O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 53
Varinha de Prata


Notas iniciais do capítulo

Ufa. Esse aqui demorou um bocado, não demorou? Sinto por isso, mas ei, olhem pelo lado positivo! Os próximos capítulos reservam coisas interessantes, bem interessantes. Tenho certeza de que todos vocês vão gostar do que está por vir, hehe.

Ah, e por sinal: de agora em diante estarei fazendo algo que julgo interessante. Nas notas finais de cada capítulo eu colocarei o que chamarei de "Fatos Interessantes"; informações sobre coisas que eu usei no capítulo, ou que alterei, ou planos especiais que eu tinha e foram modificados e coisas do tipo. Basicamente, uma seção de curiosidade para vocês. Acho que isso poderá lhes interessar um pouco, e talvez seja particularmente curioso para os demais escritores aqui verem o que eu faço quando escrevo, bem como o porquê.



– SABE, EM UMA SITUAÇÃO NORMAL EU PERGUNTARIA SE VOCÊ CONSEGUE SE LEVANTAR... – comentou Trevor Lancaster, aproximando-se do cavaleiro em dor com uma sobrancelha erguida enquanto observava o pé decepado de Enderthorn, mutilado violentamente pelas presas de Hadvar – ... mas acho que eu pareceria um otário por fazer algo assim, considerando a situação.

A resposta de Enderthorn a isso foi lançar um olhar fulminante ao líder de clã, como se tivesse a esperança de que ele derretesse sob o seu olhar se concentrasse raiva o bastante nele. Tudo que Trevor pode fazer para lidar com aquilo foi rir sem graça e mostrar um sorriso amarelo que não convencia ninguém. Ahahahahahahaha... cara, eu tenho que aprender a ficar calado de vez em quando. Um dia desses essa sua mania de falar o que vinha a mente iria lhe custar caro. Provavelmente um nariz quebrado.

O corpo do que havia sido um oponente trabalhoso para a dupla, Hadvar, estava alguns metros ao lado dos dois. Depois de seu último ataque – o Rayleigh – o mercenário havia retornado a sua forma humana, incapaz de sustentar sua transformação. Ele ainda estava vivo pelo que havia sido capaz de sentir quando moveu seu corpo, mas não se preocupava muito com isso. Com as suas feridas, Hadvar não vai durar muito tempo. Se o trauma não o matar, a falta de sangue fará o trabalho. E mesmo se ela não o matasse... bem, tinha de ser sincero; não tinha vontade alguma de matar o homem. Quero dizer, ele não parece ser uma pessoa ruim, exatamente. Sim, era verdade que Hadvar havia arrancado metade do pescoço do garoto que estava com eles antes, e estaria mentindo se dissesse que aquilo não lhe irritava, mas não se sentia confortável em condenar o homem a morte por isso. Era uma batalha e nós éramos seus oponentes... e tal como eu estou irritado por um companheiro meu ter se ferido, ele estava irritado pois uma de suas companheiras havia se ferido. Conseguia compreender os motivos do homem, e isso lhe permitia ter algum tipo de empatia com relação a ele. Não é como se eu fosse poupar sua vida, de qualquer forma. Se eu tivesse lhe decapitado durante a batalha eu não piscaria. Se ele morrer devido aos danos desse golpe eu não irei derramar uma lágrima. Mas acho que ele mostrou valor o suficiente para pelo menos merecer uma chance. Se apesar disso tudo ele se agarrar a vida com força o suficiente para continuar nesse mundo, então ele fez por merecer isso, e nem eu nem ninguém tem o direito de jogar seus esforços ralo-a-baixo.

Infelizmente, esse não parecia ser um pensamento que Enderthorn compartilhava.

– O mercenário. – Resmungou o cavaleiro em um tom meio irritadiço, gesticulando com sua cabeça na direção de Hadvar enquanto olhava para Trevor, claramente insatisfeito. – Acabe com ele.

Coçou sua cabeça ao ouvir isso. Ah, droga. Aquilo lhe colocava em uma situação não muito confortável. Não queria matar Hadvar, mas ao mesmo tempo ele havia sido contratado pelo Salão Cinzento. Tecnicamente falando ele devia obediência aos cavaleiros de alto nível do Salão Cinzento – e certamente que Enderthorn se enquadrava entre esses, considerando que ele era um Primeiro Cavaleiro. Isso dito... se formos realmente puxar as coisas para o ponto técnico, a hierarquia do Salão Cinzento não estabelece uma diferença clara entre, por exemplo, um décimo e um primeiro cavaleiro. Em termos práticos eles são diferenciados devido à força e habilidades claramente superiores dos Primeiros, mas não existe nada “oficial” confirmando uma autoridade maior deles. Oficialmente falando, eles estão acima apenas dos cavaleiros “casuais” do Salão. Isso podia ser algo que Trevor poderia usar ao seu favor. Considerando tudo isso... talvez eu tenha condições de me negar a acatar uma ordem dele. Ou ao menos discuti-la.

– Isso é desnecessário – afirmou Trevor, sorridente, balançando uma de suas mãos como que para indicar que aquilo não era algo com o qual o outro deveria se preocupar. – Hadvar já está acabado, Ender. Rayleigh é uma técnica bem poderosa; inúmeros feixes de luz que saem do corpo do meu alvo, abrindo múltiplos buracos por todo o seu torso ao fazer isso... só a descrição dessa técnica já parece bem poderosa, e a técnica em si é mais ainda do que isso. A luz não fica muito tempo no interior de meus oponentes, o que significa que ela não é capaz de causar queimaduras significativas a eles, mas a expansão dela não é algo “gentil”. Quando a luz se expande em múltiplas direções, ela se expande nessas direções sem dar a mínima para o que quer que possa estar em seu caminho. Órgãos, ossos, músculos, nervos, tecido... tudo que se colocar no caminho desses feixes de luz será atravessado por eles, e considerando quantos feixes são liberados, é impossível que algo não fique no caminho deles. Não existe homem nesse mundo que consiga se levantar depois de ser atingido por um ataque como esse.

– Se você diz isso com tanta segurança, então você obviamente nunca teve o azar de ver enfrentar uma das pessoas que podem realmente disputar pelo título de “mais forte do mundo” em um campo. Diga a mesma coisa aos seus amiguinhos de enfrentaram Jiazz e pode ser que seus paradigmas sejam quebrados – retrucou Enderthorn, fazendo uma careta de dor ao terminar sua frase. As palavras dele fizeram com que o sorriso de Trevor morresse ao lembrar o homem do estado de seus companheiros. Jiazz... Jiazz o Juggernaut. Não conhecia o famoso Juggernaut por nada mais do que sua reputação terrível, mas isso não o impedia de já ter certo desgosto do homem. Jiazz... foi ele que deixou meus companheiros no estado atual deles. Com exceção de Marco, todos os seus companheiros haviam ficado gravemente feridos ao fim da Batalha do Salão Cinzento, em um estado precário demais para que pudessem participar de alguma outra assim tão cedo. Dizem que ele é algum tipo de monstro. Uma aberração em forma humana capaz de transformar exércitos inteiros em pó com um estalar dos dedos. Considerando a aparente facilidade com a qual Jiazz havia derrotado seus companheiros, não sabia dizer se aqueles rumores estavam pintando uma figura correta do homem ou se eles eram exagerados como muitas vezes eram, mas francamente, não se importavam. Quando atacarmos o Olho Vermelho, Jiazz deve estar na base deles. Eu vou obter minha vingança então. Se eu encontrar esse maldito lá, eu com certeza irei chutar a bunda dele! – Hadvar é um dos membros do S.O.M.B.R.A., Trevor; mercenários de elite famosos por serem extremamente poderosos. Mais do que isso, ele parece ser um dos mais poderosos membros do grupo. Você acha mesmo que ele morreria assim tão fácil? Não acha que você está sendo um tanto quanto descuidado em confiar tanto assim em seu ataque?

A resposta disso é óbvia, e você sabe disso tão bem quanto eu. Não era burro, já havia entendido qual era a intenção de Enderthorn com tudo aquilo. Ele já sabe qual é o meu plano. Ele sabe que eu não quero matar Hadvar, mas ele está jogando um joguinho comigo agora. Como ele sabia que Trevor não podia simplesmente se negar a matar um inimigo, Enderthorn estava arquitetando toda a situação de forma que Trevor não tivesse opção alguma além de fazer o que ele queria. Droga... eu entendo qual é a intenção dele, mas francamente, isso me ajuda bem menos do que eu gostaria que ajudasse. Era um mercenário, não um político. Políticos estavam acostumados com enrascadas como aquela e pura experiência havia feito com que eles se tornassem bons em lidar com situações como aquela. Infelizmente, essa experiência era uma arma com a qual Trevor não contava, e sendo assim, ele teve de recorrer a segunda melhor alternativa:

O Improviso.

– Nossa, Ender, olha a hora! Já está na hora de irmos almoçar! – Sem dar tempo para que o cavaleiro erguesse qualquer tipo de protesto agarrou rapidamente o pé dele que estava ainda ligado ao resto de seu corpo e começou a puxá-lo sem cerimônia, arrastando-o em uma direção aleatória. – Vamos, vamos, não podemos nos atrasar! Se nos atrasarmos não vamos poder repetir!

– Mas que dr... O que raios você pensa que está fazendo, seu imbecil?! – Exclamou Ender, cravando suas mãos no chão para tentar se manter firme aonde estava e impedir que aquele lunático maldito seguisse com suas loucuras. – Você está me ignorando?! Você está me ignorando com um pretexto idiota?! E pior ainda, você está me arrastando pelo chão?! Eu perdi um pé há poucos minutos atrás, seu débil mental, tenha um pouco mais de cuidado!

– Lá lá lá lá lá! Disse alguma coisa, Ender? Sinto muito, eu não consigo te ouvir! Estou animado demais pensando no almoço, meus ouvidos não funcionam! – Honestamente, sentia-se um pouco ridículo em estar fazendo algo assim tão... estúpido e aleatório, principalmente considerando que estava aplicando uma tática dessas em um dos homens mais sérios do Salão Cinzento. Isso dito, ao mesmo tempo em que isso era um tanto quanto embaraçoso, essa também era uma tática que surpreendentemente estava dando certo! Hum... quem diria, hein? Se passar por idiota pode te livrar de várias enrascadas! .... Acho que é por isso que a maioria dos políticos que me contrataram sempre parecerem meio tapados, apesar de seus cargos.

Sua tática estava se provando bem efetiva pelo que estava vendo. Mesmo que Enderthorn não fosse tolo o bastante para acreditar nela, ela ao menos lhe dava uma desculpa para ignorar o homem e fingir não estar o ouvindo. Por mais ridícula que ela pudesse ser, sentia-se confortável em mantê-la por algum tempo, dada a efetividade dela. Mas infelizmente isso não foi possível.

Por mais que fingisse o contrário, seus ouvidos funcionavam perfeitamente, e isso lhe permitiu ouvir os passos rápidos que se aproximavam.

Girou com uma agilidade impressionante, movendo sua espada por puro instinto, bem a tempo de usá-la para deter o golpe de seu oponente. O aço rude e forte de outra espada bastarda chocou-se com o da de Trevor, fazendo com que o ar ao redor dele se deslocasse devido a força dos golpes e levantando poeira do chão. Do outro lado, segurando sua espada com ambas as mãos e parecendo planar em meio ao ar, Hadvar tinha uma expressão guerreira no rosto. De cenho fechado e com veias de esforço espalhadas por seu rosto, era claro para qualquer um que olhasse que Hadvar estava colocando um esforço medonho naquele ataque, e não era para menos. Esse cara... ele é terrivelmente forte. Já havia sido complicado lidar com um oponente como ele enquanto lutavam em duplas, mas aquela resistência que ele estava demonstrando era completamente fora de série. Uma pessoa normal... não, até mesmo um guerreiro poderoso o suficiente para ser considerado um monstro normalmente morreria imediatamente com um ataque como o Rayleigh. O próprio Maverick, mesmo sendo forte como ele era, tombou perante a ele. Hadvar, no entanto... ele não somente conseguiu sobreviver a esse ataque e seguir para continuar com a luta mesmo com todas as feridas que o golpe deixou em seu corpo, ele também é capaz de manifestar uma força tão grande assim, mesmo nesse estado! Se isso fosse uma história que alguém estivesse lhe contando, Trevor não hesitaria em declarar aquilo como uma grande lorota, mas era impossível negar algo que se desenrolava diante dos seus próprios olhos.

Grunhindo em resposta, moveu bruscamente sua espada com força, afastando a de Hadvar e criando algum espaço entre eles... por apenas uma mísera fração de segundos. O Terror Celeste estava decidido a continuar aquela luta pelo que podia ver, e de alguma forma ele ainda conseguia se mover bem rapidamente apesar de sua condição. A espada caiu contra Trevor, de novo e de novo. Três golpes em três segundos, cada um deles pesado, cada um deles estratégico. Maldito, ele não está apenas lançando ataques aleatórios! Cada golpe de Hadvar era calculado; graças ao seu peso, cada golpe do homem fazia com que as defesas de Trevor pendessem para um determinado lado afim de bloqueá-lo, e com a sequência calculada de ataques que estava lançando ele lentamente estava manipulando a própria defesa de Trevor de forma a tentar gerar uma abertura em sua guarda. Maldição, isso é mal! Não podia simplesmente ficar defendendo aquilo..., mas também estava numa posição complicada para contra-atacar. Eu não tenho problemas no que diz respeito à velocidade. Esse cara é rápido, mas eu devo ser rápido o suficiente para competir com ele no que diz respeito a isso. No entanto.... Para contra-atacar iria precisar se mover e ajustar sua posição afim de conseguir lançar um bom golpe, mas não podia fazer isso. Não com Enderthorn aos seus pés. Maldição, maldito seja!

Quando a espada de Hadvar se ergueu novamente, Trevor sentiu um arrepio correr pela sua espinha. Quando viu seu rosto resplandecer na lâmina da espada, sentiu que aquele golpe iria lhe atingir com força. Eu não vou conseguir bloquear isso, compreendeu ele em uma fração de segundos. Cerrou seus dentes e preparou-se mentalmente para o que estava por vir.

E então, o som do choque entre aços ressoou, e uma fina lâmina completamente branca mostrou-se em sua defesa, bloqueando o golpe de Hadvar.

– Ufa... então, consegui chegar a tempo ainda – murmurou uma voz feminina, calma e ao mesmo tempo aliviada, suspirando enquanto falava.

Os instintos de Trevor queriam mover seus olhos de imediato para ela e ver quem exatamente era aquela que havia lhe salvado, mas sua lógica e bom-senso falaram mais alto; saltou para trás tão rápido quanto pôde, criando alguma distância entre ele e seu oponente em primeiro lugar. Só depois disso foi que ergueu novamente os olhos e se pôs a avaliar a situação.

A pessoa que havia lhe protegido era realmente uma mulher, mas uma que Trevor não conhecia. Havia imaginado que sua salvadora poderia ser uma das cavaleiras que havia ido treinar os membros da Era Dourada – ou talvez até mesmo uma própria membra da Era Dourada – mas a pessoa que viu era diferente demais para ser associada a qualquer um dos grupos. Uma mulher de cabelos completamente brancos, mas sem parecer velha; seus cabelos eram brancos de uma forma natural e viva, como se fossem feitos de pura neve, sendo que uma longa seção de cabelos lisos caiam até pouco abaixo de sua nuca; alguns poucos fios também caiam sobre sua testa, e esses também eram normais, mas as duas mechas que caiam ao lado de seu rosto eram enroladas em forma de caracóis. Por todo o seu corpo ela não usava nada que sequer parecesse se tratar de uma armadura; sua veste superior era apenas uma camisa social simples de bom tecido, branca com algumas listras pretas, e suas vestes inferiores também eram apenas calças pretas leves que se estendiam até seus pés nus. Em suas mãos era segurava o que parecia ser o cabo de alguma bengala, só que ao invés de uma bengala o que ela brandia era a espada eu havia visto antes, segurando o golpe de Hadvar de forma nivelada com a da mulher.

Tanto Hadvar quanto Enderthorn – que ainda estava no chão bem diante do Terror Celeste – não puderam deixar de olhar para a mulher com uma expressão de surpresa em seus rostos quando ela surgiu subitamente. Era óbvio que eles queriam saber quem era ela tanto quanto ele, mas ela não pareceu disposta a lhes dar uma resposta; aproveitando-se da distração de seu oponente a mulher aumentou a força em sua espada, lançando a arma de Hadvar de volta para ele ao mesmo tempo em que o atacava com um corte rápido. Por um momento Trevor chegou a pensar que ela iria realmente atingi-lo com aquele golpe, mas no último instante os reflexos de Hadvar mostraram o porquê de ele ser considerado um mercenário de elite; com um salto para trás ele se afastou a tempo de evitar o golpe de sua oponente, conseguindo com isso criar distância o suficiente para que todos pudessem respirar decentemente por uma vez.

Se apressou em tomar uma posição ao lado daquela mulher; podia não saber exatamente quem ela era, mas sabia o suficiente para dizer que ela era uma aliada, e considerando que estava lidando com um inimigo tão perigoso enquanto tinha um aliado ferido no chão, podia usar toda ajuda que lhe oferecessem. Ver aquilo fez com que Hadvar grunhisse em irritação. O mercenário estava aparentemente tentando passar uma imagem de durão, tentando agir como se estivesse em um estado perfeito, mas alguém teria de ser muito idiota para realmente acreditar em algo assim; ninguém conseguiria simplesmente ignorar tantas feridas como as que ele tinha, e por mais que Hadvar tentasse disfarçar isso, Trevor ainda conseguia ver o sangue que fluía de seus ferimentos e a forma como o corpo dele tremia ou fraquejava de tempos em tempos, demonstrando a dor que ele sentia. Esse cara é perigoso..., mas sou ousado o suficiente para dizer que estamos na melhor situação aqui. Não podia se dar ao luxo de subestimar seu oponente, obviamente, mas se lutassem de forma esperta e usassem de um mínimo de trabalho em conjunto, teria dificuldades em imaginar como poderiam ser derrotados por Hadvar.

E, no entanto, parecia que a mulher não queria continuar com a luta. Quando ajustou sua postura, preparando-se para lançar um novo ataque, ela foi bem rápida em mover sua espada e posicioná-la à frente de seu corpo, impedindo qualquer avanço. Quando lançou um olhar questionador para ela depois disso ela simplesmente o ignorou, preferindo focar sua atenção em Hadvar. Observou-o por um instante ou dois com o que parecia ser o tipo de interesse que você esperaria ver de alguém que observa um animal estranho pela primeira vez, e só depois falou.

– Você realmente pretende continuar com essa batalha, homem? – Foi o questionamento que ela fez, como se não conseguisse entender as ações de Hadvar. – Talvez você não entenda a sua situação, então deixe-me esclarecê-la: você vai morrer se continuar a lutar. Você está sangrando, você está ferido, você não está em condições de usar nem metade do seu verdadeiro poder aqui.... e ainda assim, você insiste em lutar. Devo dizer, essa sede de sangue é uma das coisas que eu não entendo em vocês. O que você tem a ganhar com essa luta?

– O que te importa? – Retrucou ele sem pensar duas vezes. Enquanto ouvia a mulher começar a falar, uma das sobrancelhas de Hadvar foi se erguendo, mas a medida que o discurso dela foi se desenvolvendo e ele foi compreendendo o que ela queria dizer, essa sua expressão de surpresa transformou-se numa de irritação. – Eu não devo satisfação alguma a você, mulher.

– Não. Mas se eu não me engano, você tem o dever de salvar a garota que foi derrotada antes, não tem? – As palavras da mulher foram como uma flecha disparada por um mestre arqueiro, atingindo direto no alvo. Os olhos de Hadvar se arregalaram ao ouvir aquilo, e até mesmo o próprio Trevor não pode deixar de olhar novamente para ela, surpreso. Isso é... algo esperto, bem esperto. Mas quem raios é essa mulher, afinal de contas? Cada vez mais ficava mais confuso com isso. Não me lembro dela entre os cavaleiros, ou mercenários, ou membros da Era Dourada, ou qualquer coisa assim. Não me lembro nem sequer de alguém parecido com ela. Mas apesar disso ela parece estar perfeitamente a par de toda a situação atual. Por quê? Quem é ela? – Ulrock está morto. Daqui a alguns minutos, o mesmo valerá para Robert e Flavent. Neshka está viva ainda, mas a vida dela está nas suas mãos. Suas ações vão decidir se ela vive ou morre, Hadvar. Demore demais e ela vai morrer. Seja descuidado e ela vai morrer. Morra, e ela. Vai. Morrer. Entende o que quero dizer com isso? – Com seus olhos fixos nele a mulher avançou em direção a Hadvar de forma intimidadora. O efeito dos seus gestos foi um pouco mitigado pelo fato de que, ao avançar, ela acabou pisando na barriga de Enderthorn, fazendo com que o cavaleiro gemesse e grunhisse em dor, mas isso foi ignorado por todos ali, o que fez com que não influenciasse muito na situação no fim das contas. – Você pode escapar daqui junto de Neshka e os dois podem fazer o que bem entenderem depois... ou você pode manter esse “orgulho guerreiro” idiota que eu sei que é o que lhe mantém nessa luta e causar tanto a sua morte quanto a dela. A escolha é sua, Hadvar.

A forma violenta como o homem reagiu a isso fez com que Trevor ficasse temeroso por um momento. Seus dentes rangeram com muita força, grunhidos inumanos enfurecidos vindo de sua garganta, e por todo o seu corpo seus músculos pareceram inflar, veias se tornando visíveis por todo ele. Ainda assim, a mulher permanecia completamente calma, sem demonstrar um único sinal de terror. Maldição, o que ele vai fazer agora? A vontade de Trevor era de simplesmente avançar com tudo contra Hadvar e ataca-lo antes que ele pudesse tomar a ofensiva, mas a calma da mulher lhe segurava, fazia com que ele sentisse que devia apenas... esperar.

Essa era a escolha correta, como compreendeu meros instantes depois. Subitamente, um verdadeiro rugido veio de Hadvar. Não um berro de um homem extremamente irritado ou coisa do tipo, mas um verdadeiro rugido, tão forte que fez com que todo o ambiente ao seu redor parecesse estremecer graças a isso. Em um instante as duas asas monstruosas de Hadvar surgiram nas costas dele, e antes que pudesse ter qualquer reação a isso o Terror Celeste bateu suas asas. Mas não para avançar contra ele, como havia pensado inicialmente. Hadvar bateu suas asas com toda a sua força, e com elas ele acendeu aos céus, abrindo um buraco no teto e rasgando o ar com a força de seus movimentos, seguindo para longe dali a toda velocidade.

– Hum. Então, parece que ele conseguiu ver algum semblante de lógica no fim das contas, não é? Interessante. – A mulher contemplou aquilo de forma calma, claramente falando consigo mesma. Ela deu um passo para frente, saindo de cima de Enderthorn (o que fez com que o cavaleiro suspirasse em alívio) e seguiu para estender sua mão esquerda para frente enquanto segurava sua espada na direita. Como que num passe de mágica uma bainha manifestou-se na palma de sua mão; uma bainha na forma de uma bengala, com a visível falta de um cabo. Calmamente ela embainhou sua espada enquanto continuava a andar por mais um, dois passos... antes de subitamente falar e voltar-se para Trevor, olhando direto para os seus olhos de forma tão súbita que ele não pôde deixar de dar um passo para trás. – Você é Trevor, não é? Líder do clã “Potentia Aurae”, se não me engano. Pelo que eu pude ver enquanto vinha até aqui, um de seus companheiros está lutando junto do meu novo mestre contra a que chamam de Flavent. Seu clã parece ser composto de pessoas capazes.

.... Um companheiro meu? Junto de seu... “novo mestre”? Não estava entendendo bem o que estava acontecendo ali, mas supunha que podia ao menos tentar tirar um pouco de lógica daquilo. Companheiro meu... ela deve estar falando de Marco, considerando o estado dos outros. Então, isso significa que Marco está lutando contra a mulher? Bom, isso é um alívio, de certa forma; dentre ela e o líder dela, eu acho que é meio óbvio quem supostamente é o maior perigo. Ainda assim... o que ela quer dizer com “novo mestre”? Aquela era a parte do discurso dela que estava realmente lhe deixando confuso. Ela disse novo mestre. No masculino. Isso sugere que se trata de um homem, o que elimina Blair e Zetsuko. Esse “mestre” obviamente não é Marco, tanto pelo fato de que eu provavelmente saberia se ele fosse “mestre” de alguém quanto pelo fato de que, dada a forma como ela formulou sua frase, fica implícito que o “mestre” se trata de alguma outra pessoa além dele. Isso reduz a lista a Breath, Denis e Syd. Francamente, dentre esses três, não conseguia imaginar que nenhum deles fosse ser um “mestre”; talvez Denis pudesse desempenhar essa função graças a sua personalidade fria e aparência esperta, mas se ele tivesse algum “servo” – principalmente um que soubesse lutar como aquela mulher parecia saber – esse teria certamente participado da batalha que eles aparentemente haviam travado antes da chegada de Trevor. O fato de eu não saber o que exatamente ela quer dizer com “mestre” não ajuda, também. Pelo que me consta, ela pode tanto estar sugerindo que ela faz parte de uma guilda na qual um desses três é o “mestre” como que ela é uma escrava-guerreira que deve sua fidelidade ao “mestre” que a comprou.

– Obrigado por ter me ajudado antes! – Disse Trevor, balançando a cabeça por um momento antes de mostrar seu melhor sorriso à mulher. Eu não vou conseguir chegar a uma resposta se ficar simplesmente quebrando a cabeça aqui, decidiu mentalmente o jovem guerreiro. Eu preciso saber um pouco mais sobre essa mulher antes de tentar entender alguma sobre ela. E a melhor forma de conhecer alguém é perguntando! – Você surgiu bem a tempo! Haha, francamente, eu não sei o que eu teria feito se você não tivesse aparecido.

– Você daria seu jeito, certamente – respondeu ela com um sorriso fino. – Você me parece um homem bem capaz e habilidoso. Talvez você saísse um pouco ferido do embate, mas duvido que fosse sofrer mais do que isso. Até porquê, eu não sinto o cheiro da morte ao seu redor. Isso significa que você não vai morrer hoje, Trevor.

– ... Espera aí. “Cheiro da Morte”? – Já havia visto o bastante sobre aquela mulher para ser capaz de dizer que ela era bem estranha, e por isso havia decidido por não quebrar muito a cabeça com o que ela dizia, mas mesmo assim não foi capaz de simplesmente ignorar o que ela havia dito. Ao notar o seu espanto a mulher ergueu uma de suas sobrancelhas, como se estivesse surpresa por ele não saber do que estava falando, para que logo em seguida uma expressão de realização surgisse em seu rosto, como se só agora tivesse se lembrado de algo importante. Isso fez com que ela balançasse sua cabeça, desolada.

– Ah, sim. Você não sabe o que é isso. – Murmurou ela, erguendo novamente seu rosto para tornar a olhar para Trevor. – Sinto muito. Por vezes esqueço-me que vocês humanos não só não possuem um olfato tão bom quanto o nosso como também não estão tão ligados a natureza quanto nós. – Aquelas palavras fizeram com que ele ficasse ainda mais confuso, mas antes que ele tivesse a chance de fazer qualquer pergunta quanto àquilo a mulher prosseguiu. – O Cheiro da Morte... bem, ele é literalmente o que o nome sugere; um cheiro podre e enojante. Esse não é um cheiro normal, no entanto. Na verdade... eu acho que você poderia classifica-lo mais como uma “sensação”, de certa forma. Uma pessoa pode nadar em meio a montanhas de lixo e ela não terá esse cheiro. Na verdade, uma pessoa pode esfaquear-se no peito que, a não ser que ela esteja destinada a morrer depois disso, o cheiro não vai surgir. Esse cheiro apenas se manifesta quando uma pessoa já tem seu destino traçado, quando ela, sem dúvida alguma, irá morrer em um curto período de tempo. Por isso digo que isso é mais como uma sensação; esse cheiro não é realmente algo físico, mas sim uma espécie de premonição, uma forma de manifestação que permite que uma pessoa identifique que o Deus da Morte marcou o falecimento de alguém.

– Isso é.... bem interessante – murmurou Trevor, mais para não deixar aquilo sem resposta. A bem da verdade, a resposta da mulher havia servido de muito pouco para lhe explicar alguma coisa do que ela falava, mas não era mais nisso que seu foco estava agora. – Isso dito, uma das coisas que você disse... você disse “humanos”. Disse humanos de uma forma que sugeria que você estava falando de algo externo a você, de um grupo ao qual você não pertence. O que... o que exatamente você quer dizer com isso?

– Hm? – Os olhos dela caíram sobre ele de forma levemente curiosa, como se ela imaginasse que a resposta para isso era óbvia. Depois disso um pouco de humor pareceu cair sobre seu semblante, como se achasse graça em tudo aquilo. – Heh, isso é.... um pouco engraçado, de certa forma. Eu tomei você como um humano esperto, e considerando tudo o que já aconteceu aqui, imaginei que você já teria compreendido o que eu sou. Embora... talvez você já tenha uma boa ideia, hm? Talvez você apenas queira uma confirmação. Bem, qualquer que seja o caso, isso não importa de verdade. Manter essa forma por tanto tempo já está começando a me incomodar, de qualquer maneira. Contemple, humano, a minha verdadeira forma.

Aquelas palavras fizeram com que Trevor instintivamente começasse a prestar ainda mais atenção naquela mulher, e isso só fez aumentar ainda mais quando o corpo dela começou a brilhar. Inicialmente o que veio dela foi um brilho fraco, quase que imperceptível, mas foi questão de uma fração de segundos para que esse brilho ganhasse força. Num instante ele se tornou tão forte que Trevor quase não foi capaz de continuar olhando para ela, conseguindo suportar a força do brilho apenas graças a estar acostumado com isso devido às suas próprias habilidades.

Naquele momento, sentiu imensamente grato a essa característica da sua luz. Diante dos seus olhos, o corpo da mulher começou a se alterar. Ainda encoberto por aquele brilho dourado, não podia dizer que via ela bem, mas via o suficiente para saber que ela estava encolhendo drasticamente, bem como que outras características de seu rosto mudavam. Suas orelhas cresceram, seu nariz e boca pareceram fundirem-se em um só e avançaram para frente, seus olhos encolheram e se tornaram completamente redondos e.... o que parecia ser pelo começou a surgir por cima do que deveria ser a pele da mulher, dando uma aparência mais animalesca a ela. Mas... o que diabos está acontecendo aqui?!

– Meu nome é Jane, humano – declarou a voz da mulher, mas o que falava certamente não era uma mulher. Sentada a frente dele, falando normalmente e olhando para o seu rosto, estava o que parecia não ser nada menos do que uma cachorrinha, uma cadela poodle branca que, em uma patinha, parecia segurar algum tipo de bengala em miniatura. – Eu... bom, eu diria que sou uma cachorra, mas creio que isso não é mais verdade. Agora, eu sou um dos experimentos do Rei Louco.

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Seus dentes estavam rangendo violentamente um no outro, tamanha a fúria e frustração que sentia em suas veias naquele momento. Malditos sejam. Malditos sejam eles! Irei mata-los! Com toda certeza, eu irei fazer esses miseráveis em pedaços! Estava acostumada com pessoas bolando planos para tentar lhe matar, essa era uma parte comum da vida de uma mercenária (principalmente de uma mercenária tão famosa e poderosa como ela), mas aquilo... não estava acostumada de forma alguma com aquilo! Essa foi perto, perto demais. Um pouco de atraso – só um pouquinho – e eu teria sido feita em pedaços por isso! Francamente, havia tido muita sorte em conseguir usar suas habilidades no último momento para envolver-se em um casulo de cabelos; graças a resistência que conseguia dar aos seus cabelos e as propriedades que atribuía a eles, havia sido capaz de sair viva daquele ataque.

O que não significa, no entanto, que havia saído ilesa.

Sangue pingava do que antes era seu braço esquerdo. Seus cabelos haviam conseguido lhe proteger da maior parte da explosão, mas havia tido de usar seus poderes muito rápido... o que significava que não conseguiu cobrir todo o seu corpo a tempo. O lado esquerdo dele, em particular, era uma das áreas que não havia conseguido cobrir completamente a tempo, e isso era algo que ficava claro pelo simples fato de quão incrivelmente destruído ele estava. Sua perna e torso eram os que estavam em melhor estado, simplesmente feridos pelas explosões. Os ferimentos doíam bastante e certamente iriam deixar uma cicatriz, mas a dor deles era algo que ela podia suportar sem muita dificuldade, ignorar como se não existisse. Não podia fazer o mesmo para os outros. Metade de seu braço simplesmente não explodia mais – o destino que iria cair sobre o seu corpo antes caindo completamente sobre ele, reduzindo a vários pedaços de carne queimada espalhados por todos os cantos. O que havia sobrado do braço também não havia ficado em uma condição muito melhor; queimada pelas chamas da explosão, sua pele estava preta e quebradiça como se fosse carvão. Isso fazia com que não tivesse de se preocupar com uma possível hemorragia, mas considerando a gravidade dos ferimentos, não estava convencida de que isso era algo bom. E por fim, havia seu rosto. Era ele que realmente lhe irritava. Um de seus olhos havia sido cegado pela explosão – não podia ver o que exatamente havia acontecido com ele por motivos óbvios, mas pelo que sentia, chutava que as chamas tivessem queimado a pele ao redor e que algum estilhaço de metal tivesse perfurado a órbita em si. Sua bochecha estava, pelo que ela podia sentir com sua mão, em uma condição similar à do que restava de seu braço esquerdo; sentia a pele deformada sob seus dedos, sentia-a frágil e quebradiça, e mais do que isso, sentia uma dor imensa e absoluta. Filhos da puta... eu irei matá-los! EU DEFINITIVAMENTE IREI MATÁ-LOS!

A única coisa mais forte do que a dor que sentia, era a raiva que ardia em seu coração.

Seu único olho ergueu-se novamente, fitando tanto Syd quanto Marco. Ambos os homens pareciam embasbacados pelo fato de ter sobrevivido ao pequeno plano deles, e em qualquer outra situação, isso seria o suficiente para fazer com que ela gargalhasse. Vocês não têm tempo para ficarem embasbacados, seus idiotas! Girou sua cabeça, movendo seus longos cabelos em uma volta ao redor de seu corpo, uma preparação para o ataque que iria lançar a seguir. Fiquem parados aí se quiserem! Isso apenas vai facilitar as coisas para mim!

Mas antes que pudesse concluir seu ataque, palavras ecoaram em seus ouvidos.

INVOCAÇÃO DE NÍVEL QUATRO: GRANDE GORILA DOURADO!

A voz da mulher que dizia aquilo era uma que ela conhecia bem, e isso por si só já seria o suficiente para chamar sua atenção normalmente, mas ainda teve algo mais que fez com que se virasse para trás, algo muito maior e mais perigoso para ela do que qualquer mulher. Sentiu subitamente uma quantia imensa de energia atrás dela, uma energia que chegava a ser comparável à de uma grande besta lendária, uma energia absurda, extremamente poderosa.

Uma energia a qual alguém como Flavent simplesmente não podia resistir.

Quando olhou para trás, viu exatamente o que a voz havia anunciado. Surgido magicamente atrás dela havia aparecido o que ela só podia descrever como um gigantesco gorila dourado, maior do que dois prédios empilhados um sobre o outro, reluzindo como se fosse feito de ouro puro. Esse brilho era algo que Flavent conhecia, e isso só fez com que o olho restante dela se arregalasse ainda mais. Isso... impossível! Essa é uma Besta Divina, uma das grandes bestas que os demônios liberaram durante a Grande Guerra para se oporem aos Deuses! Bestas Divinas, Bestas Demoníacas... todas essas deviam ter sido extintas! Aquilo não fazia sentido. Não devia de forma alguma ter uma besta como aquela diante dela. Isso é impossível! De onde surgiu isso?! Como isso sobreviveu à Guerra?! Como essa maldita mulher teve forças o suficiente para invocar algo assim?!

Não obteve resposta alguma para suas perguntas, nem tampouco uma chance de refletir em cima delas. Com um poderoso rugido que foi quase que ensurdecedor o gorila ergueu um de seus grandes punhos dourados aos céus, fazendo com que esse substituísse o sol por um instante, antes que ele caísse em direção a ela com toda força. Assistiu aquilo completamente aterrorizada; apesar de seu tamanho (ou, talvez, exatamente devido a ele), o punho do gorila caia com uma velocidade incrível, movendo-se com uma força e rapidez tão grande que podia ver com o olho nu o movimento das correntes de ar, sendo bruscamente movimentadas por aquele ataque, capazes de fazer com que grande pedaço de concreto fossem arremessados longe à medida que ele se aproximava. Eu não tenho como bloquear algo assim, compreendeu rapidamente ela, de olhos arregalados. Esse ataque é forte demais. Eu não posso me defender dele. Esse punho... ele vai me esmagar! Eu tenho que fugir!

Em geral, mantinha sempre um andar elegante. Mesmo em meio a uma batalha, sua consciência sempre mantinha em mente que seus movimentos deveriam trazer certas características. Eles deviam ser sensuais, deviam ser graciosos, deviam ser belos e elegantes, movimentos que deixassem bem clara a sua suprema beleza e feminidade superior. Mas ali, esqueceu-se de tudo isso. Correu não de forma graciosa ou sensual, mas sim de forma desesperada e amedrontada, a corrida de alguém que sabe que está correndo por sua própria vida. Em seu rosto reinava apenas o medo, o mais absoluto terror. Uma de suas pernas não estava no melhor dos estados, mas nem isso lhe impediu de saltar tão alto quanto podia quando viu que apenas a velocidade de uma corrida não seria o suficiente para lhe levar pra longe o bastante a tempo. Fez isso apenas um momento antes que o punho do gorila acertasse o chão.

O estrondo da destruição causada por ele foi o som mais alto que já ouviu em toda a sua vida. Sentiu como se seu tímpano pudesse estourar devido a isso, e com seu único olho ela viu o mundo ao seu redor de distorcer como se tivesse borrado, tudo graças a nada mais do que a agitação que aquele golpe havia causado nas correntes de ar. Como isso é possível?! Como pôde uma única criatura ter tanto poder assim? Como pode algo assim existir?! Aquilo era completamente absurdo. Não tinha chance. Não tinha absolutamente chance nenhuma de esperar ser capaz de derrotar algo assim. Maldição...

­MALDIÇÃO! – O grito da praga veio de sua garganta com toda a força, trazendo consigo todo o ódio e fúria indescritíveis que sentia daqueles mercenários, daqueles reles mercenários estúpidos que ousavam se opor a ela, a Imperatriz de Prata! – Eu vou matar todos vocês, seus malditos bostas! Estão me ouvindo?! Vocês vão todos direto pro inferno, miseráveis!

Não! – A voz que gritou aquilo foi uma que se erguia em oposição a ela, a mesma voz que havia ouvido quando o gorila foi invocado. Ouvi-la novamente fez com que seus dentes se fechassem com tanta força que sentiu-os trincar em sua boca. Como?! COMO?! Como essa puta está viva?! Eu acertei ela! Eu vi ela cair! Ela devia estar morta! Ela tem de estar morta!

Mas ela não estava. Ela não estava, e ela era um perigo. Como um fantasma ou algum tipo de espírito vingativo, a imagem de uma mulher ensanguentada com feridas visíveis por todo o seu corpo corria em alta velocidade em direção a Flavent, ignorando todos os seus ferimentos como se eles não existissem. As explosões de Syd e o ataque do gorila haviam feito com que todo o ambiente que lhe cercasse fosse transformado em um monte de ruínas dominadas pelo caos, mas isso não parecia ser problema algum para a mercenária. Avançando com seu torso meio avançado e inclinado para frente de forma a ter uma corrida mais aerodinâmica, Blair se movia como uma águia, avançando por entre seções de concreto destruído e pulando por cima de pedaços de entulho como se eles não fossem nada. Mesmo enquanto ela avançava Flavent conseguia ver os olhos dela; olhos sérios, focados unicamente nela, como se ela fosse sua única preocupação.

– Não seremos nós que iremos para o inferno! – Declarou bravamente Blair, pulando em cima de um pedaço de destroços que estava a sua frente, mas sem permanecer nem um instante sobre ele. Ela apenas o usou como apoio, como suporte para apoiar seu pé por tempo o suficiente para que ela tornasse a saltar, dessa vez em direção à Flavent. – Quem irá para o inferno aqui... – afirmou ela, sacando rapidamente uma adaga de seu cinturão e segurando-a firmemente em suas mãos – será você, VADIA DE PRATA!

Tentou reagir a isso. Tentou mover seus cabelos, ou colocar seu braço no caminho como uma espécie de escudo, mas não teve tempo de fazer isso.

Antes que pudesse se defender, a adaga de Blair atravessou seu último olho restante.

=====

Fechou sua mão com força, esmagando o coração ainda pulsante entre suas garras. Que irônico. O coração é o órgão mais importante para o corpo humano, o responsável para que tenhamos algum sangue em nossas veias. E ainda assim ele é um órgão tão pequeno, uma coisinha tão fraca e frágil. Os filósofos da vida possivelmente seriam capazes de elaborar longos textos imbecis e entediantes sobre aquilo, mas para Robert, tudo o que importava era que conseguia achar alguma graça naquilo.

Moveu levemente seus olhos, deixando-os repousar sobre o corpo de seu oponente. Durante sua batalha, ele e Denis haviam se afastado bastante dos outros dois mercenários – algo que provavelmente foi feito propositalmente pelo segundo para que eles não acabassem sendo envolvidos na luta – e, de certa forma, isso foi algo até que bem benéfico para Robert. Odiava interrupções em suas lutas, e não ter mais de lidar com nenhuma foi algo que permitiu que ele tomasse seu tempo e punisse devidamente o estúpido mercenário que foi burro o suficiente para tentar enfrenta-lo. Ele sobreviveu antes quando eu rasguei sua garganta. Quero ver se ele sobrevive a isso, também. Afim de certificar-se de que seu oponente ficaria morto dessa vez, Robert assegurou-se de arrancar a carne de seu peito e abrir sua caixa torácica como se fosse uma janela. Fez um verdadeiro buraco que consumia todo o peito de seu oponente e depois usou desse buraco para arrancar o coração dele. E agora eu esmaguei esse coração nas minhas mãos, só para assegurar-me de que ele é o coração desse cara mesmo. Se ele conseguir tornar a se levantar depois disso, terei de bater palmas para ele.

Começou a mover-se, almejando ir até os outros dois e acabar com eles também, mas lembrou-se de algo importante assim que deu o primeiro passo, e isso fez com que ele parasse um pouco para olhar para o horizonte. Um pouco ao longe – na região da área na qual havia deixado Flavent e Hadvar antes – brilhava agora um enorme gorila feito do que parecia ser puro ouro, uma visão tão surreal e incrível que assumiria imediatamente que devia se tratar de uma estátua ou coisa do tipo, não fossem pelos movimentos da criatura. Oh... isso deve ser o quê? Uma invocação? Supunha que esse devia ser o caso, o que explicava um pouco as coisas, apesar de não as tornar menos interessante. A não ser que tenha mais algum deles que desconheço, o único invocador que vi por aqui era aquela mulher que enfrentou Neshka. Ela é capaz de invocar algo assim? Interessante. Talvez devesse convidar ela para integrar seu grupo; ela parecia ser capaz e sensata, e iria precisar de muitos membros novos depois daquilo. Ulrock, o idiota, foi e acabou morto por aquele fracote chamado Syd. Neshka é fraca demais, e Hadvar é problemático demais. Flavent não tem nenhum desses problemas pelo que me lembro, mas francamente, ela é simplesmente um pé no saco com essa sua arrogância e sua mania de se achar a última bolacha do pacote. Já que vou matar os outros, talvez eu devesse aproveitar e matar ela também. Isso é, considerando que eles não fossem mortos por aquele gorila.

Muito bem, está decidido então, pensou ele, um sorriso nascendo em seu rosto. Vou convidar a invocadora para o meu grupo. O resto parece ser fraco, então não tenho interesse neles. Agora, a pergunta é: eu mato os inimigos direto primeiro junto do Hadvar e da Flavent para depois dar cabo deles, ou devo me aproveitar do fato deles estarem distraído com lutas no momento para me esgueirar por trás e mata-los sorrateiramente? Com sua Aloeiris deveria ser bem capaz de fazer isso. Assassinatos sorrateiros não são lá muito magníficos, mas eles são bem menos problemáticos do que confrontos diretos, e depois de um dia cheio como esse eu poderia facilmente tomar uma ou duas soluções menos problemáticas.

Preparou-se para avançar novamente em relação aquele ponto – esquecendo temporariamente dos companheiros de Denis – mas não chegou a dar um passo. Quando ergueu sua perna, Robert notou algo que fez com que confusão tomasse conta daquele. Aos seus pés – não, ao seu redor – estavam pequenas... fagulhas púrpuras. Coisinhas estranhas que pareciam se tratar de algum tipo de pó ou coisa do tipo, apesar de claramente não serem isso; elas brilhavam, elas pareciam pulsar, e elas pareciam bem instáveis. E elas, também, haviam surgido subitamente, sem que ele tivesse ideia nenhuma de onde vieram. Isso é... o quê?

HMX – sussurrou suavemente uma voz que Robert já conhecia, mas não esperava ouvir nunca mais. Impossível! Eu matei esse cara! Eu certamente o matei dessa vez! – Composto por quatro átomos de Carbono, e oito átomos de Hidrogênio, Nitrogênio e Oxigênio. Ele funde a uma temperatura de 276 a 286 graus Celsius, tendo uma densidade de cerca de 1,91. Ele tem baixa sensibilidade ao choque e à fricção, mas não o subestime por isso. Ele é relativamente estável, mas ao mesmo tempo, ele é também um dos explosivos mais poderosos que o nosso mundo já viu. Tal como é um dos vários explosivos que eu consigo criar artificialmente usando os meus poderes.

Virou-se para trás de uma vez, e o que viu foi exatamente o que pensou que veria. Há alguns metros de distância dele estava Denis, olhando para ele com um sorriso irônico no rosto enquanto acenava com uma mão, seu peito completamente fechado como se nada nunca tivesse acontecido com ele. Isso não é possível! Isso simplesmente não é possível! O que infernos está acontecendo aqui?! Dobrou rapidamente suas pernas, preparado para lançar-se contra seu oponente, mas ele não lhe deu a chance de fazer isso.

Detonação. – Murmurou calmamente o mago, estalando calmamente os dedos de uma de suas mãos, e instantaneamente todo o “pó” que havia visto ao seu redor explodiu de uma única fez, com Robert bem no meio de tudo aquilo.

A explosão que resultou de tudo aquilo foi extraordinária. Quando Denis dizia que aquele “pó” era um dos explosivos mais poderosos do mundo, ele definitivamente não estava exagerando. E pensar que alguém como ele consegue fazer algo como isso... acho que isso prova o que falam. “Não se julga um livro pela capa”. Se tivesse sido atingido por aquele ataque, até mesmo Robert estaria com problemas, sem dúvida alguma.

Felizmente, tinha formas de evitar um golpe como aquele. Sua Aloeiris era uma habilidade que ele normalmente não usava muito em combates, tanto por não ser feita necessariamente para esse tipo de uso quanto porquê ele simplesmente não tinha necessidade de usar tanto poder em uma batalha normalmente, mas fez uma exceção para recorrer a ela naquela situação. A “Viajante das Sombras” me permite entrar nas sombras e na escuridão, acessando uma dimensão paralela à nossa com isso. Uma dimensão na qual eu, obviamente, não posso ser acertado por golpes da dimensão original. Em geral guardava essa habilidade para usar ela como um meio de locomoção rápida entre um ponto a outro ou como uma forma de se infiltrar sorrateiramente em algum lugar (e nem sempre fazia isso, para ser sincero – viajar nas sombras era entediante, e nem sempre podia fazer uma entrada magnífica o suficiente ao emergir delas), mas de tempos em tempos fazia uma exceção em sua pequena regra e utilizava-a também em meio a uma luta.

De qualquer forma, eu tenho de pensar numa forma de lidar com esse oponente, refletiu o Dragão das Sombras, imerso no mar de escuridão, contemplando o mundo “normal” da segurança dele. O que estava vendo de onde estava era apenas a enorme cratera que foi criada pela explosão – uma coisa que, embora fosse de certa forma fascinante, não lhe era muito útil. Por isso começou logo a nadar em meio a escuridão, procurando um ponto que lhe desse uma visão melhor do que estava acontecendo. Esse cara não parece ser realmente forte. Ele possui alguns bons ataques, mas eu consigo evita-los se prestar um pouco de atenção. Isso está longe de ser preocupante de verdade. Mas o fato dele simplesmente não morrer é um tanto quanto problemático. Já havia arrancado sua garganta e esmagado seu coração – tinha certeza absoluta de que não se tratava de uma ilusão ou coisa do tipo em nenhum dos casos, mas não tinha outra resposta além disso para justificar que ele continuasse vivo depois disso. Será que ele é.... um demônio? Não, não, besteira. Demônios não são reais. Não mais, pelo menos. Todo mundo sabe que eles foram extintos durante a Grande Guerra. Mas fora essa hipótese, não conseguia ver uma maneira daquele homem continuar se levantando depois de tudo aquilo, de novo e de novo. Talvez isso possa ser algum tipo de proteção proporcionado por suas habilidades. Talvez ele esteja usando algum tipo de artefato antigo para se proteger. Não sabia qual era o caso, mas qualquer que fosse ele, aquilo era um saco.

Finalmente conseguiu encontra-lo em certo ponto. Aparentemente ele havia se afastado depois de causar a explosão, recuando até alcançar o topo de uma casa consideravelmente distante, observando o estrago dela atentamente, seus olhos correndo de uma forma que deixava claro que ele estava procurando por Robert. Aí está. Hum, essa agora seria uma boa chance para lançar um ataque-surpresa contra ele. Talvez a habilidade do homem – qualquer que fosse ela – era algo que funcionava apenas caso ele estivesse ciente do que estava acontecendo. Essa certamente era uma hipótese, e se fosse esse o caso, então conseguiria mata-lo com um ataque desses. Mas... não. Não, melhor não fazer isso. Isso seria apenas uma aposta, afinal de contas, e não me sinto confortável em confiar numa aposta dessas. Mas se não fosse aquilo, então o que faria? Não podia ficar simplesmente parado ali. E também não posso demorar muito, pelo que parece. O Mundo da Escuridão era, obviamente, um lugar no qual você não podia respirar. Simplesmente não existia ar ali. Para ficar nessa dimensão, Robert tinha de segurar sua respiração, e tinha um limite de tempo pelo qual podia fazer algo assim. Não posso me demorar aqui. Tenho de tomar uma decisão, e rápido. A questão é: o que eu faço?

Foi então que uma ideia veio a sua mente.

Eu poderia simplesmente perguntar a ele, foi o que lhe ocorreu. Em qualquer situação normal, se alguém soubesse que algo aparentemente tão estúpido estava sequer passando pela sua mente, seria chamado de louco por todos ao seu redor. Mas aquilo podia muito bem funcionar ali. Ao menos parte do objetivo desse homem aqui é me segurar. Ou melhor, risque isso, é óbvio que todo o objetivo dele é me segurar. Já estavam lutando a tempo o suficiente para que a diferença de poderes de um para o outro ficasse bem clara. Denis certamente não era muito esperto para estar lhe enfrentando até agora, mas ele devia ser ao menos esperto o suficiente para entender que não derrotaria Robert nunca com seus poderes, não importa o quanto insistisse em tentar. O objetivo real dele não deve se basear numa esperança tão tola quanto de me derrotar, mas sim em me manter ocupado. Talvez ele esperasse que Breath e Zetsuko usassem desse tempo para escaparem antes que Robert pudesse voltar seu foco novamente a eles, ou talvez ele esperasse que seus aliados pudessem derrotar os aliados de Robert nesse tempo e viessem lhe apoiar em sua batalha. Qualquer que seja o caso, nenhuma dessas alternativas representa um verdadeiro perigo para mim. Mas, mais importante que isso, se ele quer me atrasar, ele possui um motivo para me revelar a fonte dessa sua habilidade. Se aquilo fosse algo com o qual ele não pudesse interferir – o que tinha uma boa chance de ser o caso – então faria sentido que ele revelasse essas informações para ganhar algum tempo.

Bom, vamos lá, não custa nada tentar.

– Eu tenho que admitir, essa sua habilidade de ficar se recuperando cada vez que eu lhe mato é um verdadeiro pé no saco, meu amigo. – Disse calmamente Robert, emergindo das sombras por detrás de Denis, a alguns metros de distância do homem; o suficiente para que o mercenário se julgasse seguro e não se preocupasse em se afastar de imediato. Se decepcionou um pouco; esperava que sua aparição súbita fosse assustar seu oponente, fazer com que ele desse um grande salto ou coisa do tipo, mas Denis apenas permaneceu em silêncio e voltou-se para ele com um olhar calmo e sério, como se já esperasse por aquilo. Não deixou que sua decepção lhe detivesse, no entanto. – Afinal, como funciona isso? Eu definitivamente esmaguei o seu coração agora há pouco. Não importa o quão bom você possa ser nisso, magia de cura nenhuma seria capaz de te salvar de algo assim. Em outras palavras, você deve ter alguma outra habilidade, uma bem mais poderosa do que a mera capacidade de curar uma ferida ou outra, para ter sobrevivido a isso.

As sobrancelhas de Denis se ergueram ao ouvir aquilo. Ele não esperava por uma pergunta como essa, mas isso não era algo pelo qual pudesse lhe censurar. Ele tentou esconder aquilo, mas os olhos atentos e a mente esperta de Robert sabia que, naquele exato momento, ele debatia mentalmente se devia ou não responder a essa pergunta. Vamos lá, vamos lá, o que você guarda de mim? Uma magia? Aloeiris? Artefato? Talvez uma benção, ou quem sabe uma maldição! Não importa. Qualquer que seja a carta na sua manga, ela não via fazer diferença. Independentemente do que você faça, seu corpo vai apodrecer até o fim do dia, mago mercenário.

– Minha Aloeiris se chama “Condicional” – disse subitamente Denis, conquistando a atenção de Robert com aquilo e fazendo com que um sorriso se abrisse no rosto dele. – Ela tem um funcionamento bem simples. A habilidade que ela me dá é basicamente a de estabelecer uma condição para que algo aconteça. Se eu estabelecer uma condicional de que, por exemplo, uma pessoa tem que bater palmas três vezes antes de levantar da cama, essa pessoa então vai ter de bater palmas três vezes, do contrário ela simplesmente não será capaz de se levantar da cama. Da mesma forma, se eu estabelecer uma condicional de que uma pessoa precisa correr dois quilômetros por dia, então ela terá de correr dois quilômetros por dia, mesmo que essa não seja a sua vontade. Essas condições funcionam como uma espécie de “lei”, uma lei absoluta que ninguém pode quebrar, indiferente de quão forte essa pessoa seja ou quão exóticas sejam as suas habilidades. Claro, eu encontro certas limitações nessa habilidade, a mais notável e importante delas sendo que só posso manter uma condição ativa por vez; caso eu queira estabelecer alguma outra condição eu preciso primeiro desfazer a condição anterior para então criar a nova. Isso é algo bem negativo e que me dá vários problemas, acredite em mim..., mas as minhas habilidades compensam por isso.

Ah, certamente que compensam, refletiu o Dragão das Sombras, uma de suas sobrancelhas erguida em admiração a essas habilidades. Uma Aloeiris que estabelece condições para determinadas coisas... esse me parece um poder muito útil, ainda que ele tenha limitações. Essa é certamente uma das chamadas “Aloeiris dos Deuses”, não é? Aloeiris que te concedem, de alguma forma, habilidades e poderes que podem alterar o funcionamento do próprio mundo, poderes capazes de mexer com o plano da realidade e mudar ou dobrar as regras do jogo conforme a sua vontade. Já havia ouvido falarem um bocado de Aloeiris dessas, mas era a primeira vez que via alguém que possuía uma. Esse tipo de Aloeiris é dito como o mais poderoso... e uma Aloeiris tão forte assim foi parar justo nas mãos de um fracote como esse? O mundo certamente era irônico.

O que Denis havia dito certamente era bem interessante, mas não se deixou enganar apenas por aquilo. Apesar dele ter lhe explicado um pouco suas habilidades, ainda não compreendia como exatamente aquilo estava lhe curando. Será que ele estabeleceu uma condição que faz com que o corpo dele se recupere imediatamente ao sofrer uma determinada quantia de dano? Não, não, impossível. Se fosse esse o caso, ele certamente teria se recuperado quando eu arranquei seu coração antes, não esperado até que eu o esmagasse. Além do quê, não conhecia nenhuma habilidade – Aloeiris ou não – que perdurava depois da morte de seu usuário. Ele morreu, tenho certeza absoluta disso. Sendo assim, como ele se curou? Isso não faz sentido.

– Se você está se perguntando o que exatamente fez com que eu me recuperasse – disse Denis, sorrindo e olhando para Robert como se pudesse ler seus pensamentos –, talvez seja de seu interesse permitir que eu elabore um pouco mais. Você vê, o meu poder é de criar condições para que determinadas coisas aconteçam, e eu sou limitado em certo grau quanto a essas condições. Mas existe algo para o qual eu não tenho limitações, algo muito útil. Eu posso tanto criar uma condição para que algo aconteça como também estabelecer uma condição que, enquanto for “verdadeira”, faz com que algo não aconteça. Em outras palavras, se eu estabelecer uma condição como, por exemplo, “enquanto você comer um quilo de alimento diariamente”, eu posso atribui-la de forma a fazer com que algo não aconteça enquanto você estiver satisfazendo essa condição, como por exemplo estabelecer essa condição de forma que, enquanto você comer um quilo de alimento por dia, você não adoeça. Obviamente, esse é apenas um simples exemplo bobo do que posso fazer com o meu poder. Um verdadeiro exemplo das dimensões da minha habilidade seria a condição que está ativa nesse exato momento. – Os olhos de Denis olharam de forma inquisitiva para Robert ao dizer aquilo, como se ele esperasse que o homem completasse por ele. Aparentemente ele já devia ter sido capaz de compreender qual exatamente era essa condição, mas não lhe ocorria nada que pudesse justificar o que estava acontecendo. Vendo isso, não demorou para que o próprio Denis se explicasse. – Nesse exato momento, a condição que está ativa é a seguinte: “enquanto eu tiver um motivo para viver”. Essa condição está atribuída a “minha morte”. Sabe o que isso significa, não sabe? Isso significa que, enquanto eu tiver um motivo para viver, eu não posso morrer.

Seus olhos se arregalaram um pouco ao ouvir aquilo. Espera aí, espera aí, sério mesmo? Quando havia ouvido o homem dizer antes que ele tinha algumas limitações em suas habilidades havia imaginado que essa seria exatamente uma das limitações dele. Eu pensei que ele não poderia estabelecer condições que entrassem conflito direto com as leis naturais do mundo, mas aparentemente eles não estavam brincando mesmo quando disseram que essas habilidades dobram as regras do jogo.

– Você deve ser capaz de entender agora o que aconteceu antes, não é, Líder do S.O.M.B.R.A.? – Gracejou Denis, cheio de si. – De certa forma, você me matou. Em ambos aqueles momentos. Só que isso... bem, digamos que isso não “colou”. Eu posso morrer pelas leis naturais, mas ao mesmo tempo, eu não posso morrer pela condição que estabeleci. Sendo assim, quando eu “morro”, a minha habilidade é ativada, e ao ser confirmado que a condição que estabeleci para que isso não acontecesse está sendo cumprida, o meu corpo se regenera completamente instantaneamente de forma a impedir que eu morra. É por isso que, por exemplo, eu só me recuperei antes depois que você tinha me “matado”. Isso não é uma habilidade de cura ou coisa do tipo, mas sim imortalidade em sua forma mais simplificada. Enquanto minha condição estiver sendo cumprida, eu sou literalmente “Imorredouro”.

Seus dedos se flexionaram ao ouvir aquilo, seu sorriso tornando-se amarelo. Entendo... então é assim que isso funciona, não é? Devo admitir... isso não é algo muito fácil de se lidar. Se aquela era uma habilidade capaz de dobrar as próprias leis da natureza, então ela era algo forte demais para que pudesse simplesmente anulá-la. Não que eu tenha alguma forma de fazer isso mesmo se esse não fosse o caso, de qualquer forma. Precisava pensar em uma forma de lidar com ela, alguma maneira de contornar essa “condição” e conseguir colocar de vez aquele homem cinco palmos debaixo da terra.

– Deixe-me ver se eu entendi bem... então quer dizer que, enquanto você tiver alguma razão para continuar vivo, você não pode morrer? – Perguntou retoricamente Robert. – E o que, afinal de contas, define essa “razão de viver”? Seria algum tipo de condição secundária pré-estabelecida? Uma coisa de “vontade do mundo”? Ou seria isso algo definido por você, também?

– A última alternativa – respondeu Denis sem hesitação, aparentemente sem temer o que Robert pudesse fazer sobre isso... o que fazia sentido, considerando que estava tendo dificuldades em pensar no que exatamente podia fazer contra aquilo. – Embora... eu devo dizer que está mais para ser uma mistura entre a terceira e a primeira, com maior foco na terceira. A “razão de viver” é algo que vem de mim, definida por mim, mas não é algo consciente ou algo pelo qual eu tenho controle absoluto. Eu não posso, por exemplo, tentar fixar em minha mente a ideia de que eu devo viver até determinado dia ou coisa do tipo. A razão de viver é definida por mim, mas ela não vem de algo como o meu pensamento ou sequer da minha vontade. Ela vem direto do meu coração, dos desejos mais profundos e honestos do meu coração. Então, eu não posso me induzir a ter algo como minha razão de viver; o que quer que seja isso, ela deve ser honesta e verdadeira, deve ser algo que eu realmente aprecio, que tem algum verdadeiro valor para mim.

Fascinante, pensou o Dragão das Sombras, rolando os olhos diante de um discurso tão meloso. Bom, isso já não me é muito útil. Talvez seja bom para mim saber que ele não pode simplesmente fazer com que a sua “razão de viver” seja um motivo aleatório qualquer, mas isso não me ajuda muito se eu não posso lidar com a situação que tenho em minhas mãos. Não sabia qual era a “razão de viver” daquele homem, nem tampouco achava que ele iria lhe dar uma informação como essa. Bom, vamos ver. O que poderia ser a razão de viver dele? E como exatamente eu poderia usar isso, o que quer que isso seja, ao meu favor?

Essas foram as perguntas que passaram por sua mente durante alguns momentos enquanto mantinha seus olhos sobre Denis, atento a qualquer movimento que o mercenário pudesse fazer. Por algum tempo não teve resposta para nenhuma dessas perguntas, mas então... então, subitamente, obteve uma resposta para ambas de uma vez, e não pode conter um sorriso quando isso aconteceu.

Denis era um homem esperto. Já havia imaginado isso antes, mas obteve a confirmação quando ele aparentemente rapidamente se deu conta do que estava acontecendo e não desperdiçou tempo em lançar algumas de suas pequenas bolinhas explosivas contra Robert.

Sabia que aquelas bolinhas não eram problema algum para alguém do seu nível – elas provavelmente tratavam-se apenas de um ataque rápido que almejava mais quebrar a sua trilha de raciocínio do que feri-lo em primeiro lugar – mas mesmo assim se deu ao trabalho de correr e evita-las, não por teme-las, mas porquê aquilo servia aos seus planos. Ah, tão simples! Um plano tão simples! Como eu não pensei nisso antes? Pelo que Denis havia dito, ele só se recuperava quando “morria”, pois era então que sua habilidade se ativava. Se isso é realmente verdade, então ele não poderá se recuperar de nenhum dano que eu fizer a ele desde que isso não o mate, certo?

Era uma lógica, realmente, muito simples.

Seus olhos correram por entre os escombros. O Salão Cinzento estava bem destruído e a batalha contra os mercenários não estava fazendo favor nenhum a cidade, o que significava que alguém podia facilmente achar pedaços de concreto, madeira e ferro se olhasse por aí. Era exatamente isso que estava procurando, e não demorou para que achasse o que queria. Em meio aos entulhos de uma casa destruída Robert avistou uma longa barra de ferro – suja e velha, sim, mas mais do que boa o suficiente para servir ao seu propósito. Denis não havia parado de lhe atacar por um minuto enquanto se movia, mas com a sua velocidade superior isso não era problema nenhum. Fez seu caminho até a barra sem problemas, e com uma mão retirou-a dos escombros.

O que veio a seguir foi tão simples quanto rápido. Usando de seus poderes, entrou dentro das sombras, não só para ocultar sua presença quanto também para permitir que fizesse seu avanço sem ter de lidar com obstáculos como escombros e ataques, o que significava que podia se aproximar de seu oponente ainda mais rápido. Dessa vez ele não perdeu tempo tentando pensar em algum plano de ataque ou coisa do tipo; uma vez dentro das sombras Robert apenas focou-se em se mover tão rapidamente quanto possível para trás de Denis. Emergiu por detrás do mercenário como se estivesse saltando para fora de um rio, já movendo sua perna em seu ataque. Denis ainda tentou reagir, mas ele era lento e era tarde demais; aproveitando-se do fato de estar em meio ao ar, Robert pisou com força nas costas de Denis, empurrando o mercenário para baixo com sua força superior até que ele batesse de cara no chão. Assim que isso aconteceu ele seguiu para a parte mais crucial de seu plano; quebrou a barra de ferro em suas mãos, partindo-a em dois pedaços menores, e sem perder tempo perfurou as costas de ambas as mãos de Denis com esses pedaços como se eles fossem um par de estacas, cravando-as ao chão e prendendo seu oponente aonde estavam.

A seguir o que ele fez foi saltar tranquilamente das costas de Denis, indo para frente do idiota. Uma parte de sua mente – a mais instintiva, supunha ele – sussurrava para que quebrasse o crânio do tolo e tentasse ver se ele podia se regenerar uma vez que não tivesse mais cabeça, mas silenciou ela ao lembrar-se de como seu adversário havia se reerguido mesmo depois de ter arrancado e esmagado o seu coração. Outra parte da sua mente – essa a mais racional – lhe dizia que devia usar a chance que tinha agora e ir logo cumprir seu objetivo, mas acabou não dando ouvidos a essa também. Era verdade, a lógica dizia que você devia minimizar ao máximo as chances de que seu oponente pudesse fazer algo contra você, mas não podia simplesmente ir embora dali depois de algo assim. Qual a graça de derrotar alguém se você não pode humilhar essa pessoa depois, nem um pouquinho? A maioria dos mercenários mais velhos provavelmente diria que aquilo era algum tipo de tolice da juventude se vissem o que estava prestes a fazer, mas Robert era mais do que bom o bastante para compensar certas tolices.

– Isso dói, Denis? Por favor, me diga que sim. Isso perde bastante da graça se você não estiver agonizando de dor – zombou ele com um sorriso maldoso, aproximando do mercenário e se agachando a frente dele. Tinha de admitir, ele era um tanto quanto durão; era óbvio que algo assim devia doer bastante, mas Denis mordia firmemente os seus próprios dentes para não deixar que um grito de dor viesse de sua garganta, fazendo isso com tanta força que conseguia até mesmo ver um filete vermelho de sangue escorrer do meio deles. – Apesar de que, suponho que você já experimentou dores bem piores que essa, não é? A dor de ter o peito quebrado, a dor de ter o coração arrancado, a dor de ter a garganta rasgada... todas essas devem ser piores do que simplesmente ter suas mãos perfuradas, hm? Quero dizer, pelo que qualquer um sabe, essas são algumas das dores supremas que alguém pode ter! .... Ao menos, entre as dores físicas. No entanto, você sabe, existem outras dores além disso. Dores que não fazem nada ao seu corpo, mas parecem rasgar sua alma. Dores psicológicas e emocionais, dores capazes de criar traumas que duram a vida toda em pessoas. Eu me pergunto, Robert... será que a dor de perder pessoas que você ama consegue ser pior do que todas essas dores?

Quando disse aquelas palavras ele esperava uma reação dramática por parte de Denis. Esperava que ele parecesse inicialmente confuso e que seus olhos fossem se arregalando a medida que ele fosse compreendendo do que estava falando, até que sua expressão se tornasse uma de completo desespero e incredulidade. Não foi isso que teve. Os olhos de Denis lhe encaravam de forma firme e séria. Era claro pelo que via que ele já compreendia qual era o seu ponto, e devido a isso o ódio ficava bem claro nos olhos dele. Não era exatamente o que tinha em mente, mas mesmo assim conseguia ser ainda mais satisfatório do que o que havia imaginado. Ótimo, ótimo. Essa é uma expressão excelente. Como um mercenário de elite, Robert era rico. Sendo rico, ele já havia provado dos maiores prazeres desse mundo. Havia experimentado dos mais deliciosos pratos, saboreado os mais deliciosos vinhos, passado noites com as mais belas mulheres. Mas mesmo com tudo isso, o maior prazer que ele conhecia ainda era algo bem simples. Para mim, não existe nada melhor do que ver alguém me encarando com um ódio fervente, sem ser capaz de fazer nada contra mim.

– Ah, você é um daqueles que compreende rápido as coisas, não é? Bom. Mas, mesmo assim, deixe-me dizer o que irei fazer, só para deixar isso bem claro. – Aproximou um pouco seu rosto, olhando dentro dos olhos do mercenário com uma expressão de puro escárnio, um sorriso irônico reluzindo em seus lábios. – Eu irei matar aqueles seus companheiros, Breath e Zetsuko. Afinal de contas, são eles a sua “razão de viver”, não é? Considerando a forma como você foi protetor deles, o que fez para mantê-los seguros de mim, seria estranho se não fosse esse o caso. Então irei mata-los agora, e assim que eu terminar o serviço trarei os cadáveres deles para você, sim? Não se preocupe; depois que eu quebrar toda a sua vontade de viver, irei mandar você para junto deles.

Disse isso e levantou-se logo em seguida, sorridente. Denis não fez nada, e dessa vez isso foi uma decepção. Queria vê-lo se debatendo loucamente, tentando livrar-se das barras para poder avançar contra ele, mas supunha que o homem sabia que era esse o seu desejo e exatamente por isso se recusava a mostrar reação. Bom, tanto faz. Duvido que ele continue a não exibir reação depois que eu trazer os corpos retalhados de seus coleguinhas nos ombros.

Virou-se e começou a andar, o sorriso ainda estampado em seu rosto... mas não deu três passos.

Subitamente toda a sua postura relaxada se agitou, sua guarda se erguendo por mero instinto quando sentiu que algo se aproximava. Virou seu corpo rapidamente na direção daquilo, apenas para ser recebido por um chute forte desferido por dois grandes pés que lhe acertaram direto no rosto, trazendo uma força tão medonha que sentiu como se sua cara estivesse afundando para dentro. Tentou firmar sua base no chão, mas não teve chance de resistir a algo assim; foi jogado para trás com força, acertando a parede de uma casa próxima com suas costas e quebrando-a em pedaços com a força do impacto, caindo do lado de dentro dessa com seu corpo dolorido. Filho... FILHO DA PUTA! Fazia muito tempo desde a última vez que havia sido atingido por um golpe como aquele, e isso não era algo que ele apreciava. Ergueu seu torso rapidamente para ver quem havia sido o miserável ousado o suficiente para fazer algo assim, e foi então que se surpreendeu.

À sua frente, meio ajoelhada no chão depois de ter desferido aquele golpe, trazendo um de seus animalescos sorrisos no rosto e com seus cabelos longos balançando ao seu redor como se tivessem vida própria, estava Ylessa Farcry, uma das poucas pessoas no mundo da qual Robert tinha medo.

– Hahahahaha, quem diria! – A gargalhada dela ressoou por toda aquela seção da cidade. Ylessa podia ser uma mulher, mas você nunca imaginaria isso pela forma como ela agia, pela forma como ela ria e bebia e xingava como um marinheiro. – Eu fiquei toda excitada quando ouvi que esse lugar estava sendo atacado, toda animada com a possibilidade de chutar algumas bundas depois de tanto tempo na seca, e o que encontro aqui é justamente você! Robert, o Bostinha! Haha, eu francamente não sei se xingo a minha sorte ou rio da ironia do destino!

– Pelo que parece, você já está fazendo um deles – comentou uma voz diferente, masculina. Inicialmente não conseguiu dizer quem estava falando ou de onde a voz vinha, e isso fez com que ficasse temeroso por um instante, antes que um homem que ele imediatamente compreendeu como sendo o dono daquela voz aparecesse; um homem de pele bronzeada e volumosos cabelos prateados desajeitados, vestido em uma armadura negra que deixava claro que ele se tratava de um dos cavaleiros do Salão. – Apesar de que, com toda honestidade, você ri toda hora. Sério, eu nem estou sendo exagerado aqui. Você pode ser chamada de “Besta Rubra”, mas “a Hiena” cai igualmente bem.

– É, bem, você pode beijar a minha bunda branca e ver se eu me importo com uma merda dessas Senjur – retrucou Ylessa de imediato, lançando um olhar para o cavaleiro que parecia até um pouco divertido por um momento, antes de voltar seu foco à Robert. – De qualquer forma, não se intrometa, ouviu? Parece que esse é o último que resta dos oponentes. Uma refeição pobre e podre, mas melhor do que nada.

Assim que ela disse isso Robert pode ver suas pernas dobrarem-se, uma indicação clara de que ela estava prestes a avançar com tudo contra ele. Não teve de pensar duas vezes quando viu aquilo; ativou sua habilidade, enfiou-se em meio as suas sombras e disparou para longe dali tão rápido quanto pode. Ah, não, não me venha com uma merda dessas! Isso não estava no acordo! Havia aceitado uma missão de Balak, sim, mas supostamente sua missão deveria ser somente sequestrar um cavaleiro e levá-lo para o líder do Olho Vermelho. Ela não incluía enfrentar a maldita Ylessa numa luta mano-a-mano.

Não conseguiu avançar muito longe, entretanto. Enquanto estava em meio as sombras ele deveria ser impossível de se notar, muito menos de se tocar, mas de alguma forma sentiu com se alguma coisa lhe segurasse em meio as sombras e lhe puxasse para cima. Contra a sua vontade ele foi arrancado de seu mundo particular e lançado de volta ao mundo real, jogado em direção ao sol que brilhava no topo do mundo. Assustou-se com isso, naturalmente, mas ainda manteve alto controle o suficiente para conseguir girar em meio ao ar e aterrissar seguramente no chão.

E foi então que ouviu aquela voz.

– Desculpe por isso, mas eu não posso deixar que você vá embora.

A voz que disse isso foi a de uma mulher; uma voz calma e suave e delicada, o tipo de voz que você esperaria de uma dama da nobreza ou no mínimo de uma diplomata, mas ao mesmo tempo trazendo um certo tom de pureza e inocência que simplesmente não faria sentido em mulheres em posições como essas. O som dessa voz fez com que o rosto de Robert se erguesse e fosse rapidamente em busca dela, e não demorou para encontrar quem falava.

Ela era uma mulher ou uma garota – francamente, era difícil dizer da distância que estava, mas era certamente era jovem, dificilmente tendo mais de vinte anos. Ela tinha cabelos loiros, longos e lisos, com algumas mechas negras que se destacavam em meio a eles. O sorriso que ela trazia no rosto passava a impressão de ser algo sempre presente nela, uma parte do seu ser, algo natural, tal como os olhos fechados que ela tinha enquanto sorria pareciam naturais. Ela vestia-se com vestes leves e nobres; um kimono preto era o que cobria seu corpo, com algumas rosas douradas destacando-se em meio a ele de forma harmoniosa. E ao lado dessa mulher, como se fosse seu guardião, se encontrava um homem que parecia bem mais intimidador. Um sujeito estranho com longos cabelos selvagens castanhos jogados totalmente para trás, bem como com um par de chifres similares aos de um touro que pareciam sair do meio desses cabelos. Seu rosto era sério e sereno, adornado por um cavanhaque elegante que dava um ar maduro a ele, e por baixo do manto leve negro que cobria a maior parte de seu corpo, Robert podia ver uma armadura escura. Um cavaleiro? Outro? Tch... o Olho Vermelho definitivamente não fez um bom trabalho em matar esses caras. Eram eles os seus oponentes? Uma garota sorridente e um cavaleiro? Bom, bem melhor do que enfrentar Ylessa.

– Foram vocês que me arrancaram das sombras, não é? – Perguntou retoricamente Robert, estalando seus dedos. Não posso demorar muito aqui, do contrário aquela mulher vai me alcançar. Devo acabar logo com esses dois e seguir em frente. Quando eles se distraírem, ataco. – Foi um bom feito, esse. Nunca imaginei que alguém conseguiria fazer algo contra mim enquanto ali.

– Isso prova que você não é muito esperto! – Comentou alegremente a mulher, sorrindo como se não notasse que aquilo era um insulto, ou como se não se importasse com isso. – Se você consegue acessar um lugar, então outras pessoas podem fazer o mesmo. Isso é lógico, não concorda?

Seus dentes rangeram em fúria ao ouvir aquilo. Ora, sua vadia... quem você pensa que é?! Sua vontade naquele momento se tornou apenas avançar e arrancar a cabeça daquela puta loira, mas conseguiu se controlar; tinha um plano de ação, e não podia desviar-se dele.

– Kyanna – disse subitamente o homem chifrudo que estava ao lado dela, sem nunca tirar os olhos de Robert, sempre cauteloso. – Esse homem parece ser um dos inimigos que acabaram de atacar o Salão. Não deveríamos lidar com ele de uma vez?

– Calma. Não precisa ter pressa, Maoh – retrucou ela, sem nunca deixar de sorrir, virando-se em direção ao seu companheiro. – Nós temos de esperar por Kas-

Não a deixou terminar sua frase. No momento que viu ela virar-se para Maoh ele viu sua chance, e não estava disposto a desperdiçar uma oportunidade como essa, principalmente considerando que ela havia lhe irritado. Tola amadora, você morre agora! Saltou em direção a mulher com toda a sua força, usando de seus conhecimentos e de suas habilidades para fazer com que sua mão assumisse uma forma similar a da garra de um dragão. Ela e o homem estavam no telhado do que parecia ser um dos maiores prédios remanescentes do Salão, o que estabelecia uma boa distância entre eles, mas isso não importava em nada para Robert. Você com certeza não tem uma habilidade como a do Denis. Quero ver se você continua viva depois que eu quebrar seu crânio!

Esse foi o seu pensamento, mas apesar disso ele nunca conseguiu alcança-la. Chegou perto, muito perto, quase o suficiente para sentir a pele dela em seus dedos... mas então os olhos da mulher se abriram subitamente, fixos unicamente em Robert, e ele compreendeu de imediato que só havia conseguido avançar tanto porque ela havia deixado.

Uma força monstruosa lhe jogou direto para o chão num instante, e ainda mais do que isso. Sentiu uma pressão indescritível empurrando seu corpo para baixo, e com seus olhos viu que aquilo não era apenas nele. Toda a área em que ele estava – todo o grande campo de terra e destroços – estava sofrendo com essa pressão sendo exercida por ele, e essa era tão grande que tudo estava afundando para dentro da terra, criando uma única enorme cratera, a cratera na qual ele estava. Mas... que força é essa?! Esse poder... sinto como se um meteoro estivesse caindo sobre mim! Mas... não tem meteoro algum! Isso é... puro poder?!

Ergueu seus olhos com dificuldade, e mesmo no chão como estava, conseguiu ver a mulher. Com dois dedos erguidos e com seus olhos abertos, fixos em Robert, ela mantinha o sorriso no rosto, embora esse agora fizesse com que ela parecesse bem mais ameaçadora do que antes.

– Sinto muito, Robert – disse ela em um tom que sugeria que ela não sentia nada – mas eu sou Kyanna Aoki, a “Varinha de Prata”, parte da Era Dourada. Alguém tão fraco como você... não tem chance nenhuma contra mim.



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES!

*Originalmente eu planejava separar esse capítulo em três capítulos diferentes; um mostrando a conclusão do Hadvar, um mostrando a conclusão da Flavent e um mostrando o Robert. Mas achei que isso faria com que as coisas parecessem repartidas demais e que tal coisa não ficaria legal, e por isso fiz tudo junto.

*Jane foi um caso curioso. Inicialmente, quando tive a ideia de criá-la, eu planejava apenas fazer dela uma poodle. Depois decidi fazer dela uma poodle que pudesse se transformar em humana. Ela deveria participar da batalha contra o S.O.M.B.R.A. antes e ser a responsável por derrotar Neshka, mas não vi um bom momento para introduzi-la nas lutas naquele ponto e acabei descartando a forma humana dela. Como vocês podem ver aqui, eu voltei atrás nessa decisão e decidi lhe inserir na luta contra Hadvar.

*Hadvar foi criado a partir de uma ideia que veio a minha mente depois de ler sobre o ritual viking chamado de "Águia de Sangue". Ironicamente, ele não tem nada a ver com esse ritual (a não ser, claro, que você considere a transformação em Pteradon dele como algo relacionado a isso).

*A revelação da Aloeiris de Denis havia originalmente sido planejada para o capítulo anterior, mas decidi fazê-la nesse capítulo para não alongar as coisas e explicar melhor o funcionamento dela.

*O "Grande Gorila Dourado" que Blair invocou foi baseado na transformação em Buddha do personagem Sengoku, de One Piece. Mais pela parte do dourado.

*Originalmente eu tinha a ideia de fazer Flavent usar seus cabelos para escapar do golpe de Syd e Marco, fazendo com que eles funcionassem como "pernas" similares a de uma aranha, erguendo-a para fora da área da explosão e lhe deixando mais próxima ainda do Gorila, o que faria com que ela fosse esmagada pelo golpe dele. Isso foi alterado quando raciocinei que ela simplesmente não era rápida o suficiente para evitar o ataque naquela situação.

*Originalmente o meu plano era apresentar primeiramente Duke retornando de seu treino aqui, fazendo com que ele se mostrasse entrando desnecessariamente na frente de um ataque de Robert direcionado a Ylessa. Mudei de ideia, no entanto, quando raciocinei que não faria sentido Robert atacar Ylessa considerando a personalidade dele e o quanto ele teme a mulher, e por isso foi Kyanna que apareceu aqui.



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