção a Kastor, o largo sorriso saliente nunca deixando seu rosto. – Cara, eu... eu... você não consegue imaginar o quão feliz estou em te ver! – A alegria com a qual ele exclamou aquilo e a forma como o loiro jogou os punhos pro alto e murmurou uma prece em agradecimento aos céus foi algo que aqueceu o coração de Kastor, algo que lembrou-lhe do porquê que, no Salão Cinzento, diziam que Odin e Lancelot eram duas pessoas com as quais você sempre podia contar, duas pessoas que nunca lhe machucariam e estariam sempre do seu lado: ambos tinham corações extremamente puros e bondosos, ao ponto de fazer com que eles mais parecessem anjos do que humanos. – Você não está machucado, está? Eu me lembro que o Olho Vermelho queria fazer mal a você. A cidade está destruída devido a um ataque deles... não acho que é um exagero da minha parte assumir que eles te atacaram também, não é? Você escapou bem disso? Ileso?

– Relaxa, relaxa – disse Kastor com uma gargalhada, fazendo um gesto com ambas as mãos para que o homem fosse com calma. – Eu me regenero, esqueceu? Mesmo se eles tivessem me ferido, eu me recuperaria em questão de instantes. E sobre a ataques... bem, eu diria mais que “eu os ataquei” do que “eles me atacaram”.

– Você... os atacou? – A expressão de Lancelot se tornou confusa diante daquilo, mas Kastor não tinha atenção alguma de dedicar o pouco tempo que tinha naquele momento para colocá-lo completamente a par de tudo que havia acontecido recentemente, e aparentemente, Lancelot também não tinha a intenção de desperdiçar tempo com isso. – Bom, não importa, não importa. Isso não é importante, o importante é que você está bem. – Lancelot reclinou-se na sua cadeira ao dizer aquilo, suspirando suavemente e deixando vazar um pouco a sua tensão. Lentamente o rosto dele foi ficando mais sério, a feição aliviada e alegre que havia surgido com a visão de Kastor dando lugar a uma de completa seriedade. Seus olhos logo caíram sobre Kastor, graves. – Kastor, me escute bem. Você já deve ter uma noção disso se realmente enfrentou o Olho Vermelho como você disse que fez, mas essa guilda... ela é poderosa, muito poderosa. Aquele cara que atacou vocês durante o Torneio de Valhala, Dwyn, não representa nem um terço da verdadeira força dessa guilda. O líder dela... Balak Hauss... ele é um verdadeiro monstro, Kastor. Aconteça o que acontecer, não tente enfrentar esse homem, ao menos não sem uma boa dose de apoio. Ele é terrivelmente forte, muito mais do que qualquer coisa que eu já vi antes. Eu... eu francamente seria capaz de dizer que ele é até mais forte do que Odin. Definitivamente não tente enfrenta-lo sozinho, e não tente enfrentá-lo em geral caso possa evitar. Isso é perigoso, Kastor. Perigoso demais para valer a pena.

– Ah, sim. Balak Hauss. – Acenou levemente com a cabeça ao ouvir aquilo, apesar de não estar dando realmente muita atenção ao que Lancelot dizia. Eu sei que as intenções de Lancelot são boas, mas eu não posso prometer evitar enfrentar Balak. Ele está atrás de mim, afinal de contas; seria o cúmulo da covardia se eu fosse correr e me esconder atrás dos meus amigos ao invés de enfrenta-lo de frente como um homem e cavaleiro deve fazer. Podia até considerar enfrentar seu oponente com a ajuda de outras pessoas, mas definitivamente não iria fugir de Balak e deixar outras pessoas lidarem com os seus problemas. Mas, acho que não preciso dizer isso para Lance. – Sabe, Lancelot, é um tanto quanto curioso que você esteja falando sobre Balak. Acontece que eu vim até aqui para falar com você sobre coisas relacionadas a ele, sabe? – Uma das sobrancelhas do Segundo Cavaleiro se ergueu ao ouvir aquilo, e com isso Kastor soube que havia conseguido a atenção dele. Muito bem, excelente. Agora, vamos para a segunda parte. Moveu seus olhos para a mulher que estava ao seu lado; sabia que ela não iria gostar nada do que iria falar com Lancelot, e por isso tinha que se focar em tirá-la dali antes de qualquer coisa. – Titânia, você poderia nos dar licença? Isso é algo sobre o qual eu e Lancelot temos de falar com privacidade.

Os olhos da mulher imediatamente se afiaram de uma forma extremamente ameaçadora, como se aquelas poucas palavras tivessem sido o suficiente para lhe dar vontade de esmagar a cara de Kastor contra o chão. Mesmo depois de tudo que havia passado, Kastor não pode deixar de sentir um calafrio correr pela sua espinha diante da familiar sensação que teve; a sensação de ter irritado Titânia, o sentimento de que ele havia acabado de fazer o equivalente a cometer um suicídio extremamente doloroso. A única coisa que lhe acalmou um pouco foi o conhecimento de que, pela presença de Lancelot ali, ela provavelmente não iria tentar lhe bater no momento... mas isso não a impedia de chutar a sua bunda depois que saíssem do campo de visão do loiro.

– Você está fazendo alguma gracinha comigo, Kastor? – Questionou friamente a Caçadora de Corações, sua mão se apertando um pouco mais ao redor de Gáe Bolg, como se ela estivesse cogitando enfiar a lança no umbigo de Kastor. Normalmente não teria temor real por uma possibilidade como essa já que isso era algo, bem, no mínimo improvável, mas Titânia era uma pessoa um tanto quanto... errática. E apesar de todas as minhas capacidades de regeneração e tudo mais, eu não estou completamente certo de que posso me recuperar de alguma ferida causada por uma arma especial como a Gáe Bolg, que é dita como tendo sido forjada a partir do sangue dos Deuses. Você me chamou para vir até aqui visitar Lancelot. Agora que estamos aqui você quer que eu vá embora sem trocar uma única palavra com ele? Você deve ser bem estúpido para pensar que farei algo assim. Além do mais, por que eu preciso ir embora? Eu conheço Lancelot e sei que ele não tem segredos de mim, e eu não poderia me importar menos com qualquer segredo que você possa ter. Então, se tem algo que você realmente quer falar, fale logo de uma vez e não insista nessa tolice.

É, essa realmente é Titânia, pensou Kastor, sentindo uma gota de suor escorrer por sua bochecha esquerda. O pior é que, de certa forma, essa reação foi melhor do que o que eu esperaria dela normalmente. Havia um motivo, afinal, pelo qual aquela mulher era tão temida pelos cavaleiros; uma das coisas que os cavaleiros diziam sobre Titânia era que a ruiva absolutamente linda, bela o suficiente para competir pelo título de mulher mais linda do mundo, mas que ela era tão linda quanto agressiva e aterrorizadora. Não exageravam nem um pouco com isso. Quero dizer, o que ela disse até que tem alguma razão, mas ela se esquece de outros pontos importantes no meio disso tudo. Um deles era – como ele havia descoberto depois, quando haviam chegado – que Titânia havia se alguma forma arranjado para que a porta do quarto de Lancelot fosse uma de aço reforçado com pelo menos quatro camadas de reforço cuja única chave estava sempre com a ruiva. Outro deles – esse algo que Kastor já sabia desde o começo e um dos motivos pelo qual ele havia chamado ela – era o simples fato de que se Titânia soubesse que ele havia ido falar com Lancelot sem avisá-la primeiro ela iria arrancar o seu couro e usá-lo para fazer botas novas, e por mais que pensasse, não conseguia imaginar uma situação na qual não tivesse certeza de que ela iria se convidar para ir ver Lancelot com ele caso a informasse de uma visita.

– Titânia, eu sei que Lancelot não tem segredo nenhum de você, mas... bem, eu tenho segredos de você, e eu gostaria de manter os meus segredos secretos. Você pode dizer que você não se importa com os meus segredos e tudo mais, mas... a questão não é se você se importa ou não, mas sim que eu me importo. Então... se você pudesse me dar um pouco de licença para falar com Lancelot, eu... ficaria muito agradecido?

Ela não disse nada em resposta a isso. Ao ver aquela insistência da parte de Kastor, Titânia apenas fez suspirar de forma hostil, liberando o ar de suas narinas com uma raiva quase que palpável. Com um ar falso de calma ela começou a andar, caminhando em direção a Kastor lentamente. Usou de sua força vontade e de seus nervos frios para manter-se bem aonde estava enquanto ela vinha se aproximando, sem vacilar ou demonstrar sinal visível de medo, apesar de que estava engolindo em seco em nervosismo a cada passo que ela dava. Quando a Caçadora de Corações finalmente parou ela estava bem diante de Kastor, há menos de um palmo de distância dele, olhando direto em seus olhos com um olhar hostil e desconfiado que sugeria que ela podia lhe estrangular a qualquer momento. Os dedos da mão livre dela se mexiam constantemente de forma errática, bem como a mão que segurava Gáe Bolg se apertava cada vez mais ao redor da lança vermelha, e por um momento Kastor chegou a realmente pensar que ela iria simplesmente ignorar a presença de Lancelot para chutar a sua bunda.

Felizmente, Lancelot era um homem de bom coração, e sendo assim ele lhe salvou disso.

– Titânia, por favor – pediu ele em um tom que era ao mesmo tempo amável e firme. – Se Kastor tem algo que ele deseja falar comigo em particular, isso provavelmente é algo bem importante. Não podemos força-lo a dizer isso em público se ele não quer, e certamente não podemos nos dar ao luxo de não ouvir o que quer que ele tenha a falar. Por favor... eu sei que você tem boas intenções, mas poderia nos dar um pouco de licença? Eu prometo que isso não vai demorar muito.

Aquelas palavras fizeram com que os olhos de Titânia imediatamente se movessem para o seu namorado. Eles não pareceram realmente surpresos por aquele pedido nem nada do tipo, mas sim pareciam questionar a sabedoria daquilo, como se estivessem perguntando a Lancelot se ele tinha certeza do que queria. Serenamente, o Segundo Cavaleiro apenas fez acenar positivamente com sua cabeça.

Pela carranca que surgiu em seu rosto, era claro que ela não estava satisfeita com isso. Mas Titânia amava Lancelot, e o amor dela era grande o suficiente para fazer com que até mesmo uma mulher com tendências mandonas e orgulhosas como ela aceitasse as decisões do seu amado. Lançando um último olhar para Kastor que prometia retaliação pelo ocorrido ela virou-se e caminhou a passos lados para fora da sala, fechando a porta atrás de si.

Assim que ela saiu, os suspiros escaparam dos lábios de Kastor e Lancelot simultaneamente.

– Cara, isso foi tenso! – Choramingou Kastor, sentindo como se um enorme peso saísse de suas costas quando Titânia deixou o quarto. – Por um momento... ou cinco... eu pensei que ela iria avançar contra mim. Eu conseguia ver o punho dela acertando o meu nariz, juro!

– Pra ser sincero, eu também temi que isso acontecesse em alguns momentos – segredou Lancelot, mostrando um sorriso amarelo, trêmulo e ainda nervoso. – Titânia é uma mulher maravilhosa e eu a amo com todo o meu coração, mas ela tem uma tendência a ser extremamente protetiva de mim. Some isso ao fato de que ela é naturalmente mais impaciente e agressiva do que a maioria das pessoas e, bem... você tem uma combinação perigosa em mãos.

– É, você pode repetir isso, meu amigo. – Balançou sua cabeça ao dizer aquilo, um pensamento súbito de como Titânia reagiria se estivesse ouvindo aquilo cruzando rapidamente sua mente e fazendo com que uma rápida gargalhada nervosa viesse da sua garganta.

– Bom... de qualquer forma, você teve ter alguns minutos antes que ela perca tudo o que lhe resta de paciência e volte aqui – apontou Lancelot, reclinando-se novamente em sua cadeira. – Então... sobre o que você queria falar, Kastor?

Ficou sem jeito diante disso de uma forma que não havia previsto. Maldição... eu esqueci de pensar nisso: como eu faço essa pergunta? Não supunha que aquilo era algo que ele podia simplesmente chegar e falar com Lancelot sobre, mas também não tinha nenhum plano em mente de como se aproximar desse ponto. Moveu seus olhos para baixo, fitando os cotos que haviam ficado no que antes eram as pernas de Lance; suas calças haviam sido amarradas cerca de dez centímetros acima do que deveria ser o joelho de Lancelot, deixando muito espaço livre que deveria estar ocupado, algo que conseguia ser mais do que um pouco desconcertante. Bom... eu acho que, se vou improvisar, eu posso muito bem começar por algo assim, certo?

– Suas pernas... – começou Kastor, apontando para os cotos de Lancelot instintivamente antes de lembrar-se de que isso era rude e abaixar sua mão. Lancelot não moveu seus olhos para onde seu dedo havia apontado, mas a feição que surgiu em seu rosto deixou claro que ele sabia do que Kastor estava falando. – Lancelot, você está... conseguindo se adaptar a isso?

– .... De certa forma – respondeu Lancelot com um meneio da cabeça. – Isso não é.... não é fácil, como você pode imaginar. Pernas são algo extremamente comum e básico para qualquer pessoa, o tipo de coisa que você não imaginaria alguém sem. Perder um sentido ou uma parte do corpo é algo complicado já que isso é como perder uma parte do seu próprio ser...., mas não é algo impossível de se adaptar, não. Ainda é um pouco complicado para mim me locomover de um lado para o outro em uma cadeira de rodas e ainda me assusto um pouco quando olho para baixo e não vejo nada, mas a adaptação é gradual. Dia após dia eu me acostumo um pouco mais com tudo isso.

– Eu... entendo. Isso é bom, não é? – Perguntou Kastor, esperançoso. Pela expressão sombria, aflita e perturbada de Lancelot, não ficou completamente certo disso. – Algo... lhe incomoda?

A resposta imediata para isso foi uma baixa gargalhada perturbada de Lancelot, sua voz embargada.

– Se algo me incomoda, Kastor? Tudo. Absolutamente tudo nisso me incomoda! – Afirmou acaloradamente o loiro, suas sobrancelhas se franzindo e veias surgindo em sua testa com uma intensidade que deixava clara a frustração que aquilo lhe causava. – Você tem ideia do número de coisas extremamente simples que se tornaram impossíveis para mim graças a isso? Deixe-me te dar uma ideia: eu não posso subir ou descer escadas, ladeiras e qualquer outra coisa desse tipo. Eu não posso me mover por nenhum lugar que não tenha um trajeto plano e limpo. Eu sou incapaz de treinar ou praticar praticamente qualquer atividade física que demande um pouco de esforço físico. Por mil diabos, eu sou incapaz de pegar um jarro de biscoitos que esteja há mais que um metro e meio do chão! Como isso não me incomodaria, Kastor? Imagine que você perde uma das coisas mais básicas e vitais que constituem quem você é e que, de um dia para o outro, você passa a se tornar extremamente dependente das pessoas ao seu redor para as coisas mais simples! Qual seria a sensação que você teria com algo assim?

O desabafo de Lancelot foi o suficiente para fazer com que Kastor se arrependesse de ter feito aquela pergunta quase que imediatamente. É mesmo. Ele tem razão. Droga, como eu pude ser tão insensível? Era estúpido da sua parte falar com Lancelot sobre suas pernas e acabar com o humor do cavaleiro. Era ainda mais estúpido ter a intenção de perguntar a ele o que planejava, considerando do que se tratava. Essa foi uma ideia idiota. Uma ideia extremamente idio-

– Mas não é só isso que me incomoda – acrescentou Lancelot, suspirando em cansaço e irritação, batendo sua cabeça com força no apoio traseiro de sua cadeira. – O que mais me incomoda no meio disso tudo é, acredite se puder, o fato de que apesar de tudo que Balak me fez e toda a minha condição atual, eu não consigo odiar o maldito no fim das contas.

Ouvir aquelas palavras interessantes fez com que os olhos de Kastor fossem imediatamente para ele, uma sobrancelha erguida, os olhos levemente arregalados. Sua boca se abriu para murmurar uma resposta a isso, mas não conseguiu dizer nada; palavra nenhuma deixou seus lábios, e quando Lancelot viu a sua expressão, ele pareceu achar que Kastor estava confuso e tentou explicar seu ponto de alguma forma.

– Eu sei, eu sei. “Isso não faz sentido”, você deve estar se dizendo. Acredite, isso não faz mais sentido para mim do que faz para você. Balak não apenas arrancou as minhas pernas como também tomou um dos olhos de Titânia, a minha amada. Mais do que isso, ele também foi o responsável por esse ataque ao Salão Cinzento que mutilou muitos de nós e matou tantos outros. Por qualquer tipo de lógica que você possa aplicar aqui, eu deveria odiar esse homem com todas as forças do meu coração. Mas isso não acontece e eu simplesmente não consigo fazer isso acontecer. Por mais que ele tenha feito coisas horríveis e por mais que eu saiba que eu deveria desprezá-lo, eu simplesmente não consigo odiar Balak. Eu não sei porquê.

– Eu sei – disse Kastor antes mesmo que se desse conta. A atenção de Lancelot moveu-se completamente para ele ao ouvir aquilo, a expressão do loiro tornando-se confusa. Ele entende. Ele entende o que eu quero dizer. Usando de sua velocidade natural moveu-se rapidamente para a porta do quarto e trancou-a sem pensar duas vezes; aquilo iria facilmente causar uma impressão errada na maioria das pessoas, mas o que tinha de falar tinha de ser dito agora e não podia se dar ao luxo de deixar que Titânia ou qualquer outra pessoa lhe interrompesse. Assim que trancou a porta voltou-se imediatamente para Lancelot e despejou sem hesitação tudo o que lhe atormentava pelos últimos dias no homem. – Lancelot, eu já tive a chance de falar com Balak antes. Depois do que fiz no Mercado de Escravos eu falei com Balak e pude compreender um pouco o modo de pensar dele. E desde esse dia, eu me conscientizei de algo: esse homem é um terrível extremista. Ele possui um ponto de vista e objetivo extremos e ele faz coisas terríveis para tentar alcançar esses seus objetivos. Mas apesar disso e apesar de tudo que ele faz... ele não é mal. Não é verdadeiramente mal, pelo menos. Não vi uma verdadeira malícia ou maldade nele, não vi trevas quando olhei em seus olhos. Ele faz tudo o que faz, mas ele faz isso convencido de que o que ele está fazendo é o certo, o “bom”. E com o passar do tempo e com pensamentos que dediquei a isso... eu comecei a me perguntar se ele não tinha um ponto.

– Um ponto?! – A forma como Lance disse aquelas palavras deixaram bem transparente o susto que ele tomou ao ouvir aquilo, fazendo com que ele quase saltasse da sua cadeira. – Kastor, você não pode estar querendo dizer que...

– Não, eu não tenho intenção nenhuma de pular de um penhasco. Ou de me entregar para Balak. Ou de fazer qualquer coisa desse tipo. – Disse aquilo já de forma como que praticada; já esperava desde o início que Lancelot fosse ficar surpreso daquele jeito ao ouvir o seu relato, o que significava que não ficou surpreso pela reação. – Eu já disse isso para Balak; não quero sofrer dano algum aqui. E além do mais, eu disse que me perguntei se ele tinha um ponto, não que eu acho que ele está certo. Balak definitivamente está no errado aqui; existem barreiras bem claras que separam o certo e o errado, e colaborar com coisas como a escravidão para financiar sua cruzada particular está no segundo lado da coisa. Mas o mundo não é preto e branco e muitas coisas possuem belas camadas de cinza no meio delas. O fato do que Balak faz ser errado não torna o seu pensamento completamente inválido, não tira um ponto da sua questão. Você deve saber isso tão bem quanto eu, Lancelot, mas estou longe de ser um homem perfeito. Eu não sou a pessoa que mais valoriza a vida nesse mundo; não tenho hesitação alguma em matar pessoas que me enfrentam, e recentemente eu... bom, digamos que algumas das coisas que eu fiz recentemente são coisas que eu mudaria se eu pudesse voltar no passado. E além disso, há também toda a questão do demônio e tudo mais. Eu não sei você, mas eu provavelmente também assumiria que pessoas com demônios lendários presos em seus corpos são um tanto quanto perigosas se eu não fosse uma delas. Eu não acho que eu iria tentar matar as pessoas só por isso, mas o ponto é que... não há como eu saber. Existem situações nesse mundo que são muito complicadas, situações que você não pode julgar se você nunca viveu elas antes. E essa é uma delas. Se você acreditasse que há um risco de todo o mundo ser destruído pelos demônios dentro dessas pessoas e você soubesse que você poderia impedir isso se matasse essas pessoas, você faria isso? Em termos matemáticos, matar cinco inocentes para impedir a morte de milhões e milhões não teria um certo valor? Você não consegue, de alguma forma, ter alguma empatia para com esse pensamento, simpatizar com ele em algum ponto?

Lancelot ficou calado perante a isso. Por um momento ele abriu a boca como que para dar alguma resposta, mas logo essa tornou a se fechar e ele ficou em um silêncio profundo, um silêncio sem resposta. Era exatamente por isso que Kastor esperava. Ele chegou a mesma conclusão que eu.

– É sobre isso que quero falar com você, Lancelot. Eu já sei qual seria a resposta que eu obteria se perguntasse para Titânia devido a fúria dela, devido a raiva que ela tem desse homem nesse exato momento. Mas você... você é mais “confiável” nesse tipo de coisa, por assim dizer. Você é alguém que consegue separar as coisas, que consegue usar de uma visão mais racional enquanto ao mesmo tempo consegue aplicar o emocional a essa visão de forma sadia. E é por isso que eu devo lhe perguntar isso, Lancelot. Considerando todas as circunstâncias que cercam toda essa situação, levando em conta tudo que Balak faz e o que ele fará se não for detido, é claro como cristal que ele deve ser parado, que devemos derrotado. Mas a pergunta que me atormenta é... ele deve morrer?

=====

Os olhos de Breath observaram tudo aquilo com um espanto maravilhado a medida que seu braço terminava de se regenerar diante de seus olhos. Com um sorriso Kastor se afastou do mercenário e apenas observou enquanto ele tentou flexionar seu novo braço, um largo sorriso de satisfação logo surgindo em seu rosto.

– Haha... hahahahaha! Isso é fantástico! Absolutamente fantástico! – Com um salto Breath se pôs de pé e ergueu ambos os braços aos céus, tanto o que havia ficado quanto o que Kastor havia acabado de regenerar. – Como isso é possível, Kastor? Como você pode fazer algo assim?

– Eu poderia explicar, mas é complicado e eu estou com preguiça – disfarçou Kastor, não se sentindo necessariamente confortável em ficar falando sobre seus poderes demoníacos com pessoas assim, mais... “estranhas” para ele. – Não se preocupe com detalhes. O que importa é que seu braço está de volta, não concorda?

– Heh, essa é uma habilidade bem útil, pequeno castor azul! – Só havia um homem em todo o Salão Cinzento que chamava Kastor por esse apelido idiota, e esse não era ninguém menos do que Vaen. Afiando seu machado de polo com uma pedra de amolar, Vaen olhava para Kastor com seu único olho, um sorriso em seu rosto. – Mas, ei... se você possui uma habilidade assim, então por que você não usa ela para regenerar o braço de Soulcairn ou coisa do tipo?

– Não é tão simples assim – explicou Kastor. – Eu posso regenerar partes do corpo de alguém, mas só se isso for algo relativamente decente. Se o corpo dessa pessoa já tiver fechado um coto ou cicatrizado de uma forma similar a isso, então eu não consigo mais curar ela. Mesmo que eu crie outro corte igual o anterior por cima desse coto eu já não consigo regenerar o braço dessa pessoa com minhas habilidades, simplesmente porque já passou tempo demais.

– Felizmente vocês contam com alguém como eu por aqui, o que significa que aqueles dois idiotas conseguiram se recuperar – murmurou Orochi do Coração Negro, palitando seus dentes com uma fina agulha de ferro enquanto olhava para Dayun e Chappa, ambos ocupados demais testarem suas as partes anteriormente decepadas de seu corpo, partes que haviam sido costuradas e religadas aos seus corpos de alguma forma extremamente habilidosa por Orochi, ao ponto de fazer com que a única coisa que indicasse que elas haviam sido decepadas em algum momento fossem algumas linhas por ali. – Isso dito, nem mesmo eu posso fazer algo sobre a situação de alguém como Soulcairn. Eu preciso do membro decepado para reconecta-lo ao seu corpo original. Não posso fazer algo como, por exemplo, pegar um braço aleatório por aí e colocar no lugar do de Soulcairn. E o braço original dele foi completamente destruído pelos poderes de um dos membros do Olho Vermelho, se não me engano. Isso faz dele um eterno maneta.

– Hum... então acho que isso significa que eu e a arqueira vamos ter que ou permanecer manetas ou nos contentar com próteses ou coisas do tipo, não é? – Perguntou Duke com as mãos atrás da cabeça, não parecendo realmente incomodado por esse pensamento. – Bom, me sinto mal por ela mas... francamente, eu pessoalmente não ligo muito pra isso. Mão de aço, mão de carne, pra mim é a mesma coisa. O único ruim é que esse meu braço de aço fica frio como um picolé de noite.

– Bom, de qualquer forma, eu já estou feliz só em saber que a minha irmã está bem! – Comentou Kyanna alegremente, sorrindo de orelha a orelha enquanto virava-se para Blair. – Eu fiquei bem preocupada quando vi o seu estado, sabia? Você estava tão ferida!

– Ah, ficou preocupada comigo, não ficou? – Repetiu Blair com um sorriso brilhante em seu rosto, orgulhosa de si mesma. – Ah, Kyanna, minha boa irmãzinha. Você precisa aprender muitas coisas sobre mim se acha que eu iria ser derrotada por algo assim.

– “Irmã”? “Irmãzinha”? – Enderthorn ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo, fitando as duas de cima da maca na qual estava sentado. – Vocês duas são irmãs? Vocês... não parecem uma com a outra.

– Aparência significa pouco, Enderthorn – apontou Bokuto. Por não gostar nem um pouco do homem Kastor sentia-se completamente tentado a simplesmente deixa-lo ferido ali, mas infelizmente não tinha tido nem sequer a chance de fazer isso; quando chegou no Salão Cinzento Bokuto já estava completamente recuperado dos ferimentos que trazia antes, todas as feridas que ele havia sofrido durante a Batalha do Salão Cinzento tendo se fechado. – Jack Branco e Jack Negro não eram nada parecidos, e eles ainda assim eram irmãos, ainda que sob uma condição especial. E de qualquer forma, eu não acho que é esse o caso delas.

– Ah, sério? – Perguntou Blair, apoiando seu queixo na palma da sua mão e olhando para Bokuto com um olhar levemente interessado. – E o que seria o nosso caso?

– Vocês não são irmãs de sangue – afirmou Bokuto, cruzando os braços. – Provavelmente irmãs de criação ou qualquer coisa do tipo, mas não de sangue. Não que isso faça qualquer diferença pelo que importa a qualquer um, até porquê eu não acho que existem muitas pessoas que se importam com isso.

– Ei, eu me importo! – Disse Duke, erguendo uma mão como se fosse um garoto pedindo por sua vez pra falar. Logo em seguida ele se voltou para Kyanna. – Ei, Kyanna! Por que você nunca me disse que você tinha uma irmã?! Mais especificamente, por que você nunca me disse que você tinha uma irmã bonitona?!

Ouvir aquilo fez com que Blair gargalhasse alto pela cantada falha de Duke. Balançando sua cabeça de um lado para o outro ela alcançou com uma mão para dentro de seu bolso, retirando dele uma moeda, a qual ela seguiu para atirar ao ar e tornar a apanhá-la antes dela chegar ao chão. Kyanna, por sua vez, primeiramente encheu as bochechas e franziu o cenho como se estivesse chateada por aquilo, antes de toda essa fachada se quebrar e uma gargalhada escapar de seus lábios.

– Por que eu não lhe disse que tenho uma irmã bonita? – Perguntou ela retoricamente, rolando os olhos. – Ora, porquê eu te conheço, Duke! Você já fica atrás de mim como um cachorro sem dono normalmente, se você soubesse que eu tenho uma irmã você ficaria me seguindo todas as horas de todos os dias, tanto para tentar flertar comigo quanto para tentar descobrir mais e mais coisas sobre Blair!

Vaen, Chappa e Dayun gargalharam imediatamente ao ouvir isso, tal como fez Kastor. E não foram só eles. Logo outras pessoas juntaram-se a gargalhada; Zetsuko, Denis, Breath, Trevor, Ylessa, Valery, Senjur... até mesmo pessoas naturalmente mais sérias como Bryen, Marco, Enderthorn, Maoh e até mesmo Bokuto se juntaram a gargalhada, ainda que de forma mais controlada do que os demais. Duke até tentou manter uma expressão ferida no rosto, mas ele não pode suportar isso por muito tempo antes que todas aquelas gargalhassem lhe contagiassem e que ele começasse a gargalhar abertamente junto dos outros.

– Vocês certamente... estão muito relaxados... para pessoas que estarão em breve... indo enfrentar o Olho Vermelho... – Murmurou uma voz extremamente profunda e claramente nada satisfeita com aquilo. Todas as gargalhadas morreram instantaneamente ao ouvir essa voz e os olhos de todos moveram-se lentamente na direção da qual ela vinha, para o canto do cômodo, um ponto no qual uma porta agora se fechava.

Dentre os que haviam sobrevivido a batalha contra o Olho Vermelho, Goa era o que havia saído mais ferido. Isso era algo que Kastor havia ouvido, bem como algo que ele havia visto através de uma das habilidades que o Coração Azul havia lhe concedido. Mas nunca havia imaginado que iria ver Goa naquele estado. O mago-guerreiro era alguém que havia se recuperado durante o período em que ficaram fora pelo que ele havia ouvido Orochi algum tempo atrás, e ela havia lhe avisado que a aparência dele não havia ficado bonita depois dos danos que ele sofreu, mas isso não chegava nem perto de lhe preparar para o estado de Goa. Marcas de queimaduras estavam visíveis por todo o seu corpo, cicatrizes terríveis que faziam com que ele parecesse algum tipo de aberração medonha. O aço do que um dia havia sido a sua armadura havia afundado e se fundido ao seu corpo, fazendo com que placas de aço estivessem mescladas a carne dele, cobrindo praticamente todo o seu torso, “crescendo” para envolver a metade direita de seu pescoço e se estendendo também até a sua perna esquerda, cobrindo mais de metade dela em meio ao aço. De certa forma isso lembrava o estado de Teigra com aquela estranha armadura que havia visualizado nela momentos atrás, mas isso em particular conseguia ser muito pior; enquanto a armadura de Teigra parecia seguir algumas proporções bem calculadas e aparentemente havia sido feita para adequar-se ao corpo dela, o aço no corpo de Goa era como um objeto estranho que tentava ganhar espaço para dentro dele, algo não natural que tentava abrir caminho para dentro dele, algo que competia com a própria carne e osso do cavaleiro. Não importa como alguém tentasse ver isso, era impossível negar que aquilo claramente não era algo natural dele, bem como era impossível negar que aquilo fazia com que a aparência do homem se tornasse monstruosa.

– O nosso inimigo... não é fraco ou bondoso.... Vocês... realmente acham... que temos tempo de sobra... para desperdiçar com besteiras como essa? – Não se lembrava da voz de Goa ser tão profunda quanto ela soava agora, mas imediatamente compreendeu o porquê disso. As falas de Goa estavam sofrendo com pausas que ele era forçado a fazer para respirar, e cada vez que ele respirava a sua respiração era profunda e um som terrível como o de aço sendo arranhado ressoava pelo ambiente. O aço... todo esse aço da sua armadura deve ter causado danos internos quando se fundiu a carne dele. Os pulmões de Goa ou seu canal respiratório deve ter sido danificado por isso. Se estava certo, então não era surpreendente que o mago estivesse tão furioso quanto parecia. – Se vocês têm tempo para desperdiçar aqui como idiotas... então usem esse tempo... para ficar mais fortes!

– .... Você se atreve a falar dessa forma insolente não só com vários Primeiros-Cavaleiros, seus equivalentes hierárquicos, como também para um dos Ascendentes? – Qualquer sinal da graça ou diversão que Bokuto havia exibido momentos antes desapareceu completamente quando ele olhou para Goa. Seu corpo virou-se em direção ao cavaleiro cuja alcunha era “o Cruel” sem parecer nem um pouco intimidado pela aparente fúria dele, mantendo um olhar afiado e desafiador. Seus braços permaneciam cruzados, tal como antes, mas apesar disso os olhos de Kastor não conseguiram deixar de reparar nas duas espadas que ele trazia na cintura. Depois que sua espada tradicional havia sido perdida durante a Batalha do Salão Cinzento, Bokuto havia escolhido por tomar duas espadas de estilo similar ao dela como armas, e embora ainda não tivesse tido a chance de ver o cavaleiro em batalha depois daquilo, Kastor tinha dificuldades em imaginar que aquelas armas iriam comprometer de qualquer forma o poder de batalha do outro. – Segure sua língua, Goa. Não somos crianças para que você resolva querer nos dar algum tipo de sermão sobre o que devemos fazer. Se você pensa que só pelo fato de ter sido ferido em batalha você tem o direito de agir dessa forma, ou ainda se pensa que eu não irei fazer nada contra você devido a esses ferimentos, pense outra vez. Responsabilize-se pelas suas ações. Eu reagirei de acordo, dependendo da forma como você agir.

– Isso é.... uma ameaça? ... – Por sua voz e pela expressão em seu rosto, Goa também não parecia minimamente intimidado por Bokuto. A tensão estava tornando-se palpável naquele cômodo, e isso estava acontecendo rápido demais. Uou, uou! Como as coisas chegaram a esse nível tão rapidamente? A essa altura não era só Kastor que observava o desenrolar da conversa entre os dois, mas sim todos que estavam ali. Cada e toda pessoa naquele cômodo tinha apenas olhos para os dois cavaleiros que se estranhavam, e Kastor conseguiu ouvir alguns ruídos de incredulidade quando Goa ergueu sua mão direita e apontou com essa aberta em direção à Bokuto, uma clara ameaça para qualquer um que conhecesse as habilidades dele. – Diga-me, Bokuto... você ainda acha que eu tenho medo de você?

Uma veia pulsante surgiu na testa de Bokuto quase que imediatamente ao ouvir isso. Uma de suas sobrancelhas tremeu em um tique nervoso, e por um momento Kastor temeu que ele fosse perder o controle e avançar contra Goa, mas felizmente o Ascendente pareceu conseguir se deter no último momento. Um suspiro cansado e irritado escapou de seus lábios a medida que seus braços iam se descruzando lentamente...

E foi então que, num instante, os olhos treinados de Kastor viram um rápido movimento de espada.

A mão que Goa antes apontava contra Bokuto voou pelo ar por um momento antes de ser apanhada por Orochi, a mulher mantendo no rosto uma expressão nada surpresa, como se já esperasse por aquilo desde o começo. Expressões de surpresa e exclamações de susto vieram de todos os lados, mas elas foram como o zunido de uma mosca para Kastor. Os próprios olhos de Goa se arregalaram quando ele viu sua própria mão no ar e seu sangue ainda fresco no chão, mas Bokuto em si não demonstrou reação alguma.

– Permita que eu responda sua pergunta com outra pergunta, Goa “o Cruel” – murmurou o cavaleiro conhecido como Bokuto “da Espada de Madeira”, enquanto calmamente terminava de embainhar a espada que havia acabado de usar para cortar a mão de Goa. – Você é burro o bastante para não ter medo de mim?

Uma série de veias saltitantes surgiram na testa de Goa imediatamente após ele ouvir aquilo, a feição em seu rosto se contorcendo em uma careta enfurecida quase que demoníaca. Pela forma como Bokuto olhou para isso, Kastor teve a sensação de que ele não podia se importar menos com algo assim. A mão esquerda que restava do Cruel se remexeu e o cavaleiro jogou seu braço para trás, preparando um ataque..., mas antes que ele tivesse a chance de lançar o golpe que estava preparando, uma mão pousou sobre seu ombro esquerdo, fechando-se ao redor dele com tanta força que seus dedos perfuraram um pouco a carne de Goa, ameaçando quebrar seus olhos como se fossem vidro e fazendo com que um grunhido de dor escapasse dele.

– Pare com isso, Goa. Agora. – A voz que sussurrou isso era a de ninguém menos do que Hozar, soando quase que como um grunhido. O cavaleiro mostrou-se ao lado de Goa de uma só vez como se tivesse se materializado ali em um único instante, mas a expressão em seu rosto sugeria que ele estava completamente ciente do que acontecia, bem como que ele não estava nem um pouco satisfeito com isso. – O seu objetivo é vingar-se do Olho Vermelho, certo? Então, se você quer isso, o melhor que você pode fazer agora é calar a boca e parar de arranjar problemas. Se você continuar a ser problemático como está sendo, você não terá a chance de obter sua vingança.

A ameaça foi bem clara nas palavras e na voz de Hozar, sem nenhum rodeio. Os olhos de Goa moveram-se para ele, e por um momento pareceu que ele estava pronto para insistir naquilo mesmo assim, mas no último instante o bom senso pareceu triunfar. Com um movimento brusco ele se desvencilhou de Hozar, e com passos largos ele caminhou até a saída do cômodo. Foi só depois que ele saiu que alguém voltou a falar.

– Ei, mulher-cobra – disse Bokuto, referindo-se a Orochi por isso, fazendo com que a mulher lançasse um olhar irritadiço em sua direção. – Costure de volta a mão de Goa. O homem é um idiota, mas ele é consideravelmente forte. Precisaremos dele na batalha que está por vir.

– Hein? – Fez ela, claramente insatisfeita ao ouvir aquilo. – Foi você que cortou a mão dele, estúpido. Por que eu deveria costura-la de volta? Além do mais, o azulzinho ali tem o poder de regenerar partes decepadas do corpo de alguém desde que isso seja recente, não é? Mande ele cuidar disso.

– Kastor não tem tempo para algo assim. Ele e eu vamos ficar ocupados por algum tempo agora. – Os olhos do Ascendente moveram-se para Hozar ao dizerem isso, buscando a aprovação do cavaleiro cinzento. – Não é, Hozar?

Hozar só fez acenar positivamente com a cabeça, em silêncio.

– Muito bem – disse simplesmente Bokuto, virando-se em seguida. – Eu vou buscar por Titânia. Encontro vocês lá.

Desnecessário dizer, Kastor estava mais do que um pouco confuso por tudo aquilo. Mas não permaneceu assim por muito tempo.

– Venha comigo, Kastor. E você também, Trevor – disse Hozar, lançando um olhar para ambos os homens enquanto falava. – Odin convocou vocês dois, bem como Bokuto e Titânia. Está na hora de planejarmos a batalha que está por vir.

=====

– Estão todos aqui?

A pergunta de Odin veio mais no tom que você esperaria de uma formalidade do que de uma pergunta em si, e Kastor sabia bem o porquê disso. Estavam na sala principal de reuniões do Salão Cinzento, um dos locais que havia conseguido escapar ileso da destruição que o Olho Vermelho causou. Era ali que os cavaleiros se reuniram historicamente, ali que todas as grandes reuniões com o objetivo de decidir algo que afetaria grandemente o destino do Salão Cinzento eram efetuadas. Naquele caso, aquela era uma reunião militar, e para isso Odin não havia poupado pessoal. Sentados ao redor de uma grande mesa redonda de carvalho estavam Odin, Soulcairn, Bokuto, Senjur e Titânia, representando os cavaleiros do Salão Cinzento. Representando o Colégio Branco estavam Ex e Shell Glace, bem como os vários mercenários que haviam sido contratados eram representados por Sydwel Ostrower (que representava os mercenários independentes), bem como por Trevor Lancaster (que representava o clã “Potentia Aurae”). Além disso, Ekhart e Mefisto tinham lugares ali, representando o Coração Negro... bem como Kastor e Hozar também tinham seu próprio espaço, como representantes da Era Dourada. Por fim, o último lugar disponível era ocupado pelo mercenário que Odin havia saído para buscar, um homem barbudo e com uma aparência digna de um bêbado vagabundo chamado “Skuld Didien”.

– Parece que sim. Muito bem então. – Com seus cotovelos apoiados na mesa e suas mãos unidas no ar, Odin repousou seu queixo sobre elas. Respirou fundo uma vez, expirando lentamente o ar, antes de pôr fim começar a falar. – Sendo assim, começamos agora. A partir desse momento, declaro oficialmente iniciada essa reunião, com a seguinte pauta como objetivo: a completa destruição do Olho Vermelho.



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES!

*Sim, caso vocês estejam pensando nisso, Hadvar é gay. Sim, esse é um fato planejado desde a primeira aparição dele. Não, não apareceu nenhum outro personagem homossexual na minha história (apesar de que apareceram alguns bissexuais, como Ylessa e Robert). Sim, isso inclui Florian e Behemoth.

*Originalmente eu planejava fazer esse capítulo inteiro. Depois, enquanto eu escrevia ele, decidi que seria melhor cortá-lo pela metade. Depois voltei atrás nessa decisão e fiz ele inteiro como vocês o veem agora. Sim, eu sou um tanto quanto indeciso em relação a algumas coisas.

*O cabelo em forma de raios do Zaniark é natural.

*Caelum originalmente iria aparecer nesse capítulo. Acabei decidindo cortar sua aparição aqui afim de fazer sua reaparição durante a batalha ser mais... impactante.

*Vocês podem ter notado isso, mas Titânia melhorou muito em relação aos seus problemas quanto a proximidade, comparando a Titânia atual com como ela era quando criança. Essa melhora foi proporcionada por Lancelot, que a ajudou a superar seus traumas pouco a pouco.

*Sim, Shell foi citado como um representante do Colégio Branco ali, mesmo sendo parte da guilda de Kastor. Isso é porquê Kastor já tinha representantes ali, bem como devido ao fato de que Shell ainda faz parte do Colégio Branco e o fato de que, tendo estado com o Olho Vermelho por um bom tempo, Shell tem acesso a muitas informações úteis para Odin e os outros, o que faz com que eles queiram lhe colocar na reunião.

Bom, é isso! Até a próxima! o/



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